Brasil: Um país de luto, um país em luta.

Sábado. Em um país arrasado pela pandemia a população toma as ruas buscando defender os poucos direitos duramente conquistados ao longo de anos e anos de luta. Está em curso a implementação de uma política genocida – Sem auxílio suficiente para a própria subsistência, a maior parte da população joga uma roleta russa todos os dias: Morrer de vírus ou de fome é cada vez mais um destino certo. É triste ver trabalhadores e trabalhadoras arriscando suas vidas nas ruas – É uma manifestação de luta, mas, acima de tudo, é uma manifestação de luto: Vários cartazes se erguem indicando “Estou aqui por mim e pelo meu/minha (insira aqui: pai, mãe, filho, avô, avó, filha, marido, esposa) que morreu de uma doença que já tem vacina – A culpa é sua, Bolsonaro”. Sim. Quem está acompanhando a CPI sabe que bastava o presidente responder um e-mail e o país teria evitado milhares de mortes. O negacionismo presidencial mata todos os dias: É urgente que se acelere a vacinação, que haja um isolamento social sério, com auxilio suficiente para as necessidades básicas, é fundamental que o uso de máscara seja duramente cobrado no dia a dia. A CPI mostra o que quem acompanhou um jornal sério percebeu durante todo o último ano: O presidente da república tripudia da doença, promove aglomerações sem uso de máscara e não investiu dinheiro em vacinas quando teve a oportunidade, preferindo apostar na já contra-indicada cloroquina. Pois é. O povo que estava nas ruas sábado arriscou a própria vida para lutar por um país que em 2018 escolheu nas urnas o genocídio e a barbárie. A população luta nas ruas em sua manifestação que acontece por já ter sido espoliada de tudo – Inclusive do medo. Isso é grande, mas é também profundamente triste. Diante disso não cabe pedir a nenhuma entidade metafísica que tenha piedade pelo país que vive um momento trágico – É hora de crescer, abrir mão de mitos e heróis e entender que o que o país precisa é consciência de classe, consciência política, consciência ecológica e Impeachment.

A “marcha da família cristã pela liberdade… de morrer e matar” [Beda 11]

Ontem foi o 100° dia do ano. Faltam 265 dias para a chegada de 2022. Ultrapassamos as 350 mil mortes sem aprender nada e ainda há quem apoie o genocida que ocupa a presidência há 832 dias. Hoje aconteceu a “Marcha da família cristã pela liberdade” – ao ignorar a necessidade de manter o isolamento social e tomar as ruas reclamando a retomada  das atividades religiosas presenciais e do comércio sem restrições, essas pessoas pedem nas entrelinhas o massacre da população brasileira pela doença, enquanto a miséria avança e um auxilio emergencial insuficiente começa a ser pago. Nietzsche certa vez disse que o único cristão verdadeiro morreu na cruz – Começo a acreditar no filósofo. Quando vejo a maioria desses eventos das igrejas não consigo  enxergar o tal “amor cristão”, apenas uma densa cortina de  descaso e ódio. A triste realidade é que enquanto o mundo luta contra o vírus, o Brasil parece fazer o contrário: Aqui o covid teve e continua tendo uma recepção de gala, com apoio institucional e festa nas ruas, com as bênçãos cristãs e os aplausos do povo gado.

Este post faz parte do BEDA (Blog Every Day April). Visite também:

Lunna Guedes, Obdulio, Mariana Gouveia, Roseli Pedroso, Adriana Aneli, Ale Helga, Claudia Leonardi

Brasil. Para a dívida das igrejas, o perdão. Para o trabalhador, o extermínio.

Em uma rápida busca, encontrei mais de cinqüenta municípios brasileiros com menos de 3500 habitantes. Não aprofundei a pesquisa para encontrar mais. Na última semana vivemos dias de terror, como se diariamente um município inteiro desaparecesse do mapa. Enquanto isso ainda há quem promova aglomerações, bata continência para caixas de cloroquina e defenda a política genocida do “a vida tem que seguir normalmente, mesmo que haja mortes”. Cobrar auxilio digno, vacinação ampla e que o dinheiro usado para perdoar a bilionária dívida das Igrejas seja destinado ao combate à doença essa galera não cobra. Gado não pode ver uma CORONAFEST que já quer participar.  Mesmo diante de toda essa tragédia, tive esperança de escrever um texto curto e senão feliz ao menos esperançoso – Afinal, tivemos sim uma boa notícia: O anúncio de uma vacina 100% nacional, a Butanvac, desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com o hospital norte-americano Sinai seguido de um segundo anúncio, de outra vacina desenvolvida pela USP de Ribeirão Preto também com parceria internacional. Eu poderia parar este texto aqui comemorando o fato de que apesar dos cortes e da falta de incentivo, nossos cientistas trabalham incansavelmente. Mas infelizmente estamos no Brasil e a torneira de estrume vive aberta por aqui:

            Um funcionário da base governista fez um símbolo ligado aos supremacistas brancos durante a fala de um Senador. Ainda não houve punição. Circula um vídeo onde um homem cumprimenta o (des)governante do país e ao pousar para a foto faz exatamente o mesmo gesto – A reação de Bolsonaro? Repreender o homem, não pelo gesto descrito como “um gesto bacana”, mas “pega mal para mim”. O presidente considera um gesto ligado a grupos supremacistas como UM GESTO BACANA. Depois reclama de ser chamado genocida.

