Sobre pizza e sobre nunca ter feito amigos bebendo leite

O Domingo vai chegando ao fim. Que semana! Na cozinha, penso nos últimos acontecimentos – O caos mundial, por alguns momentos, toma o lugar da poesia, dos contos da menina, dos amores da mulher. Enquanto corto a berinjela, questiono, de mim para mim – O mundo não deveria ser um lugar belo, gentil, doce? E então, uma frase da Lou A. Salomé é sussurrada pela minha memória: “O mundo não lhe será gentil, creia-me. Se quiser ter uma vida, roube-a”. E assim, numa realidade onde as pessoas pertencentes às classes dominantes acordam e, antes mesmo de beber o primeiro gole de café, pensam “O que farei hoje para piorar a vida dos trabalhadores e destruir o meio ambiente?”, percebo que a grande maioria de nós tem feito muito pouco para “roubar” uma vida digna de ser vivida – E o sistema, embora não seja um ser vivo, vem roubando a nossa vida. E assim, vimos o Brasil aumentar descontroladamente o número de mortos pelo vírus, vimos o fechamento das bases do Projeto Tamar, vimos pessoas insanas imitando a Ku Klux Klan em apoio a um louco que ascendeu ao poder nas últimas eleições e, dia após dia, nos leva a um abismo. Nos Estados Unidos, um policial quebrou o pescoço de George Floyd, um homem negro já rendido no chão e o presidente de lá incita a polícia a atirar em manifestantes (O que esperar de quem separa mães e filhos na fronteira, além de barbárie). E não, não é o momento de tomar as ruas, existe um inimigo invisível capaz de dizimar populações inteiras, mas, por outro lado, “se queres ter uma vida, roube-a”, e é isso que essas pessoas que corajosamente estão nas ruas fazem: Tentam roubar de volta o direito a uma vida que o sistema capitalista nos tomou, e eles o fazem por eles e por nós. Meus olhos brilham ao ver a reação do povo norte americano e imagino que, se a cada jovem assassinado pela polícia brasileira, houvesse uma reação idêntica a que ocorre por lá, já não teríamos mais pedra sobre pedra ou já não teríamos mais tantos e tão freqüentes barbáries. Por lá, eles estão lutando e essa luta já se espalhou pela Alemanha. Quando chegará aqui? Outro caso interessante, pensado entre alho, cebola e uvas passas que irão para a panela: Hoje, brasileiros que desejam uma ditadura, foram às ruas e encontraram, nas mesmas ruas, brasileiros que lutam pela democracia – Quem apanhou? Os segundos, infelizmente. Fica aqui, neste texto, minha homenagem a eles e elas, que enfrentaram fascistas, polícia e vírus em nome do bem comum. Se não fosse o vírus, eu estaria nas ruas também, mas essa já é outra história. Por fim, enquanto coloco sobre a massa de pizza esse recheio de berinjela com passas, pedaços de pimentão e de tofu (quem quiser saber a receita da pizza, vá para o outro post, lá tem e o texto é menos indigesto), torço para que esse desgoverno não acabe em uma gigantesca pizza e ao mesmo tempo, lembro que preciso pesquisar sobre a relação entre beber leite e rituais de supremacia branca – Uma das últimas peripécias governamentais foi uma “live” bebendo leite e muitas pessoas dizem que há todo um escroto simbolismo no ato – Na dúvida, meus amigos, vos digo: Ainda bem que nunca fiz amigos bebendo leite!

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O conto do suspiro, da pizza e da saudade.

