Desafio Cinetoscópio #5

Continuando o desafio cinetoscópio, o tema para a 5ª postagem é “Um filme Francês¨ Espero que gostem da postagem e, se já assistiram (ou vierem a assistir por curiosidade), deixem um comentário!

Azul é a cor mais quente (Título original La vie d’Adèle) é um filme francês de 2013. Inspirado numa HQ, o filme ganhou diversos prêmios e causou muita polêmica. É, acima de tudo, um filme sobre auto-descoberta e sobre consequências emocionais de um ato impensado. O filme é longo (praticamente três horas de duração) e tem muitas cenas de sexo praticamente explícito, o que o faz uma péssima escolha para quem gosta de organizar aquelas sessões de filmes e pipoca em casa.
Sobre a fotografia do filme: Acho interessante a forma como as imagens são captadas: A câmera focaliza as personagens dando enfase a pequenos detalhes, como o dormir, o comer, o pentear os cabelos, tudo tão natural que é como se você tivesse seguido uma amiga e filmado ela com uma câmera de boa qualidade no decorrer do dia.
As atrizes conseguem prender a atenção o tempo todo e os cabelos azuis da personagem Emma são encantadores, bem como o jeito de menina insegura da Adèle. A abordagem poética também é interessante, em especial as cenas que se passam no colégio da Adèle nas aulas de literatura e a forma como Emma desenha Adèle no primeiro encontro delas. Ao mesmo tempo em que me encantei com o filme, me senti um pouco incomodada pelo excesso de pornografia que não me deixou à vontade (tive que diminuir o volume do computador pois fiquei com vergonha pensando que os vizinhos iriam ouvir os gemidos nas cenas mais quentes), então, para quem já tem mais de 18 anos e não se incomoda com cenas assim, o filme é super indicado. Para os mais sensíveis talvez não seja uma boa ideia.

 

Capítulo 13

Final de ano…
A família de Valeska como sempre, vai passar as férias no sítio e Melissa fica na casa dos pais.
Valeska combina de ir à sorveteria com Gabi e a namorada dela. Surpreende-se quando vê que a amiga perdeu todo o jeito de criança. Tornou-se uma mulher linda e sedutora. Está feliz, pois seus pais descobriram sobre seu namoro e a apoiaram.  As três passam uma tarde animada.
Melissa havia ido passear na cidade, visitar seus primos. Ela vê Gabi com a namorada e Valeska. Como ela está linda! Pela primeira vez, ela tem vontade de voltar para a fazenda, para a pequena cidade, tem vontade de pedir a Gabi que fique em seus braços para sempre. Mas sabe que é impossível, seus pais não a aceitariam morando novamente com eles, e, se aceitassem, jamais deixariam Gabi passar a noite com ela.
Pela primeira vez, as férias de Melissa não foram compostas apenas por sorrisos. Ela passou muito tempo solitária, pensando em tudo o que havia feito. Pela primeira vez, se dá conta do mal que causou à Valeska e Marjorie, percebe o quanto fez Gabi sofrer, todas as vezes que esta lhe dizia “eu te amo!” e ela friamente respondia que deveriam deixar o Amor de lado, pois ele não passava de um sonho no qual apenas os trouxas acreditavam.
Marjorie passa a noite de Natal com Christopher, Diana e Martha. Não se sente mais tão solitária, pois se sente amada por Christopher. Não conversaram mais sobre aquela proposta de casamento.
No ano-novo quando ela está na praia com Christopher, encontra seus pais. Eles não haviam avisado que iriam passar a noite da virada de ano em Santos.
Marjorie chora muito, explica que sente muita saudade deles, mas não pode voltar. Não consegue encontrar um motivo para recusar-se a retornar para a casa de seus pais, por um momento, pensa em contar a eles toda a verdade sobre Valeska, mas sabe que isso os faria sofrer muito, seus pais são conservadores ao extremo, chegam a ser homofóbicos, nunca a aceitariam.
Durante toda a noite, Marjorie pensa sobre sua vida, tudo o que tem passado, sobre a solidão, a vontade de ter companhia. Quando se despede dos pais, já na madrugada do dia 1° de Janeiro, diz novamente que não poderia mais voltar para a casa, motivo? No próximo mês iria se casar com Christopher.
No carro, Marjorie pede desculpas a Christopher, por ter falado que eles iriam se casar, Christopher diz que não há problemas, ele entende a situação dela.
-Mas, se você quiser casar-se comigo de verdade. Eu seria o homem mais feliz desse mundo.
-Christopher, você sabe que eu te amo, mas apenas como um amigo querido. Não conseguiria entregar-me a você.
-Marjorie, eu te amo, se você decidir casar-se comigo sob a condição de eu nunca tocá-la, eu aceitaria. Gostaria apenas de ter a sua companhia a cada amanhecer, quero cuidar de você, quero apenas o seu carinho. Sei que seu coração é de Valeska, sei também que será sempre assim. Se você me aceitar como esposo, não estará me enganando.

Marjorie está deslumbrante, seu vestido branco assemelha-se a uma túnica. Os cabelos estão presos em um delicado coque, com muitos fios soltos e algumas flores.
Christopher e Marjorie não podem casar-se na Igreja, pois Christopher é divorciado. Contratam um Buffet, um local não muito badalado, mas nem por isso pouco elegante e fazem uma pequena festa, apenas para comemorar a união ao lado dos amigos mais chegados e da família de Christopher. Os pais de Marjorie recusaram-se a assistir a união da filha a um homem divorciado e muito mais velho que ela.
A festa é simplesmente perfeita: Os noivos entram no salão ao som de My heart Will go on, música tema do filme Titanic. Choram, emocionados ao trocarem suas juras de amor e respeito, mesmo sabendo que são válidas apenas as juras de respeito, pois entre eles não é segredo que o coração de Marjorie pertence à Valeska.
O mais novo casal do Bingo Sete Mares não viajou em Lua-de-mel, apenas passaram um animado fim de semana de folga, sem sair da cidade. Como havia prometido Christopher não tenta se aproximar de Marjorie mais do que as circunstâncias de amizade permitiriam. O contato mais íntimo entre eles fora um selinho, dado na festa de casamento.

Valeska ficou sabendo através de uma amiga sobre o casamento de Marjorie e sente que desta vez, perdeu para sempre o amor da sua vida.
Melissa tenta consolar a amiga, mas é tratada friamente, tenta abrir-se com Valeska, não consegue entender por que sente tanta saudade da sua antiga vida na fazenda, por que não consegue parar de pensar em Gabi. Pela primeira vez, está sentindo alguma coisa forte e pura por alguém, mas não consegue entender o que.

