A maior paixão do mundo-A história da freira Mariana Alcoforado e suas cartas de amor proibido

A obra é resultado de uma pesquisa de três anos realizada pela artista cênica canadense Myriam Cyr. A autora debruçou-se sobre o mistério que cerca as chamadas Cartas Portuguesas, publicadas pela primeira vez na França em 1669. As cartas, escritas pela freira portuguesa  Mariana Alcoforado a um amante francês, o cavaleiro Chamilly, causaram um grande impacto ao serem publicadas –  tanto pela intensidade das palavras quanto pela suposta autora ser uma freira – suposta por ter sido possivelmente esta a intenção do editor na época, causar dúvida sobre a veracidade dos escritos, que devido a questões legais vigentes na época, foram publicados em uma antologia em nome de Guilleragues, o que  posteriormente dificultou bastante a comprovação da veracidade do  documento.  Outro fato que  levou os estudiosos a questionarem a autoria das cartas é o fato de que, na Europa do século XVII, não se acreditava que mulheres fossem capazes de produzir obras dotadas de verdadeiro espírito artístico. Há também dúvidas sobre como as cartas de Mariana teriam tornado-se públicas, uma vez que seu amante não era homem dado a comportamentos vis; o mais provável é que Chamilly tenha confidenciado seu romance e mostrado as cartas a um amigo que as copiou e mostrou-as nos salões franceses, onde pessoas da sociedade se reuniam para debater política, arte e filosofia e daí em diante a história de ambos tenha circulado até acabar publicada. Uma freira envolvida sexualmente com um soldado era um escândalo e tanto e, a falta de documentos sobre a vida de Mariana possivelmente seja fruto de uma tentativa de apagar seus rastros.  Os escritos de Mariana retratam a dor da perda de uma paixão lancinante, fatal sendo uma infelicidade que as originais tenham se perdido no tempo, bem como é digno de pesar não termos as cartas escritas por Chamilly.

Myriam Cyr consegue traçar um panorama preciso da história e dos costumes vigentes na Europa durante o século XVII, trazendo em apenas 222 páginas o retrato precioso de uma época, sem perder de vista toda a delicadeza de um amor impossível. A autora, inclui as cinco cartas escritas por Mariana a Chamilly, bem como alguns dos madrigais de autoria de Guilleragues que foram publicadas com as cartas em sua primeira edição, além disso, Cyr inclui  também as “trinta e duas perguntas sobre o amor”, que circulavam nos salons (salões) para que os convidados as debates. A obra conta também com uma admirável e detalhada bibliografia e notas que elucidam os fatos históricos expostos e resumem a biografia das personalidades que de alguma forma participam da história de Mariana e Chamilly.

A maior paixão do mundo

Título: A maior paixão do mundo-A história da freira Mariana Alcoforado e suas cartas de amor proibido.
Autor: Myriam Cyr
Ano: 2007
Número de páginas 222
Editora Casa da Palavra

Paixão Índia – Javier Moro

A maioria das meninas sonha viver um conto de fadas – as histórias mágicas onde garotas pobres ou princesas subjugadas por madrastas más transformam-se magicamente em princesas povoam a infância e acabam por moldar a adolescência das garotas mesmo com todos os esforços atualmente aplicados para que entendam que não dependem de príncipes ou magias para seguir seu caminho.

O livro Paixão Índia narra a história real da espanhola Anita Delgado e do que deveria ser seu conto de fadas – A jovem e pobre dançarina, moça de família católica conservadora torna-se de um dia para o outro o objeto de desejo do marajá de Kapurthala que vencendo a resistência da família da amada, acaba fazendo dela sua esposa. A história completa descortina não apenas a história de duas vidas que se cruzam, mas todo um panorama histórico-político bastante rico em detalhes sem que, no entanto, se torne tedioso.

Infelizmente os contos de fadas são apenas contos. Analisar a história de Anita mostra o ambiente machista e hostil no qual as mulheres viviam – Sem perspectivas adequadas por conta da pobreza de sua família, a jovem não se casa por ter-se apaixonado pelo noivo – o poder de tal escolha não lhe cabe inteiramente e a situação financeira da família faz com que optem por dar a ela sua melhor chance: O casamento com um príncipe estrangeiro que a levará para a Índia. Percebe-se o poço de solidão e insegurança no qual Anita é mergulhada – pode-se dizer que ela tem uma vida feliz com o marajá durante muitos anos a despeito de todo o panorama que os rodeia. O desfecho da história chega a parecer uma tragédia anunciada – mesmo não sendo tão trágico nem tão infeliz quanto poderia ter sido – E as reviravoltas nos lembram a todo tempo tratar-se de uma história real, onde a vida apresenta seus altos e baixos até que o último suspiro seja exalado e os olhos se fechem para sempre.

