A partida de várzea, a Idade Média e o Ministério da Eliminação do Meio Ambiente. Parágrafos de um país em decadência.

Dentro da lógica bolsonarista pode-se comparar o Brasil a uma bola durante a partida de futebol no campinho de várzea – O presidente seria então o equivalente ao menino mimado dono da bola que ao ver o time adversário fazer gol pega a bola, coloca debaixo do braço e volta pra casa com cara emburrada. Isso aconteceu essa semana por ocasião da compra da Coronavac, a vacina desenvolvida pela China que seria fabricada aqui no Instituto Butatã: O Ministro da Saúde, Pazuello sinalizou interesse na compra da vacina Chinesa, o que ocasionou um momento de garoto mimado no presidente que fez questão de demarcar território deixando claro que quem manda é ele, atitude que deixa claro uma postura que inviabilizaria qualquer trabalho em equipe, caso o presidente tivesse sido suficientemente inteligente para nomear uma equipe com competência e compromisso com o país.

            Enquanto isso, o STF deverá decidir se a vacina contra a COVID será ou não obrigatória – Assunto que divide opiniões antes mesmo da disponibilização da vacina. Os argumentos rasos dos antivacinas ganham espaço muito rápido com o advento moderno das redes sociais, mas não passam de argumentos do século XIX repaginados. Como eu disse em um texto no início deste ano, o Brasil está fazendo a Terra girar ao contrário e, se não tomarmos cuidado, logo acordaremos na Idade Média. Vacina é um pacto social de proteção mútua: Quanto mais pessoas imunizadas, menor o risco do vírus chegar aos grupos que não podem receber imunização (pessoas alérgicas ou bebês que ainda não atingiram a idade ideal para receber a vacina, por exemplo), portanto não há justificativa válida para recusar a vacina da COVID ou qualquer outra vacina disponibilizada pela rede pública de saúde.

            Outra situação inusitada – O Ministro Ricardo Salles recebeu a Grã Cruz da Ordem de Rio Branco, o mais alto grau de honraria concedido pelo Ministério das Relações Exteriores. A condecoração foi dada por Serviços Meritórios – Ou seja, no Brasil, um Ministro do Meio Ambiente inerte, que “passa a boiada” e permite uma série de degradações, segundo o presidente, presta serviços meritórios ao país. Talvez seja tempo de mudar o nome do ministério para Ministério da Eliminação do Meio Ambiente.

            No exterior, as notícias são preocupantes: Uma segunda onda da COVID varre a Europa com mais velocidade que a primeira, colocando o velho continente novamente em alerta. Nos Estados Unidos, o período eleitoral avança e uma astronauta votou do espaço através de uma cédula virtual.

            No Chile um plebiscito ocorrido hoje irá decidir se a Constituição, herança do período ditatorial, será reformulada. Ainda na América do Sul, essa semana a Bolívia reagiu ao golpe sofrido por Evo Morales ano passado e elegeu o candidato indicado pelo partido do ex-presidente – Uma notícia boa para essa semana complicada.

            Outra notícia boa: O Papa, pela primeira vez, se pronunciou favoravelmente a união civil de pessoas do mesmo sexo. Muito embora religião e Estado sejam coisas diferentes e em um mundo ideal a primeira seria relegada a um papel de conforto individual e o segundo buscaria o bem comum da sociedade sem interferências religiosas, sabemos que ainda há uma tendência muito grande em basear a sociedade e suas leis nos valores religiosos, portanto, qualquer manifestação de um líder como o Papa em favor de direitos e garantias civis é um marco a ser comemorado – Mas sem o exagero que vimos nas redes esta semana!

            Por falar em comemorações, vocês se deram conta de que os panetones natalinos estão chegando às prateleiras dos supermercados? Pois é! Faltam exatamente dois meses para o Natal e o capitalismo já começa a colocar as garrinhas de fora e vender seus ideais de que um Natal só será Natal para quem puder consumir – Que tal modificar esse padrão e fazer a economia circular na sua comunidade, comprando guloseimas natalinas e presentes de artesãos e artesãs? Consumo consciente também é um modo de atuar politicamente e melhorar a economia do país, mas isso é assunto para outro texto.

