Da chuva e do frio na alma

A chuva não dava trégua – era final de tarde, início da noite e já estava escuro. Ela caminhava pelas ruas do centro, mal protegida pelo guarda chuva, ignorando os pingos grossos que conseguiam molhar seu rosto. Na verdade, ela gostava da chuva, assim como amava o frio, a escuridão e o som dos pneus dos carros passando pelas poças de água. Gostava do cheiro da água que caía do céu misturado ao calor do escapamento dos carros. Ela observava os prédios antigos com suas rachaduras, a água se acumulando pelas sarjetas, as folhas das árvores caindo pelas calçadas na beira do canal. Prestava atenção em tudo, apesar do cansaço típico do final de um longo dia de trabalho. Na verdade, tudo que ela via era poesia – a poesia da cidade se misturando com a poesia da natureza. Perguntava-se como ou porque as pessoas andavam com tanta pressa, sem se atentar aos detalhes sutis do dia a dia – Chuva, frio, cheiros, ruídos, os ônibus lotados de pessoas e suas histórias – qual a história de cada um? Ela não entendia como alguém conseguia caminhar com tanta pressa a ponto de não notar a poesia de cada detalhe. Então ela os viu: Um casal jovem, encostados no muro. Ignoravam a chuva que os molhava enquanto suas bocas se buscavam em beijos apaixonados. Eles simplesmente se permitiam existir e fazer parte de todo aquele ruído poético da cidade. Aparentemente, ninguém mais os observava – o amor juvenil é uma poesia tão sublime que os olhares apressados das pessoas nem pareciam notar. Então sentiu frio – não o frio da chuva que conseguia atingi-la apesar do guarda-chuva. Não o frio do vento cortante. Aquela cena a fez sentir o frio que trazia na alma – a solidão, a saudade, a vontade de estar ali, existindo sob a chuva nos braços do seu bem-querer. Ela sabia que nada poderia aquecer sua alma naquele momento – ela trazia a chuva fria dentro de si e precisava deixar chover em lágrimas e em palavras para lembrar a todos que em toda parte há poesia, e que nem toda poesia é feliz, mas até mesmo as poesias mais tristes – e talvez principalmente as poesias mais tristes – são belas.

 

(18-06-2018)

 

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Passaporte da Leitura: Peru

Quem não sonha viajar o mundo? Muitas vezes esse sonho fica mais próximo se realizado de forma alternativa: Através de músicas, comidas típicas, filmes e livros – e essa é a proposta do projeto “Passaporte da Leitura” que hoje chega no seu quarto destino – conhecer o mundo através da leitura. Já passamos pelo México, África do Sul, Chile e hoje é dia de fazer uma rápida visita ao Peru! Vamos?

O livro escolhido foi Travessuras da menina-má do autor Mário Vargas Llosa.

Título: Travessuras da menina-má

Autor: Mario Vargas Llosa

País: Peru

Uma história de amor que começa na adolescência e percorre o tempo e o espaço em uma série de encontros, reencontros e abandonos que acompanham as personagens até o final da vida. O amor de Ricardito por Lily arrasta-se desde o colégio no Peru levando o leitor a uma maratona de surpresas e situações sensualmente tensas.
A variação do plano de fundo da narrativa que percorre o Peru, Paris, Londres, Japão, Cuba e Espanha – torna a leitura interessante, mostrando alguns recortes históricos e sociais da época, mas, principalmente servindo como base para que a história de amor seja também a história de vida das personagens, sem que, contudo a história de amor seja a única história da vida.
Infelizmente a sexualização da personagem é constante – mesmo durante a infância e, esta característica em alguns momentos esconde outras qualidades da personagem que é uma marcante, desinibida, uma daquelas mulheres que ocultam seus segredos e fraquezas em uma máscara de força, descaso e futilidade. O personagem Ricardo, por sua vez, é a perfeita descrição do jovem bonzinho, estudioso e sonhador que quando adulto realiza seu maior sonho: Viver em Paris.
A vida estabilizada de Ricardo será perturbada e arrastada a cada reencontro pelo turbilhão de seus sentimentos pela menina-má, como passa a chamar Lily.
É uma história de amor para adultos – despida de quase toda a dramaticidade romântica, repleta de reviravoltas, sexualização, introspecção, tensão e dramas.

