Cyrano de Bergerac – Edmond Rostand

O segundo livro do #DesafioLiterário2020 #Maio é, na verdade, uma peça de teatro escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand. A edição que tenho em mãos foi traduzida por Ferreira Gullar e encenada pela primeira vez no Brasil em 1985, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. A obra é uma comédia que retrata a história de Cyrano de Bergerac, um soldado e poeta francês que, apaixonado pela prima Roxana, não tem coragem de declarar seu amor por ela e acaba ajudando-a a casar-se com Cristiano, pelo qual a moça nutria uma paixão, escrevendo as cartas com que o rapaz fez a corte a ela. O enredo pode parecer pouco interessante em um primeiro exame, porém, em uma breve pesquisa, algumas curiosidades tornam a leitura um pouco melhor. A primeira é que, Cyrano de Bergerac não é uma personagem ficcional, e sim um escritor Francês que viveu entre 1619 e 1655, entrou para o exército, duelou inúmeras vezes (muitas delas em conseqüência das freqüentes provocações recebidas devido ao seu nariz grande) e escreveu livros de sucesso na época – sendo ele o primeiro autor a imaginar uma viagem espacial. Cyrano morreu pobre e doente, não tendo se recuperado completamente de um ferimento na cabeça causado por uma viga que o atingiu num acidente. Diferente do que narra a peça, não há evidências de que o autor tenha escrito cartas para a prima se passando por Cristiano – Esse sim apenas uma personagem ficcional criada por Rostand.

Outro dado interessante, sobre a peça teatral original: Edmond Rostand escreve o texto em versos alexandrinos (dodecassílabos), no que não foi seguido por Ferreira Gullar, que, ao traduzir, utilizou apenas versos decassílabos e rimas livres, mais adequadas ao nosso idioma segundo o tradutor.

A leitura e posterior pesquisa despertaram interesse pela leitura das obras de Cyrano, História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e História Cômica dos Estados e Impérios do Sol, publicados em 1657 e 1662, respectivamente (infelizmente, até o presente momento não os encontrei para venda ou download), ou seja, a personagem da história acabou despertando mais interesse do que a obra de Rostand em si e, para sanar essa injustiça literária, o próximo parágrafo apresenta alguns dados e curiosidades sobre ele.

Edmond Rostand nasceu em Marselha no ano de 1868, filho do jornalista e poeta Eugène Rostand, ganhando aos 19 anos um prêmio na Academia de Marselha por seu ensaio Dois Romancistas de provence, Honoré d’Urfé e Émile Zola. Embora sua primeira peça teatral tenha fracassado, Edmond persiste e produz uma obra relativamente vasta, composta por peças teatrais e poesia e, embora em sua biografia resumida existam relatos de outras peças marcadas pelo fracasso, o mesmo não se pode dizer da peça Cyrano de Bergerac, que alcançou grande sucesso, contabilizando em 1913 a milésima apresentação. Suas poesias também foram bem acolhidas pela crítica, sendo inclusive um livro de poemas sobre a Primeira Guerra Mundial – Le Vol de la Marseillaise – sua última obra escrita, antes de contrair a gripe espanhola e falecer em 1918. Para quem quiser se aprofundar mais, indico o artigo Literatura, teatro e Cinema em Cyrano de Bergerac: Um diálogo interartístico” que trata da interação entre teatro, literatura e cinema. Outra indicação interessante é o artigo Viagem à Lua: Utopia, viagem imaginária e o mundo de ponta cabeça em Cyrano de Bergerac, onde são explorados os significados literários da viagem à lua. Quem deseja saber um pouco mais, porém não deseja ler um artigo longo, a reportagem da BBC, O homem que imaginou naves espaciais em 1657 também é interessante.

Sobre Edmond Rostand, não encontrei até o momento artigos complementares para compartilhar por aqui, e, numa rápida busca, encontrei seu último livro à venda pela “bagatela” de R$162,72, o que, com todo o respeito, o coloca fora do alcance da maioria dos leitores (ainda mais se considerando a publicação em idioma original, ou seja, francês).

Os livros indicados no #DesafioLiterário2020 #Maio estão neste post , e o primeiro livro lido no mês de Maio está neste post.

