Passaporte da leitura: Inglaterra

Flores na Chuva e outros contos – Rosamunde Pilcher

O livro de hoje faz parte de dois projetos aqui do blog: É o segundo livro do #desafioliterário2020 #Outubro e é a sétima parada na viagem ao redor do mundo no projeto Passaporte da leitura. Vamos dar um pulinho na Inglaterra?

A sétima parada no projeto “Passaporte da Leitura” é a Inglaterra, país natal de Rosamunde Pilcher, autora nascida na Cornuália – um condado que fica a sudoeste de uma península inglesa – e chegou a servir durante a Segunda Guerra Mundial, ocasião em que teve seu primeiro conto publicado. Após a Guerra, Rosamunde se casou e foi morar na Escócia, onde viveu até seu falecimento, em 2019 aos 94 anos de idade.         

            O livro “Flores na Chuva e outros contos” nos presenteia com dezesseis histórias ricas em sentimentos. A autora de escrita suave e elegante nos envolve no mundo de cada personagem – Do menino órfão de pai que deseja presentear a irmãzinha ao pintor que trabalha como jardineiro sonhando com o dia em que sua arte será descoberta, Rosamunde oferece em suas páginas algo que pode parecer tão comum aos olhos de alguns, mas que é na verdade a coisa mais extraordinária que pode existir: Os momentos da vida humana e seus afetos, ilusões e decepções. Pilcher nos deixa com uma sensação gostosa de suspense no final de alguns contos – Personagens se reencontram depois de longas separações, pendências se resolvem, mas será que haverá o “viveram juntos para sempre”? No início, essa sensação de suspensão pode incomodar, mas depois acaba-se percebendo que o desfecho literal é desnecessário – O leitor ou leitora pode imaginar da forma que melhor lhe aprouver.

            Um ponto que chama a atenção nos contos deste livro é a presença de protagonistas ou personagens importantes femininas em idade madura – Algumas com questões do passado a resolver, outras com personalidades fortes e cheias de sabedoria, as mulheres descritas por Pilcher são intensas e bem desenvolvidas – Suas relações com o amor não são focalizadas como se tudo o que existisse na vida fosse romance: Elas tem amigos, familiares, obstáculos e projetos, algumas já construíram uma vida e procuram um recomeço. Em relação as mulheres, também chama a atenção o fato de não haver as típicas vilãs – Mesmo quando se interessam pelo mesmo homem, elas não entram em disputas acirradas e grosseiras, apenas seguem seus caminhos e lidam com seus sentimentos.

            Os cenários são outro ponto interessante – Pilcher descreve em detalhes, mas sem o exagero que causaria enfado em quem lê. Curiosamente, talvez por ter passado mais da metade da vida na Escócia, as paisagens e pessoas descritas pertencem àquele país.

            Um ótimo livro para presentear as pessoas em aniversários, natais, amigos secretos, pois possui um vocabulário contemporâneo, contos não muito longos e narrativa que possivelmente agrade qualquer pessoa que aprecie uma boa leitura.

            Sobre a Inglaterra:

A Inglaterra é uma das nações que constituem o Reino Unido. O país que faz fronteira com a Escócia e com o País de Gales ocupa a parte central e sul da ilha da Grã Bretanha e mais de 100 ilhas menores. Trata-se de uma monarquia parlamentarista, cuja religião oficial é a Anglicana e o idioma é o inglês, sendo também aceito o córnico, idioma de origem Celta falado na Cornuália.

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Mudando de assunto…

Já foram conhecer um pouco mais sobre a Antologia Amores Virtuais, Perigo Real? Ainda não? Corre lá no site da Editora Quimera! O livro está incrível e toda a renda arrecadada com as vendas do livro físico será doada a uma instituição que acolhe mulheres vítimas de violência doméstica enquanto a renda do e-book será direcionada à uma instituição de acolhimento para pessoas LGBTQ+. Além disso, o livro está disponível no Kindle Unlimited!

Aproveitem que o Natal está chegando e comprem um livro para presentear seus amigos e familiares! Depois me contem o que acharam do conto “Eu a quero tanto”, de minha autoria!

E-book Físico.

Nádegas a declarar.