As taxas que nos atingem tiram uma pedra do sapato de quem nos pisoteia sem pena.

Que semana! Entre tantas notícias lidas, a vontade é de simplesmente esquecer que prometi a vocês, leitores e leitoras, e acima de tudo, a mim mesma, escrever algo breve sobre a semana que se passou. Tivemos de tudo: Tornado de fogo nos Estados Unidos, despejo de famílias que viviam e produziam alimentos orgânicos há mais de vinte anos em Minas Gerais, aprofundamento da crise causada pela COVID-19, criança de dez anos grávida após ser estuprada pelo tio lutando na justiça para conseguir o aborto, que já seria seu direito garantido devido às circunstâncias – E agora pouco fiquei sabendo que aquela apoiadora do governo que estrelou protestos à la Ku Klus Klan, expôs o nome da criança e o local onde finalmente faria o aborto, causando aglomeração e protestos contra o médico e a menina – Pois é, como eu disse em outro texto, são os pró-vida, mas, pró-vida só até o nascimento, depois, cada um se vire, e se crescer e sair da linha, já sabem ‘né’? Os mesmos que defenderam o nascimento do feto estarão de prontidão para defender a pena de morte. Enfim, tanta coisa ruim que irá demorar a mudar, não é? Então vamos falar de algo que ainda podemos (e devemos) tentar impedir: Paulo Guedes, nosso Ministro da Economia, pretende instituir um imposto de 12% sobre os livros. Não sei se vocês que me leem sabem, mas livros são isentos de impostos de acordo com a Constituição Federal (Aquela, promulgada em 1988, mais retalhada que roupa de caipira da festa junina e tantas vezes jogada para debaixo do tapete por interesses escusos). O citado ministro alega que livros são coisas consumidas pela elite. Ora, basta percorrer uma livraria e perceberemos que os valores são, muitas vezes, proibitivos –É impossível que uma família que vive de salário mínimo compre livros novos com freqüência, eu mesmas dificilmente consigo comprar algo novo, geralmente me viro com sebos, grupos de trocas, bibliotecas – Mas eu já tive o hábito de leitura enraizado desde pequena. Eu ganhava livros (muitas vezes novos) como presente, eu não posso medir pela minha régua a vida de crianças e adolescentes que irão ter pouco ou nenhum acesso aos livros ou incentivo a buscá-los. Entretanto, a classe média compra livros, e depois, muitas vezes, revende nesses sebos que permitem que, não sem esforço, outras camadas sociais possam ter o mínimo acesso ao mundo das letras. Acontece que, com a crise econômica, a dita classe média tende a caminhar cada vez mais rumo a um menor padrão de vida – E qual será um dos primeiros cortes no orçamento? Geralmente o lazer – E atentem-se, livros, para muitas pessoas, são vistos como mero lazer, algo não essencial.Diminuindo o consumo do produto livro pela classe média, diminuirá também os livros que chegam a sebos ou são doados para bibliotecas comunitárias. Vocês percebem o quanto a cobrança de um imposto sobre os livros irá aprofundar o abismo social brasileiro?  A pessoa que vos escreve está longe de ser perfeita e com certeza não merece o título de “intelectual”, mas ainda assim, tenho certeza de que minha formação só foi possível por ter usado grande parte da minha infância e adolescência lendo. Então, se tem uma mudança que, neste exato momento, devemos impedir, é esse imposto. Outras mudanças, que efetivamente precisamos fazer, só serão possíveis se as próximas gerações conseguirem obter uma formação completa e concreta – Do nosso modelo econômico às questões ambientais, muito há que se mudar em busca de um mundo justo, onde efetivamente haja liberdade e igualdade, e, sinceramente, já não acredito que a minha geração, que está às portas dos trinta e cinco anos, conseguirá ver este tal mundo justo, talvez consiga auxiliar a nova geração para que siga nesta construção. Agora, já sabemos que livros não devem ser taxados, que educação e saúde não são mercadorias e devem