Sobre escrever e criar.

Escrever é derramar a alma sobre o papel (ou sobre o teclado do computador). É mostrar ao mundo o mundo todo que existe dentro da alma e do coração. Parece fácil? Parece. Mas não é. É impossível? Não. É difícil? No início sim, é bem difícil. Mas com o tempo vai melhorando.

Algumas vezes as pessoas que acompanham minhas postagens me perguntam coisas como “onde você arranja inspiração”, “como consegue criar tudo isso”, “já viveu as experiências relatadas pelos personagens” etc.  Não sou exemplo para ninguém, não sou uma escritora profissional. Não escrevi nenhum livro de sucesso. Meu blog/página tem poucos seguidores por enquanto, então, certamente não sou a pessoa mais adequada do universo para responder tantas perguntas. Entretanto, vou tentar deixar algumas dicas de como eu faço para escrever.

Romances:

Em geral, são obras longas  e exigem muita atenção para não se atropelar o tempo ou deixar “pontas” soltas, personagens sem nexo e tramas sem final. Acredito que o ideal é começar escrevendo contos curtinhos para ganhar experiência porém eu mesma nunca escrevi um conto por um motivo bem simples: Gosto de descrever locais, pessoas, situações. E essa minha mania deixa os textos mais longos. O primeiro romance que escrevi, Valeska – um amor proibido, tem alguns erros em relação a passagem do tempo. Ele foi publicado em um blog anterior há anos. Hoje, penso seriamente em retomá-lo e corrigir as falhas antes de publicar novamente.

Se você pretende escrever algo do gênero, seguem algumas dicas:

  •  Utilize o computador: Além de ser mais ecológico, é mais prático. Você irá escrever, apagar, errar, rabiscar muito. Quanto papel seria utilizado para fazer um rascunho para um livro de 100 páginas? Você pode criar uma pasta nos seus documentos, com o título do romance.
  • Defina uma linha do tempo: Marque aproximadamente em que ano sua história irá se iniciar. Se for necessário “voltar no tempo”, marque os pontos em que isso acontece, definindo o período mais antigo que a história atingirá. Marque também quanto tempo se passa entre o início da história e os dias atuais, pois caso deseje imprimir algum realismo à história, saberá qual é o tempo que tem para desenrolar a trama.
  • Defina os personagens principais. Quem são? Defina tudo o que puder. Idade, aparência física, interesses, relação com outros personagens. Quem já jogou RPG pode montar “fichas” para os personagens da história. Isso facilita bastante. Se quiser, pode montar, dentro daquela pasta que sugeri no item 1, várias subpastas com dados sobre o personagem. Salvar fotos de locais onde a ação se passa, objetos relacionados ao personagem, figurinos que ele usaria se fosse real, vale tudo para ajudar a imaginação.
  • Pesquise os períodos históricos em que a trama irá se passar. Não se limite aos livros de história. Vá mais fundo e procure informações sobre cultura, sociedade e comportamento das pessoas no período e no local que irá ambientar a obra.
  • Defina quem irá narrar a história. Será um romance epistolar? Será narrado pelo personagem principal? Será em terceira pessoa? Cada um tem maior facilidade com um tipo de narrativa.
  • Defina o início, meio e fim. Pode escrever num documento do Word criando tópicos: a história começa em tal lugar, quando tal e tal personagem interagem de tal e tal forma. Essa interação leva a tal e tal efeito. No desenrolar, aparecem as personagens “x”, “y”, “z”. No final, acontece tal coisa e a história termina. Definir esse “esqueleto” te deixa livre para trabalhar situações sem se perder.
  • Se for uma história de ficção ou fantasia, não esqueça de fazer “fichas” dos eventuais mundos paralelos, cidades fictícias, criaturas fantásticas e etc.
  • Não dê títulos aos capítulos. Vá escrevendo. Quando chegar ao final, ai sim releia tudo e dê nomes aos capítulos, se assim desejar.
  • Tome muito cuidado com a ortografia. Não há nada pior para o leitor do que encontrar erros durante a leitura.
  • Não descarte trechos. Às vezes, escreve-se muito e tem-se a impressão de que aquele trecho perfeito “não cabe” na história. Copie, cole em outro documento e guarde-o na pasta citada no primeiro tópico. Você pode querer utilizá-lo mais para frente.
  • Não tenha pressa de acabar. Segure a ansiedade. Releia muitas vezes. Isso não significa que você deve ficar procurando erros e mais erros nem que deve escrever “de vez em nunca”. Se algo o impulsionou a criar uma história, tente escrever regularmente antes que o assunto deixe de te interessar.
  • Cuidado: Muitas vezes espelhamos nossos sonhos e desejos na hora de criar personagens. Também é comum “inspirarmos” personagens em pessoas que admiramos muito. Isso pode criar situações constrangedoras se ficar muito explícito que a personagem se baseou em você e naquele amigo pelo qual é apaixonada. Ou se a vilã foi inspirada em algum colega pelo qual você nutra antipatia. Lembre-se que seus primeiros leitores serão provavelmente amigos e familiares. Eles te conhecem e podem reconhecer pessoas ou situações.
  • Ainda sobre o tópico 12: Não é preciso viver situações para descrevê-las. É difícil explicar isso para as pessoas, mas, não é porque você criou uma personagem extremamente maldosa que você é uma pessoa má. Dependendo dos personagens que criar, as pessoas irão te perguntar o motivo pelo qual escreveu tal ou tal coisa. Vão te perguntar se agiria igual. Vão querer saber se já experimentou as mesmas experiências. É normal. Simplesmente explique que pesquisou muito, leu blogs, livros, textos, assistiu filmes e documentários e, de posse deste conhecimento, criou seu personagem.
  • Mantenha sempre por perto um bloquinho. Você não sabe quando vai surgir uma super idéia!
  • Leia, leia, leia: da leitura se apreende idéias, vocabulário, desenvoltura literária.
  • Escreva sempre. Escrever aprende-se escrevendo, criar aprende-se criando

