Brasil: Entre o gado, a COVID e a ignorância. Sobrará pedra sobre pedra por aqui?

Entre os fatos da semana, assisto sem muito espanto o presidente da república discursando contra o uso de máscaras – Não tenho palavras educadas para descrever o que sinto. Nos ônibus, algumas pessoas insistem em tirar a máscara – Além de enviar reclamações freqüentes e detalhadas – Que em nada tem adiantado – aos responsáveis pela viação, agora apelo para outro “truque”: Forço uma tosse contínua, algumas vezes “atendo” o celular e comento sobre a preocupação acerca do meu ambiente de trabalho que já conta com alguns casos confirmados (nenhuma inverdade nesta parte). Está cada vez mais difícil sobreviver no Brasil e, em alguns momentos eu me pergunto: O que é que ainda estou fazendo aqui? Aí me lembro que fiz direito e não informática ou ciências, carreiras que me tirariam daqui com maior facilidade. Arrependo-me da faculdade feita pela milionésima vez. Será que brasileiros são bem vindos como inspetores de alunos em outras partes do mundo? (Pesquisa Google) E nesse ritmo a semana segue entre más notícias, trancos e barrancos. O fato engraçado é que até mesmo Israel, país que o atual presidente tanto busca como parceiro, está vacinando em grande escala, fazendo inclusive propagandas bem incisivas contra os “palhaços” que negam a ciência. Palhaços, Bozo, Bozonaro… Seria mera coincidência?

            O fato, amigas e amigos, é que um ano após o primeiro caso de COVID no Brasil, temos um país em colapso, sem leitos de UTI, com a vacinação caminhando a passos de formiga, escolas reabertas, leis de isolamento em horários sem sentido e um presidente ameaçando não ajudar os Estados que decretarem lockdown. Ao mesmo tempo, observo ainda agora a reportagem sobre Whuan, cidade chinesa onde surgiu o surto de COVID – Impressionante o respeito humano, o uso de máscaras – Inclusive em crianças que ainda usam carrinho de bebê – mesmo já não sendo obrigatório, permanece. A medição de temperatura exposta em telas em cada lugar, os aplicativos que rastreiam as pessoas para avisá-las de que estiveram em lugares com suspeita de casos para que permaneçam em casa, de quarentena, caso haja a mínima chance de contaminação. A China provou que a tese brasileira de “Ou salva a economia ou salva vidas” não funciona – Por lá, com respeito, educação, união e um governo rigoroso e pautado na ciência, foi possível salvar vidas e economia, tendo em vista o crescimento econômico do país durante a pandemia. Invejável – Deve ser bom ter um presidente, não é mesmo?

            Nas últimas semanas, tirei férias desses meus textos de domingo – mas como um breve resumo do que aconteceu posso dizer que: O presidente deve pensar que militares que comem leite condensado se tornam Brigadeiros – Só isso para justificar os milhões gastos em leite condensado no ano anterior. Ou será que estamos desenvolvendo uma vacina à base de leite condensado? Seria a brigadeirovac? Tudo bem que o escândalo presidencial acabou abafado pelo início do “Big Brother Brasil” e suas polêmicas (nada contra quem assiste inclusive qualquer falarei sobre isso aqui) e em seguida pela prisão de Daniel Silveira – Deputado do PSL que fez um vídeo contra o STF. Se a prisão foi uma notícia boa, a reação dos congressistas foi bizarra: Tentaram votar, a toque de caixa, uma lei que blindaria ainda mais os parlamentares, tornando praticamente impossível prendê-los em flagrante – Essa foi por pouco! Vitória temporária do bom senso, a lei foi retirada de pauta. Outra notícia interessante: Brasileiros criaram geladeira e fogão solares – Acho que vai ser necessário, com o preço que vai o gás só temos duas opções: Cozinhar com o calor do Sol ou comer tudo cru. Por fim, o nada excelentíssimo finalmente dá sinais de retomar o auxílio emergencial – Em valor insuficiente e com a condição de retirar a obrigatoriedade dos investimentos mínimos em saúde e educação (soube que já houve alteração do texto e a saúde foi “salva” ou ao menos remediada) – Tudo bem que, no caminhar que as coisas vão, em alguns meses talvez já não haja mais necessidade de saúde, educação, previdência ou segurança – Afinal, mortos não precisam de nada disso. O importante é que voltamos a ter futebol e que a Karol Conka saiu do Big Brother Brasil com a mais alta rejeição – Só espero que este número se repita em 2022 na eleição que realmente importa – Então por favor, até lá, tentem vacinar o gado bolsonarista contra febre aftosa e deixem para nós, seres sensatos, a vacina da COVID. Enquanto isso, as músicas da Karol Conka seguem fazendo parte da minha trilha sonora  enquanto leio e observo os caminhos bizarros que o país vai tomando, com o desgoverno e seus militares – neste ponto, fico corroendo o desgosto de pensar que já cogitei seguir carreira militar – Ainda bem que em um lampejo de bom senso desisti da prova. Eu certamente não gostaria de estar neste lugar vergonhoso da nossa história. Apesar da vontade de jogar a toalha, sigo tentando sobreviver as duas epidemias que nos assolam: A de COVID e a de ignorância, sabendo inclusive que a segunda está colaborando ativamente para o sucesso da primeira.

