O misterioso Sr. Noah (Conto BDSM, +18)

O conto a seguir foi escrito para um concurso literário com temática erótica/BDSM. Infelizmente, perdi o prazo de envio e, para que ele não fique parado em uma gaveta, estou publicando aqui. Se você tem menos de dezoito anos de idade ou não gosta deste tipo de leitura, peço que não continue a ler este post e procure outro – afinal, aqui tem conteúdo para todos os gostos. Se aprecia literatura erótica e é maior de idade, continue lendo e deixe um comentário.

Camila estava sentada sobre os calcanhares – Havia perdido a noção do tempo, mas os músculos de suas pernas já começavam a causar desconforto. As palmas das mãos viradas para cima, postura ereta, olhos baixos. Seguira todas as instruções enviadas por ele na mensagem de texto: O quarto escuro, exceto por uma vela lilás colocada em um suporte alguns metros atrás dela, o corpo nu, adornado apenas por uma coleira, a cama arrumada e, sobre a cômoda, os objetos que havia recebido pelo correio naquela manhã: Cordas de juta, um chicote de hipismo, um flogger, uma chibata, alguns braceletes com pesadas argolas de metal, uma mordaça, pequenos grampos e um dildo. Tudo organizado exatamente como na foto que acompanhara a caixa. A ansiedade a fazia ficar excitada – Em silêncio absoluto, ela tentava identificar passos pelo corredor ou o som da chave na fechadura – Era torturante estar de costas para a porta. Tudo havia começado com uma sacola plástica que rompeu na porta do elevador espalhando latas e outras embalagens pelo hall do prédio. Ela estava com pressa, mas ajudou o novo vizinho a recolher suas compras do chão. No dia seguinte, encontrou um cartão agradecendo pela gentileza. Depois disso, esbarravam-se diariamente todas as noites: Cultivavam o mesmo hábito de correr e fazer exercícios na praia. Não falavam, mas trocavam alguns olhares – O corpo dela respondia intensamente quando reparava na bunda dele espremida na sunga ou quando, ao sair ou retornar, sentia o cheiro dele naquele pequeno elevador – Inúmeras vezes fora dormir pensando nele, desenhando com as próprias mãos os caminhos que gostaria de senti-lo percorrer com dedos, lábios e falo, e só dormia depois de chegar ao orgasmo. Precisava tirá-lo da cabeça – Baixou um aplicativo para conhecer homens e, para sua surpresa, a primeira solicitação foi justamente a dele: Senhor Noah. Ela tinha certeza de ter ouvido o porteiro chamá-lo Francisco, ou estaria maluca? Aceitou a solicitação e começaram uma conversa que se arrastou pela noite. Falaram o suficiente, nem muito, nem pouco, apenas o suficiente para estabelecerem algumas regras – estranhas para ela em um primeiro momento – sobre como seria uma relação entre eles. Ela estava presa por um estranho e arrebatador desejo, pesquisou tudo o que pode sobre as palavras que ele sugeriu e, após um choque inicial, gostou do que leu e viu. Então, chegou a mensagem de texto e a caixa. Naquele dia ela deu uma cópia da chave do apartamento para ele. “- Pensativa, cadela?” – A voz firme ocupou o quarto de Camila, que não havia ouvido nenhum ruído que indicasse a chegada dele. “-Sim”, ela respondeu. Um tapa lhe acertou o rosto “- Sim, o que?”. “- Sim Senhor”. Ele a tratava como uma cadela, mandou que ficasse de quatro e caminhasse pelo apartamento, que beijasse seus pés e retirasse seus sapatos. E ela se sentia molhada, excitada. Tentou falar, mas ele lhe deu outro tapa, desta vez na bunda “Cadelas não falam”. Amordaçou-a e colocou em seus braços e tornozelos as algemas e tornozeleiras de couro, unindo-as com uma corrente, mas deixando espaço para que ela pudesse caminhar de quatro. Ela estava exatamente do jeito que ele desejava: Entregue, sem possibilidade de fugir ou gritar. “Lembra dos gestos de segurança, cadela?”. Ela levantou a pata direita, sinalizando que lembrava, fazendo-o sorrir por perceber que ela havia lido até o final as instruções. Então, ele se desnudou, caminhou em direção a ela, passando propositalmente o pênis ereto de encontro bem perto do rosto dela. Sentou-se na beirada da cama e sinalizou para que se aproximasse e o tocasse com o rosto – Ele estava extasiado ao perceber que em nenhum momento ela se afastava ou demorava a cumprir uma ordem, apesar de ser a primeira sessão deles e, em especial, a primeira experiência dela no mundo da submissão. Sem avisar, ele levantou e colocou o dedo dentro da gruta dela, úmida e inchada. Pegou o dildo e introduziu nela, fazendo-a gemer. “Agora, cadela, eu vou retirar a sua mordaça e a corrente que está prendendo seus tornozelos e seus pulsos, e você ficará de pé, com as pernas ligeiramente abertas e os braços apoiados na parede. Quero essa bunda bem empinada e quero que você lata a cada golpe que sentir”. Camila sentia o dildo entre as pernas, desejava poder tocar o próprio clitóris, sua respiração ofegava. Em seus quase quarenta anos de vida, jamais havia pensado que um dia iria se submeter, física ou moralmente, a um homem – E, de repente, lá estava ela, latindo feito uma cadelinha e quase gozando a cada golpe. Sentia sua pele arder, mas não queria dizer a palavra de segurança – Desejava explorar os limites do corpo que, por tanto tempo, só conhecera o prazer de suas próprias mãos. Então, repentinamente ele parou e ordenou-lhe que deitasse no chão, de barriga para cima. Retirou o dildo de dentro dela, trocando-o por um pequeno e potente vibrador. Se ela queria explorar o próprio corpo, ele desejava saber até onde ela seria capaz de ir – Prendeu os grampos em seus mamilos, ouvindo-a dar um gritinho de dor. Vendou-a para que não conseguisse enxergar e ordenou que se tocasse, mas não gozasse. Ele a via contorcer-se e diminuir o ritmo. Seu falo desejava introduzir-se naquela gruta úmida e, ela não sabe, mas, por um momento, ele quase cedeu ao impulso de possuí-la. Começou a se masturbar, e ordenou que ela gozasse para ele ver. Ela se entregou completamente ao êxtase e ele, enquanto ela ainda arfava, atingiu o ápice, derramando seu leite pelo corpo dela. Então, ele ordenou que ela se sentasse exatamente da maneira em que o havia recebido no inicio da noite, afagou os cabelos dela e ordenou que tomasse um banho. Foi até a cozinha e preparou uma pequena porção de legumes e macarrão, colocou em uma vasilha de cachorro e ordenou que ela se alimentasse. Depois, observou-a organizar dentro da caixa todas as coisas que havia enviado, deixou-a novamente sentada sobre os joelhos, desta vez com o despertador programado para que ela se levantasse dentro de quinze minutos. Observou-a por mais um tempo – Uma mulher deliciosa, sem dúvidas. Saiu, fechando a porta e empurrando a chave reserva por baixo da porta. Nos dias seguintes, Camila não o viu. Aguardou uma mensagem de texto ou notícia, em vão. O perfil na rede social de paqueras havia sido desativado. Recebeu uma carta “Cadela, eu ordeno que escreva cada uma das fantasias que imagina realizar. Você deve criar um pequeno blog e postar no mínimo três vezes por semana, quero revirar cada um dos seus pensamentos devassos. Você está proibida de se masturbar ou de manter qualquer contato sexual com outros homens ou mulheres. Comece relatando aquela nossa primeira noite e depois solte a imaginação. Não se esqueça de manter o anonimato: Ao criar o blog, utilize a assinatura “Cadela do Sr. Noah”. Até um dia”. Camila sabia que entre as regras estabelecidas naquelas longas conversas, estava a de jamais perguntar aonde ele iria ou quando iriam se encontrar. Foi até o computador e criou o blog. Dois meses após a primeira noite, ela recebeu outra caixa, desta vez com um par de orelhas e um plug anal que lhe proporcionaria um belo rabo. Uma mensagem de texto dizia: Prepare o apartamento exatamente igual a primeira vez. Tenho lido seus textos e acredito que merece uma nova sessão e, dependendo do seu comportamento, talvez ganhe um nome desta vez. Por hora, fique com um afago do Sr. Noah.