Caderno de notas de Valeska.

“Hoje enterro para sempre meu coração… Não, eu não enterro meu coração, meu coração não morreu, porém a dor de perdê-la é quase insuportável.  Por que devo eu permanecer neste mundo, que sem você não tem valor, não tem razão de ser? O que me prende a esta vida vazia, se hoje descobri que tu uniste para sempre tua vida a outro alguém?
Agora, outros olhos te aquecem, outros lábios te beijam, outras mãos te tocam. Agora, não são mais as minhas mãos que seguras quando o medo te invade, ou quando a alegria faz teu olhar soltar estrelas.
Não é nos meus olhos que encontras Amor. Marjorie… Meu coração repete seu nome, mas o seu não mais escuta meus chamados.
Gostaria de arrancar meu coração do peito, e sepultá-lo em meio a essa escuridão que domina minha vida desde que você se foi. No entanto, enquanto eu souber que você vive, mesmo sem esperanças de voltar a tê-la em meus braços, viverei também, com a alma partida em mil pedaços, e o sangue do meu Amor pingando em minhas lágrimas, mais eu viverei. Pois apesar de tudo, você ainda é, e sempre será a minha Vida!”

Valeska decide ir incluindo em seu caderno de notas alguns dos poemas que fez para Marjorie antes de começarem a namorar e também durante o namoro… Sempre trocavam cartinhas, bilhetes…

“Amor,
Palavra profunda,
Amar é querer bem a alguém,
É querer esse alguém sempre perto…
É querer ser Feliz,
E querer mais ainda fazer feliz o ser amado
Amor
Sentimento difícil de disfarçar,
Você,
Fez o amor tocar meu coração
Numa nuvem de Paixão”
Amo-Te mais e mais a cada momento…

Em julho seus pais e Melissa foram para a fazenda. Valeska decidiu ficar em São Paulo, pois tinha a esperança de que Marjorie viesse passar as férias com a família, apesar de agora ser uma senhora casada.
Melissa divertiu-se muito, seus dias só não foram melhores porque lhe faltava algo muito importante: a companhia de Gabi.Algumas vezes chegou a ver a amada na cidade, cercada de amigos e sempre ao lado da namorada. Não tinha coragem de ir falar com ela.
Em São Paulo, Valeska experimentava a solidão total, os dias foram passando, e com eles a esperança de ver Marjorie.
Marjorie e Christopher que não estavam em férias, aproveitavam cada momento juntos e quem os visse jamais imaginaria que seu relacionamento não ia além de uma amizade pura e profunda.
Aos poucos a vida ia tomando seu rumo. O tempo encarregava-se não de apagar a dor, mais de amenizá-la. Marjorie não era feliz, mas também não era mais aquela garota infeliz. Sentia-se amada por Christopher, seu amigo e marido. Tinha uma enteada que a amava, amigos. Havia conseguido terminar o curso técnico e pensava em deixar o Bingo para procurar outro emprego, onde pudesse atuar em sua área de formação. Mas tudo isso eram apenas planos. Até o fim do ano, continuaria no Sete Mares.

Melissa pede que seus pais a deixem voltar para a casa, mas recebe uma resposta negativa, seu lugar agora é São Paulo. Aos poucos, ela vai se reaproximando de Valeska, que já não consegue mais manter-se isolada como antes. Após saber que Marjorie casou-se, Valeska começa a tentar sair com os amigos da faculdade. Às vezes leva Melissa junto com eles, mas a situação parece ter-se invertido, e agora é Melissa que não quer mais sair. Ironicamente, Valeska começa a se preocupar com a amiga, percebe que ela está sofrendo, pois finalmente sentiu o Amor alojar-se em seu coração mas ela sabe que não pode fazer nada por Melissa, da mesma forma que Melissa não pode fazer nada por ela. Os meses passam lentamente, a rotina das três garotas continua a mesma. É como se nada mudasse, a vida para elas é um drama em câmera lenta e em meio às lágrimas elas tentam buscar um pequeno motivo para sorrir.

Caderno de notas de Valeska:

“Procura-se:
Procuro a qualquer preço a felicidade…
Mas a felicidade não tem preço…
Procuro-a na luz do teu olhar…
Teu olhar está distante do meu…
Procuro-a nas batidas do seu coração…
Na sua pele…
Sei que esses são os únicos lugares onde a encontro…
Mas você está tão distante…
E eu continuo a procurar…
Não a procuro em corpos estranhos…
Sei que não vou encontrar…
Procuro-a em meu coração…
Só a encontro quando me lembro de você…
Quando lembro nossos momentos,
Momentos felizes…
Momentos breves, se comparados ao tempo eterno de uma existência…
Ao lembrar, uma lágrima rola dos meus olhos…
Lágrima solitária… Saudades de você…
Esperança de um dia voltar a estar ao teu lado…
Enquanto isso…
Não preciso mais procurar minha felicidade…
Sempre soube onde encontrá-la:
Em você!
Minha alma não se separa da sua,
Mesmo distante…
Estou perto de você a cada segundo que se passa…
Feche os olhos… Sinta meu coração bater junto ao teu…
Meu coração apenas bate esperando por ti…
E um dia,
Talvez distante,
Talvez perdido nessa escuridão,
Nesse mundo nebuloso que é minha vida sem você…
Ocorrerá um mágico momento…
E nossas vidas se unirão novamente…
Desta vez para sempre…
Nesse dia,
Não mais buscarei a felicidade em algumas lembranças…
Nesse dia, voltarei a sorrir…
O mundo será mais colorido,
As flores mais perfumadas…
As palavras mais doces…
As canções mais suaves…
Nesse dia,
Voltarei aos teus braços…
Nesse dia a felicidade que eu tanto procurei
Virá ao nosso encontro…
E irá nos saudar…
E nos carregará nos braços…
E nos levará ao céu,
Sem precisarmos para isso deixar a Terra…
Até lá.
Resta esperar…
Resta buscar a felicidade em cada pequena lembrança…
Chorar de saudades,
E saber que,
No final de tudo…
Estarei novamente feliz,
Em seus braços…

Amo-Te!”