Poesias:

Dar dicas sobre poesias é mais difícil. Poesia é algo que nasce de dentro. É o derramamento mais puro da alma. É possível fazer poesia a partir de um tema especificado por outra pessoa? Até é. Mas não é fácil. Algumas dicas para escrever poesias:

  • Caderno ou computador? Tanto faz. Pessoalmente, tenho preferência pelo uso de cadernos quando estou escrevendo. Passa uma impressão mais intimista. Depois passo tudo para o computador.
  • Rimas? Versos? Sonetos? Cada um escreve do jeito que prefere. O interessante é se desafiar. Estudar teoria literária e tentar de vez em quando se “encaixar” naquilo que cada estilo pede. Há versos livres fantásticos assim como há sonetos incríveis.
  • Crie conceitos: antes de escrever, rascunhe algo. É comum utilizar metáforas em poesias. Delimite alguma assim fica mais fácil trabalhar as idéias.
  • Poesia é sentimento. Dificilmente irá conseguir escrever algo feliz se estiver num dia baixo astral. Ou algo triste em um momento muito feliz.

Salientando o que eu disse no início deste texto: Essas dicas funcionam para mim. Cada pessoa tem um ritmo, uma dinâmica diferente. Seja como for, espero ter ajudado.  Mãos a obra! Espero ver vários textos em um futuro próximo. Tentem e me enviem! Ficarei muito feliz em descobrir a criatividade dos meus amigos e leitores!

Pedacinhos de mim

Pedacinhos de mim
Simples assim
E complexo
Reflexo

Espelho quebrado
Sete anos de azar
Um coração partido
Com sede de amar

Espalhados estão meus pedaços
Nos olhos tristes dos palhaços
Em palavras ao vento
Perdidas em doce lamento

Palavras de lábios cor de carmim
Suaves, como dizendo assim:
Desejo impetuoso herói
Que me tome o corpo e o sexo
A alma, a essência e mostre que não
O sentimento não é complexo

O coração machucado
Irá se curar
E a tristeza é tempo ido
Que jamais vai voltar

Já não estão tristes os palhaços
Você juntará meus pedaços
E como por encanto
Desaparecerá, e em seu lugar novamente ficará
Apenas um suspiro, um lamento.