Este post faz parte do BEDA: Blog Every Day August. Também participam:

Lunna Guedes – Mariana Gouveia DricaObdulionoClaudia ChrisViviane – Adriana – Ale Helga

Dica Literária: Cem escovadas antes de ir para a cama – Melissa Panarello

Lembro de estar folheando uma revista qualquer quando me deparei com uma pequena resenha sobre o livro da italiana Melissa Panarello. Eu tinha dezessete anos e pouco interesse por sexo ou erotismo – Confesso que já havia lido alguns livros considerados “quentes”, como Sidney Sheldon , D.H Lawrence ou a francesa Régine Deforges com seu “Diário Roubado” ou sua coletânea “A bicicleta azul” – Inclusive, acredito que apesar de serem livros considerados “impróprios”, não representaram um dano para a minha formação – Eu apenas lia desatentamente as cenas mais românticas/eróticas, como quem pensa “mas o que leva dois adultos a fazerem isso?” e não raro, eram as represálias de professores ou familiares que me diziam que o livro não era para a minha idade (não adiantava nada, afinal, minha mãe e eu sempre tivemos ótimas conversas e eu jamais fui proibida de ler algo). Voltando ao livro da Panarello: Eu, em meus dezessete anos, após ler a resenha na revista, comecei a procurar pelo livro. O motivo? A autora, ainda adolescente, foi expulsa do colégio onde estudava pelo fato de ter escrito a obra. Trata-se de um diário e, na conservadora cidade italiana onde vivia, causou choque e comoção. Eu precisava ler! Pela primeira vez, não estava buscando títulos entre os livros da minha mãe ou os da biblioteca, nem procurando ler as obras exigidas nos vestibulares. Eu queria ler o livro considerado erótico e chocante, escrito por uma menina apenas um ano mais velha que eu! Afinal, já nessa época, eu escrevia meus primeiros rascunhos e sonhava me tornar escritora! Como ela havia conseguido? O que eu precisaria fazer para completar uma história? A ansiedade pela leitura era enorme. E assim, após uma pequena procura e pouco antes dos meus dezoito anos, ganhei o livro e li em uma única tarde. Li outras vezes com calma. Guardei por um tempo e depois doei na biblioteca da escola em que eu estudava – Confesso que guardo curiosidade de saber se ainda está lá. Ontem, ao visitar a 9ª Festa do Livro, encontrei um exemplar na banca para “adoção”. Não peguei. A história já não me diz nada, tantas foram as leituras e releituras. Mas tirei uma foto para publicar na página junto com o resumo.

         A história é chocante por ser real. Melissa é uma menina tímida, insegura e acaba pulando várias etapas que deveriam ser de descobertas poéticas e corações partidos, caindo direto no redemoinho intenso do sexo casual e de diversos fetiches. O erotismo é latente, permanente, mas não vulgar – Melissa consegue escrever de uma forma ao mesmo tempo elegante e instigante e isso faz o leitor prender o fôlego. O filme, lançado anos depois, modificou a história e retirou a sensibilidade do texto, deixando uma pornografia sem graça – foram quase duas horas perdidas diante da televisão! Portanto, se você leitor ou leitora, se interessou pela obra, leia o livro, passe longe do filme. E depois me conte o que achou!

 

 

Ressaca literária: Há limites para a criação artística?

Ontem terminei de ler o pior livro que já conheci na vida – quem me conhece sabe que sempre busco algo positivo para falar, não gosto de criticar o trabalho de outros autores e ainda que a leitura não me agrade sempre termino minhas resenhas incentivando a leitura, mas a obra em questão simplesmente não dá! Tudo começou sexta feira quando fui até a biblioteca municipal e peguei um livro aleatoriamente – um livro francês escrito em 2007, relativamente pequeno e com um título fofinho.  Havia um aviso de tratar-se de conteúdo adulto, então imaginei que houvesse trechos mais apimentados, mas ainda assim, há tantos livros deste gênero hoje que não dei muita atenção e levei o dito cujo para casa. Abro parênteses aqui para dizer que tenho 31 anos, não sou fanática por literatura erótica, mas também não me incomodo se for bem escrita, e neste caso específico desejei ver como um autor francês idoso trataria o tema.

