Maratona de Maio, dia 4 – Escolha um livro que foi ambientado na sua cidade – país

E eis que, no quarto dia de maratona, encontro dificuldade em cumprir a proposta – Não me recordo, olhando a estante, nenhum livro que se passe em minha cidade atual (São Vicente, litoral paulista), menos ainda recordo algum título que se passe na cidade onde fui criada (Avaré, interior de São Paulo), resta-me falar então sobre um livro ambientado na cidade de nascimento, onde vivi pouquíssimo tempo e para onde viajo vez ou outra. Mas, acreditem, não tive vontade. Em lugar disso, decidi falar um pouco sobre um livro que se passa no Brasil e que já foi meu pesadelo pessoal, mas hoje entendo como fundamental – O Cortiço, do autor Aluísio de Azevedo. O motivo da escolha é simples: Há outros clássicos que se passam no Brasil, certamente – Senhora, Lucíola, O Guarani, Iracema, O gaúcho. Entretanto, essa obra de Azevedo, retrata uma realidade do Rio de Janeiro no século XIX que não apenas persiste como se ampliou, alastrando-se pelo país todo: A realidade da miséria, do abismo social, de uma população a quem tudo falta, mas que, ainda assim, consegue encontrar divertimento nas coisas simples da vida, iludindo a falta de perspectiva com cachaça e samba. Pensar o Brasil é pensar numa colcha de retalhos humana – Aqui, há gentes de todo o mundo, de diversos costumes, religiões, culturas e isso, além das nossas paisagens naturais, fazem o nosso país ser tão grande e tão alegre. Entretanto, talvez algumas vezes (muitas vezes) tanta alegria, atrapalhe. Sinto que não encaramos a vida com a seriedade que ela merece, comemoramos mais uma partida de futebol do que uma descoberta científica. Produzimos “memes” padrão exportação e desdenhamos nossos artistas, escritores, compositores. Discutimos a fundo o reality show do início do ano, e passamos meses intermináveis sem observar a política nacional e internacional – E o resultado? É esse que observamos – Um país em franco desgoverno, onde alguns velam mais de 17 mil mortos enquanto outros fazem festas ou se impacientam pela ausência de academias, salões de beleza, futebol (Ainda não vi pessoas sentindo falta das bibliotecas, livrarias, espaços de cultura). Nosso povo das comunidades tem tanto a nos mostrar em sua diversidade de cultura e arte, isso é certo e longe de mim desdenhar dessa cultura que cresce na quebrada – Não desejo ser elitista, valorizando apenas a arte produzida por uma camada da população que teve acesso a todo um mundo de conhecimento e estabilidade. Valorizo sim a arte de quem está na base da nossa sociedade: O trabalhador periférico, que vê seus filhos mortos por doença ou por polícia. Valorizo, mas pergunto: Quando essa massa de pessoas irá perceber sua importância? Quando a união que existe para festejar sabe-se lá o que tanto se festeja nesse país (talvez o fato de estar mais um dia vivo), irá ceder lugar a uma união por condições dignas de vida? Eu vejo essa união nascer em alguns projetos, mas ainda parece uma chama tão tênue, sufocada pela neblina caótica que se abate sobre o país, que só resta aguardar, refletir nesses paralelos que a literatura proporciona e esperar que, daqui a cem, cento e cinqüenta anos, a obra “O Cortiço”, dos tempos antigos, bem como a literatura periférica de hoje não seja uma atualidade e sim a lembrança de um tempo difícil para o país.