Maratona de Maio, dia 03 – Conte sua idade através dos livros de sua estante

Contar a minha idade através dos livros da minha estante é uma tarefa complicada por tratar-se de algo que nunca pensei fazer. Sou um pouco ansiosa em relação ao passar do tempo, sempre carregando aquela sensação de que algo está ficando para trás, não sei explicar… Da mesma forma, não sei muito bem como iniciar este texto acredito que, a melhor forma de falar a minha idade através dos livros da estante é (tentar) falar os títulos que mais me marcaram no decorrer dos anos… Faço um apontamento aqui: Não tenho mais os meus primeiros livros e não tenho todos os meus livros favoritos, então, falarei dos livros que tenho aqui, dando dicas sobre a idade em que os li. Adianto que tenho apenas vagas lembranças da infância, então haverá anos em que essa “linha do tempo literária” parecerá tortuosa, além disso, fui criança de biblioteca e, posteriormente, descobri as trocas de livros, então alguns volumes não ficam muito tempo por aqui.

Aos 09 anos, passou na minha escola um vendedor de livros, quem tem mais de trinta anos deve se lembrar dessas pessoas que entravam na escola, mostravam um livro e mandavam um bilhetinho pros responsáveis, com valores e formas de pagamento. O livro da vez era um dicionário, o Dicionário Brasileiro Globo, completo, com ilustrações do corpo humano, explicações de gramática, listas de países e capitais. Pedi que minha mãe me desse como um presente de aniversário e ganhei apesar de fazer anos em novembro e o presente ser solicitado bem no início do ano.

No ano seguinte O Mundo de Sofia – Um livro marcante por seu volume de páginas que me impressionava. Lembro de ser uma leitura demorada, um pouco confusa, que me obrigava vez ou outra a parar, anotar coisas, buscar significados no dicionário ou na enciclopédia que havia na casa da minha avó.

Faço uma pausa aqui para comentar que, embora gostasse muito de estudar, fui uma criança atrasada na escola – Como fazia aniversário no final do ano, não permitiram que minha mãe me matriculasse no primeiro ano aos 06, tive que iniciar com 07 anos completos e, justamente neste ano, nos mudamos de Avaré para São Paulo, o que me causou uma tremenda alergia e inflamação na garganta (ah… o ar de São Paulo…) e, como resultado, fiquei fora da escola e só fui fazer o primeiro ano com 08 anos, em Santos. Aos 9, voltei para Avaré com a minha mãe. E assim com quase 11 anos, na terceira série, li A moreninha e Amor de Salvação (Asseguro que aquele dicionário teve muita utilidade). E então, me encontrei naquele fevereiro de 1998 diante de uma professora perplexa que me pedia uma redação sobre “como foram suas férias” e recebeu um pequeno calhamaço com comentários sobre detalhes de cada livro que eu havia lido (a maioria, Monteiro Lobato). Na metade do ano, retorno das férias julinas, a mesma redação temática e, como resposta, minhas impressões – infantilmente cruas – Sobre a leitura de “O Guarani”. Eu, criança, na entendia porque o índio falava e se comportava como um homem da civilização – O autor mentia? Os documentários na TV cultura não mostravam indígenas parecidos com aquele. Lembro da “bronca” que minha mãe (novamente) recebeu da professora – Já não bastava eu ter ficado fora da escola, ainda precisava me deixar ler “aquele tipo de literatura”?

Não me lembro muito bem dos livros lidos no quinto ano, lembro que fiz uma prova e “pulei” o sexto ano, caindo direto na sétima série, no ano 2000, foi o ano em que, pela primeira vez um livro me marcou pelo fracasso: Uma professora pediu que cada aluno lesse um livro e fizesse um pequeno resumo – Lembro a minha felicidade, pois foi a primeira vez que uma leitura havia sido solicitada – Caprichei com Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco), primeiro livro que me fez derramar lágrimas, e a professora, feliz e surpresa com o resumo que apresentei, solicitou que no bimestre seguinte eu apresentasse um resumo de “O cortiço” – Não houve o que me fizesse conseguir ler, por algum motivo, o livro não “falava” comigo! Acabei resumindo Iracema, que também a deixou feliz, mas fiquei com o gostinho da decepção. Foi também no ano 2000 que comecei a matar aulas, indo para a biblioteca municipal para ler – E dos inúmeros livros que conheci por lá (e amei), hoje só tenho na estante Se Houver Amanhã, A Ira dos Anjos e Um Estranho no Espelho (Sidney Sheldon), O Primo Basílio, A Relíquia e Senhora. Em 2001 conheci Harry Potter, sei que houve outros livros, mas que eu me lembre, nenhum que ainda esteja aqui na estante.