            A lava-jato foi extinta – Afinal, segundo o mitológico ser que dirige nosso país igual um moleque de onze anos dirigiria um carrinho de rolimã na descida da Serra do Mar, a corrupção no Brasil acabou. E isso é um fato que irá entrar para os anais da nossa história, juntamente com os mais de 150 mil mortos e com o dinheiro – provável fruto de desvio das verbas de combate à COVID-19 – encontrado nas nádegas do Senador Chico Rodrigues, do DEM (base de apoio do governo). Pois é, talvez fosse mais adequado mudar o nome da lava-jato para “Operação nádegas a declarar”, nome que soaria deselegante, porém se adequaria perfeitamente ao momento?

            Enquanto esse cenário dantesco se desenrola em Brasília, no restante do país vive-se a expectativa para as eleições municipais: E tem de tudo – Por exemplo, na capital paulista, o candidato Russomano (Aquele que vai aos comércios forçar a venda de papel toalha avulso e pretende proibir o UBER em São Paulo), em uma declaração desrespeitosa, sugere que os moradores de rua não sofrem com a COVID por falta de banho. A resposta correta para essa suposta inexistência de COVID entre essa preocupação é a mesma que tem levado a uma diminuição dos casos: Se não testar, não tem contágio. Igual a corrupção: Se não investigar, não existe. Aliás, a capital também tem mais duas situações curiosas: A Candidatura de Márcio França, ex-prefeito de São Vicente e a reeleição de Bruno Covas. Será que a promessa de agir nos próximos quatro anos com a mesma postura que agiram em seus mandatos anteriores é uma promessa ou uma ameaça? Fica difícil dizer.

            Aqui, na baixada santista – carinhosamente apelidada por alguns internautas de “Dubai do Brejo”, a curiosidade é o fato de que Santos não possui nenhuma candidata ao executivo – Sem exceções, apenas homens disputam a cadeira na prefeitura. Já em São Vicente, a novidade é a candidatura do ex-prefeito que terminou o mandato de 2016 em meio a um tsunami de lixo. Se depender dele e da teoria do prefeiturável de São Paulo, a cidade ficará tão suja que a COVID não terá vez.  Se ele for eleito e eu desaparecer daqui, podem investigar e provavelmente descobrirão que uma barata gigante resultante da falta de coleta adequada de lixo invadiu minha casa e me trancou em algum baú.

            E o último assunto da semana: Finalmente os internautas esqueceram o casal de famosos que separou-traiu-não traiu. Agora o assunto é o Robinho, condenado por estupro na Itália e aceito de volta no Santos Futebol Clube. Interessante notarmos que uma jogadora de vôlei que se posiciona politicamente tem a carreira imensamente mais prejudicada que um jogador de futebol que comete um estupro! O contrato foi suspenso depois da pressão das torcedoras (e de alguns torcedores) e da ameaça de debandada dos patrocinadores do clube. Muitos defendem o atleta, dizendo que “todo mundo erra”, mas vamos combinar? Erro é esquecer o dia de aniversário da esposa, estacionar em local proibido ou sair de casa sem guarda-chuva. Estupro (ainda que sem penetração), não é erro – É crime. E esse assunto não deveria sequer precisar ser discutido e qualquer tentativa de melhorar a imagem do atleta só prova o machismo estrutural da sociedade.

            Pois é, a coisa por aqui está tão complicada que é melhor sentar e beber um suco de laranja – E começar a pensar em um novo imposto, para taxar as grandes bundas (Mas apenas as grandes bundas que sentam nas cadeiras do congresso nacional).

