A saudade é o molho agridoce da vida

Há tempos a menina não tinha um momento silencioso, apenas entre ela e seus sentimentos. A rotina a estava sufocando em meio ao nada que se tornaram os dias, repentinamente iguais. De repente, estava mais fácil criar histórias do que contá-las. E certamente estava infinitamente mais fácil contar qualquer história criada, do que olhar para dentro e ver dentro de si um lago de águas espelhadas encobrindo um abismo profundo de emoções. Como tudo havia mudado em tão poucos meses? Algumas de suas certezas mais profundas haviam se reforçado com o isolamento, outras haviam mudado um pouco. Ela tinha certeza sobre o amor, sobre a escrita e sobre a magia encontrada no calor aromático da cozinha. Ela tinha certeza sobre as saudades e lembranças que a invadiam ao sentir o aroma do café pela manhã ou ao ouvir Rammstein enquanto flutuava entre as posturas do yoga. Então, um dia, enquanto olhava seu velho livro de receitas, encontrou uma receita que a fez perceber que a saudade tinha um sabor agridoce – Unia, dentro de seu coração de menina-mulher, memórias doces, apimentadas, salgadas: O doce mel daqueles olhos profundos, o apimentado da pele que se arrepiava quando os corpos se encontravam em um abraço, o sal das lágrimas de saudade que insistiam em descer pelos olhos dela tão logo se despediam. Sim, o amor, a saudade, a ausência e a esperança eram sentimentos agridoces e a menina era grata por poder senti-los com tamanha intensidade, por isso, ela abriu seu caderno e escreveu sobre o que sentia enquanto provava o molho que havia preparado. Um dia talvez compartilhasse o texto e a foto em um livro de receitas ou nas redes sociais, como um registro de seus sentimentos deixado para uma posteridade que possivelmente não tivesse tempo ou sensibilidade para perceber que as coisas mais bonitas moram na capacidade de se entregar completamente aos sentimentos e sabores que a vida nos traz.

Receita: Molho Agridoce

100gs de açúcar

1 colher pequena de sal

6 colheres (sopa) de água

2 colheres (sopa) de shoyu

4 colheres (sopa) de vinagre

2 colheres (sopa) de katchup picante (ou um molho de tomate caseiro bastante condimentado)

1 colher (sopa) de maisena

Misturar bastante e depois levar ao fogo para engrossar, mexendo sempre para não criar pelotas. Passar sobre couve-flor pré-cozida, cebola fatiada e proteína de soja previamente hidradata, colocar tudo em uma assadeira e levar ao forno até dourar.

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Esse post faz parte do BEDA (Blog Everyday August)

Participam:

ObdulionoMariana GouveiaDricaChrisClaudia Viviane Lunna Guedes

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06 on 06 – Quem sou eu?

Quem sou eu? Sou um Universo todo. Todos nós somos Universos, inteiros, completos, insondáveis. Como astronauta, exploro as estrelas, galáxias, planetas que há em mim – Quanto tempo nós passamos na vida buscando o que está fora e ignorando nosso céu estrelado? Quantas horas perdidas em vida com medo da inevitável aterrissagem dentro de nós, das caminhadas à beira do abismo, das incursões em nossas florestas sombrias, das manhãs frias? São anos insistindo em ver e mostrar apenas os nossos Jardins, nossas flores coloridas, criando uma eterna primavera que, na vida real, é impossível – Pois existe também o inverno, o outono, o verão. Então, sem mesmo conhecer cada recanto do meu Universo, fica impossível responder quem sou com outras palavras além das que já disse e melhor explico: Sou um Universo e sou minha própria desbravadora. Como todo Universo, estou em constante mutação, pois nada no Cosmos é igual e eterno. Um Universo em constante integração com tantos outros Universos que me cercam – Alguns desses Universos repelem-me e causam repulsa. Outros me atraem para suas órbitas e assim, mutuamente, ampliam a si próprios e a mim, através do dialogo. Eventualmente, há Universos que me atraem a ponto de que eu deseje permanecer dentro deles por mais tempo, e isso, se chama amor – Essa atração irresistível entre dois Universos que se cruzam no caos infinito do mundo, mas essa definição fica para outra conversa

Pintura: Adriano Dica

Fotos: Fotoclube Frame

Texto: Darlene R. Faria

Também participaram do projeto:

Ale Helga (blog Meus Amores)

Lunna Guedes (blog Catarina)

Mariana Gouveia (Blog O outro lado)

Obdulio (Blog Serial Ser)

Lucas (Blog Universo Desconhecido)

