Desafio Cinetoscópio dos 30 Filmes #1

O blog Mire na Lua começou há tempos uma série de postagens bem interessante. Trata-se de um desafio proposto pelo site Cinetoscópio, o Desafio Cinetoscópio dos 30 filmes. Gostei tanto que decidi fazer as postagens aqui também! Já adianto que sou péssima em manter uma regularidade nestas coisas então não vou dizer que farei postagens diárias, mensais ou semanais, apenas farei as postagens com no mínimo uma semana de intervalo entre uma e outra… Vamos lá?

#1 – Um filme que te fez chorar

O diário roubado

Filme talvez pouco popular, o diário roubado estreou em 1992 e se baseia no livro homônimo escrito por Règine Deforges. Mais do que falar sobre um grande amor adolescente, o filme retrata este amor em uma cidade pequena no interior da França logo após o término da segunda guerra mundial. Anne e Virginie são personagens doces e cativantes. São jovens e estão ainda descobrindo os segredos do amor no seio de uma sociedade moralista e rígida. O filme é tocante e faz os olhos se encherem de lágrimas em várias passagens, e no final do filme, bem, melhor separar algumas caixinhas de lenços de papel. A trilha sonora é suave e profundamente melancólica em alguns trechos e a linguagem utilizada nos diálogos é poética.

Neste link é possível assistir o filme, porém a qualidade de imagem não é das melhores, portanto, quem tiver oportunidade de procurar em outras fontes poderá ter acesso a uma melhor qualidade de vídeo. Se acaso alguém já leu o livro, notará algumas diferenças durante a história.

Uma observação importante: Se você não gosta de histórias de amor homoafetivas este filme infelizmente não lhe irá agradar.

 

Capítulo 21

Abraçaram-se, mudas em seu espanto… Ambas tinham lágrimas nos olhos, lágrimas retidas durante quase 20 anos. Naquele momento, era como se mais nada existisse. Valeska teria que ficar no colégio, em reunião com os outros professores. As férias se aproximavam, havia muito que planejar provas avaliações, mas nada mais importava para Valeska. Simplesmente, ela decidiu deixar tudo aquilo para trás, ao menos por algumas horas. Foi até a secretaria, disse que estava com uma forte dor de cabeça e iria embora com Marjorie, pois não estava em condições de dirigir.
Já no carro, ambas não tinham palavras. O que dizer?Como dizer?
Pararam em frente à praia. O frio de junho e o fato de ser segunda-feira faziam com que estivesse deserta. Caminharam, ainda sem palavras…
-Porque você me deixou?
-Não consegui acostumar com a idéia de que você havia me traído com Melissa, nem com aquela noite, na barraca.
-Você não imagina o que é a minha vida sem você. A dor que me sufoca pouco a pouco a cada dia, que aos poucos vai me consumindo.
Valeska chora, como uma criança indefesa perdida numa noite escura e silenciosa. Marjorie a toma nos braços.
-Isso Marjorie, me abraça, me abraça forte e promete que nunca mais vai me deixar novamente.
-Você sabe que nunca mais ficaremos juntas.
-Por favor… Não me diz isso… Por favor…
-Valeska, eu sou uma mulher casada, tenho uma filha linda, um marido que me ama.
-Você o ama?
-Aprendi a gostar dele, a respeitá-lo. Você acha que minha vida sem você foi fácil? Você continuou em sua casa, cercada pela sua família, nossos amigos, nosso mundo. Eu morei um ano com meus tios, e eles se mudaram para a Argentina, tive que optar entre voltar e enfrentar minha vida perto de você, mas sem tê-la, ou ficar aqui, sozinha e passo a passo, construir uma vida só minha.
Silêncio. As lágrimas a impedem de continuar…
-Aluguei um quarto, pequeno, comecei um curso técnico, pois meus pais recusaram-se a pagar minha faculdade se eu decidisse viver longe deles, fui trabalhar em um bingo. Lá, conheci Christopher. Éramos amigos, ele, de alguma maneira, sabia que eu não estava bem, que havia algo em minha vida que me machucava. Nunca vou me esquecer uma noite, em que eu estava me sentindo especialmente solitária. Já era madrugada, e eu resolvi caminhar até aquelas pedras ali na frente, mesmo sabendo o perigo que corria, sozinha na praia àquela hora. Sentei ali e chorei. Foi quando vi um homem se aproximar me assustei, mas,naquele momento,desejei que ele me tirasse a vida, pois estaria tirando o que eu já não tinha. Mas ele não tirou minha vida, ele não se aproximou para me machucar. Era Christopher, que também se sentia solitário em casa e havia saído para caminhar. Ele me viu ali, nas pedras, e foi conversar comigo. Até então, eu não havia contado nossa história para ninguém. Eu contei tudo a ele. Ele me confortou me levou para sua casa. Passamos um fim de semana juntos, apenas amigos, em nenhum momento ele se aproveitou da minha fragilidade.