Sobre o autor:

Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu no Peru em 1936 e passou parte da infância na Bolívia. Aos 14 anos chegou a ingressar no Colégio Militar onde permaneceu interno por dois anos. Posteriormente formou-se em letras e direito. Aos 22 anos, já casado,obteve uma bolsa de estudos e cursou o doutorado em Filosofia e Letras na Universidade Complutense de Madri. Após isso foi viver alguns anos na França.  Politicamente o autor simpatizou com o socialismo por muitos anos, mas acabou candidato à presidência do país em 1990 por uma coligação político-partidária de direita, vencendo em primeiro turno e perdendo o segundo turno para Alberto Fujimori. Após a derrota nas eleições presidenciais, obteve cidadania espanhola e, posteriormente,  foi viver em Londres, retomando a literatura.Vargas Llosa tem uma ampla obra, recebeu vários prêmios literários, inclusive o prêmio Nobel de literatura.

Sobre o Peru

O Peru (capital Lima), oficialmente República do Peru, é um país latino-americano banhado pelo Oceano Pacífico e com relevo bastante variado – que vai de planícies áridas a picos nevados e florestas. Sua população, estimada em mais de 30 milhões de pessoas, é de origem multiétnica, sobrevivendo principalmente de atividades como a agricultura, a pesca e a exploração mineral, além da manufatura de produtos têxteis. Apesar de o idioma oficial ser o espanhol, idiomas típicos como o quíchua são muito utilizados.

Passaporte

Sobre solidão, bolo, livros e aplicativos de celular

Mais um dia frio. Um domingo gelado com o coração apertado de saudades. Apesar da melancolia, foi um dia produtivo. Usei aquele aplicativo legal, o Forest, que bloqueia o celular por um tempo para te impedir de perder o foco – Uma hora estudando violão, depois mais uma, depois mais uma. Quando foi que a vida ficou tão ligada a um celular que precisamos usar um aplicativo pra não olhar o aparelho? Não sei… Mas dizem que esse aplicativo planta árvores de verdade conforme a utilização, então, ok, uso ele quase o tempo todo – afinal, coisa rara é eu receber alguma mensagem interessante mesmo. Talvez, ironicamente eu esteja viciada em um aplicativo pra curar o vício em celular – engraçado, não? Em seguida, uma hora de leitura, um livro finalizado, um banho quente. E então, aquela ideia: Fazer um bolo. Bolo de laranja. E que tal laranja com maracujá? A cozinha é um lugar quentinho, repleto de histórias e sabores, um lugar mágico para esquecer por algumas horas os tons de cinza que cercam a vida e a falta de sabor do dia a dia. Acho que já comentei outras vezes o quando cozinhar significa pra mim, certo? Bolo pronto, cama arrumada – já são mais de dez da noite e amanhã a semana recomeça. Mas o sono ainda está longe, longe… E como tantas vezes o único remédio que espanta todo o tédio de mais um dia que se arrastou é pegar o caderno, apostila, livro, lápis e borracha e estudar – sim, a verdade é que apesar de tudo, nunca fui nerd, sempre fui profundamente entediada.E lá vou eu: Um pedaço de bolo, meu ursinho de pelúcia, material de estudo, jogada na cama e pronta pra mais uma hora longe do celular e mergulhada nas tarefas (espero que a essas alturas minha professora esteja orgulhosa de mim) – Mas antes de bloquear tudo, uma foto – afinal, quando o período de estudo acabar, vou ter algo pra escrever – nem que seja o relato de um dia tedioso, um bolo gostoso e o desejo permanente de que aquela pessoa especial pudesse estar por perto pra dividir um pedaço desse bolo com um café quente e um sorriso cheio de mistérios. #DiáriosdaPoetisa