#DiáriosdaPoetisa #02de366: Sopa de saudades, sonhos, pimenta e amor, com feijões

E a chuva veio. Chuva de verão, intensa, torrencial. Minha rua virou rio. Água que não acaba mais levando toda a sujeira humana pros rios, que vão pro mar, numa triste visão de sacolas e garrafas flutuando. Fora de casa, sou obrigada a passar pela água, que está alta e entra pelas botas de borracha. Banho tomado, álcool passado nos pés. Só falta uma sopa pra esquentar – Lembro que outro dia congelei caldo de feijão roxo que de tão mole derreteu ao cozinhar.Tiro do congelador, hidrato alguns pedaços de proteína de soja, pico cinco dentes de alho, meia cebola e um pedacinho de pimenta. Espremo a proteína, tempero com barbecue. Jogo um fio de óleo e refogo tudo, com um pouco de sal e alguns cubos de tofu defumado. O aroma começa a invadir a casa. Acrescento o caldo e um pouco de água, a fervura derrete o gelo enquanto escrevo – cozinhar sempre me inspira. Acrescento salsinha. Fecho os olhos e respiro fundo: Em um segundo as imagens de caos das ruas inundadas são substituídas por uma sensação boa de relaxamento. Acrescento na panela o resto do macarrão do almoço, sem molho. Espero engrossar um pouco, mergulho no aroma e nos pensamentos, me deixo levar até lembranças doces que nenhuma chuva seria capaz de apagar. Sirvo a sopa em um prato – O sabor é um misto de saudades e leves sonhos temperados com pimenta e amor, que um dia quem sabe, serão compartilhados, junto com uma sopa quente.

O conto da página em branco

Me deparo com a página ainda em branco. Não é falta de inspiração. É excesso. São as vozes das personagens que trago em mim competindo entre si, querendo narrar a história perfeita. São as lembranças que meu coração guarda e que criam vida própria, desejando tornar-se texto, conto, crônica, história a se contar. Meus dedos tentam escrever e se perdem, entre lembrança e ilusão, entre a sensação da grama abaixo dos pés e o imenso céu acima de nós. Revisito momentos, sinto o cheiro do café, do mar, do perfume da tua pele junto da minha. Provo em minha imaginação o sabor dos teus lábios, tua saliva espalhada pelo meu corpo, meus beijos espalhados em ti, causando arrepios. Preciso urgente escrever, mas não consigo. Me vejo inerte diante do papel. É como se as lembranças precisassem amadurecer antes de se tornarem eternas (ou quase isso). Preciso ouvir a menina-devassa narrando ao pé do ouvido tudo o que viveu com seu Senhor – pois a ela pertencem os contos, o erotismo, a impureza que alimenta as chamas do mundo. Somente a ela cabem essas noites em claro, essas marcas na carne, essa incontida febre de paixão. A mim, cabem os poemas doces, o castelo de areia e o príncipe encantado que nada mais é que uma miragem no deserto. A mim, cabe observar o mundo e o transformar em poesia. Já ela, ela é em si mesma um poema sem regras, uma prosa envolvente, uma ardência que invade sem pedir licença. A menina é o “eu” que existe no papel e que me olha através do espelho todas as manhãs, com um brilho nos olhos e um sussurro “arrisque-se”. Algumas vezes sinto que deveria deixa-la viver um pouco mais, mesmo quando Ele está longe – Talvez fosse bom deixar a insensatez da personagem controlar um pouco a vida da mulher. A menina é capaz de proteger o próprio coração. A mulher, não. A menina entrega o que a mulher insiste em resguardar. E elas seguem seu caminho, juntas, compartilhando a atenção da poetisa que carrega ambas dentro de si, e sorri ao olhar no espelho e reconhecer alguns traços de uma e de outra em seu escrever.

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*Este post faz parte do projeto BEDA*

