Macarrão e carnaval

Segundo carnaval do ano quase chegando e eu relembrando sabores da infância.
Aprendi, por volta dos meus onze anods, a fazer uma salada de macarrão chamada “Salada de Macarrão Abre Alas”. Não era vegan nem saudável. Recentemente, recriei a salada: Macarrão colorido, maçã, cenoura cortada em “fitas”, pimentão picadinho, azeite e muitos temperos. Pode mudar e acrescentar mais ingredientes? Sim! O importante é deixar o prato alegre e bem colorido!

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Este post é o terceiro post do BEDA: Blog Every Day August e foi escrito ao som de Proibido o Carnaval .

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Lunna Guedes, Ale Helga, Obdulio

Sobre personagens e cajuzinhos

O cursor pisca na tela como um ponto de interrogação: Decifra-me ou te devoro. A história a ser contada pulsa no mundo das ideias, mas não encontra as palavras corretas para registrar-se no papel. Tudo parece desconjuntado, sem graça, atropelado. Um sem fim de digita-apaga. Posso imaginar a personagem me observando com olhar reprovador, ávida para continuar a cena-vida, indo e voltando para o mesmo lugar até as palavras se encaixarem numa cadência perfeita. Vida de personagem não deve ser fácil, sempre dependente do que a autora planeja. Quando a autora não consegue traçar palavras para delimitar os próximos passos, a personagem fica presa na última posição escrita – No caso, sentada no sofá, numa kitnet quente, com a blusa amarrada ligeiramente acima do umbigo. O olhar inquiridor acompanhando meus movimentos enquanto bato amendoim e passas no liquidificador para fazer um cajuzinho vegano e sem açúcar, receita da Vivi (@sosvegan). Docinhos são mimos que me permito em qualquer tempo – me recuso a deixar de lado o prazer de uma guloseima diária. Assim como a personagem que por ora ocupa meus dias, tenho essa relação especial com a cozinha: Um abrigo para o cansaço, uma estufa para o plantio de sonhos. Minha rotina passa por fogão, panelas e pratos. Só assim é possível engolir a dose diária de notícias ruins sem perder totalmente a esperança. Desisto de escrever, hora de fazer uma boa prática de yoga – O corpo merece atenção, principalmente nestes tempos de isolamento. Depois da prática, do banho e do jantar, voltarei a encarar a tela e o olhar da personagem…

Receita do cajuzinho vegan

1 e ½ xícara de amendoim torrado e sem pele

1 e ¼ xícara de uvas passas

2 colheres (sopa) de cacau em pó

2 colheres (sopa) de água.

Bata no liquidificador o amendoim e as passas até formar uma massa. Adicione o cacau em pó e continue batendo, acrescentando a água. Depois é só moldar os docinhos.

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Letícia, o vizinho e o limoeiro – Ou como tudo começou, na versão dela.

(Algumas pessoas me chamaram no direct para dizer que curtiram a história da Letícia e de seus dois amores, então decidi continuar o conto – Se você ainda não leu o início, é só clicar aqui)