Novamente, a emoção a impede de continuar por alguns segundos.
-Após esse final de semana, passamos muitos outros juntos… Conheci a ex-esposa dele, a filha, Diana. Nos demos tão bem. Ele me pediu em casamento, demorei algum tempo, mas acabei aceitando viver com ele, mas sem me entregar como mulher, apenas amigos debaixo do mesmo teto.
-Por alguns anos, ele suportou essa situação cruel, e teria aceitado mais e mais tempo, apenas para estar ao meu lado. Até que eu me entreguei, meu corpo necessitava ser dominado por alguém, receber e dar prazer. Após um tempo, engravidei. Anne Camille nasceu para iluminar a nossa vida. Até hoje, ele sabe que eu não o amo, não como esposa. Ele sabe que meu grande amor é você.
-Marjorie…
-Não diz nada… Não posso deixar minha família para voltar aos teus braços.
Simplesmente vai embora, deixando Valeska ali, sozinha e chorando.
Pensava em quanto Marjorie havia sofrido, pensava no amor puro e desinteressado de Christopher, na doçura de Anne. Como o tempo pôde passar assim tão rápido, e elas haviam ficado paradas, presas nele, presas em um amor que não voltaria nunca mais. Ou, voltaria mais não nessa vida. O amor é eterno, ele sempre volta, sempre, não importa quando, mas sabemos que ele volta. Sabemos que a espera nos sufoca, nos tira a vida aos poucos, sabemos que, a cada momento que se passa, nosso coração se desfaz mais e mais, e que não podemos fazer nada para evitar isso.
Anne não estava em casa, havia saído com Christopher, ido ao cinema.
Marjorie pôde ficar um tempo sozinha, pensar. A vida havia novamente colocado Valeska em seu caminho. O que fazer? Não podia abandonar Christopher, ele havia dedicado a vida a ela e Anne. Mas doía muito abrir mão de Valeska mais uma vez, sabia que, se a recusasse agora, seria para sempre.
Ligou o rádio, começou a tocar uma música muito antiga, que não era mais sucesso no tempo de sua adolescência, mas que mesmo assim, havia marcado muitos momentos com Valeska. Como era mesmo o nome daquela música? Esquecera-se, o ritmo estava em seu coração, mas o nome.
Ouviu a porta da cozinha abrir. Christopher chegava sozinho. Anne havia encontrado uma amiga no shopping e ia ficar algumas horas na casa dela, depois ele iria buscá-la.
Naquele momento, Marjorie sentiu-se aliviada pela ausência de Anne. Assim teria privacidade para conversar com Christopher.
A notícia de que Valeska, a professora de Anne era a mesma pessoa que sempre havia sido o grande amor da vida de Marjorie deixou Christopher muito abalado. Marjorie jurou que não voltaria nunca mais para os braços de Valeska, apesar de saber que ela ainda a amava, e muito. Chorava
Christopher tomou-a nos braços:
-Marjorie, eu jurei a mim mesmo, que faria tudo para ver você feliz, mesmo que isso significasse entregá-la nos braços de Valeska, se um dia ela voltasse para a sua vida.
-Christopher, eu sou feliz ao teu lado, temos uma família… Um lar…
-Um lar baseado na amizade, no respeito, em um tipo de amor que não cabe em um casamento. Eu te amo mais do que qualquer outra coisa nesse mundo, quero que você seja feliz, não importa o que aconteça, sempre vou amá-la.
Essas palavras de Christopher fizeram Marjorie chorar ainda mais. Não sabia mais o que pensar, como agir.
Ela e Valeska encontraram-se mais algumas vezes. Conversavam muito, não podiam simplesmente começar do ponto em que haviam parado muita coisa havia mudado desde então.
Os dias passavam-se rapidamente, logo chegariam as férias. Anne viajaria com algumas amigas na primeira semana, e Marjorie havia decidido ir à São Paulo, pela primeira vez em tantos anos teria coragem para retornar e rever sua família. A decisão mais importante, porém, ainda estava por ser tomada, separar-se-ia de Christopher para viver com Valeska, ou continuaria a sua vida, a vida que havia construído ao lado de seu marido, sua filha. Não sabia sequer como Anne reagiria a uma separação, muito menos, qual seria sua reação se,além de separar-se,Marjorie decidisse morar com Valeska.
Luana começava a sentir falta da companhia de Anne, dos segredos divididos, sua companhia nas noites solitárias,quando dormiam juntas,mãos dadas debaixo do cobertor. Porém, não aceitava, não entendia aquele sentimento, aquela paixão que Anne nutria por ela. Aos poucos, percebia que começava ela mesma a sentir desejo pela amiga. Um dia, decidiu chegar cedo ao colégio, agora estudava à tarde, mas disse que precisava fazer uma revisão na biblioteca, por isso ficaria a manhã toda lá. Foi bem antes do horário de entrada dos alunos e esperou até que Anne aparecesse, então, chamou-a para irem juntas a uma lanchonete próxima, fora do colégio. Anne não costumava cabular aulas, mas conversar com Luana, após tanto tempo, pareceu-lhe um bom motivo. Ambas sentiam-se tímidas, mas podia-se perceber que se desejavam mais do que qualquer coisa. Havia uma química forte no ar. Luana havia transado com Rodolfo dias após aquele episódio no colégio, mas sua primeira noite havia sido um fracasso. Depois da primeira, houve outras, melhores, muito melhores, isso fazia Luana ter certeza de que não era lésbica. Mas, como explicar o desejo que nascia de ir para a cama com Anne? Seria então bissexual? Estaria condenada a uma existência dupla, pulando sempre dos braços de um homem para os braços de uma mulher? Ou esse desejo seria apenas uma fase, uma curiosidade?
Luana, mais desinibida, foi logo ao ponto:
-Anne, te esperei no colégio hoje, porque decidi que quero dormir com você.
-Eu sabia que um dia, ficaríamos juntas. Sabia que um dia, você me amaria como eu te amo.
-Quem falou em amor? Quero apenas dormir com você, uma noite. Se me agradar, dormiremos outras vezes. Sem compromissos,eu e Rodolfo estamos namorando,fazemos sexo. Apesar disso, tenho vontade de ir para a cama com você. Apenas para ver como é com outra garota.
Anne não agüentou ouvir mais nada, levantou-se, deixando Luana sozinha na lanchonete. Não queria ir ao colégio, mas não poderia voltar para casa. Andou a esmo pela cidade, até o horário em que deveria “sair da escola e ir para casa”
Já no conforto de seu quarto, pensa na proposta de Luana. Apesar de humilhante, era tentadora. Teria sua primeira vez com seu grande amor. E, talvez outras vezes mais. Doía pensar que não seria amor da parte de ambas, mas, o que teria a perder? O toque do celular veio tirá-la de seus pensamentos. Número restrito. Atendeu.
-Então, Anne, já pensou melhor em minha proposta?
-Estava pensando nisso agora, Luana.
-Então?
-Proposta tentadora, mas quero que minha primeira vez seja com alguém que corresponda ao meu amor, entende?
-Bom. Se faz assim tanta questão. Sinto muito. Terei que procurar outra. Acho até que será melhor. Encontrarei alguém mais experiente, que saiba me levar ao céu… Ver estrelas…
Luana provocava Anne descaradamente.
-Meus pais sairão amanhã para trabalhar, às 14h30min, como sempre. Passarei a tarde toda sozinha. Se for sexo que quer, será isso que terá Luana.
-Perfeito.
Anne passou o resto do dia na internet, vendo sites pornográficos e lendo textos eróticos, podia ser sua primeira vez, mas seria perfeita. Luana queria sexo?Era exatamente isso que teria. Correu ao shopping, precisava comprar algumas coisas, para o dia seguinte.

O porteiro havia interfonado, Luana estava subindo. Anne deixou a porta entreaberta. Luana foi entrando. Havia um bilhete sobre a mesa de centro da sala:
“Luana, feche a porta, e venha direto para o meu quarto. Estou te esperando.”
A porta do quarto também estava entreaberta. A cama trazia um lençol de cetim vermelho. Aparentemente, o aposento estava deserto. Luana sentou-se na cama. Nesse momento, uma música começa a tocar. Música eletrônica, perfeito para um encontro quente e nada romântico. A porta do guarda-roupa se abre, Anne salta para o meio do quarto, vestia um espartilho, cinta-liga, meias transparentes que iam quase à altura do meio das coxas e bota de cano alto e salto fino, todas as peças eram negras e transparentes. Empurra Luana na cama, e começa a dançar, provocando-a, mas sem deixar-se tocar, puxa-a da cama, jogando-a no chão, com os pés, faz com que se deite sobre o tapete. Dança por cima dela, agacha-se, esfregando-se em seu corpo, usa um par de algemas para atá-la ao pé da cama, e com um chicote, vai percorrendo-lhe o corpo. Começa então a acariciá-la com a língua, sem beijá-la. Apenas passeando, descobrindo onde causa prazer mais intensamente. Quando a sente extremamente excitada, faz com que se levante e suba na cama. Amarra-a novamente, e, no ritmo da música, começa a fazer um strip-tease. Vai para a cama e sem desamarrá-la a possui. Luana pede que Anne a deixe desvirginá-la, mas Anne nega. Isso, apenas alguém que a ame poderá fazer. Anne não se deixa possuir nenhuma vez, ela domina durante todo o tempo. Usa uma venda nos olhos de Luana, esta, deve dar-lhe prazer, com as mãos amarradas, usando apenas a boca.

