Harry Potter e a Pedra Filosofal

Quando lemos um livro pela primeira vez algo mágico acontece: Somos tragados para um novo universo – são muitas informações, acontecimentos, personagens, descrições – tudo a ser memorizado e utilizado para dar sentido ao texto que se desdobra diante do olhar, não é mesmo? Foi assim comigo quando li Harry Potter pela primeira vez – estava no final da oitava série e minha maior diversão era matar aulas e ir até a biblioteca municipal para pegar livros – na época lia dois ou três livros por semana, nas férias esse número subia para pelo menos quatro, era um vício (e ainda é). Como toda adolescente, fiquei encantada! Recentemente, ganhei os quatro primeiros volumes da saga e decidi ler novamente – terminei hoje o primeiro volume, Harry Potter e a Pedra Filosofal e percebi coisas que na época da primeira leitura não haviam me chamado a atenção (Calma! Não vou contar o enredo do livro mesmo acreditando que a maioria das pessoas já leu o livro ou assistiu o filme). Em primeiro lugar – A autora utiliza um bom vocabulário, e quando digo bom, percebo que conhecemos a maioria das palavras, mas algumas são pouco utilizadas no dia a dia – isso amplia o vocabulário. Ela também capricha na narrativa e nos diálogos, fugindo da narração em primeira pessoa – que em geral é um recurso que facilita muito a leitura. J.K. Rowling escreve para crianças e adolescentes, então, eu e você, leitores adultos, podemos achar os livros fáceis – mas será que são tão fáceis para uma criança de oito ou nove anos, principalmente para as acostumadas a um mundo de jogos eletrônicos e pouca leitura? Isso leva ao ponto seguinte: Os livros não são exatamente pequenos – outro ponto para Rowling, que conseguiu criar um mundo novo e escrevê-lo com a complexidade suficiente para manter a atenção de jovens leitores ao redor do mundo sem deixar tudo muito fácil e sem graça, mas sem desestimular a continuação da leitura. Outra sacada interessante: O enredo vai se tornando mais complexo conforme a saga vai avançando – talvez não tenha sido proposital, mas o último livro da saga é mais complexo que o primeiro,e, como os livros foram lançados com uma grande diferença de tempo, acabaram acompanhando o crescimento dos jovens que começaram a ler ainda na infância o primeiro livro. Passadas essas observações técnicas, há outros pontos interessantes: Harry Potter não é apenas a história de um menino órfão criado por tios incompreensivos (e malvados) que descobre ser bruxo. O livro, em suas entrelinhas, trata de temas como amizade, lealdade, morte, preconceito e a importância de se manter os amigos por perto e combater as injustiças – surgem conflitos, algumas brigas (que criança nunca brigou na escola) e nem sempre quem tinha as melhores intenções se livra das penalidades por ter infringido alguma regra – outra lição que levamos para a vida: Nem sempre o que está certo vence, mas o importante é nunca deixar de lutar. Harry, Rony e Hermione são personagens cheias de vida, então é fácil que estas boas lições passem agradavelmente, sem parecer um tedioso discurso do tipo “a vida é assim mesmo”.

Sobre aquele confronto “livro vs filme”: Leiam o livro antes de assistir o filme. O cinema bem que tentou (e em alguns pontos conseguiu) ser fiel, mas há detalhes muito legais no livro que o filme deixou passar – algo completamente esperado, pois para reproduzir fielmente cada detalhe do livro seriam necessárias muitas horas de filme.

Definitivamente, o bruxinho marcou toda uma geração – foi um fenômeno editorial e fez nascerem muitos leitores e leitoras – aquele tipo de livro que, saudosos e já adultos, daremos de presente para filhos, sobrinhos, afilhados – afinal, vamos querer compartilhar com a próxima geração todos os sorrisos e lágrimas, todos os momentos de ódio e tensão, todas as emoções que esta incrível autora britânica nos proporcionou. E você? Já sentiu que ao reler um livro, percebeu detalhes que haviam passado despercebido?

 

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Desafio Literário | O que a vida fez de mim?

Chegar em casa e ver um e-mail da Maria Vitoria, autora do blog Estranhamente me comunicando sobre a publicação de um texto que enviei para um desafio literário que ela está promovendo, me deixou bastante feliz! Estou repostando aqui o texto selecionado e, acima de tudo, convido-os a conhecer o blog Estranhamente, que está repleto de textos e fotos muito bem escritos e cheios de sensibilidade!