Nas primeiras páginas fiquei incomodada: A história relata a vida de um pai e uma filha de 14 anos que mantém uma convivência erótica, onde ele a trata como uma aluna a ser preparada para a escravidão sexual, fazendo-a ler, nua, trechos inteiros de obras pornográficas antigas e a chicoteando como forma de punição e prazer. Torna-se mais bizarro quando o pai/professor a presenteia com uma menina de 13 anos para que ela “brinque a seu bel prazer” numa nova sucessão de cenas eróticas e violentas. O cenário doentio descrito pelo autor vai se aprofundando ao descrever uma sociedade onde é comum a compra e venda de meninas infantas e adolescentes para uso sexual ou todo o tipo de uso que seus senhores desejassem, incluindo mortes dolorosas. O autor descreve todos os meios de tortura de forma detalhada, bem como os efeitos que tais meios causam na vítima e a excitação dos que assistem e participam das sessões – homens que encontram o prazer no estupro e tortura de criancinhas e bebês, e crianças que encontram prazer em torturar e ser torturadas.

Sexo e dominação caminham juntos para alguns casais, mas, diferente do retratado no livro, há uma regra segundo o qual a relação deve obedecer aos princípios “são, seguro e consensual”, ou seja: tudo que os participantes fizerem devem fazer em sã consciência, sem uso de drogas ou bebidas, devem ser práticas seguras e consensuais. O completo oposto do que o autor francês retratou em seu livro. Ademais, crianças e ambientes impregnados de sexo e violência são elementos que não combinam, ainda que num contexto ficcional criado para entreter a mente de adultos.

Questiono o que o autor pretendia ao criar tal infame obra – acaso não pensou nas funestas influências que um texto destes poderia ter no comportamento de pessoas com caráter fraco, maldoso e influenciável? Muito embora eu em geral defenda o direito da livre criação artística, acredito que há alguns limites que o próprio artista deveria se atentar – não o Estado que deve por uma questão de segurança abster-se de exercer a censura – mas o próprio artista e seus editores deveriam pensar nas conseqüências de suas obras. E por acreditar que neste caso a divulgação da obra não faria nenhum bem a algum suposto leitor curioso, me abstenho de comentar o título ou editora – na realidade, escrevi esta não-resenha como um desabafo pela péssima experiência literária e também como provocação para dois questionamentos: Em sua opinião, qual é o limite para a criação artística? O Estado deveria intervir nessa criação de alguma forma? E qual o pior livro que você já leu? O que te leva a classificá-lo como péssimo?

Um toque de vermelho – Sylvia Day

Humanos, serafins, vampiros e licanos compõe o primeiro volume da série Renegade Angels da autora norte-americana Sylvia Day.  A obra segue a tendência erótica e em alguns momentos é bem estranho ver um anjo falando palavras de baixo calão ou vivendo uma cena sexual detalhada. Este excesso de tensão erótica é equilibrado com uma história de amor vivida entre várias encarnações da personagem principal, bem como com um mistério que começa a se desenrolar na metade do livro e com cenas de ação e luta.  Não sei se foi a intenção da autora, mas em alguns momentos a obra apresenta uma semelhança de enredo com o livro infanto-juvenil Fallen, da também norte-americana Lauren Kate. Tal semelhança pode desapontar alguns leitores que estejam em busca de uma literatura adulta, que consiga englobar sexo e fantasia em um texto profundo e rico.
A história gira em  torno de Adrian Mitchell, um homem extremamente rico, bonito e misterioso e Lindsay Gibson, uma humana cercada de mistérios que consegue identificar seres não-humanos. O mistério sobre a natureza deles é revelado muito rapidamente para o leitor: Adrian é um Serafim, Lindsay uma humana que carrega a alma de Shadoe, o grande amor da vida de Adrian.

Opinião: Não é um livro ruim, porém está longe de ser um dos melhores livros que já li e ainda não sei se irei procurar os outros dois volumes da série para ler. Quem gosta de livros eróticos com um toque de sobrenatural possivelmente se agrade com a leitura, desde que não busque profundidade nos diálogos nem grandes questionamentos sobre a vida e a morte. Quem já leu Fallen possivelmente encontre algumas semelhanças e, confesso que por uma brincadeira, comentei com amigos que a obra deveria se chamar “50 tons de Fallen”. Sinceramente? Não indico, a não ser que  você esteja procurando por uma leitura superficial.

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Título: Um toque de vermelho
Autora: Sylvia Day
Ano:2013
Editora: Pararela

Livro do mês: Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor (Allan E Barbara Pease)

A leitura do mês de Fevereiro certamente não é uma obra literária de ficção tampouco pode ser classificada como um tratado científico acerca do comportamento humano. Os autores demonstram a existência de diferenças entre o comportamento masculino e o feminino e as atribuem a formação da estrutura cerebral – o que ocorre ainda não gestação devido a ação dos hormônios. Outra preocupação constante dos autores é salientar o quão perigoso é tentar fazer com que homens e mulheres acreditem em uma suposta igualdade de gênero, pois se ignorarmos diferenças que de fato existem entre os homens e mulheres, o resultado será confusão e frustração.

A obra é interessante, de fácil leitura além de ser bastante engraçada em alguns momentos, vale a pena ler sem levar “ao pé da letra” tudo o que se diz.

