Resenha: A poética do brincar [BEDA 03]

Apesar de pequeno em seu tamanho físico “A poética do brincar” é um livro gigante em conteúdo.A autora, doutoranda em psicologia pela PUC-SP e mestre em Artes Cênicas pela ECA-USP desvenda, nesta obra fundamental os meandros do pensamento infantil e a importância do brincar como uma forma lúdica, livre e poética de aprendizado e transição entre a infância e a idade adulta.

Apesar da importância do tema, Marina nos presenteia com uma obra leve, permeada por pequenas histórias e trechos poéticos. 

Uma leitura fundamental não apenas para profissionais da educação, mas para famílias e pessoas que pensam em ter filhos, “A poética do brincar” desperta reflexões sobre a importância de deixar a criança ser…  Criança. Sem utilitarismo ou tecnicismo. Sem pressa de amadurecer. O brincar permite a descoberta saudável do mundo. 

Indico que após a leitura, assistam o documentário “Tarja Branca”.

A educação de nossas crianças é fundamental para a construção de uma sociedade saudável, plena e humanizada. 

Autora: Marina Marcondes Machado

Edições Loyola – 2ª Edição, 2004

73 páginas.

Este post faz parte do projeto BEDA. Conheça também as postagens de: Lunna, Adriana, Obdulio, Roseli, Mariana e Claúdia.

Pluto ou Um Deus chamado dinheiro (Aristófanes)

O que aconteceria se repentinamente apenas as pessoas honestas ganhassem dinheiro? 

Nesta comédia de Aristófanes, autor grego falecido por volta de 375 a.C, nos deparamos com Crêmilo, um homem íntegro inconformado em ver a riqueza nas mãos dos desonestos. Preocupado com o futuro de seu filho e em dúvida sobre educá-lo para ser um homem honesto e pobre ou um desonesto rico, Crêmilo procura o oráculo e descobre que Pluto, o Deus do dinheiro, está cego. A descoberta leva Crêmilo a traças um plano: Curar Pluto para que a riqueza possa ser distribuída com justiça, somente entre as pessoas boas. 

Por meio de diálogos engraçados, Aristófanes mostra o interesse de algumas camadas na manutenção da pobreza: O sacerdote alega que “uma vez que todos tem dinheiro, ninguém mais leva oferendas aos templos”. Além disso, a própria pobreza tenta fazer Crêmilo mudar de ideia, alegando que é ela a responsável pelo trabalho, sem pobreza não haveria trabalhadores para fazer os serviços pesados. 

Embora hoje a sociedade já não renda mais homenagens ao Deus Pluto, é inegável que a busca pelo dinheiro e riqueza converteu-se em um objetivo central, quase como uma religião em que o Deus é o dinheiro. E muitas vezes parece que a riqueza acumula-se com maior facilidade nas mãos dos desonestos Traçando um paralelo, podemos perceber também que há ainda hoje camadas a quem interessa a manutenção da diferença social – Se não houver pobres crédulos lotando templos, onde os mercadores da fé irão conseguir vender seus feijões, lenços e água consagradas por valores exorbitantes? 

Muito além de divertir, a peça de Aristófanes trás reflexões sobre a relação entre o homem e a riqueza e sobre a importância de exercitar o pensamento crítico para traçar paralelos entre o que lemos num momento de lazer e os fatos que permeiam a nossa vida em sociedade. 

E você que me lê, em algum momento já sentiu que as riquezas geradas pelo ser humano acumulam-se muitas vezes com pessoas desonestas? Acredita que o mundo seria mais justo se apenas os íntegros pudessem ganhar dinheiro ou acredita que a manutenção do abismo social é peça fundamental para o equilíbrio da sociedade? Criaria seu filho para ser honesto ainda que isso significasse ter pouco dinheiro ou preferiria criá-lo para ser um espertalhão rico? 