(10/06/2018)

 

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Simba e as esfihas [Receita vegana + crônica]

Ele chegou como uma pequena bola de pelos negros e macios com uma pequena manchinha branca no peito. Minha tia logo batizou o pequeno cachorrinho com o nome do Rei Leão: Simba. Assim como eu, o cachorrinho cresceu observando o movimento intenso da cozinha – cozinhar é um dom que percorre a minha família há algumas gerações. Certa vez estávamos todos fazendo esfihas – não lembro qual a ocasião, mas iriam ser muitas esfihas, mais de cem – minha mãe tirava as assadeiras com esfihas quentinhas e cheirosas do forno e colocava em uma enorme assadeira, coberta com uma toalha, em cima da mesa. Simba, que sempre ficava ouriçado com os aromas culinários, estava quieto, deitado em um sofá velho. O tempo foi passando e a assadeira parecia nunca se encher – havia sempre um buraco onde faltavam esfihas. Em dado momento, minha mãe viu: O danadinho ia pé-ante-pé, descobria um canto e pegava uma, duas esfihas, colocando-as no chão e novamente cobrindo com aquela toalha a assadeira, num cuidado tal que, quem o visse, pensaria ser impossível tanta inteligência em um só animal. Na época, não havia celulares com câmeras – senão, valeria a pena perder mais algumas esfihas apenas para dividir com outras pessoas as brincadeiras daquele adorável e enorme cachorro, cujo tamanho assustava os desconhecidos e a doçura encantava os amigos.

Todas as vezes que começo a picar azeitonas, tomates, cebola, alho, separar temperos e outros ingredientes, lembro dessa cena – quando me tornei vegetariana, pensei que não comeria mais essas delícias – ledo engano – foi possível adaptar a antiga receita de família, deixando-a mais saudável e completamente livre de crueldade. O Simba já virou estrelinha há uns anos atrás – se estivesse por aqui, eu o deixaria repetir suas façanhas e artes todinhas, apenas para poder gravá-las.

Massa:

3 xícaras de farinha de trigo branca

3 xícaras de farinha de trigo integral

4 xícaras de fibra de trigo (se possível, misturar fibra fina e grossa)

¾ de xícara de linhaça (misturar a dourada e a marrom)

Sal

1 e ½ colher de sopa fermento biológico em pó

1 colher (café) de açúcar

3 e ½ xícaras de água

11 colheres de azeite

Preparo

Preparar o fermento com um pouco de água morna, algumas colheres da farinha e o açúcar. Deixar descansar por 10 minutos ou até dobrar de tamanho. Acrescentar os outros ingredientes e amassar até desgrudar da mão. Deixar descansar coberto com um pano de prato até dobrar de volume.

Essa quantidade rende aproximadamente 130 esfihas de tamanho festa ou 4 enrolados grandes.

Recheios sugeridos:

Proteína de soja refogada com tomate, cenoura, cebola, sal, orégano e temperos

Proteína sabor atum vegano

Escarola

Alho poro

Espinafre

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Passaporte da Leitura: Chile

A leitura é mesmo mágica – em dois dias o Passaporte da Leitura me levou ao Chile e me trouxe de volta para contar tudo aqui no blog! Quem ainda não conhece o Projeto Passaporte da Leitura pode clicar aqui para conhecer mais!

O livro escolhido foi “O caderno de Maya” da autora chilena Isabel Allende.