O Guarani – José de Alencar

O primeiro livro do #desafioliterário2020 #Outubro é uma obra clássica da literatura brasileira que me trás muitas recordações da infância – Por isso fiquei bastante feliz por este título ter sido sorteado para leitura justamente no mês da criança. Você que me lê, que é professor ou professora vai dar algumas boas risadas nesta postagem. Quando eu estava na minha quarta série, após as férias de julho, recebi a tarefa clássica de escrever uma redação “Como foram as suas férias”. Ora, como poderiam ter sido? Lendo muito. Porém, dizer para a professora que “li muito” não iria ocupar as linhas pedidas, certo? Então, o que eu fiz? Falei que havia lido, comentei brevemente os títulos e salientei que, de todos, o que havia me tomado mais tempo fora o livro “O Guarani”. Na minha visão infantil, era estranho que o índio (calma! Eu sei que o certo é falar indígena, mas lembre-se, eu tinha uns dez anos) se comportasse em seus diálogos de forma tão semelhante ao colonizador branco português. O Guarani me exigiu muito uso do dicionário e enciclopédias na época, foi um livro que me prendeu, me instigou a continuar apesar das dificuldades naturais da idade. Na redação, comentei que esperava alguma demonstração da fé do índio em seus deuses e não esse comportamento copiado dos portugueses e também falei sobre o incômodo com a personagem Isabel, que em certos momentos compara Peri a um animal e o fato da religião cristã ser colocada em um patamar tão superior aos costumes nativos. Enfim, não foi uma resenha com a profundidade que a obra merece, mas ainda assim, eu gostaria imensamente de ter guardado para compartilhar com vocês! A parte mais engraçada foi: Minha redação, com comentários sobre os livros, ocupou um pequeno calhamaço de folhas – Eu não sabia que seria necessário ler para a sala, quando a professora solicitou a leitura, eu fiquei gelada – Morria de vergonha de ler em público! Então, mostrei a ela o tamanho da redação e expliquei todas as dúvidas sobre o Peri e seu relacionamento estranho com a família de Ceci. É óbvio que não precisei ler a redação para a sala. É óbvio que a minha mãe foi chamada na escola por me permitir leituras “impróprias” e é óbvio que eu continuei lendo tudo o que quis e um pouco mais. Poucos meses depois, outra professora, amiga da família, me explicou resumidamente sobre o período histórico e a forma romantizada que José de Alencar utilizou para descrever os índios, iniciando um novo ciclo literário no país, o romance indianista, que buscava enaltecer a nossa terra. Na época, fiquei chateada: Toda essa explicação poderia ter sido dada pela minha professora da quarta série! Hoje, imagino que ela tenha ficado chocada por não esperar uma leitura espontânea. De toda forma, é uma lembrança divertida! Anos depois precisei reler o livro que era obrigatório para o vestibular, cheguei a ler por prazer em outro momento e li mais uma vez para falar sobre aqui no blog, porém, não deixarei uma resenha aprofundada dele – Um romance bastante longo e descritivo, de leitura obrigatória e enredo cativante, O Guarani se passa na primeira metade do século XVII e se passa numa propriedade localizada na Serra dos Órgãos, onde o português D. Antonio Mariz decidiu morar com a família e outros companheiros após as derrotas que os portugueses sofreram no Marrocos, estabelecendo um sistema semelhante ao sistema medieval de vassalagem. Durante a trama há romance, amores não correspondidos, ciúmes – tudo tendo como pano de fundo nossas matas e uma iminente guerra entre a família Mariz e os índios Aimorés, que buscavam vingança após o filho de D. Antonio matar acidentalmente uma índia de sua tribo. Há também traidores, como Loredano, um mercenário que abusa da hospitalidade oferecida pela família Mariz. Peri, durante todo o romance, apresenta a força e habilidade de andar pelas matas características dos indígenas e um código de conduta moral que se assemelha muito ao idealizado pelo cristianismo. É um herói corajoso e inesquecível! E vocês, já leram essa obra prima?

06 on 06 – Meus cantos

Meus cantos não se encontram

Em lugares especiais da cidade

Pois a vaidade humana destrói

A beleza que a natureza constrói

Meus cantos não são cantos

Da casa onde resido

Meus cantos não são lugar perdido

Onde me esquivo do mundo

Meus cantos são tão meus

Alguns impalpáveis

Alguns inexplicáveis

Alguns talvez comuns, mas, meus

Meus cantos são as linhas vazias

Onde meus olhos espalham palavras

Como o agricultor espalha lavras

Criando com penas da alma, poesia.

