Da chuva e do frio na alma

A chuva não dava trégua – era final de tarde, início da noite e já estava escuro. Ela caminhava pelas ruas do centro, mal protegida pelo guarda chuva, ignorando os pingos grossos que conseguiam molhar seu rosto. Na verdade, ela gostava da chuva, assim como amava o frio, a escuridão e o som dos pneus dos carros passando pelas poças de água. Gostava do cheiro da água que caía do céu misturado ao calor do escapamento dos carros. Ela observava os prédios antigos com suas rachaduras, a água se acumulando pelas sarjetas, as folhas das árvores caindo pelas calçadas na beira do canal. Prestava atenção em tudo, apesar do cansaço típico do final de um longo dia de trabalho. Na verdade, tudo que ela via era poesia – a poesia da cidade se misturando com a poesia da natureza. Perguntava-se como ou porque as pessoas andavam com tanta pressa, sem se atentar aos detalhes sutis do dia a dia – Chuva, frio, cheiros, ruídos, os ônibus lotados de pessoas e suas histórias – qual a história de cada um? Ela não entendia como alguém conseguia caminhar com tanta pressa a ponto de não notar a poesia de cada detalhe. Então ela os viu: Um casal jovem, encostados no muro. Ignoravam a chuva que os molhava enquanto suas bocas se buscavam em beijos apaixonados. Eles simplesmente se permitiam existir e fazer parte de todo aquele ruído poético da cidade. Aparentemente, ninguém mais os observava – o amor juvenil é uma poesia tão sublime que os olhares apressados das pessoas nem pareciam notar. Então sentiu frio – não o frio da chuva que conseguia atingi-la apesar do guarda-chuva. Não o frio do vento cortante. Aquela cena a fez sentir o frio que trazia na alma – a solidão, a saudade, a vontade de estar ali, existindo sob a chuva nos braços do seu bem-querer. Ela sabia que nada poderia aquecer sua alma naquele momento – ela trazia a chuva fria dentro de si e precisava deixar chover em lágrimas e em palavras para lembrar a todos que em toda parte há poesia, e que nem toda poesia é feliz, mas até mesmo as poesias mais tristes – e talvez principalmente as poesias mais tristes – são belas.

(18-06-2018)

Poesia urbana

Pessoas apressadas…
O barulho da cidade
Onde estarão as flores,
Com as quais outrora conversava, falando de amores?

Já não há quase pastos,
Ou jardins enluarados
Sumiram-se os camponeses
E as belas pastoras…

…Mas perdido em meio à selva de concreto…
…ficou o amor…

Solitário arqueiro a nos alvejar…
E só nos resta aceitar
O destino cruel
Solidão inigualável…

Já não há quase árvores
Companheiras dos desventurados amantes
Mas ainda há amor, há ainda poesia
Poeira de fantasia

Em meio aos automóveis
Corações se movem
Pulsam, chamam
Fazem que esquecem
Mas, mesmo sem querer
Amam…

38 - POESIA URBANA

Deixe a cidade te surpreender

blog

Muitas vezes a preocupação de chegar é tão grande que nos esquecemos de prestar atenção ao caminho. Quantas vezes nos últimos tempos você parou, respirou e reparou em tudo que está ao seu redor? Já parou para pensar que dentro dos ônibus que cortam a cidade há pessoas cheias de sonhos, motivações, problemas e emoções? Já observou os pombos pousados nos fios? Quando foi a última vez que você reparou na planta que cresce no meio da praça? Que sorriu e cumprimentou um desconhecido?  Qual a última vez que sorriu ao ver um casal de mãos dadas? Quando foi a última vez que saiu para caminhar sem rumo certo? Ou que compareceu a um evento cultural de rua e percebeu que há muito mais coisas bacanas para ver além do evento em si? Se a sua resposta a estas perguntas foi “ah… já nem lembro mais” ou “você acha que eu tenho tempo para perder com essas coisas”, cuidado: Você pode estar correndo demais e esquecendo-se de viver.  Pode ter traçado um caminho em linha reta, sem final e sem paisagem, e, sejamos sinceros: Você acha mesmo que a vida é só isso?

Que tal fazer uma experiência: A partir de amanhã tente prestar atenção às pequenas coisas. Vale tudo: Um artista de rua, um animal, o vai e vem dos carros. Tente não olhar para o relógio como um carrasco que se interpõe entre você e suas metas, mas como um amigo que lhe presenteia com mais 24 horas para sentir-se vivo. Surpreenda alguém com um telefonema. Leia uma poesia. Escreva alguma coisa… Experimente novos sabores… Arrisque-se um pouco. Depois, no final do dia, reflita. Como se sentiu? E, ao menos uma vez na semana, saia para dar uma caminhada e deixe a cidade lhe surpreender com coisas inusitadas e belas. Faça essas coisas durante uma semana, ou duas… Isso se tornará um hábito interessante e certamente o fará sentir-se mais vivo e motivado.