O ano de 2002 foi meu último ano no ensino regular – Eu já não conseguia lidar com a escola, tive vários problemas de convivência, não com outros alunos, pois eu havia finalmente encontrado “a minha turma”, mas com a coordenação e um ou outro professor que não conseguia entender que, a aluna que gosta de estudar pode ser também a aluna que usa boné, desenha “grafite” na contra capa do caderno e joga truco com os meninos no intervalo. Lembro de ler, passar minhas lições a limpo, estudar utilizando apostilas de cursinhos pré vestibular que havia ganhado, mas não lembro nenhum título que hoje esteja na minha estante e tenha sido objeto de especial admiração naquele ano. Em 2003, eu e minha mãe voltamos para Santos e eu fiquei fora do colégio, aguardando o ano seguinte para voltar. Em 2004 fui fazer o segundo ano do Ensino Médio numa escola para jovens e adultos que trabalhava por eliminação de matéria – Foi a melhor coisa naquele momento da minha vida, pois eu recebia os temas, estudava e ia para a escola em horários agendados para tirar dúvidas e fazer provas, algumas disciplinas eram feitas através das tele-aulas (telecurso 2000) e, uma curiosidade, minha mãe voltou a estudar e concluiu o Ensino Médio junto comigo. Por todo esse vai e volta, percebo em entre 2003 e 2009 houve muitas leituras, mas poucas das quais eu me lembre – A única que me marcou bastante foi O Cortiço, que li nessa época, tirando o gostinho de derrota que havia ficado comigo desde a sétima série. Outro fator foi o primeiro emprego, que me deixou mais distante das bibliotecas e a vontade de prestar vestibular me fizeram permanecer muito mais tempo relendo e revisando coisas do que visitando novos horizontes.

 No início do ano em que completei 23 anos, consegui entrar na faculdade e como conseqüência, fui sugada para um mundo de leituras técnicas, apesar disso, consegui voltar a freqüentar a biblioteca. Nesse ano, caiu em minhas mãos um livro que eu já havia lido, por alto e sem muito interesse, na infância: O amante de Lady Chatterley.

Em 2010, eu encontrei no terminal de ônibus o livro “A Ópera do Malandro”. Havia um carimbo da prefeitura de Praia Grande explicando tratar-se de um projeto de incentivo à leitura e que o livro deveria ser lido e deixado de volta no estande do terminal. Gostei tanto que não tive coragem de devolver, mas levei três ou quatro dos meus para lá, afinal, o projeto precisa crescer e ampliar, certo?

Em 2013, faltando três anos para me tornar “balzaquiana”, decidi me permitir voltar à adolescência e ler Diários do Vampiro – Li em PDF e hoje mantenho a coleção por afeto.

Em 2016, meses após me filiar ao PSOL, ganhei de um camarada o livro “A história da riqueza do homem”. No mesmo ano, li Lua de Papel e Septum, além da poesia de T.S Eliot (gratidão Lunna, seus livros sempre irão me acompanhar e ser citados entre meus favoritos).

É engraçado como guardei tão bem os anos dos livros marcantes da infância, mas acabei perdendo a noção do tempo na adolescência e joguei de vez minha vida no coração das tempestades na fase adulta, tornando cada vez mais difícil lembrar os livros marcantes. E só agora, de quarentena, consigo perceber, acaba apagando a noção forte que temos do passar dos dias existente no início da vida.

Os livros que marcaram 2017 foram “O Mandarim”, do Eça de Queiroz (Afinal, como eu não conhecia esse livro?) e “Todos os homens são mortais” (Simone de Beauvoir). Eu trabalhava em um escritório e sempre falava com uma colega de trabalho sobre os livros –  Foi a primeira vez que tive uma colega de trabalho quase tão viciada em leituras quanto eu, a única diferença é que ela só gosta dos livros modernos, com romance e sexo e eu, gosto de livros em geral.

Em 2018 os livros que mais gostei foram empréstimos da biblioteca, então, nada a comentar por aqui.

O ano de 2019 me levou a um mergulho no universo infanto juvenil, afinal, trabalho em uma escola né? E tenho que pedir um favor: Não tenham preconceitos com essa literatura! Há muitas histórias deliciosas para se ler, como por exemplo, Ponte para Terabítia da  autora Katherine Paterson. É uma leitura emocionante!

E finalmente, chegamos aos meus (já conseguiram calcular quantos anos?), neste ano de 2020. Dos livros que li até aqui, O Pássaro Pintado foi o que mais me marcou, falei dele aqui no blog pois fez parte do meu desafio literário e me surpreendeu bastante.

Para quem ainda não conseguiu adivinhar a minha idade, vou dar uma última dica: Há um livro na minha estante que foi considerado o livro mais vendido no Brasil no ano em que nasci : “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. Desculpem o texto (enorme), me empolguei contando um pouco sobre minha história através dos livros. Espero que tenham curtido!

Também participam da maratona:

Mariana Gouveia (Blog O outro lado)

Ale Helga (Blog Meus Amores)

Roseli Pedroso (Blog Sacudindo as ideias)

6 comentários sobre “Maratona de Maio, dia 03 – Conte sua idade através dos livros de sua estante

  1. Gostei da maneira que você descreveu sua idade… Ah, o mundo de Sofia me marcou muito também. Cheguei a fazer Einstein, no colégio, em uma peça. Até hoje, me pego falando algumas frases. rs
    Fiquei curiosa quanto ao Pássaro Pintado, de resto, a idade é a que mantemos na mente.
    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

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