Meus cantos são castelos de areia

São pessoas que nunca existiram

São personagens que me inspiram

Em algum livro da prateleira

Meus cantos são o aconchego

De uma panela e seus sabores

Da cozinha onde me achego

Alimentando corpo, alma e amores

Meus cantos são canções

Que se espalham pelo ar

Acalantam corações

De quem ainda ousa sonhar

Meus cantos são meu corpo

Altar maior da Deusa que sou

Recanto que me carrega pra onde vou

Passeio, trabalho, leitura ou desporto

Meus cantos são as ruas

Onde se constroem as lutas

Por um mundo justo e igual

Por uma vida livre e ideal

Meus cantos são os acalantos

Das memórias e momentos

Em que contemplei o olhar

Que me transborda de alegria

Meus cantos são lugares

Que não consigo fotografar

São as lembranças dos olhares

Que me ensinam a sonhar

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Não sei o motivo das fotos terem saído assim, pequeninas. Este mês tivemos um mini 06 on 06 por aqui 😦

O sabor das primeiras receitas

Cresci vendo as mulheres da minha família lidando com a cozinha – Do arroz com feijão de cada dia aos docinhos de aniversário, pães, doces artesanais como goiabada, laranjada de corte, doce de mamão, e essa experiência me trouxe recordações perfumadas de uma infância cercada por comidas e livros. Entretanto, é curioso o fato de que nem todas as experiências infantis permaneceram na memória – Ao contrário: De algumas só tenho conhecimento através da narrativa de adultos que me conheceram nos primórdios da vida. Naturalmente, quem tem mais causos e histórias a meu respeito é minha mãe, e uma dessas situações se deu quando eu era bem pequena e estava ainda começando a ter os primeiros contatos com a cozinha.  Ela conta que estava fazendo quindins e precisava untar as forminhas e passar açúcar e acabou pedindo que eu fizesse esse favor, me deixando sentada com as forminhas, o pote de margarina e o de açúcar cristal. Quando veio buscar as forminhas, a surpresa: Eu havia passado margarina e açúcar por dentro e por fora das formas! Pois é, coisas que a gente faz aos cinco ou seis anos de idade e depois que cresce, esquece. O que eu não me esqueço é do sabor e da textura deliciosos dos quindins – E agora encontrei uma receita deliciosa e vegana desse docinho que para mim sempre terá sabor de trapalhadas e infância.

Ingredientes

200 ml de leite de coco
1 xícara cheia de açúcar
1/4 de xícara de água
2 colheres (sopa) de óleo de milho ou girassol
3 colheres (sopa) de amido de milho
3 xicaras bem cheias de mandioca crua ralada
100 grs de coco ralado
açúcar cristal para polvilhar

Calda
1/4 de xícara de água
1/4 de xícara de açúcar cristal

Preparo

Bata no liquidificador todos ingredientes, menos o coco ralado – começando pelos líquidos e adicionando os demais aos poucos e batendo, até ficar homogêneo.  Com uma colher, misture o coco ralado.
Unte com óleo uma forma grande com furo no meio, ou forminhas pequenas para quindim e salpique uma pequena quantidade de açúcar cristal; despeje a massa e leve para assar em banho-maria, em forno médio, por cerca de 40 minutos ou até que espete um palito, e saia limpo.
Para a calda: misture a água com o açúcar e leve para cozinhar por cerca de 15 minutos, até engrossar. Desenforme o quindim e pincele com a calda.
Se quiser um quindim bem amarelinho, adicione corante alimentício amarelo.

(FONTE DA RECEITA: SITE VEGGIE & TAL)

Mudando completamente de assunto: Recentemente fui selecionada para uma antologia do Grupo Editorial Quimera. O livro (físico e e-book) já está à venda e a renda será revertida para ongs que acolhem mulheres vítimas de violência. Adquiram os seus exemplares:

Físico E-book

Defender o meio ambiente do ministro do meio ambiente? Isso é Brasil!

País estranho esse onde o mesmo homem que debocha da necessidade de proteger nossas florestas é aplaudido por assinar uma lei que aumenta a pena para maus-tratos de animais (leia-se: cães e gatos).  Pois é. Mas e quanto ao desejo de breve restabelecimento escrito para o presidente dos Estados Unidos? Um verdadeiro grito de deboche direcionado aos 145 mil brasileiros que perderam a vida nesta pandemia. Afinal, é só uma gripezinha, toma cloroquina que passa – E se não passar, deixa a tubaína que a gente bebe na comemoração: Seria um maluco a menos em posição de poder, vencido pelo vírus que ele mesmo desdenhou.