Letícia desceu até a garagem carregando um banquinho. Dirigiu-se até o muro que fazia divisa entre o prédio e o terreno que pertencia a uma velha senhora ranzinza. Posicionou o banquinho rente ao muro, testou algumas vezes buscando certificar-se de que estava firme e não iria tombar. Odiava ser baixinha! Fosse um pouco mais alta, conseguiria alcançar o galho do limoeiro esticando o braço. Subiu e cortou duas folhinhas daquela preciosidade, guardando-as junto com a tesoura no bolso da calça. Repentinamente, um animal se mexeu entre os galhos, ela se assustou e sentiu o corpo ser arremessado para trás. Quis o acaso que um par de mãos a segurasse pela cintura naquele momento, guiando-a para o chão. Era o vizinho do andar de cima. Ela sorriu sem graça, agradecendo pela ajuda. Não conseguia encará-lo depois de quase cair literalmente em cima dele. O gato que a havia assustado postara-se no muro, com os pelos arrepiados e olhar ferino, era um animal magnífico. Ela buscava na memória o nome do vizinho enquanto ficava ali, parada, observando-o esticar o braço e retirar duas folhas de limão. “- Vamos subir?” – Ele falou retirando-a da letargia em que se encontrava. Letícia pegou o banquinho e caminhou lado a lado com o homem. “- Algumas vezes eu venho até aqui para buscar essas folhas de limão, elas são um ingrediente importante para um prato que aprendi a cozinhar ainda garota: O caril tailandês – Embora, na verdade, eu não tenha plena certeza de que se trata de um prato tailandês.”. Ela falou buscando quebrar o silêncio. Ele abriu a porta do elevador, sinalizando para que entrasse e sorriu pontuando que a intenção dele ao pegar as folhas fora a mesma que a dela: Preparar o caril tailandês, velha receita da avó. “– Seu apartamento é o 701, certo?” perguntou, quando abriu a porta para que ela descesse no sétimo andar. Ela apenas balançou a cabeça. “- Muito bem! Boa noite e bom jantar. Quando quiser companhia para colher folhas do limoeiro, me avisa”. Parecia que o gato havia comido a língua de Letícia, que novamente acenou com a cabeça, respondendo um tímido “tudo bem”. Naquela noite, um pouco mais tarde, ouviu alguém bater na porta e, quando foi atender, encontrou uma sacola com uma quentinha e um bilhete: “Aprecie uma amostra da minha aparentemente não tão exclusiva receita de caril, atenciosamente, vizinho do 805”. Ela sorriu e, sem pensar muito, colocou um pouco do que ela havia terminado de preparar em um potinho e subiu até o andar de cima, retribuindo a gentileza. De fato, o tempero dele era excelente e o sabor surpreendente com a troca do tradicional frango por cogumelo shimejji. Seria ele vegetariano? E será que ele iria ler o número do telefone dela escrito a lápis no final do bilhete que ela havia deixado?”

Receita: Caril Tailandês

400gs de Shimejji

1 cebola picada

1 dente de alho

½ bulbo de erva doce picado

1 colher (chá) de coentro moído

½ colher (chá) de pimenta vermelha picada

1 colher (chá) de raspas de casca de limão

1 colher (chá) de páprica

½ colher (chá) de cominho moído

2 colheres (sopa) de óleo

3 colheres (sopa) de shoyo

1 xícara de leite de coco

2 folhas de limão

2 pimentões vermelhos ou amarelos fatiados

10 cebolinhas fatiadas em tirinhas

Higienize e refogue bem o shimejji com um pouco de sal e azeite. Retire da panela e reserve. Bata no liquidificador a cebola, o alho, a erva-doce, coentro, pimenta, raspas de limão, páprica e cominho. Aqueça o óleo no fundo da panela onde já havia refogado os shimejjis ou então use uma frigideira funda e larga. Junte os temperos batidos e cozinhe por dois minuto. Adicione o Shimejji e mexa delicadamente até envolver totalmente no tempero. Junte o molho de soja, o leite de coco, as folhas do limão, 2/3 de  xícara de água, os pimentões e as cebolinhas. Cozinhe por mais quinze a vinte minutos e sirva em seguida.

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Sobre feijão tropeiro, improvisos e não-planos.

Observo os quiabos sobre a pia – É inevitável o sorriso quase sarcástico que acompanha meus pensamentos – De todas as coisas que imaginei fazer neste ano de 2020, e foram muitas, desde os planos mais básicos até as loucuras mais improváveis, ficar presa em casa, saindo raramente, sempre de forma planejada, em uma quase operação de guerra que busca evitar as áreas e os horários mais movimentados, usando uma máscara e sem poder sequer estender a mão para cumprimentar qualquer conhecido que, apesar de meus extremos cuidados, cruze meu caminho, é algo que definitivamente não constava sequer das minhas hipóteses mais loucas. E acreditem: Minha imaginação é bem grande. Digo tudo isso, pois, olhando pros quiabos me lembro da última ida ao mercado: Ao chegar, apesar da tensão, não houve como fugir do riso: Quem imaginaria que estaria dando banho em garrafa de óleo e limpando sacos de arroz e farinha com álcool gel? E quem poderia supor que, ir à feira, nestes tempos significaria comprar coisas para duas semanas e chegar a casa com paciência para higienizar tudo metodicamente antes de guardar? Como não rir de bananas e abacaxis sendo lavados?  Pois é, tempos estranhos. E tempos estranhos fatalmente trazem uma necessidade de inovar, improvisar. Um exemplo é o meu gosto pelo alho – Geralmente coloco 5, 6 dentes na maioria dos pratos – Seja no feijão, no molho de tomates, no quiabo. Mas, sem poder sair cada vez que algo acaba, fiquei encarando aqueles quiabos que imploravam por muito alho, enquanto, em um pote, o feijão fradinho cozido também implorava por alho e ainda ia adiante, exigindo que eu deixasse de lado o quiabo e o transformasse logo em um feijão tropeiro – prato que em outros tempos muito me agradava. Mas como inventar versões veganas em meio ao caos? Acredite, neste momento o quiabo assobiou baixinho e disse: Usa-me nesse feijão tropeiro aí! E então veio a ideia: Piquei meus cinco dentes de alho, higienizei os quiabos. Piquei o alho e coloquei numa panela de fundo grosso, coloquei sal e óleo e fui picando os quiabos em rodelas fininhas naquela panela quente, para que fritassem. Terminados os quiabos, acrescentei meia cebola e um pedaço de pimenta vermelha e, por fim, o feijão com o mínimo de caldo possível – Tudo fritando junto e misturado. E então, o toque final: Acrescentei farofa na mistura, mexi delicadamente até secar de vez e estava pronto meu feijão tropeiro vegan. E, olha, ficou muito bom – Num futuro, quando não for mais necessário ficar em casa ou dar banho nas embalagens, possivelmente eu varie os vegetais, ou apenas aumente mais a quantidade de alho!