ser universais e gratuitas, então, de onde o governo pode tirar dinheiro? Bom, tem uma listinha de coisas que poderiam ser taxadas e não são, vamos conferir? Igrejas e templos religiosos em geral – Vocês já pararam para pensar na quantidade de dinheiro que circula diariamente nas grandes igrejas (especialmente certas instituições que cobram dízimo por boleto, vendem lenços ungidos, feijões mágicos como cura da COVID e tantas outras barbaridades) Agora, imaginem quanto dinheiro o governo poderia arrecadar se decidisse cobrar 12% do patrimônio destes templos – Incluindo aí o dízimo ofertado pelos fiéis. Isso arrecadaria dinheiro e não prejudicaria o acesso a cultura e informação. E antes que alguém me avise que a isenção de imposto para igrejas também está na Constituição, eu já respondo: Se podem pisar, enxovalhar, picar e mudar o texto tantas vezes, se podem pensar em modificar para taxar livros, podem modificar para taxar igrejas também. Outra coisa boa para se taxar: Jatinhos, iates, helicópteros. Você acha justo pagar um IPVA altíssimo no teu carro ou moto e saber que jatos e iates não pagam nenhum imposto semelhante? Quem consegue comprar um jato, poderia pagar impostos. Uma terceira coisa a ser taxada: Grandes fortunas. Não estou falando de você que conseguiu passar num concurso mais ou menos e recebe sete mil reais por mês, ou de você que abriu um boteco na quebrada ou um quiosque na praia. Estou falando de grandes fortunas de verdade: Banqueiros e grandes empresários, pessoas que vivem de especulação financeira – Temos que parar de pensar que eles nos fazem um favor ao “dar empregos” e podem ficar “chateadinhos” com uma maior taxação! Pasmem, eles não “dão” nada. Eles precisam de pessoas que trabalhem. Eles não irão sair do país caso haja uma taxação justa, pois sabem que, no exterior, a taxação é rigorosa e que, mesmo a herança chega a pagar 60% de imposto em sua transmissão (como é o caso da França), ou 50% (como é o caso da Alemanha) – Aliás, talvez seja por esse rigor financeiro que muitos multimilionários doam tanto dinheiro para pesquisa nos países desenvolvidos – Eles sabem que não poderão deixar praticamente todo seu império para os filhos, então preferem direcionar, ainda em vida, seu dinheiro para causas que irão efetivamente auxiliar na evolução da ciência (ou vocês realmente acreditavam que as doações são apenas um gesto iluminado? Senta lá no cantinho que eu tenho que contar que papai Noel não existe, nem coelho da Páscoa). Enfim: Igrejas, iates e jatinhos, grandes fortunas e grandes heranças – Tudo isso poderia ser taxado, e não é. Sabe por qual motivo? Não é pelo bem da economia. É porque não interessa aos parlamentares da bancada do boi, da bala e da bíblia, mexer em seus próprios privilégios e nos de quem os apóia, custeia suas campanhas baseadas em ódio e “caixa 2”. É bem mais fácil fazer com que o trabalhador engula uma nova CPMF, é mais interessante tirar direitos trabalhistas e perspectiva de aposentadoria, desmontar a saúde e educação públicas, e, como um golpe final, taxar livros, dificultando a formação do pensamento crítico de nossas crianças e jovens – Afinal, quem está “lá em cima”, do presidente aos congressistas, sabe que pessoas com pensamento crítico não se deixam manipular, questionam, exigem direitos. Para eles, é bem mais fácil tocar o berrante e levar o gado, e tudo bem se a vaca for pro brejo, afinal, o deles está bem guardado em algum paraíso fiscal bem longe daqui, e enquanto muita gente de prato vazio sonha com a pizza e o suco de laranja, ou ao menos arroz e feijão (embora, na verdade, todos e todas precisamos poder comprar com nosso trabalho “comida, diversão e arte” como diria certa música) os abutres do poder se refestelam com as mais delicadas iguarias. Pois é, as taxas que nos atingem tiram uma pedra do sapato de quem nos pisoteia sem dó. E essa pedra, somos nós e nosso futuro.