Capítulo 9

Naquela tarde de Novembro, quando Marjorie chegou à casa dos tios, não teve uma boa surpresa.
Eles estavam esperando-a para dizer que iriam se mudar para a Argentina, pois seu tio havia sido promovido na empresa de exportação e importação onde trabalhava porém seria necessário que trabalhasse na Matriz, em Buenos Aires.
Marjorie pediu para ir com eles, mas a idéia não foi bem recebida. Ela deveria voltar a morar com os pais, estudar, fazer faculdade. Não era o momento de deixar o país.
Sabia que não voltaria jamais, pois isso estaria acima de suas forças..Só ela sabia a tortura que foram as férias passadas lá, em julho.
Tinha algum dinheiro guardado, resultado do trabalho durante o verão e das mesadas que os pais mandavam, já que ela não tinha gastos. Poderia alugar um cantinho, arranjar um emprego e ir morar sozinha. Seus tios iriam alugar a casa em que moravam, mas ela sabia que o valor estaria acima de suas posses. Talvez tivesse mesmo que se contentar em alugar um quarto. E tinha menos de um mês para fazer isso, já que os tios viajariam no começo de dezembro, após o término das aulas.
Passou a caminhar pela cidade atenta a todos os lugares. Nas imobiliárias as exigências para alugar um imóvel eram muitas. Sua falta de experiência também não ajudava muito na hora de arranjar um emprego. Mesmo assim conseguiu alugar um quarto, próximo ao campus da Faculdade Unisantos na Avenida Conselheiro Nébias, onde pretendia estudar, se conseguisse uma bolsa, pois com certeza os pais iriam se recusar a custear seus estudos, quando soubessem de sua decisão.
O local era muito simples, mas o aluguel era relativamente baixo. Ela poderia cozinhar dentro do quarto, o banheiro era de uso coletivo, assim como o tanque. Como era final de ano, não foi difícil conseguir voltar a trabalhar na loja em que havia trabalhado no ano anterior. Era temporário mais serviria, enquanto não conseguisse nada melhor.
Seus pais estavam inconformados. Queriam que ela voltasse a morar com eles, não entendiam a atitude de Marjorie, pois sempre foram uma família muito unida.

Nunca a solidão foi tão cruel, longe da família, dos amigos de infância, de Valeska. Passava as horas vagas na praia. Ver a alegria de tantos casais à sua volta deixava-a ainda mais deprimida. Não havia sentido em preparar nada para o Natal, mas mesmo assim ela fez questão de fazer uma comida diferente. Nada fora do comum, só uma salada bem enfeitada, colorida e um peixe assado. Comprou um vinho bem baratinho. Acabou bebendo a garrafa toda e amanheceu de ressaca no dia 25 de Dezembro.
No sítio, os pais de Valeska comemoravam a aprovação da filha no vestibular da USP. Nem isso a fazia sorrir. Para ela era apenas mais uma etapa vencida. Mais uma etapa em que Marjorie deveria estar ao seu lado.
Ela soube por amigos em comum que Marjorie não havia prestado o vestibular, não em São Paulo. Melissa a havia deixado em paz um pouco. Estava mais entretida ganhando a confiança de Gabi. Às vezes as duas apareciam por lá, para conversar com Valeska.

A cada dia Gabi estava mais apaixonada por Melissa, mas parecia não perceber isso. Dizia gostar de um menino que estudava com ela, porém vivia a procurar motivos para segurar a mão de Melissa, abraçá-la… Passaram uma noite na casa de Valeska. Melissa dormiu no colchonete e Gabi dormiu na cama com Valeska, apesar dos protestos. Melissa queria muito que Gabi ficasse na cama com ela e Valeska fosse para o colchonete. Gabi também queria dormir ao lado de Melissa, mas Valeska não permitiu. Chamou Melissa para conversarem enquanto Gabi tomava banho e perguntou o que estava acontecendo entre as duas. Melissa respondeu que nada, mas que ela precisava satisfazer-se com alguém, já que Valeska não queria mais nada com ela. Ao ouvir isso, Valeska ficou com muita raiva. Não era possível que aquela menina tratasse a todos como seus objetos de uso pessoal, pensando que as pessoas só existem para satisfazê-la, que elas não tem sentimentos. Para convencer Melissa a dormir longe de Gabi, ameaçou a contar aos pais dela tudo que havia acontecido entre elas. Sabia que se fizesse isso, os pais iriam saber sua opção e poderiam saber o que acontecia entre ela e Marjorie, mas ela preferia enfrentar as conseqüências a deixar Melissa magoar uma garota delicada como Gabi.
Não adiantou. Quando Valeska acordou no meio da noite, não viu Gabi nem Melissa no quarto. Pensou que as duas poderiam ter ido até a cozinha buscar um copo de água, ou comer alguma coisa. Como elas estavam demorando muito para voltar, ela saiu para ver onde estavam. Encontrou-as no sofá da sala, nuas e entregues uma à outra.
Voltou para o quarto, não teve coragem de interrompê-las, pois não adiantava mais, Melissa havia conseguido o que queria.
Algum tempo depois, elas voltaram também para o quarto, Melissa ficou no colchonete e Gabi voltou para a cama como se não houvesse acontecido nada demais.
No dia seguinte Valeska fez de conta que não havia notado nada. Melissa acordou radiante, com um sorriso cínico de vitória nos lábios, Gabi, inocente, parecia flutuar de tão feliz. As meninas foram embora, Gabi ainda ficaria mais uma semana na casa de Melissa, mas notaria que esta aos poucos iria se afastando dela… Tratando-a friamente… Somente à noite Melissa procurava sua companhia…
Dois dias antes de ir embora, Gabi procurou Valeska. Contou-lhe chorando sobre a noite que havia passado com Melissa, estava apaixonada, e Melissa dizia que não queria nada sério, apenas transar quando Gabi pudesse ir visitá-la nos fins de semana ou feriados, que Gabi deveria manter segredo sobre elas e, se quisesse, poderia ficar com outras pessoas, fidelidade era uma palavra que deveria estar fora do vocabulário delas.
Valeska por sua vez não conseguia parar de chorar. Por que algumas pessoas sentem prazer em magoar às outras? Contou para Gabi tudo o que havia acontecido entre ela, Marjorie e Melissa.
Decidiram juntas vingar-se de Melissa, ambas iriam se expor muito para isso, mas concordavam que, talvez pudessem impedir que outras pessoas sofressem o que elas estavam sofrendo.
Haviam combinado de dormir na casa de Valeska, mas Gabi conseguiu convencer Melissa a ficar em casa mesmo. Esperaram os pais de Melissa irem dormir. Gabi disse que estava com vontade de comer doce. Foi até a cozinha buscar um pote de sorvete e calda de morango. Passou um pouco em Melissa, beijando em seguida para limpar. Melissa queria sorvete também, mas Gabi apenas iria permitir com uma condição especial: Ela seria a taça do sorvete.
Melissa gostou da idéia (como ela não havia pensado nisso antes?). Mandou que Gabi tirasse toda a roupa e se deitasse. Em seguida, foi colocando sorvete em todo o seu corpo, e por cima, calda, muita calda de morango.
Começou a beijá-la, dando pequenos chupões, o frio do sorvete iria ajudar a não deixar marcas. Ela ia tocando Gabi com a boca, fazendo-a chegar quase ao êxtase. De repente, seu pai e sua mãe abrem a porta do quarto e acendem a luz. Ficaram sem palavras.
Quando Melissa percebeu o que havia acontecido, ficou em choque. Tentou dizer que tudo havia sido culpa de Gabi, que ela não era lésbica, mas a situação demonstrava o contrário, era ela que estava praticamente devorando Gabi,como poderia ter sido forçada a isso?
Gabi contou que nunca havia namorado ninguém, até conhecer Melissa, e que esta a havia seduzido.
Os pais de Melissa as colocaram para dormir cada uma em um quarto, e no dia seguinte não permitiram que as duas se despedissem. Seu Lucas levou Gabi até a cidade, de onde deveria pegar um ônibus até sua cidade, decidiram que os pais de Gabi não precisariam saber nada sobre o acontecido, a não ser que a própria Gabi decidisse contar, o que não aconteceu. Sua família não ficou sabendo de nada e ela continuou a levar sua vida normalmente.
Por decisão da família, Melissa foi retirada do colégio. Tinham certeza de que a filha estava sendo mal influenciada pelas amigas. Afinal, só haviam descoberto a verdade devido a um telefonema anônimo. Como gostavam muito de Valeska, decidiram propor aos pais dela que levassem Melissa com eles para a capital, para que ela pudesse estudar numa escola melhor. Eles pagariam todas as despesas da filha.
Os pais de Valeska não só aceitaram como ficaram felizes, afinal, quem sabe assim a filha saísse do isolamento em que estava.
Para Valeska a notícia de que Melissa iria com eles foi como uma punhalada pelas costas. Ela teria que dividir sua casa e sua família com a pessoa que havia destruído seus sonhos. Jamais deveria ter dado aquele telefonema  aos pais de Melissa, dizendo para eles vigiarem melhor a filha deles.

