O conto que se tornou poesia – 24/07

Que paradoxo quando a prisão é liberdade
Meia luz ou escuridão – olhos vendados
Pés descalços no chão frio, corpos arrepiados
Imagens intensas de volúpia e sensibilidade

Nos olhos do Senhor, uma masmorra de fantasias
Onde escrava, a menina deseja ficar presa
Quer ser tua, nua, numa entrega indefesa
E sentir doces torturas, delirantes estripulias

Ela é tão tímida – Mas presa, se torna indomada
Ela é tão tua – A pele alva aguarda com ansiedade
Tuas mãos com carinhos e uma dose de agressividade
Ela está tão nua – Uma mulher pronta para ser devorada

Se o Senhor ordena, ela se ajoelha a seus pés. Entregue
E permite-se experimentar as sensações impudicas
Vivendo experiências oníricas e muito lúdicas
E ela desabrocha – E deixa que seu Dono a instigue

Suas palavras tão comedidas se tornam desavergonhadas
Atadas, as mãos a impedem de tocá-lo – E ela geme de desejo
Seu corpo sobre o dele se encaixa num selvagem molejo
Seus sentidos aflorados pelo cheiro dele e pelas palmadas

Os olhos brilham, se encontram num turbilhão
Os corpos são territórios livres de prazer e descoberta
Ela sente que, cativa e submissa, caminha na direção certa
Ele sussurra – “agora” e ela obedece – torna-se explosão

 

 

 

O conto da noite, do inverno e da entrega.

            As lágrimas insistiam em cair, apesar da felicidade – Sempre tivera sensibilidade ao cheiro da cebola. Na vasilha ao lado, os ovos, a ricota, o sal e a pimenta já estavam amassados, formando uma massa amarela e uniforme. Faltava a cebola e a salsinha e depois seria apenas colocar no pão, montando os sanduíches. Ela se sentia poderosa em sua cozinha – Era como se cada receita guardasse em suas entrelinhas sorrisos e momentos – E neste caso, a receita ainda era uma página quase em branco, a ser preenchida de acordo com a reação dele ao provar o sanduíche – Será que ele iria gostar? Ela estava radiante, apesar da chuva fina que escorria, do tempo frio e úmido que havia mudado os planos – De uma tarde ao ar livre para um filme no cinema que ela mais gostava. Tudo pronto deixou a cozinha e foi adentrar um território que, para ela, ainda era assustador: O espelho. Ela encarava aquele reflexo com perplexidade: Até onde ela era ela e até onde era a personagem? Ainda doía um pouco se lembrar das cenas em São Paulo – Até que ponto ela e a menina devassa compartilham sentimentos? Os olhos brilhavam – Insegurança, desejo, amor, medo, pressa. Roupa escolhida entrou no chuveiro e deixou-se ficar por longos minutos, a água quente escorrendo sobre a pele, o sabonete perfumado, o shampoo. Ela queria estar bela para o seu Senhor; observou seu corpo nu diante do espelho, a pele alva, as curvas dos seios, das coxas e do bumbum – Ele a fazia se sentir bela, e ela gostava dessa sensação. A noite estava apenas começando.

         Esperou-o na porta do cinema, com os ingressos nas mãos. Ela o viu chegar – Ele estava tão lindo. Abraçaram-se e, de braços dados, entraram. Na sala escura, as mãos dele logo trataram de desbravar partes do corpo dela que deveriam ser proibidas e, com a naturalidade de um guia que leva os turistas a um templo distante, ele habilidosamente, levou as mãos dela a tocá-lo, extraindo um prazer silencioso que se derramou por entre seus dedos. Ela sentia seu coração pulsar enquanto a respiração se dificultava e seus músculos mais secretos se abriam desejando poder arrastá-lo dali para um lugar onde ele pudesse fazê-la gritar e mergulhar no êxtase. Era a tortura mais doce. E de repente, ele apenas segurou-lhe a mão, permitindo um contato delicado e inocente, como se as sensações de minutos atrás tivessem sido parte de sua imaginação. Terminado o filme, caminharam juntos pelas calçadas. Ela estava embevecida, sentia que poderia segurar aquelas mãos para sempre, sem soltar, sem pensar e seu corpo respondia se aquecendo ainda mais, contrariando o vento frio que parecia desafiá-los a manterem o calor naquela noite de quase inverno.