Luana sai de lá exausta. Pede para marcarem outro dia. Doce ilusão, Anne e Luana nunca mais iriam se ver, não dessa forma. A decepção de Anne fora tão grande ao ouvir aquela proposta de sexo casual, que ela havia planejado uma tarde que marcasse para sempre a vida de Luana, mas seria apenas uma tarde. Apenas para deixar-lhe o desejo desperto,à flor da pele.
As férias chegaram, Anne e as amigas viajam.
Em São Paulo, Marjorie encontrou sua casa praticamente igual ao que era, quando ela se mudou. Seus pais estavam envelhecidos. Não queriam recebê-la, mas a saudade da única filha foi maior. Seu quarto… Tudo estava no mesmo lugar… Marjorie contou-lhes que tinha uma filha, uma linda menina de quatorze anos… Não havia trazido-a junto, pois não sabia como seria estar em casa outra vez, mas prometeu que na próxima visita, ela viria… Sempre quisera conhecer os avós.

Valeska telefonava todos os dias, aos poucos, ia fazendo-se presente em sua vida novamente… E, Christopher,ia pouco a pouco se afastando,deixando o caminho livre… Sabia que havia sido o homem mais feliz ao lado de Marjorie, mas sabia que, apenas ao lado de Valeska, esta poderia encontrar a paz de um Amor verdadeiro e correspondido. Ele havia prometido a si mesmo que a faria feliz, e, agora isso significava entregá-la novamente ao seu grande Amor.
Em Setembro, Christopher e Marjorie separaram-se, não sem lágrimas, mas com respeito, com o amor de uma amizade verdadeira… Como dois irmãos adultos e solteiros que moram juntos, e, após uma vida toda em comum, decidem seguir seus próprios caminhos… Apenas lágrimas de saudade, a sensação estranha de chegar ao lar e não encontrar o outro.
Marjorie alugou um apartamento de dois quartos no prédio ao lado. Anne teria a liberdade de permanecer o tempo que quisesse com um ou com outro. Não foi difícil para ela a separação dos pais… Tantas amigas haviam passado por isso… Por que seria uma exceção?
Marjorie e Valeska decidiram permanecer mais um tempo apenas namorando,sem que Anne soubesse,iriam devagar.
Em Outubro, Marjorie descobre que está novamente grávida. Christopher fica feliz ao saber que será pai novamente, para Valeska e Marjorie, essa é a oportunidade de terem juntas o bebê que tanto haviam planejado. Apesar da idade, a gravidez de Marjorie foi tranqüila. Em 25 de Julho, nasce uma menina, a quem chamam Victoria.
Anne decide viver com Christopher, para não ter que dividir o quarto com a nova irmã. Mas isso não a impede de passar o dia todo na casa de sua mãe, quer apenas sua privacidade, para receber garotas em seu quarto, o que seria impossível dormindo no mesmo quarto que Victória.

Desde o início da gravidez de Marjorie, Valeska praticamente havia se mudado para lá, queria acompanhá-la, estar por perto. Anne aos poucos notava isso. Não comentava nada com a mãe, ou com Valeska, apenas observava.
Havia conhecido uma garota e estava namorando. Decidiu apresentá-la aos pais, em um jantar formal, à luz de velas, que preparou na casa de Marjorie. Todos gostaram muito de Liane, que apesar do visual de roqueira rebelde, era uma menina gentil e sensível.
Após o jantar, levaram-na para casa. Marjorie e Valeska decidiram então contar a verdade sobre elas, tudo, desde o início. Já não agüentavam mais dormirem separadas todas as vezes que Anne decidia passar a noite na casa da mãe.
Ficaram surpresas quando Anne disse que, desde o divórcio, sabia que havia entre elas algo mais do que uma simples amizade. Não imaginava que a história fosse assim, tão longa. Mas, estava feliz, por ter agora duas mães: Marjorie e Valeska.
Ao final de tantos anos, agora podiam todos considerar-se uma família feliz. Muitas vezes, Melissa e Gabi, Marjorie e Valeska encontravam-se para levar seus filhos à praia. Diana ficou surpresa ao reencontrar Melissa, após saber toda a história de Marjorie, e, constatar que haviam sido amigas durante algum tempo e, Marjorie nunca as havia encontrado.
Três anos após a separação, Christopher conheceu Sofia, nova vendedora de cartelas do Bingo Sete Mares. Tal como aconteceu com Marjorie, amou-a logo que a viu. Sofia tinha o coração livre, até conhecê-lo. Em seis meses estavam casados.Anne agora tinha três mães.
Luana e Rodolfo continuam namorando, mas às vezes… Bom, Rodolfo ganha alguns enfeites dos quais não pode se orgulhar muito, pois Luana o trai com sua prima, Luciana.
Fim da história?
Não… A vida continua… Vidas que geram novas vidas, novos sentimentos… O amor atravessa o tempo… Esse ciclo está se fechando, de maneira feliz, para que outro se inicie… Nenhuma estória de amor tem um final definitivo… Mesmo após a morte, a vida sempre continua, e o sentimento permanece, para sempre….

Caderno de notas de Valeska
 
(Carta escrita quando nos reencontramos… essa, eu vou te entregar… juntamente com uma única rosa vermelha… será a primeira, de muitas e muitas cartas e poemas, que farei para vê-la sorrir… para que saiba que sempre a amei, e sempre a amarei…)
 
“Hoje, olhava tuas fotos, para matar as saudades…
Tantas coisas passavam-se em minha mente…
Nossos momentos… Suas carícias… Juras de Amor…
Queria ser poeta para brincando com as palavras poder dizer tudo que sinto por você…
Mas simples palavras não seriam capazes de descrever o Amor, por que nosso amor é indescritível… Ele é simplesmente Amor… está além das palavras…
Talvez um dia, as fadas estivessem muito felizes… Inspiradas resolveram criar a pessoa mais doce do universo… Juntaram o brilho das estrelas, a doçura do mel, a suavidade de uma brisa num dia de verão, a delicadeza das rosas, a alegria dos pássaros e a Magia do Amor… Com tudo isso criaram… Você!
Os anos foram se passando… Até que um dia, elas te colocaram na minha vida, para despertar em mim esse maravilhoso dom de Amar incondicionalmente… e assim aconteceu.
Ficamos distantes durante algum tempo, talvez ainda tivéssemos barreiras a ultrapassar, obstáculos a superar, lições para aprender…
Até que numa tarde,quando menos esperávamos,nos reencontramos, marcando também o início de uma nova vida em nossos corações que tanto tempo esperavam um pelo outro…
Agradeço a cada dia aos Deuses e aos seus Pequeninos Seres Invisíveis por terem te colocado na minha vida…
Gostaria de estar em seus braços agora… Enchendo-te de carinho, de beijos…
A cada momento do dia, sinto sua energia, sinto a Energia do nosso Amor ligando nossos corações…
Muitos beijos,
Com Amor e muitas saudades…
Amo-Te!