Título: O caderno de Maya

Autor: Isabel Allende

País: Chile

Uma jovem fugindo da máfia de Las Vegas e do FBI. Uma ilhota nos confins do Chile e um homem solitário. Uma despedida e um caderno em branco. Juntar estes elementos em uma obra literária já é promessa de uma história atraente. Com a maestria de Isabel Allende, a personagem Maya Vidal conquista o leitor, levando-o hora ao paraíso chileno, ora a uma infância feliz e amorosa, ora ao fundo do poço das drogas, da prostituição e do crime. O livro é denso – mergulhar em suas páginas é sentir dor, medo, alegria, decepção – e também uma vontade imensa de conhecer o Chile, com sua história marcada recentemente pela ditadura e suas belezas naturais.

Maya é o exemplo de adolescente que guarda em si uma mulher forte, destemida e decidida, mas ainda não a conhece e mergulha em um poço sem fundo, numa busca incessante por algo que nem ela mesma conseguiria definir. Nini, a avó de Maya, por outro lado, é a senhora sábia que não deixa transparecer as marcas que a ditadura lhe deixou. Aliás, a obra merece ser lembrada pela construção de personagens femininas bem estruturadas, com histórias interessantes e fortes – Isabel Allende não deixou o amor romântico fora da vida das mulheres de sua obra – Ela o incluiu em seu texto de forma que a vida dessas mulheres não girasse completamente em torno do sentimento romântico. Importante também ressaltar que o livro tem alguns trechos onde a violência sexual aparece de forma explícita, o que pode disparar gatilhos em algumas pessoas.

Sem dúvidas “O Caderno de Maya” é uma obra bastante agradável e uma excelente dica de leitura.

Sobre a autora:

Isabel Allende é sobrinha do ex-presidente chileno Salvador Allende, deposto pelo golpe de estado que instaurou a ditadura de Pinochet em 1973. Apesar de ter passado anos longe do Chile, Isabel retrata seu país com maestria. Nascida em 1942, Isabel hoje vive na Califórnia. A autora coleciona êxitos literários, como o livro “A casa dos espíritos”, adaptado para o cinema.

Sobre o Chile:

O Chile é um país sul americano formado por uma área continental e também por ilhas. Seu clima é bastante diversificado – o país possui regiões de clima desértico e também partes extremamente geladas. Em relação a população, há uma mistura de etnias, principalmente entre europeus e indígenas, havendo também uma parcela da população descendente de imigrantes do oriente médio. O país passou por uma ditadura entre 1973 e 1990 – foi um período sombrio onde houve várias violações aos direitos humanos. Atualmente o IDH (índice de desenvolvimento humano) chileno é considerado muito elevado. Santiago é a capital e também a cidade mais populosa do país. O Chile tem como idioma oficial o espanhol – herança de sua colonização. Sua moeda é o peso chileno. O país não possui uma religião oficial – o estado é laico e a discriminação religiosa é proibida – entretanto a grande maioria da população se declara católica.

Devaneios e (1)

Castanha de caju na moranga

Dias atrás postei sobre o Samhain e os significados desta festividade, além de comentar um pouco sobre os alimentos tradicionais da época. Um desses alimentos é a abóbora, em especial a abóbora moranga que ficou conhecida pelas famosas lanternas feitas no Halloween e,  por isso, escolhi preparar esta receita de castanha de caju na moranga – adaptação da receita postada no blog Laboratório dos Sentidos, da Fabiana Turci (vale a pena clicar e ler a publicação original e as outras receitas também!). Essa castanha de caju na moranga é uma ótima dica para jantares especiais e combina perfeitamente com arroz integral sete grãos e uma boa salada de folhas verdes.

Ingredientes:

1 moranga pequena

2 xícaras de castanha do pará

200gs de castanha de caju crua ou torrada com sal

2 xícaras de molho de tomate caseiro

Páprica, sal, azeite, cebolinha e salsinha

1 pimenta dedo de moça fresca picada

3 dentes de alho

1 cebola picadinha.