Esse post faz parte do BEDA – Blog Every Day August. Participam também:

Ale HelgaClaudia Lunna GuedesVivianeDrica Mariana Gouveia ChrisObduliono – Adriana

O caos da semana

Hoje sonda tripulada Crew Dragon retornou ao nosso planeta. Infelizmente, os dois tripulantes não irão encontrar um mundo melhor do que deixaram ao partir há dois meses. O planeta está, literalmente, pegando fogo: Ano passado a Amazônia brasileira sofreu com desmatamentos e queimadas, chegando inclusive a produzir uma nuvem de fumaça que alcançou a cidade de São Paulo. Este ano, os incêndios aumentaram 28% em relação ao mês de Julho/2019, sendo 77% destes incêndios em terras indígenas, colocando os povos originários em uma situação ainda mais perigosa. E por falar em fogo, há incêndios na Itália e também nos Estados Unidos, onde aproximadamente 8 mil pessoas precisaram deixar suas casas devido ao fogo que atinge parte da Califórnia. Aquecimento global, degradação ambiental e tragédias caminham lado a lado, mas aparentemente, os mais ricos, que efetivamente detém o controle econômico e político do mundo, não estão prontos para essa conversa. Por falar em poder político e econômico, uma reportagem veiculada no portal G1 pontuou que atualmente há 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza nos Estados Unidos da América – Ironicamente o país que “mete o nariz” onde não é chamado, não consegue ou não quer resolver suas próprias mazelas e acumula números vergonhosos como maior mortalidade infantil do mundo desenvolvido, expectativa de vida menor e menos saudável em relação a outros países ricos e uma grande taxa de encarceramento. Espero que o povo de lá consiga dar início em mudanças necessárias nas eleições deles em Novembro deste ano, não é? Eleições para as quais a nossa familícia presidencial recebeu um sutil cartão de “não se metam” através de uma postagem na qual Elitot Engel, da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Estados Unidos da América diz que os Bolsonaros devem ficar longe das eleições americanas. Enquanto tudo isso acontece, a COVID-19 segue fazendo vítimas e nosso Brasil atinge o segundo lugar mundial no número de mortos – Temos mais mortos que países populosos e pobres como a Índia, por exemplo. E ainda assim o país segue enviando seu povo ao matadouro, reabrindo comércios e discutindo o retorno às aulas presenciais. Pratica-se um genocídio para impedir a “morte de CNPJ”, porém alguém precisa avisar que CPF morto não produz riqueza econômica, pois não consome – Aliás, a única coisa que cresce por aqui é o lucro dos fabricantes de caixões e das funerárias, então, se você costuma investir na Bolsa de Valores, segue a dica. Por falar em investimento, o Brasil precisa urgentemente investir em uma justiça mais célere, afinal, o soldado da FAB, Manoel S. Rodrigues, preso há um ano e um mês na Espanha, após carregar 39kgs de cocaína num avião da FAB rumo ao G20, segue recebendo os depósitos de seus salários, pois não houve pedido de bloqueio – Um verdadeiro descaso com o orçamento público. E a última notícia de hoje é justamente sobre… Dinheiro: Foi anunciada a criação de uma nota de duzentos reais que passará a circular no final de Agosto e terá como estampa um lobo guará (Ainda bem que não homenagearam os eleitores do atual presidente, pois se o tivessem feito, teríamos gado estampado nas cédulas). A notícia preocupou algumas pessoas que, em suas redes sociais, demonstraram preocupação com a dificuldade que será trocar estas notas no comércio, uma vez que as notas de cem reais já causam transtornos com falta de troco – Considerando os preços absurdos dos alimentos (muito embora o Banco Central insista em dizer que não há inflação) e os caminhos questionáveis que o país vem seguindo, arrisco dizer que qualquer ida rápida ao supermercado mais próximo resolverá esta questão: A tal nota de duzentos ficará por lá, sem direito a troco e possivelmente será um valor insuficiente para suprir as necessidades mais básicas – Mas, depois de todas essas notícias azedas sobre o mundo, o importante é ressaltar que, segundo os conservadores, o maior problema da semana foi o fato de certa marca de cosméticos ter escolhido o Thammy Miranda para estrelar sua campanha de dia dos pais – Alegam que Thammy não é pai por não ter um pênis – Como se isso fosse a única coisa que define um ser humano como homem. Ao invés de se preocupar com a ausência de um pênis, que em nada altera a capacidade de exercer a paternidade, acredito que deveriam se preocupar com ausências que efetivamente afetam o país: Questionem a falta de cérebro dos negacionistas, a falta de caráter das classes dominantes e a falta de humanidade dos que insistem em colocar o lucro acima da vida das pessoas.