Diários da Poetisa 01/365

Era uma vez o primeiro raio de Sol de um novo ano. O mais aguardado por todos – Muitos passaram a noite acordados na praia esperando aquele novo dia. O que esperar de novo afinal? Pensava a poetisa, distraída entre conversas, músicas e o barulho do mar. Seus pensamentos acelerados exigiam um caderno, os olhos vermelhos, cansados pela noite de comemoração já não conseguiam fitar por muito tempo a tela do celular para escrever. Pensava que as palavras se perderiam na brisa suave. Seria uma pena. Precisava escrever. Tirou uma foto, sozinha. Havia ali algumas amigas, mas seu coração gostava de manter certas tradições que ela mesma criara: A primeira foto do alvorecer de um novo ano geralmente era reservada ao melhor amigo ou a melhor amiga. Sempre. E eles não estavam ali por motivos outros que não cabem no texto. Ela poderia ter tirado essa foto após a queima de fogos, mas o costume do alvorecer era maior. De alguma forma, ela sentia que apesar de quebrar sua própria tradição de sorte, o ano novo seria bom caso não tirasse a foto inicial com outra pessoa. Sorriu ao ver o céu ficar cada vez mais cor-de-rosa: A noite fora divertida, bem melhor do que havia imaginado meses antes. Faltaram alguns rostos e abraços importantes, mas por motivos bons. Não choveu. A música foi agradável. Conheceu pessoas, trocaram risadas e conversas, coisa que raramente fazia por ser tímida e acostumada a observar mais e falar pouco. Pulou as sete ondas e fez seus sete desejos. Nunca se realizaram os sete desejos dos anos anteriores, quem sabe nesse ano se realizariam? Despediu-se dos amigos feliz pela companhia. Seguiu caminhando pela praia, perseguindo o amanhecer. Tirou algumas fotos – alguma ilustraria os primeiros pensamentos de um novo ano. E assim o primeiro capítulo de 2019 foi escrito horas depois de acontecer – o sono certamente levou embora parte dos pensamentos agitados da menina-poetisa, parte das sensações e inseguranças, mas deixou bem mais do que ela poderia imaginar naquela manhã em que saudava o Sol e se encarregava de desejar que aquela claridade suave e bem-vinda trouxesse as melhores coisas para as pessoas que vivem em seu coração.

 

A praça

Quando foi que a cidade se tornou um lugar hostil? Já reparou na pressa das pessoas? Ninguém olha pro céu, nem pras árvores na pracinha – Aliás, praticamente ninguém para na praça pra conversar, ler um livro, namorar ou apenas observar o movimento. Dias atrás parei na praça pra tomar um lanche – os bancos estavam vazios – exceto pelo ponto de ônibus do outro lado, repleto de pessoas com rostos cansados. Vi os carros passando, farol abrindo e fechando. Fiquei imaginando como seria bom um encontro no final do dia, sentar ali naquele banco pra bater um papo rápido com aquele alguém especial pelo simples prazer da conversa, sem intenção nenhuma além de ficar alguns minutos de mãos dadas antes num lugar perdido no coração da cidade e pensando nisso me senti tão solitária quanto aquele espaço vazio onde havia me instalado pra descansar antes de seguir viagem. Terminei o lanche, fechei a bolsa, atravessei a rua e tomei meu lugar em meio aos rostos cansados no ponto de ônibus. Não resisti e fotografei a praça. Guardei o celular e subi no primeiro ônibus super lotado – só mais uma “sardinha” naquela lata de sardinhas sobre rodas. O corpo apertado pelo descaso com o transporte público, o coração apertado pela saudade das coisas que tendem a não acontecer.

Sobre os trens, as estações e a vida

Poucas coisas são mais simbólicas e poéticas que um trem percorrendo sua eterna linha onde um centímetro de desvio pode ser fatal- Não sei qual o motivo deste pensamento ter me ocorrido durante o final da tarde de hoje enquanto eu esperava o trem para retornar para minha casa após o primeiro dia de trabalho pós-recesso. Não que haja um trem interligando Santos – São Vicente, na verdade, o veículo está mais para um metrô que anda nos trilhos não-subterrâneos e chama-se VLT, entretanto, a poesia do seu vai-e-vem e a poesia de aguardar na estação é quase a mesma, guardadas as devidas proporções, de um trem e uma viagem longa. Enfim, por um momento perdi meus pensamentos – sejam quais forem os pensamentos que tenham me feito dar conta dessa simbólica e solitária poesia que cerca os veículos que caminham sempre sobre seus trilhos. Talvez de repente eu tenha percebido que assim como o percurso da máquina que me transporta, o tempo é também implacável e sem volta – e enquanto o trem corre tantas vezes ao seu destino, eu corro rumo aos 32 anos que se avizinham, e ao final deste ano de 2018 que em breve chegará com suas cores e suas falsas novas esperanças. Aliás, Julho, por si, é quase um mini-Dezembro: Uma divisão no meio do ano onde revisamos a lista – quase sempre não cumprida – e por vezes, estabelecemos algumas metas-relâmpago que no fundo sabemos que também não serão cumpridas. E ao mesmo tempo em que a viagem prossegue, as paisagens se sobrepõe rapidamente, assim como as memórias de momentos bons e ruins, saudades do que aconteceu e do que queríamos que acontecesse. Os olhos se enchem de lágrimas ocultas pelo óculos escuro, o coração se aperta – será que em alguma estação da vida haverá finalmente amor e aquele abraço para aconchegar o coração? Será que a viagem será sempre solitária? Haverá esperança antes da última estação, já no inverno da vida que se aproxima a cada ano? O trem chega ao destino – o dia terminou. Mas o trem da vida, este, continua correndo com todas as dúvidas, paisagens, solidões, eventuais sorrisos, algumas inseguranças, estações, chegadas e partidas – uma viagem sem volta que um dia chegará a seu fim.