Capítulo 6

Os dias passavam lentamente.
Valeska ficava longas horas no quarto, isolada. Ia ao colégio por obrigação, não conseguia se concentrar nas aulas. O ano estava chegando ao fim e suas notas eram péssimas. Se ficasse para recuperação, ao menos poderia escapar de passar as férias na fazenda. Várias vezes Melissa escrevera, dizia ter saudades. Valeska não respondeu suas cartas, no fundo a culpava por ter perdido o único amor da sua vida, apesar de saber que ela fora a maior culpada de tudo. Não se deixara levar pela vontade de viver uma aventura de verão? Não se deixara convencer a dividir Marjorie com Melissa por uma noite? Marjorie tinha razão, ela era a maior culpada pelo próprio sofrimento.
Apesar do péssimo desempenho no colégio, conseguiu passar de ano.  Fazia exatamente um ano que havia conhecido Melissa. Era uma data para ser apagada, não lembrada. Viajaram para a fazenda, como se opor aos pais?

Foram as férias mais estranhas de Valeska. Tentava não conversar com Melissa, mas não podia recusar-se a falar com ela, pois não tinha nenhuma justificativa que pudesse apresentar aos pais. Ah, a família, pensava, sempre nos obrigando a fazer coisas que não queremos. Levou muitos livros com ela… Passava os dias lendo e as noites escrevendo. Levava seu caderno de notas a todos os lugares, até mesmo à cachoeira. Não tinha o hábito de escrever um diário, mas ia anotando seus pensamentos de um modo desconexo e confuso. Em janeiro faria 18 anos, a sonhada maioridade, se ainda estivesse junto à Marjorie, talvez se casassem.
Seus pais começavam a estranhar o fato dela não apresentar nenhum namorado, não receber telefonemas de garotos, não freqüentar os lugares comuns à sua idade. Sua vida tornava-se cada vez mais difícil…
 
Trechos do Caderno de Notas de Valeska:

“Sobre as palavras”
O que são mesmo palavras?São conjuntos de letras…
E o que são letras? São sinais gráficos, apenas…
Sinais inventados por alguém há muitos séculos…
Lembro que quando comecei a freqüentar o colégio, não gostava das letras, achava-as difíceis, por causa da dificuldade de desenhá-las, acabava ficando de castigo, até aprender…
Aprendidas as letras, comecei a formar as primeiras palavras…
Nunca imaginei que um dia as palavras seriam minhas únicas companheiras… Nunca imaginei ficar tão dependente delas… Cada dia mais me isolo em mim mesma, cada dia mais expresso meus pensamentos e sentimentos através da palavra escrita…
O que seria de mim hoje sem um papel e uma caneta, ou lápis?
Se não pudesse escrever meus sentimentos, a quem contaria sobre a saudade que tenho de você, Marjorie?
Faz seis meses que nos vimos pela última vez, e no meu coração permanece a lembrança dos teus olhos tão doces… Esses olhos cor de mel onde muitas vezes mergulhei minha alma…
De tudo que fiz até hoje, só posso me arrepender de uma coisa:
De uma linda tarde de verão na qual concordei com minha mãe e fui até a cachoeira conhecer uma nova amiga… Daquela tarde em diante, minha vida tornou-se um pesadelo, duvidei dos meus sentimentos, do meu amor por você, me entreguei a braços frios e sem amor… E depois te entreguei a esses braços também. . Por que eu fiz isso?Agora estou aqui, mergulhada nessa solidão sem fim, escrevo tudo que gostaria de te falar… Mas sei que você nunca vai ler, pois já desisti de te mandar e-mails, você não responde e talvez nem abra…
Enfim, acho que meu futuro é a mais profunda Solidão…
Palavras, muito obrigada por serem minhas companheiras nessa jornada rumo ao Nada”
 

“Sobre o Amor”
 