BEDA: Blog Every Day August – Também participam

Lunna GuedesViviane AlmeidaAdriana AneliClaudia Chris FerreiraDrica MoreiraMariana Gouveia – Obduliono

Rumo ao precipício ou presos eternamente em 2020?

Retomando as notícias da semana, percebi que enquanto o excrementíssimo jumento (com o perdão aos jumentos, animais tão leais e belos, pela comparação que já é clássica entre nós, seres humanos) persegue uma ema com uma caixa de cloroquina nas mãos, deixando no ar dúvidas sobre suas intenções – Que poderiam ser (a) matar a ema numa vingança contra a bicada ocorrida na semana anterior; (b) fazer uma divulgação de natureza duvidosa do remédio ou (c) não havia intenção nenhuma por trás do ato pois a espécie bípede de jumento não consegue sequer raciocinar e imprimir intencionalidade além da famosa arminha com os dedos e repetição de frases de ódio – ouras coisas importantes estão acontecendo pelo nosso planeta: E, acreditem, alguns desses fatos podem influenciar nosso futuro como espécie. Então, deixemos nosso gado por aqui (torcendo para que não surja uma epidemia de febre aftosa ou doença da vaca louca) e começar nosso giro de notícias pela Inglaterra, onde uma nuvem quilométrica de formigas voadoras foi avistada e confundida com chuva por um radar. O fenômeno ocorre por ocasião da época de acasalamento dos insetos – Pelo menos elas estão com sorte e podem acasalar em segurança, sem máscaras e distanciamento social, certo? Viva o amor e vamos torcer para que a teia alimentar esteja bem equilibrada para aqueles lados, senão haverá uma super população de formigas. Outro fato que foi pouco divulgado: A temperatura ao norte do globo terrestre vem sofrendo um aquecimento substancial, chegando a 32 graus no Alasca e, pasmem: Há grandes áreas de tundra sendo destruídas por incêndios. Regiões antes geladas como a Sibéria e a Groelândia também apresentam incêndios descontrolados que, segundo os especialistas, devem liberar bastante dióxido de carbono na atmosfera. Não é preciso ser nenhum gênio para entender que ou mudamos nossos hábitos diários e nosso sistema econômico e de produção a nível mundial, ou seremos engolidos cada vez mais por epidemias, aquecimento global, poluição e morte – Continuar como estamos é caminhar a passos largos rumo a extinção de nossa própria espécie. E por falar em espécies, nos Estados Unidos a mortandade de esquilos levanta um alerta para uma possível onda de casos de peste bubônica, doença que também esteve em evidência nas fronteiras entre China e Mongólia (é, eu avisei que os pensamentos retrógrados de algumas pessoas estão fazendo o mundo girar ao contrário e que, em breve, iríamos ter que lidar com a peste negra e as fogueiras em praça pública). No campo político a notícia boa é que Trump aparentemente vem perdendo força nos Estados Unidos – E aí fica a dúvida, o nosso “patriota” irá imitar o próximo presidente norte-americano ou irá chorar a saudades do Trump na cama, que é lugar quente? Ainda observando nossos vizinhos mais ao norte, vemos que por lá se intensificam os protestos contra casos de racismo e há lugares em que monumentos homenageando personalidades escravocratas estão sendo removidos – O que não apaga o papel danoso dessas pessoas no mundo. Seja como for, com ou sem monumentos, é interessante ver as lutas avançando. Por aqui, tivemos nossos casos de violência policial e seguimos sobre ataques do governo: Enquanto descarta-se a ideia de taxar as grandes fortunas, a equipe de Paulo Guedes dá os primeiros passos para criar uma nova CPMF e taxar livros, ações que irão diminuir ainda mais o poder de compra dos cidadãos e encarecer o acesso à cultura. Por parte do Ministério da Saúde, que ainda se encontra nas mãos do interino, reportagens mostram que a verba destinada ao combate à pandemia do novo coronavírus não vem sendo utilizada, enquanto isso, há declarações no sentido de que não seria obrigação da citada pasta ministerial comprar testes e respiradores – Ou seja, enquanto o maluco egocêntrico norte-americano, com todos os defeitos possíveis, busca garantir vacina e suplementos para sua população, por aqui empurra-se cloroquina (que comprovadamente não possuí eficácia) e nega-se auxílio para que haja um isolamento social adequado e atendimento médico digno à população, ao mesmo tempo em que se planeja o achatamento da renda através da criação dos impostos já comentados. Por último e não menos importante: A tradicional queima de fogos na noite de ano novo no Rio de Janeiro foi cancelada. Agora é torcer para que não cancelem a transmissão anual do Roberto Carlos na TV Globo, afinal, com o cancelamento de tais eventos, arriscamos a entrar em uma fenda temporal e ficar presos para sempre em 2020, comendo sanduíche de cloroquina e tentando encontrar uma saída para o caos – Aliás, quando nós, leitores e leitoras, suspiramos e olhamos para o céu pedindo para viver emoções dignas de livros, temos em mente romances épicos e não distopias e terror onde, aparentemente, o roteirista já não sabe mais o que fazer para acabar de uma vez com o mundo criado, então, na próxima vez que fechar um livro e desejar viver um romance, deixem claro QUAL romance, pois aparentemente o Universo andou ouvindo nossos pedidos e nos trancou em um livro de terror distópico.