O autor espanhol realizou um excelente trabalho de pesquisa, o que nos permite conhecer a cultura indiana e um pouco do panorama geral da época em que Anita e o marajá viveram, tornando a história agradável e prendendo o leitor do início ao fim. Definitivamente é um livro que precisa entrar na lista de leituras das jovens que ainda ousam sonhar com príncipes encantados – um aviso de que nem sempre o “felizes para sempre” é um percurso agradável e também de que o “para sempre” é talvez um tempo curto demais perante a vida.

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Título: Paixão Índia

Autor: Moro, Javier

Ano:2006

Número de páginas: 387

Editora: Planeta

 

Desafio Cinetoscópio #13 – Um filme que te fez dar boas gargalhadas

Caramuru – A invenção do Brasil. Filme nacional, indicado pelo meu professor no segundo ano da faculdade. Na época, não assisti. Parecia tão desinteressante, sei lá, que me perdoem os fãs, mas geralmente acho os filmes do gênero comédia com o Selton Mello muito forçados no quesito comédia. O tempo passou, a faculdade acabou e, esses dias, pesquisando em antigas anotações da universidade, encontrei esse nome escrito a lápis num cantinho – Decidi assistir – Precisava descansar dos estudos e da vida por alguns momentos. Continuo achando um pouco forçada a atuação do Selton Mello, mas ainda assim, até que foi um filme divertido – posso criticar bastante a objetificação do corpo feminino, a malícia que os roteiristas do filme tentam nos fazer acreditar que fazia parte do dia a dia dos indígenas brasileiros (quando sabemos que, na verdade, foram eles os que perderam com a invasão portuguesa nessas bandas de cá). Enfim, o filme, eticamente falando, tem vários pontos negativos, mas, ainda assim me fez rir muito. Não sei se eu indico a vocês, acredito mesmo que não – Usem seu tempo pesquisando a história verdadeira de Caramuru e Paraguaçu, ou lendo, ou assistindo outros filmes. Caramuru – A invenção do Brasil. Filme nacional, indicado pelo meu professor no segundo ano da faculdade. Na época, não assisti. Parecia tão desinteressante, sei lá, que me perdoem os fãs, mas geralmente acho os filmes do gênero comédia com o Selton Mello muito forçados no quesito comédia. O tempo passou, a faculdade acabou e, esses dias, pesquisando em antigas anotações da universidade, encontrei esse nome escrito a lápis num cantinho – Decidi assistir – Precisava descansar dos estudos e da vida por alguns momentos. Continuo achando um pouco forçada a atuação do Selton Mello, mas ainda assim, até que foi um filme divertido – posso criticar bastante a objetificação do corpo feminino, a malícia que os roteiristas do filme tentam nos fazer acreditar que fazia parte do dia a dia dos indígenas brasileiros (quando sabemos que, na verdade, foram eles os que perderam com a invasão portuguesa nessas bandas de cá). Enfim, o filme, eticamente falando, tem vários pontos negativos, mas, ainda assim me fez rir muito. Não sei se eu indico a vocês, acredito mesmo que não – Usem seu tempo pesquisando a história verdadeira de Caramuru e Paraguaçu, ou lendo, ou assistindo outros filmes.

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Filme versus Livro: O Mundo de Sofia

Algumas vezes despertar o interesse de uma criança ou jovem por determinado assunto requer certa dose de sutileza: De nada adianta entregar a um jovem um enorme tratado acerca de filosofia se já não houver em seu espírito um mínimo de curiosidade acerca do tema. O livro “O mundo de Sofia”,do autor norueguês Jostein Gaarder, desperta no espírito do leitor o interesse pela filosofia e por sua história. Através da história da jovem Sofie Amudsen, o autor nos conduz ao conhecimento da história da filosofia e das ideias de alguns dos principais filósofos.  Ler “O mundo de Sofia” não criará especialistas em filosofia, porém acabará por incutir a curiosidade acerca da história da filosofia e dos filósofos, levando o leitor a buscar mais conhecimentos acerca do assunto em outras fontes.

O filme, como quase sempre acontece com adaptações, é excelente, no entanto, além de ser longo, deixa muita coisa de fora, tornando tudo muito mais superficial. Longe de mim dizer que não é um bom filme, pelo contrário – vale a pena assisti-lo com crianças que ainda não atingiram uma grande habilidade para leituras longas. Vale a pena mesmo assisti-lo após a leitura do livro, porém jamais será capaz de substituir a obra original.

Resenha do livro: Personas Sexuais (Camille Paglia)

Personas Sexuais é o livro indicado como leitura do mês de junho na minha lista literária de 2015 – como podem ver, estou bastante atrasada na minha lista mínima de leituras deste ano, a despeito de ter lido neste lapso de tempo alguns outros livros… Seja como for, aí vai um pequeno comentário sobre a obra!