Sobre solidão, bolo, livros e aplicativos de celular

Mais um dia frio. Um domingo gelado com o coração apertado de saudades. Apesar da melancolia, foi um dia produtivo. Usei aquele aplicativo legal, o Forest, que bloqueia o celular por um tempo para te impedir de perder o foco – Uma hora estudando violão, depois mais uma, depois mais uma. Quando foi que a vida ficou tão ligada a um celular que precisamos usar um aplicativo pra não olhar o aparelho? Não sei… Mas dizem que esse aplicativo planta árvores de verdade conforme a utilização, então, ok, uso ele quase o tempo todo – afinal, coisa rara é eu receber alguma mensagem interessante mesmo. Talvez, ironicamente eu esteja viciada em um aplicativo pra curar o vício em celular – engraçado, não? Em seguida, uma hora de leitura, um livro finalizado, um banho quente. E então, aquela ideia: Fazer um bolo. Bolo de laranja. E que tal laranja com maracujá? A cozinha é um lugar quentinho, repleto de histórias e sabores, um lugar mágico para esquecer por algumas horas os tons de cinza que cercam a vida e a falta de sabor do dia a dia. Acho que já comentei outras vezes o quando cozinhar significa pra mim, certo? Bolo pronto, cama arrumada – já são mais de dez da noite e amanhã a semana recomeça. Mas o sono ainda está longe, longe… E como tantas vezes o único remédio que espanta todo o tédio de mais um dia que se arrastou é pegar o caderno, apostila, livro, lápis e borracha e estudar – sim, a verdade é que apesar de tudo, nunca fui nerd, sempre fui profundamente entediada.E lá vou eu: Um pedaço de bolo, meu ursinho de pelúcia, material de estudo, jogada na cama e pronta pra mais uma hora longe do celular e mergulhada nas tarefas (espero que a essas alturas minha professora esteja orgulhosa de mim) – Mas antes de bloquear tudo, uma foto – afinal, quando o período de estudo acabar, vou ter algo pra escrever – nem que seja o relato de um dia tedioso, um bolo gostoso e o desejo permanente de que aquela pessoa especial pudesse estar por perto pra dividir um pedaço desse bolo com um café quente e um sorriso cheio de mistérios. #DiáriosdaPoetisa

(10/06/2018)

 

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Um conto de descobertas na escuridão, parte II: Coroada

Depois de algumas voltas com os olhos vendados e as mãos dele passeando pela sua pele, ele estacionou novamente o carro. A luz do sol inundou seus olhos quando ele removeu a venda de seus olhos. Sentiu o vento balançar seus cabelos quando abriu a porta e ficou em pé. Então ele pediu que ela fechasse os olhos novamente – ouviu o porta malas abrir e sentiu algo ser colocado em suas mãos – uma coroa com pedrinhas coloridas. Ela sorriu, ele delicadamente a virou e, retirando-lhe a coroa das mãos. Já não era o vento que mexia em seus cabelos, e sim as mão de seu príncipe que, com toda delicadeza lhe coroava. Caminharam pela rua pouco se importando com alguns olhares curiosos. Era seu dia, seu aniversário, e aquela tarde tão perfeita a fazia sentir-se uma princesa de verdade, uma princesa debutante do mais belo reino: O reino do coração daquele Príncipe que a escoltava com atenção e carinho pelas ruas naquele final de tarde quente. Ele a levou até uma sorveteria discreta e acolhedora – o geladinho do sorvete deslizando pelos seus lábios contrastava com o calor do desejo que inundava seu corpo. Ela simplesmente desejava que ele pudesse fazer amor com ela ali, deitada sobre aquela mesa entre sorvetes e coberturas – e pensar isso a assustava: Tais pensamentos jamais a haviam invadido antes! Sempre acreditara que um relacionamento feliz deveria ser casto e, de repente, sua imaginação devaneava libidinosamente. Seria ele um Príncipe ou um feiticeiro? Ou um príncipe feiticeiro que a arrasta em meio a tempestades e mistérios sensuais que até então desconhecia?