Capítulo 10

As primeiras semanas de Melissa em São Paulo foram tranqüilas, ela já estava com dezesseis anos, e os pais dela haviam dito aos pais de Valeska para deixarem-na fazer tudo que as meninas normais dessa idade fazem e apenas tomarem determinados cuidados em relação a possíveis ligações de Melissa com garotas…. Eles a estavam mandando para a capital para afastá-la da homossexualidade. Ela começou a freqüentar o mesmo colégio que Valeska havia freqüentado e fez amizades com irmãos mais novos dos amigos de Valeska e Marjorie. Ao contrário do que pensavam os pais de Valeska, a presença de Melissa só serviu para deixá-la ainda mais isolada: Dedicava-se o dia todo aos estudos, tornou-se rapidamente a primeira aluna na Faculdade. Melissa também se mostrava uma aluna aplicada,. Mas não se isolava, recebia muitos amigos e amigas em casa, saia para dançar com os amigos, arranjou um namorado,terminou,arranjou outro, terminou também… Depois, arranjou uma namorada, que apresentou para Valeska. Valeska contou aos pais sobre a namorada de Melissa, eles disseram que não havia nenhum problema, explicaram então para Valeska que Melissa havia vindo com eles para ficar afastada de influências homossexuais, mas como eles não achavam certo interferir dessa maneira na vida pessoal dela, trouxeram-na para dar-lhe a liberdade de escolher seus caminhos. Valeska não agüentou ouvir aquilo de seus pais e começou a chorar como uma criança.Contou então a eles tudo que havia acontecido entre ela e Marjorie e sobre o que Melissa havia feito às duas. Eles não podiam acreditar no que estavam ouvindo. Valeska pediu que eles mandassem Melissa de volta para o sítio, mas seus pais recusaram-se, Melissa havia errado, mas para eles Valeska havia errado mais ainda ao não resistir às tentações e trair Marjorie. E, principalmente, errara ao trair a confiança de Melissa com a ligação anônima que fizera aos pais dela, sabendo de todo o preconceito existente naquela pequena cidade do interior. E, ainda estava errando,traindo novamente a confiança da amiga que havia apresentado-lhe a namorada e pedido segredo. Melissa moraria ali com eles quanto tempo quisesse e seus pais permitissem. Marjorie mantinha muito pouco contato com os antigos amigos, mas o suficiente para saber que Melissa estava em São Paulo, morando com Valeska. Apesar de todos lhe dizerem que Valeska estava muito abatida e que ela deveria dar uma nova chance ao amor das duas, Marjorie não se convencia, principalmente após saber da mudança de Melissa para São Paulo… Tudo bem, contaram-lhe que Melissa estava namorando, mas, mesmo assim, não conseguia mais confiar, acreditar que poderia dar certo. Marjorie não conseguiu bolsa para a faculdade e matriculou-se em um curso técnico, na área de Informática, na Escola Técnica Escolástica Rosa. O curso era gratuito, e ela havia feito o vestibulinho já pensando na possível possibilidade de não conseguir uma bolsa de estudos para a faculdade. Os dias passam rápido, mas em nenhum momento deixam de ferir Valeska e Marjorie, como um punhal que penetra lenta e cruelmente suas almas. Valeska faz da esperança de um dia voltar a ter Marjorie em seus braços sua razão de viver. Marjorie vive por que não teria coragem de morrer e matar junto com ela o Amor que ainda sente por Valeska. As férias se aproximam e Melissa começa a ficar muito tensa, sabe que irá com a família de Valeska para o sítio, sabe que irá rever seus pais, mais não sabe como será recebida pela família, teme mais a possibilidade de voltar a morar com eles do que continuar sendo rejeitada e vivendo em São Paulo. Gabi, que continuava se correspondendo com Valeska, confessa que ainda não esqueceu Melissa, mas sabe que jamais voltará a ficar com ela, depois de saber tudo o que fez no passado. Conta que está namorando uma amiga do colégio, que os pais de ambas nem imaginam o que acontece entre elas. Valeska fica feliz pela amiga, lembra-se de quando tinha dezesseis anos e namorava escondido… Agora que os pais já sabem, cobram o tempo todo, dizem que ela precisa de uma nova namorada, que ela deve entender que Marjorie faz parte do seu passado, e que o tempo não voltará atrás… Valeska sempre sonhou em ser aceita pela família, mas nesses momentos, preferia que eles a odiassem e não falassem com ela nada além do mínimo para uma convivência pacífica. Caderno de notas de Valeska Carta para aquela que jamais esquecerei… “E lá se vai mais um dia… Perco as contas de quantos assim já vivi… As lágrimas caem na vidraça, e a chuva brota de meus olhos tristes, quase não me deixam ver a paisagem, quase não me deixam ver a tua fotografia. Ah, a paisagem lá fora… Triste reflexo de minha alma… Folhas que caem nesse outono chuvoso. Esperando a longa solidão do inverno, a natureza demonstra triste beleza. Passará este inverno, esta tristeza. Então flores se abrirão a saudar alegres criaturas que irão se amar… Já não correm mais lágrimas pela vidraça… Mas, oh, aqui dentro, que se passa? Meus olhos tristes carregam ainda mais marcas da grande solidão… Eles estão a te esperar, e com eles meu coração. Coração magoado, valente coração partido… Ciente que a cada inverno sofrido não seguir-se-à alegre primavera, festeiros pássaros, alegres flores. Chora coração, chora as lágrimas pelo tempo em que poderia tê-la em seus braços e não a teve. Chora pela vida que passa lá fora… Chora o canto dos pássaros que gostaria de ouvir ao lado da tua amada; Sofre a cada palavra dos doces versos de amor que com uma flor gostaria de entregar-lhe a cada manhã; Chora ao lembrar-se que a vida é fugaz E que ela não volta atrás… Que do tempo que passa da primavera da tua vida ficarão apenas as lembranças, dos beijos de amor que não demos, do calor dos abraços que não sentimos, das noites em que não nos amamos da vida que não vivemos. Quantos outonos tristes atravessarei solitária? Quantas primaveras verei passar? Chegará o outono dos meus anos, e eu estarei aqui, lágrimas dos meus olhos a cair; chuva na janela a chorar. Em minhas mãos aquela fotografia tua, já desbotada, mas sempre a lembrar a esperança que tive de ser feliz ao teu lado… Ah!Esperança! Rósea flor regada pelas lágrimas do meu coração. Esse mesmo coração que hoje, cansado de tudo, ainda tem força para sussurrar bem de leve o teu nome, Marjorie…”  

Finalmente as férias chegam. Melissa passa o mês todo no sítio, com seus pais. Valeska, como sempre, mantém-se distante. Levou vários livros da faculdade para estudar, assim teria em que se ocupar. Melissa também levou alguns livros do colégio. Seus pais ficaram muito felizes em vê-la, mas decidiram que seria melhor ela continuar morando na capital, se os pais de Valeska concordassem. Em Santos, as férias de Marjorie também não têm grandes novidades. Ela não viaja para ver os pais, pois não poderia se ausentar do trabalho, mas não se importa com isso, sabe que se fosse, seria muito difícil deixá-los de novo. Ela decide deixar a loja em que trabalha, mas antes de pedir demissão, começa a procurar um novo emprego.