Negacionismo mata! Vacina para todas, todos e todes. Auxílio emergencial já e #ForaBolsonaro

A luz, o injustificável e o silêncio

Para milhões de brasileiros, hoje o dia amanheceu com ar de suspense: As duas vacinas que solicitaram aprovação emergencial de uso seriam aprovadas? Não há como definir o alívio ao ver a primeira brasileira ser vacinada: Mônica, uma mulher negra, moradora da periferia, trabalhadora da saúde – Uma representante de tantas outras mulheres brasileiras. Ainda falta bastante para que este alívio chegue a todos e todas, mas o primeiro passo foi dado em direção a uma pequena luz no final do túnel – Luz esta que precisávamos ver após esta semana em que assistimos com perplexidade o colapso do sistema de saúde do Estado do Amazonas e a morte de pessoas pela ausência de oxigênio. O colapso pinta com sangue um quadro dantesco que algumas pessoas insistem em não enxergar: O descaso e a incapacidade do governo federal em garantir condições para o controle da pandemia. Além dos artistas que se uniram para enviar oxigênio, Venezuela expressou sua solidariedade oferecendo médicos e cilindros de oxigênio ao Brasil – A mesma Venezuela governada por Maduro e tantas vezes ofendida pela família presidencial e seus seguidores. Enquanto isso o avião que deveria buscar na Índia doses de vacina permaneceu no chão, aparentemente o especialista em logística que comanda a pasta da saúde pensa que vacina é como lata de cerveja num supermercado: Sempre disponível, só chegar e comprar. Não é bem assim! Quem demorou a manifestar interesse e adquirir as doses precisa entrar na fila e espera a vez – Enquanto isso o número de mortos sobe.

            E dá-lhe panelaço e pedidos de Impeachment – Confesso que após todo o estrago feito, será muito difícil e penoso consertar a situação do país. A população precisará estar atenta para cobrar e para construir saídas para a crise – E eu não estou falando de empreendedorismo e coach e sim de organização em fóruns populares e movimentos sociais – Afinal, o poder vem do povo e em seu nome deverá ser exercido. E o impeachment é apenas o primeiro passo para o Brasil sair da crise em que se encontra.

            Hoje também está sendo realizado o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e dá um aperto no coração imaginar tantas pessoas jovens expostas a essa doença – Seja no transporte lotado para chegar aos locais de prova (para quem não sabe aos domingos as empresas de transporte diminuem a frota nas ruas, causando aglomerações nos ônibus), seja dentro da sala de aula durante tantas horas – Tudo para buscar uma vaga no ensino superior, para perseguir o sonho de “ser alguém” na vida, pois a sociedade de consumo não consegue entender que um ser humano já é alguém e merece condições dignas mesmo que não possua ensino superior e MBA. Longe de mim dizer que a universidade não é importante – Ela é! Se não fossem as universidades, não teríamos pesquisas, vacinas, equipamentos médicos. Mas não é mais importante do que a própria vida humana, sendo injustificável a exposição a um risco de contaminação para buscar uma vaga.

            Injustificável também é o vídeo da execução de dois garotos que estavam nadando na Vila Telma, bairro da baixada santista. Até quando a polícia militar se achará no direito de devolver os impostos que pagamos em balas que sempre encontram as carnes periféricas? Passaram-se apenas dezessete dias desde o início do ano e quantas crianças e adolescentes já sucumbiram vítimas da violência urbana e policial? Onde estão os gritos de indignação daquelas pessoas que protestam contra o abordo se dizendo pró-vida quando vidas são ceifadas de forma tão cruel?

            Termino por fim este apanhado da semana com uma pequena reflexão: Se decidíssemos guardar um minuto de silêncio por vida perdida nesta pandemia no Brasil ficaríamos pelo menos 144 dias sem falar nada – Seria um silêncio ensurdecedor.

Sobre vacinas, jacarés, relógios parados, gado e democracia.

Segundo domingo do ano. Aqui no Brasil acompanhamos a vacinação que ocorre em vários países do mundo com os olhos ansiosos de uma criança que pela janela observa os amigos brincando enquanto aguarda autorização para sair – Se tudo der certo, antes do próximo mês começa a vacinação por aqui, apesar de todos os atrasos e falhas. Importante que a população tenha em mente que a vacinação acontecerá APESAR DE e não por causa de. Apesar dos desmontes promovidos pelo PSDB nos últimos anos através dos sucessivos ataques ao funcionalismo público, apesar do descaso do atual governo federal com a ciência e com a saúde em suas tantas tentativas de desacreditar a vacina. A vacina, no Brasil, tem sido tratada como disputa política e não como uma questão de amor à vida humana e esse fato precisa ficar explícito, afinal, ano que vem teremos eleições. Ainda bem que, como diz o ditado, até um relógio parado está acerta duas vezes ao dia e, em relação à luta pela vacina, João Dória conseguiu acertar.

E por falar em eleições o mundo acompanhou perplexo o desenrolar dos fatos nos Estados Unidos com a invasão ao Capitólio pelos apoiadores do atual presidente reluta em aceitar a derrota sofrida nas urnas – Isso, possivelmente é uma amostra do que enfrentaremos após as eleições de 2022, inclusive o próprio inominável ocupante da cadeira presidencial já deu uma pista sobre o assunto ao publicar numa rede social que “teremos problemas por aqui se não houver voto impresso”.  Outra questão interessante  sobre o ocorrido é perceber que nas manifestações do movimento negro, a força nacional estava ostensivamente presente – Não é estranha a ausência de segurança em um momento tão importante para os Norte-Americanos? Lá ou aqui, é muito perigoso deixar o gado solto, entretanto lá a própria direita repudiou os fatos ocorridos e Donald Trump perdeu apoios importantes dentro do partido, membros de sua equipe pediram demissão e as principais redes sociais suspenderam por tempo indeterminado os perfis do (até então) presidente. Acredito que as redes sociais precisam dar uma atenção ao que acontece aqui no Brasil, para evitar que as fake news e incitações de ódio vindas da gadolândia bolsonarista se espalhem ainda mais. De toda forma, é assustador perceber a influência que uma figura pública ainda detém sobre as pessoas – Até quando a humanidade irá buscar grandes líderes e heróis? Uma eleição nacional e um processo de transição não deveriam sofrer influencia de posts em redes sociais – São decisões que influenciam o mundo, e não disputa por uma vaga como representante de sala na quinta série do ensino fundamental. Ou será que a humanidade ainda está no ensino fundamental?