ESTRANHAMENTE

O desafio literário está quase chegando ao fim e o que eu aprendi com as leituras adquiridas?

Eu aprendi que por mais que lutemos para sermos diferentes uns dos outros, somos mais semelhantes do que imaginamos. Cada história de vida aqui relatada me leva a algum momento de minha própria história, principalmente este texto da Darlene porque me faz recordar de todos os sonhos e projeções que eu já fiz a mim mesma e nunca se realizaram, mais do que isso até, a satisfação pessoal que eu costuma depositar nas conquistas pessoais que nunca vieram e me deixaram frustrada e infeliz. O maldito sonho de ser alguém na vida e ter o máximo de coisas que a gente puder e ainda dormir serenamente repousando sobre um status que jamais será alcançado. Mas, ainda bem que eu conheci muitos autores novos com ideias revolucionárias, tive alguns ótimos professores de esquerda na…

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Os 11 maiores mistérios do Universo- Reinaldo José Lopes

Há questões que não podem ser respondidas com formulas exatas e certezas inquebráveis – não podem hoje e muito provavelmente, não poderão no futuro. Questionamentos sobre a existência (ou não) de Deus, o início do universo, a vida após a morte, a definição de consciência e o exercício efetivo (ou não) do livre arbítrio, são esmiuçados pelo autor, que utiliza largamente a física, a biologia e a química para embasar suas explicações – sempre de maneira simples, buscando abranger um público amplo que vai de adolescentes curiosos com os mistérios que permeiam a existência humana até adultos que não possuem grandes conhecimentos técnicos, mas buscam conhecer as teorias atuais da ciência, mesmo sabendo que tais descobertas estão em constante modificação. Os 11 maiores mistérios do Universo está longe de ser um livro apropriado para aprofundar conhecimentos sobre os temas tratados, e isso não é em absoluto um defeito – Reinaldo José Lopes criou um livro instigante, que em alguns momentos pode cansar o leitor desacostumado com esse tipo de literatura, a obra é uma excelente dica de presente para jovens ou pessoas que não gostam de romances ou ainda para adultos que desejam conhecer mais sobre a vida e o mundo em que vivemos.

 

 

A hora da estrela – Clarice Lispector

A história de uma moça nordestina de dezenove anos, mal alfabetizada, sozinha no Rio de Janeiro, vivendo uma vida miserável sem perceber sua própria infelicidade (ou os milhares de motivos que teria para ser infeliz). Um enredo que, exposto assim, em palavras resumidas, parece bastante cansativo e desinteressante, tornou-se uma obra prima nas mãos de Clarisse Lispector. Macabeia, a moça desengonçada, sonhadora e pobre, é o retrato talvez um tanto caricato de tantas mulheres vítimas de um sistema social que castiga os mais pobres em detrimento dos mais ricos – ela, assim como muitas, não se vê em condições de lutar por nada melhor. Seus dias são sempre iguais, sem vaidades ou mesmo cuidados com a saúde debilitada desde tenra idade por conta da desnutrição – mas ela sonha seus sonhos de amor e deseja um dia ser uma estrela do cinema – aliás, pintar as unhas de vermelho e ir ao cinema uma vez ao mês é seu único luxo. A história da moça é narrada por um autor que conversa o tempo todo com o leitor – parece que ao ler cada página, encontramos um conhecido que vai contando a história de uma moça que ele conheceu ao andar pela rua – não parece uma obra escrita, e sim uma prosa, uma conversa na mesa de bar, narrada com uso poético das palavras mais simples. De início, talvez “ouçamos” um tanto desinteressados o narrar do autor (que idéia fabulosa da Clarisse essa de criar um autor para a história), mas com o avançar das páginas, passamos a acompanhar com curiosidade o destino da jovem, rindo um pouco de sua falta de jeito com a vida, sua gentileza e seu olhar de esperança. Torcemos e sofremos por ela até o derradeiro momento da história. É uma história tocante pela desigualdade, pela injusta luta de classes onde alguns, de tão oprimidos, não conseguem sequer perceber a necessidade de lutar, de mudar, pois até mesmo o menor dos resquícios de um pensamento crítico lhes foi sistematicamente retirado – foi essa a intenção da autora ao dar vida à Macabeia em suas páginas? Talvez sim, talvez não. Quem sabe? Certamente há por aí algum estudo sobre literatura que aprofunde esta questão, o fato é que neste momento, isso é uma percepção pessoal minha sobre o livro, percepção que buscarei aprofundar em outro texto mais adiante, não hoje, não agora, onde tudo que importa é dizer – leiam! A Hora da Estrela é um livro indicado para vestibulares e é um livro pequeno e agradável em toda a sua dureza, em todas as suas ruas sujas, trânsito e portos, em toda fome e mal-cheiro que suas páginas nos fazem conhecer. Apenas leiam e depois, se quiserem, digam o que acharam da leitura.

