Marielle presente

Na calada da noite, calaram
A voz que reverberava gritos dos esquecidos
Sob noturno manto, ceifaram
A vida de quem lutou pelos oprimidos

Barbárie! Abjetos vermes pelas ruas caminharam
Ocultos pelo dinheiro, pelo poder apodrecidos
Homens armados de ganância e ódio atiraram
E abatendo a mulher, desejaram ver sonhos abatidos

Há um ano tal questão nosso peito oprime:
Quem matou? Quem mandou matar?
Quem orquestrou tão inumano crime?
A quem interessa afinal nossas vozes calar?

Tamanha revolta nenhum poema exprime!
Marielle, mulher corajosa, escolheu falar
De cabeça erguida contra o sistema que suprime
O direito de tantas outras Marielles e Andersons de viver, de sonhar

Marielle sempre presente! Sempre força e alegria
Marielle cuja alma se manteve doce e pura
Sem abandonar suas raízes de mulher negra da periferia
Ocupou seu espaço enfrentando da vida a batalha dura

Ousou sonhar com a revolução d’onde nascerá um novo dia
Mãos à obra – pedra por pedra, desejou construir um mundo sem amargura
Sabia que a verdadeira Revolução seria construída pelo povo, dia a dia
Do chão, pela mulher, pelo povo negro, indígena, pela troca de ideias sem censura

Na calada da noite, Marielle, eles acreditaram
Ter visto tantos planos e sonhos demolidos
Bandidos em luxuosos covis comemoraram
Ao ver milhões de corações partidos

Mas nosso luto, é verbo! Nossas mãos não se soltaram
Marielle tornou-se semente a germinar em campos floridos
Suas palavras, seus gestos, suas lembranças revoaram
A nos fortalecer nesta batalha da qual seremos vencedores, jamais vencidos

Nunca permitiremos que calem a tua-nossa voz!
Foste em vida um pouco de todas e de todos nós
E hoje em cada uma, em cada um, vive um pouco de ti
Marielle brilha, floresce, resiste! Gigante, eterna, Marielle, presente!

(14-03-2019)

Sejamos sementes – Marielle presente!

Hoje é um daqueles dias em que escrevo um texto que gostaria não fosse necessário escrever – mas é quando tudo se torna caos e incerteza, quando tudo vai levando a vida para o torpe, vil e absurdo inferno é que as palavras e debates se fazem mais necessários. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) ocorrido na última quarta feira (14) é um destes fatos chocantes que não possibilita a tomada de nenhuma outra posição que não seja a indignação e o repúdio.

Marielle foi a menina pobre que, segundo os padrões elitistas e egoístas da sociedade “deu certo na vida”. Preta, lésbica, favelada, “cria da Maré” como se definia, Marielle estudou e militou pelos direitos humanos – inclusive pelos direitos das famílias de policiais militares vitimados pela violência. Eleita vereadora, Marielle não deu as costas aos seus – continuou sendo a mesma mulher guerreira, defendendo os que não tiveram oportunidade de construir suas próprias defesas e denunciando abusos. Seu caráter correto e sua luta foram seu maior legado – e a causa de sua morte com nove tiros de fuzil. O assassinato de uma mulher negra, periférica, lutadora é o pergaminho escrito com sangue, o recado dos poderosos ordenando que o povo se cale, abaixe a cabeça, trabalhe e siga em frente se reparar nos cadáveres de seus semelhantes, sem se indignar com as condições desumanas de vida, sem se revoltar com a corrupção e os abusos do Estado. E esse recado deve ser rasgado bem debaixo dos olhos do emissor – Sejamos sementes de luta – Onde uma cabeça for cortada, que se levantem milhões. Que as ruas sejam tomadas pela indignação e a luta prossiga em memória de tantas Marielles, de tantos Andersons, de tantos e tantas trabalhadoras e trabalhadores que foram vitimados em silêncio sem que houvesse comoção, de tantos e tantas lutadoras e lutadores que não se calaram na defesa pelos direitos do próximo. Mais uma vez o nome de uma guerreira foi escrito com sangue nas páginas da história brasileira – e se você não é capaz de se indignar com isso, desculpe te dizer, mas o seu caráter tem sérios problemas e é melhor você rever seus conceitos de vida, respeito e dignidade humana.

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