A autora descortina a história da arte de forma que pode parecer inusitada: Ela analisa a história da arte num conjunto com a história da civilização humana e, principalmente, da sexualidade humana. Para Camille a própria anatomia sexual revela a tendência do homem para atingir um objetivo, um ponto, uma arte esteticamente bela e organizada, uma vez que o órgão sexual masculino é comparável a uma seta que indica, busca caminhos. Em contrapartida, o feminino é o misterioso, o selvagem, o oculto – a força desconhecida da mãe terra – e por isso não gera objetivos e sim energia primordial que não levaria a uma evolução sem presença do masculino. A opinião da autora pode, a princípio, parecer machista ou sexista, porém, excluindo-se este fato, a leitura torna-se bem interessante.

Num todo o livro é interessante, porém eu não o indicaria a pessoas que não possuam uma grande curiosidade acerca da história da arte. Também cabe salientar que de quase nada adianta ler a obra sem um prévio conhecimento sobre o tema, uma vez que a autora cita como exemplos não apenas diversas obras literárias e autores, como também esculturas e pinturas – confesso, aliás, que várias vezes no decorrer da leitura fez-se necessário parar acessar a internet e pesquisar sobre o pintor, escultor ou escritor citado, uma vez que apesar de apreciar muito a literatura, tenho pouco conhecimento acerca da história da arte.

Navegações – Destino Mares do Sul

Em 1° de Agosto de 1785 parte da França uma missão com o objetivo de “dar a volta ao mundo” explorando as terras quase desconhecidas do “Grande Mar do Sul” (Oceano Pacífico). Compunham a missão duas fragatas (La Boussule e L’Astrolabe – A Bússola e O Astrolábio) sob o comando do experiente Almirante Jean François de Galaup – Conde de La Pérouse.  Partiram equipados com o que havia de mais moderno na época; suprimentos para quatro anos de viagem e artigos de troca para negociar com povos nativos (espelhos, contas de vidro, agulhas) e levavam uma tripulação de 400 pessoas.

Em 1786 os dois navios sofrem a primeira tragédia: 21 homens, entre eles 6 oficiais morrem após dois barcos de reconhecimento serem virados por ondas no litoral norte-americano, próximo ao Alaska.

Em 1787, na península de Kamachatka,  La Perouse desembarca um de seus oficiais, de nome De Lesseps, que falava russo, para que este pudesse atravessar a Sibéria até a Europa, levando relatórios da expedição.

Em Setembro do mesmo ano nativos da ilha de Tutuila – principal ilha da Samoa Americana – atacaram os barcos salva – vida da expedição, que se ocupavam de abastecer os navios com água doce, deixando um saldo de 12 mortos, entre eles o 2° Comandante e mais de 20 feridos.

Em Janeiro de 1788, ao aportar à costa Leste da Austrália, encontra-se com a Primeira Esquadra Britânica, entregando mais relatórios da viagem para que sejam entregues à França.  Em 10 de Março deixam a Austrália rumo ao nordeste para nunca mais serem vistos.

Na França, a revolução ocorrida em 14 de Julho de 1789 faz com que La Pérouse seja “esquecido”. Somente em 25 de setembro de 1791 o Contra- Almirante Joseph Antoine Bruni d’Entrecasteaux parte com dois navios buscando notícias da expedição de La Pérouse. Em 1973 vê em Vanikoro  (ilha ao nordeste da Austrália) sinais de fumaça que o fazem crer que encontrou os homens da expedição, mas não consegue chegar à terra devido à dificuldades causadas pelos recifes traiçoeiros próximos à ilha.  O Almirante adoece e morre dois meses depois. Seus navios são capturados pelos holandeses (que estavam em guerra com a França).

Somente quatro décadas anos depois , em  1826, Peter Dillon, um irlandês que praticava o comércio no Pacífico Sul, obteve indícios do paradeiro de La Pérouse ao ver objetos europeus (entre eles um garfo de prata com as iniciais do Almirante) com nativos da ilha de Tikopia (Próxima a Vanikoro).  Os rumores das descobertas de Dillon chegaram à França antes dele e, em 1828, sob o comando de Jules Sébastien Cesar Dumont , chega à Vanikoro a missão oficial francesa de busca. Dumont e seus homens, conversando com nativos da Ilha, descobriram que um dos navios havia naufragado ao entrar numa passagem cheia de corais e o outro encalhou e naufragou ao tentar socorrer o primeiro. Dos sobreviventes, dois construíram um pequeno barco e lançaram-se ao mar e dois viveram na ilha até 1826 – quando morreram. Foram encontrados objetos pessoais da tripulação, o que comprovou a história dos nativos. Nunca se soube qual o destino de La Pérouse.

Um fato curioso: O jovem Napoleão Bonaparte tinha 16 anos na época em que La Pérouse partiu da França e era um dos candidatos a uma vaga no navio. Fica a pergunta: quais seriam as conseqüências históricas se ele houvesse embarcado e desaparecido junto com os outros 400 homens de La Pérouse?

 

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