Paixão Índia – Javier Moro

A maioria das meninas sonha viver um conto de fadas – as histórias mágicas onde garotas pobres ou princesas subjugadas por madrastas más transformam-se magicamente em princesas povoam a infância e acabam por moldar a adolescência das garotas mesmo com todos os esforços atualmente aplicados para que entendam que não dependem de príncipes ou magias para seguir seu caminho.

O livro Paixão Índia narra a história real da espanhola Anita Delgado e do que deveria ser seu conto de fadas – A jovem e pobre dançarina, moça de família católica conservadora torna-se de um dia para o outro o objeto de desejo do marajá de Kapurthala que vencendo a resistência da família da amada, acaba fazendo dela sua esposa. A história completa descortina não apenas a história de duas vidas que se cruzam, mas todo um panorama histórico-político bastante rico em detalhes sem que, no entanto, se torne tedioso.

Infelizmente os contos de fadas são apenas contos. Analisar a história de Anita mostra o ambiente machista e hostil no qual as mulheres viviam – Sem perspectivas adequadas por conta da pobreza de sua família, a jovem não se casa por ter-se apaixonado pelo noivo – o poder de tal escolha não lhe cabe inteiramente e a situação financeira da família faz com que optem por dar a ela sua melhor chance: O casamento com um príncipe estrangeiro que a levará para a Índia. Percebe-se o poço de solidão e insegurança no qual Anita é mergulhada – pode-se dizer que ela tem uma vida feliz com o marajá durante muitos anos a despeito de todo o panorama que os rodeia. O desfecho da história chega a parecer uma tragédia anunciada – mesmo não sendo tão trágico nem tão infeliz quanto poderia ter sido – E as reviravoltas nos lembram a todo tempo tratar-se de uma história real, onde a vida apresenta seus altos e baixos até que o último suspiro seja exalado e os olhos se fechem para sempre.

O autor espanhol realizou um excelente trabalho de pesquisa, o que nos permite conhecer a cultura indiana e um pouco do panorama geral da época em que Anita e o marajá viveram, tornando a história agradável e prendendo o leitor do início ao fim. Definitivamente é um livro que precisa entrar na lista de leituras das jovens que ainda ousam sonhar com príncipes encantados – um aviso de que nem sempre o “felizes para sempre” é um percurso agradável e também de que o “para sempre” é talvez um tempo curto demais perante a vida.

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Título: Paixão Índia

Autor: Moro, Javier

Ano:2006

Número de páginas: 387

Editora: Planeta

 

Sejamos sementes – Marielle presente!

Hoje é um daqueles dias em que escrevo um texto que gostaria não fosse necessário escrever – mas é quando tudo se torna caos e incerteza, quando tudo vai levando a vida para o torpe, vil e absurdo inferno é que as palavras e debates se fazem mais necessários. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) ocorrido na última quarta feira (14) é um destes fatos chocantes que não possibilita a tomada de nenhuma outra posição que não seja a indignação e o repúdio.

Marielle foi a menina pobre que, segundo os padrões elitistas e egoístas da sociedade “deu certo na vida”. Preta, lésbica, favelada, “cria da Maré” como se definia, Marielle estudou e militou pelos direitos humanos – inclusive pelos direitos das famílias de policiais militares vitimados pela violência. Eleita vereadora, Marielle não deu as costas aos seus – continuou sendo a mesma mulher guerreira, defendendo os que não tiveram oportunidade de construir suas próprias defesas e denunciando abusos. Seu caráter correto e sua luta foram seu maior legado – e a causa de sua morte com nove tiros de fuzil. O assassinato de uma mulher negra, periférica, lutadora é o pergaminho escrito com sangue, o recado dos poderosos ordenando que o povo se cale, abaixe a cabeça, trabalhe e siga em frente se reparar nos cadáveres de seus semelhantes, sem se indignar com as condições desumanas de vida, sem se revoltar com a corrupção e os abusos do Estado. E esse recado deve ser rasgado bem debaixo dos olhos do emissor – Sejamos sementes de luta – Onde uma cabeça for cortada, que se levantem milhões. Que as ruas sejam tomadas pela indignação e a luta prossiga em memória de tantas Marielles, de tantos Andersons, de tantos e tantas trabalhadoras e trabalhadores que foram vitimados em silêncio sem que houvesse comoção, de tantos e tantas lutadoras e lutadores que não se calaram na defesa pelos direitos do próximo. Mais uma vez o nome de uma guerreira foi escrito com sangue nas páginas da história brasileira – e se você não é capaz de se indignar com isso, desculpe te dizer, mas o seu caráter tem sérios problemas e é melhor você rever seus conceitos de vida, respeito e dignidade humana.

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Dica literária: Todos os homens são mortais – Simone de Beauvoir

Imortalidade –  Desde os primórdios a origem da vida e o destino após a morte são mistérios que amedrontam o homem. Mistério e medo – ingredientes mais que suficientes para suscitar o surgimento de mitos e histórias diversas. Viver para sempre, acompanhando cada mínima mudança ocorrida no mundo, intervindo no destino de seu país e de seus entes queridos, seria um dom? Seria uma benção ou uma maldição? Talvez, num primeiro momento, sem maiores questionamentos, beber uma poção da imortalidade, fosse o impulso humano. Trazemos sem dúvida em nosso âmago um enorme instinto de sobrevivência que nos faria beber sem titubear uma formula que nos prometesse a vida eterna. Além disso, nosso ego inflado sussurraria aos nossos ouvidos o quanto somos importantes, as coisas grandiosas que poderíamos fazer caso nosso tempo não fosse tão curto e nossa existência tão frágil.

Na obra todos os homens são mortais, Simone de Beauvoir se debruça sobre a questão da imortalidade. É um livro sobre a inexorável roda do tempo que gira pesadamente sobre a humanidade reduzindo impérios a pó e pessoas poderosas a lembranças que aos poucos vão se apagando perante o brilho de novos rumos e acontecimentos. Tudo gira em torno do poder, da ganância, do egoísmo. Se em um primeiro momento o Conde Fosca desejou a imortalidade por acreditar-se capaz de ser o melhor governante que Carmona poderia ter, o tempo e as perdas inevitáveis da vida irão lhe mostrar que mesmo a morte possui um sentido, uma razão de ser. A imortalidade desejada torna-se um fardo sobre suas costas – um pesado fardo que atinge também as pessoas que o cercam, em especial àquelas a quem é dado conhecer a verdade sobre sua natureza; pode-se mesmo dizer que, se o primeiro questionamento do livro é sobre até onde a imortalidade é um dom ou uma maldição, o segundo questionamento é sobre o conhecimento – Afinal, conhecer e se afeiçoar a um ser imortal implica receber o conhecimento de séculos. Qual seria o efeito de alguém que vive a sombra desse conhecimento, adquirido não através do estudo, mas através de um ente imortal? Serviria tal saber para tornar uma pessoa mortal mais sábia, humilde, melhor? Ou serviriam para alimentar seu espírito com a certeza de que após a morte, pouco a pouco sua memória será apagada e esquecida? O conhecimento seria então um veneno a enlouquecer e desestimular tal pessoa a viver uma vida produtiva?

Beauvoir habilmente levanta tais questionamentos através de uma narrativa que, inicialmente parece lenta e cansativa, mas vai pouco a pouco cativando e arrastando o leitor a uma reflexão profunda e perturbadora.

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