Fim… Ou,um novo recomeço…

Capítulo 13

Final de ano…
A família de Valeska como sempre, vai passar as férias no sítio e Melissa fica na casa dos pais.
Valeska combina de ir à sorveteria com Gabi e a namorada dela. Surpreende-se quando vê que a amiga perdeu todo o jeito de criança. Tornou-se uma mulher linda e sedutora. Está feliz, pois seus pais descobriram sobre seu namoro e a apoiaram.  As três passam uma tarde animada.
Melissa havia ido passear na cidade, visitar seus primos. Ela vê Gabi com a namorada e Valeska. Como ela está linda! Pela primeira vez, ela tem vontade de voltar para a fazenda, para a pequena cidade, tem vontade de pedir a Gabi que fique em seus braços para sempre. Mas sabe que é impossível, seus pais não a aceitariam morando novamente com eles, e, se aceitassem, jamais deixariam Gabi passar a noite com ela.
Pela primeira vez, as férias de Melissa não foram compostas apenas por sorrisos. Ela passou muito tempo solitária, pensando em tudo o que havia feito. Pela primeira vez, se dá conta do mal que causou à Valeska e Marjorie, percebe o quanto fez Gabi sofrer, todas as vezes que esta lhe dizia “eu te amo!” e ela friamente respondia que deveriam deixar o Amor de lado, pois ele não passava de um sonho no qual apenas os trouxas acreditavam.
Marjorie passa a noite de Natal com Christopher, Diana e Martha. Não se sente mais tão solitária, pois se sente amada por Christopher. Não conversaram mais sobre aquela proposta de casamento.
No ano-novo quando ela está na praia com Christopher, encontra seus pais. Eles não haviam avisado que iriam passar a noite da virada de ano em Santos.
Marjorie chora muito, explica que sente muita saudade deles, mas não pode voltar. Não consegue encontrar um motivo para recusar-se a retornar para a casa de seus pais, por um momento, pensa em contar a eles toda a verdade sobre Valeska, mas sabe que isso os faria sofrer muito, seus pais são conservadores ao extremo, chegam a ser homofóbicos, nunca a aceitariam.
Durante toda a noite, Marjorie pensa sobre sua vida, tudo o que tem passado, sobre a solidão, a vontade de ter companhia. Quando se despede dos pais, já na madrugada do dia 1° de Janeiro, diz novamente que não poderia mais voltar para a casa, motivo? No próximo mês iria se casar com Christopher.
No carro, Marjorie pede desculpas a Christopher, por ter falado que eles iriam se casar, Christopher diz que não há problemas, ele entende a situação dela.
-Mas, se você quiser casar-se comigo de verdade. Eu seria o homem mais feliz desse mundo.
-Christopher, você sabe que eu te amo, mas apenas como um amigo querido. Não conseguiria entregar-me a você.
-Marjorie, eu te amo, se você decidir casar-se comigo sob a condição de eu nunca tocá-la, eu aceitaria. Gostaria apenas de ter a sua companhia a cada amanhecer, quero cuidar de você, quero apenas o seu carinho. Sei que seu coração é de Valeska, sei também que será sempre assim. Se você me aceitar como esposo, não estará me enganando.

Marjorie está deslumbrante, seu vestido branco assemelha-se a uma túnica. Os cabelos estão presos em um delicado coque, com muitos fios soltos e algumas flores.
Christopher e Marjorie não podem casar-se na Igreja, pois Christopher é divorciado. Contratam um Buffet, um local não muito badalado, mas nem por isso pouco elegante e fazem uma pequena festa, apenas para comemorar a união ao lado dos amigos mais chegados e da família de Christopher. Os pais de Marjorie recusaram-se a assistir a união da filha a um homem divorciado e muito mais velho que ela.
A festa é simplesmente perfeita: Os noivos entram no salão ao som de My heart Will go on, música tema do filme Titanic. Choram, emocionados ao trocarem suas juras de amor e respeito, mesmo sabendo que são válidas apenas as juras de respeito, pois entre eles não é segredo que o coração de Marjorie pertence à Valeska.
O mais novo casal do Bingo Sete Mares não viajou em Lua-de-mel, apenas passaram um animado fim de semana de folga, sem sair da cidade. Como havia prometido Christopher não tenta se aproximar de Marjorie mais do que as circunstâncias de amizade permitiriam. O contato mais íntimo entre eles fora um selinho, dado na festa de casamento.

Valeska ficou sabendo através de uma amiga sobre o casamento de Marjorie e sente que desta vez, perdeu para sempre o amor da sua vida.
Melissa tenta consolar a amiga, mas é tratada friamente, tenta abrir-se com Valeska, não consegue entender por que sente tanta saudade da sua antiga vida na fazenda, por que não consegue parar de pensar em Gabi. Pela primeira vez, está sentindo alguma coisa forte e pura por alguém, mas não consegue entender o que.

Caderno de notas de Valeska.

“Hoje enterro para sempre meu coração… Não, eu não enterro meu coração, meu coração não morreu, porém a dor de perdê-la é quase insuportável.  Por que devo eu permanecer neste mundo, que sem você não tem valor, não tem razão de ser? O que me prende a esta vida vazia, se hoje descobri que tu uniste para sempre tua vida a outro alguém?
Agora, outros olhos te aquecem, outros lábios te beijam, outras mãos te tocam. Agora, não são mais as minhas mãos que seguras quando o medo te invade, ou quando a alegria faz teu olhar soltar estrelas.
Não é nos meus olhos que encontras Amor. Marjorie… Meu coração repete seu nome, mas o seu não mais escuta meus chamados.
Gostaria de arrancar meu coração do peito, e sepultá-lo em meio a essa escuridão que domina minha vida desde que você se foi. No entanto, enquanto eu souber que você vive, mesmo sem esperanças de voltar a tê-la em meus braços, viverei também, com a alma partida em mil pedaços, e o sangue do meu Amor pingando em minhas lágrimas, mais eu viverei. Pois apesar de tudo, você ainda é, e sempre será a minha Vida!”

