Vacinada

Vacinada.

A oportunidade que quase 500 mil brasileiros infelizmente não tiveram devido aos atos criminosos do governo negacionista.

Vacinada mas ainda não imune, falta uma dose e falta atingir a imunidade coletiva, o que só acontecerá quando a maioria da população estiver imunizada. 

Quem acompanha a CPI consegue perceber como o governo federal negligenciou a compra de vacinas e a condução das medidas visando reduzir os casos do vírus. Para quem observa atentamente a política, a CPI só confirma e aprofunda o que já se sabia. Não é novidade.

A crise da covid-19 é sanitária, econômica e política. Se analisarmos, todas as crises são políticas, pois a vida em sociedade é política e ignorar isso em uma postura de isenção é, na verdade, aceitar os fatos dados – Geralmente pelo lado que tem maior poder financeiro. 

É difícil (e muitas vezes perigoso) lutar pelo que se acredita. Muitas vezes a vontade é desistir e sumir. Mas que tipo de pessoa seríamos se fizéssemos isso? 

Não basta desejar mudanças. É preciso refletir, entender e resolver problemas históricos antes de conseguir de fato construir uma nova sociedade. 

A política não deve ser ignorada ou demonizada. É isso que os poderosos desejam: Uma população que não acredita em seu próprio poder de organização. 

Hoje eu me vacinei em uma Unidade Básica de Saúde. Infelizmente a vacina não chegou a tempo para tanta gente e isso aconteceu por uma decisão política. Assim como foi uma decisão política a que optou por criticar o isolamento, o uso de máscaras e subestimar a pandemia.

Que num futuro próximo as pessoas lembrem da importância da política, principalmente nos momentos de crise. 

Brasil. Para a dívida das igrejas, o perdão. Para o trabalhador, o extermínio.

Em uma rápida busca, encontrei mais de cinqüenta municípios brasileiros com menos de 3500 habitantes. Não aprofundei a pesquisa para encontrar mais. Na última semana vivemos dias de terror, como se diariamente um município inteiro desaparecesse do mapa. Enquanto isso ainda há quem promova aglomerações, bata continência para caixas de cloroquina e defenda a política genocida do “a vida tem que seguir normalmente, mesmo que haja mortes”. Cobrar auxilio digno, vacinação ampla e que o dinheiro usado para perdoar a bilionária dívida das Igrejas seja destinado ao combate à doença essa galera não cobra. Gado não pode ver uma CORONAFEST que já quer participar.  Mesmo diante de toda essa tragédia, tive esperança de escrever um texto curto e senão feliz ao menos esperançoso – Afinal, tivemos sim uma boa notícia: O anúncio de uma vacina 100% nacional, a Butanvac, desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com o hospital norte-americano Sinai seguido de um segundo anúncio, de outra vacina desenvolvida pela USP de Ribeirão Preto também com parceria internacional. Eu poderia parar este texto aqui comemorando o fato de que apesar dos cortes e da falta de incentivo, nossos cientistas trabalham incansavelmente. Mas infelizmente estamos no Brasil e a torneira de estrume vive aberta por aqui:

            Um funcionário da base governista fez um símbolo ligado aos supremacistas brancos durante a fala de um Senador. Ainda não houve punição. Circula um vídeo onde um homem cumprimenta o (des)governante do país e ao pousar para a foto faz exatamente o mesmo gesto – A reação de Bolsonaro? Repreender o homem, não pelo gesto descrito como “um gesto bacana”, mas “pega mal para mim”. O presidente considera um gesto ligado a grupos supremacistas como UM GESTO BACANA. Depois reclama de ser chamado genocida.

            A ex-apresentadora infantil Xuxa também mereceu repúdio ao sugerir que medicamentos sejam testados em presidiários “para que eles sejam úteis em alguma coisa”, evitando os testes em animais. Como vegetariana, também sou contra os testes em animais, mas acredito que a cobrança seja para que a ciência desenvolva métodos para depender cada vez menos desse tipo de teste, não para que usem seres humanos privados de liberdade como cobaias. A ideia defendida por Xuxa foi eugenista e merece repúdio, especialmente se considerarmos o sistema carcerário brasileiro como realmente é: Um sistema falido, que amontoa pessoas sem condições mínimas de garantia de seus direitos como seres humanos, onde muitos esperam anos até o julgamento, mesmo sendo inocentes – Inclusive recentemente o Fantástico e o Profissão Repórter falaram sobre isso: Pessoas presas injustamente, confundidas por características como “cor de pele” – Aliás, essa é mais uma prova do racismo: Todas as pessoas “confundidas” eram negras. É em um sistema desses que a ex-rainha dos baixinhos acredita ser ético testar produtos? Ela até pediu desculpas, mas não convenceu.

