O diário de Mari (II)

BIANCA

São Paulo, 03 de Junho de 1996, Segunda-Feira.

Acabo de voltar de mais uma das minhas aventuras noturnas… O sentimento é o mesmo de outros dias: Sensação de vazio… Não é o Amor que me move, nem mesmo o desejo… Não… Sou sim movida pelo Amor, mas não é um sentimento meu, é como se eu estivesse vivendo a vida de outra pessoa… O que está acontecendo comigo?

Poema que eu deixei hoje na porta de Emanuela… Quem está dentro de mim, utilizando minhas mãos para escrever essas palavras?

“E quando a noite cai…
Quando o vento gélido vem me tocar…
Quando o Sol se apaga…
Quando a escuridão domina…
E uma lágrima rola solitária…
Quando minha alma sangra…
Apunhalada pela solidão,
Pela saudade…
Quando a noturna escuridão se desfaz,
E dá lugar ao Sol,
Que já não sabe mais iluminar minha vida,
Nem me aquecer…
Quem irá dizer que me ama?
A quem entregarei meus sentimentos,
Meu coração,
Meu corpo…
Se você não está comigo,
Viver não tem sabor,
Não tem razão de ser…
Se você não está comigo…
Pra que respirar?
Quem vai curar essa saudade,
Que você deixa quando está longe?
Que a noite escura venha, e me arrebate
Que mergulhe na escuridão esse mundo,
Que me faça ao menos por alguns segundos,
Esquecer sua ausência…
E, em meio à noite fria,
Apareça a Lua,
Astro de quem ama,
Lua ilumina a noite…
Ilumina meus pensamentos…
Embale esse coração,
Já quase inerte,
Coração valente,
Lutador incansável…
Faça-o lembrar
Que um dia,
Sob o luar,
Novamente me unirei a você,
Minha princesa amada…
Donzela dos meus braços arrebatada…
Amo-te,
Preciso de você a cada instante,
Não tê-la me sufoca,
Mas a certeza de que um dia a terei novamente em meus braços
Faz-me continuar respirando,
Mesmo mergulhada na escuridão,
Dá-me a coragem de continuar
E como mitológico herói,
Vencer tudo que se interponha entre nós,
E esperar,
Pelo dia em que poderei tomá-la ao mundo,
E trazê-la para mim,
Fazer de ti minha esposa
Por toda a Eternidade
Amo-Te!”

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Navegações – Destino Mares do Sul

Em 1° de Agosto de 1785 parte da França uma missão com o objetivo de “dar a volta ao mundo” explorando as terras quase desconhecidas do “Grande Mar do Sul” (Oceano Pacífico). Compunham a missão duas fragatas (La Boussule e L’Astrolabe – A Bússola e O Astrolábio) sob o comando do experiente Almirante Jean François de Galaup – Conde de La Pérouse.  Partiram equipados com o que havia de mais moderno na época; suprimentos para quatro anos de viagem e artigos de troca para negociar com povos nativos (espelhos, contas de vidro, agulhas) e levavam uma tripulação de 400 pessoas.

Em 1786 os dois navios sofrem a primeira tragédia: 21 homens, entre eles 6 oficiais morrem após dois barcos de reconhecimento serem virados por ondas no litoral norte-americano, próximo ao Alaska.

Em 1787, na península de Kamachatka,  La Perouse desembarca um de seus oficiais, de nome De Lesseps, que falava russo, para que este pudesse atravessar a Sibéria até a Europa, levando relatórios da expedição.

Em Setembro do mesmo ano nativos da ilha de Tutuila – principal ilha da Samoa Americana – atacaram os barcos salva – vida da expedição, que se ocupavam de abastecer os navios com água doce, deixando um saldo de 12 mortos, entre eles o 2° Comandante e mais de 20 feridos.

Em Janeiro de 1788, ao aportar à costa Leste da Austrália, encontra-se com a Primeira Esquadra Britânica, entregando mais relatórios da viagem para que sejam entregues à França.  Em 10 de Março deixam a Austrália rumo ao nordeste para nunca mais serem vistos.

Na França, a revolução ocorrida em 14 de Julho de 1789 faz com que La Pérouse seja “esquecido”. Somente em 25 de setembro de 1791 o Contra- Almirante Joseph Antoine Bruni d’Entrecasteaux parte com dois navios buscando notícias da expedição de La Pérouse. Em 1973 vê em Vanikoro  (ilha ao nordeste da Austrália) sinais de fumaça que o fazem crer que encontrou os homens da expedição, mas não consegue chegar à terra devido à dificuldades causadas pelos recifes traiçoeiros próximos à ilha.  O Almirante adoece e morre dois meses depois. Seus navios são capturados pelos holandeses (que estavam em guerra com a França).

