Hoje, apesar do caos, eu quero falar de amor.

Finalmente a chuva e o frio típicos do inverno estão dando as caras por aqui. E com o frio meu humor diário melhora e por alguns momentos, eu encaro a página em branco pensando: Não, hoje eu não vou falar sobre o governo jogando para ocultar o número de mortos da COVID (e dizendo que a intenção era melhorar o sistema), nem sobre as sinistras filas nos comércios que vão aos poucos reabrindo durante o pico da pandemia ou sobre o fato de que países europeus proibiram vôos vindos do Brasil ao ver o descontrole da situação por aqui… Pois é, eu realmente não quero falar sobre tudo isso, mas já acabei falando. Entretanto, no próximo parágrafo eu prometo ignorar o caos e falar de amor. Não porque foi o dia dos namorados na sexta feira – Coisa que eu esqueci e acabei não preparando uma listinha de músicas ou filmes fofos para postar aqui no blog. Quero falar de amor em um sentido que acompanhe meus textos de domingo: O amor que acontece no mundo e todo seu sentido social e politico.

E como o amor é bem mais que a relação romântica que ocorre entre pessoas começaremos falando logo de um tema polêmico – Nesta Quinta Feira foi exibido no canal Corpo Rastreado (youtube) a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, A Rainha do Céu”, monólogo onde a atriz e ativista trans Renata Carvalho recria a vida de Cristo vindo ao mundo como uma travesti. A peça, exibida na emblemática data no feriado de Corpus Christi, reflete sobre o amor na sociedade, sobre empatia e sobre a forma como as minorias são tratadas – Afinal, como seria se Jesus realmente voltasse como uma pessoa trans? A autora transexual Jô Clifford consegue passar uma verdadeira imagem de amor.

A segunda notícia sobre o amor é mais romântica e polêmica: Um trisal de Sorocaba está esperando o nascimento do segundo bebê. Para quem não sabe, trisal é uma relação amorosa entre três pessoas. Diferente do que muitas pessoas pensam, a poligamia não é sinônimo de pessoas tendo relações aleatórias e sem cuidado. O poliamor ou poliafetividade é uma relação onde os envolvidos possuem a intenção de manter uma relação romântico-amorosa com respeito, atenção e carinho entre si, por longo prazo (sabe o “até que a morte os separe?”, então, imagine isso dito por três pessoas e vocês irão entender o conceito de trisal). A família de Sorocaba é formado por Marília Gabriela, Natali Júlia, Jonathan e o filho Raoni, além da menina que ainda irá nascer – De acordo com a reportagem, a relação teve início em 2011 e, como em muitos casos, as pessoas envolvidas não pensavam em formar um trisal. Infelizmente no Brasil as uniões poliafetivas são proibidas e as já existentes foram anuladas – O que não impede que, de fato, existam pessoas vivenciando essa rotina e tendo dia a dia seus direitos negados perante a legislação de um Estado que insiste em querer comandar o sentimento e o corpo das pessoas, ditando regras que não lhe caberiam ditar – Tudo em nome de moral e bons costumes – Conceitos que as bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia e seus seguidores já jogaram pelo ralo há muito tempo e que, de verdade, jamais deveriam ter como balizas a maneira como os seres humanos decidem amar e utilizar seus próprios corpos.

Quem quiser ler a reportagem original sobre o trisal, é só clicar aqui no link.

Cyrano de Bergerac – Edmond Rostand

O segundo livro do #DesafioLiterário2020 #Maio é, na verdade, uma peça de teatro escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand. A edição que tenho em mãos foi traduzida por Ferreira Gullar e encenada pela primeira vez no Brasil em 1985, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. A obra é uma comédia que retrata a história de Cyrano de Bergerac, um soldado e poeta francês que, apaixonado pela prima Roxana, não tem coragem de declarar seu amor por ela e acaba ajudando-a a casar-se com Cristiano, pelo qual a moça nutria uma paixão, escrevendo as cartas com que o rapaz fez a corte a ela. O enredo pode parecer pouco interessante em um primeiro exame, porém, em uma breve pesquisa, algumas curiosidades tornam a leitura um pouco melhor. A primeira é que, Cyrano de Bergerac não é uma personagem ficcional, e sim um escritor Francês que viveu entre 1619 e 1655, entrou para o exército, duelou inúmeras vezes (muitas delas em conseqüência das freqüentes provocações recebidas devido ao seu nariz grande) e escreveu livros de sucesso na época – sendo ele o primeiro autor a imaginar uma viagem espacial. Cyrano morreu pobre e doente, não tendo se recuperado completamente de um ferimento na cabeça causado por uma viga que o atingiu num acidente. Diferente do que narra a peça, não há evidências de que o autor tenha escrito cartas para a prima se passando por Cristiano – Esse sim apenas uma personagem ficcional criada por Rostand.

Outro dado interessante, sobre a peça teatral original: Edmond Rostand escreve o texto em versos alexandrinos (dodecassílabos), no que não foi seguido por Ferreira Gullar, que, ao traduzir, utilizou apenas versos decassílabos e rimas livres, mais adequadas ao nosso idioma segundo o tradutor.

A leitura e posterior pesquisa despertaram interesse pela leitura das obras de Cyrano, História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e História Cômica dos Estados e Impérios do Sol, publicados em 1657 e 1662, respectivamente (infelizmente, até o presente momento não os encontrei para venda ou download), ou seja, a personagem da história acabou despertando mais interesse do que a obra de Rostand em si e, para sanar essa injustiça literária, o próximo parágrafo apresenta alguns dados e curiosidades sobre ele.

Edmond Rostand nasceu em Marselha no ano de 1868, filho do jornalista e poeta Eugène Rostand, ganhando aos 19 anos um prêmio na Academia de Marselha por seu ensaio Dois Romancistas de provence, Honoré d’Urfé e Émile Zola. Embora sua primeira peça teatral tenha fracassado, Edmond persiste e produz uma obra relativamente vasta, composta por peças teatrais e poesia e, embora em sua biografia resumida existam relatos de outras peças marcadas pelo fracasso, o mesmo não se pode dizer da peça Cyrano de Bergerac, que alcançou grande sucesso, contabilizando em 1913 a milésima apresentação. Suas poesias também foram bem acolhidas pela crítica, sendo inclusive um livro de poemas sobre a Primeira Guerra Mundial – Le Vol de la Marseillaise – sua última obra escrita, antes de contrair a gripe espanhola e falecer em 1918. Para quem quiser se aprofundar mais, indico o artigo Literatura, teatro e Cinema em Cyrano de Bergerac: Um diálogo interartístico” que trata da interação entre teatro, literatura e cinema. Outra indicação interessante é o artigo Viagem à Lua: Utopia, viagem imaginária e o mundo de ponta cabeça em Cyrano de Bergerac, onde são explorados os significados literários da viagem à lua. Quem deseja saber um pouco mais, porém não deseja ler um artigo longo, a reportagem da BBC, O homem que imaginou naves espaciais em 1657 também é interessante.

Sobre Edmond Rostand, não encontrei até o momento artigos complementares para compartilhar por aqui, e, numa rápida busca, encontrei seu último livro à venda pela “bagatela” de R$162,72, o que, com todo o respeito, o coloca fora do alcance da maioria dos leitores (ainda mais se considerando a publicação em idioma original, ou seja, francês).

Os livros indicados no #DesafioLiterário2020 #Maio estão neste post , e o primeiro livro lido no mês de Maio está neste post.