Dica literária: Equação Infinda. [BEDA 2]

Três mulheres, três diferentes momentos históricos: 1931, 1958 e 1983. Em comum, os sonhos da juventude e a realidade imposta como uma prisão pela família e pela sociedade. Não é fácil ser mulher. Ser mulher e ser livre é ainda mais difícil, mas o que fazer se a alma feminina é um oceano inteiro?  Navegar. Esse é o convite que Roseli Pedroso nos entrega em Equação Infinda: Navegar pelas águas de Carminha, Lígia e Verônica.  Vidas contadas em quatro capítulos nomeados pelas estações do ano. Relatos de esperança, sofrimento e sede de liberdade – água historicamente negada às mulheres.

O livro é curtinho e pode ser lido de um só fôlego. Os ecos das vozes dessas mulheres ficam na memória por tempo indeterminado.

Para além do prazer de ler, há o prazer de tocar o livro, sentir a texturas das páginas firmes entre os dedos, tocar a fita utilizada na costura artesanal das páginas. Apreciar o objeto livro com o tato, com os olhos e com o olfato antes de abrir e iniciar a leitura é um tira gosto que antecede a leitura, prepara a alma e proporciona um enorme prazer.

Lembrando que a editora Scenarium está com inscrições abertas para o Clube do Livro!

_________

Este post faz parte do BEDA (Blog Every Day August). Participam também:

Adriana Aneli Ale Helga- Claudia Lunna Mariana GouveiaObdulioRoseli

Paternidades

Paternidade é uma escolha. Pode ser que essa frase choque muitas pessoas, principalmente quando dita/escrita no dia dos pais, porém, por mais chocante que possa parecer, é uma verdade. Maternidade também deveria ser uma escolha, mas, para a mulher, é uma imposição. Vejam, todas as pessoas podem ser genitoras de alguém – basta que uma pessoa com vagina e uma pessoa com pênis mantenham um ato sexual e pode acontecer a concepção de um novo ser. Mas, na nossa sociedade, a mulher cis será obrigada a ser mãe: Carregar o feto por nove meses – Aprender a cuidar e em muitos casos, enfrentar julgamentos nos olhares das outras pessoas, além de ter sua carreira ou estudos interrompidos ou prejudicados. Já ao homem, é dada a escolha: Ser pai ou ser genitor? Muitos optam por serem apenas genitores – Algumas vezes, registram a criança com o sobrenome, pagam pensão e pode ser que peguem o infante quinzenalmente pra visita. Genitor. Não pai. Pai é quem acompanha, é quem está presente além das fotos nas redes sociais. O pai escolhe ser pai, abre mão de algumas coisas, para que a mãe não precise abrir mão de quase tudo, se vivem uma relação de casamento, o pai cuida da casa porque também mora ali, ele não ajuda, ele faz porque é sua obrigação fazer. Ele não ajuda a cuidar da criança – Ele cuida porque sabe que o bebê não se fez sozinho ou por mágica. Ele opta por ser pai.  O pai não precisa ser necessariamente a pessoa com pênis na relação, nem a mãe precisa ser a pessoa com vagina – Ninguém usa o órgão sexual para cuidar de um bebê, nem para limpar a casa – Espero que a essas alturas, vocês já saibam disso, certo? Só estou reforçando devido à polêmica da semana passada, envolvendo uma empresa de cosméticos e um homem transgênero que OPTOU por ser pai, coisa que muitos dos que apontam o dedo, não fizeram.  Agora, falando ainda em pais e filhos, vi uma notícia estarrecedora sobre uma mãe que perdeu a guarda da filha por permitir que a menina participasse de um ritual religioso de uma religião afro-brasileira (não vou apontar aqui se Candomblé ou Umbanda porque esqueci de anotar e não tenho certeza) – O nível de intolerância neste país chega ao absurdo: Numa sociedade em que muitos optam por não ser pais, em que mães se vêem constantemente sobrecarregadas e tolhidas de oportunidades, numa sociedade que atingiu a marca de cem mil mortos pela COVID-19, ainda há pessoas gastando energia em ser intolerante com a religião escolhida por uma mãe e seguida pela filha – O nome disso é intolerância religiosa e racismo – E esse é um dos males que assola nossa sociedade – Aliás, no início da pandemia, li muitas pessoas dizendo esperançosamente que sairíamos melhores como seres humanos deste período. Ao ler as últimas notícias, você que me lê, acredita sinceramente que haverá alguma modificação positiva? Pois, por aqui, está bem difícil de ver uma luz qualquer no final do túnel. Antes que eu me esqueça, um feliz dia dos pais, a todos os leitores que optaram pela paternidade real, ativa e verdadeira. Aos outros, apenas tomem vergonha na cara.

Esse texto faz parte do BEDA: Blog Every Day August.Também participam

Lunna GuedesAle Helga ChrisObdulionoAdriana Mariana GouveiaDrica VivianeClaudia

Dica Literária: Bagagem – Adélia Prado

O segundo livro do #DesafioLiterário2020 #Fevereiro é a obra “Bagagem”, da poetisa mineira Adélia Prado. Nascida em Divinópolis no dia 13 de Dezembro de 1935, Adélia Luiza Prado de Freitas é poetisa, contista, filósofa e professora.