Quem canta seus males espanta.

Já diz a antiga sabedoria “Quem canta seus males espanta”. Ontem, 26/08/2014 em Sessão Solene instaurada para comemorar o “Dia do Coral” (instituído em Santos pela Lei Municipal 2157/2003), foi possível sentir a veracidade do ditado popular. O Teatro Guarani, tradicional na cidade, tornou-se palco para a apresentação de alguns corais, dentre eles o Coral Canto Livre e o Coral Infantil da Legião da Boa Vontade.

            Como integrante do Coral Canto Livre, posso dizer que foi uma grande emoção estar no palco do Teatro Guarani, não só pela oportunidade maravilhosa de cantar, mas, principalmente por ver frutificar em tão bela apresentação o esforço de todos os integrantes, do tecladista Décio e da maestrina, D. Meire.

            Como espectadora, não há como negar a emoção diante da apresentação dos outros corais, especialmente o da Legião da Boa Vontade, formado por crianças e adolescentes.

            Foram ao todo seis apresentações, sendo cinco de corais da cidade e uma da banda infanto-juvenil “Quero”. E a cada canção foi possível sentir a dedicação de todos que ali estavam. Música não é apenas uma fórmula pronta. Cantar ou tocar é dividir um pouco da sua alma com quem está ali para assistir. Cantar em grupo é dividir suas emoções com cada colega em cada ensaio, e, justamente toda essa dedicação e entrega faz com que cantar espante os males da alma. E assistir outras pessoas cantarem faz muitas vezes com que os olhos se encham d’água, lavando a alma das tensões desnecessárias acumuladas no dia-a-dia. Enquanto houver no mundo professores que se dediquem a ensinar a Arte da música e alunos que desejem aprender, haverá uma luz e esperança de um futuro melhor.

            Fica aqui a homenagem a todos os cantores, regentes e músicos que, profissionalmente ou não dedicam seu tempo a aprender, ensinar, ensaiar e apresentar-se, fazendo os dias mais belos e esperançosos!

No vídeo, apresentação do Coral Canto Livre interpretando a canção Ameno, do grupo Era. 

 

LGBT: Até quando será necessário lutar para mostrar à sociedade que o Amor deve ser livre?

LGBT blog

Ontem um trecho da Avenida Ana Costa (Santos/SP/Brasil) foi palco de uma grande concentração de pessoas. Jovens, adultos, homens, mulheres, negros e brancos reunidos por um objetivo comum: Protestar contra a atitude homofóbica. Depois de pouco mais de uma hora confeccionando cartazes, conversando e fazendo amigos, finalmente partem em marcha sob a flâmula do arco-íris e entoando gritos de guerra como “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser”, “homofobia mata”, “Pula saí do chão quem é contra a opressão”, “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Destino? O Bar Toca do Garga, que havia expulsado um casal homossexual do estabelecimento. Foi uma caminhada pacífica, assim como foi pacífica a manifestação em frente ao bar, que terminou num grande “beijaço LGBT”. Mudou a opinião intima dos freqüentadores daquele espaço? Do dono do bar? Acredito infelizmente não, porém, talvez faça com que tais pessoas (e outras que acompanharam o caso todo) pensem duas vezes antes de tomar uma atitude discriminatória.

Foi bonito ver a união. Foi incrível conhecer o movimento Mães Pela Igualdade, formado por mães de homossexuais que querem ajudar a garantir que seus filhos tenham um lugar seguro na sociedade, que não sofram violência física ou moral. É pedir muito? Acho que não. Foi incrível ver heterossexuais por lá também, conscientes de que as diferenças DEVEM ser respeitadas, de que a espécie humana é uma só e todos merecem compartilhar este mundo com igualdade.