            Notícia mais ou menos boa é a vacinação de funcionários da educação e policiais. Infelizmente, ao primeiro grupo será exigida a idade mínima de 47 anos enquanto aos policiais será garantida a vacina para qualquer idade. Injusto, pois apenas aumentará a pressão pela volta às aulas presenciais em um momento delicado em que a COVID vem matando pessoas cada vez mais jovens. Espero que o movimento “volta às aulas só com vacina” se mantenha forte.

            Também tive conhecimento de que novamente tentam empurrar para as mulheres vítimas de violência sexual o projeto apelidado como “Bolsa estupro”: Uma proibição para o aborto em casos de estupro, com previsão de que o estuprador assuma o bebê ou caso isso seja impossível, que a mulher receba um auxilio financeiro para manter a criança. Lindo país onde a vida do feto vale mais que a vida da mulher. Uma verdadeira vergonha que nem deveria ser cogitada.

            Por fim, uma última noticia para fazê-los refletir: Nossos produtos viajam mais do que nós. Conseguem achar realmente normal que um navio encalhado no canal de Suez possa causar uma crise econômica tão grande? Pois é. A globalização está cobrando seu preço. A troca de conhecimentos entre países é fundamental, mas realmente é necessário que o comércio internacional seja primordial? Não é possível que cada país encontre a maioria das soluções para a vida em seu próprio território? Na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Água (leiam minha postagem de segunda feira passada sobre o assunto), é interessante pensar na questão ambiental gerada pelos transportes marítimos, não apenas no caos econômico que acidentes assim podem causar.

            Termino o texto recomendando a vocês que usem máscara, se cuidem e usem toda a indignação do momento para cobrar auxílio emergencial digno, ajuda aos pequenos empresários, vacinação para todos e #Fora Bolsonaro.

Brasil: Entre o gado, a COVID e a ignorância. Sobrará pedra sobre pedra por aqui?

Entre os fatos da semana, assisto sem muito espanto o presidente da república discursando contra o uso de máscaras – Não tenho palavras educadas para descrever o que sinto. Nos ônibus, algumas pessoas insistem em tirar a máscara – Além de enviar reclamações freqüentes e detalhadas – Que em nada tem adiantado – aos responsáveis pela viação, agora apelo para outro “truque”: Forço uma tosse contínua, algumas vezes “atendo” o celular e comento sobre a preocupação acerca do meu ambiente de trabalho que já conta com alguns casos confirmados (nenhuma inverdade nesta parte). Está cada vez mais difícil sobreviver no Brasil e, em alguns momentos eu me pergunto: O que é que ainda estou fazendo aqui? Aí me lembro que fiz direito e não informática ou ciências, carreiras que me tirariam daqui com maior facilidade. Arrependo-me da faculdade feita pela milionésima vez. Será que brasileiros são bem vindos como inspetores de alunos em outras partes do mundo? (Pesquisa Google) E nesse ritmo a semana segue entre más notícias, trancos e barrancos. O fato engraçado é que até mesmo Israel, país que o atual presidente tanto busca como parceiro, está vacinando em grande escala, fazendo inclusive propagandas bem incisivas contra os “palhaços” que negam a ciência. Palhaços, Bozo, Bozonaro… Seria mera coincidência?

            O fato, amigas e amigos, é que um ano após o primeiro caso de COVID no Brasil, temos um país em colapso, sem leitos de UTI, com a vacinação caminhando a passos de formiga, escolas reabertas, leis de isolamento em horários sem sentido e um presidente ameaçando não ajudar os Estados que decretarem lockdown. Ao mesmo tempo, observo ainda agora a reportagem sobre Whuan, cidade chinesa onde surgiu o surto de COVID – Impressionante o respeito humano, o uso de máscaras – Inclusive em crianças que ainda usam carrinho de bebê – mesmo já não sendo obrigatório, permanece. A medição de temperatura exposta em telas em cada lugar, os aplicativos que rastreiam as pessoas para avisá-las de que estiveram em lugares com suspeita de casos para que permaneçam em casa, de quarentena, caso haja a mínima chance de contaminação. A China provou que a tese brasileira de “Ou salva a economia ou salva vidas” não funciona – Por lá, com respeito, educação, união e um governo rigoroso e pautado na ciência, foi possível salvar vidas e economia, tendo em vista o crescimento econômico do país durante a pandemia. Invejável – Deve ser bom ter um presidente, não é mesmo?