Por minha parte, acredito que devemos lutar pela construção de uma sociedade sem diferenças de classe, onde todos trabalhem e ganhem o suficiente para uma vida digna. Agora quero ler as respostas de vocês aos questionamentos – E de preferência, não deixem de ler o livro para refletir sobre essas questões. 

Paternidades

Paternidade é uma escolha. Pode ser que essa frase choque muitas pessoas, principalmente quando dita/escrita no dia dos pais, porém, por mais chocante que possa parecer, é uma verdade. Maternidade também deveria ser uma escolha, mas, para a mulher, é uma imposição. Vejam, todas as pessoas podem ser genitoras de alguém – basta que uma pessoa com vagina e uma pessoa com pênis mantenham um ato sexual e pode acontecer a concepção de um novo ser. Mas, na nossa sociedade, a mulher cis será obrigada a ser mãe: Carregar o feto por nove meses – Aprender a cuidar e em muitos casos, enfrentar julgamentos nos olhares das outras pessoas, além de ter sua carreira ou estudos interrompidos ou prejudicados. Já ao homem, é dada a escolha: Ser pai ou ser genitor? Muitos optam por serem apenas genitores – Algumas vezes, registram a criança com o sobrenome, pagam pensão e pode ser que peguem o infante quinzenalmente pra visita. Genitor. Não pai. Pai é quem acompanha, é quem está presente além das fotos nas redes sociais. O pai escolhe ser pai, abre mão de algumas coisas, para que a mãe não precise abrir mão de quase tudo, se vivem uma relação de casamento, o pai cuida da casa porque também mora ali, ele não ajuda, ele faz porque é sua obrigação fazer. Ele não ajuda a cuidar da criança – Ele cuida porque sabe que o bebê não se fez sozinho ou por mágica. Ele opta por ser pai.  O pai não precisa ser necessariamente a pessoa com pênis na relação, nem a mãe precisa ser a pessoa com vagina – Ninguém usa o órgão sexual para cuidar de um bebê, nem para limpar a casa – Espero que a essas alturas, vocês já saibam disso, certo? Só estou reforçando devido à polêmica da semana passada, envolvendo uma empresa de cosméticos e um homem transgênero que OPTOU por ser pai, coisa que muitos dos que apontam o dedo, não fizeram.  Agora, falando ainda em pais e filhos, vi uma notícia estarrecedora sobre uma mãe que perdeu a guarda da filha por permitir que a menina participasse de um ritual religioso de uma religião afro-brasileira (não vou apontar aqui se Candomblé ou Umbanda porque esqueci de anotar e não tenho certeza) – O nível de intolerância neste país chega ao absurdo: Numa sociedade em que muitos optam por não ser pais, em que mães se vêem constantemente sobrecarregadas e tolhidas de oportunidades, numa sociedade que atingiu a marca de cem mil mortos pela COVID-19, ainda há pessoas gastando energia em ser intolerante com a religião escolhida por uma mãe e seguida pela filha – O nome disso é intolerância religiosa e racismo – E esse é um dos males que assola nossa sociedade – Aliás, no início da pandemia, li muitas pessoas dizendo esperançosamente que sairíamos melhores como seres humanos deste período. Ao ler as últimas notícias, você que me lê, acredita sinceramente que haverá alguma modificação positiva? Pois, por aqui, está bem difícil de ver uma luz qualquer no final do túnel. Antes que eu me esqueça, um feliz dia dos pais, a todos os leitores que optaram pela paternidade real, ativa e verdadeira. Aos outros, apenas tomem vergonha na cara.

Esse texto faz parte do BEDA: Blog Every Day August.Também participam

Lunna GuedesAle Helga ChrisObdulionoAdriana Mariana GouveiaDrica VivianeClaudia

Rumo ao precipício ou presos eternamente em 2020?

