O conto da noite, do inverno e da entrega.

            As lágrimas insistiam em cair, apesar da felicidade – Sempre tivera sensibilidade ao cheiro da cebola. Na vasilha ao lado, os ovos, a ricota, o sal e a pimenta já estavam amassados, formando uma massa amarela e uniforme. Faltava a cebola e a salsinha e depois seria apenas colocar no pão, montando os sanduíches. Ela se sentia poderosa em sua cozinha – Era como se cada receita guardasse em suas entrelinhas sorrisos e momentos – E neste caso, a receita ainda era uma página quase em branco, a ser preenchida de acordo com a reação dele ao provar o sanduíche – Será que ele iria gostar? Ela estava radiante, apesar da chuva fina que escorria, do tempo frio e úmido que havia mudado os planos – De uma tarde ao ar livre para um filme no cinema que ela mais gostava. Tudo pronto deixou a cozinha e foi adentrar um território que, para ela, ainda era assustador: O espelho. Ela encarava aquele reflexo com perplexidade: Até onde ela era ela e até onde era a personagem? Ainda doía um pouco se lembrar das cenas em São Paulo – Até que ponto ela e a menina devassa compartilham sentimentos? Os olhos brilhavam – Insegurança, desejo, amor, medo, pressa. Roupa escolhida entrou no chuveiro e deixou-se ficar por longos minutos, a água quente escorrendo sobre a pele, o sabonete perfumado, o shampoo. Ela queria estar bela para o seu Senhor; observou seu corpo nu diante do espelho, a pele alva, as curvas dos seios, das coxas e do bumbum – Ele a fazia se sentir bela, e ela gostava dessa sensação. A noite estava apenas começando.

         Esperou-o na porta do cinema, com os ingressos nas mãos. Ela o viu chegar – Ele estava tão lindo. Abraçaram-se e, de braços dados, entraram. Na sala escura, as mãos dele logo trataram de desbravar partes do corpo dela que deveriam ser proibidas e, com a naturalidade de um guia que leva os turistas a um templo distante, ele habilidosamente, levou as mãos dela a tocá-lo, extraindo um prazer silencioso que se derramou por entre seus dedos. Ela sentia seu coração pulsar enquanto a respiração se dificultava e seus músculos mais secretos se abriam desejando poder arrastá-lo dali para um lugar onde ele pudesse fazê-la gritar e mergulhar no êxtase. Era a tortura mais doce. E de repente, ele apenas segurou-lhe a mão, permitindo um contato delicado e inocente, como se as sensações de minutos atrás tivessem sido parte de sua imaginação. Terminado o filme, caminharam juntos pelas calçadas. Ela estava embevecida, sentia que poderia segurar aquelas mãos para sempre, sem soltar, sem pensar e seu corpo respondia se aquecendo ainda mais, contrariando o vento frio que parecia desafiá-los a manterem o calor naquela noite de quase inverno.