            Ainda sobre meio ambiente e as agressões que vem sofrendo, chegamos a um momento histórico tão bizarro que o judiciário é obrigado a defender o meio ambiente adivinhem de quem? Isso mesmo! Do ministro do meio ambiente! Ainda bem que por hora derrubaram a decisão do ministro que havia retirado a proteção dos nossos mananciais e restingas. Não é um elogio ao judiciário – Nada mais estão fazendo do que sua obrigação de fazer cumprir a lei e a constituição desse país continental e desgovernado. Por falar em desgoverno, Carol Solberg, uma jogadora de vôlei que gritou “Fora Bolsonaro” está sofrendo intimidação e denuncia no Superior Tribunal de Justiça Desportiva – Mais um passo angustiante em direção à censura de opiniões. Aliás, o fantasma do cerceamento de opinião rondou o prefeiturável Guilherme Boulos e o influenciador digital Felipe Neto apenas pelas opiniões e participações nos atos Antifascistas. Ora, um governo que busca inibir atos antifascistas é o que mesmo? Pois é. Fascista. Um fascismo à brasileira, meio capenga, que só enxerga uma invisível “ameaça comunista” em qualquer pessoa que tenha bom senso – De cientistas a padres, todos são motivos de ódio e alvos de opressão para esse desgoverno. E eu quase ia esquecendo de contar que uma banda de rock não pode nem fazer uma música questionando sobre os cheques do Queiroz pra primeira dama sem ser ameaçada de processo.  Boa sorte e muita força para nós nesta próxima semana que está começando hoje – Vamos precisar. E não esqueçam como dizia o velho ditado: Cala a boca já morreu quem manda na minha boa sou eu. O Brasil ainda é um país livre, então vamos aproveitar essa liberdade e mostrar os defeitos desse sistema e desse desgoverno genocida, esse ano tem eleições municipais e precisamos urgentemente mostrar nas urnas que não concordamos com as atuais políticas – Como? Votando apenas em quem não apoiou em nenhum momento a eleição do fascista e o golpe que levou o Conde Drácutemer ao poder.

O conto dos três anos

A menina abriu o caderno – Fazia tempo que não escrevia nada para ele. Não por falta de vontade, mas por falta de palavras – Não havia texto que conseguisse retratar tudo o que ela sentia. Nos últimos dias ela escrevera sobre política, sobre arte, sobre culinária, sobre casais que não existem – Porque pela primeira vez era mais fácil falar no inexistente ou da arte ou do mundo – Do que falar do que ela realmente sentia e desejava falar. Mas hoje seria diferente – Hoje ela queria falar da saudade: Daquela sensação de distância que nos tira do eixo, que bate como uma onda no mar bravo e afoga o peito e o olhar. Daquela sensação de “Quando eu vou te ver de novo?” que ela sempre tinha ao final de cada encontro e que a fazia querer segurar as mãos dele e nunca mais soltar. Aquela saudade antecipada, compartilhada no beijo trocado antes de voltar para casa. E não é que de repente o mundo se havia encarregado de tornar tudo caótico e fazer com que a maior prova de afeto fosse justamente a distância? Nunca havia feito tanto sentido fechar os olhos e perguntar “quando?” – É como se naquele último dia de carnaval, no ponto de ônibus debaixo de uma garoa que ameaçava se tornar chuva, o coração já intuísse que aquele ano não seria como os outros. Hoje ela precisava falar da saudade daqueles olhos, do sorriso, de entregar o corpo aos caprichos dele para encontrar a liberdade de sua alma e de seu prazer ao se deixar atar nos calabouços dos desejos que ele lhe apresentara. A menina de três anos atrás já não era tão menina – Seu rosto permanecia quase o mesmo, mas seus olhos haviam aprendido o brilho da sensualidade; sua pele havia se acostumado ao toque que lhe deixava marcas de luxúria, seu corpo desejava ser comandado por aquela voz que tinha um timbre único de autoridade e desejo. A menina tornava-se mulher, embora soubesse que, perto dele, seu olhar sempre teria o brilho do encanto que só as meninas sabem ter ao se perder no céu de seus sentimentos impetuosos que insistem em ser ponte e não muralha.