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Nick e Norah – Uma noite de amor e música (Rachel Cohn e David Levithan)

Um romance bastante divertido e pouco (muito pouco mesmo) meloso. Esqueça as fórmulas comuns do tipo “mocinho conhece mocinha, se apaixonam, o vilão ou vilã atrapalha tudo, lágrimas e mais lágrimas e no final a força do amor é maior e eles vivem felizes para sempre, com seus três filhos e dois cachorros numa casa de campo” – Os autores desta trama estabeleceram outro foco onde os vilões são as próprias ações e inseguranças típicas de jovens às portas do inicio da vida adulta.

A história se inicia em uma noite de show e termina ao amanhecer e neste período Nick e Norah são confrontados por seus sentimentos e escolhas em uma espécie de jornada de autoconhecimento e amadurecimento. Repleto de citações musicais e momentos engraçados, o livro prende o leitor do início ao final e é uma ótima pedida para presentear adolescentes que precisam de um incentivo para gostar de leitura – com apenas uma possível ressalva: O livro retrata a realidade de jovens que estão saindo da adolescência e por isso retrata uma realidade embalada em bebidas, noites em claro e… Palavrões! Sim, há um uso um tanto freqüente de palavras de baixo calão no livro. Há também referências e insinuações sobre sexo – nada explícito, mas o suficiente para incomodar adultos demasiadamente conservadores.

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(Imagem retirada da internet)

À vida breve e brava (Por Paula D’Albuquerque)

Depois de alguns anos, calcei os sapatos e me arrisquei a dançar novamete. Planta, taco, golpe. Os pés queimavam como fogo. Quantas coisas a gente abandona pelo caminho?
Um senhor se aproxima, tira a boina, com uma expressão bonita de respeito, e passa a observar a dança. Intervalo. Puxamos assunto: com o sotaque carregado, ele conta das saudades . Diz que é da Andaluzia e que também dançava. “Agora já não dá mais, né?” – e ri, apontando as pernas velhas. Cansadas, suponho. Sobre os motivos que o trouxeram da Espanha ele disse ser melhor não mexer nessas lembranças. E terminou dizendo que sente falta da dança todos os dias, que entregou parte importante de sua vida a coisas que não valeram a pena. “Não façam o mesmo”. Não vou fazer. Ou ao menos me esforço. Mas quanta gente não está com as pernas cansadas, mesmo jovens? Isso me incomoda mais que os pés em brasa e martela na cabeça: quantas coisas a gente abandona pelo caminho?
– Puedo seguir el paso sola, pero, y tu? Cuando vienes, mi amor, a bailar? –
Colocou a boina (nesse momento me pareceu que ele tenha ficado meio amuado, engolindo seco. Ou talvez estivesse feliz e seja essa minha mania de roteirizar o drama. Tomara.)
Com um sorriso onde faltavam alguns dentes, levantou o braço e deu 2 palmas.
“Sigam o baile. ¡Olé!”. E saiu.
O poeta está certo: A vida é brevíssima.
Bailemos.

(05/08/2018)

Gratidão Paula D’Albuquerque por me permitir postar esta linda reflexão no meu espaço, mas, principalmente, gratidão por compartilhar teus pensamentos e me fazer lembrar que muitas vezes eu me vejo com “as pernas cansadas” e me fazer refletir sobre as coisas que deixo passar e não deveria!

Grande abraço!

 

 

Ressaca literária: Há limites para a criação artística?