O conto do café da manhã, dos abraços, panquecas e saudades

Durante aquela época de isolamento, o tempo parecia passar como o vento – Algumas vezes, tempestade, outras vezes, completo marasmo. Depois de tantos dias exatamente iguais, em cuja conta ela já se perdera, um final de tarde trouxe o frio. Embora o inverno estivesse longe, o outono em seu ápice derrubava as folhas das árvores e ia deixando que o ar gelado chegasse de manso, nublado e, essa melancolia tão natural nas tardes do meio do ano, fez com que a menina que todo o dia pensava naqueles mergulhos dados em olhos cálidos e misteriosos, lembrasse também de manhãs onde se perdera em abraços quentes, lençóis bagunçados e pele perfumada. A saudade era coisa estranha – Já haviam passado períodos longos sem se ver, sem se ouvir, sem se tocar, mas a ideia de que a qualquer momento o encontro poderia acontecer, até então, mantinha um calor no coração, uma expectativa gostosa de viver aquele sobressalto quando menos esperasse, porém, naquela tarde fria, não havia perspectiva – O mundo todo estava parado, suspenso, aguardando uma solução que demorava a chegar. Havia apenas a saudade e a esperança de que tudo se resolvesse. E assim, a menina, já cansada de aguardar as notícias que não dependiam de ninguém que ela conhecesse e que tardavam a chegar, foi até seu lugar favorito: A cozinha. Ela apreciava imensamente conversar com os alimentos, desagradava-lhe ir jogando todos nas panelas ou vasilhas, sem dialogar com eles – Cozinhar era, para ela, algo mágico e sagrado. E então, olhando as bananas na fruteira, lembrou de um café da manhã com panquecas fofas e beijos. Tal qual aquela manhã, com delicadeza, amassou as bananas, misturou farinha de aveia, aveia em flocos, chia, açúcar demerara e um pouco de água– Lembrou o sorriso dele provando aquelas panquecas improvisadas, servidas na cama, com café e amor. Para a menina, aquele sorriso era o resplandecer de um sol só dela, o melhor bom dia que qualquer mulher poderia desejar. Naquela tarde de solitário outono, a lembrança daquele sorriso aqueceu seu coração. O frio pedia uma alteração na receita: Adicionou cacau, canela e cravo em pó, um pouco de kümmel e um pouco de fermento em pó. Numa caneca, colocou água quente sobre o chá mate. Aqueceu a frigideira antiaderente levemente untada com óleo e despejou toda a massa. Tampou e deixou em fogo bem baixo. Pensou em pegar o caderno para escrever, mas desejava apenas permanecer ali, envolta em seus devaneios. De quando em quando, observava para que não queimasse. Quando já estava firme, virou e deixou mais alguns minutos. Furou com um garfo para ver se não havia nada cru. Coou o chá e espremeu meio limão. Retirou delicadamente aquela panqueca macia (que pelo tamanho da frigideira se tornara um bolo) e colocou em um prato. Estava pronto o lanche da tarde que, embora não matasse a saudade dos momentos vividos, trazia memórias e um vislumbre do futuro onde, após uma noite intensa e um amanhecer doce, ela prepararia um café da manhã e o serviria, antes de entregar-se novamente a cada pedido dele. Então, ao sentir aquele sabor doce e delicado, como acreditava na íntima ligação entre magia e alimento, desejou que ela sempre fosse para ele uma pessoa doce, na medida exata de seus desejos.