Somente quatro décadas anos depois , em  1826, Peter Dillon, um irlandês que praticava o comércio no Pacífico Sul, obteve indícios do paradeiro de La Pérouse ao ver objetos europeus (entre eles um garfo de prata com as iniciais do Almirante) com nativos da ilha de Tikopia (Próxima a Vanikoro).  Os rumores das descobertas de Dillon chegaram à França antes dele e, em 1828, sob o comando de Jules Sébastien Cesar Dumont , chega à Vanikoro a missão oficial francesa de busca. Dumont e seus homens, conversando com nativos da Ilha, descobriram que um dos navios havia naufragado ao entrar numa passagem cheia de corais e o outro encalhou e naufragou ao tentar socorrer o primeiro. Dos sobreviventes, dois construíram um pequeno barco e lançaram-se ao mar e dois viveram na ilha até 1826 – quando morreram. Foram encontrados objetos pessoais da tripulação, o que comprovou a história dos nativos. Nunca se soube qual o destino de La Pérouse.

Um fato curioso: O jovem Napoleão Bonaparte tinha 16 anos na época em que La Pérouse partiu da França e era um dos candidatos a uma vaga no navio. Fica a pergunta: quais seriam as conseqüências históricas se ele houvesse embarcado e desaparecido junto com os outros 400 homens de La Pérouse?

 

La_Perouse

 

 

Despedida

Tanto amor

Ilusão sem fim

Paixão que machuca

Alegria que mata

Tristeza que corrói

Tanto amor

Tanta solidão

Tanta saudade

De um beijo

Um abraço

Um sorriso

Uma voz

Tão perto e tão distante

Por que amo,

Se aos poucos o amor me mata?

Se meu coração hoje sofre,

É por que um dia

Um beijo de mel

O envenenou com o Amor

Amor…

Veneno lento que mata aos poucos

E aos poucos meu coração

Vai se despedindo deste mundo

Mas parte contente

Lembrando do teu beijo o sabor…

 Publicada - Despedida-  em 11-05-14

Dia do escritor

dia do escritor para blog

 

Escrever é construir um castelo, uma mansão, um casebre. É construir um sítio, é plantar uma floresta, campos verdes, desertos… É criar dimensões inimagináveis. É dar vida às lendas, é criar vidas, é viver cada vida que criou. Escrever é viver várias vidas, viver em vários lugares e, o mais incrível é que escrever é também dar aos leitores a oportunidade de viver tantas vidas quanto quiser. Numa sintonia perfeita, leitor e escritor podem ser pai, mãe, guerreiro, bruxa, fada, soldado, lobisomem. Chorar, sorrir, amar. Exagero? Quem julga a afirmação acima exagerada certamente jamais se permitiu “mergulhar” de cabeça em um bom livro, em um bom conto que seja. Quem não morreu um pouco com a doce Teresa de “Amor de Perdição”? Ou com a Helena na obra de mesmo nome do brasileiro “Machado de Assis”? Quem não viveu o amor idealizado de Edward e Bella de “Crepúsculo”? Ou se deixou levar pelos devaneios sensuais de “50 tons de cinza”? Quem nunca abriu um livro de um autor qualquer e sentiu como se fosse amigo, companheiro e confidente de algum personagem? Certamente, quem sabendo ler não fez isso, ainda não viveu.  O escritor é uma figura importante em qualquer sociedade minimamente amante da cultura, pois ele amplia os horizontes de quem lê… emociona, encanta. O dia do escritor foi instituído no dia 25 de julho de 1960 após a realização do Primeiro Festival do Escritor Brasileiro. É uma data mais do que merecida! Então, a todos os escritores, famosos ou ainda anônimos: Parabéns pelo seu dia, pelo nosso dia! E, obrigado por existirem e fazerem a vida mais agradável!

Sobre amor, natureza e dor.