Ontem terminei de ler o pior livro que já conheci na vida – quem me conhece sabe que sempre busco algo positivo para falar, não gosto de criticar o trabalho de outros autores e ainda que a leitura não me agrade sempre termino minhas resenhas incentivando a leitura, mas a obra em questão simplesmente não dá! Tudo começou sexta feira quando fui até a biblioteca municipal e peguei um livro aleatoriamente – um livro francês escrito em 2007, relativamente pequeno e com um título fofinho.  Havia um aviso de tratar-se de conteúdo adulto, então imaginei que houvesse trechos mais apimentados, mas ainda assim, há tantos livros deste gênero hoje que não dei muita atenção e levei o dito cujo para casa. Abro parênteses aqui para dizer que tenho 31 anos, não sou fanática por literatura erótica, mas também não me incomodo se for bem escrita, e neste caso específico desejei ver como um autor francês idoso trataria o tema.

Nas primeiras páginas fiquei incomodada: A história relata a vida de um pai e uma filha de 14 anos que mantém uma convivência erótica, onde ele a trata como uma aluna a ser preparada para a escravidão sexual, fazendo-a ler, nua, trechos inteiros de obras pornográficas antigas e a chicoteando como forma de punição e prazer. Torna-se mais bizarro quando o pai/professor a presenteia com uma menina de 13 anos para que ela “brinque a seu bel prazer” numa nova sucessão de cenas eróticas e violentas. O cenário doentio descrito pelo autor vai se aprofundando ao descrever uma sociedade onde é comum a compra e venda de meninas infantas e adolescentes para uso sexual ou todo o tipo de uso que seus senhores desejassem, incluindo mortes dolorosas. O autor descreve todos os meios de tortura de forma detalhada, bem como os efeitos que tais meios causam na vítima e a excitação dos que assistem e participam das sessões – homens que encontram o prazer no estupro e tortura de criancinhas e bebês, e crianças que encontram prazer em torturar e ser torturadas.

Sexo e dominação caminham juntos para alguns casais, mas, diferente do retratado no livro, há uma regra segundo o qual a relação deve obedecer aos princípios “são, seguro e consensual”, ou seja: tudo que os participantes fizerem devem fazer em sã consciência, sem uso de drogas ou bebidas, devem ser práticas seguras e consensuais. O completo oposto do que o autor francês retratou em seu livro. Ademais, crianças e ambientes impregnados de sexo e violência são elementos que não combinam, ainda que num contexto ficcional criado para entreter a mente de adultos.

Questiono o que o autor pretendia ao criar tal infame obra – acaso não pensou nas funestas influências que um texto destes poderia ter no comportamento de pessoas com caráter fraco, maldoso e influenciável? Muito embora eu em geral defenda o direito da livre criação artística, acredito que há alguns limites que o próprio artista deveria se atentar – não o Estado que deve por uma questão de segurança abster-se de exercer a censura – mas o próprio artista e seus editores deveriam pensar nas conseqüências de suas obras. E por acreditar que neste caso a divulgação da obra não faria nenhum bem a algum suposto leitor curioso, me abstenho de comentar o título ou editora – na realidade, escrevi esta não-resenha como um desabafo pela péssima experiência literária e também como provocação para dois questionamentos: Em sua opinião, qual é o limite para a criação artística? O Estado deveria intervir nessa criação de alguma forma? E qual o pior livro que você já leu? O que te leva a classificá-lo como péssimo?

Noites frias, sopas quentes e um coração vazio [Receita Vegana + Devaneio Poético]

Você já percebeu como as maiores inspirações e tristezas chegam com mais força a noite? Agora mesmo, nesta noite fria de Julho, preparo uma panela de sopa e me pergunto como você está? Essa indagação é diária – está bem? está se alimentando? Estará feliz? Ainda se sente melancólico em dias frios e chuvosos? Há alguém para te ouvir falar sobre suas filosofias e dúvidas de vida? Sim… Em algum momento me faço essas perguntas todos os dias. Assim como em algum momento uma música ou uma frase me lembram você e nossos momentos. Não posso pensar muito – a sopa me exige atenção. Cozinhar não é um ato automático – cozinhar é colocar alma e coração na panela – ou parte da alma já tão fragmentada. O aroma invade a cozinha e o vapor aquece minhas mãos frias – seria bom dividir a sopa e a vida com você – sinto falta de cuidar de ti, de uma forma que não tive sequer a chance de fazer – como aquelas mulheres antigas que aguardavam dóceis pelo bem amado com a janta pronta e sem muitos questionamentos – não me julgue por te querer bem assim – apenas entenda que meu coração anseia por ti, ofertando-se por inteiro no mais doce sacrifício, mesmo sabendo que, aí de mim, jamais serei amada ou aceita pelos teus olhos tão doces. A sopa está pronta – minha alma e coração despejados na panela com os mais profundos segredos sentimentais femininos. Onde estiver, espero que sinta um calor no coração para confortar este dia frio e te fazer sorrir, mesmo que não saiba o motivo.

