Os cidadãos de bem e o imbroxável

Enquanto quase 700 mil famílias ainda choram os mortos da pandemia de covid-19, enquanto assistimos o país voltar ao mapa da fome, enquanto assistimos a Amazônia queimar espalhando sobre nossas cabeças a fumaça da morte, uma significativa parcela da população aparenta ter regredido ao nível mental de uma sala da quinta série do ensino fundamental – sabe aquela quinta série terrível, que nenhum professor aguenta e que os pais já largaram de mão há muito tempo? É assim que vejo essa horda verde-e-amarela que vive uma espécie de delírio religioso endeusando um messias que de messias só tem o nome e, como todo bom adolescente punheteiro, rendem louvores a tudo que representa o fálico: Armas, violência, demonstrações públicas e tóxicas de virilidade. Já li em algum lugar que essa afirmação da masculinidade nada mais é do que insegurança quanto à própria condição sexual. O tragicômico é que, nas comemorações do bicentenário da independência do nosso país não haja sequer uma palavra de celebração ao Brasil verdadeiro: Aquele que trabalha duro e constrói essa nação. Tampouco houve uma palavrinha sequer de reconhecimento aos povos originários, dizimados pela colonização e massacrados pela república. Nada de bom, belo e útil foi dito naquele palanque. O tão falado bicentenário da independência foi reduzido a uma manifestação de moleques e gurias do quinto ano saudando o fálico com um neologismo: Imbroxável. Se broxa ou não broxa, pouco importa a mim ou a quem tem fome de comida, de oportunidades e de dignidade. Mas a turba de “cidadãos de bem” pareceu imensamente satisfeita em compartilhar o desempenho sexual do presidente da república – como se secretamente tivessem o desejo de, ali mesmo, chupar os culhões dele (e, sinceramente, acho que eles devem ter sim esse estranhíssimo fetiche).
Seria cômico, se não fosse trágico.

Todo dia um 7 a 1 diferente

Pouco tempo após a fatídica derrota da seleção brasileira por 7 a 1, as redes sociais foram tomadas por piadinhas do tipo “limpando o estádio, funcionários encontraram mais gols da Alemanha”… Às vésperas de mais uma copa, sinto falta de quando os gols eram apenas contra a nossa seleção de futebol. Ocorre que, infelizmente, em Outubro de 2018 o povo brasileiro foi às urnas e escolheu o novo líder do poder Executivo – E acreditem, a escolha foi tão ruim que equivale a um “7 a 1” diário, mas não no futebol: Foram gols contra o meio ambiente, contra a saúde, contra a educação. Estamos vivendo uma goleada de atrocidades diárias impostas pelo presidente e seus seguidores. Em Outubro teremos a chance de começar a virar este jogo – a bola está nos nossos pés e a grande pergunta é: O povo brasileiro vai marcar o gol da virada e expurgar o Planalto da corja que se espalhou por lá? Em menos de um mês saberemos. Até lá, a única certeza é que, após o término do (des)governo, o brasileiro – que evidentemente não encontrou “mais gols da Alemanha” perdidos no estádio, irá passar os próximos anos encontrando mais escândalos e falcatruas deixadas pelo atual governo. A começar pelos 51 imóveis comprados com dinheiro vivo que parecem não incomodar as mesmas pessoas que ficaram indignadas com a suposta e nunca provada compra de uma tríplex pelo ex-presidente Lula. 

Quarenta e oito dias para o futuro.  