         Estavam na casa dele. Deitados no sofá, falando da vida.  Ele iria se mudar para uma cidade um pouco mais distante, o que a fazia sentir saudades antecipadas. Um rock invadia a sala e todo o mundo parecia se resumir ali, nos dois, nos olhares que se procuravam, nos dedos que ela entrelaçava aos dele, nas palavras que ela tinha presas na alma e na garganta, como um laço. E então ele a vendou e a levou por um corredor. Havia vento. E havia música. Uma música gótica. Ele a ordenou que retirasse a roupa e fizesse uma reverência. Ela sentiu seus joelhos encostarem-se ao chão, ainda gelado apesar de ter sido forrado. Naquele momento, a menina-devassa tomava o controle. Ela estava lá para ser açoitada, para ser beijada, para ser devorada. E quando ele retirou a venda dos seus olhos por alguns minutos ela pode vê-la derramando sensualidade, nua, com prendedores de mamilos nos dois seios, encarando-se no espelho naquele quarto iluminado apenas pelas velas e pelo fogo que emanava de seus corpos nus. Ele deixou que ela segurasse o cabo de um flogger de tiras longas – Era pesado. A estrela da noite. Apoiou as mãos da parede, pernas entreabertas, o corpo ansioso por sentir na pele aquelas tiras. Uma, duas, três, cinco, oito vezes. Era dolorido e bom, como somente o amor e a submissão podem ser. Naquela noite ele colocaria a gag entre os lábios dela pela primeira vez – a bola preta dentro da boca, impedindo-a de gritar. Ele a tocava com desejo, depois a fustigava com o flogger, com o chicote de hipismo, com as mãos. Ela sentia prazer. Ela sentia vergonha quando ele pedia que se tocasse e, timidamente, obedecia, fazendo seus dedos adentrarem aquelas zonas tão suas, tão úmidas, tão obscuras e tão prazerosas. A voz dele era um guia natural até uma estrada de prazer.   Naquela noite, quando eles se despediram, ela sabia que já não seria suficiente escrever em seu diário em terceira pessoa para fugir de qualquer sentimento – Mergulhar nos olhos dele trazia a certeza da intensidade daqueles momentos que a deixavam assustadoramente vulnerável, era inútil tentar qualquer fuga. Era madrugada e ela precisava retornar. Ele a beijou no portão, antes ela entrasse no automóvel e se acomodasse no banco traseiro e acenasse para ele. Foi um beijo breve e intenso.  Ela não se atrevia a tentar escrever naquele momento, nem no dia seguinte pela manhã. Fez um pequeno rascunho e deixou em um canto qualquer. Aquela noite estava na memória, intensa como as outras, assustadoramente marcante. Uma sensação que não sumiria com o vento: Um dia, uma semana ou um século depois não faria diferença na memória, questão de tempo até que, como uma flor, um conto nascesse daquela lembrança. E assim, numa noite fria e repleta de saudades, quando outras histórias já haviam acontecido, ela se sentou diante da tela em branco e, com uma caneca de chá nas mãos, relembrando as sensações daquela noite, pegou o rascunho do diário e digitou – Manteve a posição de observadora ao escrever, ainda era ela contando as histórias da menina-devassa, agora com a certeza de que compartilhavam um o mesmo Senhor e o mesmo coração.

Minhas impressões sobre o 57ºCONUNE,Brasília, manifestação, política e juventude (não exatamente nesta ordem)

     Na última Quarta-Feira (10/07) embarquei para a viagem mais longa que fiz até hoje: Saí de Santos para participar do 57º CONUNE (Congresso da União Nacional dos Estudantes), juntamente com outros companheiros do Enfrente – Juventude em movimento, coletivo do qual faço parte. Antes de falar sobre o congresso em si, vou falar sobre as minhas impressões da viagem: Dormi o caminho quase todo, acordava nas paradas de ônibus e voltava a dormir de novo – Era noite e só chegamos em Brasília na metade do dia 11, quinta feira. A cidade parece bem bonita, mas tive muito pouco tempo para apreciar, uma vez que fiquei quase o período todo envolvida nas atividades do congresso. Um aviso para quem futuramente for até lá: O ar é muito seco nesta época do ano, o calor durante o dia é intenso, bem como o frio durante a noite. Acreditem: Passei o último dia usando meias de lã e um vestido de manga comprida na tentativa de evitar que os raios solares atingissem minha pele diretamente e isso foi um alívio pois foi o único dia em que apesar do calor, consegui transpirar e não sentir meu corpo em brasa (então, bebam água, usem roupas leves mas que protejam a pele e, se não forem alérgicos(as) usem protetor solar). Há pés de fruta pela cidade e pássaros muito bonitos – Infelizmente estava economizando a bateria do celular e não consegui fotografar as aves.