Retomando as notícias da semana, percebi que enquanto o excrementíssimo jumento (com o perdão aos jumentos, animais tão leais e belos, pela comparação que já é clássica entre nós, seres humanos) persegue uma ema com uma caixa de cloroquina nas mãos, deixando no ar dúvidas sobre suas intenções – Que poderiam ser (a) matar a ema numa vingança contra a bicada ocorrida na semana anterior; (b) fazer uma divulgação de natureza duvidosa do remédio ou (c) não havia intenção nenhuma por trás do ato pois a espécie bípede de jumento não consegue sequer raciocinar e imprimir intencionalidade além da famosa arminha com os dedos e repetição de frases de ódio – ouras coisas importantes estão acontecendo pelo nosso planeta: E, acreditem, alguns desses fatos podem influenciar nosso futuro como espécie. Então, deixemos nosso gado por aqui (torcendo para que não surja uma epidemia de febre aftosa ou doença da vaca louca) e começar nosso giro de notícias pela Inglaterra, onde uma nuvem quilométrica de formigas voadoras foi avistada e confundida com chuva por um radar. O fenômeno ocorre por ocasião da época de acasalamento dos insetos – Pelo menos elas estão com sorte e podem acasalar em segurança, sem máscaras e distanciamento social, certo? Viva o amor e vamos torcer para que a teia alimentar esteja bem equilibrada para aqueles lados, senão haverá uma super população de formigas. Outro fato que foi pouco divulgado: A temperatura ao norte do globo terrestre vem sofrendo um aquecimento substancial, chegando a 32 graus no Alasca e, pasmem: Há grandes áreas de tundra sendo destruídas por incêndios. Regiões antes geladas como a Sibéria e a Groelândia também apresentam incêndios descontrolados que, segundo os especialistas, devem liberar bastante dióxido de carbono na atmosfera. Não é preciso ser nenhum gênio para entender que ou mudamos nossos hábitos diários e nosso sistema econômico e de produção a nível mundial, ou seremos engolidos cada vez mais por epidemias, aquecimento global, poluição e morte – Continuar como estamos é caminhar a passos largos rumo a extinção de nossa própria espécie. E por falar em espécies, nos Estados Unidos a mortandade de esquilos levanta um alerta para uma possível onda de casos de peste bubônica, doença que também esteve em evidência nas fronteiras entre China e Mongólia (é, eu avisei que os pensamentos retrógrados de algumas pessoas estão fazendo o mundo girar ao contrário e que, em breve, iríamos ter que lidar com a peste negra e as fogueiras em praça pública). No campo político a notícia boa é que Trump aparentemente vem perdendo força nos Estados Unidos – E aí fica a dúvida, o nosso “patriota” irá imitar o próximo presidente norte-americano ou irá chorar a saudades do Trump na cama, que é lugar quente? Ainda observando nossos vizinhos mais ao norte, vemos que por lá se intensificam os protestos contra casos de racismo e há lugares em que monumentos homenageando personalidades escravocratas estão sendo removidos – O que não apaga o papel danoso dessas pessoas no mundo. Seja como for, com ou sem monumentos, é interessante ver as lutas avançando. Por aqui, tivemos nossos casos de violência policial e seguimos sobre ataques do governo: Enquanto descarta-se a ideia de taxar as grandes fortunas, a equipe de Paulo Guedes dá os primeiros passos para criar uma nova CPMF e taxar livros, ações que irão diminuir ainda mais o poder de compra dos cidadãos e encarecer o acesso à cultura. Por parte do Ministério da Saúde, que ainda se encontra nas mãos do interino, reportagens mostram que a verba destinada ao combate à pandemia do novo coronavírus não vem sendo utilizada, enquanto isso, há declarações no sentido de que não seria obrigação da citada pasta ministerial comprar testes e respiradores – Ou seja, enquanto o maluco egocêntrico norte-americano, com todos os defeitos possíveis, busca garantir vacina e suplementos para sua população, por aqui empurra-se cloroquina (que comprovadamente não possuí eficácia) e nega-se auxílio para que haja um isolamento social adequado e atendimento médico digno à população, ao mesmo tempo em que se planeja o achatamento da renda através da criação dos impostos já comentados. Por último e não menos importante: A tradicional queima de fogos na noite de ano novo no Rio de Janeiro foi cancelada. Agora é torcer para que não cancelem a transmissão anual do Roberto Carlos na TV Globo, afinal, com o cancelamento de tais eventos, arriscamos a entrar em uma fenda temporal e ficar presos para sempre em 2020, comendo sanduíche de cloroquina e tentando encontrar uma saída para o caos – Aliás, quando nós, leitores e leitoras, suspiramos e olhamos para o céu pedindo para viver emoções dignas de livros, temos em mente romances épicos e não distopias e terror onde, aparentemente, o roteirista já não sabe mais o que fazer para acabar de uma vez com o mundo criado, então, na próxima vez que fechar um livro e desejar viver um romance, deixem claro QUAL romance, pois aparentemente o Universo andou ouvindo nossos pedidos e nos trancou em um livro de terror distópico.