Na política nacional o assunto é a eleição para presidência da Câmara e do Senado – Parte da esquerda sinaliza para o apoio a uma chapa de centro, numa tentativa de barrar a eleição do candidato apoiado pelo atual presidente – O que tem lógica, mas ao mesmo tempo expõe o medo de não conseguir eleger um nome que efetivamente represente seus ideais. Algumas vezes é preciso dar um ou dois passos para trás antes de avançar, porém é fundamental lembrar que a união do PT com o MDB em nome da suposta governabilidade acabou desencadeando o golpe de 2016 – E quem sofre as conseqüências disso é o trabalhador brasileiro, espoliado de seus direitos trabalhistas, prejudicado em sua aposentadoria, refém de uma crise econômica e do desemprego ampliado pela pandemia. Enquanto isso, o atual presidente diz que “não pode fazer nada pois o país está quebrado” – Possivelmente se seguíssemos os passos da Argentina taxando as grandes fortunas, as coisas melhorariam por aqui. Além disso, ainda é necessário que se façam auditorias das dívidas do governo e cobrem-se os valores astronômicos devidos aos cofres públicos por milionários.

Algumas vezes me pergunto: Por qual motivo meus antepassados entraram em um navio e vieram para o Brasil. Imagino que lá em Portugal a vida não devia estar muito boa, porém agora a situação se inverteu e lá está melhor que cá. Dá vontade de pegar um avião e tentar a vida em terras lusitanas? Dá. Mas a vida dá voltas e daqui alguns anos pode ser que este gigante adormecido (desmaiado) chamado Brasil esteja em melhores condições e aí serão meus bisnetos ou tataranetos a passar aperto por lá e perguntar: O que levou minha bisavó a sair do Brasil. Melhor não arriscar – Fico por aqui mesmo, trabalhando, escrevendo e militando por um país melhor (enquanto eu ainda tiver força e paciência para isso).

Para não dizer que tudo são más notícias, uma lei foi aprovada na cidade de São Paulo e me trouxe um pequeno alento: Foram proibidos os plásticos descartáveis em bares e restaurantes. É um pequeno passo na busca por um mundo com menos lixo. Sei que muitas pessoas não confiam na higienização de pratos, copos e talheres nos bares e restaurantes, eu mesma tenho minhas restrições, mas isso se resolve carregando na bolsa um copo reutilizável e um pequeno “kit” com talher e prato. É só uma questão de costume. A saúde dos nossos mares agradece.

A segunda boa notícia é que a vacinação contra COVID-19 segue a todo vapor pelo mundo e até agora não foram identificados casos de mutação: Ninguém se tornou X-MAN nem jacaré.

Uma boa semana a todas, todos e todes. Viva o Butantã, viva a ciência, viva o funcionalismo público e #VemVacina.

O jacaré, a vacina e a meritocracia

Recentemente fui surpreendida com uma fala do presidente insinuando que quem tomasse a vacina para COVID-19 poderia se transformar em jacaré. Bem, não sei o motivo da surpresa – Em meio a uma pandemia que já ceifou a vida de quase 200 mil brasileiros (sem contar as não notificadas) foram tantas falas sem pé nem cabeça que a história do jacaré poderia ser apenas mais uma. O problema é que esse tipo de coisa se alastra e infelizmente tem quem acredite – Estou em alguns “grupões” de whatsApp onde há uma intensa troca de informações nada confiáveis (como por exemplo o “grupão” do bairro e outros) e fiquei surpresa sobre a quantidade de conteúdo que tenho recebido sobre os perigos de se tomar vacina – Desde pessoas dizendo que causa autismo (fake news velha), até dizendo que altera o DNA ou pode transformar alguém em jacaré. Tudo isso com artes coloridas e chamativas que emprestam um ar de respeitabilidade pela fonte – E fazem as pessoas se esquecerem de que sequer há uma fonte citada. Então decidi que neste domingo, em vez de falar sobre todos os acontecimentos da semana que passou (ou das semanas já que há tempos não escrevia este tipo de texto), vou falar um pouco sobre coisas que realmente causam danos e a maioria da população consome sem questionar:

Agrotóxicos. Vocês sabiam que há agrotóxicos que causam aborto nas mulheres que moram próximas aos campos onde são aplicados? Sabiam que há estudos ligando a incidência de câncer ao consumo de alimentos com agrotóxicos? E que seus compostos tóxicos destroem lençóis freáticos, contaminando a água que iremos beber? Pois é. E sabiam que o governo Bolsonaro liberou o registro de mais de duzentos tipos de agrotóxicos, muitos deles proibidos em outros lugares do mundo? Pois é. Em vez de reclamar da vacina que irá salvar vidas, que tal pesquisar sobre isso e protestar contra essas liberações?

Metais pesados. Outro dia uma reportagem veiculada no Jornal Nacional mostrou um estudo feito em uma aldeia indígena no Pará. Muitos indígenas apresentavam uma quantidade excessiva de metais pesados no corpo. Assim como o rio e os peixes que chegam ao consumo da população. Esses metais são decorrentes da mineração, principalmente da extração do ouro. E eles vão chegar até a sua mesa – mais cedo ou mais tarde – envenenando o seu corpo e causando inúmeros problemas de saúde. Então, já que a indignação pelo descaso com a população é tão grande, pesquise e questione sobre isso também. Uma dica: Advinha quem é super favorável a liberar geral a mineração? Ele mesmo, Bolsonaro.  

Microplástico. Sabia que no Brasil apenas 3% do lixo produzido chega a ser reciclado? Sabia que animais marinhos morrem por ingestão de plásticos ou acidentes relacionados ao lixo? Pois é. E recentemente cientistas encontraram microplástico em uma placenta humana – tudo indica que aquele aglomerado de celular que irá formar um bebê está sendo formado por células e… Plástico! Por outro lado, a Alemanha anunciou que a partir de 2021 estão proibidos os plásticos descartáveis no país. Então, se você realmente se importa com a vida, usa o tempo desperdiçado retransmitindo fake news sem sentido para pesquisar sobre os danos causados pela poluição e diminuir seu consumo de plásticos, optando por produtos naturais, utilizando sacolas de pano para as compras e separando o lixo para a reciclagem. Vai ser mais útil pra você e pro planeta.