Pró-vida?

Uma característica bem interessante da maioria dos eleitores do atual presidente é a bandeira “pró-vida” – Num primeiro olhar, pode parecer lindo atribuir-se esse título não é mesmo? Afinal, quem em sã consciência seria contra a vida? Entretanto, a passagem desse ano e meio de mandato deveria enojar qualquer pessoa que fosse realmente defensora da vida: Estamos em meio a uma pandemia, sem ministro da saúde e com uma ministra da mulher, da família e dos direitos empenhada em promover um concurso de máscaras para crianças – e a máscara campeã, com a ilustração e formato de uma vaquinha, só podem ser piada pronta ou a aceitação formal do título de “gado” atribuído aos que se deixam levar pelo berrante do Jair. Se isso é ser pró-vida, juro que eu gostaria de entender o que afinal significaria ser pró-morte – Afinal, na lei que estabelece a obrigatoriedade do uso de máscaras, o presidente vetou o artigo que exigia o uso do equipamento em estabelecimentos comerciais, industriais, templos religiosos, estabelecimentos de ensino e demais lugares fechados em que haja reunião de pessoas. Veja: Na prática as constantes omissões são um caminho a passos largos em direção a um precipício de novos casos de adoecimento e morte. Observando de perto, podemos utilizar aquela frase cuja autoria eu desconheço: Não é pró-vida, é pró-feto. Afinal, segundo Jair e seu rebanho, o aborto deve permanecer proibido (e isso não é uma atitude pró-vida, mas uma punição a toda e qualquer mulher que se permita viver o sexo de maneira livre e plena, como o homem já faz desde que o mundo é mundo), mas a milícia pode seguir matando, a COVID segue sem controle, a água está em vias de ser privatizada inviabilizando ainda mais o mínimo necessário a sobrevivência (é só ver o que aconteceu em outros países do mundo onde água e saneamento foram privatizados), os agrotóxicos liberados causam grande impacto na saúde humana e a educação segue sucateada – Afinal, no projeto de escravizar o povo e vender nossas riquezas, não há espaço para investir em um aperfeiçoamento intelectual do povo brasileiro, não é verdade? E para encerrar a semana com chave de ouro, é impossível não citar duas outras ocorrências marcantes: Um ciclone que causou destruição no Sul do país e um surto de peste na fronteira da Mongólia com a Rússia – Estaríamos vivendo um momento tão retrógrado que forçamos a Terra (plana?) a girar para trás, abandonando o caminhar em direção ao futuro e aportando logo ali na Idade Média? Se não tomarmos cuidado, em breve veremos bruxas queimadas em praças públicas.