Ópera do malandro -Chico Buarque

A segunda leitura do #desafioliterário2020 #Março (se quiser saber quais as outras leituras sugeridas clique aqui e se quiser acompanhar o resumo da primeira leitura de Março, clique aqui) é a “Ópera do Malandro”, uma peça teatral de autoria do músico, dramaturgo e escritor brasileiro Chico Buarque. Embora a história pareça simples e engraçada – A filha de uma família envolvida em negócios escusos engana os pais para se casar com um contrabandista – a análise mais detalhada irá revelar uma crítica ácida aos costumes hipócritas que permeiam a sociedade – Há uma relativa abundância de palavrões, mas como não haveria? As personagens são um casal de cafetões e sua jovem filha, prostitutas e um contrabandista e seus comparsas, além de um policial corrupto que é amigo de Max (o contrabandista). A peça, escrita nos anos 70. é ambientada no Rio de Janeiro dos anos 40, época em que o jogo ainda era legalizado no Brasil. Há uma sensação de tempo se acelerando, como o início do mergulho no jeito norte americano de se viver, a preferência por produtos importados como forma de demonstrar status desenhada em situações ridículas como um vestido de noiva feito de nylon ou em detalhes sutis como os nomes dos comparsas de Max – Apelidos americanizados, copiados de nomes de marcas famosas ligadas a aérea de atuação de cada um dos “malandros”. Malandros esses que se encarregam de levar ao palco através da de sua ginga, juntamente com a fingida inocência das moças e da visão das prostitutas como trabalhadoras que sambam na linha entre a subserviência ao homem e ao patrão e a luta por seus direitos toda uma crítica ao momento em que o Brasil se encontrava mergulhado –  Chico é simplesmente magistral ao retratar com tanta música e humor os momentos tensos vividos pela sociedade brasileira nos anos quarenta mantendo-se atual nos anos 70, onde a censura e a ditadura militar faziam suas vítimas. Ainda mais magistral o autor se torna quando analisando seus textos e versos, encontramos ainda hoje, uma crítica bastante atual. Algumas canções bastante conhecidas fazem parte do texto da peça, complementando as situações colocadas; dentre as canções estão Geni e o Zepelim; Viver do amor e Terezinha, entre outras.        Cumpre salientar que o texto da Ópera do Malandro baseia-se em duas outras obras: Ópera dos Mendigos (John Gay 1728) e Ópera dos Três Vinténs (Bertold Brecht e Kurt Weill, 1928). A “Ópera do Malandro” ganhou uma adaptação cinematográfica em 1986 (disponível no youtube). O elenco, composto por nomes como Edson Celulari e Cláudia Ohana nos papéis principais, atua brilhantemente, entretanto o texto se diferencia bastante da peça – Sem se afastar da crítica social e política.

_____________________________________

Recadinho importante: Se puderem, fiquem em casa! Estamos passando por um momento delicado e tudo que não precisamos agora é lidar com o colapso do sistema de saúde, certo? Sei que, por estar em casa, deveria estar escrevendo mais, mas acreditem: Meu computador não tem facilitado muito a minha vida e eu também estou estudando para concursos - Ou seja: Posso estar em casa, mas a rotina continua maluca! Abraços com carinho!