O amor é um sonho que sonhamos acordados…
É um sonho real, e nós podemos encontrá-lo apenas nos olhos de uma pessoa, durante toda a nossa vida.
Durante esse percurso (da vida) encontramos paixões, muitas ou poucas, depende do Destino de cada um…
Algumas pessoas encontram muitas paixões, muitas vezes acham que amam quando somente estão apaixonados… Demoram até ver nos olhos de alguém aquele brilho especial, até sentirem num abraço a Paz que só o Amor puro poderá dar… E muitas vezes, essas pessoas estão tão calejadas, tão magoadas, que deixam seu Amor passar direto por suas vidas… e continuam a buscá-lo…
Outras pessoas encontram seu amor em tenra idade, mas a vida as afasta, para que possam seguir seus caminhos e unirem-se novamente quando for o momento certo.
Algumas encontram o amor em alguém que está sempre muito perto, sem tempo de viver paixões. Duas almas se encontram e descobrem que se amam, mas pode acontecer o que aconteceu com a gente, de num instante de fraqueza o coração de uma delas experimentar a paixão e se perder… E aí,quando vemos,já é tarde demais e nós então já perdemos o amor da nossa vida…
 

Natureza:
Em meio ao verde, aos pássaros, sob esse maravilhoso céu, vivemos nós… Simples e pequenos seres. Não percebemos o quanto somos submetidos à natureza e tentamos desesperadamente vencê-la, prever-lhe os movimentos, as mudanças…
Mas é nela que encontramos o maior abrigo para nossa alma magoada e cansada de sofrer…
Às vezes tenho vontade de me deitar na terra e ser engolida por ela, de misturar aos poucos meus átomos aos dela até que meu corpo desapareça e minha alma torne-se livre para voar, ou então, passe a viver através do “Corpo” de uma árvore, que solitária no meio do campo observa tudo ao seu redor…
Às vezes tenho vontade de me misturar também às águas desse rio que corre correr com elas conhecendo lugares diferentes, e um dia evaporar, subir até o céu, e depois desabar sobre a Terra, quero ser a água da chuva a molhar o teu corpo… Assim posso te tocar ao menos uma última vez, e quem sabe, em meio a esse ciclo infinito de evaporar e tornar-se água novamente, não conseguiria te esquecer, ou ao menos aplacar a dor em minha alma?
Tenho vontade de ser vento… Ser vento significa voar para a liberdade… Ser a brisa do mar a tocar seu rosto…
Ser fogo… Queimar meu coração em suas próprias chamas, até reduzi-lo a cinzas, e depois como uma Fênix, delas renascer… Não adiantaria muito, renasceria te amando do mesmo jeito… Mas a jornada seria interessante, pois ao queimar meu coração, talvez conseguisse purificar esse amor, deixando dele apenas as boas lembranças e queimando toda a dor… É, talvez a dor não renascesse comigo, talvez renascesse apenas o Amor”

Imagem: Internet

Capítulo 5

“Valeska:
Voltei para cá e pensei muito sobre nós e sobre tudo que aconteceu. Não entendo por que tudo terminou assim, tínhamos um amor tão puro, ou pelo menos eu tinha um amor puro por você. Tinha?Infelizmente não,eu ainda te amo,acho que jamais deixarei de amá-la, mas depois daquela noite nunca mais conseguirei confiar em você, e você sabe muito bem disso.
Não conseguiria encontrá-la todos os dias no colégio, não conseguiria continuar a ser tua amiga… E além do mais, sei que nossos pais, acostumados a nos verem sempre unidas iriam achar muito estranho se nos afastássemos de repente. Para evitar perguntas indesejáveis e também para não sofrer todos os dias com a sua presença, convenci meus pais a me deixarem ir morar com minha tia em Santos até o fim do ano. Ela é uma das coordenadoras do Colégio Cultura Brasileira e vai conseguir uma bolsa para que eu termine o ano letivo lá… Se eu conseguir boas notas, ficarei o ano que vem também, ou tentarei um intercâmbio… Ainda não sei…
Só espero que a dor que sinto passe depressa…
Seu amor me deu as mais belas lembranças que alguém pode ter, me deu todos os sonhos e agora é a causa dos meus piores pesadelos.
Espero que você consiga ser feliz, pois sua traição no verão passado demonstra claramente que eu não fui capaz de te completar, e a sua atitude em relação àquela noite em que… Não consigo me referir àquela noite, mas você sabe do que estou falando, sua atitude aquela noite demonstrou que além de não me amar, você também não me respeita.
Não me responda esta carta. Não quero receber notícias suas. Sei que vai ser infeliz longe de mim, mas a culpa é apenas sua e não quero me magoar sabendo da sua infelicidade.
Um abraço, daquela que te ama e jamais te esquecerá

Marjorie”

Não era possível. Isso não poderia estar acontecendo com ela. Apesar do pedido de Marjorie, Valeska respondeu a carta:

“Marjorie,

Meu amor, não faz isso comigo, não me abandone dessa forma. Por favor, dê mais uma chance para nós duas. Sei que não fui digna do teu amor, mas estou arrependida, quero voltar para os teus braços, quero você agora e para sempre. Não sei como pude me deixar enganar pela Melissa.
Não consigo parar de pensar em você e o que mais me dói é saber que eu te fiz sofrer. Lembro-me dos seus olhos, do amor que expressavam. Não vou conseguir sobreviver sem você ao meu lado. Volta para mim…

Com amor

Valeska”

Sem respostas…

(Imagem: Internet)

Capítulo 4

Marjorie foi andando e deixou Valeska à beira do rio, lágrimas corriam dos olhos de ambas. Uma linda história de amor chegava ao fim? Só o destino iria saber… A única pessoa satisfeita era Melissa. Valeska chamou-a para irem embora. Ela protestou, era cedo, podiam ainda curtir mais um pouco, entregarem-se novamente ao prazer. Mostrava-se insaciável.
Valeska, de maneira bruta, disse-lhe que o que havia acontecido na noite anterior não iria mais se repetir e que elas também dali por diante seriam apenas amigas.
Ao chegarem à barraca, Valeska encontrou sobre sua mochila um bilhete de Marjorie:

“Valeska
Guardei nossas coisas na mochila e deixei as roupas da Melissa dobradas, para ela guardar. Desmontem a barraca. Fui caminhar pela margem do rio, vá me procurar quando terminarem. Quero ficar o menor tempo possível perto de vocês e só não fui para casa ainda por que não quero que seus pais ou os de Melissa percebam alguma coisa de anormal em nosso comportamento, mas você sabe que precisamos conversar, e muito…
Marjorie.”