Valeska decide ir incluindo em seu caderno de notas alguns dos poemas que fez para Marjorie antes de começarem a namorar e também durante o namoro… Sempre trocavam cartinhas, bilhetes…

“Amor,
Palavra profunda,
Amar é querer bem a alguém,
É querer esse alguém sempre perto…
É querer ser Feliz,
E querer mais ainda fazer feliz o ser amado
Amor
Sentimento difícil de disfarçar,
Você,
Fez o amor tocar meu coração
Numa nuvem de Paixão”
Amo-Te mais e mais a cada momento…

Em julho seus pais e Melissa foram para a fazenda. Valeska decidiu ficar em São Paulo, pois tinha a esperança de que Marjorie viesse passar as férias com a família, apesar de agora ser uma senhora casada.
Melissa divertiu-se muito, seus dias só não foram melhores porque lhe faltava algo muito importante: a companhia de Gabi.Algumas vezes chegou a ver a amada na cidade, cercada de amigos e sempre ao lado da namorada. Não tinha coragem de ir falar com ela.
Em São Paulo, Valeska experimentava a solidão total, os dias foram passando, e com eles a esperança de ver Marjorie.
Marjorie e Christopher que não estavam em férias, aproveitavam cada momento juntos e quem os visse jamais imaginaria que seu relacionamento não ia além de uma amizade pura e profunda.
Aos poucos a vida ia tomando seu rumo. O tempo encarregava-se não de apagar a dor, mais de amenizá-la. Marjorie não era feliz, mas também não era mais aquela garota infeliz. Sentia-se amada por Christopher, seu amigo e marido. Tinha uma enteada que a amava, amigos. Havia conseguido terminar o curso técnico e pensava em deixar o Bingo para procurar outro emprego, onde pudesse atuar em sua área de formação. Mas tudo isso eram apenas planos. Até o fim do ano, continuaria no Sete Mares.

Melissa pede que seus pais a deixem voltar para a casa, mas recebe uma resposta negativa, seu lugar agora é São Paulo. Aos poucos, ela vai se reaproximando de Valeska, que já não consegue mais manter-se isolada como antes. Após saber que Marjorie casou-se, Valeska começa a tentar sair com os amigos da faculdade. Às vezes leva Melissa junto com eles, mas a situação parece ter-se invertido, e agora é Melissa que não quer mais sair. Ironicamente, Valeska começa a se preocupar com a amiga, percebe que ela está sofrendo, pois finalmente sentiu o Amor alojar-se em seu coração mas ela sabe que não pode fazer nada por Melissa, da mesma forma que Melissa não pode fazer nada por ela. Os meses passam lentamente, a rotina das três garotas continua a mesma. É como se nada mudasse, a vida para elas é um drama em câmera lenta e em meio às lágrimas elas tentam buscar um pequeno motivo para sorrir.

Caderno de notas de Valeska:

“Procura-se:
Procuro a qualquer preço a felicidade…
Mas a felicidade não tem preço…
Procuro-a na luz do teu olhar…
Teu olhar está distante do meu…
Procuro-a nas batidas do seu coração…
Na sua pele…
Sei que esses são os únicos lugares onde a encontro…
Mas você está tão distante…
E eu continuo a procurar…
Não a procuro em corpos estranhos…
Sei que não vou encontrar…
Procuro-a em meu coração…
Só a encontro quando me lembro de você…
Quando lembro nossos momentos,
Momentos felizes…
Momentos breves, se comparados ao tempo eterno de uma existência…
Ao lembrar, uma lágrima rola dos meus olhos…
Lágrima solitária… Saudades de você…
Esperança de um dia voltar a estar ao teu lado…
Enquanto isso…
Não preciso mais procurar minha felicidade…
Sempre soube onde encontrá-la:
Em você!
Minha alma não se separa da sua,
Mesmo distante…
Estou perto de você a cada segundo que se passa…
Feche os olhos… Sinta meu coração bater junto ao teu…
Meu coração apenas bate esperando por ti…
E um dia,
Talvez distante,
Talvez perdido nessa escuridão,
Nesse mundo nebuloso que é minha vida sem você…
Ocorrerá um mágico momento…
E nossas vidas se unirão novamente…
Desta vez para sempre…
Nesse dia,
Não mais buscarei a felicidade em algumas lembranças…
Nesse dia, voltarei a sorrir…
O mundo será mais colorido,
As flores mais perfumadas…
As palavras mais doces…
As canções mais suaves…
Nesse dia,
Voltarei aos teus braços…
Nesse dia a felicidade que eu tanto procurei
Virá ao nosso encontro…
E irá nos saudar…
E nos carregará nos braços…
E nos levará ao céu,
Sem precisarmos para isso deixar a Terra…
Até lá.
Resta esperar…
Resta buscar a felicidade em cada pequena lembrança…
Chorar de saudades,
E saber que,
No final de tudo…
Estarei novamente feliz,
Em seus braços…

Amo-Te!”

Capítulo 11

Durante todo o mês de Julho, Valeska não teve a oportunidade de ver Gabi nenhuma vez. A amiga estava muito “ocupada aprendendo a ser feliz com alguém que não amava, mas que a amava acima de tudo.Continuaram se correspondendo quando Valeska voltou para a capital. Gabi ainda tinha muitas dúvidas, não queria magoar sua namorada pois gostava muito dela, mas também não queria se magoar, pois tinha consciência de que Melissa só havia ficado com ela por não ter outra pessoa ao seu alcance.
Em São Paulo, Melissa começa o segundo ano do Ensino Médio. Termina o namoro com Luciana, fica sozinha por um tempo, tentando convencer Valeska de que elas poderiam ter um romance secreto sem que ninguém soubesse e sem compromisso. Vendo que não tem mesmo nenhuma chance, aceita namorar um rapaz, seu colega no colégio.
Os pais de Valeska ficam sem entender nada afinal, trouxeram Melissa com eles para dar-lhe a liberdade de viver sua vida como ela quisesse, desde que não fizesse nada que prejudicasse sua formação, sabiam que ela era lésbica, então, por que ela estava se entregando a um rapaz?Pensam mesmo em mandá-la de volta aos pais, mas ao verem a alegria dela quando está com os amigos, ficam com pena e resolvem mantê-la com eles.
Um dia pela manhã o telefone de Marjorie toca. Ela não está esperando nenhuma ligação, mas atende mesmo assim:
-Alô.
-Alô, por favor, eu gostaria de falar com a Srta. Marjorie.
-Pois não.
-Bom dia Marjorie, meu nome é Christopher, sou supervisor do Bingo Sete Mares, onde você deixou um currículo alguns dias atrás. Você ainda está interessada em trabalhar conosco?
-Estou.
-Poderia comparecer aqui hoje, às 16h00min para uma entrevista?
-Com muito prazer!
-Então, até à tarde.
-Obrigada.
-Por nada.