É triste pensar que em pleno século XXI a humanidade já conquistou tantas coisas, mas não conquistou ainda o respeito pelo semelhante. Ainda é preciso se reunir, marchar e lutar por um mundo onde o amor seja livre? Onde cada um busque a sua felicidade da forma que melhor lhe apraz? Qual o sentido de discriminar o próximo pelo que ele faz em sua vida pessoal? É engraçado como as pessoas falam tanto em amor, amor, amor e não conseguem aceitar que não existe uma só forma de amar.

Participei do ato de ontem com orgulho e vou participar de quantos atos forem necessários até que a sociedade entenda que o amor não se prende a gênero. Até que seja comum ver pessoas de mãos dadas pelas ruas. Ver beijos trocados nos encontros e despedidas, nos bares, nas baladinhas sem que isso seja motivo de escárnio, ódio ou choque. Até que não mais seja necessário levantar uma bandeira para lutar por direitos. Até que o arco-íris possa ser erguido com orgulho sim, mas não como luta e sim como comemoração!

 

Créditos da Imagem: Julio I. 

 

Viajarei nos raios do Sol

 Viajarei nos raios do Sol - Publicada

Viajarei nos raios do Sol
E me deixarei levar pelo vento
Dormirei sob o paiol
Nas noites sem alento

Amarei sem limites
Tentando dar vida
A meus olhos tristes
Pela dor de tua partida

Lágrimas a cair
Fertilizando a terra árida
Ao longe, cães a ganir
Como adivinhando a dor invisível
Ferida incurável
Fato imutável palpita em minha alma gélida

O vento a sussurrar
Um último lamento
Grandes árvores sob ele se curvam a chorar
Ah! Dor, d’alma alimento…

Dicas literárias: Orgulho e Preconceito (Jane Austen)

OrgulhoePreconceito-

 

(Atenção: Contém revelações sobre o livro) 

 

A autora Jane Austen nasceu em Steventon, Hampshire em 1775 e começou a escrever ainda adolescente, apenas por diversão. Sua saúde sempre fora frágil e, em 1817 veio a falecer aos 42 anos. Alguns de seus romances mais conhecidos são Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito.

 

Jane Austen retrata costumes de sua época. O romance conta a história da família Bennet, uma família simples do interior da Inglaterra, formada pelo pai, pela mãe e por cinco irmãs: Elizabeth Bennet, Jane Bennet, Mary Bennet, Kitty Bennet e Lydia Bennet. O romance é narrado em primeira pessoa (pela voz de Elizabeth Bennet) e em terceira pessoa; quanto aos personagens, apresentam grandes peculiaridades. Elizabeth Bennet é uma mulher instruída e muito observadora, extremamente sensata e a filha preferida do sr. Bennet. Jane é a mais velha das irmãs e a mais bela delas, também é uma mulher sensata, de educação esmerada e modos comedidos. Mary é excessivamente instruída, em uma linguagem moderna, seria a verdadeira “Nerd”, sempre lendo e resumindo os livros aos quais se dedicou. Kitty e Lydia são as irmãs mais novas de“maus” modos, são namoradeiras e seu único interesse é ir até o condado vizinho ver os oficiais que lá estão acampados. O sr. Bennet é homem de poucas palavras, de humor bom, mas ao mesmo tempo sagaz. A sra. Bennet é a mãe que deseja desesperadamente casar as filhas; a boa esposa preocupada por saber que por lei a casa onde vivem não lhes pertencerá após a morte do esposo, já que não tiveram um filho varão que a pudesse herdar.

 

