Ode a memória

Ah, Liberdade! Como és fugidia!
O som maldito dos coturnos 
Pisoteando a frágil democracia
Iniciando vinte e um anos soturnos

Nossa terra diuturnamente vilipendiada
Diziam ser para o bem da Nação
Enquanto torturavam inocentes no porão
Rindo da dignidade humana violada

Aos abutres da ditadura: O lixo da história
O eterno o repúdio aos ignóbeis atos
Às vítimas o direito à verdade e à memória
Que nunca sejam esquecidos os tristes fatos

Que o terror desses anos nunca seja esquecido
Pois o passado nunca é apenas o tempo ido
Que reverbere pelos ares o brado: Foi golpe
Que persista a luta: 1964 nunca mais! 
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Hilda Furacão

Primeiro livro do #DesafioLiterário2020 #Novembro, Hilda Furação é um romance publicado em 1991 pelo autor mineiro Roberto Drummond. Adaptado para a televisão, Hilda Furacão é baseado na história de uma prostituta que ficou célebre na Zona Boemia da cidade.

            O livro não é fiel a todos os acontecimentos – Nem todas as personagens existiram no mundo real embora muitos tenham sido baseados em pessoas com as quais o autor se relacionava. O romance caminha lado a lado com a realidade brasileira já a um passo do golpe militar de 1964, retratando o eterno medo do “fantasma do comunismo” em uma sociedade onde impera a beatice católica e o mexerico sobre a vida alheia e onde jovens ainda sonham em fazer a revolução, inspirados em Marx, Che e Fidel. Interessante inclusive retratar as diferenças históricas da esquerda presente no Brasil naquela época em relação aos militantes de hoje: Enquanto hoje há uma forte tendência da esquerda brigar pela liberdade das pessoas, contestando posturas machistas ou conservadoras, o autor nos traça uma esquerda que, nos anos 60, postulava que seus militantes mais jovens mantivessem a castidade.

            A história ganha uma mística especial quando conhecemos a profecia que envolve o sapato da protagonista – que passa então a ser vista como uma “gata borralheira” – É inevitável que se torça pela realização de um conto de fadas na vida de Hilda, mesmo com o narrador – o próprio Roberto Drummond – protelando o desenvolvimento da história e ao mesmo tempo envolvendo o leitor em outras histórias paralelas: Drummond faz com que a pessoa que lê se apegue e deseje saber o desdobramento dos fatos na vida das personagens: Torcemos para Aramel cumprir sua promessa e fazer chover dólares, ficamos de coração partido por Emecê que não consegue coragem de encontrar a bela Gabriela e angustiados pelo “Santo” perdido em tentações.

            Um ponto que me chamou atenção é que, no livro, não há uma exploração sensual da beleza de Hilda – Em alguns momentos, até o contrário: A protagonista tem a aparência de um anjo. Já na série de televisão as câmeras não poupam a exposição do corpo de Ana Paula Arósio, atriz que interpretou Hilda – Não com vulgaridade, mas como uma volúpia que as letras não transmitem.