         Agora vamos ao que interessa: O Congresso teve início dia 10/07 e terminou dia 14/07 e foi incrível! As atividades aconteceram na UnB e no Ginásio Nilson Nelson (pertinho do Estádio Mané Garrincha). Muito bom ver jovens do Brasil todo reunidos para debater pautas importantes, trocar experiências e ideias – Se você não tem acompanhado os movimentos de juventude, pode se surpreender com a quantidade de informações e pautas que essa galera consegue analisar e debater! Além disso, o CONUNE trouxe convidadas e convidados para compor as mesas – Professores, lideranças de movimentos, gente que tem muito o que falar. Como nem tudo é perfeito, o planejamento só permitia que escolhêssemos uma mesa de debates na manhã do dia 11 (e infelizmente eu cheguei na metade do dia e por isso não participei) e uma na tarde do dia 11 – Pra uma pessoa cheia de entusiasmo como eu, isso foi um enorme sacrifício – Afinal, tanta gente interessante, tantos temas fundamentais, e eu presa a apenas um! Acabei escolhendo uma mesa sobre a questão ambiental, especialmente sobre as barragens, que contou com a participação da nossa ex- candidata a co-presidência da República, professora Sônia Guajajara. Outra imperfeição desse primeiro dia me foi apontada por uma amiga: Na palestra sobre Jovens Mulheres na Política, a mesa só apresentou mulheres CIS – Faltou incluir mulheres trans! Que falha feia!

         O terceiro dia de congresso, 12/07, já iniciou com uma manifestação pela Esplanada dos Ministérios, contra a reforma da previdência, contra os cortes na educação pública e a intenção do (des)governo de instituir a cobrança de mensalidades nas Universidades Públicas. Foi uma manhã agitada, com o Sol castigando muito (eu terminei o dia com bolhas no pescoço, pele muito vermelha e ressecada e um desconforto enorme, apesar de ter bebido pelo menos 4 litros de água), além do receio de sofrer represálias truculentas por parte da polícia que estava lá com seu pelotão de choque e cavalaria – ainda bem que no final tudo correu bem e não houve problemas. A tarde do dia 12 contou novamente com muitas atividades na UnB e entre todas as mesas temáticas, optei por participar de uma plenária feminista ao ar livre, num teatro de arena cercado por árvores e, novamente tive uma experiência enriquecedora, com análises feitas por estudantes mulheres, poesia, arte e música de temática feminista.

         Os dois últimos dias foram compostos por um ato em homenagem aos 40 anos do Congresso de Reconstrução da Une, com a presença de vários ex-presidentes da entidade, e pelas plenárias finais que votaram as melhores teses de análise de conjuntura, educação e movimento estudantil, alem de eleger a nova diretoria – Infelizmente o resultado desta eleição não foi exatamente o que eu queria, mas faz parte: Teria sido uma alegria ver a chapa da Oposição de Esquerda vencer a disputa, mas não foi possível. Ainda assim, carrego a certeza de que nossa juventude está cumprindo seu papel da história de forma corajosa ao se opor a este governo e a este sistema e levantar tantos debates.

         Para os que me perguntam: Mas e as festinhas? É, aconteceram noites culturais, mas o sono depois das atividades do dia e do sol escaldante foi maior e eu não consegui participar de nenhuma festa, nem mesmo do Festival da Democracia homenageando a nossa saudosa e eterna Marielle Franco.

         Vale à pena pegar a estrada, dormir num acampamento com uma rotina rígida de acordar às 6 horas da manhã, passar frio e calor para estar no CONUNE? Sim. Deu um aperto no peito e um arrependimentozinho de não ter feito uma universidade pública,  e um arrependimentozinho de não ter me integrado a chapas para disputar a direção quando eu ainda era universitária (hoje sou formada em Direito e atualmente sou estudante de nível técnico, me considero estudante mas acredito que tais disputas devem ser deixadas para que está começando agora nos movimentos e na vida), um orgulho grande de ver toda uma geração tão empenhada e muito mais energia para cumprir os desafios que estão por vir. Se eu diria para uma pessoa jovem se envolver no movimento estudantil? Sim! Em minha opinião a militância é fundamental na formação do ser humano e deve começar na juventude.

         Algumas das fotos que tirei (ou onde fui clicada por amigos) durante a estada em Brasília estão no meu Instagram: darlene_poetisa. A manifestação também rendeu um poema “Poesia das ruas” já publicado no blog e no Instagram!