#DiáriosdaPoetisa

21-07-2018

Sopa de Mostarda com Quirela

2 Xícaras de Quirela Crua deixada de molho por 12 horas; 1 maço de mostarda lavada e picada; 3 dentes de alho; 1 Cebola pequena; Sal a gosto; 2 Colheres de Molho de tomate caseiro (Dica:Faça e deixe congelado em potinhos pra usar eventualmente);Molho de Pimenta e páprica picante a gosto.

Preparo:
Cozinhe a Quirela até ficar bem mole.Refogue a mostarda com a cebola e o alho, coloque a Quirela com a água do cozimento na mostarda e continue mexendo, acrescente o molho e acerte os temperos até ficar no ponto desejado.

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Sobre os trens, as estações e a vida

Poucas coisas são mais simbólicas e poéticas que um trem percorrendo sua eterna linha onde um centímetro de desvio pode ser fatal- Não sei qual o motivo deste pensamento ter me ocorrido durante o final da tarde de hoje enquanto eu esperava o trem para retornar para minha casa após o primeiro dia de trabalho pós-recesso. Não que haja um trem interligando Santos – São Vicente, na verdade, o veículo está mais para um metrô que anda nos trilhos não-subterrâneos e chama-se VLT, entretanto, a poesia do seu vai-e-vem e a poesia de aguardar na estação é quase a mesma, guardadas as devidas proporções, de um trem e uma viagem longa. Enfim, por um momento perdi meus pensamentos – sejam quais forem os pensamentos que tenham me feito dar conta dessa simbólica e solitária poesia que cerca os veículos que caminham sempre sobre seus trilhos. Talvez de repente eu tenha percebido que assim como o percurso da máquina que me transporta, o tempo é também implacável e sem volta – e enquanto o trem corre tantas vezes ao seu destino, eu corro rumo aos 32 anos que se avizinham, e ao final deste ano de 2018 que em breve chegará com suas cores e suas falsas novas esperanças. Aliás, Julho, por si, é quase um mini-Dezembro: Uma divisão no meio do ano onde revisamos a lista – quase sempre não cumprida – e por vezes, estabelecemos algumas metas-relâmpago que no fundo sabemos que também não serão cumpridas. E ao mesmo tempo em que a viagem prossegue, as paisagens se sobrepõe rapidamente, assim como as memórias de momentos bons e ruins, saudades do que aconteceu e do que queríamos que acontecesse. Os olhos se enchem de lágrimas ocultas pelo óculos escuro, o coração se aperta – será que em alguma estação da vida haverá finalmente amor e aquele abraço para aconchegar o coração? Será que a viagem será sempre solitária? Haverá esperança antes da última estação, já no inverno da vida que se aproxima a cada ano? O trem chega ao destino – o dia terminou. Mas o trem da vida, este, continua correndo com todas as dúvidas, paisagens, solidões, eventuais sorrisos, algumas inseguranças, estações, chegadas e partidas – uma viagem sem volta que um dia chegará a seu fim.

 

32 questões sobre o amor – respostas

Outro dia fiz uma postagem sobre questões correntes em salões ou reuniões sociais na Europa durante o século XVII sobre o tema amor.  As perguntas  foram retiradas do livro “A maior paixão do mundo – a história da freira Mariana Alcoforado e suas cartas de amor proibido” e segundo a autora da obra, eram questões debatidas nos salons franceses. Deixei-as como convite ao debate agora decidi escrever aqui minhas opiniões/respostas sobre elas.

  • É melhor perder alguém que amamos para a morte ou para a infidelidade

Inicialmente lembremos que pessoas não são meros objetos – pessoas nunca são nossas no sentido de posse. São companhias e motivos que temos para seguir em frente, mas não são nossas para dispormos delas como quisermos. Diante disso, perder alguém para a morte é bem pior que perder para a infidelidade, tendo em vista que a morte nos tirará para sempre a possibilidade de rever a pessoa, enquanto a infidelidade por mais que machuque nosso ego, ainda nos deixa a oportunidade de ver a pessoa bem.

  • É melhor ter pleno acesso à pessoa que amamos, mas que não corresponde ao nosso amor, ou ser amado por alguém que não é livre para nos ver?