            Nas últimas semanas, tirei férias desses meus textos de domingo – mas como um breve resumo do que aconteceu posso dizer que: O presidente deve pensar que militares que comem leite condensado se tornam Brigadeiros – Só isso para justificar os milhões gastos em leite condensado no ano anterior. Ou será que estamos desenvolvendo uma vacina à base de leite condensado? Seria a brigadeirovac? Tudo bem que o escândalo presidencial acabou abafado pelo início do “Big Brother Brasil” e suas polêmicas (nada contra quem assiste inclusive qualquer falarei sobre isso aqui) e em seguida pela prisão de Daniel Silveira – Deputado do PSL que fez um vídeo contra o STF. Se a prisão foi uma notícia boa, a reação dos congressistas foi bizarra: Tentaram votar, a toque de caixa, uma lei que blindaria ainda mais os parlamentares, tornando praticamente impossível prendê-los em flagrante – Essa foi por pouco! Vitória temporária do bom senso, a lei foi retirada de pauta. Outra notícia interessante: Brasileiros criaram geladeira e fogão solares – Acho que vai ser necessário, com o preço que vai o gás só temos duas opções: Cozinhar com o calor do Sol ou comer tudo cru. Por fim, o nada excelentíssimo finalmente dá sinais de retomar o auxílio emergencial – Em valor insuficiente e com a condição de retirar a obrigatoriedade dos investimentos mínimos em saúde e educação (soube que já houve alteração do texto e a saúde foi “salva” ou ao menos remediada) – Tudo bem que, no caminhar que as coisas vão, em alguns meses talvez já não haja mais necessidade de saúde, educação, previdência ou segurança – Afinal, mortos não precisam de nada disso. O importante é que voltamos a ter futebol e que a Karol Conka saiu do Big Brother Brasil com a mais alta rejeição – Só espero que este número se repita em 2022 na eleição que realmente importa – Então por favor, até lá, tentem vacinar o gado bolsonarista contra febre aftosa e deixem para nós, seres sensatos, a vacina da COVID. Enquanto isso, as músicas da Karol Conka seguem fazendo parte da minha trilha sonora  enquanto leio e observo os caminhos bizarros que o país vai tomando, com o desgoverno e seus militares – neste ponto, fico corroendo o desgosto de pensar que já cogitei seguir carreira militar – Ainda bem que em um lampejo de bom senso desisti da prova. Eu certamente não gostaria de estar neste lugar vergonhoso da nossa história. Apesar da vontade de jogar a toalha, sigo tentando sobreviver as duas epidemias que nos assolam: A de COVID e a de ignorância, sabendo inclusive que a segunda está colaborando ativamente para o sucesso da primeira.

Negacionismo mata! Vacina para todas, todos e todes. Auxílio emergencial já e #ForaBolsonaro

A luz, o injustificável e o silêncio

Para milhões de brasileiros, hoje o dia amanheceu com ar de suspense: As duas vacinas que solicitaram aprovação emergencial de uso seriam aprovadas? Não há como definir o alívio ao ver a primeira brasileira ser vacinada: Mônica, uma mulher negra, moradora da periferia, trabalhadora da saúde – Uma representante de tantas outras mulheres brasileiras. Ainda falta bastante para que este alívio chegue a todos e todas, mas o primeiro passo foi dado em direção a uma pequena luz no final do túnel – Luz esta que precisávamos ver após esta semana em que assistimos com perplexidade o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas e a morte de pessoas pela ausência de oxigênio. O colapso pinta com sangue um quadro dantesco que algumas pessoas insistem em não enxergar: O descaso e a incapacidade do governo federal em garantir condições para o controle da pandemia. Além dos artistas que se uniram para enviar oxigênio, Venezuela expressou sua solidariedade oferecendo médicos e cilindros de oxigênio ao Brasil – A mesma Venezuela governada por Maduro e tantas vezes ofendida pela família presidencial e seus seguidores. Enquanto isso o avião que deveria buscar na Índia doses de vacina permaneceu no chão, aparentemente o especialista em logística que comanda a pasta da saúde pensa que vacina é como lata de cerveja num supermercado: Sempre disponível, só chegar e comprar. Não é bem assim! Quem demorou a manifestar interesse e adquirir as doses precisa entrar na fila e espera a vez – Enquanto isso o número de mortos sobe.

