#DiáriosdaPoetisa #02de366: Sopa de saudades, sonhos, pimenta e amor, com feijões

E a chuva veio. Chuva de verão, intensa, torrencial. Minha rua virou rio. Água que não acaba mais levando toda a sujeira humana pros rios, que vão pro mar, numa triste visão de sacolas e garrafas flutuando. Fora de casa, sou obrigada a passar pela água, que está alta e entra pelas botas de borracha. Banho tomado, álcool passado nos pés. Só falta uma sopa pra esquentar – Lembro que outro dia congelei caldo de feijão roxo que de tão mole derreteu ao cozinhar.Tiro do congelador, hidrato alguns pedaços de proteína de soja, pico cinco dentes de alho, meia cebola e um pedacinho de pimenta. Espremo a proteína, tempero com barbecue. Jogo um fio de óleo e refogo tudo, com um pouco de sal e alguns cubos de tofu defumado. O aroma começa a invadir a casa. Acrescento o caldo e um pouco de água, a fervura derrete o gelo enquanto escrevo – cozinhar sempre me inspira. Acrescento salsinha. Fecho os olhos e respiro fundo: Em um segundo as imagens de caos das ruas inundadas são substituídas por uma sensação boa de relaxamento. Acrescento na panela o resto do macarrão do almoço, sem molho. Espero engrossar um pouco, mergulho no aroma e nos pensamentos, me deixo levar até lembranças doces que nenhuma chuva seria capaz de apagar. Sirvo a sopa em um prato – O sabor é um misto de saudades e leves sonhos temperados com pimenta e amor, que um dia quem sabe, serão compartilhados, junto com uma sopa quente.

Da chuva e do frio na alma

A chuva não dava trégua – era final de tarde, início da noite e já estava escuro. Ela caminhava pelas ruas do centro, mal protegida pelo guarda chuva, ignorando os pingos grossos que conseguiam molhar seu rosto. Na verdade, ela gostava da chuva, assim como amava o frio, a escuridão e o som dos pneus dos carros passando pelas poças de água. Gostava do cheiro da água que caía do céu misturado ao calor do escapamento dos carros. Ela observava os prédios antigos com suas rachaduras, a água se acumulando pelas sarjetas, as folhas das árvores caindo pelas calçadas na beira do canal. Prestava atenção em tudo, apesar do cansaço típico do final de um longo dia de trabalho. Na verdade, tudo que ela via era poesia – a poesia da cidade se misturando com a poesia da natureza. Perguntava-se como ou porque as pessoas andavam com tanta pressa, sem se atentar aos detalhes sutis do dia a dia – Chuva, frio, cheiros, ruídos, os ônibus lotados de pessoas e suas histórias – qual a história de cada um? Ela não entendia como alguém conseguia caminhar com tanta pressa a ponto de não notar a poesia de cada detalhe. Então ela os viu: Um casal jovem, encostados no muro. Ignoravam a chuva que os molhava enquanto suas bocas se buscavam em beijos apaixonados. Eles simplesmente se permitiam existir e fazer parte de todo aquele ruído poético da cidade. Aparentemente, ninguém mais os observava – o amor juvenil é uma poesia tão sublime que os olhares apressados das pessoas nem pareciam notar. Então sentiu frio – não o frio da chuva que conseguia atingi-la apesar do guarda-chuva. Não o frio do vento cortante. Aquela cena a fez sentir o frio que trazia na alma – a solidão, a saudade, a vontade de estar ali, existindo sob a chuva nos braços do seu bem-querer. Ela sabia que nada poderia aquecer sua alma naquele momento – ela trazia a chuva fria dentro de si e precisava deixar chover em lágrimas e em palavras para lembrar a todos que em toda parte há poesia, e que nem toda poesia é feliz, mas até mesmo as poesias mais tristes – e talvez principalmente as poesias mais tristes – são belas.

(18-06-2018)