Bolo de saudades e especiarias

“Domingo de manhã, aquecido de Sol e saudade. Aquele desejo infinito de amanhecer dentro de um abraço com cheiro de café e olhos de mistério. Abro a geladeira. Tem maçãs, laranja, passas. Ralo duas maçãs, espremo uma laranja junto e coloco uma colher de chia. Deixo num canto. O aroma das frutas traz lembranças doces. Em uma xícara, coloco metade de passas brancas picadas, metade de água. Pego uma bacia e misturo 1 xícara de farinha de arroz, 1/2 xícara de farinha de aveia, 1 colher de sopa de linhaça, 4 colheres de xerem (castanha de caju triturada), 1/2 colher de sopa de canela, 1/3 de colher de cravo em pó, kummel (mas poderia ser erva doce) e gengibre ralado. Misturo bem e depois acrescento os ingredientes úmidos que já estavam preparados, 2 colheres de óleo (se tiver de Coco, melhor), e por último o fermento, misturando bem. Despejo em uma forma untada e levo pro forno pré-aquecido. A casa toda é tomada por esse aroma de amor – Afinal, cozinhar é a arte de transformar afetos e saudades em poesia, nutrindo corpo e alma. O bolo cresce enquanto escrevo – penso sobre o título da receita: Bolo de saudades com especiarias.
Prepare com amor e uma dose de sonho”

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Leitura Sinistra

Minha “leitura sinistra” foge bastante ao tema, aliás, talvez nem seja considerada sinistra por muitas pessoas. Tenho algumas paixões na vida, entre elas estão os livros e a culinária – acho que quem me acompanha por aqui já sabe disso, né? Enfim, há um tempo, “adotei” na estante de doação de livros da biblioteca de Santos uma coleção de quatro livros cujo título é “Práticas do lar”.  São livros antigos, de capa dura já maltratada e páginas amareladas repletas de receitas para o dia a dia ou para ocasiões especiais, algumas com fotos e todas com “enfeitinhos” nas bordas da página. Até aí, tudo bem, certo? O que mais se esperaria de uma coleção chamada “Práticas do lar” além de receitas e dicas domésticas?. O fato é que apenas os três primeiros livros continham receitas, o quarto livro dedicava-se a tratar de “direitos e beleza da mulher”! E isso me incomodou terrivelmente! Como assim? Então uma coleção de práticas do lar é voltada apenas para a MULHER? Até onde eu saiba homens também comem, também recebem visitas, também se vestem e precisam sim cuidar da pele e cabelos? Ou não? Pois é! Achei sinistro perceber o quanto no ano de 1978 (ano do livro), era naturalizado o papel da mulher como alguém “do lar” e o quanto é ainda recente a conquista de alguns direitos que hoje temos. Pessoalmente, por mais que eu adore cozinhar e fazer agrados pras pessoas que amo (e sim, acredito que nesse e somente nesse sentido, se um dia eu me casar, vá ser a esposa que espera sempre o marido com uma comida gostosa pronta), não consigo me ver vivendo uma vida onde alguém decida tudo por mim e onde minhas obrigações sejam sempre relacionadas a beleza, casa e filhos. Assustador imaginar a vida feminina conforme descrita neste “volume 4” da coleção – E vou adiante: Acredito que deveria ser um pesadelo para o homem também, afinal, qual o prazer em viver com uma mulher que não acrescente nada a ele em termos de visão de mundo, experiências e independência? Acredito que em qualquer relação humana, o cuidar do outro deve ser separado do “manter o outro dependente e apático diante da vida”.

Sobre os outros três livros: As receitas antigas fariam meu contador de calorias explodir! Quanto açúcar e gordura de uma só vez! E quanta carne! Apesar disso, encontrei muita coisa que me deixou com água na boca e, certamente, pouco a pouco, farei adaptações para o veganismo e postarei por aqui!

E vocês? Quais reflexões trazem sobre essa questão da condição da mulher na sociedade através dos tempos? Também acharam a leitura sinistra?

sinistra

O que você deixou de ser quando cresceu?

Despertador tocou, noite morreu, amanheceu
O tempo passou, correu. O que aconteceu?
O que você deixou de ser quando cresceu?
Ficou no passado o sonho de princesa
Pula da cama depressa e põe o café na mesa
Arruma logo essa marmita e não esquece a sobremesa
E vê se corre pro ponto, não perde o horário da carruagem
Que já virou busão lotado e te assalta na passagem
Confere o visual, logo cedo passa batom e maquiagem
Salto alto pros pés que não encontraram sapato de cristal
Ta bonita? E tá cansada!Quanta correria pra quase nada no final
Se olhar pra cima, cadê o céu azul e as nuvens de algodão?
Só tem o teto e lâmpadas. Ou céu cinza, chuva ácida, poluição
Se olhar no espelho – Um susto! O tempo realmente voou
Onde, nesse percurso, tudo se perdeu? Onde será que ficou:
O sonho de ser bailarina, pirata, astronauta, caminhoneira?
E a alegria de ler um livro e depois desenhar a tarde inteira?
O que você deixou de ser quando cresceu?
Trocou os brinquedos por uma profissão
Mas ninguém te avisou que o trabalho seria sua prisão?
Deixou pra trás tantos sonhos, tantas estradas
Agora se perde nas escadas
Buscando o lugar mais alto da tal pirâmide social
Nem se importa mais se o mundo é desigual
Perdeu a empatia até pela natureza, pelo animal
O que será que aconteceu? Onde você se perdeu?
O que você deixou de ser quando cresceu?
A criança deixada numa curva qualquer
Reaparece no dia 12 de outubro em alguma fotografia
Se ela pudesse falar com você, o que será que diria?
Será que te olhando agora, ela iria se reconhecer?
E amanhã, e depois e depois? Até quando vai se arrastar?
O que você perdeu? O que deixou de ser quando cresceu?
O que eu, você, ele, nós, ela, o que todo mundo esqueceu?
Será que o sentido de viver é apenas sobreviver?
Olha pra trás e dessa vez tenta não esquecer
Que você pode (e deve) sim amadurecer
Mas não deve abandonar num canto da estrada
Aquela criança que sonhava acordada
E tinha no coração a esperança de fazer
De seu caminho, um novo alvorecer