					

Dica literária: O Diário de Bridget Jones (Helen Fielding)

Bridget Jones é o estereótipo da mulher de trinta anos que ainda não encontrou seu lugar na carreira, nem seu Príncipe Encantado e nem mesmo a satisfação com o próprio corpo. Ela é uma personagem adorável, atrapalhada, em luta eterna com a balança, um pouco bêbada e muito divertida, por isso certamente muitas mulheres irão se identificar bastante com a Bridget ao longo da leitura – não que alguém consiga ter uma vida assim tão atrapalhada! O caso é que em algum momento, todas as pessoas já fizeram uma ou outra besteirinha – Seja ter um caso com o chefe, beber demais ou falar pelos cotovelos quando está nervosa com alguma situação. O diário de Bridget Jones é um livro para mulheres adultas que desejam rir muito e refletir sobre questões como relacionamento familiar, trabalho, auto-estima, filhos e o quanto a sociedade direta ou indiretamente cobra perfeição em todas as áreas da vida.

Ah! Os três filmes são muito engraçados, então vale a pena ler e depois assistir! Em breve (deixa o inverno entrar), vou veganizar a receita de uma certa sopa azul (quem já assistiu ou leu sabe do que eu estou falando).

Sangue na floresta – Vera Martín

O livro chegou à minha mão em algum momento de 2018. Não sei de onde veio, mas o fato é que ontem, enquanto organizava meus livros, encontrei-o e comecei a ler – É um livro curto, então li em dois dias, rapidinho. A autora narra a história de dois adolescentes que viajam para a Amazônia, um deles por precisar afastar-se da cidade após se envolver em uma confusão com drogas e FEBEM, o outro, como bom amigo que é apenas acompanha o primeiro. Não se trata de uma viagem qualquer – João e Válter se dirigem a um acampamento nos confins da Amazônia, onde irão ver a vida de uma maneira que suas realidades de meninos de classe média alta jamais havia lhes mostrado. Diante de lendas assustadoras até temáticas densas como corte ilegal de árvores, desmatamento, corrupção, exploração do trabalho e violência no campo, os jovens acabam amadurecendo e mudando seus conceitos de forma positiva, fazendo com que desejem se organizar e lutar por um mundo justo. A autora narrou de forma magistral, capaz de prender a atenção e levar as mentes mais jovens a refletir. Num momento como o atual, tão marcado pelo egocentrismo, por escândalos políticos e por decretos como o que retira da FUNAI a demarcação das terras indígenas, favorecendo o agronegócio em detrimento das populações nativas, levar este tipo de literatura para a juventude é necessário e urgente. Provavelmente se eu houvesse planejado as leituras deste ano, o livro escolhido não teria sido tão adequado ao momento – Ainda bem que ainda não iniciei os projetos de leitura coletiva e pude, já neste terceiro dia do ano, publicar a resenha de um tema importante e, mais do que isso, perceber que falho em cumprir um papel fundamental ao artista: O de questionar as estruturas sociais através de sua arte. Quando olho no espelho, vejo-me como a poetisa do amor perdido, da esperança, do romance, da solidão e, ao gritar tais sentimentos aos quatro cantos, acabo deixando de falar sobre outros sentimentos que me eclodem da alma: Indignação e desejo de lutar. Não fiz lista de metas para este ano mas talvez, escrever mais sobre temas complexos deva ser uma das metas a cumprir… Quem sabe?