O prazo final para registro de candidatos para as eleições de Outubro deste ano termina amanhã e, segundo reportagem da CNN Brasil, o TSE já recebeu quase 25 mil pedidos de registro, dos quais 1253 buscam a reeleição. Também segundo a reportagem, a grande maioria dos candidatos é homem e se autodeclara branco. 
O ideal é que a população acompanhe as opiniões e ações de seus candidatos dentro e fora do parlamento durante os quatro anos entre uma eleição e outra, porém, para quem não fez essa “lição de casa”, vale aproveitar os próximos quarenta e oito dias para redobrar as pesquisas e escolher com muita responsabilidade os representantes para o próximo período. A eleição é um momento em que devemos ser extremamente criteriosos e atentos – Os próximos 48 dias irão definir os caminhos do Brasil durante 4 longos anos e, para uma considerável parcela da população, pode significar a diferença entre vida e morte. É só lembrar dos fatos ocorridos em 2020 e ou da volta do país ao mapa da fome enquanto representantes eleitos pelo povo realizavam orgias financeiras com a compra de leite condensado, cloroquina e próteses penianas. 
Outro ponto fundamental é lembrar que o Congresso Nacional é a casa do povo e deve representar todas as camadas da população, visando a aprovação de leis que busquem equidade – Neste ponto, após afinar as buscas com base em ações e propostas, é importante refinar os resultados escolhendo os representantes com diversidade: Você escolheu representantes do gênero feminino? pessoas negras? indígenas ou transexuais? PCDs? Ainda que você não pertença a esses grupos, é ético que busque garantir a participação dessas pessoas no cenário político nacional. 
Não há justificativa para repetir erros de quatro anos atrás ou para alegar uma suposta neutralidade – Quando você abre mão de decidir o futuro do seu país, está deixando que outras pessoas o façam por você – Você deixaria seu vizinho escolher a destinação do seu dinheiro ou os móveis que você tem dentro de casa? Não. Então por qual motivo não está, neste exato momento, começando a listar seus possíveis candidatos/candidatas/candidates? Não escolher programas de governo e parlamentares adequados é o mesmo que entregar o dinheiro público nas mãos de larápios, impostores e seus laranjas.

Este post faz parte do BEDA. Acompanhe também os textos de:

Lunna Guedes

Roseli Pedroso

Suzana Martins

Obdulio

Mariana Gouveia

Ale Helga

Mãe literatura

Ritmo e poesia

RAP é a abreviação para “Rhythm and Poetry” (ritmo e poesia). Trata-se de um gênero musical surgido na Jamaica, na década de 60 e levado para os Estados Unidos no início dos anos 70, tornando-se popular entre jovens de origem negra e latina que habitavam as periferias de Nova York.

Caracterizado por uma batida rápida, mixada por DJ ou feita com a boca  – o conhecido beatbox – e pela prevalência do texto sobre a melodia, o RAP tem como temas recorrentes a narração das dificuldades, dos sonhos e do cotidiano das famílias que habitam bairros periféricos, sendo por isso um estilo musical de protesto. Além das gravações tradicionais, o RAP é encontrado em “batalhas” de rua, onde um MC desafia o outro com rimas improvisadas sobre determinado tema que devem ser respondidas pelo outro MC. 

No Brasil o RAP só chegou no final dos anos 80 e tornou-se popular e aceito na indústria fonográfica na década de 90, com o surgimento de músicos como Racionais Mc’s, Pavilhão 9, Detentos do RAP, Planet Hemp e Gabriel, o Pensador. 

Atualmente é possível encontrar letras de RAP românticas e até mesmo algumas exaltando as belezas de determinada cidade ou estilo de vida, o que mostra uma modificação na temática das músicas, mas é importante lembrar que, por mais que você aprecie as novas temáticas, o RAP merece respeito e destaque pelas suas origens de luta e protesto.

O ritmo ainda não venceu totalmente os preconceitos da sociedade, apesar da grande importância na cultura nacional como representação da voz da população periférica com seus dilemas, medos e dificuldades.

No Estado de São Paulo, vigora a Lei 13201/2008, que institui o “Dia do Rap Nacional”. Infelizmente a mera existência de uma lei não é suficiente para acabar com os preconceitos que cercam o estilo ou com a violência policial contra a população periférica – um dos temas recorrentes nas letras. 

Querem algumas indicações de RAP nacional?

Negro Drama – Racionais MC’s

Jesus Chorou – Racionais MC’s

Poesia Acústica #3 Capricorniana

E eu não poderia deixar de mostrar um rapper aqui da baixada santista que não é nem um pouco periférico mas que arrasa no som e eu curto muito:

Paraíso – 13ML

Coração de Vagabundo (Tributo ao Chorão) -13ML

Este post faz parte do BEDA, curtam também:

Lunna Guedes

Obdulio

Roseli Pedroso

Mãe Literatura

Suzana Martins

Mariana Gouveia

Ale Helga

Papo reto: Vamos falar sobre pink tax?

