Rumo ao precipício ou presos eternamente em 2020?

Retomando as notícias da semana, percebi que enquanto o excrementíssimo jumento (com o perdão aos jumentos, animais tão leais e belos, pela comparação que já é clássica entre nós, seres humanos) persegue uma ema com uma caixa de cloroquina nas mãos, deixando no ar dúvidas sobre suas intenções – Que poderiam ser (a) matar a ema numa vingança contra a bicada ocorrida na semana anterior; (b) fazer uma divulgação de natureza duvidosa do remédio ou (c) não havia intenção nenhuma por trás do ato pois a espécie bípede de jumento não consegue sequer raciocinar e imprimir intencionalidade além da famosa arminha com os dedos e repetição de frases de ódio – ouras coisas importantes estão acontecendo pelo nosso planeta: E, acreditem, alguns desses fatos podem influenciar nosso futuro como espécie. Então, deixemos nosso gado por aqui (torcendo para que não surja uma epidemia de febre aftosa ou doença da vaca louca) e começar nosso giro de notícias pela Inglaterra, onde uma nuvem quilométrica de formigas voadoras foi avistada e confundida com chuva por um radar. O fenômeno ocorre por ocasião da época de acasalamento dos insetos – Pelo menos elas estão com sorte e podem acasalar em segurança, sem máscaras e distanciamento social, certo? Viva o amor e vamos torcer para que a teia alimentar esteja bem equilibrada para aqueles lados, senão haverá uma super população de formigas. Outro fato que foi pouco divulgado: A temperatura ao norte do globo terrestre vem sofrendo um aquecimento substancial, chegando a 32 graus no Alasca e, pasmem: Há grandes áreas de tundra sendo destruídas por incêndios. Regiões antes geladas como a Sibéria e a Groelândia também apresentam incêndios descontrolados que, segundo os especialistas, devem liberar bastante dióxido de carbono na atmosfera. Não é preciso ser nenhum gênio para entender que ou mudamos nossos hábitos diários e nosso sistema econômico e de produção a nível mundial, ou seremos engolidos cada vez mais por epidemias, aquecimento global, poluição e morte – Continuar como estamos é caminhar a passos largos rumo a extinção de nossa própria espécie. E por falar em espécies, nos Estados Unidos a mortandade de esquilos levanta um alerta para uma possível onda de casos de peste bubônica, doença que também esteve em evidência nas fronteiras entre China e Mongólia (é, eu avisei que os pensamentos retrógrados de algumas pessoas estão fazendo o mundo girar ao contrário e que, em breve, iríamos ter que lidar com a peste negra e as fogueiras em praça pública). No campo político a notícia boa é que Trump aparentemente vem perdendo força nos Estados Unidos – E aí fica a dúvida, o nosso “patriota” irá imitar o próximo presidente norte-americano ou irá chorar a saudades do Trump na cama, que é lugar quente? Ainda observando nossos vizinhos mais ao norte, vemos que por lá se intensificam os protestos contra casos de racismo e há lugares em que monumentos homenageando personalidades escravocratas estão sendo removidos – O que não apaga o papel danoso dessas pessoas no mundo. Seja como for, com ou sem monumentos, é interessante ver as lutas avançando. Por aqui, tivemos nossos casos de violência policial e seguimos sobre ataques do governo: Enquanto descarta-se a ideia de taxar as grandes fortunas, a equipe de Paulo Guedes dá os primeiros passos para criar uma nova CPMF e taxar livros, ações que irão diminuir ainda mais o poder de compra dos cidadãos e encarecer o acesso à cultura. Por parte do Ministério da Saúde, que ainda se encontra nas mãos do interino, reportagens mostram que a verba destinada ao combate à pandemia do novo coronavírus não vem sendo utilizada, enquanto isso, há declarações no sentido de que não seria obrigação da citada pasta ministerial comprar testes e respiradores – Ou seja, enquanto o maluco egocêntrico norte-americano, com todos os defeitos possíveis, busca garantir vacina e suplementos para sua população, por aqui empurra-se cloroquina (que comprovadamente não possuí eficácia) e nega-se auxílio para que haja um isolamento social adequado e atendimento médico digno à população, ao mesmo tempo em que se planeja o achatamento da renda através da criação dos impostos já comentados. Por último e não menos importante: A tradicional queima de fogos na noite de ano novo no Rio de Janeiro foi cancelada. Agora é torcer para que não cancelem a transmissão anual do Roberto Carlos na TV Globo, afinal, com o cancelamento de tais eventos, arriscamos a entrar em uma fenda temporal e ficar presos para sempre em 2020, comendo sanduíche de cloroquina e tentando encontrar uma saída para o caos – Aliás, quando nós, leitores e leitoras, suspiramos e olhamos para o céu pedindo para viver emoções dignas de livros, temos em mente romances épicos e não distopias e terror onde, aparentemente, o roteirista já não sabe mais o que fazer para acabar de uma vez com o mundo criado, então, na próxima vez que fechar um livro e desejar viver um romance, deixem claro QUAL romance, pois aparentemente o Universo andou ouvindo nossos pedidos e nos trancou em um livro de terror distópico.

Dia do estudante: Ainda há muita luta antes que se possa comemorar.