Poesia das ruas

Eu componho a poesia das ruas
Com meu corpo, voz, palavras
Sou mais uma na multidão das lutas
Contra o sistema que nos quer escravas
Nas trincheiras dessa guerra nossa arma é a união
Nossa arma é caneta e papel
Nossa arma é educação
Lutamos sob azulado céu
Lutamos com o coração
Nas trincheiras já perdemos tantos Andersons, Marieles, Amarildos? Quantos mais?
Brumadinho e Mariana
Viraram rios de lama
Nas trincheiras o governo vende nosso Brasil
E coloca trabalhador na ponta do fuzil
Degrada o ambiente
Vai contra a ciência e mente
Se liga minha gente
Querem nos fazer acreditar que é bom trabalhar até a morte
E que viver na miséria é a nossa sorte
Querem vender a educação – direito básico do nosso povo
Querem que sejamos colônia extrativista de novo
Uma neo colônia vendendo a vida por moedas que nem ficam em nossa mão
Enquanto poucos lucram,a grande maioria é atirada ao chão
Queria falar de amor, mas não consigo
E usando meu singelo dom eu sigo
Chamando minha leitora, meu leitor
Pras ruas que são as trincheiras dessa guerra
A união vence, nunca erra!
Vamos Enfrente porque a luta é a poesia
Que a gente constrói todo dia!

#diáriosdapoetisa #193de365 #elenao #atopelaeducação #brasil #brasilia #Enfrente

Dica literária: Senhora – José de Alencar

Uma jovem de origem humilde vê-se repentinamente rica por conta de uma herança recebida de seu avô paterno e decide dar uma lição no homem que anteriormente havia rejeitado seu amor, trocando-a por uma de melhor condição financeira – O tema pode parecer o início de mais um romance clichê, mas não é. Aurélia é uma mulher bela, astuta e decidida. A personagem central do romance Senhora, o último escrito por José de Alencar, é uma mulher cativante e Alencar a usou magistralmente para questionar padrões sociais da época – principalmente os relacionados ao casamento e relações familiares. Aurélia quebra padrões ao se colocar como responsável pelo próprio destino, mas não chega a ser uma personagem feminista uma vez que em nenhum momento questiona a estrutura social que mantém a mulher dependente do homem, apenas busca “burlar” tal estrutura de modo a tomar suas próprias decisões, mesmo tutelada por seu tio. O romance se desenrola em dois momentos – a vida atual da moça e seus primeiros anos, vividos na pobreza. Sem muitas tensões ou sobressaltos, Alencar soube prender a atenção dos leitores. Um livro que, sem dúvidas, vale a pena ler!

Uma dica para os fãs de cinema: Há um filme nacional baseado no livro, entretanto o ritmo é bem lento e alguns fatos muito importantes da obra são alterados, portanto, quem opta por não ler, perde muito desta obra incrível!.

Dicas Literárias: Cidade do Sol – Prosa e Poesia (Vários autores)

Há livros que emocionam pela leveza. Outros pela profundidade da história. Há livros cujo vocabulário nos oprime em nossa (natural) ignorância das coisas e há livros cuja leitura é tão simples e a mensagem tão vasta que nos balança a alma: Não é preciso afinal falar difícil para falar muito. Cada livro tem seu valor cultural e cada leitor se deixa tocar de diferente forma. O livro “Cidade do Sol – Prosa e Poesia” é um livro tocante não apenas pelo conteúdo, mas pelo seu histórico: Uma obra formulada por secundaristas da ETEC de Heliópolis (São Paulo-SP). Adolescentes escrevendo poesias e contos para entreter e emocionar o leitor já é motivo de comemoração e emoção, entretanto, se pensarmos bem, vamos perceber que ao parar e derramar sua imaginação e emoções sobre o papel, o jovem está escrevendo um novo futuro e isso sim emociona, principalmente quando trata-se de jovens de bairros periféricos. O que significa pra esses jovens ter a oportunidade de expor seu criar para o público além dos muros escolares? Que magnífico incentivo para que busquem produzir cultura, para que aumentem a auto-estima! Não sei se após este volume outros foram elaborados, espero que sim (Se alguém souber, me conte!) mas sei que espero que algum destes alunos veja esse post e saiba que o livro chegou até a baixada santista e continuará circulando através de trocas e adoções! Espero que essa postagem seja um incentivo para que se faça mais projetos de escritas com jovens e crianças – O resultado é incrível!