Ela suspirou – Um suspiro pesado de saudades que lhe ocupavam a alma, o corpo e o coração. As mãos haviam misturado o fermento, sal, açúcar, farinha e água e ela observava as pequenas bolhas se formando na fermentação – Foi se postar ao lado da janela enquanto aguardava o tempo passar – Não se permitia ter impaciências na cozinha e, na medida do possível, tentava ser paciente também na vida. Misturou ao fermento a aveia, a água, o sal, o azeite, linhaça e a farinha de trigo até dar ponto. Abriu a massa e fez um disco grande e vários disquinhos menores. Levou ao forno. Para ela, as receitas, ao longo do tempo, iam se tornando pequenas coleções de memórias – E em especial, aqueles pequenos discos que iam ganhando cor no forno, exalavam, além do aroma de pão fresco, o aroma de encontros especiais na casa dela ao fim da tarde. A espera até que ele chegasse, a troca de olhares intensa, o momento em que, ajoelhada aos pés dele apoiava a cabeça em seus joelhos. O tempo havia passado tão rápido quanto o tempo de tirar os disquinhos do forno, e, no entanto, tais memórias já estavam próximas de completar dois anos. Passou molho de tomate no disco maior e colocou brócolis e couve-flor refogados, pedacinhos de cebola, tomate e pimentão. Regou com azeite e orégano e colocou no forno. Ela sorria, lembrando o sorriso sexy dele, as mãos atrevidas, o aroma da pele, o sabor do beijo, a sensação de estar protegida em um abraço – Ele gostava daquela massa de pizza, mas entre todos os recheios que ela deixava prontos nos potinhos para que montassem juntos suas próprias pizzas, ele jamais escolheria uma opção vegana com brócolis. De tantas saudades que as pessoas acumulam talvez a saudade de cozinhar seja a mais sutil e ao mesmo tempo, uma das mais melancólicas – Afinal, cozinhar, mais do que alimentar o corpo, constrói afetos, lembranças, histórias. E a menina sabia disso, pois, uma das tantas meninas/mulheres que trazia como parte de si mesma já lhe havia segredado que, poesia e amor se fazem nos olhares, no papel, no toque de dois corpos e nas alquimias sutis de uma cozinha. Assim, naquela noite fria, ela resgatou memórias, degustou sonhos e ousou ter esperança de que, se escrevesse em seu diário o que lembrava e o que sentia, o tempo passaria mais rápido e ela poderia novamente mergulhar naqueles olhos profundos encontrando lá dentro toda a imensidão de seus desejos e sentimentos.

Cyrano de Bergerac – Edmond Rostand

O segundo livro do #DesafioLiterário2020 #Maio é, na verdade, uma peça de teatro escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand. A edição que tenho em mãos foi traduzida por Ferreira Gullar e encenada pela primeira vez no Brasil em 1985, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. A obra é uma comédia que retrata a história de Cyrano de Bergerac, um soldado e poeta francês que, apaixonado pela prima Roxana, não tem coragem de declarar seu amor por ela e acaba ajudando-a a casar-se com Cristiano, pelo qual a moça nutria uma paixão, escrevendo as cartas com que o rapaz fez a corte a ela. O enredo pode parecer pouco interessante em um primeiro exame, porém, em uma breve pesquisa, algumas curiosidades tornam a leitura um pouco melhor. A primeira é que, Cyrano de Bergerac não é uma personagem ficcional, e sim um escritor Francês que viveu entre 1619 e 1655, entrou para o exército, duelou inúmeras vezes (muitas delas em conseqüência das freqüentes provocações recebidas devido ao seu nariz grande) e escreveu livros de sucesso na época – sendo ele o primeiro autor a imaginar uma viagem espacial. Cyrano morreu pobre e doente, não tendo se recuperado completamente de um ferimento na cabeça causado por uma viga que o atingiu num acidente. Diferente do que narra a peça, não há evidências de que o autor tenha escrito cartas para a prima se passando por Cristiano – Esse sim apenas uma personagem ficcional criada por Rostand.

Outro dado interessante, sobre a peça teatral original: Edmond Rostand escreve o texto em versos alexandrinos (dodecassílabos), no que não foi seguido por Ferreira Gullar, que, ao traduzir, utilizou apenas versos decassílabos e rimas livres, mais adequadas ao nosso idioma segundo o tradutor.

A leitura e posterior pesquisa despertaram interesse pela leitura das obras de Cyrano, História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e História Cômica dos Estados e Impérios do Sol, publicados em 1657 e 1662, respectivamente (infelizmente, até o presente momento não os encontrei para venda ou download), ou seja, a personagem da história acabou despertando mais interesse do que a obra de Rostand em si e, para sanar essa injustiça literária, o próximo parágrafo apresenta alguns dados e curiosidades sobre ele.