Um romance sentimental. Há limites para a criação artística?

Ontem terminei de ler o pior livro que já conheci na vida – quem me conhece sabe que sempre busco algo positivo para falar, não gosto de criticar o trabalho de outros autores e ainda que a leitura não me agrade sempre termino minhas resenhas incentivando a leitura, mas a obra em questão simplesmente não dá! Tudo começou sexta feira quando fui até a biblioteca municipal e peguei um livro aleatoriamente – um livro francês escrito em 2007, relativamente pequeno e com um título fofinho.  Havia um aviso de tratar-se de conteúdo adulto, então imaginei que houvesse trechos mais apimentados, mas ainda assim, há tantos livros deste gênero hoje que não dei muita atenção e levei o dito cujo para casa. Abro parênteses aqui para dizer que tenho 31 anos, não sou fanática por literatura erótica, mas também não me incomodo se for bem escrita, e neste caso específico desejei ver como um autor francês idoso trataria o tema.

Nas primeiras páginas fiquei incomodada: A história relata a vida de um pai e uma filha de 14 anos que mantém uma convivência erótica, onde ele a trata como uma aluna a ser preparada para a escravidão sexual, fazendo-a ler, nua, trechos inteiros de obras pornográficas antigas e a chicoteando como forma de punição e prazer. Torna-se mais bizarro quando o pai/professor a presenteia com uma menina de 13 anos para que ela “brinque a seu bel prazer” numa nova sucessão de cenas eróticas e violentas. O cenário doentio descrito pelo autor vai se aprofundando ao descrever uma sociedade onde é comum a compra e venda de meninas infantas e adolescentes para uso sexual ou todo o tipo de uso que seus senhores desejassem, incluindo mortes dolorosas. O autor descreve todos os meios de tortura de forma detalhada, bem como os efeitos que tais meios causam na vítima e a excitação dos que assistem e participam das sessões – homens que encontram o prazer no estupro e tortura de criancinhas e bebês, e crianças que encontram prazer em torturar e ser torturadas.

Sexo e dominação caminham juntos para alguns casais, mas, diferente do retratado no livro, há uma regra segundo o qual a relação deve obedecer aos princípios “são, seguro e consensual”, ou seja: tudo que os participantes fizerem devem fazer em sã consciência, sem uso de drogas ou bebidas, devem ser práticas seguras e consensuais. O completo oposto do que o autor francês retratou em seu livro. Ademais, crianças e ambientes impregnados de sexo e violência são elementos que não combinam, ainda que num contexto ficcional criado para entreter a mente de adultos.

Questiono o que o autor pretendia ao criar tal infame obra – acaso não pensou nas funestas influências que um texto destes poderia ter no comportamento de pessoas com caráter fraco, maldoso e influenciável? Muito embora eu em geral defenda o direito da livre criação artística, acredito que há alguns limites que o próprio artista deveria se atentar – não o Estado que deve por uma questão de segurança abster-se de exercer a censura – mas o próprio artista e seus editores deveriam pensar nas consequências de suas obras. Na realidade, escrevi esta não-resenha como um desabafo pela péssima experiência literária e também como provocação para dois questionamentos: Em sua opinião, qual é o limite para a criação artística? O Estado deveria intervir nessa criação de alguma forma? E qual o pior livro que você já leu? O que te leva a classificá-lo como péssimo?

As Ilusões Perdidas

Um livro que , respeitadas as mudanças de costumes trazidas pelo decorrer das décadas, mantém-se desconcertantemente atual. O autor, magistralmente, mostra a força da imprensa, que já em seus primórdios parisienses, mostrava-se capaz de alavancar a reputação de obras e pessoas – ainda que estas não merecessem – ou de derrubar tantas outras obras e pessoas que mereceriam a glória almejada. Mostra também as intrigas de uma sociedade aparentemente perfeita. Acaso não vivemos assim hoje? Temos por verdade absoluta o que publicam jornalistas, deixamo-nos levar pela aparente perfeição desta ou daquela família e envolvemo-nos em intrigas que não nos dizem respeito. Acaso ainda hoje o dinheiro não tem sido capaz de comprar opiniões? O capital mostra-se cada vez mais cruel, comprando a honra dos que deveriam dedicar seu tempo a elevar as condições de vida da população? Não causa estranheza notar que já em mil oitocentos e tanto era assim? A humanidade acaso não consegue aprender a lição e despojar-se de supostas e falsas honrarias em busca de uma vida pacífica e igualitária?