O conto do sonho, do luar e da chuva

Era como se fosse possível ouvir o silêncio da noite, denso e soturno. Os pés descalços tocavam a grama gelada pelo sereno da noite. Ela gostaria de poder abrir os olhos e ver seu corpo nu iluminado pela luz argentea do luar, mas estava vendada – Ela sentia prazer quando seu Dono a vendava, aguçando cada um dos outros sentidos. Seus braços estavam amarrados ao longo do corpo, mantendo-a em uma postura ereta junto ao espaldar alto da cadeira. Pouco antes ela havia sorrido ao ver aquela cadeira com estofado vermelho e detalhes entalhados na madeira, depois, ficara rubra ao perceber que tais detalhes nada mais eram que figuras de casais em posições luxuriosas. Talvez no final da noite estivesse experimentando alguma destas posições junto ao seu Senhor. Esse pensamento e o roçar das cordas em seus seios a fizeram sentir um arrepio que ela sabia não ser devido ao frio, apesar do leve vento gelado que percorria seu corpo e invadia sua região secreta, que se encontrava exposta -Havia cordas prendendo suas pernas junto as pernas dianteiras da cadeira, garantindo que Ele pudesse desbravar seus mistérios todas as vezes que desejasse. Ela arfava, ansiosa por sentir um toque. Tentava ouvir a respiração dele, mas só conseguia ouvir o próprio coração acelerado. Ele a beijou lenta e longamente e era torturante não poder usar as mãos para percorrer-lhe os cabelos. Ele começou a alternar os beijos entre a boca e o pescoço, usando as mãos ora para apertar-lhe levemente os mamilos, ora para desbravar sua gruta dos mistérios. Ela gemia baixo, desejava sentir ele ali dentro. Desejava abraça-lo. Ela estava quente e de repente ele se afastou e puxou seus cabelos. Ela gritou. Ele colocou um dedo dentro dela “- Como está molhada e pronta… Mas ainda não irá ter o que quer”. Ela podia ouvir ele caminhando ao redor dela e pressentia todas as vezes em que ele se aproximava e a acertava com a palma da mão na parte interna das coxas, ou batia em seu rosto, ou quando o frio que sentia em sua gruta foi substituído pelo calor úmido dos lábios e da língua de seu Senhor. Dentro dela um vulcão se preparava para a ebulição repentina que arrastaria tudo e acordaria os anjos e demônios da noite com seu grito. As cordas se soltaram e ela sentiu quando ele a carregou no colo, deitando-a sobre a relva, o cheiro de terra e grama amassada misturado ao cheiro dele formavam um aroma único. Sentiu que não conseguia fechar as pernas, que agora esticadas eram mantidas separadas, as mãos, por outro lado, foram unidas acima da cabeça. Pingos quentes começaram a tocar a pele da barriga, dos seios e dos braços – ela não podia ver, mas sabia que era cera. Ela implorava para que ele a tomasse ali, mas ele insistia em dizer que não era o momento e ela sentia como se a qualquer momento fosse derreter apenas com a proximidade da respiração dele. De repente, ela sentiu novamente as cordas soltarem suas mãos e pernas. Um trovão a assustou no exato momento em que ele se deitou sobre ela, adentrando seu corpo pulsante e quente e a fazendo rolar para cima dele, cavalgando-o enquanto uma chuva grossa molhava seus corpos sedentos um do outro. Ele sussurrava “-Você é uma feiticeira! A minha feiticeira iluminada por relâmpagos e luar.” Gritaram juntos quando o ponto alto do prazer os atingiu.
Naquele momento ela acordou na penumbra do quarto e sentiu seu corpo quente, repleto de um desejo indecente. Em vão tentou conciliar novamente o sono. Quando o Sol despontou no céu, ela imaginou como seria ter passado a noite com ele sob a chuva, como no sonho e depois ver o Sol raiar lado a lado. Sentiu saudades, mas foi fazer o café, sem tempo para escrever naquele momento.