            O caminho de volta é tão intenso quanto o início do passeio – A venda nos olhos amplia seus sentidos, como se a retirada temporária da visão pudesse fazer com que tudo se tornasse mais intenso. Ela se esforça para calar seus próprios pensamentos – Deseja desesperadamente acreditar que aquela tarde foi um encontro entre um garoto e uma garota que estão descobrindo sentimentos intensos juntos, mas, no fundo, ela sabe que foi um encontro entre os personagens que criaram para viver em uma realidade paralela – um jogo onde há prazer sem que a paixão os fira. Ela sabe que, no dia seguinte, quando estiver comemorando sua primavera, ele estará presente em seu almoço entre amigos – e sabe que ele a olhará com o carinho da amizade, mas sem o ardor quase palpável com que a olhou hoje. Todos esses pensamentos não seguem uma linha de raciocínio, ela apenas tem lampejos entre um toque e outro, entre um sussurro e outro. Ele a está levando para casa – Uma princesa na carruagem de seu príncipe. E ela sabe que, assim que colocar os pés do portão para dentro, irá dedicar-se ao preparo dos pratos a serem servidos no dia seguinte, e que, ao cair da noite, após um banho, ela irá pegar seu caderno e escrever todos estes pensamentos – e nesse momento, observando a coroa repousar na estante, ela se sentirá novamente uma princesa, uma princesa solitária aguardando seu romântico final feliz que, provavelmente, não esteja escrito no livro da vida. E ainda assim ela irá sorrir, pois ao menos aquela personagem obscura, que é também parte dela, conseguiu encontrar seu lugar.

(25/11/2017)

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O conto das trinta auroras

Ela abriu o caderno com a sensação de quem reencontra um velho amigo. Releu os últimos textos – A maioria sobre filmes, livros, ideias para textos futuros, projetos de escrita. Há tempos não escrevia sobre ele – o que não significava que não pensasse todos os dias naqueles olhos que lhe tiravam o ar e a lançavam num espaço infinito de incertezas e desejos intensos. Ela ainda não ousara escrever-lhe poesias ou cartas, como se o fato de usar a primeira pessoa fosse tornar ainda mais real os sentimentos e lembranças que ela lutava para manter na seara dos sonhos bons, dos devaneios impossíveis – era uma falsa segurança – Aos poucos percebia que manter um afastamento de sua própria história, escrever como uma terceira pessoa observadora dos fatos, nada disso deixava seus sentimentos e desejos menos reais. Trinta auroras o mundo havia  presenciado desde a noite do beijo-mergulho, e ainda assim, parecia que havia acabado de acontecer, como se passando os dedos sobre os lábios ainda conseguisse sentir a umidade suave que a boca dele deixara ao corresponder àquele tímido beijo roubado – as lembranças tornavam-se sensações quase reais. Em algumas noites acordou sentindo o coração acelerado e um revoar de borboletas no estômago. Em alguns finais de tarde, desejara poder simplesmente deitar em seus braços na areia da praia olhando o Sol se recolher. Sabia que quase não havia possibilidade de formarem este tipo de casal – O coração já apertava ao pensar nisso, mas não chegava a doer, já estava mesmo acostumada a não despertar o tipo de interesse  romântico no sexo oposto – Talvez não fosse bela ou interessante suficiente, muito embora, no fundo sentisse que na verdade, entregava-se tão profundamente que, oferecendo plena confiança e compreensão, sua beleza (se é que a tinha), acabava tornando-se um item menos importante, meio apagado diante de alguém que oferecia uma amizade leal e intensa – tão rara entre homens e mulheres nos dias de hoje. Ela acreditava que relacionamentos deveriam pautar-se primeiramente em uma amizade verdadeira – mas sabia que era uma visão pouco comum. Sabia também que ele lhe devotava a mesma amizade leal, pura e verdadeira – e isso já a fazia feliz. Sentia também que havia uma atração forte entre eles, talvez a chance de uma amizade colorida – E, olhando no espelho, ela se perguntava se conseguiria seguir este caminho ou se continuaria lutando contra o mar, tentando erguer muros e limitando seus sentimentos por ele aos de um amigo, reprimindo os desejos que lhe afloravam a mente, relegando-os as linhas de seu caderno e aos sonhos incontroláveis que lhe invadiam a noite. E com essa grande interrogação, terminou de escrever e guardou o caderno – Era hora de dormir. Que a noite lhe trouxesse mais sonhos bons e a aurora lhe inspirasse a viver nova experiências.

(04-11-17)