Capítulo 8

Os dias vão passando. Lentamente tornam-se semanas, meses…
Julho chega… Férias… Marjorie vai visitar os pais em São Paulo… Encontra seu quarto exatamente como deixou… Cada cantinho apresenta uma recordação… Bem em frente à cama, um grande painel mostra fotos dela e de Valeska desde a infância até as últimas férias que passaram juntas com os avós de Marjorie… Atrás de um quadro, a chave que abre a gaveta do criado mudo… Ela não consegue abrir, pois sabe que lá dentro estão guardadas cartas, bilhetes, fotos, um lenço com o perfume de Valeska, a calcinha que usou na primeira noite de amor… Pedacinhos de sua vida…
A alegria de rever os pais era nublada por essas lembranças.
A maioria dos amigos estava viajando… Os poucos que Marjorie encontrou invariavelmente citaram Valeska, todos sabiam que elas eram muito unidas e perceberam o estado quase depressivo em que Valeska se encontrava desde a partida de Marjorie. Que vontade de voltar… Seria a mesma coisa viver ali, como antes? Não… Não seria… A vida é um cristal,quando se parte,não adianta remendar, jamais será igual…
No sítio, Valeska está mais isolada que o habitual… Melissa não a deixa sossegada um segundo, mas recebe em troca a frieza do gelo. Seu único prazer é caminhar solitária em meio às trilhas, passa horas contemplando os pássaros… A água caindo na cachoeira… Sempre gostou desse contato íntimo com a natureza, mas após terminar seu namoro com Marjorie essa característica sobressaiu-se em seu comportamento. Unir sua alma a alma da Terra, das Árvores, dos Rios, ao Vento ajudava-a a preencher um pouco o espaço vazio que Marjorie deixara ao partir. Fim de férias.
De volta a São Paulo, Valeska fica sabendo que a amada esteve na cidade. Sofrimento. Nem avisou a ela que viria.
Em Santos, Marjorie retorna à rotina… No fim do ano prestará vestibular, não mais a USP, não quer voltar a São Paulo. Prefere ficar em Santos e fazer um curso particular…
A vida de Valeska também não sofre grandes mudanças. Ela mergulha cada vez mais em seu mundo isolado.
Em Setembro, Melissa faz dezesseis anos… Fazem uma enorme festa no sítio, Valeska é convidada, mas recusa-se a ir.
Nessa festa, Melissa conhece Ana Gabriela, prima de uma amiga do colégio.
Ela e Ana Gabriela têm a mesma idade, mas Gabi ainda é completamente pura. É uma linda garota, olhos castanhos, pele cor de doce de leite e cabelos negros e cacheados que caem abundantemente até as costas. Mora na cidade vizinha e sempre passa as férias e muitos finais de semana com a prima. Melissa a convida para passar uma semana no sítio, nas férias de verão. Os olhos de Melissa não conseguem esconder a maldade, ela torce para que em Dezembro Gabi ainda continue sendo a garotinha pura que ela conheceu.

Capítulo 6

Os dias passavam lentamente.
Valeska ficava longas horas no quarto, isolada. Ia ao colégio por obrigação, não conseguia se concentrar nas aulas. O ano estava chegando ao fim e suas notas eram péssimas. Se ficasse para recuperação, ao menos poderia escapar de passar as férias na fazenda. Várias vezes Melissa escrevera, dizia ter saudades. Valeska não respondeu suas cartas, no fundo a culpava por ter perdido o único amor da sua vida, apesar de saber que ela fora a maior culpada de tudo. Não se deixara levar pela vontade de viver uma aventura de verão? Não se deixara convencer a dividir Marjorie com Melissa por uma noite? Marjorie tinha razão, ela era a maior culpada pelo próprio sofrimento.
Apesar do péssimo desempenho no colégio, conseguiu passar de ano.  Fazia exatamente um ano que havia conhecido Melissa. Era uma data para ser apagada, não lembrada. Viajaram para a fazenda, como se opor aos pais?

Foram as férias mais estranhas de Valeska. Tentava não conversar com Melissa, mas não podia recusar-se a falar com ela, pois não tinha nenhuma justificativa que pudesse apresentar aos pais. Ah, a família, pensava, sempre nos obrigando a fazer coisas que não queremos. Levou muitos livros com ela… Passava os dias lendo e as noites escrevendo. Levava seu caderno de notas a todos os lugares, até mesmo à cachoeira. Não tinha o hábito de escrever um diário, mas ia anotando seus pensamentos de um modo desconexo e confuso. Em janeiro faria 18 anos, a sonhada maioridade, se ainda estivesse junto à Marjorie, talvez se casassem.
Seus pais começavam a estranhar o fato dela não apresentar nenhum namorado, não receber telefonemas de garotos, não freqüentar os lugares comuns à sua idade. Sua vida tornava-se cada vez mais difícil…
 
Trechos do Caderno de Notas de Valeska:

“Sobre as palavras”
O que são mesmo palavras?São conjuntos de letras…
E o que são letras? São sinais gráficos, apenas…
Sinais inventados por alguém há muitos séculos…
Lembro que quando comecei a freqüentar o colégio, não gostava das letras, achava-as difíceis, por causa da dificuldade de desenhá-las, acabava ficando de castigo, até aprender…
Aprendidas as letras, comecei a formar as primeiras palavras…
Nunca imaginei que um dia as palavras seriam minhas únicas companheiras… Nunca imaginei ficar tão dependente delas… Cada dia mais me isolo em mim mesma, cada dia mais expresso meus pensamentos e sentimentos através da palavra escrita…
O que seria de mim hoje sem um papel e uma caneta, ou lápis?
Se não pudesse escrever meus sentimentos, a quem contaria sobre a saudade que tenho de você, Marjorie?
Faz seis meses que nos vimos pela última vez, e no meu coração permanece a lembrança dos teus olhos tão doces… Esses olhos cor de mel onde muitas vezes mergulhei minha alma…
De tudo que fiz até hoje, só posso me arrepender de uma coisa:
De uma linda tarde de verão na qual concordei com minha mãe e fui até a cachoeira conhecer uma nova amiga… Daquela tarde em diante, minha vida tornou-se um pesadelo, duvidei dos meus sentimentos, do meu amor por você, me entreguei a braços frios e sem amor… E depois te entreguei a esses braços também. . Por que eu fiz isso?Agora estou aqui, mergulhada nessa solidão sem fim, escrevo tudo que gostaria de te falar… Mas sei que você nunca vai ler, pois já desisti de te mandar e-mails, você não responde e talvez nem abra…
Enfim, acho que meu futuro é a mais profunda Solidão…
Palavras, muito obrigada por serem minhas companheiras nessa jornada rumo ao Nada”
 