#DiáriosdaPoetisa #132de365 #DiadasMães

O capitalismo é realmente brutal – conseguem prender em um domingo qualquer a comemoração de um dia que deveria ser celebrado e respeitado o ano todo. Não sei a origem da comemoração do dia das mães, mas me incomoda saber que o maior mistério da humanidade, a capacidade de transmutar o etéreo em carne, foi reduzido a uma data comercial no segundo domingo de Maio, onde as pessoas trocam presentes e se empanturram de comida. Fique claro que sou completamente contrária a essas propagandas que estigmatizam a mulher como um ser incompleto e tentam vender a imagem de que ela só é completa quando tem filhos – A maternidade compulsória é um desrespeito enorme, quase tão grande quanto reduzir a celebração das mães a uma data comercial. O gerar e o nascer são mistérios, são energias poderosas, e devem ser encarados com respeito – nem todas desejam passar por tal experiência e isso é um direito.  De repente, me dou conta de que o texto que deveria ser poético está se tornando uma pequena dissertação! Mais cedo estive na casa de um grande amigo que está fazendo aniversário hoje e, na volta, dentro do ônibus me peguei observando algumas mamães e seus filhos – é uma sensação estranha, pois até alguns anos atrás a simples idéia de ficar vulnerável e ter algum outro ser totalmente dependente de mim me causava arrepios e repulsa. Não sei quando isso mudou – o fato é que algumas vezes me pego pensando se ainda terei tempo de ter um filho ou filha e isso causa angústia- Trinta e três anos, nenhuma perspectiva de casamento ou romance. Já considerei mesmo a idéia assustadoramente cara e nem um pouco prática de uma inseminação, como um último recurso da minha completa falta de habilidade com os relacionamentos – Intensidade demais talvez não seja exatamente algo atraente, acreditar que o amor é único e ser quase incapaz de traçar novos envolvimentos possivelmente sejam fatores fora do padrão pra sociedade superficial e vazia da atualidade – mas esses são assuntos para outros textos, mais comuns e freqüentes por aqui inclusive. Já antecipo que alguns leitores certamente irão comentar que existe adoção, uma atitude louvável e bela em minha opinião, mas completamente fora dos meus planos – meu lado mulher-bruxa tem essa necessidade de explorar a sensação de ser um portal a trazer mais uma alma para esse mundo maluco que, possivelmente nem mereça toda a inocência e doçura de um novo ser.

Percebo que este texto é possivelmente um dos mais íntimos que escrevi – sem subterfúgios, sem poesia, sem contos, sem cartas ou devaneios. A vida vai além de sentir saudades de um amor que nunca vai ser aquele final feliz, vai além de observar detalhes pequeninos nas ruas ou elaborar resenhas de livros e filmes e eu posso estar romantizando absurdamente tudo isso, mas não são raras as vezes em que penso o quanto seria doce ensinar as primeiras receitas ou notas musicais pra uma criaturinha, ou dar o primeiro caderno em branco para que uma menininha ou menininho tímido escreva seus primeiros pensamentos (Diários da mini poetisa?). São cenas que tem uma grande possibilidade de jamais acontecerem no mundo real, mas que eu precisava deixar escritas por aqui – Pra relembrar no futuro, quando eu for a senhorinha que ainda se divide entre a cozinha, a poesia e os cachorros – sozinha em seus sonhos não realizados e corações partidos.