         Estavam na casa dele. Deitados no sofá, falando da vida.  Ele iria se mudar para uma cidade um pouco mais distante, o que a fazia sentir saudades antecipadas. Um rock invadia a sala e todo o mundo parecia se resumir ali, nos dois, nos olhares que se procuravam, nos dedos que ela entrelaçava aos dele, nas palavras que ela tinha presas na alma e na garganta, como um laço. E então ele a vendou e a levou por um corredor. Havia vento. E havia música. Uma música gótica. Ele a ordenou que retirasse a roupa e fizesse uma reverência. Ela sentiu seus joelhos encostarem-se ao chão, ainda gelado apesar de ter sido forrado. Naquele momento, a menina-devassa tomava o controle. Ela estava lá para ser açoitada, para ser beijada, para ser devorada. E quando ele retirou a venda dos seus olhos por alguns minutos ela pode vê-la derramando sensualidade, nua, com prendedores de mamilos nos dois seios, encarando-se no espelho naquele quarto iluminado apenas pelas velas e pelo fogo que emanava de seus corpos nus. Ele deixou que ela segurasse o cabo de um flogger de tiras longas – Era pesado. A estrela da noite. Apoiou as mãos da parede, pernas entreabertas, o corpo ansioso por sentir na pele aquelas tiras. Uma, duas, três, cinco, oito vezes. Era dolorido e bom, como somente o amor e a submissão podem ser. Naquela noite ele colocaria a gag entre os lábios dela pela primeira vez – a bola preta dentro da boca, impedindo-a de gritar. Ele a tocava com desejo, depois a fustigava com o flogger, com o chicote de hipismo, com as mãos. Ela sentia prazer. Ela sentia vergonha quando ele pedia que se tocasse e, timidamente, obedecia, fazendo seus dedos adentrarem aquelas zonas tão suas, tão úmidas, tão obscuras e tão prazerosas. A voz dele era um guia natural até uma estrada de prazer.   Naquela noite, quando eles se despediram, ela sabia que já não seria suficiente escrever em seu diário em terceira pessoa para fugir de qualquer sentimento – Mergulhar nos olhos dele trazia a certeza da intensidade daqueles momentos que a deixavam assustadoramente vulnerável, era inútil tentar qualquer fuga. Era madrugada e ela precisava retornar. Ele a beijou no portão, antes ela entrasse no automóvel e se acomodasse no banco traseiro e acenasse para ele. Foi um beijo breve e intenso.  Ela não se atrevia a tentar escrever naquele momento, nem no dia seguinte pela manhã. Fez um pequeno rascunho e deixou em um canto qualquer. Aquela noite estava na memória, intensa como as outras, assustadoramente marcante. Uma sensação que não sumiria com o vento: Um dia, uma semana ou um século depois não faria diferença na memória, questão de tempo até que, como uma flor, um conto nascesse daquela lembrança. E assim, numa noite fria e repleta de saudades, quando outras histórias já haviam acontecido, ela se sentou diante da tela em branco e, com uma caneca de chá nas mãos, relembrando as sensações daquela noite, pegou o rascunho do diário e digitou – Manteve a posição de observadora ao escrever, ainda era ela contando as histórias da menina-devassa, agora com a certeza de que compartilhavam um o mesmo Senhor e o mesmo coração.

Minhas impressões sobre o 57ºCONUNE,Brasília, manifestação, política e juventude (não exatamente nesta ordem)

     Na última Quarta-Feira (10/07) embarquei para a viagem mais longa que fiz até hoje: Saí de Santos para participar do 57º CONUNE (Congresso da União Nacional dos Estudantes), juntamente com outros companheiros do Enfrente – Juventude em movimento, coletivo do qual faço parte. Antes de falar sobre o congresso em si, vou falar sobre as minhas impressões da viagem: Dormi o caminho quase todo, acordava nas paradas de ônibus e voltava a dormir de novo – Era noite e só chegamos em Brasília na metade do dia 11, quinta feira. A cidade parece bem bonita, mas tive muito pouco tempo para apreciar, uma vez que fiquei quase o período todo envolvida nas atividades do congresso. Um aviso para quem futuramente for até lá: O ar é muito seco nesta época do ano, o calor durante o dia é intenso, bem como o frio durante a noite. Acreditem: Passei o último dia usando meias de lã e um vestido de manga comprida na tentativa de evitar que os raios solares atingissem minha pele diretamente e isso foi um alívio pois foi o único dia em que apesar do calor, consegui transpirar e não sentir meu corpo em brasa (então, bebam água, usem roupas leves mas que protejam a pele e, se não forem alérgicos(as) usem protetor solar). Há pés de fruta pela cidade e pássaros muito bonitos – Infelizmente estava economizando a bateria do celular e não consegui fotografar as aves.

         Agora vamos ao que interessa: O Congresso teve início dia 10/07 e terminou dia 14/07 e foi incrível! As atividades aconteceram na UnB e no Ginásio Nilson Nelson (pertinho do Estádio Mané Garrincha). Muito bom ver jovens do Brasil todo reunidos para debater pautas importantes, trocar experiências e ideias – Se você não tem acompanhado os movimentos de juventude, pode se surpreender com a quantidade de informações e pautas que essa galera consegue analisar e debater! Além disso, o CONUNE trouxe convidadas e convidados para compor as mesas – Professores, lideranças de movimentos, gente que tem muito o que falar. Como nem tudo é perfeito, o planejamento só permitia que escolhêssemos uma mesa de debates na manhã do dia 11 (e infelizmente eu cheguei na metade do dia e por isso não participei) e uma na tarde do dia 11 – Pra uma pessoa cheia de entusiasmo como eu, isso foi um enorme sacrifício – Afinal, tanta gente interessante, tantos temas fundamentais, e eu presa a apenas um! Acabei escolhendo uma mesa sobre a questão ambiental, especialmente sobre as barragens, que contou com a participação da nossa ex- candidata a co-presidência da República, professora Sônia Guajajara. Outra imperfeição desse primeiro dia me foi apontada por uma amiga: Na palestra sobre Jovens Mulheres na Política, a mesa só apresentou mulheres CIS – Faltou incluir mulheres trans! Que falha feia!