Às 15h40min, Marjorie já está no Sete Mares. Está muito nervosa, pois vai ser entrevistada por Christopher que ao telefone pareceu-lhe muito severo.
Quando chega a sua vez, nervosa, Marjorie treme muito mas ao entrar na sala, depara-se com um rapaz, na faixa dos 30 anos, muito simpático e tranqüilo. Ele a convida para sentar-se, pede que sirvam um suco de laranja e começam a conversar:
-Boa tarde Marjorie
-Boa tarde, Sr.Christopher.
-Por favor, Christopher.
-Desculpe.
-Não há de que. Bom, como você pode perceber, eu não mordo, então, comece a falar.
-Falar sobre?
-Bom você deseja trabalhar conosco, eu gostaria de saber mais sobre você.
-Atualmente eu trabalho na loja Fashion Still, no shopping Miramar, estudo à noite na E.T.E.C D.Escolástica Rosa,onde estou cursando o segundo semestre no curso Técnico em Informática.
-Marjorie, não quero saber apenas a sua vida, digamos,profissional. Quero saber sobre você. Gosto de conhecer muito profundamente as pessoas que trabalham comigo e como você vai começar amanhã, se puder, gostaria de saber mais sobre a sua vida…
-Como assim, começar amanhã?Isso quer dizer que estou contratada?
-Se você ainda quiser trabalhar com a nossa equipe, e puder se adaptar aos nossos horários e ao salário… Sim, você está contratada.
Marjorie não sabia o que dizer… Precisaria ainda de uns quinze dias antes de poder assumir seu novo posto, pois ainda era contratada na Fashion Still. Christopher deu-lhe um mês de prazo, para que pudesse resolver tudo o que precisasse ser resolvido.
Marjorie começa a trabalhar no caixa do Vídeo Bingo, das 08h00min às 17h00min.
No Bingo faz muitos amigos e amigas, que a convidam para sair, ir à praia. Ela sempre recusa os convites e, aos poucos, os colegas desistem de chamá-la para qualquer programa.
Apenas Christopher a chama para conversar em sua sala após o horário de expediente dela aos fins de semana, pois durante a semana ela sempre tem que sair apressada para não perder as aulas.
O tempo vai passando, Marjorie e Christopher estão cada vez mais amigos, mas mesmo assim Marjorie desconversa quando ele pergunta sobre sua vida sentimental ou o motivo que leva uma garota de apenas 18 anos morar sozinha, longe da família, numa cidade estranha.
Christopher tem 34 anos, não pode ser considerado um galã, tem estatura e peso médios, pele morena e olhos cor-de-mel de um olhar penetrante e seguro, talvez por isso, faça tanto sucesso com as mulheres. Ele sabe chegar,seduzir apenas com as palavras e alguns gestos simples,como um telefonema apenas para dizer bom-dia,ou uma rosa deixada com um bilhete na portaria do prédio.
Já fora casado duas vezes. Separou-se, pois após algum tempo de união a convivência fazia com que a magia do relacionamento fosse acabando.
Do seu primeiro casamento tem uma filha, Diana, que nasceu quando ele ainda estava com 18 anos.
Christopher e Martha se casaram por que ela estava grávida, por isso não curtiram como deveriam o matrimônio, nem os primeiros anos de vida de sua filha. Separaram-se cinco anos após a união. Christopher procura ser um pai presente: Passa os fins de semana com a filha, vão juntos ao cinema, passeiam, conversam.
Quando se casou pela segunda vez, imaginou que seria para o resto de sua vida. Ele estava com 28 anos, casou-se por que gostava muito da namorada e queria tê-la sempre ao seu lado. Viveram felizes por três anos, mas infelizmente brigavam muito, Letícia era muito ciumenta, não o deixava ter amigos, e ele, trabalhando com o público, pois na época ainda era atendente do vídeo bingo, era conhecido, várias vezes encontrava clientes nos barzinhos aonde ia com a esposa. Ela também não gostava de vê-lo tão unido à Diana, acreditava que essa união fosse apenas uma desculpa para rever Martha.
Após terminar esse segundo casamento, Christopher entrou em uma fase de apenas “aproveitar o que viesse”, era um verdadeiro D.Juan, mas sempre respeitou as mulheres com quem ficava, deixando bem claro que seria um relacionamento breve, sem muito envolvimento da parte dele, seriam apenas amigos que se amam e fazem sexo casualmente.Porém algo mudou na sua vida, quando entrevistou Marjorie. Ele não conseguia entender, mas alguma coisa prendia-o a ela, fazia com que ele quisesse estar sempre perto. Ele sabia que Marjorie escondia alguma coisa dele, mas não conseguia entender o que. Aquele olhar guardava muitas marcas, marcas profundas que tocavam seu coração.

