Primavera Literária

Livros devem ficar sempre presos em estantes? Ou cumprem melhor sua missão quando passam de mão em mão? A resposta é quase unânime – Livros devem ser lidos. E depois? Doar? Guardar em uma estante empoeirada?

Existem alguns projetos interessantes para colocar os livros em movimento – Livro livre, livro viajante, liberte seus livros. E inspirada nesses projetos e também na chegada da Primavera, criei o projeto “Primavera Literária” – A ideia é que dia 23 de Setembro, comemorando a chegada da estação das flores, espalhemos livros pela nossa cidade – Não apenas abandonar um livro por aí, mas deixá-lo com um bilhetinho sugerindo que, quem o encontrar, leia e depois recoloque o livro em circulação com outro bilhete e assim por diante.  Sinceramente, não sei o quanto as pessoas estão dispostas a aderir a um evento assim, mas decidi tentar e descobrir no que vai dar.

E você? Topa participar? Dá uma olhadinha lá no evento que criei no Facebook, confirma presença e convida os amigos e amigas – É só clicar aqui para fazer uma visitinha!

 

 

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Todas as cores do amor

O mês mais romântico do ano é também o mês de celebração do Dia Internacional do Orgulho LGBT, que ocorre em vários países do mundo no dia 28 de Junho. Mas a existência desta data não tem absolutamente nada a ver com o romantismo que impera neste conhecido “mês dos namorados”.  Trata-se de uma celebração de resistência que ocorre desde 1969 nos Estados Unidos.

Para quem não sabe nada sobre a origem da data:

Até a década de 60 os Estados Unidos tinham uma legislação rígida contra a comunidade LGBT – amar alguém do mesmo sexo podia levar a castração química, prisão ou mesmo lobotomia, que é a retirada de uma parte do cérebro. Isso era insustentável e, com o advento dos direitos humanos começando a despontar, foi surgindo também espaço para uma organização da comunidade LGBT. Em 1969 já havia alguns poucos estabelecimentos que recebiam freqüentadores “marginalizados” como gays, bissexuais e transexuais – e de quebra recebiam também ações truculentas da polícia. Em 28 de Junho de 1969 num bar chamado Stonewall Inn ocorre mais uma tentativa de repressão policial – mas desta vez gays, lésbicas, bissexuais e transexuais estavam preparados: Eles resistiram por dias confinados no bar e cercando o local pelo lado de fora. A mídia não pode ignorar e o movimento ganhou as páginas do New York Times. Era o inicio de um movimento de luta por direitos. Em 1970, no dia 28 de Junho, comemorando o aniversário de um ano da resistência em Stonewall, a primeira Parada do Orgulho Gay (a sigla LGBT é relativamente atual) toma as ruas de Nova York, Los Angeles e Chicago e o dia 28 de Junho é instituído como Dia Internacional do Orgulho Gay.

No Brasil a primeira Parada Gay foi realizada em 1997 na Avenida Paulista, em São Paulo. Na época o evento era chamado “Parada GLT” (GLT = Gays, Lésbicas e Travestis) e contou com adesão de 2 mil pessoas. Com o passar dos anos esse número mais que triplicou e chegou a 2 milhões e meio de pessoas entrando pro Guines Book!

Mudou-se também a nomenclatura do evento que passou a ser conhecido como “Parada do Orgulho LGBT (L= Lésbicas, G= Gays, B= Bissexuais, T= Transgêneros).

Infelizmente o grande número de freqüentadores do evento não torna o Brasil um lugar mais acolhedor para a população LGBT: Assassinatos e agressões são uma constante no país, alguns tornam-se manchetes, como o assassinato da transexual Dandara no início deste ano. Outros ficam no silêncio. Falta incluir na educação de uma vez por todas as questões relativas a gênero e orientação sexual de forma a matar o preconceito desde a mais tenra idade. Faltam leis que criminalizem a homofobia. No mundo o panorama não é tão diferente – A Chechênia choca o mundo com seus campos de concentração voltados à tortura de gays e lésbicas. Ano passado um homem entrou atirando em uma casa noturna de público LGBT nos Estados Unidos. Além destes casos, há também as vítimas silenciosas – pessoas que cometem suicídio por não conseguirem lidar com a pressão e preconceito da família e dos amigos devido a sua orientação sexual. É um panorama extremamente triste!

Se junho é o mês do amor, que seja o mês do amor para todos e todas: Que o amor possa ser simplesmente amor! É hora de desconstruir esse conceito de família como sendo um núcleo formado por homem, mulher e filhos. Que família seja um núcleo de amor entre homem e mulher, mulher e mulher, homem e homem  e, porque não, até mesmo entre mais de duas pessoas! E que venham com seus amores, sua felicidade, seus laços, suas proles! Que o Arco-Iris, hoje usado como bandeira de luta, possa ser visto como um símbolo do amor em sua diversidade.