Luciano é um anti-herói: Rapaz da província, órfão de pai, mantido pelo esforço da mãe parteira, da irmã engomadeira e do amigo, dono de uma tipografia e inventor, almeja alcançar a glória literária, envolve-se com uma senhora da nobreza, casada e que o toma por protegido levando-o para Paris após o que poderia ser um escândalo. Na capital ele irá vivenciar o abandono, a desilusão, a miséria, a amizade verdadeira, a camaradagem, o amor, o luxo e a humilhação que o levarão de volta a sua terra natal para vivenciar todo o mal que causara à família. Luciano, em Paris, perde suas ilusões de escritor e o pouco de caráter o honra que possuí, e em muitos momentos o leitor chegará a sentir ódio pelo personagem, para em outros, diante dos sofrimentos, torcer por uma reviravolta que o leve a posição almejada.

As personagens femininas merecem um parágrafo à parte: O autor diversifica bastante os detalhes de comportamento das mulheres em sua obra. São em geral mulheres fortes, astuciosas e decididas – seja para jogar em sociedade utilizando peripécias e meios sujos de obterem posição social ou vingança, seja para garantir a sobrevivência da própria família em momentos de apuro.

Balzac consegue traçar uma linha tênue entre vaidade e honra, quebrada algumas vezes, por motivos pessoais e/ou financeiros. Ele retrata uma sociedade moralmente decadente e as dificuldades de manter-se em luta por seus objetivos sem envolver-se em um mar de lama – E acredite, o autor consegue mesmo criar personagens capazes de manter a pureza de princípios em meio a tudo e todos. Além de traçar este retrato de costumes, mostra-se um retrato político da época. É um livro descritivo, cheio de períodos longos, porém não chega a ser cansativo.

Uma curiosidade sobre a obra: No decorrer do livro, surge a interação de personagens de outras obras do autor, o que inicialmente trás certo desconforto, mas depois acaba por despertar o desejo de ler os livros citados. Muito embora seja um dos clássicos da literatura francesa, apresenta um vocabulário acessível, de compreensão tranqüila.  Pesquisei e descobri que não houve adaptação cinematográfica para o livro, o que é ao mesmo tempo um motivo de lástima e de alegria para os amantes da boa literatura.

Sem dúvida, indico a leitura, principalmente se você pretende dedicar-se a literatura, pois perceberá, com o tempo, que o trecho que lhes deixo, é bastante verdadeiro:

“Para fazer obras belas, meu pobre rapaz, terá de, a penadas de tinta, esgotar seu coração de ternura, de seiva,de energia, e ostentar paixões, sentimentos, frases! Sim, escreverá em lugar de agir, cantará em vez de combater, há de amar, há de odiar, há de viver, em seus livros; mas quando tiver reservado suas riquezas para o estilo, seu ouro e sua púrpura para os personagens, tendo de andar em andrajos pelas ruas de Paris, feliz por haver criado, rivalizando com o Registro Civil, um ser chamado Adolpho, Corina, Clarissa, Renato ou Manon, quando houver estragado sua vida e seu estômago para dar vida a esta criação, há de vê-la caluniada, traída, vendida, deportada para as lacunas do olvido pelos jornalistas, sepultada por seus melhores amigos”

Desanimador? Talvez, mas ainda assim, há ainda outro trecho cheio de verdades:

“Quando uma águia cai, quem pode saber em que fundo de precipício se deterá? A queda de um grande homem é sempre proporcional a altura em que chegou”

E de que vale chegar às alturas por meios escusos, acumulando inimigos e devendo favores que não possam ser cumpridos com a consciência limpa? A obtenção da glória e do poder por meios escusos só garante uma grande queda sem rede de proteção rumo ao abismo.

Enfim, leiam, e, se puderem, compartilhem este pequeno artigo para despertar em outros a curiosidade pela leitura! E não esqueçam de deixar um comentário aqui ou na página do facebook dizendo o que acharam do livro!