Agora, como eu sou uma pessoa legal e estou de bom humor, vou deixar uma dica para você que realmente acredita que a vacina irá transformar pessoas em jacarés mutantes: Jacarés possuem muitos dentes – Como os jacarés advindos da vacina serão meio humanos, ainda permanecerá o hábito de utilizar fio dental e pasta de dente, fazendo o consumo destes itens subir vertiginosamente. Então, você que acredita mesmo nesta fala absurda do SEU presidente, pegue o SEU dinheiro e compre fio dental em  grande quantidade– Quem sabe você se ocupa vendendo para os híbridos humanos jacarés recém vacinados? Afinal, se você não ficar rico fazendo isso é uma questão de meritocracia, você apenas não se esforçou adequadamente – Os jacarés estavam logo ali, você não viu não? É só procurar e se esforçar bastante que vai dar certo. Confie, afinal, se o mito falou e caiu na internet, deve ser verdade.

Sobre eleições, apagão e barbárie.

O plano era escrever sobre o processo eleitoral, os resultados das urnas pelo Brasil e aqui na minha região e algumas perspectivas sobre isso – Não consegui escrever nada domingo passado, pois fui mesária e voltei exausta e ansiosa para acompanhar as votações. Mas o Brasil não é para amadores e outros fatos irromperam e modificaram completamente os planos. O primeiro absurdo da semana foi saber que o Amapá permanece sem energia elétrica e que o desgoverno planeja cobrar das contas de luz do restante do país os custos dessa tragédia – Ou seja: Privatiza-se a distribuição de energia elétrica, o serviço fica ruim, um incêndio deixa o Estado sem luz e a conta será cobrada de quem? Da distribuidora que não tinha um plano emergencial? Não. Será cobrada de mim, de você e de tantas outras cidadãs e cidadãos Brasil afora. Tudo isso enquanto a crise sanitária se agrava – apesar de alguns setores fecharem os olhos e fingirem que estamos vivendo uma normalidade – Aliás, olhos fechados e, no caso da cidade onde vivo – Centrais de Atendimento especializadas em COVID-19 também: Ontem fiquei sabendo que São Vicente desativou o centro de COVID.

            Outra notícia que tomou conta das manchetes este final de semana foi o assassinato no Carrefour de João Alberto, um homem negro que ironicamente ocorreu às vésperas do Dia da Consciência Negra. Se você vai dizer que não foi racismo, respira um pouco e tenta lembrar quantos clientes brancos você já viu causando confusão em supermercados e quantos desses vocês já viram ser espancados – Possivelmente a resposta é: Zero. Pelo menos eu já presenciei um homem branco dar um soco no rosto de uma operadora de caixa e sair escoltado pela segurança da loja – Nem a polícia foi chamada. Ele apenas foi embora. Assim como um cliente na antiga loja onde trabalhei – O segurança até segurou pelo casaco que se abriu e deixou cair um monte de produtos da loja, mas deixaram-no ir. Nada de polícia. Pediram que ele ficasse sentado em um banco até o fechamento da loja e se afastaram. Ele simplesmente saiu andando para não voltar. Se fosse um jovem negro, no mínimo sairia na viatura (coisa que já presenciei também). Fora os casos de recusa em utilizar máscara: O cliente agride em funcionários e funcionárias – Vocês já viram alguma reação semelhante ao que aconteceu no Carrefour? Não. Deveria existir essa reação desproporcional? Não. O papel da segurança não deveria ser matar pessoas, mas alguém convenientemente esqueceu de avisar isso a eles.

            Ainda sobre o caso de João Alberto, chegamos aos protestos ocorridos: Houve alguns casos de vidraças quebradas – Interessante que, quando essas coisas acontecem fora do país, a mídia retrata apenas como “manifestantes”, quando ocorre no Brasil, os mesmo veículos nomeiam “vândalos”. Não entrarei aqui nos pormenores se é correto ou não quebrar vidraças – Só vou dizer que apesar dos vários motivos que teria para ser contra, não acho que eles não tenham suas justas razões – como diria a célebre frase: “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor” – Afinal, já encontrei ao menos seis manchetes diferentes de casos absurdos envolvendo a rede Carrefour. Por outro lado, acredito muito na prática do boicote. Acho um pedido justo. Boicote contra empresas racistas, boicote contra homofóbicos e boicote contra quem colaborou para a eleição desse governo genocida, mas como tudo na vida, há um entretanto: Infelizmente, essas grandes empresas conseguem preços mais baratos e, para quem sobrevive com quase nada, faz uma enorme diferença pagar um pouco mais em conta. Então, sim, sou a favor do boicote, dentro do possível e do praticável, pois sei que para a maioria da população brasileira, aquela pequena economia pode ser a diferença fundamental entre ter comida no prato ou passar fome – Aliás, eu mesma não sou rica e vivo de promoções, embora minha realidade permita consumir prioritariamente de feiras livres e pequenos comércios que vendem grãos a granel e seja extremamente raro eu precisar ir até um supermercado grande, mas essa é a minha realidade. Então, queridos e queridas que pedem boicote: Ampliem seus discursos e comecem a orientar as pessoas sobre opções de alimentação saudável, econômica e ambientalmente sustentável para que se amplie a economia solidária e os pequenos comércios, gerando empregos e diminuindo a dependência da população dessas grandes redes. Se não for assim, o “boicote” vai durar uma, talvez duas semanas e cairá no completo esquecimento.  

