[Grimório] O chamado da Deusa e a noite de Samhain

 O chamado da Deusa é irresistível. Anos atrás minha vida estava pouco a pouco se adaptando a ouvir as estações do ano e as energias da lua. A participação no círculo de bruxaria era parte do meu dia-a-dia – e era também um desafio diante de um mundo onde trabalho e estudos sempre acabam se sobrepondo a tudo – até mesmo aos cuidados espirituais mais básicos. Depois de uma mudança de cidade que deu muito errado, acabei me desfazendo da maioria dos meus objetos de altar e me afastando – mas todos os anos a vontade de voltar aos rituais é grande e acaba sendo sobreposta pelas responsabilidades e falta de tempo. E então, neste ano, resolvi finalmente retornar – não ao círculo, por ora, mas ao menos tentar não deixar passar em branco as mudanças do ano, as festividades e celebrações – mesmo que por agora minhas celebrações sejam apenas ligadas à magia de cozinhar alguns pratos especiais ligados às festividades e aos poucos ler mais e voltar a expandir a concentração e a sensibilidade. Um passo de cada vez é melhor que ficar parada, não é verdade? E quando eu começo? Hoje, Sabat de Samhain, a noite mais mágica do ano para nós pagãos.

 “- Mas Darlene, seu blog se chama Devaneios e Poesias, por qual motivo falar sobre Wicca e Paganismo? ’’ Porque eu acredito que algumas ( talvez a maioria) das pessoas que apreciam meus textos, minhas poesias e minhas receitas, gosta também de conhecer um pouquinho do que está por trás de tudo isso: O que inspira os escritos, quem é a autora em seu dia a dia – acredito que quando iniciamos um blog, a maior intenção é compartilhar um pouco do universo que trazemos em nossa alma com outras pessoas que tem em si universos particulares e diferentes – e sem dúvida a Wicca fez e faz parte deste meu universo.

Sobre Samhain:

Dentro da Roda do Ano, a noite de Samhain é uma das mais mágicas – Seu significado é de morte e renascimento, marcando por isso o final e o inicio de um novo ano no calendário dos pagãos que seguem o panteão celta. O Deus-Sol ou Deus Cornífero morre e a Deusa está em entrando em sua fase anciã. É tempo de recolhimento e introspecção. Na noite de Samhain, o véu entre os mundos está aberto, por isso é a noite ideal para honrar os que já partiram; o costume de esculpir máscaras em abóboras colocando uma vela dentro é uma tradição que tem como explicação a necessidade de espantar os maus espíritos que estão circulando livremente nesta noite mágica. Também é uma noite propícia para confeccionar objetos mágicos, amuletos, consagrações e iniciações, além de se dedicar às práticas divinatórias. Os rigores do inverno se aproximam, festeja-se a última colheita, organizando reservas para os dias futuros. Não é uma época propícia para iniciar novos projetos, mas sim para agradecer o que já conseguiu alcançar e deixar para trás tudo que não deu certo. A Deusa já está em sua fase anciã e chora a partida do Deus, mas ao mesmo tempo já trás em seu ventre o embrião da criança da promessa – O Deus Sol que renascerá em Yule, quando a Deusa será novamente mãe, reiniciando todo o ciclo. É sempre útil lembrar que o Samhain é comemorado em 31 de Outubro no hemisfério norte e em 30 de abril no hemisfério sul.

Algumas dicas:

Em casa:

-Desapegue de tudo que não usa mais – aproveite a proximidade do sabat para fazer aquela faxina, doar objetos que não tem mais utilidade.

-Organize a dispensa – Se costuma ter um estoque é hora de verificar as validades para não perder nada e completar o que está faltando.

-Faça uma faxina caprichada e depois utilize um bom incenso de banimento, caminhando por todos os cômodos, tendo em mente que as energias mais pesadas e estagnadas estão sendo varridas para fora.

– Utilize neste período incensos de sálvia, mirra, artemísia, patchouli,hortelã ou alecrim.