Quando terminaram de desmontar tudo, Valeska foi procurar Marjorie. Encontrou-a sentada à beira do rio, com uma expressão de dor profunda. Naquele momento soube que, mesmo que conseguisse o perdão da amada pela sua traição, a relação delas nunca mais seria a mesma.
Almoçaram na casa de Valeska, conversaram bobagens, para manter as aparências de “garotas se divertindo nas férias”. Ao entardecer, Melissa pediu à Valeska se poderia dormir com elas, mas pela primeira vez teve seu pedido recusado. No seu olhar cheio de ódio, Valeska notou que ela não se conformaria facilmente em ser “rebaixada” de amante para amiga.

Imagem: Internet

Capítulo 3

Ainda sonolenta Valeska se lembrou que em breve Marjorie estaria com ela na fazenda. Não se empolgou tanto com a ideia de em breve estarem juntas – seus pensamentos já estavam novamente em Melissa. Levantou-se e foi para o chuveiro, tudo que precisava era um bom banho para poder acordar.
Marjorie e Valeska desde crianças tinham certa inclinação uma pela outra, estavam sempre juntas, e aos quinze anos beijaram-se pela primeira vez; fazia já dois anos que viviam esse romance às escondidas e, mal viam a hora de completarem a maioridade para poderem morar juntas. Para elas, o importante era que se amavam e nada mais. Porém, Valeska sentia pela primeira vez a dúvida nascer em seu coração, amava realmente Marjorie? Ou era apenas o costume? Era tão nova quando começaram a namorar. Viveram juntas momentos inesquecíveis, os primeiros beijos, os primeiros carinhos ousados, a primeira noite de amor… Mesmo assim, agora que conhecera Melissa, Valeska não tinha tanta certeza se realmente queria levar a diante o namoro com Marjorie.
Saiu do banho, vestiu-se e foi tomar café. Melissa chegou e decidiram cavalgar até a cidade.
Para Valeska, acostumada ao trânsito e a correria de São Paulo, o centro da cidade pareceu deserto, porém aconchegante. Sentaram-se no banco da praça e tomaram um sorvete. Apesar de terem a intenção de passar o dia na cidade, decidiram tomar um lanche e voltar pouco após o almoço, pois não havia muito que fazer.
Quando chegaram à fazenda, a casa de Valeska estava vazia; grudado na geladeira, um bilhete avisava que haviam ido novamente pescar.
Era a oportunidade perfeita: estariam sozinhas em casa pelo resto da tarde. Restava aguardar o momento certo…
Valeska sugeriu escutarem um pouco de música entregando a Melissa o porta Cd’s para que esta ficasse à vontade para escolher. Ficou surpresa quando Melissa escolheu um cd de música eletrônica… Pensava que Melissa não estivesse acostumada a essas músicas, por morar numa cidade tão pequena e praticamente rural…
Começaram a dançar, Melissa colava seu corpo em Valeska, balançando ao ritmo da música. Podiam sentir seus corações baterem acelerados, Melissa segurou Valeska pela cintura com uma das mãos, enquanto a outra passeava por todo o corpo da amiga. Beijaram-se. Podia-se sentir o clima de desejo no ar; começaram a despir-se, deitaram no sofá, Valeska começou a acariciar o corpo de Melissa, beijando-lhe o pescoço, os seios, passeando com a língua até a barriga, Melissa buscou acariciar as partes mais íntimas de Valeska, fazendo-a gemer de prazer, a partir daí, seus corpos foram tomados de um furor animalesco, amaram-se de todas as formas possíveis até serem surpreendidas pelo cair da tarde e vestirem-se apressadamente, temendo a chegada dos pais de Valeska.
Fizeram um lanche rápido, Valeska, de tão exausta, sentou-se no sofá e dormiu, não viu sequer a hora que os pais de Melissa vieram buscá-la, pois já estava muito escuro para ela voltar sozinha pela estrada.
Ao contrário de Valeska, que dormia exausta, Melissa quase não conseguia esconder sua agitação… Estava eufórica, há tempos esperava pelo seu primeiro beijo, por sua primeira noite… Já havia lido livros picantes,  perdia horas imaginado-se em todas as cenas mais eróticas, mas não havia encontrado até então ninguém a quem se quisesse entregar…até Valeska aparecer…
Quando a viu pela primeira vez, parada entre as pedras decidiu que queria ser possuída por ela, teve que agir com cuidado e com uma malícia cuidadosamente disfarçada para chegar onde queria… Mas agora tinha conseguido; não era mais uma menina, podia-se considerar uma mulher…
A semana passou muito rápido… Valeska e Melissa encontravam-se todos os dias, viviam uma paixão proibida e ardente… Amaram-se na cachoeira,na chuva, no meio do pasto…
Para alívio de Valeska, Marjorie acabou passando todo o mês na casa dos avós, não imaginava como seria se ela, Melissa e Marjorie tivessem que compartilhar o mesmo dia-a-dia…
Assim como a semana, o mês terminou depressa, Valeska e os pais precisavam voltar para São Paulo. A fazenda ficaria para trás e com ela, um grande amor de verão; Valeska voltaria para os braços de Marjorie.
Em São Paulo, Valeska rapidamente esqueceu aquele amor de verão, aos poucos foi sendo absorvida pela rotina, pela companhia de Marjorie, pelo colégio… Escreveu poucas cartas à Melissa, simples relatos, sem juras de amor ou sentimentalismos… Tampouco se mostrava apaixonada por Marjorie, estava distante, já não lhe fazia mais os agrados de antes, procurava-a apenas quando queria sexo… Chegava a duvidar de seus sentimentos… Já não a amava mais?Ou era apenas uma fase de distanciamento?
Não sabia ao certo…