 Ela sorriu – Apesar da distância ser uma experiência dolorida, pensar nele era um motivo para sorrir – Especialmente na noite que marcava exatos três anos depois daquele primeiro mergulho nos olhos mais profundos, doces e misteriosos que jamais conhecera e que, uma vez conhecendo, sabia que seriam sua mais doce prisão, enquanto ele a quisesse como prisioneira.

Memórias da infância: O xadrez

Lembro de observar o tabuleiro colocado no centro da roda. Para mim, era um momento de curiosidade e expectativa. Não lembro se estava calor ou frio, nem se estávamos no início ou no final do ano. Apenas esperava meu irreverente professor de educação física terminar a chamada e começar a aula. Eu não gostava nem um pouco de Educação Física, era uma criança chatinha, achava uma imbecilidade sem tamanho correr batendo uma bola no chão para depois arremessar na cesta, me entediava correr, pular, disputar – Exceções eram o futebol, que o professor se negava a ensinar nas aulas (e mesmo que ele ensinasse, eu era uma grande perna-de-pau) e a dança que vez ou outra ensaiávamos para apresentar em algum evento escolar – Na época, estava na moda o axé do “é o tchan” e o funk começava a despontar como preferência com o Bonde do Tigrão, e a direção da escola fazia vistas grossas (ou devo dizer, ouvidos grossos) para as letras completamente inapropriadas. Quando disse que meu professor era irreverente, não exagerei – Aliás, suspeito que hoje em dia ele seria considerado inapropriado pela maioria das pessoas que se dedicam a trabalhar com a educação – Mas na época, não sei como ou por qual motivo, tudo parecia normal. E assim começou minha primeira aula de xadrez, com o professor segurando as torres e dizendo que elas deveriam ficar nas pontas, pois são altas e deixam ter visão de tudo. Ao lado, os cavalos – Que “cagam” fedido e não devem ficar perto do rei e da rainha – sim, meu professor utilizava estes termos e nós, bom, ríamos. Em seguida ele mostrou o bispo e perguntou: O que o bispo não faz? Duas respostas ecoaram: Pecar e filho. O professor, bonachão, respondeu: Vocês que pensam! O bispo, ele não reclama, não trabalha e mete o bedelho na vida do rei, por isso ele fica do lado do cavalo, pra não reclamar do cheiro de estrume, e ao lado do rei e da rainha, para aconselhar e fofocar. Depois disso, ensinei minha mãe a jogar e por muitos anos se tornou uma atividade rotineira de lazer – Assim como os livros, as questões de matemática, o truco e o buraco. Com o passar dos anos e os compromissos naturais da vida – Como trabalhar de dia e estudar durante a noite – o hábito acabou se perdendo embora eu ainda tenha aqui em casa um mini jogo de xadrez. Quem sabe não retomo esse hábito na quarentena?

Um encontro de sabor (e cebolas). [Conto + receita de pão de cebola vegano]

Chovia. O feriado prolongado prometera dias de descanso, praia e sol e entregara dias cinzentos e muita água. Letícia olhou para a geladeira: Precisava urgentemente ir ao supermercado, mas sentia sono e muita preguiça ao imaginar as filas. Pegou uma maçã e começou a morder, desinteressadamente, sem saber se o que sentia ao certo era fome ou tédio. Um som leve interrompeu-lhe os pensamentos. Mensagem de texto de um número desconhecido: Gostei do teu tempero. Vamos cozinhar? Estou planejando fazer pão e assistir um filme aqui em casa, topa? Não havia assinatura na mensagem, mas Letícia sabia qual o único remetente possível. Há dois anos ela havia recusado uma sopa – Dezoito anos, sozinha pela primeira vez em uma grande cidade e pensando o pior de qualquer pessoa – Ainda sentia vergonha da pouca cordialidade que tivera na época. Agora, estava disposta a conhecê-lo melhor e ter ao menos um amigo no prédio. Respondeu a mensagem e tomou uma ducha antes de subir e bater na porta do apartamento 805.