– As pedras relacionadas ao Samhain são ônix, obsidiana negra, floco-de-neve, granada, hematita, âmbar, cornalina, turmalina negra. Use-as em sua casa e em acessórios, mantendo-as por perto.

Na cozinha:

Aproveite a energia e prepare uma ceia com ingredientes tradicionais da celebração:, maçã, alho, abóbora, sálvia, hortelã, pêra, alecrim, castanhas, milho e outros grãos, romã, batata, milho, trigo, gengibre. Para beber, água, vinho e suco de uva, romã ou maçã.

Rituais:

– Esculpir uma lanterna na abóbora e colocar na porta de casa

– Trançar uma corda de bruxa: Corda de bruxa é um cordão que liga simboliza o cordão umbilical que nos trás à vida terrestre – é o cordão que nos liga ao Outro Lado. Pode-se usar até três cores para trançar a corda, de acordo com o desejo a ser realizado:

Branca – Harmonia

Vermelho: Afasta os inimigos, ajuda a vencer obstáculos, traz coragem

Laranja: Atrai prosperidade e sucesso

Rosa: Auxilia a vida amorosa

Preto: Proteção, afastar o azar

Verde:Abundância

Amarelo: Atrair saúde e sorte nas finanças

Deve-se usar cordas cortadas no tamanho (altura) do bruxo e trançar mentalizando os pedidos para o próximo ano. Depois de consagrada no altar (se você tiver um), deixe-a em algum lugar da casa para que sempre lembre seus desejos ao vê-la.

– Queima de pedidos:

Escreva em um papel tudo que deseja afastar de sua vida e em outro tudo que deseja atrair. Acenda uma fogueira – de preferência dentro do seu caldeirão – e queime primeiro o com o que deseja afastar – é preciso se concentrar enquanto o papel queima. Em seguida, queime o papel que contém as coisas que deseja atrair – também é importante concentração e gratidão neste momento – coloque folhas de louro no fogo enquanto queima o papel com os pedidos.

Blessed Samhain!

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Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão

Falar sobre a vida e a história de alguém é sempre uma grande responsabilidade – o biógrafo pode muito bem conhecer datas e fatos, mas terá um longo caminho para chegar a conhecer as motivações que levam alguém a traçar seus rumos. Escrever sobre uma mulher como Patrícia Galvão é uma tarefa ainda mais complicada – Pagu foi intensa, buscou incessantemente um motivo ao qual devotar sua vida e encontrou na militância comunista a causa pela qual lutaria.
Paixão Pagu é a autobiografia escrita por Patrícia durante o período em que esteve encarcerada – O livro, publicado anos após o falecimento de Patrícia, é na realidade uma longa carta escrita para o companheiro, narrando sua história desde os tenros anos da juventude. Retomando o parágrafo anterior – Falar sobre a vida de alguém é uma responsabilidade e um desafio enormes – ainda bem que Patrícia encarregou-se de contar a própria história – a complexidade de uma pessoa como ela e também do tempo em que viveu é certamente melhor destrinchada desta forma: A história escrita por quem a sentiu na pele.
É fato que lutar por uma sociedade justa e igualitária é escolher um caminho árduo. Fazer isso nos tempos em que ser comunista levava pessoas à prisão e tortura é heroico. Fazer isso nos citados tempos e sendo mulher era se jogar em meio ao fogo duplo: Perseguida pelo sistema vigente e testada o tempo todo pelos próprios companheiros do Partido Comunista, Patrícia lutou para provar seu valor – por anos abdicou da maternidade e da alegria de ver o filho crescer, dedicando-se unicamente às tarefas da militância, sem nunca encontrar total aceitação dentro do partido, por ser mulher e por ter berço pequeno burguês. Isso traça um recorte historicamente bem interessante – A luta contra o machismo, muito presente em vários setores da esquerda brasileira – não era uma pauta sequer cogitada na época de Patrícia. Tal observação histórica, bem como a própria história, faz da obra uma leitura obrigatória.  O livro é curto, porém visceral e merece uma leitura atenta e crítica no sentido de refletir sobre o passado e comparar com o momento político presente para evitar que os erros de ontem se repitam e mais sangue inocente venha a ser derramado por conta de uma construção social desigual e autoritária.