            E dá-lhe panelaço e pedidos de Impeachment – Confesso que após todo o estrago feito, será muito difícil e penoso consertar a situação do país. A população precisará estar atenta para cobrar e para construir saídas para a crise – E eu não estou falando de empreendedorismo e coach e sim de organização em fóruns populares e movimentos sociais – Afinal, o poder vem do povo e em seu nome deverá ser exercido. E o impeachment é apenas o primeiro passo para o Brasil sair da crise em que se encontra.

            Hoje também está sendo realizado o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e dá um aperto no coração imaginar tantas pessoas jovens expostas a essa doença – Seja no transporte lotado para chegar aos locais de prova (para quem não sabe aos domingos as empresas de transporte diminuem a frota nas ruas, causando aglomerações nos ônibus), seja dentro da sala de aula durante tantas horas – Tudo para buscar uma vaga no ensino superior, para perseguir o sonho de “ser alguém” na vida, pois a sociedade de consumo não consegue entender que um ser humano já é alguém e merece condições dignas mesmo que não possua ensino superior e MBA. Longe de mim dizer que a universidade não é importante – Ela é! Se não fossem as universidades, não teríamos pesquisas, vacinas, equipamentos médicos. Mas não é mais importante do que a própria vida humana, sendo injustificável a exposição a um risco de contaminação para buscar uma vaga.

            Injustificável também é o vídeo da execução de dois garotos que estavam nadando na Vila Telma, bairro da baixada santista. Até quando a polícia militar se achará no direito de devolver os impostos que pagamos em balas que sempre encontram as carnes periféricas? Passaram-se apenas dezessete dias desde o início do ano e quantas crianças e adolescentes já sucumbiram vítimas da violência urbana e policial? Onde estão os gritos de indignação daquelas pessoas que protestam contra o abordo se dizendo pró-vida quando vidas são ceifadas de forma tão cruel?

            Termino por fim este apanhado da semana com uma pequena reflexão: Se decidíssemos guardar um minuto de silêncio por vida perdida nesta pandemia no Brasil ficaríamos pelo menos 144 dias sem falar nada – Seria um silêncio ensurdecedor.

O jacaré, a vacina e a meritocracia

Recentemente fui surpreendida com uma fala do presidente insinuando que quem tomasse a vacina para COVID-19 poderia se transformar em jacaré. Bem, não sei o motivo da surpresa – Em meio a uma pandemia que já ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros (sem contar as não notificadas) foram tantas falas sem pé nem cabeça que a história do jacaré poderia ser apenas mais uma. O problema é que esse tipo de coisa se alastra e infelizmente tem quem acredite – Estou em alguns “grupões” de whatsApp onde há uma intensa troca de informações nada confiáveis (como por exemplo o “grupão” do bairro e outros) e fiquei surpresa sobre a quantidade de conteúdo que tenho recebido sobre os perigos de se tomar vacina – Desde pessoas dizendo que causa autismo (fake news velha), até dizendo que altera o DNA ou pode transformar alguém em jacaré. Tudo isso com artes coloridas e chamativas que emprestam um ar de respeitabilidade pela fonte – E fazem as pessoas se esquecerem de que sequer há uma fonte citada. Então decidi que neste domingo, em vez de falar sobre todos os acontecimentos da semana que passou (ou das semanas já que há tempos não escrevia este tipo de texto), vou falar um pouco sobre coisas que realmente causam danos e a maioria da população consome sem questionar:

Agrotóxicos. Vocês sabiam que há agrotóxicos que causam aborto nas mulheres que moram próximas aos campos onde são aplicados? Sabiam que há estudos ligando a incidência de câncer ao consumo de alimentos com agrotóxicos? E que seus compostos tóxicos destroem lençóis freáticos, contaminando a água que iremos beber? Pois é. E sabiam que o governo Bolsonaro liberou o registro de mais de duzentos tipos de agrotóxicos, muitos deles proibidos em outros lugares do mundo? Pois é. Em vez de reclamar da vacina que irá salvar vidas, que tal pesquisar sobre isso e protestar contra essas liberações?