Solidao-Clarice-Lispector

Em meio ao verde, aos pássaros, sob esse maravilhoso céu, vivemos nós… Simples e pequenos seres. Não percebemos o quanto somos submetidos à natureza e tentamos desesperadamente vencê-la, prever-lhe os movimentos, as mudanças…
Mas é nela que encontramos o maior abrigo para nossa alma magoada e cansada de sofrer…
Às vezes tenho vontade de me deitar na terra e ser engolida por ela, de misturar aos poucos meus átomos aos dela até que meu corpo desapareça e minha alma torne-se livre para voar, ou então, passe a viver através do “Corpo” de uma árvore, que solitária no meio do campo observa tudo ao seu redor…
Às vezes tenho vontade de me misturar também às águas desse rio que corre e correr com elas conhecendo lugares diferentes, e um dia evaporar, subir até o céu, e depois desabar sobre a Terra, quero ser a água da chuva a molhar o teu corpo… Assim posso te tocar ao menos uma última vez, e quem sabe, em meio a esse ciclo infinito de evaporar e tornar-se água novamente, não conseguiria te esquecer, ou ao menos aplacar a dor em minha alma?
Tenho vontade de ser vento… Ser vento significa voar para a liberdade… Ser a brisa do mar a tocar seu rosto…
Ser fogo… Queimar meu coração em suas próprias chamas, até reduzi-lo a cinzas, e depois como uma Fênix, delas renascer… Não adiantaria muito, renasceria te amando do mesmo jeito… Mas a jornada seria interessante, pois ao queimar meu coração, talvez conseguisse purificar esse amor, deixando dele apenas as boas lembranças e queimando toda a dor… É, talvez a dor não renascesse comigo, talvez renascesse apenas o Amor”

“Fale com ela”

Quarta feira é o dia da semana que nos faz pensar que (a) A semana está passando rápido e eu ainda não fiz tudo que eu precisava e (b) o final de semana está finalmente chegando. É o dia que marca a metade da semana (se considerarmos como semana apenas os dias úteis). Já é merecido um descanso após o trabalho, porém a quinta feira impede que este “descanso” se torne um bar com amigos ou uma baladinha. Então, porque não assistir um bom filme em casa após o trabalho? Você, seu sofá, suas guloseimas favoritas… Há várias opções interessantes por aí e, por isso, toda quarta-feira será o dia de ler sobre filmes aqui no “Devaneios e Poesias”.

 

Filme da semana: Fale com ela (Direção Pedro Almodóvar, 2002)

             Dois homens tendo que lidar com o destino das mulheres amadas: Ambas em coma irreversível. Benigno é um enfermeiro que sempre alimentou um amor secreto por Alicia. Quando ela sofre um acidente e entra em coma, ele torna-se o enfermeiro dela. Marco é um jornalista. Sua namorada, a toureira Lydia, entrou em coma após um acidente na arena. Ambas, Lydia e Alice estão no mesmo hospital, porém enquanto Benigno trata Alicia como se ela estivesse consciente, contando-lhe seu dia a dia e conversando, Marco permanece paralisado diante de Lydia.

           No decorrer do filme, Marco e Benigno tornam-se amigos e Benigno aconselha Marco “Fale com ela”.

            Explicar passo a passo o que acontece no filme seria tirar o prazer de assisti-lo. Aos que acreditam que a sinopse acima não é um roteiro interessante só há algo que se possa dizer: Estão enganados. Almodóvar apresenta os personagens de modo lento e denso e é impossível não querer saber o que acontecerá a cada um – e o destino do quarteto é imprevisível e surpreendente. Vale a pena assistir cada segundo desse filme clássico.

            O filme, vencedor do Oscar na categoria melhor roteiro (2003) conta com a participação de Caetano Veloso, além de ter um elenco incrível.

 

O diário de Mary (I)

BIANCA

“O Amor verdadeiro nos indica o caminho… Mesmo que seja uma trilha estreita entre as rochas, sempre iremos segui-la… Mesmo que para encontrá-lo, seja preciso mergulhar séculos, transpondo qualquer barreira… Mesmo assim, ele estará lá, uma pequena estrela na escuridão, brilhando e nos fazendo ir ao seu encontro”.

São Paulo, 02 de Junho de 1996, Domingo.