Edmond Rostand nasceu em Marselha no ano de 1868, filho do jornalista e poeta Eugène Rostand, ganhando aos 19 anos um prêmio na Academia de Marselha por seu ensaio Dois Romancistas de provence, Honoré d’Urfé e Émile Zola. Embora sua primeira peça teatral tenha fracassado, Edmond persiste e produz uma obra relativamente vasta, composta por peças teatrais e poesia e, embora em sua biografia resumida existam relatos de outras peças marcadas pelo fracasso, o mesmo não se pode dizer da peça Cyrano de Bergerac, que alcançou grande sucesso, contabilizando em 1913 a milésima apresentação. Suas poesias também foram bem acolhidas pela crítica, sendo inclusive um livro de poemas sobre a Primeira Guerra Mundial – Le Vol de la Marseillaise – sua última obra escrita, antes de contrair a gripe espanhola e falecer em 1918. Para quem quiser se aprofundar mais, indico o artigo Literatura, teatro e Cinema em Cyrano de Bergerac: Um diálogo interartístico” que trata da interação entre teatro, literatura e cinema. Outra indicação interessante é o artigo Viagem à Lua: Utopia, viagem imaginária e o mundo de ponta cabeça em Cyrano de Bergerac, onde são explorados os significados literários da viagem à lua. Quem deseja saber um pouco mais, porém não deseja ler um artigo longo, a reportagem da BBC, O homem que imaginou naves espaciais em 1657 também é interessante.

Sobre Edmond Rostand, não encontrei até o momento artigos complementares para compartilhar por aqui, e, numa rápida busca, encontrei seu último livro à venda pela “bagatela” de R$162,72, o que, com todo o respeito, o coloca fora do alcance da maioria dos leitores (ainda mais se considerando a publicação em idioma original, ou seja, francês).

Os livros indicados no #DesafioLiterário2020 #Maio estão neste post , e o primeiro livro lido no mês de Maio está neste post.

O jogo e as lições da semana.

Duas mulheres, um baralho e um hábito retomado com o início da quarentena: Jogar buraco. Jogo uma carta na mesa e ela diz: Vai jogar isso mesmo? A resposta arranca risos: Quer que eu faça o que? Sente em cima da carta igual o Maia está sentado em cima dos pedidos de Impeachment? Rimos. Nesta semana, aprendemos que não é difícil comparar o governo atual a uma conversa de boteco – Na mesa onde se deveriam discutir soluções para a grande crise sanitária que se abate sobre o país, uma horda de engravatados sisudos senta suas bundas e deixa a conversa correr solta – Entre palavrões, discutem-se as hemorroidas presidenciais e a utilidade da pandemia para mudar leis ambientais sem “os chatos da imprensa”. Pelas ruas, os tais cidadão de bem seguem empunhando suas bandeiras verdes – e – amarelas em defesa do indefensável. O palavrão que a um jovem daria o rótulo de vagabundo mal-educado e poderia até mesmo custar um emprego, na boca suja do abjeto ser, é apenas vocabulário comum – Não importa a eles o ambiente, não importa a eles todo o discurso genocida que acompanha os palavrões. Não choca ao “cidadão de bem” nem mesmo um ministro admitir que não gosta de determinados grupos étnicos.  Também aprendemos que é pra ficar em casa, mas isso não impede uma bala perdida de encontrar rapidamente seu caminho dentro da carne de mais um jovem negro. Mas é o Brasil, povo alegre! Verde e amarelo: O verde sendo devorado pelas madeireiras, pela mineração, pela agropecuária e o amarelo se acumulando nos bolsos imundos de tão poucos homens inescrupulosos. Uma nação dizimada por gafanhotos moralistas, os tais cristãos de bem, para os quais a propriedade está acima da vida, o lucro está acima da vida e o “amai-vos uns aos outro” só vale se o outro for de igual pensamento e torna-se  facilmente “armai-vos contra os outros”. Enquanto isso, valas comuns engolem pequenos universos com suas histórias de luta.

Maratona de Maio, dia 07 – O melhor livro que você tem na sua estante

Seria injusto escolher “o melhor livro”, afinal, como definir um rol de características que façam do livro melhor que outro? Tenho uma imensa dificuldade em eleger preferidos – Livros, pessoas, filmes, músicas, comidas – Algumas vezes cito um, outras vezes outro, não dá pra definir. Mas o fato é: Eu realmente gostei de participar dessa maratona de Maio e não desejando deixar de cumprir o último desafio, me permitirei um pouco de quase prepotência: O melhor livro que tenho na minha estante é… O meu. Ele não é o melhor em qualidade, e apresenta erros decorrentes da falta de uma boa edição, a capa poderia ser melhor, enfim, eu sei que há milhares de livros melhores que o meu, mas, se eu não acho o meu livro especial, quem irá achar? Então, entre tantos, me permito aqui citar o meu “Para um doce cavaleiro” (É cavaleiro mesmo, com esse toque brega do príncipe que chega no cavalo branco) como melhor livro da minha estante, ainda que não seja o melhor livro da estante de mais ninguém. O livro contém poesias melosas, sentimentais, no perfeito estilo “primeira paixão, primeiro fora”, mas a maioria das pessoas que leu disse ter gostado. Enfim, desafio cumprido, estou super curiosa para ler os textos dos outros blogs que também participam e descobrir qual o melhor livro na estante de vocês.