            Berilo abriu a porta com um sorriso largo e o cabelo despenteado, com as pontas um pouco queimadas de Sol. Ele parecia estar sempre chegando da praia, tinha olhos de maresia e um peitoral largo “- Entra. Cozinhar no corredor é impossível”. Letícia deu um sorriso tímido e entrou. O apartamento era completamente diferente do que ela imaginava: Uma grande estante repleta de livros, alguns enfeites, uma mesa e quadrinhos com fotos de família. Ela corou ao pensar no próprio apartamento onde dormia num colchonete jogado a um canto e revirava caixas para encontrar qualquer livro que desejasse ler. Ele entregou uma touca – Vista isso – Aqui em casa cozinha é uma coisa séria. Letícia nunca imaginou que fazer pães pudesse ser uma experiência quase libidinosa – A cozinha pequena da kitnet mantinha os corpos juntos e, em alguns momentos ela encostava-se nele de maneira provocativa. Fizeram pães de cebola e ervas e a inevitável piada surgiu: Com tantas lágrimas, seriam eles dois ciumentos incorrigíveis? Como provocação ela respondeu que não era ciumenta, mas que tanta cebola certamente seria para deixar explícita a intenção de não beijar.  Quando colocaram os pães no forno, ele tirou a camisa – Estava calor apesar da chuva, e o forno ligado só contribuía para deixar o ambiente ainda mais quente. Alegando calor, ela ergueu a camiseta acima do umbigo e amarrou com um nó. Olharam-se com tensão. Berilo arrumou a mesa: Caponata de berinjela, hommus de grão de bico, patê de tofu e um litro de suco de laranja – Exceto o suco, tudo caseiro e vegano. Vamos ver como estão estes pães? Berilo surgia na sala com os pães. Letícia nunca havia imaginado que comida vegana poderia ser tão boa, então, lembrou-se do dia em que trocaram porções de caril e perguntou se ele acaso era vegano. Ele riu e respondeu que sim. “-Então, o que fez com o Caril que deixei na tua porta aquele dia?”. Berilo corou ao confessar que havia levado para o José da portaria. Letícia fingiu estar seriamente ofendida, mas não conseguiu segurar o riso por muito tempo, principalmente quando ele pediu licença e retornou com um vidro de enxaguante bucal “para quebrar os efeitos da cebola”. Não precisaram do enxaguante nem de outras palavras: Seus lábios e corpos se colaram. Letícia retirou a camiseta, deixando os seios à mostra. Berilo a puxou para mais perto, deixando-a sentir o volume por baixo da bermuda e sentando-se no sofá com ela no colo. Ofegavam em uma mistura de corpos e línguas e peles arrepiadas. Mãos se misturavam com coxas e ventre. Eles não ouviram quando alguém colocou a chave na fechadura e abriu a porta “- Desculpa interromper.”. Um rapaz branquelo e sardento olhava atônito para o casal. Era Caio, o ex-namorado de Berilo que, lembrando-se que não havia devolvido a chave e não tendo sido barrado na portaria, subira direto e acabara interrompendo o encontro – O que aconteceu entre eles depois que Letícia foi embora é assunto para outra receita – por agora, basta dizer que ela voltou para casa com mais calor do que estava e sentindo uma fome diferente, insaciável: Fome do cheiro e do corpo do vizinho do 805.

Receita do Pão de Cebola e Ervas

1 xícara de óleo de girassol

2 colheres rasas de açúcar

1 xícara de água quente

3 colheres de chia deixada de molho em ¼ de xícara de água

2 dentes de alho

Ervas: ½ maço de cheiro verde, 2 colheres de orégano, 2 colheres de erva doce, ½ maço de manjericão ou manjerona

1 colher (sopa) de sal

4 cebolas média

2 colheres (sopa) de fermento biológico

2 kg de farinha de trigo

No liquidificador bater as cebolas e a água quente. Colocar a chia hidratada com a água e bater mais. Em seguida, óleo, sal, açúcar, ervas e alho. Continuar batendo e acrescentar o fermento por último, com a mistura já fria. Ir acrescentando a farinha aos poucos, sovando até a massa não grudar nas mãos e ficar homogênea. Deixar crescer até dobrar de volume e fazer os pães, formando bolas que devem ser colocadas em assadeira untada e descansar até que colocando o dedo, a massa permaneça afundada. Assar em forno baixo, pré-aquecido, aumentando quando começar a dourar.