Ambas as situações são aflitivas. Acredito que ter pleno acesso à pessoa amada mesmo sem ser correspondido. Isso porque ao sabermos que alguém nos ama mas não pode nos ver, ficaremos aflitos não apenas pelo nosso sentir, mas pelo sentir de outrem que está sofrendo por nossa causa.

  • Um grande ciúme é sinal de um grande amor?

Definitivamente não. Ciúme é sinal de que você ainda não entendeu o que é o amor. Amar não é deter posse, amar é deixar livre – e deixar livre é o contrário exato de sentir ciúmes.

  • Desejar “algo” é mais saboroso do que o ter?

Ambos são saborosos a alma, mas por alguma razão estranha, sim, desejar é muitas vezes mais saboroso do que ter.

  • A união de dois corações é o maior e mais valoroso dos prazeres da vida?

Sem dúvidas

  • Amor e desejo são dois sentimentos opostos?

Não diria opostos, mas certamente são diferentes. Você pode amar sem sentir desejo, pode sentir desejo sem amar e pode amar uma pessoa e por não ser possível estar com ela, sentir desejo por outra.

  • Podemos amar alguém que ama outra pessoa?

Sim. Uma vez que o amor não pressupõe posse ou mesmo correspondência de sentimentos. È possível amar alguém que ama outra pessoa e é possível fazer todo possível para ver o amado feliz, dentro de um espaço que não vá invadir o relacionamento dessa pessoa. Amor é pureza.

  • Podemos parar de amar uma pessoa que não corresponde ao nosso amor plenamente?

Acho difícil. Amor não se controla. Podemos amar de outra forma, com o tempo podemos desenvolver um amor fraterno dependendo do nível de amizade que haja.Mas deixar de amar, não.

  • Quando uma mulher rompe com o homem que ama por capricho, querendo mais liberdade, sem amar outra pessoa, o homem deve aceitá-la caso ela deseje voltar?

Depende. Se ele ainda a amar, sem dúvidas. Amor não é jogo de orgulho. As pessoas podem se sentir inseguras. Isso vale para a mulher também, por que não aceitar de volta um amor que se arrependeu do rompimento?

  • Duas pessoas que se amam devem contar uma à outra que sentem ciúmes, sem frieza e maus sentimentos?

Sempre. Diálogo, diálogo e diálogo

  • Se um amante sente ciúmes injustificados, o parceiro deve torná-los reais, mesmo que as outras pessoas saibam?

Não. O parceiro deve comportar-se de modo a fazer com que o outro sinta-se seguro.

  • O amor de uma menina (virgem) é mais forte que o de uma mulher?

Não acredito que seja mais forte, mas acredito que o amor de uma menina deva ser acolhido com mais cuidado, pois pressupõe inexperiência e uma tendência a entregar corpo e alma sem medir conseqüências, portanto, é importante lembrar que brincar com os sentimentos das pessoas é extremamente errado, mas brincar com sentimentos de quem está se entregando pela primeira vez ao amor é cruel.

  • O que é pior no amor, ser recusado ou não ousar perguntar?

Não ousar perguntar. Quem não arrisca, jamais vai saber.

  • O amor sobrevive sozinho por muito tempo?

Há amores que sobrevivem por toda uma vida. Amor é único. Depois que se ama a primeira vez, é possível viver outras experiências românticas, mas de alguma forma sempre haverá aquela cicatriz lá no fundo, lembrando como foi. É uma forma de sobrevivência do amor.

  • É possível amar pelo puro amor, sem expectativas?

Sim. Aliás, o verdadeiro amor é sem expectativas – você ama porque sim, você ama apesar de todos os defeitos. Você não ama por um motivo ou outro, ou esperando ser correspondida.

  • É possível amar algo mais que a si mesmo?

Sim. Embora nosso instinto de sobrevivência seja soberano na maioria do tempo, há pessoas que se sacrificam por outras, e isso por si, demonstra que o ser humano é capaz de amar mais a alguém que a si mesmo. Em alguns casos isso é doentio, como quando o ser se entrega a um relacionamento abusivo por acreditar que não pode viver sem aquela pessoa – ela está amando alguém mais que a si mesmo sem que isso seja honroso ou positivo.

  • O simples prazer de não amar é tão satisfatório quanto o próprio amor?

Não. Aliás, qual o prazer de não amar?