O papo de hoje é muito importante, especialmente para as mulheres. Vocês já perceberam que os produtos voltados diretamente ao consumo feminino são, em geral, mais caros que produtos semelhantes voltados para o público masculino? Do gilete ao sabonete, da roupa íntima aos acessórios, passando inclusive por itens de papelaria e brinquedos, as mulheres pagam mais caro. Esse “fenômeno” é conceituado política e economicamente como “pink tax” ou “imposto rosa”. Uma pesquisa da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), produtos femininos custam em média 12,3% a mais que os masculinos – Em alguns itens, como roupas, essa diferença pode chegar a mais de 20%. 

A absurda diferença de preços torna-se ainda mais repugnante quando se leva em conta outras situações sociais, como por exemplo a pressão estética no ambiente de trabalho: Mesmo recebendo salários menores que os masculinos, as mulheres acabam gastando mais do que os homens apenas para cumprir as exigências sociais relativas a aparência: Maquiagens e outros itens estéticos encarecem o dia a dia da mulher trabalhadora, aumentando o abismo social e econômico. 

O imposto rosa, se existisse na legislação brasileira, feriria preceitos constitucionais como a igualdade, prevista no artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil e o princípio da isonomia tributária (todo contribuinte deve ter o tratamento igual), mas infelizmente sua existência extraoficial faz com que seus efeitos sejam sentidos sem que haja uma solução jurídica para fugir dele. Pode-se dizer que esse fenômeno político econômico é mais um monstro criado pelo “deus mercado” e pelo capital para manipular e achatar ainda mais a renda de uma camada específica da classe trabalhadora e, para lutar contra ele é preciso levar a informação adiante, questionar e, muitas vezes, repensar as supostas “necessidades” que nos são impostas. 

Contem pra mim: Como vocês escapam ou pretendem escapar da “pink tax” daqui por diante? 

Esse post faz parte do BEDA.

Acompanhem também: Lunna GuedesRoseli PedrosoObdulioMãe Literatura Ale Helga Suzana Martins Mariana Gouveia

Contagem regressiva… 63 Dias!

Agosto mês do desgosto, diziam os antigos. Ou mês do cachorro louco. Será que o mês tradicionalmente conhecido como catastrófico, que neste ano se inicia em uma Segunda Feira, o dia mundial da preguiça, só pode mesmo ser sinal de maus prenúncios? É claro que não!

Hoje inicia-se uma contagem regressiva fundamental para o Brasil, em 63 dias uma grande responsabilidade tocará as mãos de brasileiros, brasileiras e brasileires: Eleger o novo chefe do executivo federal, mais conhecido como Presidente da República. Dada a seriedade do momento, não é possível ter ilusões. Dia 02 de Outubro será uma escolha entre continuar chafurdando na pocilga em que o país se encontra ou escolher uma candidatura progressista, com reais chances de se eleger e iniciar a reconstrução do Brasil que precisamos. Veja bem, não estou dizendo que a oposição vai conseguir, em quatro anos de governo, nos devolver a qualidade de vida do Brasil que conhecemos entre 2003 e 2015. O processo de Impeachment da Presidenta Dilma, os sucessivos ataques do governo Temer e a catástrofe representada por quatro anos de completo desgoverno deixaram marcas profundas na democracia, na economia e nos indicadores sociais brasileiros – Não é algo que se resolverá da noite para o dia, principalmente tendo em conta que os ataques da extrema direita irão continuar e talvez até se acirrar. Apesar disso, é melhor iniciar a limpeza da casa-nação ou reeleger o porco fascista? Com certeza a primeira opção é a única que se apresenta como sensata – Um voto crítico, que deve ser acompanhado diariamente pela população brasileira. Até lá, cuidado com as fake news e com o gado louco.

Este post faz parte do BEDA. Participam também:

Lunna GuedesMariana GouveiaObdulio

Mãe Literatura. – Ale HelgaSuzana Martins

Quando os muros… falam.

Ontem, voltando do trabalho, reparei em uma arte no muro: Dois homens, claramente dois soldados, seguram cada um uma placa com os dizeres “É tudo por dinheiro” ou “It’s all about money”. Infelizmente não é um questionamento e sim uma afirmação. Mas o que seria esse “tudo”? Oras, tudo é tudo.

Desde que algum ser humano cercou o primeiro pedaço de terra e disse “isso é meu”, começou a ser instituída uma sociedade onde o “ter” e o “poder” se mesclam, tornando-se privilégio de poucos e objeto de desejo de muitos.