Preparo:

Deixe a castanha do pará de molho por oito horas. Lave bem a moranga e coloque em uma panela grande para cozinhar por meia hora.  Depois de cozida, retire da panela e deixe esfriar bem e, só depois de fria, corte com cuidado um círculo na parte de cima e retire todas as sementes. Vire-a de cabeça para baixo para escorrer qualquer resquício de líquido.

Escorra as castanhas do pará e coloque-as no liquidificador. Adicione água quente até atingir uns dois dedos acima da quantidade de castanhas. Coloque um pouco de sal e bata até formar um creme. Adicione a salsinha e reserve.

Em uma panela refogue os temperos, a pimenta vermelha e as castanhas de caju, fritando levemente. Adicione o molho vermelho e, quando estiver fervendo, adicione metade do molho branco de castanhas. Espere ferver novamente e desligue o fogo.

Desvire a moranga e coloque-a em um refratário, coloque o molho branco de castanhas por dentro da moranga, espalhando bem. Em seguida coloque o molho de castanhas. Cubra com papel alumínio e leve ao forno pré-aquecido por 40 minutos. Retire e sirva.

Samhain

 

 

[Grimório] O chamado da Deusa e a noite de Samhain

 O chamado da Deusa é irresistível. Anos atrás minha vida estava pouco a pouco se adaptando a ouvir as estações do ano e as energias da lua. A participação no círculo de bruxaria era parte do meu dia-a-dia – e era também um desafio diante de um mundo onde trabalho e estudos sempre acabam se sobrepondo a tudo – até mesmo aos cuidados espirituais mais básicos. Depois de uma mudança de cidade que deu muito errado, acabei me desfazendo da maioria dos meus objetos de altar e me afastando – mas todos os anos a vontade de voltar aos rituais é grande e acaba sendo sobreposta pelas responsabilidades e falta de tempo. E então, neste ano, resolvi finalmente retornar – não ao círculo, por ora, mas ao menos tentar não deixar passar em branco as mudanças do ano, as festividades e celebrações – mesmo que por agora minhas celebrações sejam apenas ligadas à magia de cozinhar alguns pratos especiais ligados às festividades e aos poucos ler mais e voltar a expandir a concentração e a sensibilidade. Um passo de cada vez é melhor que ficar parada, não é verdade? E quando eu começo? Hoje, Sabat de Samhain, a noite mais mágica do ano para nós pagãos.

 “- Mas Darlene, seu blog se chama Devaneios e Poesias, por qual motivo falar sobre Wicca e Paganismo? ’’ Porque eu acredito que algumas ( talvez a maioria) das pessoas que apreciam meus textos, minhas poesias e minhas receitas, gosta também de conhecer um pouquinho do que está por trás de tudo isso: O que inspira os escritos, quem é a autora em seu dia a dia – acredito que quando iniciamos um blog, a maior intenção é compartilhar um pouco do universo que trazemos em nossa alma com outras pessoas que tem em si universos particulares e diferentes – e sem dúvida a Wicca fez e faz parte deste meu universo.

Sobre Samhain:

Dentro da Roda do Ano, a noite de Samhain é uma das mais mágicas – Seu significado é de morte e renascimento, marcando por isso o final e o inicio de um novo ano no calendário dos pagãos que seguem o panteão celta. O Deus-Sol ou Deus Cornífero morre e a Deusa está em entrando em sua fase anciã. É tempo de recolhimento e introspecção. Na noite de Samhain, o véu entre os mundos está aberto, por isso é a noite ideal para honrar os que já partiram; o costume de esculpir máscaras em abóboras colocando uma vela dentro é uma tradição que tem como explicação a necessidade de espantar os maus espíritos que estão circulando livremente nesta noite mágica. Também é uma noite propícia para confeccionar objetos mágicos, amuletos, consagrações e iniciações, além de se dedicar às práticas divinatórias. Os rigores do inverno se aproximam, festeja-se a última colheita, organizando reservas para os dias futuros. Não é uma época propícia para iniciar novos projetos, mas sim para agradecer o que já conseguiu alcançar e deixar para trás tudo que não deu certo. A Deusa já está em sua fase anciã e chora a partida do Deus, mas ao mesmo tempo já trás em seu ventre o embrião da criança da promessa – O Deus Sol que renascerá em Yule, quando a Deusa será novamente mãe, reiniciando todo o ciclo. É sempre útil lembrar que o Samhain é comemorado em 31 de Outubro no hemisfério norte e em 30 de abril no hemisfério sul.