            A ex-apresentadora infantil Xuxa também mereceu repúdio ao sugerir que medicamentos sejam testados em presidiários “para que eles sejam úteis em alguma coisa”, evitando os testes em animais. Como vegetariana, também sou contra os testes em animais, mas acredito que a cobrança seja para que a ciência desenvolva métodos para depender cada vez menos desse tipo de teste, não para que usem seres humanos privados de liberdade como cobaias. A ideia defendida por Xuxa foi eugenista e merece repúdio, especialmente se considerarmos o sistema carcerário brasileiro como realmente é: Um sistema falido, que amontoa pessoas sem condições mínimas de garantia de seus direitos como seres humanos, onde muitos esperam anos até o julgamento, mesmo sendo inocentes – Inclusive recentemente o Fantástico e o Profissão Repórter falaram sobre isso: Pessoas presas injustamente, confundidas por características como “cor de pele” – Aliás, essa é mais uma prova do racismo: Todas as pessoas “confundidas” eram negras. É em um sistema desses que a ex-rainha dos baixinhos acredita ser ético testar produtos? Ela até pediu desculpas, mas não convenceu.

            Notícia mais ou menos boa é a vacinação de funcionários da educação e policiais. Infelizmente, ao primeiro grupo será exigida a idade mínima de 47 anos enquanto aos policiais será garantida a vacina para qualquer idade. Injusto, pois apenas aumentará a pressão pela volta às aulas presenciais em um momento delicado em que a COVID vem matando pessoas cada vez mais jovens. Espero que o movimento “volta às aulas só com vacina” se mantenha forte.

            Também tive conhecimento de que novamente tentam empurrar para as mulheres vítimas de violência sexual o projeto apelidado como “Bolsa estupro”: Uma proibição para o aborto em casos de estupro, com previsão de que o estuprador assuma o bebê ou caso isso seja impossível, que a mulher receba um auxilio financeiro para manter a criança. Lindo país onde a vida do feto vale mais que a vida da mulher. Uma verdadeira vergonha que nem deveria ser cogitada.

            Por fim, uma última noticia para fazê-los refletir: Nossos produtos viajam mais do que nós. Conseguem achar realmente normal que um navio encalhado no canal de Suez possa causar uma crise econômica tão grande? Pois é. A globalização está cobrando seu preço. A troca de conhecimentos entre países é fundamental, mas realmente é necessário que o comércio internacional seja primordial? Não é possível que cada país encontre a maioria das soluções para a vida em seu próprio território? Na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Água (leiam minha postagem de segunda feira passada sobre o assunto), é interessante pensar na questão ambiental gerada pelos transportes marítimos, não apenas no caos econômico que acidentes assim podem causar.

            Termino o texto recomendando a vocês que usem máscara, se cuidem e usem toda a indignação do momento para cobrar auxílio emergencial digno, ajuda aos pequenos empresários, vacinação para todos e #Fora Bolsonaro.

O jacaré, a vacina e a meritocracia

Recentemente fui surpreendida com uma fala do presidente insinuando que quem tomasse a vacina para COVID-19 poderia se transformar em jacaré. Bem, não sei o motivo da surpresa – Em meio a uma pandemia que já ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros (sem contar as não notificadas) foram tantas falas sem pé nem cabeça que a história do jacaré poderia ser apenas mais uma. O problema é que esse tipo de coisa se alastra e infelizmente tem quem acredite – Estou em alguns “grupões” de whatsApp onde há uma intensa troca de informações nada confiáveis (como por exemplo o “grupão” do bairro e outros) e fiquei surpresa sobre a quantidade de conteúdo que tenho recebido sobre os perigos de se tomar vacina – Desde pessoas dizendo que causa autismo (fake news velha), até dizendo que altera o DNA ou pode transformar alguém em jacaré. Tudo isso com artes coloridas e chamativas que emprestam um ar de respeitabilidade pela fonte – E fazem as pessoas se esquecerem de que sequer há uma fonte citada. Então decidi que neste domingo, em vez de falar sobre todos os acontecimentos da semana que passou (ou das semanas já que há tempos não escrevia este tipo de texto), vou falar um pouco sobre coisas que realmente causam danos e a maioria da população consome sem questionar:

Agrotóxicos. Vocês sabiam que há agrotóxicos que causam aborto nas mulheres que moram próximas aos campos onde são aplicados? Sabiam que há estudos ligando a incidência de câncer ao consumo de alimentos com agrotóxicos? E que seus compostos tóxicos destroem lençóis freáticos, contaminando a água que iremos beber? Pois é. E sabiam que o governo Bolsonaro liberou o registro de mais de duzentos tipos de agrotóxicos, muitos deles proibidos em outros lugares do mundo? Pois é. Em vez de reclamar da vacina que irá salvar vidas, que tal pesquisar sobre isso e protestar contra essas liberações?

Metais pesados. Outro dia uma reportagem veiculada no Jornal Nacional mostrou um estudo feito em uma aldeia indígena no Pará. Muitos indígenas apresentavam uma quantidade excessiva de metais pesados no corpo. Assim como o rio e os peixes que chegam ao consumo da população. Esses metais são decorrentes da mineração, principalmente da extração do ouro. E eles vão chegar até a sua mesa – mais cedo ou mais tarde – envenenando o seu corpo e causando inúmeros problemas de saúde. Então, já que a indignação pelo descaso com a população é tão grande, pesquise e questione sobre isso também. Uma dica: Advinha quem é super favorável a liberar geral a mineração? Ele mesmo, Bolsonaro.  

Microplástico. Sabia que no Brasil apenas 3% do lixo produzido chega a ser reciclado? Sabia que animais marinhos morrem por ingestão de plásticos ou acidentes relacionados ao lixo? Pois é. E recentemente cientistas encontraram microplástico em uma placenta humana – tudo indica que aquele aglomerado de celular que irá formar um bebê está sendo formado por células e… Plástico! Por outro lado, a Alemanha anunciou que a partir de 2021 estão proibidos os plásticos descartáveis no país. Então, se você realmente se importa com a vida, usa o tempo desperdiçado retransmitindo fake news sem sentido para pesquisar sobre os danos causados pela poluição e diminuir seu consumo de plásticos, optando por produtos naturais, utilizando sacolas de pano para as compras e separando o lixo para a reciclagem. Vai ser mais útil pra você e pro planeta.

Agora, como eu sou uma pessoa legal e estou de bom humor, vou deixar uma dica para você que realmente acredita que a vacina irá transformar pessoas em jacarés mutantes: Jacarés possuem muitos dentes – Como os jacarés advindos da vacina serão meio humanos, ainda permanecerá o hábito de utilizar fio dental e pasta de dente, fazendo o consumo destes itens subir vertiginosamente. Então, você que acredita mesmo nesta fala absurda do SEU presidente, pegue o SEU dinheiro e compre fio dental em  grande quantidade– Quem sabe você se ocupa vendendo para os híbridos humanos jacarés recém vacinados? Afinal, se você não ficar rico fazendo isso é uma questão de meritocracia, você apenas não se esforçou adequadamente – Os jacarés estavam logo ali, você não viu não? É só procurar e se esforçar bastante que vai dar certo. Confie, afinal, se o mito falou e caiu na internet, deve ser verdade.

Sobre eleições, apagão e barbárie.

O plano era escrever sobre o processo eleitoral, os resultados das urnas pelo Brasil e aqui na minha região e algumas perspectivas sobre isso – Não consegui escrever nada domingo passado, pois fui mesária e voltei exausta e ansiosa para acompanhar as votações. Mas o Brasil não é para amadores e outros fatos irromperam e modificaram completamente os planos. O primeiro absurdo da semana foi saber que o Amapá permanece sem energia elétrica e que o desgoverno planeja cobrar das contas de luz do restante do país os custos dessa tragédia – Ou seja: Privatiza-se a distribuição de energia elétrica, o serviço fica ruim, um incêndio deixa o Estado sem luz e a conta será cobrada de quem? Da distribuidora que não tinha um plano emergencial? Não. Será cobrada de mim, de você e de tantas outras cidadãs e cidadãos Brasil afora. Tudo isso enquanto a crise sanitária se agrava – apesar de alguns setores fecharem os olhos e fingirem que estamos vivendo uma normalidade – Aliás, olhos fechados e, no caso da cidade onde vivo – Centrais de Atendimento especializadas em COVID-19 também: Ontem fiquei sabendo que São Vicente desativou o centro de COVID.