#DicasLiterárias #diáriosdapoetisa #3de365

whatsapp image 2019-01-03 at 18.13.31

Sobre #Elenão, nós sim e a necessidade de lutar

 Temos no Brasil um certo candidato à presidência que acabou se tornando uma espécie de “Voldemort” (vide Harry Potter) – inominável, o coiso, o eterno #elenão. Um ser abjeto que exala racismo, homofobia, misoginia – E, para minha surpresa, ele tem um considerável número de seguidores, inclusive mulheres, muito embora ele diga absurdos como “mulher tem que ganhar menos pois engravida”!
A boa notícia é que neste sábado, o Brasil foi tomado por uma onda lilás :O ato “Mulheres contra o Bolsonaro” lotou as ruas e mostrou que ainda temos pessoas com fibra e coragem para lutar por um país melhor para todos e todas! Estive na manifestação em Santos (SP) e nunca vi um ato tão bonito! Mulheres e homens de todas as idades, etnias e credos unidos por um objetivo fundamental: Derrotar nas urnas o candidato que simboliza o retrocesso político, social e econômico. E no dia seguinte, aconteceu a Primeira Parada LGBT de Santos – E novamente os protestos #EleNão se fizeram presentes! A comunidade LGBT existindo e resistindo!
É importante que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que, além do fundamental #elenão, temos que dizer #NósSim – lutar contra o conservadorismo, contra o racismo, contra o capitalismo que nos explora e rouba nossos sonhos e qualidade de vida, contra a violência, contra leis arcaicas, lutar contra o medo que estão tentando nos enfiar goela abaixo – nosso corpo, nossa vida, nossas regras – e sem uma construção coletiva e diária, isso não se tornará realidade. Dentro desta lógica, o “turno” mais importante destas eleições não será o primeiro ou o segundo, mas sim o “terceiro turno”: A organização popular em torno de objetivos comuns e, esse “terceiro turno” é o fazer político diário, é a organização da luta estudantil, feminista, ambientalista, LGBT – é um objetivo por vezes difícil num país com uma jornada de trabalho exaustiva e horas perdidas no precário transporte público onde os poderosos agem de forma a fazer com que a população odeie a política? Difícil, mas não impossível – A luta contra o valor das passagens em 2013 nos mostrou isso. As manifestações feministas nos mostram isso. As manifestações pelo #ForaTemer nos mostraram isso. As manifestações contra o “coiso” nos mostraram isso ontem, A parada LGBT, as greves, as ocupações que lutam por moradia, os movimentos por demarcação de terras indígenas ou contra o embarque de bois vivos nos mostram isso: Há muita gente disposta a arregaçar as mangas e lutar, muita gente que entende que viver é um ato político – Então, depois de passado o segundo turno, independente dos eleitos (lembrem-se por favor de renovar os votos para deputados e senadores), inclua a política em sua vida, escolha suas pautas e lute por elas. Pelo bem do país, pelo bem do mundo, pelo seu bem. E antes que me perguntem o que tem este texto a ver com um blog de poesia, eu digo: Não há mais bela poesia do que ver uma multidão de corações unidos pelo objetivo de construir uma sociedade sem ódio, sem violência, com igualdade e dignidade para todos e todas. A luta tem em si a poesia e os espinhos de uma rosa – vamos juntos plantar e colher um roseiral?

Sobre a ditadura da beleza vs liberdade e bem estar

Se você é mulher, sabe que a sociedade nos constrange o tempo todo a fazer coisas que muitas vezes não queremos fazer – muitas vezes parece que não somos donas dos nossos corpos. Usamos roupas desconfortáveis, justas, sapato de salto muito alto ou bico muito fino. E temos que sorrir. Sorrir sempre. O cabelo alinhado, a maquiagem perfeita. O seu mundo pode estar desmoronando, mas você precisa estar impecável. E então você olha para o lado e percebe que aquele teu amigo (que todas as meninas acham gato, perfeito, espetacular), só precisa tomar um banho, colocar um jeans confortável e uma camiseta e já está brilhando e fazendo sucesso nos passeios, baladas, no colégio, na faculdade, no role. Certo?  Só se você assumir pra si mesma que isso é certo!