Capítulo 10

As primeiras semanas de Melissa em São Paulo foram tranqüilas, ela já estava com dezesseis anos, e os pais dela haviam dito aos pais de Valeska para deixarem-na fazer tudo que as meninas normais dessa idade fazem e apenas tomarem determinados cuidados em relação a possíveis ligações de Melissa com garotas…. Eles a estavam mandando para a capital para afastá-la da homossexualidade. Ela começou a freqüentar o mesmo colégio que Valeska havia freqüentado e fez amizades com irmãos mais novos dos amigos de Valeska e Marjorie. Ao contrário do que pensavam os pais de Valeska, a presença de Melissa só serviu para deixá-la ainda mais isolada: Dedicava-se o dia todo aos estudos, tornou-se rapidamente a primeira aluna na Faculdade. Melissa também se mostrava uma aluna aplicada,. Mas não se isolava, recebia muitos amigos e amigas em casa, saia para dançar com os amigos, arranjou um namorado,terminou,arranjou outro, terminou também… Depois, arranjou uma namorada, que apresentou para Valeska. Valeska contou aos pais sobre a namorada de Melissa, eles disseram que não havia nenhum problema, explicaram então para Valeska que Melissa havia vindo com eles para ficar afastada de influências homossexuais, mas como eles não achavam certo interferir dessa maneira na vida pessoal dela, trouxeram-na para dar-lhe a liberdade de escolher seus caminhos. Valeska não agüentou ouvir aquilo de seus pais e começou a chorar como uma criança.Contou então a eles tudo que havia acontecido entre ela e Marjorie e sobre o que Melissa havia feito às duas. Eles não podiam acreditar no que estavam ouvindo. Valeska pediu que eles mandassem Melissa de volta para o sítio, mas seus pais recusaram-se, Melissa havia errado, mas para eles Valeska havia errado mais ainda ao não resistir às tentações e trair Marjorie. E, principalmente, errara ao trair a confiança de Melissa com a ligação anônima que fizera aos pais dela, sabendo de todo o preconceito existente naquela pequena cidade do interior. E, ainda estava errando,traindo novamente a confiança da amiga que havia apresentado-lhe a namorada e pedido segredo. Melissa moraria ali com eles quanto tempo quisesse e seus pais permitissem. Marjorie mantinha muito pouco contato com os antigos amigos, mas o suficiente para saber que Melissa estava em São Paulo, morando com Valeska. Apesar de todos lhe dizerem que Valeska estava muito abatida e que ela deveria dar uma nova chance ao amor das duas, Marjorie não se convencia, principalmente após saber da mudança de Melissa para São Paulo… Tudo bem, contaram-lhe que Melissa estava namorando, mas, mesmo assim, não conseguia mais confiar, acreditar que poderia dar certo. Marjorie não conseguiu bolsa para a faculdade e matriculou-se em um curso técnico, na área de Informática, na Escola Técnica Escolástica Rosa. O curso era gratuito, e ela havia feito o vestibulinho já pensando na possível possibilidade de não conseguir uma bolsa de estudos para a faculdade. Os dias passam rápido, mas em nenhum momento deixam de ferir Valeska e Marjorie, como um punhal que penetra lenta e cruelmente suas almas. Valeska faz da esperança de um dia voltar a ter Marjorie em seus braços sua razão de viver. Marjorie vive por que não teria coragem de morrer e matar junto com ela o Amor que ainda sente por Valeska. As férias se aproximam e Melissa começa a ficar muito tensa, sabe que irá com a família de Valeska para o sítio, sabe que irá rever seus pais, mais não sabe como será recebida pela família, teme mais a possibilidade de voltar a morar com eles do que continuar sendo rejeitada e vivendo em São Paulo. Gabi, que continuava se correspondendo com Valeska, confessa que ainda não esqueceu Melissa, mas sabe que jamais voltará a ficar com ela, depois de saber tudo o que fez no passado. Conta que está namorando uma amiga do colégio, que os pais de ambas nem imaginam o que acontece entre elas. Valeska fica feliz pela amiga, lembra-se de quando tinha dezesseis anos e namorava escondido… Agora que os pais já sabem, cobram o tempo todo, dizem que ela precisa de uma nova namorada, que ela deve entender que Marjorie faz parte do seu passado, e que o tempo não voltará atrás… Valeska sempre sonhou em ser aceita pela família, mas nesses momentos, preferia que eles a odiassem e não falassem com ela nada além do mínimo para uma convivência pacífica. Caderno de notas de Valeska Carta para aquela que jamais esquecerei… “E lá se vai mais um dia… Perco as contas de quantos assim já vivi… As lágrimas caem na vidraça, e a chuva brota de meus olhos tristes, quase não me deixam ver a paisagem, quase não me deixam ver a tua fotografia. Ah, a paisagem lá fora… Triste reflexo de minha alma… Folhas que caem nesse outono chuvoso. Esperando a longa solidão do inverno, a natureza demonstra triste beleza. Passará este inverno, esta tristeza. Então flores se abrirão a saudar alegres criaturas que irão se amar… Já não correm mais lágrimas pela vidraça… Mas, oh, aqui dentro, que se passa? Meus olhos tristes carregam ainda mais marcas da grande solidão… Eles estão a te esperar, e com eles meu coração. Coração magoado, valente coração partido… Ciente que a cada inverno sofrido não seguir-se-à alegre primavera, festeiros pássaros, alegres flores. Chora coração, chora as lágrimas pelo tempo em que poderia tê-la em seus braços e não a teve. Chora pela vida que passa lá fora… Chora o canto dos pássaros que gostaria de ouvir ao lado da tua amada; Sofre a cada palavra dos doces versos de amor que com uma flor gostaria de entregar-lhe a cada manhã; Chora ao lembrar-se que a vida é fugaz E que ela não volta atrás… Que do tempo que passa da primavera da tua vida ficarão apenas as lembranças, dos beijos de amor que não demos, do calor dos abraços que não sentimos, das noites em que não nos amamos da vida que não vivemos. Quantos outonos tristes atravessarei solitária? Quantas primaveras verei passar? Chegará o outono dos meus anos, e eu estarei aqui, lágrimas dos meus olhos a cair; chuva na janela a chorar. Em minhas mãos aquela fotografia tua, já desbotada, mas sempre a lembrar a esperança que tive de ser feliz ao teu lado… Ah!Esperança! Rósea flor regada pelas lágrimas do meu coração. Esse mesmo coração que hoje, cansado de tudo, ainda tem força para sussurrar bem de leve o teu nome, Marjorie…”  

Finalmente as férias chegam. Melissa passa o mês todo no sítio, com seus pais. Valeska, como sempre, mantém-se distante. Levou vários livros da faculdade para estudar, assim teria em que se ocupar. Melissa também levou alguns livros do colégio. Seus pais ficaram muito felizes em vê-la, mas decidiram que seria melhor ela continuar morando na capital, se os pais de Valeska concordassem. Em Santos, as férias de Marjorie também não têm grandes novidades. Ela não viaja para ver os pais, pois não poderia se ausentar do trabalho, mas não se importa com isso, sabe que se fosse, seria muito difícil deixá-los de novo. Ela decide deixar a loja em que trabalha, mas antes de pedir demissão, começa a procurar um novo emprego.

Capítulo 4

Marjorie foi andando e deixou Valeska à beira do rio, lágrimas corriam dos olhos de ambas. Uma linda história de amor chegava ao fim? Só o destino iria saber… A única pessoa satisfeita era Melissa. Valeska chamou-a para irem embora. Ela protestou, era cedo, podiam ainda curtir mais um pouco, entregarem-se novamente ao prazer. Mostrava-se insaciável.
Valeska, de maneira bruta, disse-lhe que o que havia acontecido na noite anterior não iria mais se repetir e que elas também dali por diante seriam apenas amigas.
Ao chegarem à barraca, Valeska encontrou sobre sua mochila um bilhete de Marjorie:

“Valeska
Guardei nossas coisas na mochila e deixei as roupas da Melissa dobradas, para ela guardar. Desmontem a barraca. Fui caminhar pela margem do rio, vá me procurar quando terminarem. Quero ficar o menor tempo possível perto de vocês e só não fui para casa ainda por que não quero que seus pais ou os de Melissa percebam alguma coisa de anormal em nosso comportamento, mas você sabe que precisamos conversar, e muito…
Marjorie.”

Quando terminaram de desmontar tudo, Valeska foi procurar Marjorie. Encontrou-a sentada à beira do rio, com uma expressão de dor profunda. Naquele momento soube que, mesmo que conseguisse o perdão da amada pela sua traição, a relação delas nunca mais seria a mesma.
Almoçaram na casa de Valeska, conversaram bobagens, para manter as aparências de “garotas se divertindo nas férias”. Ao entardecer, Melissa pediu à Valeska se poderia dormir com elas, mas pela primeira vez teve seu pedido recusado. No seu olhar cheio de ódio, Valeska notou que ela não se conformaria facilmente em ser “rebaixada” de amante para amiga.