As guerras surgem por conta desses dois elementos: Dinheiro e poder. Por um lado, a indústria da guerra movimenta milhões, por outro, há sempre líderes dispostos a cometer crimes em troca de maior poder.

A relação do ser humano com o desejo de poder, e portanto de dinheiro, tornou-se tão inseparável que há pais que não conseguem imaginar seus filhos fazendo qualquer atividade que não vise lucro futuro: Futebol não é mais uma atividade pelo mero prazer esportivo. Nem arte. Aprender um segundo idioma não é mais mera questão cultural – Cada passo é dado pensando em como aquele investimento irá retornar no futuro.

E em meio a essa corrida desenfreada, naturalizamos a figura da pessoa estressada como “pessoa de sucesso”, naturalizamos o não ter tempo para autocuidado, naturalizamos as indústrias destruindo nosso meio ambiente e nos vendendo coisas que não precisaríamos caso não fosse necessário vender cada minuto livre em troca do dinheiro que pagamos para ter esses objetos/serviços. É um ciclo que mantém o mundo em guerra e nos mantém doentes e cansados. E infelizmente não acredito que haja um retorno seguro para um estado de coisas menos agressivo e insalubre. Sendo otimista, a humanidade irá desaparecer em breve – Mas por algum tempo irão ficar esses soldados no muro, nos dizendo o motivo de tudo ter começado a dar errado. Se ninguém for pago para apagá-los antes.

Sobre Política: Lições e decepções necessárias

Quando o assunto é política, há inúmeras lições a serem aprendidas – Algumas, como a questão da consciência de classe, do histórico pessoal e das alianças políticas escolhidas pelo candidato (a/e) são fundamentais principalmente para quem irá às urnas. Entretanto, um aprendizado é básico e deve servir sempre aos dois lados – votantes e votados: Não existem soluções únicas, mágicas, milagrosas. 

É muito fácil se candidatar tripudiando dos problemas reais e dizendo “vou resolver isso aí”. O problema é que há muita gente fazendo isso e muito eleitor (a/e) acreditando sem questionar quais são as opções concretas para a resolução do problema. 

Um exemplo claro do que pode dar errado quando se faz promessas eleitoreiras é a placa colocada hoje aqui em São Vicente: Rua Rio Kayo Amado. Ocorre que num passado recente, Kayo caminhava por bairros historicamente atingidos pelas enchentes prometendo resolver o problema. Hoje, vivendo o segundo ano de seu mandato, o atual prefeito colhe as críticas de pessoas que acreditaram em suas promessas e o apoiaram. Críticas como essa placa simbólica. 

É sabido que o drama das enchentes na cidade de São Vicente é uma junção de fatores: Chuvas, escoamento, lixo nos canais, maré. Em seus vídeos, o então prefeiturável, poderia ter colocado as cartas na mesa: A resolução das enchentes seria alcançada com obras de dragagem e com uma nova política pública de gestão de resíduos – que depende também do apoio da população e com a consciência de que em áreas atingidas pela cheia das marés, o máximo que a prefeitura pode fazer são obras que garantam o escoamento da água, uma vez que o mar não pode ser controlado. Possivelmente uma postura assim, sincera e que delegue à população uma parte da resolução do problema, iria fazer com que alguns votos fossem perdidos, mas pensando em longo prazo, evitaria que já eleito o prefeito se tornasse motivo de chacota e revolta, além de construir uma base eleitoral engajada e participativa – Algo que falta em nosso país. 

Que para o futuro possamos ver mais sinceridade em quem se candidata a cargos políticos e um julgamento mais realista por parte de quem irá às urnas votar.


Este post é o terceiro post BEDA (blog Every Day April), que este ano por problemas técnicos está sendo postado aqui com um dia de atraso (mas segue na sequência correta de dias no meu instagram @poetisa_darlene). O texto escrito ao som dos carros passando pela rua ainda inundada e da música Que país é esse?