“Sobre o Amor”
 
O amor é um sonho que sonhamos acordados…
É um sonho real, e nós podemos encontrá-lo apenas nos olhos de uma pessoa, durante toda a nossa vida.
Durante esse percurso (da vida) encontramos paixões, muitas ou poucas, depende do Destino de cada um…
Algumas pessoas encontram muitas paixões, muitas vezes acham que amam quando somente estão apaixonados… Demoram até ver nos olhos de alguém aquele brilho especial, até sentirem num abraço a Paz que só o Amor puro poderá dar… E muitas vezes, essas pessoas estão tão calejadas, tão magoadas, que deixam seu Amor passar direto por suas vidas… e continuam a buscá-lo…
Outras pessoas encontram seu amor em tenra idade, mas a vida as afasta, para que possam seguir seus caminhos e unirem-se novamente quando for o momento certo.
Algumas encontram o amor em alguém que está sempre muito perto, sem tempo de viver paixões. Duas almas se encontram e descobrem que se amam, mas pode acontecer o que aconteceu com a gente, de num instante de fraqueza o coração de uma delas experimentar a paixão e se perder… E aí,quando vemos,já é tarde demais e nós então já perdemos o amor da nossa vida…
 

Natureza:
Em meio ao verde, aos pássaros, sob esse maravilhoso céu, vivemos nós… Simples e pequenos seres. Não percebemos o quanto somos submetidos à natureza e tentamos desesperadamente vencê-la, prever-lhe os movimentos, as mudanças…
Mas é nela que encontramos o maior abrigo para nossa alma magoada e cansada de sofrer…
Às vezes tenho vontade de me deitar na terra e ser engolida por ela, de misturar aos poucos meus átomos aos dela até que meu corpo desapareça e minha alma torne-se livre para voar, ou então, passe a viver através do “Corpo” de uma árvore, que solitária no meio do campo observa tudo ao seu redor…
Às vezes tenho vontade de me misturar também às águas desse rio que corre correr com elas conhecendo lugares diferentes, e um dia evaporar, subir até o céu, e depois desabar sobre a Terra, quero ser a água da chuva a molhar o teu corpo… Assim posso te tocar ao menos uma última vez, e quem sabe, em meio a esse ciclo infinito de evaporar e tornar-se água novamente, não conseguiria te esquecer, ou ao menos aplacar a dor em minha alma?
Tenho vontade de ser vento… Ser vento significa voar para a liberdade… Ser a brisa do mar a tocar seu rosto…
Ser fogo… Queimar meu coração em suas próprias chamas, até reduzi-lo a cinzas, e depois como uma Fênix, delas renascer… Não adiantaria muito, renasceria te amando do mesmo jeito… Mas a jornada seria interessante, pois ao queimar meu coração, talvez conseguisse purificar esse amor, deixando dele apenas as boas lembranças e queimando toda a dor… É, talvez a dor não renascesse comigo, talvez renascesse apenas o Amor”

Imagem: Internet

Capítulo 5

“Valeska:
Voltei para cá e pensei muito sobre nós e sobre tudo que aconteceu. Não entendo por que tudo terminou assim, tínhamos um amor tão puro, ou pelo menos eu tinha um amor puro por você. Tinha?Infelizmente não,eu ainda te amo,acho que jamais deixarei de amá-la, mas depois daquela noite nunca mais conseguirei confiar em você, e você sabe muito bem disso.
Não conseguiria encontrá-la todos os dias no colégio, não conseguiria continuar a ser tua amiga… E além do mais, sei que nossos pais, acostumados a nos verem sempre unidas iriam achar muito estranho se nos afastássemos de repente. Para evitar perguntas indesejáveis e também para não sofrer todos os dias com a sua presença, convenci meus pais a me deixarem ir morar com minha tia em Santos até o fim do ano. Ela é uma das coordenadoras do Colégio Cultura Brasileira e vai conseguir uma bolsa para que eu termine o ano letivo lá… Se eu conseguir boas notas, ficarei o ano que vem também, ou tentarei um intercâmbio… Ainda não sei…
Só espero que a dor que sinto passe depressa…
Seu amor me deu as mais belas lembranças que alguém pode ter, me deu todos os sonhos e agora é a causa dos meus piores pesadelos.
Espero que você consiga ser feliz, pois sua traição no verão passado demonstra claramente que eu não fui capaz de te completar, e a sua atitude em relação àquela noite em que… Não consigo me referir àquela noite, mas você sabe do que estou falando, sua atitude aquela noite demonstrou que além de não me amar, você também não me respeita.
Não me responda esta carta. Não quero receber notícias suas. Sei que vai ser infeliz longe de mim, mas a culpa é apenas sua e não quero me magoar sabendo da sua infelicidade.
Um abraço, daquela que te ama e jamais te esquecerá

Marjorie”

Não era possível. Isso não poderia estar acontecendo com ela. Apesar do pedido de Marjorie, Valeska respondeu a carta:

“Marjorie,

Meu amor, não faz isso comigo, não me abandone dessa forma. Por favor, dê mais uma chance para nós duas. Sei que não fui digna do teu amor, mas estou arrependida, quero voltar para os teus braços, quero você agora e para sempre. Não sei como pude me deixar enganar pela Melissa.
Não consigo parar de pensar em você e o que mais me dói é saber que eu te fiz sofrer. Lembro-me dos seus olhos, do amor que expressavam. Não vou conseguir sobreviver sem você ao meu lado. Volta para mim…

Com amor

Valeska”

Sem respostas…

(Imagem: Internet)

Capítulo 4

Marjorie foi andando e deixou Valeska à beira do rio, lágrimas corriam dos olhos de ambas. Uma linda história de amor chegava ao fim? Só o destino iria saber… A única pessoa satisfeita era Melissa. Valeska chamou-a para irem embora. Ela protestou, era cedo, podiam ainda curtir mais um pouco, entregarem-se novamente ao prazer. Mostrava-se insaciável.
Valeska, de maneira bruta, disse-lhe que o que havia acontecido na noite anterior não iria mais se repetir e que elas também dali por diante seriam apenas amigas.
Ao chegarem à barraca, Valeska encontrou sobre sua mochila um bilhete de Marjorie:

“Valeska
Guardei nossas coisas na mochila e deixei as roupas da Melissa dobradas, para ela guardar. Desmontem a barraca. Fui caminhar pela margem do rio, vá me procurar quando terminarem. Quero ficar o menor tempo possível perto de vocês e só não fui para casa ainda por que não quero que seus pais ou os de Melissa percebam alguma coisa de anormal em nosso comportamento, mas você sabe que precisamos conversar, e muito…
Marjorie.”