Toda a ação do livro começa com a boa sra. Bennet pedindo que o marido vá visitar o novo vizinho, sr. Charles Bingley, homem jovem e de bons rendimentos, que mudou-se para a propriedade próxima a eles. Sua intenção: Travar boas relações com o jovem desconhecido na intenção de casar uma das filhas. Após uma pretensa recusa (apenas para irritar a esposa) o sr. Bennet faz a tal visita. É inegável o encantamento do sr. Bingley com a jovem Jane Bennet. Ocorre que Bingley tem um grande amigo: Fritzwilliam Darcy, homem de modos arredios e aparentemente muito orgulhoso. Assim como Elizabeth Bennet, Darcy é instruído, observador e sagaz e, durante cada encontro com a moça, pode-se notar uma severa disputa de opiniões/pontos de vista. A sociedade interiorana em que vivem as irmãs Bennet sem mais explicações rotula os rapazes: Bingley é o bom garoto que todas desejam como genro; Darcy é o homem rico, desagradável e de maus-modos.  Outro personagem engraçado é o sr. Collins, tio das meninas Bennet e protegido de Lady Catherine (Tia do Sr. Darcy) que o escolheu para reitoria da paróquia de sua propriedade: Sr. Collins é o herdeiro legal da propriedade onde residem os Bennet e, procurando uma esposa, encanta-se com Elizabeth, que o recusa para desespero da mãe. Ele é o tipo de homem enfadonho, de horizontes fechados. Acaba casando-se com a amiga de Elizabeth.

A história desenrola-se num ritmo constante e agradável e leitores que possuam imaginação aflorada quase conseguem “ouvir” a srta. Bennet “narrando” a história. Não é a toa que o livro ganhou adaptações para o teatro e televisão, inspirou vários outros trabalhos literários, além de ter sido adaptado quatro vezes para o cinema, nos anos de 1940, 2003, 2004 e 2005. 

O vocabulário é bem trabalhado, mas não é de difícil compreensão, o que o faz adequado para pessoas de todas as idades. Especialmente, eu indicaria este livro como um bom presente para jovens a partir dos doze anos de idade por conter elementos como romance e intrigas, temas que sempre despertam o interesse de adolescentes. 

 

 

Bom dia, Segunda- Feira.

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Mais uma semana pela frente. Rotina, trabalho, cansaço. Tudo parece destinado a se repetir de novo, de novo e de novo. Algumas vezes, pode até parecer um insulto quando saímos de casa bem cedinho e alguém nos diz “bom dia” – respondemos apenas porque assim manda a educação e pensamos “o que tem de bom? Estou atrasado, meu dia vai ser cheio etc.” Mas, no fundo no fundo, se pensarmos bem, poderia ser muito pior.  Vamos pensar:

            Imagine uma segunda feira perfeita – Você não tem hora para acordar, você vai até a cozinha e tem tudo aquilo que mais gosta para o café da manhã. Sai de casa a hora que quer ou simplesmente não sai. Encontra amigos, dá risada, assiste a seus programas favoritos, ouve suas canções favoritas. Nada, absolutamente nada foge a seu controle. Perfeito não? Pode até parecer que sim. Mas imagine isso se repetindo na terça, quarta, quinta, sexta feira! No final de semana! Na semana seguinte? No próximo mês? Que tédio seria!

            Muitas vezes as coisas fogem ao controle e é difícil manter o bom humor ao longo do dia – quem nunca quis voltar pra casa e se trancar no quarto escuro que atire a primeira pedra! Somos humanos, imperfeitos, vamos sair de casa a cada dia e tropeçar, vamos nos ferir e nos magoar e, inevitavelmente, sem querer, vamos ferir e magoar outras pessoas (até sem nos dar conta disso). Faz parte da vida e, certamente é melhor que seja assim!

            O despertador tocando quase de madrugada pode servir para estragar o resto do dia ou pode ser um convite para apreciar o friozinho matinal, o cheiro do café fresquinho e as cores de um novo dia. Aquele trânsito que atrasa o nosso dia pode ser um momento só nosso para pensar e buscar memórias que nos façam sorrir e ganhar forças para o dia que está começando. Temos que ir para o trabalho? É, muitas vezes é chato, mas se não existisse trabalho, não haveria porque esperar tanto pelo final de semana, e, por algum motivo, coisas pelas quais não tempos que esperar não parecem assim tão atraentes, não é mesmo?