Em 1976, no livro “Bagagem”, o primeiro de sua carreira literária, Adélia escreve poesias sobre o cotidiano: amor, família, morte – literalmente a bagagem que uma alma carrega pelos caminhos tortuosos da vida. Autora da escola Modernista, Adélia não se prende a questão métrica em sua poesia. Seus textos trazem uma sensação de observação perplexa, permeada pela fé (cristianismo), com ritmo lento e uma falsa ideia de leveza  que se desfaz conforme a leitura avança e demonstra claramente que versos simples, sem vocabulário rebuscado e excessivo zelo com métrica também são capazes de compartilhar angústias, amores, lembranças…

Quer saber mais sobre o Desafio Literário? Clique Aqui! Quer conhecer os livros propostos para o mês de Fevereiro? Só clicar aqui!

Leitura Sinistra

Minha “leitura sinistra” foge bastante ao tema, aliás, talvez nem seja considerada sinistra por muitas pessoas. Tenho algumas paixões na vida, entre elas estão os livros e a culinária – acho que quem me acompanha por aqui já sabe disso, né? Enfim, há um tempo, “adotei” na estante de doação de livros da biblioteca de Santos uma coleção de quatro livros cujo título é “Práticas do lar”.  São livros antigos, de capa dura já maltratada e páginas amareladas repletas de receitas para o dia a dia ou para ocasiões especiais, algumas com fotos e todas com “enfeitinhos” nas bordas da página. Até aí, tudo bem, certo? O que mais se esperaria de uma coleção chamada “Práticas do lar” além de receitas e dicas domésticas?. O fato é que apenas os três primeiros livros continham receitas, o quarto livro dedicava-se a tratar de “direitos e beleza da mulher”! E isso me incomodou terrivelmente! Como assim? Então uma coleção de práticas do lar é voltada apenas para a MULHER? Até onde eu saiba homens também comem, também recebem visitas, também se vestem e precisam sim cuidar da pele e cabelos? Ou não? Pois é! Achei sinistro perceber o quanto no ano de 1978 (ano do livro), era naturalizado o papel da mulher como alguém “do lar” e o quanto é ainda recente a conquista de alguns direitos que hoje temos. Pessoalmente, por mais que eu adore cozinhar e fazer agrados pras pessoas que amo (e sim, acredito que nesse e somente nesse sentido, se um dia eu me casar, vá ser a esposa que espera sempre o marido com uma comida gostosa pronta), não consigo me ver vivendo uma vida onde alguém decida tudo por mim e onde minhas obrigações sejam sempre relacionadas a beleza, casa e filhos. Assustador imaginar a vida feminina conforme descrita neste “volume 4” da coleção – E vou adiante: Acredito que deveria ser um pesadelo para o homem também, afinal, qual o prazer em viver com uma mulher que não acrescente nada a ele em termos de visão de mundo, experiências e independência? Acredito que em qualquer relação humana, o cuidar do outro deve ser separado do “manter o outro dependente e apático diante da vida”.

Sobre os outros três livros: As receitas antigas fariam meu contador de calorias explodir! Quanto açúcar e gordura de uma só vez! E quanta carne! Apesar disso, encontrei muita coisa que me deixou com água na boca e, certamente, pouco a pouco, farei adaptações para o veganismo e postarei por aqui!

E vocês? Quais reflexões trazem sobre essa questão da condição da mulher na sociedade através dos tempos? Também acharam a leitura sinistra?

sinistra

Dica literária: Senhora – José de Alencar

Uma jovem de origem humilde vê-se repentinamente rica por conta de uma herança recebida de seu avô paterno e decide dar uma lição no homem que anteriormente havia rejeitado seu amor, trocando-a por uma de melhor condição financeira – O tema pode parecer o início de mais um romance clichê, mas não é. Aurélia é uma mulher bela, astuta e decidida. A personagem central do romance Senhora, o último escrito por José de Alencar, é uma mulher cativante e Alencar a usou magistralmente para questionar padrões sociais da época – principalmente os relacionados ao casamento e relações familiares. Aurélia quebra padrões ao se colocar como responsável pelo próprio destino, mas não chega a ser uma personagem feminista uma vez que em nenhum momento questiona a estrutura social que mantém a mulher dependente do homem, apenas busca “burlar” tal estrutura de modo a tomar suas próprias decisões, mesmo tutelada por seu tio. O romance se desenrola em dois momentos – a vida atual da moça e seus primeiros anos, vividos na pobreza. Sem muitas tensões ou sobressaltos, Alencar soube prender a atenção dos leitores. Um livro que, sem dúvidas, vale a pena ler!

Uma dica para os fãs de cinema: Há um filme nacional baseado no livro, entretanto o ritmo é bem lento e alguns fatos muito importantes da obra são alterados, portanto, quem opta por não ler, perde muito desta obra incrível!.

Livro do mês: Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor (Allan E Barbara Pease)

A leitura do mês de Fevereiro certamente não é uma obra literária de ficção tampouco pode ser classificada como um tratado científico acerca do comportamento humano. Os autores demonstram a existência de diferenças entre o comportamento masculino e o feminino e as atribuem a formação da estrutura cerebral – o que ocorre ainda não gestação devido a ação dos hormônios. Outra preocupação constante dos autores é salientar o quão perigoso é tentar fazer com que homens e mulheres acreditem em uma suposta igualdade de gênero, pois se ignorarmos diferenças que de fato existem entre os homens e mulheres, o resultado será confusão e frustração.

A obra é interessante, de fácil leitura além de ser bastante engraçada em alguns momentos, vale a pena ler sem levar “ao pé da letra” tudo o que se diz.