Conheçam também as postagens de

Ale Helga – Mãe Literatura – Lunna Guedes – Obdulio

Os números do lixo e os 5R’s da sustentabilidade

Quem me acompanha aqui há um tempinho sabe que uma coisa que me incomoda imensamente é a quantidade de lixo gerada no dia a dia e os impactos que isso causa ao meio ambiente. Infelizmente a maior parte da poluição global vem da indústria – ou seja – de quem detém o dinheiro. E isso é um problema, pois os acionistas e diretores na maioria das vezes priorizam o lucro acima do meio ambiente. Na outra ponta da cadeia de consumo temos milhares de trabalhadoras e trabalhadores que acabam optando pela praticidade em detrimento da própria saúde e da preservação do meio ambiente, outras pessoas ainda são forçadas pelos preços altos a escolher produtos de qualidade inferior sem questionar se estas escolhas em longo prazo irão afetar a vida ou o planeta. É uma equação bem difícil de resolver e por isso mesmo é um assunto tão necessário. O comportamento da população certamente não consegue sanar todos os danos causados pela produção de lixo, mas em pequenas atitudes do dia a dia é possível mitigar os malefícios que a nossa presença causa no mundo, além de melhorar a nossa qualidade de vida e com sorte, conseguir economizar um pouco.

                Vamos falar de números?

                Embora muitas coisas sejam recicláveis, nem tudo é reciclado no Brasil. Cada habitante do país gera em média 379kg de resíduos sólidos por ano. Dessa quantidade, menos de 3% chega a ser reciclado – Em partes pela dificuldade de manuseio e baixo valor econômico do material, como por exemplo, isopor ou embalagens laminadas de biscoitos, em partes pelo baixo número de pessoas com acesso aos serviços de coleta seletiva (apenas 41,4% da população tem acesso a esse tipo de serviço – E infelizmente nem todas as pessoas que possuem acesso utilizam o serviço de maneira efetiva). Por essas e outras questões, é necessário concordar com a Bruna Tissu, do instituto Akatu: O melhor resíduo é aquele que não foi gerado!

                Em 2020 a Secretaria Nacional de Saneamento do Ministério de Desenvolvimento Regional apresentou a décima oitava edição do Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos, elaborada com base nos dados do ano anterior, 2019. Na citada edição, 3792 municípios do país participaram da coleta de dados, o que representa 86,6% da população urbana brasileira.

                O documento destaca também a participação dos catadores na coleta seletiva em parceria com o poder público: Eles foram responsáveis por pouco mais de 36% do total de materiais recicláveis coletados e encaminhados em 2019.

                Em números gerais, o país recuperou o equivalente a 7,53 kg de resíduo por habitante no ano de 2019 – Ou seja: Cada habitante gera 379kg de lixo e dessa quantidade, nem 10kg chegam a ser recuperados. 75% do lixo gerado foram parar em aterros sanitários e 24,9% foram parar em outros aterros e lixões, considerados inadequados. O assustador desses dados é que eles levam em conta o material coletado – E basta olhar ao redor para perceber que há muito lixo indo para outros lugares, como o mar e os rios.

                É possível ver que apesar do disposto na Lei Federal 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos) determinar que todo o material produzido por atividades domésticas e comerciais coletado deva ser encaminhado para reaproveitamento por reciclagem, reutilização compostagem ou geração de energia, destinando-se aos aterros sanitários apenas os resíduos que não possuam tecnologias viáveis de reaproveitamento, o problema está longe de ser resolvido por aqui.

Os 5Rs da sustentabilidade

                Os 5Rs são atitudes que sugerem mudanças de comportamento de consumidores e empresas em relação ao ato de consumir e descartar com responsabilidade. Quais são esses hábitos afinal: Repensar, reduzir, reaproveitar, reciclar e recusar. Vamos conhecer de perto?

                Repensar: Quando você vai comprar um produto, pense se realmente precisa, no resíduo que será gerado e na cadeia produtiva desde a extração de matéria-prima até o descarte (não deixe de considerar o consumo de energia, água, emissão de carbono, condições de trabalho na cadeia produtiva, formas de distribuição e etc.). Além de colaborar com o meio ambiente, repensar os hábitos de consumo ajuda bastante no orçamento no final do mês.

                Reduzir: Práticas simples do dia a dia ajudam a reduzir o consumo e evitar o desperdício. Muitas vezes podem parecer mais dispendiosas como, por exemplo, quando se compra um item mais caro, mas que terá uma vida útil bem maior, o que significa uma economia em longo prazo. Pilhas recarregáveis também significam um gasto imediato um pouco mais alto em relação às pilhas comuns, mas representam economia e sustentabilidade. Outros hábitos que reduzem o desperdício e o consumo são utilizar frente e verso do papel, realizar trocas de livros, roupas e objetos (podem ser trocas entre familiares, amigos ou em grupos na internet), dar preferência aos produtos a granel ou que possuam embalagens retornáveis, carregar sua própria garrafa, caneca e talheres na bolsa (evitando os descartáveis) são outras dicas úteis.