Atravesso a imensidão da noite. Sob o vento gelado meu corpo estremece, lembro-me de todas as histórias sobre criaturas da escuridão que já ouvi. Um ruído em meio ao silêncio me assusta. Sei que não deveria estar aqui, mas o impulso de vê-la é mais forte e eu não consigo me controlar e esperar até o dia amanhecer… Algo me atrai até sua casa quando eu poderia simplesmente esperar a aurora… O despertador me acordaria e após um banho, um café quentinho me esperaria na cozinha… Eu iria até o colégio, iríamos conversar passar o tempo, estudar, fazer bagunça com os amigos… Ela passaria a tarde comigo, em minha casa… Talvez um filme, e depois, no final da tarde, eu a acompanharia até a sua casa, na despedida, diria “não se esqueça de sonhar comigo esta noite” e ela, como sempre responderia “sonharei, como em todas as outras”. Voltaria caminhando ao acaso no crepúsculo e, antes que a noite viesse libertar suas criaturas Misteriosas, eu já estaria na segurança de meu lar. Escreveria um diário, um poema, uma carta… E no outro dia pela manhã, roubaria uma rosa vermelha no jardim do condomínio e iria entregar a ela, um poema e uma rosa… Sonho mais que perfeito… Não custa nada sonhar, acreditar, não é verdade?
Mas a realidade não é assim tão bela e doce… Trago em minhas mãos uma rosa, e um poema de amor, anônimo, não a amo, mas algo mais forte me leva a buscá-la nas noites frias e tenebrosas, tantas vezes já saí em sua busca à luz do luar, que já começo a me sentir como uma parte da noite. Não hesito em sair, apenas para deixar em sua porta uma rosa e um poema.
Não esqueço a primeira manhã em que, afoita, ela veio me contar que tinha um admirador secreto… E me mostrar os lindos versos que recebera… Eu até ri daquele pobre poema sem rima, sem métrica… Mas ela disse que isso não importava, não esqueço suas palavras:
“-O que importa é o sentimento de quem escreveu o poema, e não a sua perfeição métrica, suas rimas ricas ou qualquer outra técnica.”
Que vontade louca de dizer simplesmente   -Fui eu quem escreveu!
Novamente um ruído vem me tirar de meus sonhos e me chamar de volta à realidade. Faltam apenas cinco minutos para meia-noite, as ruas estão desertas… Nossos prédios ficam próximos um ao outro, apenas uns dois quarteirões de distância, mas apesar de estarmos em São Paulo, a cidade que nunca dorme, essa região é deserta, principalmente nas noites frias de Junho.
Em frente ao seu prédio, espero uma distração do porteiro… Passei semanas estudando atentamente o sistema de câmeras, para poder entrar sem ser notada… Um automóvel chega, abre o portão da garagem… Aproveito a brecha e consigo entrar… Pé ante pé, vou subindo pela escada de emergência até o décimo andar. Deixo a rosa e o envelope, com um poema à porta da morada daquela a quem eu deveria amar, e silenciosamente, como cheguei, me retiro. Devo retornar rapidamente, tenho medo que meus pais acordem e percebam a minha ausência, não seria nada fácil explicar onde estava a estas horas…
 
É estranho, mas todas as noites quando saio de casa tenho me sentido observada, como se algo me seguisse, escondido no silêncio das trevas noturnas… É uma presença forte, quase posso senti-la, mas não consigo explicar o que é… Faz-me sentir tamanha angustia, e ao mesmo tempo, é como se nada pudesse me atingir…
Nem sei para que escrevo um diário, meus dias são todos iguais. O que pode acontecer de novo na vida de uma garota de dezesseis anos?
Hoje faz um mês que, religiosamente, a cada noite, encontro uma maneira de deixar o meu prédio e invadir o prédio dela, apenas para entregar uma rosa vermelha, símbolo da paixão ardente… Uma gota de meu sangue, que escorre dentro do meu coração a cada vez que a ouço falar dos garotos com quem ela fica…
Esse é o poema que escrevi para ela hoje… É meio tosco… Não sou nenhum Camões… Gostaria de saber brincar com as palavras, fazê-las ganhar vida… Mas não consigo… Enfim, o importante é que eu sei que ela gosta do que eu escrevo… Estive em sua casa hoje à tarde, tive que segurar minhas lágrimas de emoção quando ela me mostrou uma caixinha cor-de-rosa, onde guarda um caderno com todos os meus poemas colados, e também as rosas, para que sequem e fiquem para sempre ali… Ela me confessou que, aos poucos está se apaixonando pelo autor das poesias… Qual será sua reação ao saber que se trata de uma autora, sua melhor amiga e a única pessoa que será capaz de amá-la acima de tudo, neste ou em qualquer outro mundo?

Minha vida sem você é uma luz que
Está sempre apagada
Um barco perdido em

Alto-Mar
Mirante sem paisagem
Onde ninguém gosta de ficar, é flor sem
Raiz, pois seu amor é a raiz que me faz florescer…

O mais estranho em tudo isso, é que simplesmente, eu não amo Emanuela… Às vezes sinto que a mesma presença que me persegue nas ruas escuras é que me dita cada palavra que escrevo.  Até mesmo neste diário… Às vezes, quando paro e leio tudo o que escrevi, não reconheço minhas próprias palavras… A letra é minha, mas não fui eu quem escreveu… Algo me impulsiona a escrever, a sair furtivamente do meu quarto, do meu apartamento, a roubar uma rosa no jardim, a arriscar-me nessas ruas desertas e frias, a encontrar uma maneira de entrar sem ser vista naquele prédio e deixar uma rosa e um poema… O que pode estar acontecendo comigo? Dupla personalidade? Quantas eu sou afinal?