            A notícia boa da semana é que pela primeira vez elegemos uma mulher negra e psolista para a câmara municipal de Santos e há chances reais de que Guilherme Boulos seja eleito em São Paulo, o que significaria uma grande derrota ao bolsonarismo e uma necessária guinada para a esquerda – Só saliento que um governo se faz de pessoas: Não adiante eleger o melhor se não houver participação e organização popular, então busque participar de alguma forma da política: Participe de movimentos sociais, movimentos ambientais, escolha algo que te inspire e milite pela causa – O mundo começa a mudar com o seu voto, mas a verdadeira mudança demanda participação popular, então separe o tempo (que eu sei que você, assim como eu, provavelmente não tem sobrando) e se organize com outras pessoas em prol da mudança. Sobre a eleição municipal da minha cidade, comentarei em algum momento no decorrer da semana – Não será um texto longo, mas é um tema que prefiro tratar em separado, ainda mais considerando que estamos em um segundo turno entre uma candidatura tucana e uma candidatura de partido da base de apoio ao governo. Espero que na cidade de vocês as coisas estejam melhores.

            Enfim, abraços a todos e todas, #ForaBolsonaro, boicotem empresas racistas se isso não significar falta de itens essenciais para vocês e não tenham pena de vidraças nem comprem a história da mídia que chama manifestantes de vândalos – Afinal, não vi ainda nenhuma manchete chamando de vândalos ou bandidos os madeireiros que incendeiam a Amazônia, nem as mineradoras que inundaram Mariana e Brumadinho, muito menos os fazendeiros que incendiaram o nosso Pantanal.

Novo tipo penal: “Foi sem querer querendo”. A inovação do Estupro Culposo.

Terminamos a semana com uma notícia boa: Donald Trump derrotado nas urnas. A sensatez do povo norte americano em trocar o péssimo pelo “menos ruim” me faz ter esperanças sinceras para o nosso 2022. Ao mesmo tempo, as notícias de que em diversos pontos do país haveria manifestações em defesa de Trump e pelo Impeachement do recém eleito Joe Biden me provoca risos preocupados. Risos pela síndrome de vira-lata que mobiliza algumas brasileiras e brasileiros a irem às ruas em meio a uma pandemia para protestar contra os resultados eleitorais de um país que sequer é latino americano. Preocupação por imaginar estas mesmas pessoas apertando novamente os piores botões das urnas eletrônicas em 2022, nos condenando a retroceder ainda mais em direitos e garantias fundamentais. Por falar em política, especialmente em política internacional, observo perplexa uma notícia sobre o atentado a bomba contra o recém eleito presidente boliviano. A direita consegue ser imunda em todos os lugares do mundo: Brasil, Estados Unidos, Bolívia, em todos os lugares a direita reúne tudo o que há de pior na política e na humanidade.

            No Brasil, algumas situações chamam a atenção: Bolsonaro declara que irá fazer um “horário eleitoral” em suas lives de segunda feira – Observem que a campanha eleitoral segue regras impostas pele justiça eleitoral e uma dessas regras refere-se ao prazo adequado para que seja feita – Ao declarar um “horário eleitoral” em suas lives, Bolsonaro comete um crime eleitoral: a campanha antecipada. Juro que gostaria de ter estômago forte para assistir uma live e comentar com vocês o quão profundo é o poço, mas não dá.

            Outra situação a ser acompanhada de perto é o apagão no Estado do Amapá, que já dura quase uma semana – Vejamos, há uma fala corrente entre os pobres de direita que diz “privatiza que melhora”. Ora, a distribuição de energia no Amapá é privada. Melhorou? Não. Quem irá “salvar” o Amapá? Uma estatal que enviará geradores para o estado. Enquanto isso, alimentos se estragam por falta de armazenagem correta, falta água, quem tem dinheiro no banco não consegue comprar nada com cartão, pois as máquinas dependem de internet e energia elétrica. Situações como essa escancaram o abismo que há entre as diferentes regiões do nosso país e é muito grave que, em meio a uma pandemia, haja pessoas sem luz, sem água para as necessidades mais básicas e sem alimentos.

            Agora, a cereja do bolo nesta semana foi sem dúvida a criação de um novo tipo penal: O estupro culposo. Estupro culposo não existe em nossa legislação, por isso não foi diretamente citado nos autos do processo de Mariana Ferrer, vítima de André Aranha. Para quem não conhece, deixe-me explicar: A conduta criminosa pode ser dolosa (quando há intenção de praticar o crime) ou culposa (quando não há intenção). Acontece que nem todo crime admite modalidade culposa. Vejamos, é impossível estuprar alguém sem querer, sem intenção. Mas no processo que absolveu Aranha, consta que ele “não tinha intenção de estuprar”. Ora, como ele conseguiu a proeza de estuprar sem intenção? Por acaso ele estava sentado com o pênis duro e descoberto quando ela caiu do céu bem em cima do órgão dele? Óbvio que não! Até consigo imaginar o réu saindo de um barril e dizendo que “foi sem querer querendo” (me perdoem os criadores do seriado Chaves pela analogia – Não deu para imaginar de outra forma). Não é a toa que o Brasil está entre a lista dos piores países para ser mulher. Não bastasse o estupro, as imagens do julgamento mostram o machismo estrutural e a tortura ao desqualificar e desmerecer a vítima. Situações assim mostram o quanto ainda é necessário avançar na defesa dos direitos mais básicos de nossas mulheres e meninas – Aliás, como se já não fosse uma tortura esse caso se arrastar por tanto tempo! Vejam, se eu quiser, consigo escrever um artigo diário apenas comentando casos de violência, abuso, estupro. Isso não pode ser naturalizado! É revoltante, é triste, é dantesco que mulheres tenham medo durante todo o tempo apenas por serem mulheres. E apenas para constar: Estupro culposo não existe. Não há estupro sem intenção de estuprar.