Ano passado, em Setembro, fui assaltada quase na porta de casa – fiquei sem cartão de transporte, sem dinheiro, sem um tablet, sem a chave, sem documentos e, sem maquiagem! Toda a minha maquiagem estava na bolsa! Duas semanas depois, me sentindo nua e com a auto-estima no chão, decidi começar a pesquisar preços de maquiagem, mas já que desta vez eu teria que comprar (as que eu tinha fui acumulando por ganhar de presente em datas como Natal/Aniversário ou então havia comprado em lojas populares, daquelas bem simples mesmo), resolvi que iria comprar tudo de marcas veganas – nada de testes em animais! Nessa mesma época uma amiga me emprestou um livro sobre feminismo e eu me dei conta do quanto a sociedade se intromete no relacionamento entre a mulher e seu próprio corpo. E pensei: Eu preciso mesmo de maquiagem? A falta do cosmético está fazendo uma diferença real na minha vida? Não estava. Decidi aguardar mais um tempo e, em seguida, decidi que não compraria mais esse tipo de produto.

Depois de algumas semanas, acabei percebendo que, além de não me acrescentar nada, o uso de maquiagem é prejudicial ao meio ambiente – A fabricação e o transporte do cosmético e de suas embalagens com certeza consomem água, energia e de alguma forma, polui.  Eu sou mulher, luto pelo veganismo por amor aos animais, preocupo-me com o meio ambiente e, por isso tento antes de comprar qualquer coisa analisar os impactos disso na minha saúde e no meio ambiente através de algumas perguntas:

  1. A fabricação e transporte dessa mercadoria poluiu o meio ambiente? Causou danos? Testou em animais? (Infelizmente a maioria dos produtos tem sim como resposta)

      2. O consumo gera lixo desnecessariamente?

       3. O uso dessa mercadoria é indispensável e vai me trazer um benefício real?

        4. Essa mercadoria faz bem para a minha saúde?

 No caso da maquiagem, não há beneficio pra saúde, não há indispensabilidade no uso e há poluição e gasto de energia. Qual a razão para utilizarmos? Além de que, depois que inventaram filtros para fotos, quando dá vontade de estar com um rostinho diferente, é só dar uma alteradinha na foto! E assim lá se vão cinco meses praticamente sem utilizar maquiagem, nem esmalte! No inicio eu me sentia estranha, achava que meus amigos iriam notar e me achar menos bonita, que o universo iria entrar em um colapso estranho. Nada disso aconteceu! Estou aqui, recebo curtidas nas fotos do Facebook, meus amigos sequer notaram a ausência do cosmético. Eventualmente terei que utilizar, quando for fazer alguma figuração (coisa rara nos últimos anos), talvez ocorra aquela “recaída” vez ou outra (espero que não), mas ainda assim esses meses sem maquiagem tem sido uma experiência interessante, além de ter melhorado muito a minha pele.

E vocês, amigas leitoras? Já fizeram a experiência de abrir mão da maquiagem? É uma quebra de padrões saudável e estimulante.

8c30384417dde57d7cf8695858ee738ddd03ffca06edce2febc2794f3e7f87f2

Precisamos falar sobre censura e falsa moral

Já dizia minha mãe que “Quem fala a verdade não merece castigo”. Infelizmente, essa máxima da sabedoria popular não parece encontrar eco nas ações do governo, representadas pela impunidade de alguns e pela ação violenta da polícia contra outros.