Quando terminaram de desmontar tudo, Valeska foi procurar Marjorie. Encontrou-a sentada à beira do rio, com uma expressão de dor profunda. Naquele momento soube que, mesmo que conseguisse o perdão da amada pela sua traição, a relação delas nunca mais seria a mesma.
Almoçaram na casa de Valeska, conversaram bobagens, para manter as aparências de “garotas se divertindo nas férias”. Ao entardecer, Melissa pediu à Valeska se poderia dormir com elas, mas pela primeira vez teve seu pedido recusado. No seu olhar cheio de ódio, Valeska notou que ela não se conformaria facilmente em ser “rebaixada” de amante para amiga.

Imagem: Internet

Capítulo 3

Ainda sonolenta Valeska se lembrou que em breve Marjorie estaria com ela na fazenda. Não se empolgou tanto com a ideia de em breve estarem juntas – seus pensamentos já estavam novamente em Melissa. Levantou-se e foi para o chuveiro, tudo que precisava era um bom banho para poder acordar.
Marjorie e Valeska desde crianças tinham certa inclinação uma pela outra, estavam sempre juntas, e aos quinze anos beijaram-se pela primeira vez; fazia já dois anos que viviam esse romance às escondidas e, mal viam a hora de completarem a maioridade para poderem morar juntas. Para elas, o importante era que se amavam e nada mais. Porém, Valeska sentia pela primeira vez a dúvida nascer em seu coração, amava realmente Marjorie? Ou era apenas o costume? Era tão nova quando começaram a namorar. Viveram juntas momentos inesquecíveis, os primeiros beijos, os primeiros carinhos ousados, a primeira noite de amor… Mesmo assim, agora que conhecera Melissa, Valeska não tinha tanta certeza se realmente queria levar a diante o namoro com Marjorie.
Saiu do banho, vestiu-se e foi tomar café. Melissa chegou e decidiram cavalgar até a cidade.
Para Valeska, acostumada ao trânsito e a correria de São Paulo, o centro da cidade pareceu deserto, porém aconchegante. Sentaram-se no banco da praça e tomaram um sorvete. Apesar de terem a intenção de passar o dia na cidade, decidiram tomar um lanche e voltar pouco após o almoço, pois não havia muito que fazer.
Quando chegaram à fazenda, a casa de Valeska estava vazia; grudado na geladeira, um bilhete avisava que haviam ido novamente pescar.
Era a oportunidade perfeita: estariam sozinhas em casa pelo resto da tarde. Restava aguardar o momento certo…
Valeska sugeriu escutarem um pouco de música entregando a Melissa o porta Cd’s para que esta ficasse à vontade para escolher. Ficou surpresa quando Melissa escolheu um cd de música eletrônica… Pensava que Melissa não estivesse acostumada a essas músicas, por morar numa cidade tão pequena e praticamente rural…
Começaram a dançar, Melissa colava seu corpo em Valeska, balançando ao ritmo da música. Podiam sentir seus corações baterem acelerados, Melissa segurou Valeska pela cintura com uma das mãos, enquanto a outra passeava por todo o corpo da amiga. Beijaram-se. Podia-se sentir o clima de desejo no ar; começaram a despir-se, deitaram no sofá, Valeska começou a acariciar o corpo de Melissa, beijando-lhe o pescoço, os seios, passeando com a língua até a barriga, Melissa buscou acariciar as partes mais íntimas de Valeska, fazendo-a gemer de prazer, a partir daí, seus corpos foram tomados de um furor animalesco, amaram-se de todas as formas possíveis até serem surpreendidas pelo cair da tarde e vestirem-se apressadamente, temendo a chegada dos pais de Valeska.
Fizeram um lanche rápido, Valeska, de tão exausta, sentou-se no sofá e dormiu, não viu sequer a hora que os pais de Melissa vieram buscá-la, pois já estava muito escuro para ela voltar sozinha pela estrada.
Ao contrário de Valeska, que dormia exausta, Melissa quase não conseguia esconder sua agitação… Estava eufórica, há tempos esperava pelo seu primeiro beijo, por sua primeira noite… Já havia lido livros picantes,  perdia horas imaginado-se em todas as cenas mais eróticas, mas não havia encontrado até então ninguém a quem se quisesse entregar…até Valeska aparecer…
Quando a viu pela primeira vez, parada entre as pedras decidiu que queria ser possuída por ela, teve que agir com cuidado e com uma malícia cuidadosamente disfarçada para chegar onde queria… Mas agora tinha conseguido; não era mais uma menina, podia-se considerar uma mulher…
A semana passou muito rápido… Valeska e Melissa encontravam-se todos os dias, viviam uma paixão proibida e ardente… Amaram-se na cachoeira,na chuva, no meio do pasto…
Para alívio de Valeska, Marjorie acabou passando todo o mês na casa dos avós, não imaginava como seria se ela, Melissa e Marjorie tivessem que compartilhar o mesmo dia-a-dia…
Assim como a semana, o mês terminou depressa, Valeska e os pais precisavam voltar para São Paulo. A fazenda ficaria para trás e com ela, um grande amor de verão; Valeska voltaria para os braços de Marjorie.
Em São Paulo, Valeska rapidamente esqueceu aquele amor de verão, aos poucos foi sendo absorvida pela rotina, pela companhia de Marjorie, pelo colégio… Escreveu poucas cartas à Melissa, simples relatos, sem juras de amor ou sentimentalismos… Tampouco se mostrava apaixonada por Marjorie, estava distante, já não lhe fazia mais os agrados de antes, procurava-a apenas quando queria sexo… Chegava a duvidar de seus sentimentos… Já não a amava mais?Ou era apenas uma fase de distanciamento?
Não sabia ao certo…