Maratona de Maio, dia 06 – Conte qual livro está na sua estante a espera de leitura

Ele tem uma capa preta, dura. Livro escocês, publicado em 1820 é considerado o primeiro romance histórico do romantismo. Escrito por Walter Scott, narou a luta entre saxões e normandos e as intrigas para destronar Ricardo Coração de Leão. Pela narrativa até aqui, talvez algumas pessoas já tenham percebido sobre qual livro estou falando, certo? Ainda não? Bom, mais uma dica, em 1952, o livro foi adaptado para a telona. Sim, o livro que está na minha estante à espera de leitura é Ivanhoé. Confesso que não lembro como o volume chegou até minhas mãos, e confesso que até hoje eu não havia parado para pesquisar sobre o assunto, apenas coloquei o livro na estante a espera de uma oportunidade de ler e posteriormente trocar, mas fui adiando por causa de um detalhe que será chocante para muitas pessoas: Capa dura. É linda, mas pesada, deixando o livro desconfortável para posições deitada/sentada sem apoio, e principalmente, tornando quase impossível deixar na bolsa para ler no horário de almoço do trabalho, por exemplo, (Isso considerando o tempo em que não vivemos em quarentena). Como este ano decidi ler mediante sorteios, quem sabe em algum próximo mês chega a vez dele – Afinal, depois de pesquisar para saber o assunto, fiquei um pouco mais curiosa. E vocês? Já leram Ivanhoé?

Maratona de Maio, dia 05: Escolha um livro que se passa em um lugar que gostaria de conhecer.

Há, ao mesmo tempo vários países que eu gostaria de conhecer e uma imensa preguiça de sair do meu lugar para realizar tais viagens – Demandaria tempo, dinheiro e coragem pegar um avião, cruzar os ares e desembarcar na Itália ou Índia de Comer, Rezar, Amar, na França de Cartas de Amor de Paris ou na Rússia de Anna Karerina. Então, nessa postagem resolvi falar sobre um livro que se passa em um país que eu desejo conhecer e que é bem pertinho (Pelo menos fica no mesmo continente): Peru.

O livro “Tia Julia e o escrevinhador”, do peruano Mario Vargas Llosa, é um romance que mistura elementos de autobiografia e elementos de comédia. Preciso confessar que, apesar de gostar muito da escrita de Llosa, ainda não li – Aliás, talvez essa não-leitura seja justamente por apreciar a escrita do autor, afinal, esse ano me propus sair um pouco da zona de conforto lendo o que eu sorteasse e não o que fosse apenas da minha vontade (mesclar gêneros é preciso).

Como não tenho muito que falar sobre o livro, que está na minha estante aguardando a leitura, vou falar um pouco sobre o autor, baseado na biografia dele:

Mario Vargas Llosa nasceu no Peru em 1936, formou-se em jornalismo, é dramaturgo, ensaísta e crítico literário, um dos mais importantes escritores da atualidade, já viveu em Paris e lecionou em universidades norte-americanas e européias. Curiosamente, envolveu-se na política e foi candidato a presidência, perdendo a eleição para Alberto Fujimori. Destacam-se entre suas obras, além de  Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, Elogio da Madrasta e As travessuras da menina má.

Maratona de Maio, dia 4 – Escolha um livro que foi ambientado na sua cidade – país