Dia 11 de agosto comemora-se no Brasil o “Dia do Estudante”. Cada estudante traz em si um enorme acúmulo de energia, sonhos, potencial. E como o Brasil vem tratando seus estudantes? Crianças e jovens são todos os dias forçados a frequentar escolas sem infra-estrutura, onde falta merenda e os professores são pouco valorizados. Muitas vezes não há material didático disponível. Nas comunidades mais carentes as crianças mal alimentadas e sem condições mínimas de moradia e saúde, muitas vezes não conseguem sequer entender a importância da escola em suas vidas – Para algumas pessoas essas crianças e jovens simplesmente “não servem” para o mundo acadêmico – ledo e triste engano: Elas trazem em si a mesma energia e potencial de qualquer outra criança, apenas não conseguem acessar isso em seu próprio íntimo, tão duras são suas condições de vida. Bem verdade, através de muito esforço, alguns se destacam e dão a volta por cima – E quando isso acontece, surgem os defensores da chamada “meritocracia”. Aquelas pessoas que jamais moveram um dedo, mas enchem a boca para dizer “olha, tá vendo? Quando a pessoa quer ela consegue” ou “Viu? Não precisou de cotas, não precisou de privilégios, estudou”. Se fosse apenas a opinião banal, senso comum de uma população que ignora as diferentes realidades, seria chocante, porém, tolerável. O que realmente indigna é o MEC (Ministério da Educação) postar um relato de uma jovem que, para passar no vestibular de uma Universidade Federal, dormiu apenas 4 horas por dia pois conciliava escola, curso técnico e cursinho. Isso não deveria ser exemplo! Ninguém deveria precisar abrir mão de horas de sono, de saúde e lazer adequados para conseguir passar em uma faculdade. Parabenizo a jovem que relatou essa rotina. Sim, ela foi guerreira. Sim, ela merece estar no curso que desejou. Mas não, ela não deveria ser o exemplo! Principalmente: O Estado não deveria fazer dela um exemplo. Ela é a vítima do descaso que deu a volta por cima. Talvez ela não se veja assim – ainda – mas essa é a real imagem da vida de uma pessoa jovem que teve de abdicar de muito do que é inerente a sua idade para alcançar uma meta.

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É normal para você dormir 4 horas por noite durante um ano letivo inteiro? Acha justo vender a ideia de que isso é normalidade? Acha mesmo que os jovens devem passar por isso para atingir uma meta?

            E a situação só piora se analisarmos outros contextos: Além dos problemas já citados acima e de termos um Ministério da Educação que se omite, criando a falsa ideia de que a injustiça social dominante no país não deve ser levada em conta pois “quem quer consegue”, outros fantasmas se aproximam das escolas brasileiras – um deles é o chamado projeto “Escola sem partido” – Há um interesse muito grande em coibir os professores de incentivarem o pensamento crítico em suas aulas, e sabe qual o motivo? Querem jovens não contestadores, jovens que aceitem estudar em condições precárias, sem merenda, jovens que irão crescer e ser a próxima leva de mão de obra barata. Para quê discutir a realidade social em sala de aula? Para que discutir diferenças e diversidade? Isso é realmente um perigo para os grupos dominantes! Um jovem que lê, que pensa, que se arrisca a falar, a se organizar. Um jovem que vai às ruas protestar pela falta de merenda ou pelo valor do transporte público, que questiona. Um jovem que quer passe-livre. Que quer ter acesso à cultura. Um jovem que não aceita ser mais um número nas estatísticas. O programa “Escola sem partido” quer a todo custo evitar a formação de jovens e cidadãos empoderados. Alegam que professor não é educador. Alegam que existe uma suposta doutrinação marxista em sala de aula. Quem já entrou em uma escola pública periférica sabe o quão difícil seria “doutrinar” um aluno! E uma sala com 45 alunos? Impossível! Numa escola pública que segue os padrões atualmente existentes, o professor tenta a todo custo, contornando mil obstáculos, formar cidadãos pensantes, capazes de analisar seu entorno, capazes de vencer preconceitos e lutar pelos seus sonhos – e nesses sonhos incluí-se logicamente uma vaga na universidade, carreira, realização profissional. Em contrapartida, uma escola nos moldes sugeridos pelo “Escola sem partido”, seria uma máquina de moer pessoas. Um curral de formação de mão de obra não pensante. E sabe o que é mais interessante? Não é sequer uma escola sem partido, é uma escola de partido único! Qual partido? O partido dos que exploram. O partido dos que vendem todos os dias as vidas de milhões de pessoas em troca de dinheiro e poder.

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As forças políticas e intelectuais que se colocam a serviço da precarização do ensino público e da precarização do trabalhador não são neutras – São forças comprometidas com os exploradores em detrimento dos explorados. E o pior: Querem fazer crer que não estão explorando, que tudo é “necessário”.

O dia do estudante infelizmente não deve ser lembrado como um dia de comemoração, mas sim como um dia de luta: Luta pelo direito de pensar, de crescer. Luta pelo empoderamento. Luta contra a opressão imposta por uma falsa moral, por uma falsa ideia de meritocracia. E finalmente, o dia de lembrarmos com orgulho que há sim jovens dispostos a mudar, engajados em movimentos sociais, em coletivos. Jovens que ocuparam as escolas em São Paulo contra a suposta “reorganização escolar” que nada mais é que um desmonte articulado da educação pública. É dia de lembrar aos jovens que pelo Brasil a fora deixam de dormir, caminham quilômetros até a escola mais próxima que eles são vítimas de um sistema injusto e que a melhor forma de vencer seus algozes é estudar, organizar-se, debater e lutar por um amanhã melhor.

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Gosto de compartilhar músicas ao final de cada texto. Durante um tempo acreditei que não poderia mais fazer isso por utilizar a versão gratuita do wordpress, mas o André Hotter do blog do André Hotter me ensinou a voltar a colocar vídeos sem precisar comprar temas ou domínios (Obrigada André).

Enfim, fecho este post com uma canção antiga porém bastante atual quando o tema é educação. Este clipe mostra tudo que uma escola NÃO DEVE SER.