Vieram então as férias de Julho… Na fazenda o frio era acolhedor, Valeska adorava aquele clima de inverno, que parecia fazê-la livre.  Viveu intensamente a primeira semana com Melissa, amando-a sempre de uma maneira selvagem, como que querendo possuir cada átomo do seu corpo.
Valeska havia contado a Melissa sobre seu relacionamento com Marjorie, e ficou muito surpresa, pois Melissa não demonstrou ciúme ou mágoa, disse que era normal afinal, quem foi mesmo que inventou a monogamia? – Opinião no mínimo estranha para uma jovem criada em meio à natureza e teoricamente afastada da malicia presente nos habitantes das grandes cidades.
Na segunda semana de julho, Marjorie juntou-se a elas. Sua presença deixava Valeska confusa, principalmente porque Marjorie e Melissa tornaram-se grandes amigas. Uma tarde, na cachoeira, Melissa e Valeska desancavam a sombra das arvores enquanto Marjorie nadava.  Melissa confessou sentir-se atraída por Marjorie, provocando uma grande onda de ciúmes em Valeska. Aos poucos, porém, Melissa conseguiu convencer a amiga de que uma noite a três seria uma idéia excitante. O único problema seria convencer Marjorie.
Pediram permissão aos pais para passarem uma noite acampada, apenas as três… Após incessantes instruções de segurança (não se afastem da barraca à noite, mantenham as telas e a porta bem fechados para não haver o risco de entrarem animais indesejáveis, etc.), partiram rumo à sua noite de “acampamento selvagem”. Escolheram um local não muito distante da casa de Valeska, assim, seria menor o risco de surpresas desagradáveis.
Melissa pegou escondido do pai uma garrafa de vinho na adega de casa e levou com elas. Marjorie não queria beber, afinal era menor de idade, mas o friozinho da noite e o fato de Valeska estar bebendo a encorajaram. Aos poucos foram se liberando, perdendo a vergonha… Melissa chegou-se para perto de Marjorie, abraçou-a e começou a acariciá-la. Marjorie não percebia a malícia desse ato, para ela Melissa era apenas uma criança de 15 anos, que vivia numa fazenda perdida no meio do nada… Esquecia-se de que ela mesma, aos 15 anos já sentia determinados desejos, e que havia apenas dois anos de diferença entre elas
Estavam dentro da barraca, pois não queriam arriscar-se a ficar do lado de fora pois temiam o aparecimento de cobras ou aranhas. Não podiam acender ali uma vela e a luz da lanterna começava a enfraquecer. O vinho chegava já ao final. O contato do corpo de Melissa provocava arrepios em Marjorie, ela ia aos poucos se sentindo excitada. Nesse momento Valeska,que até então estivera apenas observando abraçou Marjorie e começou também a acariciá-la, beijando lhe as orelhas e a nuca, para logo em seguida beijar-lhe a boca. Marjorie gemia de prazer, mas negava-se a deixar-se possuir com Melissa presente.
Melissa então começou a tirar a roupa, no que foi imitada por Valeska. Em seguida,ambas fizeram com que Marjorie se deitasse, tiraram-lhe também as roupas e começaram a beijar seu corpo todo, fazendo-a gemer ainda mais e possuindo-a uma de cada vez, de uma maneira animal. Marjorie entregou-se completamente a esse ato incomum e, quando não agüentava mais ser possuída, trocou de lugar com Melissa. Sentia prazer em deixar-se perder naquela cascata de ébano que eram os cabelos dela, lambia-lhe todas as partes do corpo, penetrando-lhe o sexo com a língua e com as mãos, enquanto era também acariciada e tocada por Valeska. Saciaram-se durante toda aquela madrugada numa orgia selvagem.
Foram dormir quando o sol já estava nascendo…
O dia seguinte foi talvez o mais difícil na vida de Marjorie, acordar e ver-se ali, nua entre sua namorada e uma nova amiga e lembrar tudo que havia acontecido entre as três machucava-lhe o coração. Lágrimas começaram a correr de seus olhos. Cuidadosamente, sem acordar as duas, vestiu-se, deu um beijo de leve nas faces de Valeska e foi até a beira do rio, para pensar um pouco e tentar entender o que havia acontecido.
Pouco antes da hora do almoço, era Valeska que despertava. Sentia seu lado animal saciado mas sentia também certo ciúme de Marjorie. Como ela havia permitido que outra pessoa tocasse sua namorada na sua frente? Por outro lado, não tinha o direito de sentir-se enciumada, traíra Marjorie o verão todo com Melissa, chegara a duvidar do seu amor por ela, precisou então vê-la entregue aos braços de outra para sentir novamente em seu peito o amor bater mais forte. Como pudera ser tão tola, deixando se levar por uma garota de quinze anos ávida de prazer animal e que aparentemente não tinha idéia do que eram sentimentos?Como?
Notou então que Marjorie não estava na barraca. Vestiu-se e foi procurá-la, tinha que pedir-lhe desculpas por tudo, pelo que havia acontecido na noite anterior e pelo que acontecera durante o verão… Lágrimas rolavam levemente de seus olhos. Conhecia Marjorie e sabia que dificilmente ela seria perdoada. Talvez esse fosse o ponto final na história de amor que deveria perdurar durante toda a sua vida.
Após a saída de Valeska da barraca, Melissa despertou. Em seu sorriso podia ver-se a satisfação de ter realizado mais uma de suas fantasias. Vestiu-se alegremente e correu para a cachoeira, nem percebeu a presença de Marjorie sentada sobre as rochas, jogou-se na água, em seu corpo leves marcas arroxeadas refletiam a saciedade de seus instintos…
Marjorie a observava… Como podia aquela garota com feições de menina ser tão maliciosa, causar tão grande prazer e ao mesmo tempo, tanta dor?E por que Valeska havia permitido tudo o que aconteceu?
Valeska chegou pela margem oposta do rio, ficou atrás de uma pedra, observava estática a cena… Não entendia o que Marjorie fazia ali, observando Melissa nadar. Será que Marjorie havia gostado do que aconteceu entre elas?Não era possível…
Deu a volta, sentando-se ao lado de Marjorie, esta nem notou, ou fingiu não notar sua presença, ela então resolveu tentar conversar:
-Bom dia, amor.
-Amor? Que Amor? Que Amor é esse que você diz ter por mim que nos coloca na situação em que nos vimos ontem à noite, como animais, ou até pior que eles?
-Marjorie, meu amor, não diz isso. Eu… Sei lá, precisamos conversar, mas quero que saiba que acima de tudo eu te amo…
-Vou pra casa.
-Vamos chamar a Melissa, ela tem que nos ajudar a desmontar a barraca, e então poderemos voltar.
-Chama você, eu vou indo na frente para guardar nossas coisas nas mochilas.
-Tudo bem…