            Se as coisas continuarem da forma que estão, é bem capaz que o senador Chico Rodrigues (DEM) alegar que o dinheiro nas nádegas foi resultado de uma corrupção culposa – se corrompeu sem vontade de se corromper. Talvez ele diga que foi tentativa de zoofilia culposa, mera curiosidade de enfiar os lobos guarás nas nádegas. E vamos nos preparar, pois talvez alguns eleitores do “mitológico ser” aleguem genocídio culposo: Quando você elege um genocida sem intenção de eleger. Sem querer, querendo… Falta de aviso não foi.

O guaraná da discórdia (e outros fatos)

Comentar sobre as notícias da semana tem sido um desafio – Acontecem tantas coisas que se torna difícil filtrar e, mais difícil ainda, encontrar algo bom no meio de uma verdadeira avalanche de notícias ruins. Em uma semana marcada por um terremoto de magnitude 7,0 que atingiu Bulgária, Turquia, Grécia e Macedônia, uma reportagem chegou em minhas mãos e me deixou bastante apreensiva: Há um estreito na Costa Sul do Alasca chamado Barry Arm onde estima-se que a mudança climática possa produzir deslizamento de geleiras e conseqüentemente provocar um tsunami semelhante ao que seria provocado por um terremoto de magnitude 7,0. E não para por aí – Segundo a mesma reportagem, o derretimento do permafrost (uma camada permanentemente congelada presente no fundo do oceano) seria capaz de provocar tsunamis pois tal camada mantém a terra unida e, uma vez derretida, haveria movimentações causadoras de tremores e ondas gigantes. Assustador não? (Espero que essas notícias sejam suficientes para fazer com que vocês, leitores, repensem seus hábitos de consumo). Seria bom começar a se preocupar com o meio ambiente, para a humanidade ter alguma esperança de futuro caso sobreviva ao Coronavírus, que por aqui já ceifou 160 mil vidas e na Europa já atingiu a temida segunda onda, provocando novas medidas de isolamento social.

Como podem ver, são muitos problemas que irão exigir pesquisas e soluções rápidas e acessíveis aos países de primeiro, segundo e terceiro mundo – E isso nos leva a mais um enorme e preocupante problema: Uma pesquisa demonstrou que os jovens de hoje são a primeira geração com QI (Quociente de Inteligência) mais baixo que seus pais – A culpa seria principalmente da Era Digital, uma vez que crianças e jovens passam mais tempo na frente das telas de celulares e computadores, e menos tempo desenvolvendo outras atividades imprescindíveis para a formação do cérebro como leituras, estudos, brincadeiras, esportes e convivência familiar – Ou seja: No alto da nossa inteligência, estamos deixando para as próximas gerações um planeta caótico, mergulhado em complexas questões ambientais, sociais e políticas e, ironicamente, essas futuras gerações terão um QI abaixo do nosso – Um mundo caótico para uma geração menos inteligente. Não sei vocês, mas não prevejo um bom resultado. Enquanto o meio ambiente caminha para um colapso completo, possivelmente capaz de nos destruir, ainda há pessoas que acreditam em suas mitologias – Me desculpem os religiosos, mas toda religião nada mais é do que uma mitologia que ganha significado na vida dos praticantes através de ritualísticas repetidas de geração em geração – e não tem nada de errado em repetir e praticar se disso vem algum conforto e calma para a mente humana, entretanto há pessoas que acreditam em suas mitologias de forma tão extrema que são capazes de matar e ameaçar outras pessoas – Como no caso do professor assassinado na França por falar sobre liberdade de expressão e dos fatos subseqüentes ocorridos após Macron homenagear o docente morto.

            Aqui, em nosso país “tropical abençoado por Deus e governado pelo capeta” (perdoem o trocadilho com a música famosa, foi mais forte que eu), tivemos um susto essa semana com um decreto que abriria caminho para uma possível privatização do SUS (Sistema Único de Saúde). Ainda bem que, por hora, a pressão popular fez com que o presidente revogasse o decreto. Isso me recordou uma reportagem do jornalista Ricardo Amorim em Julho/2018; na época, Amorim disse que em Cuba “só três coisas funcionam: Segurança, educação e saúde” – Ora, não seria esta a tríade perfeita, buscada pela população de qualquer país? Parece que só no Brasil há quem prefira se revoltar e protestar contra uma vacina que ainda nem está disponível enquanto aplaude um presidente que visita o Estado do Maranhão e faz piadinhas de cunho depreciativo contra homossexuais após provar o “Guaraná Jesus”, refrigerante cor-de-rosa típico do Estado. Ah, Brasil… Tudo que eu desejo é que nas eleições que se aproximam a população consiga escolher prefeitos e vereadores dispostos a lutar para que a tríade cubana – segurança, saúde e educação – seja uma realidade nestas terras de gente sofrida. E quem sabe a gente não comemora brindando com um bom guaraná Jesus, que certamente não “torna” ninguém gay e ainda tem a vantagem de ser nacional.

Breve resumo da biografia e do pensamento político de Jean Jacques Rousseau

“Seguir o impulso de alguém é escravidão, mas obedecer a uma lei auto-imposta é liberdade”.

Nascido em Genebra, na Suíça em 26 de Junho de 1712, ficou órfão devido à complicações sofridas pela mãe durante o parto. Pouco conviveu com o pai, que fugiu da cidade para não ser preso devido a uma briga.

Criado pelo tio foi mandado, juntamente com o primo, para o campo onde recebeu educação, que foi ministrada por um pastor protestante.

Seu primeiro emprego, aos 12 anos, foi em um cartório, onde devia aprender sobre leis preparando-se para a profissão de advogado. Não gostando do emprego, acaba sendo demitido.

Foge aos 16 anos, indo viver com Madame de Waren, ex-protestante que recebe do rei Victor Amadeus II, da Sardenha e Piemonte, uma pensão por tornar-se católica e dedicar-se a beneficência. Permanece por pouco tempo, sendo mandado a Turim para a Catequese e conversão ao catolicismo Abandonando o emprego que havia conseguido na cidade, viaja com um antigo amigo. Em 1729 está novamente em casa de Louise, onde ajuda em sua farmácia natural. Passa a estudar em um seminário, indo para a casa somente aos fins de semana.