(Continua semana que vem)

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Gostou? Adquira o livro:

https://www.clubedeautores.com.br/book/148954–Bianca?topic=literaturanacional#.U83moPRDvEo

 

Dicas Literárias: Nunca lhe prometi um jardim de rosas

Nunca lhe prometi

Deborah é uma garota judia de 16 anos, bonita, inteligente e está sendo levada pelos pais, Esther e Jacob para um hospital psiquiátrico. Até onde as experiências vividas na infância interferem sobre a saúde mental de um indivíduo? Qual o papel da família? O amor sufocante e as expectativas geradas pelos pais e parentes próximos podem prejudicar mais do que ajudar o desenvolvimento? E as experiências vividas em sociedade? Nas quase 300 páginas de “Nunca lhe prometi um jardim de rosas” Hanna Green aborda estes temas através de Deborah, que pouco a pouco se vai distanciando da realidade do mundo, trocando-o por Yr, seu mundo imaginário até ser internada em um hospital psiquiátrico, diagnosticada como portadora de esquizofrenia.

O livro não apresenta uma narrativa linear. Não narra a infância de Deborah, sua adolescência, sua internação e seu final de forma ordenada. As informações vão sendo aos poucos extraídas pela psiquiatra, Dra. Fried. Cada sessão parece ao mesmo tempo um alívio e uma tortura para Deborah e cada passo para longe do abismo parece preceder dois em direção a ele. Deborah, em seus momentos de lucidez, muitas vezes parece filosofar sobre a própria situação, bem como sobre a situação das demais pacientes. Há uma descrição detalhada do ambiente hospitalar, suas alas, seus funcionários e sua relação com os pacientes, relação esta muitas vezes de medo, nojo, raiva e, em alguns casos carinho e dedicação; os cuidadores muitas vezes acabam também influenciados pelas doenças tratadas – ao ponto de tornarem-se doentes também.

É uma leitura interessante e densa. Nada de floreios poéticos. Faz pensar no papel da família e da sociedade na formação do individuo e em sua saúde mental. Escrito em 1964, pela autora americana Joanne Greenberg sob o pseudônimo de “Hanna Green”, a obra ganhou uma versão cinematográfica em 1977.

Vale a pena conferir.

Inegável

Negar o inegável
E disfarçar o óbvio
Já não adianta mais
Calar do coração
A canção

Perder-me em teu olhar
E em teu corpo me encontrar
Não, tarde demais
Para tentar matar o sentimento
Imortal
Mesmo que ele me seja fatal

Risco não calculado
Amar-te demais
E não poder em meus braços
Reter-te
E nos teus
Deter-me

 

PS: Este é um poema um pouco antigo, um dos meus primeiros, por isso decidi inaugurar a categoria “poesias” deste blog com ele.  Publiquei também uma pequena montagem dele com imagem retirada da internet, para o caso de alguém desejar compartilhar apenas a poesia.

 

 

Gavetas

penas

 

Estava arrumando algumas coisas em casa. Separando livros que já li e não lerei mais, roupas que não usarei mais… Até que comecei a arrumar uma gaveta de papéis… achei um monte de poemas que estavam lá, guardadinhos (com uma letra péssima que estou tentando decifrar até agora). Poemas que estão há meses esperando apenas a minha boa vontade de passá-los para o formato digital… Foi bom passar as mãos por aquelas folhas amarrotadas, rasuradas, manchadas… Elas trazem marcas iguais as marcas que se tornaram cicatrizes em minha alma… Sim, a maioria dos poemas são exatamente cicatrizes de algo guardado no fundo da alma, bem verdade, existem poemas que nada significam, mas são poemas antigos, e a prova disso é que os escrevi numa época onde as palavras “amor”, “dor” e “solidão” nada significavam para mim… Mas estes poemas que encontrei na gaveta são tão especiais e belos quanto toda a solidão e melancolia que carregam em si. Talvez daqui alguns meses eu tenha coragem de compartilhá-los… Talvez… Enquanto isso continuarei escrevendo meus textos, meus devaneios… E, em breve, começarei a postar aqui no blog alguns escritos bem antigos…

Entretanto, o importante em tudo isso foi perceber que a nossa alma é como a gaveta que eu mexi hoje, guarda em lugares improváveis lembranças tão belas que nos fazem ficar com os olhos rasos d’água…

Caro leitor, fica aqui uma pergunta: quando foi a última vez que você remexeu as gavetas da sua alma? O que encontrou lá te agradou? é sempre bom pensar…

 

Imagem: Internet