Metais pesados. Outro dia uma reportagem veiculada no Jornal Nacional mostrou um estudo feito em uma aldeia indígena no Pará. Muitos indígenas apresentavam uma quantidade excessiva de metais pesados no corpo. Assim como o rio e os peixes que chegam ao consumo da população. Esses metais são decorrentes da mineração, principalmente da extração do ouro. E eles vão chegar até a sua mesa – mais cedo ou mais tarde – envenenando o seu corpo e causando inúmeros problemas de saúde. Então, já que a indignação pelo descaso com a população é tão grande, pesquise e questione sobre isso também. Uma dica: Advinha quem é super favorável a liberar geral a mineração? Ele mesmo, Bolsonaro.  

Microplástico. Sabia que no Brasil apenas 3% do lixo produzido chega a ser reciclado? Sabia que animais marinhos morrem por ingestão de plásticos ou acidentes relacionados ao lixo? Pois é. E recentemente cientistas encontraram microplástico em uma placenta humana – tudo indica que aquele aglomerado de celular que irá formar um bebê está sendo formado por células e… Plástico! Por outro lado, a Alemanha anunciou que a partir de 2021 estão proibidos os plásticos descartáveis no país. Então, se você realmente se importa com a vida, usa o tempo desperdiçado retransmitindo fake news sem sentido para pesquisar sobre os danos causados pela poluição e diminuir seu consumo de plásticos, optando por produtos naturais, utilizando sacolas de pano para as compras e separando o lixo para a reciclagem. Vai ser mais útil pra você e pro planeta.

Agora, como eu sou uma pessoa legal e estou de bom humor, vou deixar uma dica para você que realmente acredita que a vacina irá transformar pessoas em jacarés mutantes: Jacarés possuem muitos dentes – Como os jacarés advindos da vacina serão meio humanos, ainda permanecerá o hábito de utilizar fio dental e pasta de dente, fazendo o consumo destes itens subir vertiginosamente. Então, você que acredita mesmo nesta fala absurda do SEU presidente, pegue o SEU dinheiro e compre fio dental em  grande quantidade– Quem sabe você se ocupa vendendo para os híbridos humanos jacarés recém vacinados? Afinal, se você não ficar rico fazendo isso é uma questão de meritocracia, você apenas não se esforçou adequadamente – Os jacarés estavam logo ali, você não viu não? É só procurar e se esforçar bastante que vai dar certo. Confie, afinal, se o mito falou e caiu na internet, deve ser verdade.

O conto de Dezembro, da chuva e da saudade.

Chovia – Uma chuva fina, contínua, fria. O clima parecia querer desmentir o calendário. Não podia ser Dezembro. A menina lia um livro qualquer, recostada em uma confortável almofada. Uma plataforma digital reproduzia algumas músicas aleatórias. O tempo ganhara seu próprio ritmo – Passava rápido e ao mesmo tempo se arrastava. A saudade ganhava seus próprios tons, histórias, lembranças – Naquele dia, ela lembrava uma noite em que ele a havia abraçado e conduzido em uma dança numa noite do ano anterior no centro de São Paulo. Logo ela, que sempre havia se gabado de ser um pé-de-valsa, naquele dia se atrapalhara e não conseguira manter o ritmo, por outro lado, gravara-se em cada célula de seu corpo o doce perfume dele, a respiração, o calor da pele, o toque. Naquela noite, olharam a lua, sorriram, compartilharam carinhos. Quem poderia dizer que meses depois o mundo iria mudar tanto? Quem poderia adivinhar que uma viagem, um abraço, um toque, poderia se tornar tão perigoso? A menina desiste do livro, vai ler notícias. Do outro lado do mundo, em Moscou, a população já recebe suas primeiras doses de vacina enquanto no país em que ela mora, sequer haveria seringas suficientes e vacina ainda é tema de controvérsia antes mesmo de ter sua aplicação liberada.
É Dezembro e chove. Fino, pesado, contínuo. Uma chuva fria e contínua como a saudade que aperta o coração, maltrata a alma, angustia os dias. É quase Natal e, enquanto tantas pessoas começam a pensar em suas rotinas irresponsáveis de festas e viagens, ela procura uma foto dos dois e escreve um texto – O único presente que deseja é poder abraçá-lo novamente em segurança, sem medo do invisível que devasta o mundo. O coração bate forte como quem diz “Um dia… Um dia tudo voltará ao normal. Esperança.”

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*Recado Importante*

Dia 23/12 estarei no Meet&Greet: Natal na Quimera. O evento virtual vai reunir um super time de autores das últimas obras de 2020 e da Antologia de Natal (para a qual eu fui selecionada). Vai ter bate papo, sorteios, leitura coletiva e muito mais! O ingresso custa apenas R$10,00 e parte desse valor será revertido em donativos para a OAIB (Obra de Assistência à Infância de Bangu), ou seja: Você adquire o ingresso, prestigia a cultura nacional, participa de um evento super legal e ainda contribui com uma causa social! Tudo isso por R$10,00. Você não vai perder né? Clique aqui e adquira o seu convite! Te espero no evento!