Algumas dicas:

Em casa:

-Desapegue de tudo que não usa mais – aproveite a proximidade do sabat para fazer aquela faxina, doar objetos que não tem mais utilidade.

-Organize a dispensa – Se costuma ter um estoque é hora de verificar as validades para não perder nada e completar o que está faltando.

-Faça uma faxina caprichada e depois utilize um bom incenso de banimento, caminhando por todos os cômodos, tendo em mente que as energias mais pesadas e estagnadas estão sendo varridas para fora.

– Utilize neste período incensos de sálvia, mirra, artemísia, patchouli,hortelã ou alecrim.

– As pedras relacionadas ao Samhain são ônix, obsidiana negra, floco-de-neve, granada, hematita, âmbar, cornalina, turmalina negra. Use-as em sua casa e em acessórios, mantendo-as por perto.

Na cozinha:

Aproveite a energia e prepare uma ceia com ingredientes tradicionais da celebração:, maçã, alho, abóbora, sálvia, hortelã, pêra, alecrim, castanhas, milho e outros grãos, romã, batata, milho, trigo, gengibre. Para beber, água, vinho e suco de uva, romã ou maçã.

Rituais:

– Esculpir uma lanterna na abóbora e colocar na porta de casa

– Trançar uma corda de bruxa: Corda de bruxa é um cordão que liga simboliza o cordão umbilical que nos trás à vida terrestre – é o cordão que nos liga ao Outro Lado. Pode-se usar até três cores para trançar a corda, de acordo com o desejo a ser realizado:

Branca – Harmonia

Vermelho: Afasta os inimigos, ajuda a vencer obstáculos, traz coragem

Laranja: Atrai prosperidade e sucesso

Rosa: Auxilia a vida amorosa

Preto: Proteção, afastar o azar

Verde:Abundância

Amarelo: Atrair saúde e sorte nas finanças

Deve-se usar cordas cortadas no tamanho (altura) do bruxo e trançar mentalizando os pedidos para o próximo ano. Depois de consagrada no altar (se você tiver um), deixe-a em algum lugar da casa para que sempre lembre seus desejos ao vê-la.

– Queima de pedidos:

Escreva em um papel tudo que deseja afastar de sua vida e em outro tudo que deseja atrair. Acenda uma fogueira – de preferência dentro do seu caldeirão – e queime primeiro o com o que deseja afastar – é preciso se concentrar enquanto o papel queima. Em seguida, queime o papel que contém as coisas que deseja atrair – também é importante concentração e gratidão neste momento – coloque folhas de louro no fogo enquanto queima o papel com os pedidos.

 

Blessed Samhain!

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Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão

Falar sobre a vida e a história de alguém é sempre uma grande responsabilidade – o biógrafo pode muito bem conhecer datas e fatos, mas terá um longo caminho para chegar a conhecer as motivações que levam alguém a traçar seus rumos. Escrever sobre uma mulher como Patrícia Galvão é uma tarefa ainda mais complicada – Pagu foi intensa, buscou incessantemente um motivo ao qual devotar sua vida e encontrou na militância comunista a causa pela qual lutaria.
Paixão Pagu é a autobiografia escrita por Patrícia durante o período em que esteve encarcerada – O livro, publicado anos após o falecimento de Patrícia, é na realidade uma longa carta escrita para o companheiro, narrando sua história desde os tenros anos da juventude. Retomando o parágrafo anterior – Falar sobre a vida de alguém é uma responsabilidade e um desafio enormes – ainda bem que Patrícia encarregou-se de contar a própria história – a complexidade de uma pessoa como ela e também do tempo em que viveu é certamente melhor destrinchada desta forma: A história escrita por quem a sentiu na pele.
É fato que lutar por uma sociedade justa e igualitária é escolher um caminho árduo. Fazer isso nos tempos em que ser comunista levava pessoas à prisão e tortura é heroico. Fazer isso nos citados tempos e sendo mulher era se jogar em meio ao fogo duplo: Perseguida pelo sistema vigente e testada o tempo todo pelos próprios companheiros do Partido Comunista, Patrícia lutou para provar seu valor – por anos abdicou da maternidade e da alegria de ver o filho crescer, dedicando-se unicamente às tarefas da militância, sem nunca encontrar total aceitação dentro do partido, por ser mulher e por ter berço pequeno burguês. Isso traça um recorte historicamente bem interessante – A luta contra o machismo, muito presente em vários setores da esquerda brasileira – não era uma pauta sequer cogitada na época de Patrícia. Tal observação histórica, bem como a própria história, faz da obra uma leitura obrigatória.  O livro é curto, porém visceral e merece uma leitura atenta e crítica no sentido de refletir sobre o passado e comparar com o momento político presente para evitar que os erros de ontem se repitam e mais sangue inocente venha a ser derramado por conta de uma construção social desigual e autoritária.

Opinião:

Conhecer a história da Pagu foi o que posso chamar de “um choque de realidade” – como mulher e principalmente como militante de esquerda, confesso que até o momento não consegui entender de onde ela tirou tanta força. Em alguns instantes cheguei a pensar em abandonar completamente a militância por entender que jamais seria forte como ela foi. A carta de Patrícia emociona, machuca, desestabiliza – Mas depois de muita reflexão e inúmeras tentativas de traçar uma pequena resenha, o desconforto inicial quase insuportável dá lugar a outros pensamentos: Se desde o início da luta pela construção de uma sociedade socialista, contássemos com pessoas como Pagu, estaríamos já vivendo outra realidade. Se por outro lado cada lutadora que se reconhece como “não tão forte” tivesse desistido, estaríamos mergulhados em um caos ainda maior que o atual e muitas guerreiras valorosas teriam tombado sem sequer se darem a chance de descobrir toda a força que tem por não terem se dado essa chance. Eu decidi continuar trilhando o caminho que iniciei há anos atrás – até onde, o destino vai dizer – mas espero poder ver meus futuros filhos crescerem em uma sociedade muito mais justa que a atual.

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Título: Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão

Autora: Patrícia Galvão

País: Brasil

Editora Agir

Passaporte da Leitura: África do Sul

Em Fevereiro postei a resenha do primeiro livro do projeto “Passaporte da Leitura“, a obra Como água para chocolate, da autora mexicana Laura Esquivel. Viajando através da leitura, deixei o México para trás e desembarquei direto na África do Sul, país de origem do livro Desonra. A obra, um achado ocasional durante buscas por novos livros para ler, surpreendeu pela tensão e densidade que o autor conseguiu imprimir a uma história aparentemente comum. Não há romances, não há magia e a poesia passa relativamente e longe das páginas onde impera a linguagem dura e direta – quase tão dura e direta quanto a vida real.

 

Título: Desonra

Autor: J.M Coetzee

País: África do Sul

Uma leitura bruta, nua e crua – assim pode-se definir Desonra, obra do autor Sul-Africano J.M Coetzee.  

O livro conta a história de David Lurie, um professor universitário divorciado, de meia idade que se envolve com uma jovem aluna e acaba acusado de assédio.