E eis que, no quarto dia de maratona, encontro dificuldade em cumprir a proposta – Não me recordo, olhando a estante, nenhum livro que se passe em minha cidade atual (São Vicente, litoral paulista), menos ainda recordo algum título que se passe na cidade onde fui criada (Avaré, interior de São Paulo), resta-me falar então sobre um livro ambientado na cidade de nascimento, onde vivi pouquíssimo tempo e para onde viajo vez ou outra. Mas, acreditem, não tive vontade. Em lugar disso, decidi falar um pouco sobre um livro que se passa no Brasil e que já foi meu pesadelo pessoal, mas hoje entendo como fundamental – O Cortiço, do autor Aluísio de Azevedo. O motivo da escolha é simples: Há outros clássicos que se passam no Brasil, certamente – Senhora, Lucíola, O Guarani, Iracema, O gaúcho. Entretanto, essa obra de Azevedo, retrata uma realidade do Rio de Janeiro no século XIX que não apenas persiste como se ampliou, alastrando-se pelo país todo: A realidade da miséria, do abismo social, de uma população a quem tudo falta, mas que, ainda assim, consegue encontrar divertimento nas coisas simples da vida, iludindo a falta de perspectiva com cachaça e samba. Pensar o Brasil é pensar numa colcha de retalhos humana – Aqui, há gentes de todo o mundo, de diversos costumes, religiões, culturas e isso, além das nossas paisagens naturais, fazem o nosso país ser tão grande e tão alegre. Entretanto, talvez algumas vezes (muitas vezes) tanta alegria, atrapalhe. Sinto que não encaramos a vida com a seriedade que ela merece, comemoramos mais uma partida de futebol do que uma descoberta científica. Produzimos “memes” padrão exportação e desdenhamos nossos artistas, escritores, compositores. Discutimos a fundo o reality show do início do ano, e passamos meses intermináveis sem observar a política nacional e internacional – E o resultado? É esse que observamos – Um país em franco desgoverno, onde alguns velam mais de 17 mil mortos enquanto outros fazem festas ou se impacientam pela ausência de academias, salões de beleza, futebol (Ainda não vi pessoas sentindo falta das bibliotecas, livrarias, espaços de cultura). Nosso povo das comunidades tem tanto a nos mostrar em sua diversidade de cultura e arte, isso é certo e longe de mim desdenhar dessa cultura que cresce na quebrada – Não desejo ser elitista, valorizando apenas a arte produzida por uma camada da população que teve acesso a todo um mundo de conhecimento e estabilidade. Valorizo sim a arte de quem está na base da nossa sociedade: O trabalhador periférico, que vê seus filhos mortos por doença ou por polícia. Valorizo, mas pergunto: Quando essa massa de pessoas irá perceber sua importância? Quando a união que existe para festejar sabe-se lá o que tanto se festeja nesse país (talvez o fato de estar mais um dia vivo), irá ceder lugar a uma união por condições dignas de vida? Eu vejo essa união nascer em alguns projetos, mas ainda parece uma chama tão tênue, sufocada pela neblina caótica que se abate sobre o país, que só resta aguardar, refletir nesses paralelos que a literatura proporciona e esperar que, daqui a cem, cento e cinqüenta anos, a obra “O Cortiço”, dos tempos antigos, bem como a literatura periférica de hoje não seja uma atualidade e sim a lembrança de um tempo difícil para o país.

Maratona de Maio, dia 03 – Conte sua idade através dos livros de sua estante

Contar a minha idade através dos livros da minha estante é uma tarefa complicada por tratar-se de algo que nunca pensei fazer. Sou um pouco ansiosa em relação ao passar do tempo, sempre carregando aquela sensação de que algo está ficando para trás, não sei explicar… Da mesma forma, não sei muito bem como iniciar este texto acredito que, a melhor forma de falar a minha idade através dos livros da estante é (tentar) falar os títulos que mais me marcaram no decorrer dos anos… Faço um apontamento aqui: Não tenho mais os meus primeiros livros e não tenho todos os meus livros favoritos, então, falarei dos livros que tenho aqui, dando dicas sobre a idade em que os li. Adianto que tenho apenas vagas lembranças da infância, então haverá anos em que essa “linha do tempo literária” parecerá tortuosa, além disso, fui criança de biblioteca e, posteriormente, descobri as trocas de livros, então alguns volumes não ficam muito tempo por aqui.

Aos 09 anos, passou na minha escola um vendedor de livros, quem tem mais de trinta anos deve se lembrar dessas pessoas que entravam na escola, mostravam um livro e mandavam um bilhetinho pros responsáveis, com valores e formas de pagamento. O livro da vez era um dicionário, o Dicionário Brasileiro Globo, completo, com ilustrações do corpo humano, explicações de gramática, listas de países e capitais. Pedi que minha mãe me desse como um presente de aniversário e ganhei apesar de fazer anos em novembro e o presente ser solicitado bem no início do ano.