                Reaproveitar: Você pode dar uma nova utilidade a um item já usado, estendendo sua vida útil e evitando um novo processo de produção (sabe aquela piada? Morre uma camiseta, nasce um pano de chão? É sobre isso e mais um pouco). Potes de vidro podem se tornar porta-alimentos (e não, você não precisa de uma etiqueta adesiva sinalizando que ali tem macarrão ou arroz, dá pra enxergar perfeitamente), caixas de sapatos podem ser organizadores de objetos e tantas outras ideias. A imaginação é o limite.

                Reciclar: Reciclar requer um trabalho industrial, transformando o resíduo em novo produto. É uma opção que gera emprego e renda, custa mais barato do que a produção tradicional e diminui a exploração de recursos naturais. Sempre que decidir adquirir um novo produto, procure comprar produtos que possam ser reciclados, contribuindo para um processo de produção mais limpo. Além disso, cobre dos gestores de sua cidade a disponibilização de coleta seletiva.

                Recusar: Você pode e deve recusar a comprar produtos de empresas que não tenham compromisso com o meio ambiente, bem como pode e deve recusar canudos plásticos, descartáveis em geral, sacolinhas de supermercado, aquelas notinhas do cartão de crédito e outras coisas desnecessárias que geram impactos negativos.

Agora que vocês sabem um pouco mais sobre o lixo e sobre os cinco Rs, me contem: O que vocês já fazem para tornar o dia a dia mais sustentável?

Desculpem o pessimismo, mas 2022 não é app de entrega para trazer os seus desejos.

Papo reto: O ano que tá chegando não é um app de entregas. Não adianta olhar para o céu na virada do ano e pedir “paz, saúde, dinheiro, realizações etc”. Não adianta pular onda, comer romã, comer lentilha, nada disso vai adiantar. Não vai chegar um ano novo de bicicleta com uma mochilinha vermelha nas costas trazendo seus desejos até a sua porta.

                Quer um ano melhor? Vai ter que lutar muito. Além de trabalhar pesado para garantir o mínimo, também é importante que se organize pra exigir vacina para toda a população – Inclusive para as crianças. Limpe seu quintal e não emporcalhe a rua pra reduzir o risco de novos surtos de dengue. Denuncie as Fake News e comece a se movimentar desde já para derrubar o genocida e sua corja: Dois mil e vinte e dois não tem esperança de ser um excelente ano novo, quando muito pode ser o ano em que o país vai conseguir começar a sair do buraco para trazer um ano de 2023 melhor. E para isso vocês precisam que votar direito e conseguir informar as pessoas ao redor sobre o quão catastrófico o atual presidente tem sido para o Brasil e o quanto o sistema vigente está destruindo o mundo pouco a pouco. Desculpa se essas não são as notícias e votos de ano novo que você gostaria de ler. É o que tem para hoje. E para os próximos 365 dias.

                Se no meio de tudo isso você conseguir encontrar alguns momentos de paz, amor e felicidade, parabéns! Fico feliz de coração. Por aqui tenho certeza que também estarei segurando a vida com força e aproveitando intensamente todos os momentos incríveis que surgirem como faço todos os anos, mas é imperioso lembrar: Um Feliz Ano Novo não se refere ao seu ano pessoal ou ao meu. Se não for um ano novo digno para todas, todos e todes, não é um ano incrível. É apenas um ano que te trouxe bons momentos. Não tem como encontrar felicidade plena enquanto alguém ainda for escravizado, enquanto as matas queimam e pessoas fazem filas pra comer osso ou comprar alimentos envenenados pelos agrotóxicos.

                Agora, se mesmo assim você é como eu e não abre mão de fazer uma simpatia na última noite do ano, vou dar uma dica: É melhor passar o ano com uma calcinha bem colorida: Amarelo pra atrair dias iluminados, azul para atrair ar limpo, rosa para amor, verde para florestas renovadas, lilás para que haja uma chuva de feminismo, vermelho pra chamar a revolução comunista. Vai que dá certo né?