O conto do café da manhã, dos abraços, panquecas e saudades

Durante aquela época de isolamento, o tempo parecia passar como o vento – Algumas vezes, tempestade, outras vezes, completo marasmo. Depois de tantos dias exatamente iguais, em cuja conta ela já se perdera, um final de tarde trouxe o frio. Embora o inverno estivesse longe, o outono em seu ápice derrubava as folhas das árvores e ia deixando que o ar gelado chegasse de manso, nublado e, essa melancolia tão natural nas tardes do meio do ano, fez com que a menina que todo o dia pensava naqueles mergulhos dados em olhos cálidos e misteriosos, lembrasse também de manhãs onde se perdera em abraços quentes, lençóis bagunçados e pele perfumada. A saudade era coisa estranha – Já haviam passado períodos longos sem se ver, sem se ouvir, sem se tocar, mas a ideia de que a qualquer momento o encontro poderia acontecer, até então, mantinha um calor no coração, uma expectativa gostosa de viver aquele sobressalto quando menos esperasse, porém, naquela tarde fria, não havia perspectiva – O mundo todo estava parado, suspenso, aguardando uma solução que demorava a chegar. Havia apenas a saudade e a esperança de que tudo se resolvesse. E assim, a menina, já cansada de aguardar as notícias que não dependiam de ninguém que ela conhecesse e que tardavam a chegar, foi até seu lugar favorito: A cozinha. Ela apreciava imensamente conversar com os alimentos, desagradava-lhe ir jogando todos nas panelas ou vasilhas, sem dialogar com eles – Cozinhar era, para ela, algo mágico e sagrado. E então, olhando as bananas na fruteira, lembrou de um café da manhã com panquecas fofas e beijos. Tal qual aquela manhã, com delicadeza, amassou as bananas, misturou farinha de aveia, aveia em flocos, chia, açúcar demerara e um pouco de água– Lembrou o sorriso dele provando aquelas panquecas improvisadas, servidas na cama, com café e amor. Para a menina, aquele sorriso era o resplandecer de um sol só dela, o melhor bom dia que qualquer mulher poderia desejar. Naquela tarde de solitário outono, a lembrança daquele sorriso aqueceu seu coração. O frio pedia uma alteração na receita: Adicionou cacau, canela e cravo em pó, um pouco de kümmel e um pouco de fermento em pó. Numa caneca, colocou água quente sobre o chá mate. Aqueceu a frigideira antiaderente levemente untada com óleo e despejou toda a massa. Tampou e deixou em fogo bem baixo. Pensou em pegar o caderno para escrever, mas desejava apenas permanecer ali, envolta em seus devaneios. De quando em quando, observava para que não queimasse. Quando já estava firme, virou e deixou mais alguns minutos. Furou com um garfo para ver se não havia nada cru. Coou o chá e espremeu meio limão. Retirou delicadamente aquela panqueca macia (que pelo tamanho da frigideira se tornara um bolo) e colocou em um prato. Estava pronto o lanche da tarde que, embora não matasse a saudade dos momentos vividos, trazia memórias e um vislumbre do futuro onde, após uma noite intensa e um amanhecer doce, ela prepararia um café da manhã e o serviria, antes de entregar-se novamente a cada pedido dele. Então, ao sentir aquele sabor doce e delicado, como acreditava na íntima ligação entre magia e alimento, desejou que ela sempre fosse para ele uma pessoa doce, na medida exata de seus desejos.