A partida de várzea, a Idade Média e o Ministério da Eliminação do Meio Ambiente. Parágrafos de um país em decadência.

Dentro da lógica bolsonarista pode-se comparar o Brasil a uma bola durante a partida de futebol no campinho de várzea – O presidente seria então o equivalente ao menino mimado dono da bola que ao ver o time adversário fazer gol pega a bola, coloca debaixo do braço e volta pra casa com cara emburrada. Isso aconteceu essa semana por ocasião da compra da Coronavac, a vacina desenvolvida pela China que seria fabricada aqui no Instituto Butatã: O Ministro da Saúde, Pazuello sinalizou interesse na compra da vacina Chinesa, o que ocasionou um momento de garoto mimado no presidente que fez questão de demarcar território deixando claro que quem manda é ele, atitude que deixa claro uma postura que inviabilizaria qualquer trabalho em equipe, caso o presidente tivesse sido suficientemente inteligente para nomear uma equipe com competência e compromisso com o país.

            Enquanto isso, o STF deverá decidir se a vacina contra a COVID será ou não obrigatória – Assunto que divide opiniões antes mesmo da disponibilização da vacina. Os argumentos rasos dos antivacinas ganham espaço muito rápido com o advento moderno das redes sociais, mas não passam de argumentos do século XIX repaginados. Como eu disse em um texto no início deste ano, o Brasil está fazendo a Terra girar ao contrário e, se não tomarmos cuidado, logo acordaremos na Idade Média. Vacina é um pacto social de proteção mútua: Quanto mais pessoas imunizadas, menor o risco do vírus chegar aos grupos que não podem receber imunização (pessoas alérgicas ou bebês que ainda não atingiram a idade ideal para receber a vacina, por exemplo), portanto não há justificativa válida para recusar a vacina da COVID ou qualquer outra vacina disponibilizada pela rede pública de saúde.

            Outra situação inusitada – O Ministro Ricardo Salles recebeu a Grã Cruz da Ordem de Rio Branco, o mais alto grau de honraria concedido pelo Ministério das Relações Exteriores. A condecoração foi dada por Serviços Meritórios – Ou seja, no Brasil, um Ministro do Meio Ambiente inerte, que “passa a boiada” e permite uma série de degradações, segundo o presidente, presta serviços meritórios ao país. Talvez seja tempo de mudar o nome do ministério para Ministério da Eliminação do Meio Ambiente.

            No exterior, as notícias são preocupantes: Uma segunda onda da COVID varre a Europa com mais velocidade que a primeira, colocando o velho continente novamente em alerta. Nos Estados Unidos, o período eleitoral avança e uma astronauta votou do espaço através de uma cédula virtual.

            No Chile um plebiscito ocorrido hoje irá decidir se a Constituição, herança do período ditatorial, será reformulada. Ainda na América do Sul, essa semana a Bolívia reagiu ao golpe sofrido por Evo Morales ano passado e elegeu o candidato indicado pelo partido do ex-presidente – Uma notícia boa para essa semana complicada.

            Outra notícia boa: O Papa, pela primeira vez, se pronunciou favoravelmente a união civil de pessoas do mesmo sexo. Muito embora religião e Estado sejam coisas diferentes e em um mundo ideal a primeira seria relegada a um papel de conforto individual e o segundo buscaria o bem comum da sociedade sem interferências religiosas, sabemos que ainda há uma tendência muito grande em basear a sociedade e suas leis nos valores religiosos, portanto, qualquer manifestação de um líder como o Papa em favor de direitos e garantias civis é um marco a ser comemorado – Mas sem o exagero que vimos nas redes esta semana!

            Por falar em comemorações, vocês se deram conta de que os panetones natalinos estão chegando às prateleiras dos supermercados? Pois é! Faltam exatamente dois meses para o Natal e o capitalismo já começa a colocar as garrinhas de fora e vender seus ideais de que um Natal só será Natal para quem puder consumir – Que tal modificar esse padrão e fazer a economia circular na sua comunidade, comprando guloseimas natalinas e presentes de artesãos e artesãs? Consumo consciente também é um modo de atuar politicamente e melhorar a economia do país, mas isso é assunto para outro texto.