            Outra notícia que tomou conta das manchetes este final de semana foi o assassinato no Carrefour de João Alberto, um homem negro que ironicamente ocorreu às vésperas do Dia da Consciência Negra. Se você vai dizer que não foi racismo, respira um pouco e tenta lembrar quantos clientes brancos você já viu causando confusão em supermercados e quantos desses vocês já viram ser espancados – Possivelmente a resposta é: Zero. Pelo menos eu já presenciei um homem branco dar um soco no rosto de uma operadora de caixa e sair escoltado pela segurança da loja – Nem a polícia foi chamada. Ele apenas foi embora. Assim como um cliente na antiga loja onde trabalhei – O segurança até segurou pelo casaco que se abriu e deixou cair um monte de produtos da loja, mas deixaram-no ir. Nada de polícia. Pediram que ele ficasse sentado em um banco até o fechamento da loja e se afastaram. Ele simplesmente saiu andando para não voltar. Se fosse um jovem negro, no mínimo sairia na viatura (coisa que já presenciei também). Fora os casos de recusa em utilizar máscara: O cliente agride em funcionários e funcionárias – Vocês já viram alguma reação semelhante ao que aconteceu no Carrefour? Não. Deveria existir essa reação desproporcional? Não. O papel da segurança não deveria ser matar pessoas, mas alguém convenientemente esqueceu de avisar isso a eles.

            Ainda sobre o caso de João Alberto, chegamos aos protestos ocorridos: Houve alguns casos de vidraças quebradas – Interessante que, quando essas coisas acontecem fora do país, a mídia retrata apenas como “manifestantes”, quando ocorre no Brasil, os mesmo veículos nomeiam “vândalos”. Não entrarei aqui nos pormenores se é correto ou não quebrar vidraças – Só vou dizer que apesar dos vários motivos que teria para ser contra, não acho que eles não tenham suas justas razões – como diria a célebre frase: “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor” – Afinal, já encontrei ao menos seis manchetes diferentes de casos absurdos envolvendo a rede Carrefour. Por outro lado, acredito muito na prática do boicote. Acho um pedido justo. Boicote contra empresas racistas, boicote contra homofóbicos e boicote contra quem colaborou para a eleição desse governo genocida, mas como tudo na vida, há um entretanto: Infelizmente, essas grandes empresas conseguem preços mais baratos e, para quem sobrevive com quase nada, faz uma enorme diferença pagar um pouco mais em conta. Então, sim, sou a favor do boicote, dentro do possível e do praticável, pois sei que para a maioria da população brasileira, aquela pequena economia pode ser a diferença fundamental entre ter comida no prato ou passar fome – Aliás, eu mesma não sou rica e vivo de promoções, embora minha realidade permita consumir prioritariamente de feiras livres e pequenos comércios que vendem grãos a granel e seja extremamente raro eu precisar ir até um supermercado grande, mas essa é a minha realidade. Então, queridos e queridas que pedem boicote: Ampliem seus discursos e comecem a orientar as pessoas sobre opções de alimentação saudável, econômica e ambientalmente sustentável para que se amplie a economia solidária e os pequenos comércios, gerando empregos e diminuindo a dependência da população dessas grandes redes. Se não for assim, o “boicote” vai durar uma, talvez duas semanas e cairá no completo esquecimento.  

            A notícia boa da semana é que pela primeira vez elegemos uma mulher negra e psolista para a câmara municipal de Santos e há chances reais de que Guilherme Boulos seja eleito em São Paulo, o que significaria uma grande derrota ao bolsonarismo e uma necessária guinada para a esquerda – Só saliento que um governo se faz de pessoas: Não adiante eleger o melhor se não houver participação e organização popular, então busque participar de alguma forma da política: Participe de movimentos sociais, movimentos ambientais, escolha algo que te inspire e milite pela causa – O mundo começa a mudar com o seu voto, mas a verdadeira mudança demanda participação popular, então separe o tempo (que eu sei que você, assim como eu, provavelmente não tem sobrando) e se organize com outras pessoas em prol da mudança. Sobre a eleição municipal da minha cidade, comentarei em algum momento no decorrer da semana – Não será um texto longo, mas é um tema que prefiro tratar em separado, ainda mais considerando que estamos em um segundo turno entre uma candidatura tucana e uma candidatura de partido da base de apoio ao governo. Espero que na cidade de vocês as coisas estejam melhores.

            Enfim, abraços a todos e todas, #ForaBolsonaro, boicotem empresas racistas se isso não significar falta de itens essenciais para vocês e não tenham pena de vidraças nem comprem a história da mídia que chama manifestantes de vândalos – Afinal, não vi ainda nenhuma manchete chamando de vândalos ou bandidos os madeireiros que incendeiam a Amazônia, nem as mineradoras que inundaram Mariana e Brumadinho, muito menos os fazendeiros que incendiaram o nosso Pantanal.