No ano seguinte O Mundo de Sofia – Um livro marcante por seu volume de páginas que me impressionava. Lembro de ser uma leitura demorada, um pouco confusa, que me obrigava vez ou outra a parar, anotar coisas, buscar significados no dicionário ou na enciclopédia que havia na casa da minha avó.

Faço uma pausa aqui para comentar que, embora gostasse muito de estudar, fui uma criança atrasada na escola – Como fazia aniversário no final do ano, não permitiram que minha mãe me matriculasse no primeiro ano aos 06, tive que iniciar com 07 anos completos e, justamente neste ano, nos mudamos de Avaré para São Paulo, o que me causou uma tremenda alergia e inflamação na garganta (ah… o ar de São Paulo…) e, como resultado, fiquei fora da escola e só fui fazer o primeiro ano com 08 anos, em Santos. Aos 9, voltei para Avaré com a minha mãe. E assim com quase 11 anos, na terceira série, li A moreninha e Amor de Salvação (Asseguro que aquele dicionário teve muita utilidade). E então, me encontrei naquele fevereiro de 1998 diante de uma professora perplexa que me pedia uma redação sobre “como foram suas férias” e recebeu um pequeno calhamaço com comentários sobre detalhes de cada livro que eu havia lido (a maioria, Monteiro Lobato). Na metade do ano, retorno das férias julinas, a mesma redação temática e, como resposta, minhas impressões – infantilmente cruas – Sobre a leitura de “O Guarani”. Eu, criança, na entendia porque o índio falava e se comportava como um homem da civilização – O autor mentia? Os documentários na TV cultura não mostravam indígenas parecidos com aquele. Lembro da “bronca” que minha mãe (novamente) recebeu da professora – Já não bastava eu ter ficado fora da escola, ainda precisava me deixar ler “aquele tipo de literatura”?

Não me lembro muito bem dos livros lidos no quinto ano, lembro que fiz uma prova e “pulei” o sexto ano, caindo direto na sétima série, no ano 2000, foi o ano em que, pela primeira vez um livro me marcou pelo fracasso: Uma professora pediu que cada aluno lesse um livro e fizesse um pequeno resumo – Lembro a minha felicidade, pois foi a primeira vez que uma leitura havia sido solicitada – Caprichei com Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco), primeiro livro que me fez derramar lágrimas, e a professora, feliz e surpresa com o resumo que apresentei, solicitou que no bimestre seguinte eu apresentasse um resumo de “O cortiço” – Não houve o que me fizesse conseguir ler, por algum motivo, o livro não “falava” comigo! Acabei resumindo Iracema, que também a deixou feliz, mas fiquei com o gostinho da decepção. Foi também no ano 2000 que comecei a matar aulas, indo para a biblioteca municipal para ler – E dos inúmeros livros que conheci por lá (e amei), hoje só tenho na estante Se Houver Amanhã, A Ira dos Anjos e Um Estranho no Espelho (Sidney Sheldon), O Primo Basílio, A Relíquia e Senhora. Em 2001 conheci Harry Potter, sei que houve outros livros, mas que eu me lembre, nenhum que ainda esteja aqui na estante.

O ano de 2002 foi meu último ano no ensino regular – Eu já não conseguia lidar com a escola, tive vários problemas de convivência, não com outros alunos, pois eu havia finalmente encontrado “a minha turma”, mas com a coordenação e um ou outro professor que não conseguia entender que, a aluna que gosta de estudar pode ser também a aluna que usa boné, desenha “grafite” na contra capa do caderno e joga truco com os meninos no intervalo. Lembro de ler, passar minhas lições a limpo, estudar utilizando apostilas de cursinhos pré vestibular que havia ganhado, mas não lembro nenhum título que hoje esteja na minha estante e tenha sido objeto de especial admiração naquele ano. Em 2003, eu e minha mãe voltamos para Santos e eu fiquei fora do colégio, aguardando o ano seguinte para voltar. Em 2004 fui fazer o segundo ano do Ensino Médio numa escola para jovens e adultos que trabalhava por eliminação de matéria – Foi a melhor coisa naquele momento da minha vida, pois eu recebia os temas, estudava e ia para a escola em horários agendados para tirar dúvidas e fazer provas, algumas disciplinas eram feitas através das tele-aulas (telecurso 2000) e, uma curiosidade, minha mãe voltou a estudar e concluiu o Ensino Médio junto comigo. Por todo esse vai e volta, percebo em entre 2003 e 2009 houve muitas leituras, mas poucas das quais eu me lembre – A única que me marcou bastante foi O Cortiço, que li nessa época, tirando o gostinho de derrota que havia ficado comigo desde a sétima série. Outro fator foi o primeiro emprego, que me deixou mais distante das bibliotecas e a vontade de prestar vestibular me fizeram permanecer muito mais tempo relendo e revisando coisas do que visitando novos horizontes.