Em Santos, no último dia 30, a Trupe Olho da Rua, formada por atores que se dedicam ao teatro de rua, teve sua apresentação interrompida pela PM de forma brusca – Um ator saiu algemado, elementos do cenário foram apreendidos, bem como o celular de uma espectadora que filmava a apresentação – e, portanto, acabou filmando também o momento da chegada da Polícia Militar.  “Blitz, o império que nunca dorme”, peça cuja apresentação foi interrompida, retrata de forma crítica e bem-humorada, a truculência da do Estado, através de seu braço denominado Polícia, contra a população, em especial contra os que se encontram em situação menos privilegiada: Negros, pobres, periféricos (em determinado momento, um dos personagens da peça pergunta “em quem eu atiro?” e recebe como resposta “no preto”) e contra os que estão lutando por seus direitos (áudios utilizados citam as manifestações de Junho de 2013 contra o aumento das passagens de ônibus). Os atores vestem-se com roupas semelhantes às utilizadas pela polícia, máscaras, saias e cassetetes e utilizam a bandeira do Estado de São Paulo, a Bandeira do Brasil e trechos do Hino Nacional. A alegação para a prisão foi “Uso indevido dos símbolos nacionais”. Caro leitor, cara leitora, antes que você possa responder que houve uma razão para tal ato, vamos pensar um pouco:                                                                                                         A polícia não se sentiu incomodada com o uso dos símbolos nacionais! Os policiais certamente interromperam a peça devido às críticas feitas de forma irreverente ao órgão – eles apenas não podiam citar isso de forma clara e direta como motivo da opressão, pois, em tese, a censura não vigora em nosso país! O que me leva a pensar dessa forma? Em 2014, quando o Brasil perdeu a copa do mundo, bandeiras foram queimadas – isso mesmo QUEIMADAS. Pergunto-lhes: Alguém foi preso por queimar um símbolo nacional? Vamos além: Quando o verão chega, é comum vermos a bandeira utilizada em sungas, em cangas, em chinelos. Não seria então um mau uso dos símbolos nacionais utilizarem nossa bandeira para encobrir corpos seminus? Não caracterizaria mau uso de nossos símbolos utilizar a bandeira em uma sunga ou pisar sobre nosso pendão quando este está estampando um chinelo? Ora, ainda não tomei conhecimento de processos contra os que fabricam e vendem estes itens! Mas o ator que utilizou a bandeira como item de um cenário que retrata a (infelizmente real) truculência do Estado foi preso sob a alegação de desrespeitar os símbolos pátrios. Uma grande infelicidade em um país “democrático”.         É necessária uma grande reflexão – para onde estamos caminhando? Queimamos bandeiras por derrotas no futebol, temos artistas reprimidos por falar a verdade através de sua arte, convivemos diariamente com notícias que retratam a intolerância religiosa, o machismo e a homofobia. Um deputado homenageia um torturador da época da ditadura e permanece livre, protegido por seus pares que não consideram um crime suas declarações.  Desde quando homenagear torturadores tornou-se ato aceitável e dizer a verdade de forma a instigar o senso crítico da população tornou-se ato criminoso?

Eu poderia terminar este texto aqui, mas não gosto de falar apenas sobre a parte meio vazia do copo! Acredito no otimismo e na importância de falar sobre o copo meio cheio, sobre as razões para acreditar! E sabe uma coisa que me leva a pensar que ainda há esperanças? Ontem, mesmo sob o risco de sofrer a repressão policial tão presente nos protestos, em vários lugares do Brasil pessoas foram às ruas contra a PEC 241, conhecida como “PEC do fim do mundo” e que congelaria por vinte longos anos o orçamento público. Em Santos, alunos da UNIFESP, que já ocupam um dos campus em protesto contra a PEC, foram às ruas, juntamente com estudantes secundaristas e trabalhadores que sabem o significado trágico da possível aprovação da emenda. Após percorrer o trajeto planejado, o ato prosseguiu na Praça da Independência e, pouco antes da dispersão os atores da Trupe Olho da Rua apresentaram um pequeno trecho do espetáculo “Blitz, o império que nunca dorme”. Foi uma alegria dupla assisti-los após o episódio que se deu em Outubro e na companhia de tantos lutadores que, inconformados com os desmandos do governo interino (golpista), ainda tomam as ruas para que sua voz seja ouvida!

Deixo aqui um trecho de “Blitz, o império que nunca dorme”. Se quiserem conhecer mais sobre a Trupe, cliquem aqui e curtam a página deles no Facebook.