Até que o amor possa pulsar livremente (Sobre um texto não escrito para o dia dos namorados e a falta de sentido que toma conta do mundo)

Inicialmente peço desculpa aos meus leitores. Hoje é comemorado o “Dia dos Namorados”, a noite está fria e parece ser o clima perfeito para filmes, pipocas, jantares românticos, um bom vinho para quem curte vinho, um pouco de erva e um bong pra quem curte erva ou ambas as coisas ou qualquer outra coisa que se queira. É um dia onde as pessoas esperam por presentes, declarações de amor e um clima cor-de-rosa. E eu havia preparado um texto sobre o assunto – eu juro que havia! Um texto sobre a importância de pensar menos no presente e mais na presença, e sobre não ter vergonha de se isolar um pouco do mundo ou combinar programas entre amigos solteiros para quebrar o tédio caso não tenha alguém para passar a data de hoje. Sim, esse texto existia, bem como fotos de casais fofos de filmes e livros. Mas infelizmente, este texto ficará no meu caderno (quem sabe ano que vem ele saia do papel). O clima hoje não é de celebração. Mais uma vez vemos a bandeira LGBT banhada em sangue inocente. Sangue de pessoas que eram filhos de alguém, namorados de alguém, amigos de alguém. O atirador que invadiu a boate Pulse hoje por volta das três da manhã (horário de Brasilia), não atirou somente contra quem estava lá dentro. Ele atirou contra cada um de nós em todas as partes do Mundo. A mente perversa de alguém que faz o que esse homem fez é um labirinto obscuro onde eu me recuso a tentar penetrar – tirando a vida daquelas pessoas ele cometeu um crime contra a humanidade. Até quando o sangue de alguém será derramado com base em suas opções de vida? Até quando o amor será motivo de ódio? É assustador ver os comentários em postagens sobre esse assunto – pessoas dizendo que a polícia não deveria ter tentado salvar ninguém, que deveriam ter ateado fogo e matado a todos. É assustador ver pessoas que conseguem sentir revolta apenas pela morte de pessoas brancas, heterossexuais e cisgêneros. É assustador ver pessoas que sentem prazer com a morte de quem não se enquadra em sua concepção fechada de mundo. Para onde estamos caminhando? Atentados assim podem acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo – inclusive no Brasil – aliás, com Deputados que homenageiam torturadores e dizem que gay tem que apanhar mesmo, nosso país não está nem um pouco longe de se tornar palco de atrocidades como as que ocorreram em Orlando, e, assustadoramente, teremos pessoas aplaudindo. Sabemos que isso já acontece por aqui, em escala menor, mas acontece. Agora, fica a pergunta: Você consegue ficar calado(a) perante este derramamento de sangue? E o que você está fazendo para tentar mudar a agressividade sem sentido que tenta se instalar a cada dia? Cada um de nós pode e deve lutar com as armas que possui: Debater, se informar, utilizar os espaços dentro e fora de casa para construir um mundo melhor. Eu já escrevi duas vezes aqui no blog sobre a questão LGBT (veja: LGBT: Até quando será necessário lutar para mostrar à sociedade que o amor deve ser livre  e  “A bandeira se ergue, novamente manchada de sangue“) e vou escrever quantas vezes mais forem necessárias, pois o amor e as palavras que compartilho com vocês são as minhas armas de luta nesta guerra cruel em que a vida se transformou. E sobre a data que a mídia e o comércio convencionaram chamar “Dia dos Namorados” eu lhes digo que para mim, enquanto todos os dias não se tornarem dias de amor para qualquer casal do mundo, de qualquer gênero e orientação sexual, não haverá um sentido completo e verdadeiro em comemorar.

pulse