 No início do ano em que completei 23 anos, consegui entrar na faculdade e como conseqüência, fui sugada para um mundo de leituras técnicas, apesar disso, consegui voltar a freqüentar a biblioteca. Nesse ano, caiu em minhas mãos um livro que eu já havia lido, por alto e sem muito interesse, na infância: O amante de Lady Chatterley.

Em 2010, eu encontrei no terminal de ônibus o livro “A Ópera do Malandro”. Havia um carimbo da prefeitura de Praia Grande explicando tratar-se de um projeto de incentivo à leitura e que o livro deveria ser lido e deixado de volta no estande do terminal. Gostei tanto que não tive coragem de devolver, mas levei três ou quatro dos meus para lá, afinal, o projeto precisa crescer e ampliar, certo?

Em 2013, faltando três anos para me tornar “balzaquiana”, decidi me permitir voltar à adolescência e ler Diários do Vampiro – Li em PDF e hoje mantenho a coleção por afeto.

Em 2016, meses após me filiar ao PSOL, ganhei de um camarada o livro “A história da riqueza do homem”. No mesmo ano, li Lua de Papel e Septum, além da poesia de T.S Eliot (gratidão Lunna, seus livros sempre irão me acompanhar e ser citados entre meus favoritos).

É engraçado como guardei tão bem os anos dos livros marcantes da infância, mas acabei perdendo a noção do tempo na adolescência e joguei de vez minha vida no coração das tempestades na fase adulta, tornando cada vez mais difícil lembrar os livros marcantes. E só agora, de quarentena, consigo perceber, acaba apagando a noção forte que temos do passar dos dias existente no início da vida.

Os livros que marcaram 2017 foram “O Mandarim”, do Eça de Queiroz (Afinal, como eu não conhecia esse livro?) e “Todos os homens são mortais” (Simone de Beauvoir). Eu trabalhava em um escritório e sempre falava com uma colega de trabalho sobre os livros –  Foi a primeira vez que tive uma colega de trabalho quase tão viciada em leituras quanto eu, a única diferença é que ela só gosta dos livros modernos, com romance e sexo e eu, gosto de livros em geral.

Em 2018 os livros que mais gostei foram empréstimos da biblioteca, então, nada a comentar por aqui.

O ano de 2019 me levou a um mergulho no universo infanto juvenil, afinal, trabalho em uma escola né? E tenho que pedir um favor: Não tenham preconceitos com essa literatura! Há muitas histórias deliciosas para se ler, como por exemplo, Ponte para Terabítia da  autora Katherine Paterson. É uma leitura emocionante!

E finalmente, chegamos aos meus (já conseguiram calcular quantos anos?), neste ano de 2020. Dos livros que li até aqui, O Pássaro Pintado foi o que mais me marcou, falei dele aqui no blog pois fez parte do meu desafio literário e me surpreendeu bastante.

Para quem ainda não conseguiu adivinhar a minha idade, vou dar uma última dica: Há um livro na minha estante que foi considerado o livro mais vendido no Brasil no ano em que nasci : “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. Desculpem o texto (enorme), me empolguei contando um pouco sobre minha história através dos livros. Espero que tenham curtido!

Também participam da maratona:

Mariana Gouveia (Blog O outro lado)

Ale Helga (Blog Meus Amores)

Roseli Pedroso (Blog Sacudindo as ideias)