  • Que tipo de amor é mais delicioso: O de uma menina, o de uma mulher casada ou o de uma viúva?

O de uma menina – é um amor que ainda desconhece traumas ou barreiras, não tem em geral lembranças ruins de outros relacionamentos e por isso não tenta erguer barreiras de auto-preservação.

  • Que tipo de amor é melhor: O de uma mulher virtuosa ou o de uma não virtuosa?

Nesta pergunta há uma forte carga de julgamento – coisa típica de séculos passados. Amor e julgamento são opostos. Não se julga quem se ama! E neste caso virtuosa ou não virtuosa parecem conceitos diretamente ligados à pureza sexual da mulher em questão e neste caso sou obrigada a dizer que não há diferença! Lógico que o amor da virgem é mais como já dito no item anterior, em muitos casos mais capaz de maior entrega emocional e por isso mesmo requer mais cuidados, entretanto, uma mulher que já perdeu sua virtude pode ainda não ter vivido seu primeiro amor e neste caso, seu coração ainda será inocente. Não há grandes diferenças – todo amor é bom, e se correspondido, ainda melhor.

  • Um homem honesto pode se vingar de uma mulher infiel sem comprometer sua ética?

Um homem ou mulher honestos não deixam o amor ser contaminado por ódio ou desejo de vingança, então,não, não há forma ética de vingar uma infidelidade. Há apenas dois caminhos – fingir que nada aconteceu e seguir adiante ou cada um tomar seu caminho.

  • Qual o pior crime? Se vangloriar publicamente dos favores prestador por uma mulher ou se vangloriar de favores inventados?

Se vangloriar é feio nos dois casos, mas sem dúvida, pior se vangloriar de favores inventados pois há duas más-ações: Inventar falsidades sobre outrem e ainda delas se vangloriar em público.

  • Um homem que é amado em segredo por uma mulher pode insultar um rival que desconhece ter?

Confuso isso. Acho difícil pensar, mas talvez possa acontecer acidentalmente

  • Um homem pode se apaixonar por uma mulher que já amou quanto por uma mulher que nunca experimentou o amor?

Sim. No amor a vida pregressa dos pares deve ser esquecida para que não haja pré-julgamentos.

  • Uma mulher insulta o homem que ama ao pedir ajuda a outro homem?

Não.

  • Um mulher deve odiar o homem que amam e que se recusa a ajudá-la, sabendo que ele é comprometido?

Ou ama ou odeia. Não há como odiar alguém que se ama.

  • É razoável uma mulher pedir detalhes de um romance anterior antes de dar provas de afeto a um homem? Ele deve aceitar este comportamento?

Não acho que seja interessante ficar procurando detalhes sobre a vida passada do parceiro ou parceira. Mas se a pessoa se sentir a vontade em perguntar e a outra em contar, também não é nenhum crime.

  • Se um homem recebe presentes de uma mulher, deve devolvê-los caso a mulher decida deixá-lo e os peça de volta?

Acredito que a mulher não deveria pedir de volta.

  • Um homem deve pedir a alguém que ama presentes pessoais que possam ser reconhecidos pelos outros? E se ele partir, deve ficar com os presentes, devolvê-los ou queimá-los?

Presentes não devem ser pedidos. Se a pessoa os der, tudo bem aceitar. E se for algo pessoal, deve sim ser devolvido ao partir/romper o relacionamento.

  • Uma mulher deve dar ao homem que ama presentes pessoais quando ele pedir?

Se ela sentir vontade de dá-los, sim, após criar um clima de ansiedade.

  • O que é melhor, conquistar uma mulher pelo coração ou pela inteligência?

Ambos são importantes.  Quando um ser humano quer se mostrar a outro, deve mostrar-se de forma mais pura possível, com suas qualidades físicas e morais, bem como com seus defeitos também. Qualquer conquista baseada em artimanhas torna-se pouco honrosa.

  • Se o homem sabe que a mulher que ama quer deixá-lo, deve permitir que ela vá livremente, ou deve mantê-la presa, ameaçando fazer um escândalo?

Quem ama deixa livre e deseja sorte.

  • Um homem tem o direito de insultar ou desagradar a mulher que ama por algum motivo?

Não. Bem como a mulher também não o tem.

(CYR, Myrian  – A maior paixão do mundo – a história da freira Mariana Alcoforado e suas cartas de amor proibido pg 180- 182)