         O terceiro dia de congresso, 12/07, já iniciou com uma manifestação pela Esplanada dos Ministérios, contra a reforma da previdência, contra os cortes na educação pública e a intenção do (des)governo de instituir a cobrança de mensalidades nas Universidades Públicas. Foi uma manhã agitada, com o Sol castigando muito (eu terminei o dia com bolhas no pescoço, pele muito vermelha e ressecada e um desconforto enorme, apesar de ter bebido pelo menos 4 litros de água), além do receio de sofrer represálias truculentas por parte da polícia que estava lá com seu pelotão de choque e cavalaria – ainda bem que no final tudo correu bem e não houve problemas. A tarde do dia 12 contou novamente com muitas atividades na UnB e entre todas as mesas temáticas, optei por participar de uma plenária feminista ao ar livre, num teatro de arena cercado por árvores e, novamente tive uma experiência enriquecedora, com análises feitas por estudantes mulheres, poesia, arte e música de temática feminista.

         Os dois últimos dias foram compostos por um ato em homenagem aos 40 anos do Congresso de Reconstrução da Une, com a presença de vários ex-presidentes da entidade, e pelas plenárias finais que votaram as melhores teses de análise de conjuntura, educação e movimento estudantil, alem de eleger a nova diretoria – Infelizmente o resultado desta eleição não foi exatamente o que eu queria, mas faz parte: Teria sido uma alegria ver a chapa da Oposição de Esquerda vencer a disputa, mas não foi possível. Ainda assim, carrego a certeza de que nossa juventude está cumprindo seu papel da história de forma corajosa ao se opor a este governo e a este sistema e levantar tantos debates.

         Para os que me perguntam: Mas e as festinhas? É, aconteceram noites culturais, mas o sono depois das atividades do dia e do sol escaldante foi maior e eu não consegui participar de nenhuma festa, nem mesmo do Festival da Democracia homenageando a nossa saudosa e eterna Marielle Franco.

         Vale à pena pegar a estrada, dormir num acampamento com uma rotina rígida de acordar às 6 horas da manhã, passar frio e calor para estar no CONUNE? Sim. Deu um aperto no peito e um arrependimentozinho de não ter feito uma universidade pública,  e um arrependimentozinho de não ter me integrado a chapas para disputar a direção quando eu ainda era universitária (hoje sou formada em Direito e atualmente sou estudante de nível técnico, me considero estudante mas acredito que tais disputas devem ser deixadas para que está começando agora nos movimentos e na vida), um orgulho grande de ver toda uma geração tão empenhada e muito mais energia para cumprir os desafios que estão por vir. Se eu diria para uma pessoa jovem se envolver no movimento estudantil? Sim! Em minha opinião a militância é fundamental na formação do ser humano e deve começar na juventude.

         Algumas das fotos que tirei (ou onde fui clicada por amigos) durante a estada em Brasília estão no meu Instagram: darlene_poetisa. A manifestação também rendeu um poema “Poesia das ruas” já publicado no blog e no Instagram!

Poesia das ruas

Eu componho a poesia das ruas
Com meu corpo, voz, palavras
Sou mais uma na multidão das lutas
Contra o sistema que nos quer escravas
Nas trincheiras dessa guerra nossa arma é a união
Nossa arma é caneta e papel
Nossa arma é educação
Lutamos sob azulado céu
Lutamos com o coração
Nas trincheiras já perdemos tantos Andersons, Marieles, Amarildos? Quantos mais?
Brumadinho e Mariana
Viraram rios de lama
Nas trincheiras o governo vende nosso Brasil
E coloca trabalhador na ponta do fuzil
Degrada o ambiente
Vai contra a ciência e mente
Se liga minha gente
Querem nos fazer acreditar que é bom trabalhar até a morte
E que viver na miséria é a nossa sorte
Querem vender a educação – direito básico do nosso povo
Querem que sejamos colônia extrativista de novo
Uma neo colônia vendendo a vida por moedas que nem ficam em nossa mão
Enquanto poucos lucram,a grande maioria é atirada ao chão
Queria falar de amor, mas não consigo
E usando meu singelo dom eu sigo
Chamando minha leitora, meu leitor
Pras ruas que são as trincheiras dessa guerra
A união vence, nunca erra!
Vamos Enfrente porque a luta é a poesia
Que a gente constrói todo dia!

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