Maratona de Maio, dia 02 – Conte como é a sua estante de livros

Estantes são, em geral, bastante semelhantes, a despeito de algumas inovações na decoração. O que as diferencia é o conteúdo. Não vejo muito o que possa dizer acerca da minha estante atual – Três tijolos no chão, apoiando pedras de ardósia, mais três tijolos sobre essas pedras e mais pedras sobre esses tijolos, mas três tijolos, mais pedras e, um espaço acima, perfuradas na parede, três mãos francesas sustentam uma longa tábua de madeira tratada, e, ainda acima desta, mais três mãos francesas sustentando outra tábua. Como podem ver nenhuma inovação. No canto direito do quarto, pouco acima da altura da minha cabeça, uma prateleira de canto, branca, diferente das outras. Não sou de luxos, gosto de coisas rústicas e muito do que tenho em casa nasceu do improviso – Algumas vezes por falta de dinheiro para decoração, outras tantas por acreditar ser desnecessária a maioria das compras – O meio ambiente agradeceria se fôssemos capazes de diminuir o consumo drasticamente. Mas voltemos aos livros e estantes da minha vida. A primeira prateleira da minha estante, feita de pedras, não contém livros – Uma pequena precaução contra as enchentes que uma ou outra vez pegam minha rua de surpresa e transbordam para dentro de casa. Na segunda prateleira, alguns livros destinados a trocas, um fichário “jeans” com materiais de música e um fichário vermelho onde anoto minhas receitas. A terceira prateleira é inteiramente dedicada aos livros didáticos que, vez ou outra, tomo nas mãos e começo a reler e fazer os exercícios propostos, numa tentativa de manter ativa a memória, o raciocínio matemático e alguns outros conhecimentos adquiridos no ensino médio – Afinal, nunca se sabe quando terei vontade de, novamente, prestar vestibular e iniciar outro curso superior, não é verdade? Na quarta prateleira, repousam alguns livros da coleção “Os Pensadores”, dos quais confesso ter lido menos do que gostaria, alguns livros de auto-ajuda que ganhei de presente e ainda não li, lado a lado com um exemplar de “História da riqueza do homem”, livro que ganhei de presente meses depois de me filiar ao PSOL. Sem cerimônia ou motivo, na mesma prateleira, misturam-se os quatro primeiros livros do Harry Potter, um tratado sobre bruxaria em inglês (um dia eu consigo ler), um exemplar antigo de bem-hur e meus livros nacionais e portugueses, aqueles clássicos cobrados no vestibular que são uma delícia de ler sem a pressão imposta no ensino médio – Guardo, com especial carinho, meus primeiros clássicos, lidos sem que a professora aprovasse, no terceiro/quarto ano: O Guarani (J. Alencar), A Moreninha (Joaquim Manoel Macedo), e Amor de Salvação (Camilo Castelo Branco). Na prateleira de cima, há alguns clássicos internacionais, capas duras, papel amarelo, leitura densa para dias frios, uns tantos livros do Jorge Amado, minha coleção da saga Diários do Vampiro (porque aos 33 anos, entendo que não preciso ser sempre séria e profunda), livros do Sidney Sheldon que marcaram minha adolescência – Não os mesmos exemplares, pois os que eu lia, pertenciam à biblioteca municipal de Avaré – a coleção das Crônicas de Gelo e Fogo, que me pergunto como ler sem sentir os braços doerem, os livros da Lunna Guedes, guardados com carinho dentro de uma capa plástica, deitados sobre os outros, para não danificarem. Alguns livros ficarão por pouco tempo, serão lidos e colocados para troca assim que passar o caos pandêmico que se abateu sobre o mundo. Alguns eu guardo para futuras releituras. Outros ainda me remetem tanto ao prazer infantil da leitura repleta de mundos mágicos, que eu simplesmente guardo pensando nos filhos que (não sei se) um dia terei, imaginando-os leitores ávidos tal como eu mesma, na infância (É, faz tempo, melhor deixar para outro texto esse assunto). Na estante branca, ao meu lado direito, alguns pesados dicionários de língua portuguesa, espanhol, inglês e francês, dentre eles o Dicionário Brasileiro Globo que pedi de presente de aniversário quando completei 9 anos, livros sobre receitas e alimentação saudável da Editora “Seleções Readers Digest” (quem tem mais de 30 deve lembrar que eram adquiridos escolhendo em um catálogo – ignoro se ainda existem). Alguns bichos de pelúcia adornam as prateleiras, uma concha, uma lata de biscoitos decorada onde coloquei papéis com os títulos que desejo ler para sortear mensalmente e estabelecer como escolhidos do meu desafio literário, um par de castanholas penduradas num gancho – trazidas da Espanha pela minha prima e um galinho que muda de cor de acordo com a previsão do tempo (outro item antigo e bonitinho). Essas são, em resumo, minhas prateleiras, meu cantinho favorito da casa, que me trás lembranças de outras prateleiras, outros livros, outros “causos” –  que, quem sabe, eu me anime um dia a contar.

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