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Enquanto escrevo, além do som contínuo da chuva, ouço:

#DiáriosdaPoetisa #130de365: Sobre crianças, trabalho e barquinhos de papel

“No fim de tarde viajar num barquinho de papel
Entre o mar e o céu
Imaginar
Ser rei, marinheiro ou pirata
Caminhar por toda a mata 
E correr descalço pelo quintal
Como quem corre pelo mundo combatendo o mal
Num barquinho de papel
Entre o mar e o céu
Imaginar, viajar e voltar
Bem a tempo do jantar
Pra depois encontrar uma folha em branco
Pedaço perdido de um universo inteiro
E escrever mil aventuras pra contar
Vividas no barquinho de papel que cruzou o mar da imaginação”

E eis que aos 32 anos eu ainda não sabia fazer barquinhos de papel! Como assim? Crianças da quarta série sabem! Ainda bem que um aluno do quarto ano resolveu me ensinar! Até que ficou bonito! Ah! O poeminha acima vai acabar se tornando o inicio de um livrinho infantil 

#diáriosdapoetisa #130de365 #vidadeinspetora #crianças #trabalho#inspiração

Dica Literária: Ela – O mistério no coração da África

Um jovem estudante recebe a visita de um amigo que, sabendo-se muito doente lhe conta dois segredos: Uma longa e fantasiosa história sobre suas origens e a existência de um filho, o qual deseja certificar-se que receba a melhor educação e possa depois de adulto herdar além de dinheiro, as relíquias que podem ajudá-lo a encontrar os segredos de suas origens. Sem acreditar na história, ele aceita ser tutor do filho de seu amigo moribundo e, mais de dez anos após tal fatídica data, ele e o menino, já adulto, partem para o coração da África em busca de respostas. A série reencontro adapta clássicos da literatura mundial propiciando uma leitura fácil para crianças e adolescentes (ou adultos que desejam retomar o hábito da leitura). A obra em comento é um dos volumes da série Reencontro e com certeza deixou um gostinho de “quero ler o original” – Um romance cheio de ação, aventura e surpresas, “Ela – O mistério no coração da África” é o tipo de obra que prende a atenção do início ao fim.

#MemóriasdaPoetisa – Sobre transformar trabalho em poesia

O ano é 2010. Lembro-me do salão esfumaçado pelos cigarros, do cheiro abafado de tabaco, cerveja, comida e papel. O salão era pequeno e tínhamos o constante receio de que mais hora, menos hora, fosse fechado – afinal, ainda se discutia a legalidade ou não do jogo em nosso país e, até aquele momento (e até hoje) o jogo vinha sendo considerado ilegal. Enquanto as rodadas iam se repetindo, eu vendia meus lanches mesa por mesa, pegava cafés e observava as pessoas – aliás, muito embora a escrita tenha sido minha diversão desde tenra idade, foi verdadeiramente nos salões dos bingos que comecei a observar as pessoas, entendendo-as como personagens. Lembro que,  por vezes eu pegava uma cartela usada e me colocava a escrever poesias na parte de trás – hábito cuja freqüência crescia nos meses chuvosos e nos meses frios, principalmente no horário da noite. E especialmente, lembro de ter, certa vez, decidido escrever algo poético sobre… Bingos! Pois é, decidi que o trabalho deveria ser também um motivo de poesia – como tudo na vida. E eis que surge este poema simples e engraçado que, por alguns meses chegou a ficar afixado junto aos locutores:

Bingo
Bolinhas que pulam
Bolinhas numeradas
Bolinhas que falam
As linhas premiadas
Doces rodadas
Lindas partidas
Especiais bem lentas
Outras bem corridas
A boa! Bingo! Linha!
Passa a régua
“Só emoção”
Bingos eternamente
Em meu coração

(29-03-2010)

Os empregos sempre nos ensinam alguma coisa – comecei a trabalhar como garçonete em bingos no ano de 2005, permanecendo até 2010. Neste período vivi “causos” engraçados e também me estressei muito. Tomei gosto pelo trabalho pesado, aprendi a gostar de trabalhar com o público: era necessário atender bem, com rapidez e disposição – mesmo quando a madrugava já avançava junto com o sono. Ter trabalhado em bingos certamente me fez atenta e paciente e eu não tenho vergonha nenhuma de ter transformado os salões em poesia, mesmo que isso me tenha custado várias piadas.