Opinião:

Conhecer a história da Pagu foi o que posso chamar de “um choque de realidade” – como mulher e principalmente como militante de esquerda, confesso que até o momento não consegui entender de onde ela tirou tanta força. Em alguns instantes cheguei a pensar em abandonar completamente a militância por entender que jamais seria forte como ela foi. A carta de Patrícia emociona, machuca, desestabiliza – Mas depois de muita reflexão e inúmeras tentativas de traçar uma pequena resenha, o desconforto inicial quase insuportável dá lugar a outros pensamentos: Se desde o início da luta pela construção de uma sociedade socialista, contássemos com pessoas como Pagu, estaríamos já vivendo outra realidade. Se por outro lado cada lutadora que se reconhece como “não tão forte” tivesse desistido, estaríamos mergulhados em um caos ainda maior que o atual e muitas guerreiras valorosas teriam tombado sem sequer se darem a chance de descobrir toda a força que tem por não terem se dado essa chance. Eu decidi continuar trilhando o caminho que iniciei há anos atrás – até onde, o destino vai dizer – mas espero poder ver meus futuros filhos crescerem em uma sociedade muito mais justa que a atual.

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Título: Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão

Autora: Patrícia Galvão

País: Brasil

Editora Agir

Passaporte da Leitura: África do Sul

Em Fevereiro postei a resenha do primeiro livro do projeto “Passaporte da Leitura“, a obra Como água para chocolate, da autora mexicana Laura Esquivel. Viajando através da leitura, deixei o México para trás e desembarquei direto na África do Sul, país de origem do livro Desonra. A obra, um achado ocasional durante buscas por novos livros para ler, surpreendeu pela tensão e densidade que o autor conseguiu imprimir a uma história aparentemente comum. Não há romances, não há magia e a poesia passa relativamente e longe das páginas onde impera a linguagem dura e direta – quase tão dura e direta quanto a vida real.

Título: Desonra

Autor: J.M Coetzee

País: África do Sul

Uma leitura bruta, nua e crua – assim pode-se definir Desonra, obra do autor Sul-Africano J.M Coetzee.  

O livro conta a história de David Lurie, um professor universitário divorciado, de meia idade que se envolve com uma jovem aluna e acaba acusado de assédio.

A obra de Coetzee poderia inicialmente ser confundida com uma narrativa semelhante ao famoso romance Lolita, porém poucas páginas após o desfecho do envolvimento do professor Lurie com sua pupila, a história vai tomando um rumo mais introspectivo e sombrio, onde ele, sem perspectivas, decide passar um tempo no campo com a filha, encontrando toda a brutalidade do ambiente rural africano.

Vale ressaltar que a história se passa numa África do Sul pós-apartheid – fato pouco salientado durante a história, porém perceptível na tensão existente entre as personagens.

A leitura não é difícil em termos de vocabulário, porém o ritmo introspectivo e depressivo, ditados o tempo todo pelo personagem principal, e a ausência de ápices românticos ou felizes, para contrastar com o humor sombrio do professor Lurie, acabam fazendo com que o livro possa tornar-se um pouco cansativo em alguns momentos.

Sobre o autor:

J.M Coetzee nasceu na Cidade do Cabo em 1940. Bacharel em língua inglesa e em matemática, o autor chegou a trabalhar como programador de computadores. Recebeu vários prêmios literários, entre eles o prêmio Nobel de Literatura em 2003. Atualmente é professor na Universidade de Adelaide (Austrália). 

Sobre a África do Sul

A África do Sul ou República da Africa do Sul é um país localizado no Extremo Sul da África. O país possui três capitais: Pretória (capital executiva), Cidade do Cabo (Legislativa) e Bloemfontein (capital judiciária) e reconhece 11 idiomas oficiais, sendo os principais o africâner e o inglês sul-africano.

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