            Então, seja como for o seu dia, sorria! Mais uma semana está começando, cheia de oportunidades de viver pequenas coisas novas. Errou? Tente corrigir! Deu saudade de alguém? Ligue, deixe um recado, diga isso para a pessoa. Abrace mais, ria mais e chore se der vontade. Seja como for, viva! Talvez eu não siga meus próprios conselhos e já esteja “surtando” e com um péssimo humor antes mesmo do relógio marcar meio dia, mas, o que vale é tentar, não é mesmo?

O poeta

FÊNIX

“E no inicio de tudo, apenas o Caos donde surgiu o mundo, e dele as palavras para que delas cada alma pudesse criar seu próprio mundo. E às almas que aceitaram o desafio de criar seu próprio mundo deu-se o nome de poetas. Ah, os poetas… Falam de Amor. Conhecem o Amor? Falam os poetas de amor antes de conhece-lo. Constroem n’alma sua imagem.
E numa rosada aurora, ou numa noite enluarada (tanto faz…doerá do mesmo jeito!) o poeta conhecerá o Amor. E nas asas do Amor subirá aos céus da paixão e pousará no cume das cordilheiras do desejo. Mas pode acontecer do vendaval do ciume e/ou da tempestade do abandono vir e arremesá-lo novamente ao abismo da solidão. E então o sangue do poeta, do Amor ferido, será a tinta que desenha as palavras sobre a imaculada folha de papel. O sangue do poeta fecunda a Terra para que o Amor possa sempre renascer. E assim, morrendo aos poucos, do céu atirado ao reino de Hades, o poeta verá sua alma perecer e consumir-se nas chamas da solitária paixão não mais correspondida e, tal qual a Fênix o poeta irá renascer para que sua alma possa novamente o Amor conhecer…”

Dicas Literárias: A Carne (Julio Ribeiro)

A carne

A obra ambienta-se no Brasil, na época do império e da escravidão, aborda a sociedade brasileira e seus costumes em relação à educação das moças e ao casamento. Utiliza-se de conhecimentos científicos adquiridos pelas personagens para tomar ritmo em certos pontos e, apesar de tratar-se de um romance, foge muito à linguagem poética esperada deste tipo de obra. Lenita não idealiza o amor da mesma forma que outras moças da sua idade o fariam, pelo contrário, evita-o, não tem o desejo de casar-se e quando sente pela primeira vez a vontade de ter um homem junto a si, descreve quase com frieza as razões – sabe que caso se case terá filhos que dependerão dela, em outro ponto fica muito claro ao leitor que a moça sabe que se trata de uma questão biológica, a fêmea procurando por seu macho. Mesmo em sua momentânea decepção ao conhecer Barbosa, homem que ela tanto vinha imaginando e desejando conhecer, não há grandes rompantes de emoção. Em relação a Barbosa o mesmo se passa durante a narrativa: Divorciado da primeira mulher apaixona-se por Lenita concluindo que “não consegue estar longe da rapariga”, mas também por parte dele não há durante toda a narrativa grandes arroubos sentimentais. É quase uma narrativa lógica, linear, onde os próprios personagens, instruídos que são, ocupam-se em explicar o próprio estado de espírito. As personagens principais são Lenita e Barbosa, as outras personagens servem de apoio à narrativa, sem grande participação ativa, servindo vez ou outra para que os personagens possam mostrar seus conhecimentos.

Os personagens são simples: Introduz-se o romance contando a vida do Dr. Lopes Matoso, bem sucedido, órfão aos 18 anos, pouco tempo após casar-se perde a esposa, morta de parto. Viúvo, pai de uma menina – Lenita – decide mudar-se para uma chácara, isolando-se da cidade e de boa parte dos amigos. Lenita cresceu cercada pelos cuidados do pai e por uma educação primorosa, superior à das meninas de sua época, conhecedora das ciências, das artes e de alguns idiomas, além de praticante de equitação e ginástica. Ao chegar ao período da juventude (o livro não se refere assim, mas subentende-se que se trata do período da adolescência), Dr. Lopes Matoso volta à cidade com Lenita e começam a surgir os pedidos de casamento, sempre recusados por uma Lenita segura de si.