Vieram então as férias de Julho… Na fazenda o frio era acolhedor, Valeska adorava aquele clima de inverno, que parecia fazê-la livre.  Viveu intensamente a primeira semana com Melissa, amando-a sempre de uma maneira selvagem, como que querendo possuir cada átomo do seu corpo.
Valeska havia contado a Melissa sobre seu relacionamento com Marjorie, e ficou muito surpresa, pois Melissa não demonstrou ciúme ou mágoa, disse que era normal afinal, quem foi mesmo que inventou a monogamia? – Opinião no mínimo estranha para uma jovem criada em meio à natureza e teoricamente afastada da malicia presente nos habitantes das grandes cidades.
Na segunda semana de julho, Marjorie juntou-se a elas. Sua presença deixava Valeska confusa, principalmente porque Marjorie e Melissa tornaram-se grandes amigas. Uma tarde, na cachoeira, Melissa e Valeska desancavam a sombra das arvores enquanto Marjorie nadava.  Melissa confessou sentir-se atraída por Marjorie, provocando uma grande onda de ciúmes em Valeska. Aos poucos, porém, Melissa conseguiu convencer a amiga de que uma noite a três seria uma idéia excitante. O único problema seria convencer Marjorie.
Pediram permissão aos pais para passarem uma noite acampada, apenas as três… Após incessantes instruções de segurança (não se afastem da barraca à noite, mantenham as telas e a porta bem fechados para não haver o risco de entrarem animais indesejáveis, etc.), partiram rumo à sua noite de “acampamento selvagem”. Escolheram um local não muito distante da casa de Valeska, assim, seria menor o risco de surpresas desagradáveis.
Melissa pegou escondido do pai uma garrafa de vinho na adega de casa e levou com elas. Marjorie não queria beber, afinal era menor de idade, mas o friozinho da noite e o fato de Valeska estar bebendo a encorajaram. Aos poucos foram se liberando, perdendo a vergonha… Melissa chegou-se para perto de Marjorie, abraçou-a e começou a acariciá-la. Marjorie não percebia a malícia desse ato, para ela Melissa era apenas uma criança de 15 anos, que vivia numa fazenda perdida no meio do nada… Esquecia-se de que ela mesma, aos 15 anos já sentia determinados desejos, e que havia apenas dois anos de diferença entre elas
Estavam dentro da barraca, pois não queriam arriscar-se a ficar do lado de fora pois temiam o aparecimento de cobras ou aranhas. Não podiam acender ali uma vela e a luz da lanterna começava a enfraquecer. O vinho chegava já ao final. O contato do corpo de Melissa provocava arrepios em Marjorie, ela ia aos poucos se sentindo excitada. Nesse momento Valeska,que até então estivera apenas observando abraçou Marjorie e começou também a acariciá-la, beijando lhe as orelhas e a nuca, para logo em seguida beijar-lhe a boca. Marjorie gemia de prazer, mas negava-se a deixar-se possuir com Melissa presente.
Melissa então começou a tirar a roupa, no que foi imitada por Valeska. Em seguida,ambas fizeram com que Marjorie se deitasse, tiraram-lhe também as roupas e começaram a beijar seu corpo todo, fazendo-a gemer ainda mais e possuindo-a uma de cada vez, de uma maneira animal. Marjorie entregou-se completamente a esse ato incomum e, quando não agüentava mais ser possuída, trocou de lugar com Melissa. Sentia prazer em deixar-se perder naquela cascata de ébano que eram os cabelos dela, lambia-lhe todas as partes do corpo, penetrando-lhe o sexo com a língua e com as mãos, enquanto era também acariciada e tocada por Valeska. Saciaram-se durante toda aquela madrugada numa orgia selvagem.
Foram dormir quando o sol já estava nascendo…
O dia seguinte foi talvez o mais difícil na vida de Marjorie, acordar e ver-se ali, nua entre sua namorada e uma nova amiga e lembrar tudo que havia acontecido entre as três machucava-lhe o coração. Lágrimas começaram a correr de seus olhos. Cuidadosamente, sem acordar as duas, vestiu-se, deu um beijo de leve nas faces de Valeska e foi até a beira do rio, para pensar um pouco e tentar entender o que havia acontecido.
Pouco antes da hora do almoço, era Valeska que despertava. Sentia seu lado animal saciado mas sentia também certo ciúme de Marjorie. Como ela havia permitido que outra pessoa tocasse sua namorada na sua frente? Por outro lado, não tinha o direito de sentir-se enciumada, traíra Marjorie o verão todo com Melissa, chegara a duvidar do seu amor por ela, precisou então vê-la entregue aos braços de outra para sentir novamente em seu peito o amor bater mais forte. Como pudera ser tão tola, deixando se levar por uma garota de quinze anos ávida de prazer animal e que aparentemente não tinha idéia do que eram sentimentos?Como?
Notou então que Marjorie não estava na barraca. Vestiu-se e foi procurá-la, tinha que pedir-lhe desculpas por tudo, pelo que havia acontecido na noite anterior e pelo que acontecera durante o verão… Lágrimas rolavam levemente de seus olhos. Conhecia Marjorie e sabia que dificilmente ela seria perdoada. Talvez esse fosse o ponto final na história de amor que deveria perdurar durante toda a sua vida.
Após a saída de Valeska da barraca, Melissa despertou. Em seu sorriso podia ver-se a satisfação de ter realizado mais uma de suas fantasias. Vestiu-se alegremente e correu para a cachoeira, nem percebeu a presença de Marjorie sentada sobre as rochas, jogou-se na água, em seu corpo leves marcas arroxeadas refletiam a saciedade de seus instintos…
Marjorie a observava… Como podia aquela garota com feições de menina ser tão maliciosa, causar tão grande prazer e ao mesmo tempo, tanta dor?E por que Valeska havia permitido tudo o que aconteceu?
Valeska chegou pela margem oposta do rio, ficou atrás de uma pedra, observava estática a cena… Não entendia o que Marjorie fazia ali, observando Melissa nadar. Será que Marjorie havia gostado do que aconteceu entre elas?Não era possível…
Deu a volta, sentando-se ao lado de Marjorie, esta nem notou, ou fingiu não notar sua presença, ela então resolveu tentar conversar:
-Bom dia, amor.
-Amor? Que Amor? Que Amor é esse que você diz ter por mim que nos coloca na situação em que nos vimos ontem à noite, como animais, ou até pior que eles?
-Marjorie, meu amor, não diz isso. Eu… Sei lá, precisamos conversar, mas quero que saiba que acima de tudo eu te amo…
-Vou pra casa.
-Vamos chamar a Melissa, ela tem que nos ajudar a desmontar a barraca, e então poderemos voltar.
-Chama você, eu vou indo na frente para guardar nossas coisas nas mochilas.
-Tudo bem…

A bandeira se ergue, novamente manchada de sangue.