A obra de Coetzee poderia inicialmente ser confundida com uma narrativa semelhante ao famoso romance Lolita, porém poucas páginas após o desfecho do envolvimento do professor Lurie com sua pupila, a história vai tomando um rumo mais introspectivo e sombrio, onde ele, sem perspectivas, decide passar um tempo no campo com a filha, encontrando toda a brutalidade do ambiente rural africano.

Vale ressaltar que a história se passa numa África do Sul pós-apartheid – fato pouco salientado durante a história, porém perceptível na tensão existente entre as personagens.

A leitura não é difícil em termos de vocabulário, porém o ritmo introspectivo e depressivo, ditados o tempo todo pelo personagem principal, e a ausência de ápices românticos ou felizes, para contrastar com o humor sombrio do professor Lurie, acabam fazendo com que o livro possa tornar-se um pouco cansativo em alguns momentos.

Sobre o autor:

J.M Coetzee nasceu na Cidade do Cabo em 1940. Bacharel em língua inglesa e em matemática, o autor chegou a trabalhar como programador de computadores. Recebeu vários prêmios literários, entre eles o prêmio Nobel de Literatura em 2003. Atualmente é professor na Universidade de Adelaide (Austrália). 

Sobre a África do Sul

A África do Sul ou República da Africa do Sul é um país localizado no Extremo Sul da África. O país possui três capitais: Pretória (capital executiva), Cidade do Cabo (Legislativa) e Bloemfontein (capital judiciária) e reconhece 11 idiomas oficiais, sendo os principais o africâner e o inglês sul-africano.

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Paixão Índia – Javier Moro

A maioria das meninas sonha viver um conto de fadas – as histórias mágicas onde garotas pobres ou princesas subjugadas por madrastas más transformam-se magicamente em princesas povoam a infância e acabam por moldar a adolescência das garotas mesmo com todos os esforços atualmente aplicados para que entendam que não dependem de príncipes ou magias para seguir seu caminho.

O livro Paixão Índia narra a história real da espanhola Anita Delgado e do que deveria ser seu conto de fadas – A jovem e pobre dançarina, moça de família católica conservadora torna-se de um dia para o outro o objeto de desejo do marajá de Kapurthala que vencendo a resistência da família da amada, acaba fazendo dela sua esposa. A história completa descortina não apenas a história de duas vidas que se cruzam, mas todo um panorama histórico-político bastante rico em detalhes sem que, no entanto, se torne tedioso.

Infelizmente os contos de fadas são apenas contos. Analisar a história de Anita mostra o ambiente machista e hostil no qual as mulheres viviam – Sem perspectivas adequadas por conta da pobreza de sua família, a jovem não se casa por ter-se apaixonado pelo noivo – o poder de tal escolha não lhe cabe inteiramente e a situação financeira da família faz com que optem por dar a ela sua melhor chance: O casamento com um príncipe estrangeiro que a levará para a Índia. Percebe-se o poço de solidão e insegurança no qual Anita é mergulhada – pode-se dizer que ela tem uma vida feliz com o marajá durante muitos anos a despeito de todo o panorama que os rodeia. O desfecho da história chega a parecer uma tragédia anunciada – mesmo não sendo tão trágico nem tão infeliz quanto poderia ter sido – E as reviravoltas nos lembram a todo tempo tratar-se de uma história real, onde a vida apresenta seus altos e baixos até que o último suspiro seja exalado e os olhos se fechem para sempre.

O autor espanhol realizou um excelente trabalho de pesquisa, o que nos permite conhecer a cultura indiana e um pouco do panorama geral da época em que Anita e o marajá viveram, tornando a história agradável e prendendo o leitor do início ao fim. Definitivamente é um livro que precisa entrar na lista de leituras das jovens que ainda ousam sonhar com príncipes encantados – um aviso de que nem sempre o “felizes para sempre” é um percurso agradável e também de que o “para sempre” é talvez um tempo curto demais perante a vida.

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Título: Paixão Índia

Autor: Moro, Javier

Ano:2006

Número de páginas: 387

Editora: Planeta