Ainda no primeiro capítulo, dá-se outra reviravolta na história: Dr. Lopes Matoso morre, deixando Lenita órfã. O isolamento e a tristeza a levam a refugiar-se na fazenda do Coronel Barbosa, antigo tutor de seu pai, idoso, doente de reumatismo, casado com uma octogenária que mal se movimentava e era meio surda. Os primeiros tempos da moça na fazenda são relativamente isolados, ainda cercados pelo luto, chegando ela inclusive a cair doente. A partir da recuperação da personagem, o autor passa a descrever uma mudança radical de comportamento na moça: Ela deixa de comportar-se de maneira viril, passa a sentir necessidade de se “afeminar”, volta a tocar piano, lê romances mais melosos, desinteressando-se temporariamente das ciências às quais antes se dedicava com afinco. Nessas alturas, Lenita tem o primeiro delírio erótico.

Observe-se que o casal idoso que acolheu Lenita tem um filho: Manoel Barbosa, já quarentão, ausente durante tempos em função das caçadas, viajado, bem instruído em idiomas, artes e ciências, casado com uma francesa da qual se divorciara por não agüentarem-se morando juntos. Manoel Barbosa é tema recorrente nas conversas da casa e Lenita, em sua solidão e influenciada pelas “necessidades da carne” começa a idealizar nele o homem ideal: belo, gentil, instruído e espera ansiosamente por sua chegada. Imagina-o semelhante à estatueta de bronze, muito máscula e viril com a qual teve pela primeira vez devaneios eróticos.

Novamente o autor modifica o comportamento da personagem: Vejamos, no início da narrativa, uma garotinha, órfã de mãe e excessivamente instruída (tal descrição nos é dada sem participação ativa de Lenita). A garotinha cresce e torna-se moça, em idade apropriada para o casamento, independente e forte o suficiente para recusar pretendentes, quase viril por seus interesses e atitudes. Após a morte do pai e o isolamento na fazendo do Coronel Barbosa, passa por uma fase em que toma hábitos mais femininos e experimenta pela primeira vez os desejos da carne, as necessidades do corpo que deveriam-na arrastar a um casamento. Novamente modifica-se o comportamento da personagem, que passa a comportar-se de maneira feminina (uso de perfumes, cuidados com os cabelos, roupas, etc.) e ao mesmo tempo viril (caminhadas e exercícios ao ar livre, caçadas, banhos de riacho).

A notícia da iminente chegada de Barbosa aflora ainda mais a imaginação de Lenita, que se veste e o espera o mais bela possível. Quando o conhece, uma grande decepção: Ele chega coberto de chuva e lama, recendendo a pinga, tomado por uma enxaqueca forte que o deixa quase indelicado. Segue-se uma narrativa do estado de espírito da moça – decepcionada com o homem que ela esperava ser “perfeito” e consigo mesma por ter-se deixado levar por estas fantasias, tão instruída que era. Novamente indisposta, enclausura-se em seu quarto (veremos no decorrer da narrativa que este parece um expediente comum: Tensão nervosa – doença/indisposição – refúgio no quarto) durante pelo menos dois dias.

Novamente Julio Ribeiro nos brinda com uma reviravolta na narrativa: Lenita e Manoel Barbosa (ou Barbosa, como será chamado na maior parte dos momentos) encontram-se no pomar, nascendo uma amizade intensa que os une em diversas atividades: estudos de botânica, ciências, línguas, literatura, passeios ao ar livre, experiências com eletricidade. Ela tem “certeza” de que o ama, ele mostra-se em certo ponto assustado pela consciência de que sem ela já não consegue mais viver. Uma viagem de urgência, a negócios o faz retirar-se para Santos, decidido a deixar morrer qualquer sentimento que tivesse por Lenita, já que não poderia desposá-la (ressalte-se aqui: O livro se passa na época em que ainda havia escravos no Brasil, portanto a noção de moral e costumes era diferente: Mesmo divorciado, o homem não poderia casar-se novamente e os relacionamentos entre não-casados eram condenados pela sociedade).