Por pedido de Louise acompanha um maestro idoso que deveria ir até Paris, abandonando-o no caminho quando este sofria um ataque de epilepsia. Ao voltar para casa, não encontra Louise, que havia viajado a Paris em busca de nova pensão, pois o Rei Victor Amadeus havia abdicado do trono. Passa a viver como professor de música em Paris, até 1732, quando volta a viver com Louise, desta vez na cidade de Chambéri, tornando-se seu amante. Trabalha nesse período em um escritório fiscal. Desse período datam seus primeiros escritos. Adoece e acreditando sofrer de um problema cardíaco, viaja para Montpelier, em busca de tratamento. Não chega até lá, sendo “curado” por um romance. Volta para casa e tem que dividir os amores de Louise com outro homem. Em 1740 viaja para tutorar duas crianças. Abandona Louise definitivamente. Em 1741 vai para Paris, onde consegue alunos de música graças às cartas de recomendação obtidas com o abade de Mably.

Torna-se amigo de Diderot, que à época era apenas um jovem filósofo, e também aproxima-se da nobreza. Por indicação, torna-se secretário da embaixada francesa em Veneza, cargo que ocupou entre 1744 e 1745.

Seu pai morre em 1746, deixando-lhe uma pequena herança. Amplia seu círculo de amigos intelectuais, e a convite do amigo Diderot e de Jean d’Alambert escreve os verbetes de música para o Dicionário Enciclopédico que ambos preparavam.

Em 1745 passou a morar com Thérèse Le Vasseur, com quem teve cinco filhos, todos enviados para um orfanato. Torna-se secretário da família Dupin.

Participa de um concurso na Academia de Djon. Sua obra “Discurso sobre as ciências e as Artes” (1750) o torna famoso. Sua situação de saúde torna-se complicada e ele pensa em viver recolhido à partir de então. Isso já não é possível, uma vez que o sucesso trouxe-lhe a atenção de várias pessoas.

Em 1754 passa por Genebra e pensa em voltar a morar ali, porém antes que o faça, uma obra sua é publicada e mal recebida por seus compatriotas.

Entre 1754 e 1761 muda-se freqüentemente, e dedica-se a muitos trabalhos, desde operetas a tratados como “O Contrato Social”. Após a publicação do Contrato Social, passa a ser perseguido pelo Parlamento Inglês, por motivos políticos, refugiando-se então na Suíça. Em 1768, devido a vários incidentes, rompe a amizade com Diderot e os enciclopedistas.

Volta à França em 1767, inicialmente com o nome Renou, e tempos assumindo seu verdadeiro nome em 1770.

Faleceu em Ermenonville,França, em 2 de julho de 1778.

Alguns pontos de sua teoria política:

-A desigualdade é um fato irreversível.

-Questionamento: O que leva um homem a obedecer outro homem? Com que Direito um homem exerce autoridade sobre o outro?

-Vê a liberdade como resultada da lei, quando livremente aceita.

-Liberdade é ao mesmo tempo direito e dever: “Todos nascem homens e livres”, renunciar a liberdade seria para o filosofo o mesmo que renunciar a condição humana.

-Em seu Contrato Social, o Estado é criado para preservar os direitos e deveres do homem, não significando necessariamente a renúncia desses direitos e deveres.

-Religião: Rousseau não é hostil à religião,embora tenha algumas restrições.;

Para ele, há dois tipos de religião: a do homem (que pode ser hierarquizada ou individual) e a do cidadão.

-Religião do homem hierarquizada: Multinacional, compete com o estado pela lealdade do cidadão. O cristianismo evangélico, centrado na adoração a Deus seria exemplo de religião do homem não hierarquizada. Apesar de verdadeira, essa religião é ruim para o estado, pois o cristão mostra-se mais preocupado com a vida futura (Eterna, celeste) do que com a vida na terra o que o torna omisso como cidadão e em geral forma maus soldados.

-Religião do cidadão ou religião civil: ensina o amor à pátria,obediência ao estado. Forma bons soldados. É manipulada por interesses, fazendo o homem crédulo, supersticioso e extremamente nacionalista e sanguinário.

Solução? Permitir todas as religiões, desde que estas ensinem apenas “A existência de uma divindade onipotente, inteligente, benevolente que prevê e provê; uma vida após a morte; a felicidade do justo; a punição dos pecadores; a sacralidade do contrato social e da lei”. Devendo o estado banir e penalizar qualquer um que fuja a estes parâmetros.

Principais Obras:

-“Discurso sobre as Ciências e as Artes” (1750)

-“Discurso sobre a origem da desigualdade” (1755)

– “Discurso sobre a economia política” (1755)

– “O Contrato Social” (1762)

-“Emilio, ou Da Educação” (1762)

-“Devaneios de um Caminhante Solitário” (1776-1778)

A partida de várzea, a Idade Média e o Ministério da Eliminação do Meio Ambiente. Parágrafos de um país em decadência.

Dentro da lógica bolsonarista pode-se comparar o Brasil a uma bola durante a partida de futebol no campinho de várzea – O presidente seria então o equivalente ao menino mimado dono da bola que ao ver o time adversário fazer gol pega a bola, coloca debaixo do braço e volta pra casa com cara emburrada. Isso aconteceu essa semana por ocasião da compra da Coronavac, a vacina desenvolvida pela China que seria fabricada aqui no Instituto Butatã: O Ministro da Saúde, Pazuello sinalizou interesse na compra da vacina Chinesa, o que ocasionou um momento de garoto mimado no presidente que fez questão de demarcar território deixando claro que quem manda é ele, atitude que deixa claro uma postura que inviabilizaria qualquer trabalho em equipe, caso o presidente tivesse sido suficientemente inteligente para nomear uma equipe com competência e compromisso com o país.