Essa história é a continuação da história da Letícia. Os primeiros capítulos estão aqui: 1 Cebolas e Ciúmes; 2 Letícia, o vizinho e o limoeiro – Ou como tudo começou, na versão dela.; 3 Letícia, a nova vizinha – Ou o prato de sopa onde Berilo acredita que tudo deveria ter começado.

Fotos dos pratos? Dá uma olhadinha lá no Instagram @poetisa_darlene

Brasil – Conto de fadas ou império de sangue?

Geralmente aos domingos eu costumo escrever um texto sobre os rumos que o país e o mundo estão tomando e a cada semana penso que não pode piorar, mas piora – Por exemplo, descobri que nosso presidente não é um mito e que estamos todos e todas vivendo um conto de fadas neste país! Sim, contos de fadas existem e nós somos governados por uma célebre personagem – Ao mentir na ONU sobre o valor do auxílio emergencial e sobre a origem das queimadas que vem devastando nosso país, Jair provou que é o verdadeiro Pinóquio – E que diferente do filme fofinho da Disney, na vida real nosso Pinóquio esmagou o grilo falante, que deveria servir de consciência e se transformou no pior dos vilões!  E é bom lembrarmos que em suas versões originais, os contos de fadas não eram cor-de-rosa nem tinham finais felizes – Ou seja: Nada, absolutamente nada, garante que no último suspiro de nossas vidas, uma fada azul irá chegar e salvar o dia. Não há magia que possa nos tirar deste caminho perverso – Nada, além de nossa união enquanto classe trabalhadora poderá nos salvar. Agora que falei brevemente sobre a realidade brasileira neste momento, gostaria de fazer um pequeno desvio neste texto para falar sobre outro assunto – Roma: Império de Sangue. Vocês que me lêem devem estar se questionando “-ela enlouqueceu? Começa a falar sobre o Brasil e, repentinamente desvia o assunto e vai parar em Roma?”. Calma, irei explicar o meu ponto. Roma: Império de Sangue, é o nome de uma série da Netflix que comecei a assistir essa semana, ontem terminei a primeira temporada, sobre o Imperador Cômodo. O que me deixa pasma é que passamos um verniz de modernidade em nossas relações com o poder, mas no fundo quase nada mudou. Na série, Cômodo é mimado, incompetente e egocêntrico, mas se importa com a cidade de Roma. Na verdade, não é sobre o imperador que pretendo falar e sim sobre as traições que permeiam os espaços de poder – Assistindo, percebe-se o quanto os conselheiros e Senadores jogam, conspiram e traem uns aos outros o tempo todo. Cômodo poderia ter sido um excelente imperador e isso não mudaria seu destino. A disputa do poder pelo poder nos mostra que o assassinato continua sendo uma realidade – Opositores ainda matam! Que o digam Marielle e Anderson, que o digam todos os ativistas pelos direitos humanos, contra a violência policial ou contra a degradação do meio ambiente – Assassinados! Que o diga o Padre Julio Lancelotti, constantemente ameaçado. O Brasil, a exemplo de Roma, é também um império de Sangue, com a diferença que por aqui, não é necessário ser nobre, Senador, Cônsul ou Imperador – Por aqui, morre-se por ser sensato e lutar pelo bem comum. E sinceramente? Duvido que esses jogos mortais pelo poder ocorram apenas por aqui – certamente se esquadrinharmos as realidades de outros lugares, iremos encontrar sujeira e veneno suficientes para destruir três planetas. Eu não sei até quando continuará sendo desta forma – É necessário desmontar as principais garras do capital: Ganância, acumulação de renda, abismo social. É necessário remodelar a sociedade. O problema é que a elite sabe os próprios pontos fracos e se encarrega de esmagar – através da violência – aquelas pessoas que ousam lutar. Ainda bem que o legado dessas pessoas se torna semente e a luta se perpetua. Em Roma, não havia inocentes ou ingênuos e a população pagava com a vida por isso. Aqui, o povo vem pagando com a vida pela incompetência dos poderosos e pela ganância dos empresários, mas ao menos há sementes de luta que brotam e conseguem um espaço nas instituições e na sociedade, buscando mudanças que sabem impossíveis de serem manejadas por uma ou duas pessoas, mas que certamente virão quando o ser humano amadurecer e entender a necessidade de se livrar deste modelo falido de sociedade em que vivemos.