Imagem: Internet

Capítulo 2

Valeska não podia acreditar no que via,era como se houvesse pegado a trilha errada e, ao invés de ir para a cachoeira da fazenda, houvesse entrado num túnel que a conduziu através do tempo e espaço até algum lugar perdido, na lendária Ilha de Avalon, na Terra das Fadas, ou, mais provavelmente, na Grécia antiga… Não era possível que aquela bela ninfa que nadava ali, tão distraída e alegre como se já fizesse parte da paisagem fosse a Melissa, de quem seus pais tanto falaram.
Sentou-se numa pedra um pouco distante, de onde podia observar à vontade quase sem o risco de ser flagrada; Melissa nadava de camiseta e short, pela transparência da roupa molhada podia-se notar um corpo perfeitamente torneado, seios de tamanho médio, rijos, cabelos negros como a noite, cacheados, formando uma cascata até os quadris, pele alva, quase rosada…
-Oi!Você deve ser a Valeska, não?
Eram os olhos mais lindos que Valeska já havia visto. Esverdeados e profundos, cheios de mistérios.
-É, Valeska, sou eu…
-Eu sou Melissa. O que faz parada aí?Vem nadar, a água está uma delícia!
-Ãh, é melhor não… Estou com um pouco de frio,prefiro ficar aqui sentada,vendo a paisagem…
Num movimento incrivelmente ágil, Melissa saiu da água e se colocou ao lado de Valeska, mostrando suas pernas longas e firmes, Valeska sentiu nesse momento o desejo de abraçar a nova amiga e possuí-la ali mesmo, com as árvores e seres encantados da floresta por testemunhas, mas tinha que se controlar, por mais difícil que fosse.
Começaram a conversar e, como não podia deixar de ser, falaram de suas vidas, do que gostavam. Melissa tinha apenas quinze anos, apesar do corpo bem desenvolvido. Ainda era pura como a água do riacho, tendo sido tocada apenas pelo vento… Não conhecia sequer o mel de um beijo de amor, mas seu olhar já demonstrava os primeiros e reluzentes raios do Desejo. Valeska tomou o cuidado de não citar em nenhum momento o nome da amiga Marjorie, temia que seus olhos pudessem traí-la. De si,disse apenas que já tinha namorado durante alguns meses,escondido dos pais.Em poucos instantes,tiveram a sensação de que já se conheciam há  anos. Melissa convenceu Valeska a cair na água e,em sua inocência,permitia que o corpo de Valeska encostasse de leve no seu e que as mãos de sua nova amiga tocassem seu corpo,sem perceber o prazer que Valeska sentia nesses pequenos gestos.
A mãe de Valeska veio chamá-las para almoçar, o que as deixou surpresas, como podia a manhã ter passado tão rapidamente?
As duas famílias almoçaram na casa de Seu Lucas, a comida era simples, mas fora preparada com muito carinho por D.Isabela, mãe de Melissa.
As meninas passaram a tarde todas juntas, cavalgaram pelo campo, correram e subiram em árvores até ficarem completamente exaustas. Durante todo o tempo, Valeska não conseguia desviar os olhos de Melissa, sabia que era loucura, mas não conseguia apagar de sua mente a idéia de ser a primeira a mostrar-lhe o sabor de um beijo, de uma noite de amor.
Despediram-se ao pôr do Sol. Ao chegar a casa, Valeska tomou um banho quente e, alegando estar muito cansada, recolheu-se cedo. Não conseguiu dormir, a idéia de que Melissa viria passar o dia seguinte com ela a deixava tensa, precisava se controlar. Lembrou-se também de Marjorie, como estaria ela?Certamente com saudades. E ela ali, pensando em viver um amor de verão com uma menina três anos mais nova. Era absurdo. Viver uma noite que fosse com Melissa seria jogar fora dois anos de fidelidade, confiança e amor entre ela e Marjorie. Ela não podia fazer isso. E não faria.

(Imagem: Internet)

LGBT: Até quando será necessário lutar para mostrar à sociedade que o Amor deve ser livre?

LGBT blog

Ontem um trecho da Avenida Ana Costa (Santos/SP/Brasil) foi palco de uma grande concentração de pessoas. Jovens, adultos, homens, mulheres, negros e brancos reunidos por um objetivo comum: Protestar contra a atitude homofóbica. Depois de pouco mais de uma hora confeccionando cartazes, conversando e fazendo amigos, finalmente partem em marcha sob a flâmula do arco-íris e entoando gritos de guerra como “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser”, “homofobia mata”, “Pula saí do chão quem é contra a opressão”, “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Destino? O Bar Toca do Garga, que havia expulsado um casal homossexual do estabelecimento. Foi uma caminhada pacífica, assim como foi pacífica a manifestação em frente ao bar, que terminou num grande “beijaço LGBT”. Mudou a opinião intima dos freqüentadores daquele espaço? Do dono do bar? Acredito infelizmente não, porém, talvez faça com que tais pessoas (e outras que acompanharam o caso todo) pensem duas vezes antes de tomar uma atitude discriminatória.

Foi bonito ver a união. Foi incrível conhecer o movimento Mães Pela Igualdade, formado por mães de homossexuais que querem ajudar a garantir que seus filhos tenham um lugar seguro na sociedade, que não sofram violência física ou moral. É pedir muito? Acho que não. Foi incrível ver heterossexuais por lá também, conscientes de que as diferenças DEVEM ser respeitadas, de que a espécie humana é uma só e todos merecem compartilhar este mundo com igualdade.

É triste pensar que em pleno século XXI a humanidade já conquistou tantas coisas, mas não conquistou ainda o respeito pelo semelhante. Ainda é preciso se reunir, marchar e lutar por um mundo onde o amor seja livre? Onde cada um busque a sua felicidade da forma que melhor lhe apraz? Qual o sentido de discriminar o próximo pelo que ele faz em sua vida pessoal? É engraçado como as pessoas falam tanto em amor, amor, amor e não conseguem aceitar que não existe uma só forma de amar.

Participei do ato de ontem com orgulho e vou participar de quantos atos forem necessários até que a sociedade entenda que o amor não se prende a gênero. Até que seja comum ver pessoas de mãos dadas pelas ruas. Ver beijos trocados nos encontros e despedidas, nos bares, nas baladinhas sem que isso seja motivo de escárnio, ódio ou choque. Até que não mais seja necessário levantar uma bandeira para lutar por direitos. Até que o arco-íris possa ser erguido com orgulho sim, mas não como luta e sim como comemoração!

 

Créditos da Imagem: Julio I.