            Enquanto isso, o STF deverá decidir se a vacina contra a COVID será ou não obrigatória – Assunto que divide opiniões antes mesmo da disponibilização da vacina. Os argumentos rasos dos antivacinas ganham espaço muito rápido com o advento moderno das redes sociais, mas não passam de argumentos do século XIX repaginados. Como eu disse em um texto no início deste ano, o Brasil está fazendo a Terra girar ao contrário e, se não tomarmos cuidado, logo acordaremos na Idade Média. Vacina é um pacto social de proteção mútua: Quanto mais pessoas imunizadas, menor o risco do vírus chegar aos grupos que não podem receber imunização (pessoas alérgicas ou bebês que ainda não atingiram a idade ideal para receber a vacina, por exemplo), portanto não há justificativa válida para recusar a vacina da COVID ou qualquer outra vacina disponibilizada pela rede pública de saúde.

            Outra situação inusitada – O Ministro Ricardo Salles recebeu a Grã Cruz da Ordem de Rio Branco, o mais alto grau de honraria concedido pelo Ministério das Relações Exteriores. A condecoração foi dada por Serviços Meritórios – Ou seja, no Brasil, um Ministro do Meio Ambiente inerte, que “passa a boiada” e permite uma série de degradações, segundo o presidente, presta serviços meritórios ao país. Talvez seja tempo de mudar o nome do ministério para Ministério da Eliminação do Meio Ambiente.

            No exterior, as notícias são preocupantes: Uma segunda onda da COVID varre a Europa com mais velocidade que a primeira, colocando o velho continente novamente em alerta. Nos Estados Unidos, o período eleitoral avança e uma astronauta votou do espaço através de uma cédula virtual.

            No Chile um plebiscito ocorrido hoje irá decidir se a Constituição, herança do período ditatorial, será reformulada. Ainda na América do Sul, essa semana a Bolívia reagiu ao golpe sofrido por Evo Morales ano passado e elegeu o candidato indicado pelo partido do ex-presidente – Uma notícia boa para essa semana complicada.

            Outra notícia boa: O Papa, pela primeira vez, se pronunciou favoravelmente a união civil de pessoas do mesmo sexo. Muito embora religião e Estado sejam coisas diferentes e em um mundo ideal a primeira seria relegada a um papel de conforto individual e o segundo buscaria o bem comum da sociedade sem interferências religiosas, sabemos que ainda há uma tendência muito grande em basear a sociedade e suas leis nos valores religiosos, portanto, qualquer manifestação de um líder como o Papa em favor de direitos e garantias civis é um marco a ser comemorado – Mas sem o exagero que vimos nas redes esta semana!

            Por falar em comemorações, vocês se deram conta de que os panetones natalinos estão chegando às prateleiras dos supermercados? Pois é! Faltam exatamente dois meses para o Natal e o capitalismo já começa a colocar as garrinhas de fora e vender seus ideais de que um Natal só será Natal para quem puder consumir – Que tal modificar esse padrão e fazer a economia circular na sua comunidade, comprando guloseimas natalinas e presentes de artesãos e artesãs? Consumo consciente também é um modo de atuar politicamente e melhorar a economia do país, mas isso é assunto para outro texto.

Defender o meio ambiente do ministro do meio ambiente? Isso é Brasil!

País estranho esse onde o mesmo homem que debocha da necessidade de proteger nossas florestas é aplaudido por assinar uma lei que aumenta a pena para maus-tratos de animais (leia-se: cães e gatos).  Pois é. Mas e quanto ao desejo de breve restabelecimento escrito para o presidente dos Estados Unidos? Um verdadeiro grito de deboche direcionado aos 145 mil brasileiros que perderam a vida nesta pandemia. Afinal, é só uma gripezinha, toma cloroquina que passa – E se não passar, deixa a tubaína que a gente bebe na comemoração: Seria um maluco a menos em posição de poder, vencido pelo vírus que ele mesmo desdenhou.

            Ainda sobre meio ambiente e as agressões que vem sofrendo, chegamos a um momento histórico tão bizarro que o judiciário é obrigado a defender o meio ambiente adivinhem de quem? Isso mesmo! Do ministro do meio ambiente! Ainda bem que por hora derrubaram a decisão do ministro que havia retirado a proteção dos nossos mananciais e restingas. Não é um elogio ao judiciário – Nada mais estão fazendo do que sua obrigação de fazer cumprir a lei e a constituição desse país continental e desgovernado. Por falar em desgoverno, Carol Solberg, uma jogadora de vôlei que gritou “Fora Bolsonaro” está sofrendo intimidação e denuncia no Superior Tribunal de Justiça Desportiva – Mais um passo angustiante em direção à censura de opiniões. Aliás, o fantasma do cerceamento de opinião rondou o prefeiturável Guilherme Boulos e o influenciador digital Felipe Neto apenas pelas opiniões e participações nos atos Antifascistas. Ora, um governo que busca inibir atos antifascistas é o que mesmo? Pois é. Fascista. Um fascismo à brasileira, meio capenga, que só enxerga uma invisível “ameaça comunista” em qualquer pessoa que tenha bom senso – De cientistas a padres, todos são motivos de ódio e alvos de opressão para esse desgoverno. E eu quase ia esquecendo de contar que uma banda de rock não pode nem fazer uma música questionando sobre os cheques do Queiroz pra primeira dama sem ser ameaçada de processo.  Boa sorte e muita força para nós nesta próxima semana que está começando hoje – Vamos precisar. E não esqueçam como dizia o velho ditado: Cala a boca já morreu quem manda na minha boa sou eu. O Brasil ainda é um país livre, então vamos aproveitar essa liberdade e mostrar os defeitos desse sistema e desse desgoverno genocida, esse ano tem eleições municipais e precisamos urgentemente mostrar nas urnas que não concordamos com as atuais políticas – Como? Votando apenas em quem não apoiou em nenhum momento a eleição do fascista e o golpe que levou o Conde Drácutemer ao poder.