Quando retorna, Barbosa encontra Lenita caçando e esta atividade passa a ser diária. Lenita desdobra-se em cuidados com ele e ele com ela. Certo dia, ele prepara um abrigo e uma ceva na mata (ceva: um local onde é deixado alimento, para atrair os animais), para atrair mamíferos maiores para que Lenita possa caçar. Inicialmente corre tudo como o planejado, Lenita fica feliz, a caçada é um sucesso; dias depois, ela vai sozinha à ceva e acaba sendo picada por uma cascavel. Neste trecho do livro é interessante notar a noção de auto-socorro da moça, que imediatamente faz o que chamamos garrote na própria perna (fazer garrote consiste em amarrar fortemente um membro do corpo – no caso o membro onde se sofreu a picada do animal venenoso – de forma a dificultar a circulação do sangue para outras partes). Chamado pela escrava para socorrê-la, Barbosa suga parte do veneno e leva-a para casa, velando-a durante toda a noite e tratando-a de acordo com seus conhecimentos elementares de medicina. Lenita acredita que irá morrer, apesar dos cuidados de Barbosa e acaba por confessar-lhe que o ama.

Lenita sobrevive, mas operam-se mudanças em seu comportamento. Tal qual no início de sua estadia na fazenda, ela torna-se meditativa, lânguida, perde muito de sua vontade de estudar, não caça; Barbosa também modifica sutilmente seu comportamento. Ele deseja Lenita, está mesmo decidido a tomá-la por amante, porém não tem a coragem necessária para tal feito e é por iniciativa de Lenita que ocorre a primeira relação sexual do casal, que passa então a encontrar-se em segredo todas as noites. Um acidente na fazenda faz com que Barbosa precise viajar e, Lenita, ajeitando seu quarto acaba encontrando recordações de outras mulheres. Tal descoberta a deixa transtornada e, novamente diante de uma lógica inesperada ela percebe que seu humor tem tido alterações freqüentes, bem como que tem enjoado até mesmo com o cheiro de Barbosa e, contando em seu calendário o tempo de atraso de suas regras (regras = menstruação) concluí que está grávida. Diante de tal fato, muda-se para São Paulo. Barbosa, ao voltar para a fazenda descobre a partida de Lenita, sem, no entanto entender. Mostra-se triste e pensa em suicídio, mas mantém-se calmo . Tempos depois chega uma carta onde Lenita narra-lhe detalhadamente suas observações sobre a viagem e sobre São Paulo e explica-lhe que partiu por estar grávida e saber que seu filho precisaria de um pai que lhe pudesse dar um nome, que contatou um antigo pretendente de boa posição social que aceitou casar-se com ela e assumir a criança, que iria com ele para a Europa por um tempo e que quando a criança nascesse iria chamar-se Manoel ou Manoela. Neste ponto quebra-se pela primeira vez na narrativa toda a lógica dos personagens, a ponderação racional e científica. Barbosa sente-se usado, abandonado e sem forças para continuar e, utilizando-se das noções de química e medicina prepara uma injeção que o matará. O pensamento lógico retorna exatamente neste momento em que nada mais do que lágrimas e emoções são esperados: O veneno que Barbosa utilizou retira-lhe os movimentos e capacidade de se expressar, mas não a consciência e ele ouve o momento em que o pai entra em seu quarto e o vê sem movimentos e julgando-o morto grita “meu filho morreu”, vê o momento que sua mãe, como por milagre, pois a muito tempo não andava vai até ele e chora. Neste momento ele se dá conta do que fez, de que ainda possuía uma família, de que Lenita jamais o amara, que era apenas uma mulher instruída, bela e que o havia utilizado apenas para saciar suas necessidades fisiológicas e que não valia a pena morrer pelo amor de uma mulher como ela, porém é demasiado tarde, pois embora possuísse o antídoto do veneno, não havia ali quem soubesse e pudesse aplicar e ele mesmo estava impossibilitado de comunicar-se com quem quer que seja para explicar como salva-lo. E este é o fim de Barbosa: Preso em sua própria consciência, sem movimentos, aguardando a morte chegar.