João

Hoje escrevo um texto que não gostaria de ter que escrever. Criei este espaço para falar de amor, de arte, de cultura, música, culinária. Gostaria de escrever sobre a liberdade, sobre a vida, sobre o vento balançando os cabelos das pessoas pelas ruas. Sobre sorrisos e mãos entrelaçadas. Mas eis que, logo pela manhã, me deparo com duas notícias tristes: A morte do garoto João Donati, em Goiás, e o incêndio no CTG (Centro de Tradições Gaúchas) de Santana do Livramento – RS. O que estas notícias tem em comum? O garoto João, de apenas 18 anos, foi assassinado por ser Gay. O CTG estava sofrendo ameaças, pois iria sediar um casamento comunitário em que um dos casais inscrito era homossexual. Embora no CTG ninguém tenha perdido a vida, ambas as notícias são trágicas – Trágicas para nós, como seres humanos, trágicas para um país que tem em sua Constituição Federal a garantia de igualdade, de não discriminação, garantia esta que não está sendo cumprida!

Lendo as reportagens sobre o assassinato do jovem, fica claro o nível de crueldade a que chegaram os assassinos torturadores. É isso mesmo que a sociedade quer? Segundo reportagem, na boca do jovem havia um bilhete com as palavras “vamos acabar com essa praga”. Seria a morte dele e de tantos (as) outros (as) um benefício para o mundo? Qual crime comete alguém que só deseja amar e ser amado? Qual a necessidade de se rotular afetos? Porque pensar que ele é diferente de nós? O certo seria pessoas amarem pessoas, tanto faz se uma mulher ama um homem, se um homem ama outro homem ou se uma mulher ama outra mulher… Ou se uma mulher ama outra que nasceu homem e se tornou mulher. Ou uma mulher ama dois homens. Ou dois homens amam duas mulheres. Em um mundo já tão violento e cheio de mazelas, o amor deveria ser refúgio comum a todos, sem distinção, sem preconceito.

É irônica uma sociedade que crucifica uma garota que cometeu um ato racista em um estádio de futebol, mas aceita passivamente a agressão diária contra os LGBT’s. É irônico saber que algumas pessoas que se dizem cristãs e pregam a intolerância às outras apenas por não seguirem os modelos afetivos tradicionais. Alguém deveria avisar essas pessoas que Deus deu a vida para cada um cuidar da sua. Você acredita que gays vão para o inferno? Não seja gay. Simples assim. Alguém deveria avisar aos grupos que pregam o ódio em nome da religião que na Bíblia há uma passagem que diz “amai-vos uns aos outros”, e que amar não é agredir, não é marginalizar, não é matar. Palavras influenciam. Se hoje alguém prega o ódio, amanhã outra pessoa pode praticar um ato de ódio inspirada por suas palavras, então, pense no que vai dizer, principalmente se você é de alguma forma um formador de opiniões. Ninguém nasce odiando ninguém, mas aprende pelo caminho a cultivar o ódio e a maldade.

O jovem João Donati tinha família, amigos e um futuro pela frente. Eu não o conheci, não sei o que ele faria de sua vida e, devido a um ato violento de intolerância, ninguém mais saberá e talvez com ele seja enterrado um grande destino. Seus familiares e amigos irão, dia após dia, sofrer o vazio de sua ausência e nada poderá ocupar o espaço vazio. E essa tristeza deveria ser de todos nós, não apenas da família ou amigos, mas de todos. Por quê? Por que é inimaginável pensar que em pleno ano de 2014 ainda seja comum ver pessoas serem agredidas e mortas apenas pela sua opção sexual.

Há um projeto de lei, 122/2006, que criminaliza a homofobia, incluindo a discriminação sexual no Código Penal e este projeto está parado no Congresso Nacional e, enquanto ele assim permanece, perdemos a cada dia mais vidas neste país tão grande, tão generoso e, ao mesmo tempo, tão cruel.

Fica aqui um apelo: lembrem-se que homofobia mata. Até quando será preciso lembrar isso? Hoje a bandeira se ergue novamente manchada por sangue inocente. Não apenas a bandeira do arco-íris, mas a bandeira brasileira.

LGBT: Até quando será necessário lutar para mostrar à sociedade que o Amor deve ser livre?

LGBT blog

Ontem um trecho da Avenida Ana Costa (Santos/SP/Brasil) foi palco de uma grande concentração de pessoas. Jovens, adultos, homens, mulheres, negros e brancos reunidos por um objetivo comum: Protestar contra a atitude homofóbica. Depois de pouco mais de uma hora confeccionando cartazes, conversando e fazendo amigos, finalmente partem em marcha sob a flâmula do arco-íris e entoando gritos de guerra como “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser”, “homofobia mata”, “Pula saí do chão quem é contra a opressão”, “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Destino? O Bar Toca do Garga, que havia expulsado um casal homossexual do estabelecimento. Foi uma caminhada pacífica, assim como foi pacífica a manifestação em frente ao bar, que terminou num grande “beijaço LGBT”. Mudou a opinião intima dos freqüentadores daquele espaço? Do dono do bar? Acredito infelizmente não, porém, talvez faça com que tais pessoas (e outras que acompanharam o caso todo) pensem duas vezes antes de tomar uma atitude discriminatória.

Foi bonito ver a união. Foi incrível conhecer o movimento Mães Pela Igualdade, formado por mães de homossexuais que querem ajudar a garantir que seus filhos tenham um lugar seguro na sociedade, que não sofram violência física ou moral. É pedir muito? Acho que não. Foi incrível ver heterossexuais por lá também, conscientes de que as diferenças DEVEM ser respeitadas, de que a espécie humana é uma só e todos merecem compartilhar este mundo com igualdade.

É triste pensar que em pleno século XXI a humanidade já conquistou tantas coisas, mas não conquistou ainda o respeito pelo semelhante. Ainda é preciso se reunir, marchar e lutar por um mundo onde o amor seja livre? Onde cada um busque a sua felicidade da forma que melhor lhe apraz? Qual o sentido de discriminar o próximo pelo que ele faz em sua vida pessoal? É engraçado como as pessoas falam tanto em amor, amor, amor e não conseguem aceitar que não existe uma só forma de amar.

Participei do ato de ontem com orgulho e vou participar de quantos atos forem necessários até que a sociedade entenda que o amor não se prende a gênero. Até que seja comum ver pessoas de mãos dadas pelas ruas. Ver beijos trocados nos encontros e despedidas, nos bares, nas baladinhas sem que isso seja motivo de escárnio, ódio ou choque. Até que não mais seja necessário levantar uma bandeira para lutar por direitos. Até que o arco-íris possa ser erguido com orgulho sim, mas não como luta e sim como comemoração!

 

Créditos da Imagem: Julio I.