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Toda forma de amor é poesia

Até 17 de Maio de 1990 a homossexualidade fazia parte do rol da Classificação Estatística de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) – ou seja – a homossexualidade era considerada uma doença e, assim sendo, as fileiras do preconceito e da intolerância tinham um argumento para “combater” a população LGBT. Assim, a exclusão da homossexualidade do rol de doenças foi e é um grande motivo para comemoração. Infelizmente ainda há muito a se caminhar quando se trata de garantir direitos – mesmo os direitos mais básicos, como o direito à vida e a integridade física, por exemplo, pois é rotineira a veiculação de notícias sobre agressão e morte de homossexuais, transexuais e, mesmo, heterossexuais confundidos com homossexuais.

Importante salientar que o combate a LGBTfobia não é uma fórmula mágica que surtirá efeitos de um momento para outro – Há que se passar pela discussão de classe, de gênero, de etnia – Afinal, o cidadão LGBT de camadas menos favorecidas da população sofre muito mais preconceito: Contra ele ou ela, não se insurge apenas a LGBTfobia – Acumula-se também as dificuldades de acesso a uma educação de qualidade, que irá por sua vez agravar sua condição socioeconômica com dificuldade de ingresso no mercado de trabalho.  Junte-se a isso o racismo e temos um amargo coquetel que dia após dia torna a vida mais difícil. Diante desses pontos, é de suma importância a discussão de gênero e orientação sexual já no ambiente escolar – Eliminar o preconceito das mentes infantis é a melhor forma de garantir um ambiente saudável para todos e todas terem acesso ao ensino oferecido (que aliás, precisa também ser revisto e melhorado, mas este já é outro assunto, para outro texto). Faz-se necessário também implementar medidas legislativas como a criminalização da homofobia, e medidas de saúde pública no que diz respeito à assistência médica, orientação e prevenção às DSTs , bem como a criação de programas que visem debater junto à população em geral a importância de se aceitar e respeitar as diferenças.                                                                                                                         É uma lástima que, no ano de 2017, seja preciso lembrar o óbvio – Somos humanos e a orientação sexual de cada um não muda isso. Nossa condição humana é igual, dentro de toda a maravilhosa diversidade existente! Estamos aqui para viver, evoluir, nos respeitar e, acima de tudo, amar! Vamos juntos e juntas, não apenas hoje mas todos os dias dizer não ao ódio, ao fundamentalismo e ao preconceito?

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Como a reforma trabalhista vai afetar a sua vida?

Ontem foi mais um dia histórico para o Brasil: Dia de Greve Geral. Milhares de pessoas foram às ruas numa tentativa de barrar a contra-reforma imposta pelo (des)governo Temer e por um congresso corrupto, imundo e que, muito embora tenha se elegido com os nossos votos, pouco ou nada se importa em nos representar.

Infelizmente houve trabalhadores que não aderiram à greve – não por não desejarem aderir – mas por terem sido coagidos por seus patrões a estar no local de trabalho, inclusive utilizando serviços como Uber e taxis. São em geral trabalhadores de empresas menores onde a adesão a uma greve seria levada pelo lado pessoal gerando perseguição e mal-estar no ambiente de trabalho, ou de empresas grandes, mas pertencentes a categorias sindicais fracas, como o comércio por exemplo. Diante disso, faz-se necessário o uso de táticas de força: Queimar pneus impedindo o trânsito e fechar vias de acesso, além de impedir a circulação de meios de transporte públicos inviabiliza a ida dessas pessoas ao trabalho, possibilitando que participem da greve sem se prejudicar em seu ambiente de trabalho.

Outros trabalhadores não aderiram à greve por acreditar ser um movimento desnecessário movido por “sindicatos e políticos”. O que é um grave engano. Sindicatos são centralizadores do poder de luta do trabalhador. Sem o surgimento dos sindicatos nossas condições de trabalho seriam ainda piores do que já são.

Mas afinal, quais são as reformas trabalhistas que motivam tantos protestos? Esse é outro ponto interessante: muitos trabalhadores e trabalhadoras simplesmente não sabem o que lhes aguarda e por isso não deram a devida atenção aos movimentos!

O que muda?

  1. Verbas que integram o salário: Atualmente, toda ajuda de custo integra o salário para fins de INSS e FGTS, ou seja: Prêmios, ajuda de custo para viagens feitas a serviço da empresa, valores relativos a assistência médica e odontológica incidem sobre INSS e FGTS. Com a reforma não irão mais incidir, ou seja: O EMPREGADOR PODERÁ PAGAR UM SALÁRIO PEQUENO E “COMPLEMENTAR” COM ESSAS VERBAS SEM QUE ISSO SEJA CALCULADO NO INSS E FGTS!  Péssimo né?
  2. Equiparação salarial: Sabe aquelas pessoas que exercem a mesma função na prática, mas são registrados de forma diferente na CLT e por isso recebem salários diferentes? Atualmente elas podem pedir a equiparação salarial mesmo que as funções sejam exercidas em diferentes estabelecimentos do grupo econômico. Com a mudança da regra, essa pessoa tem que trabalhar no mesmo estabelecimento para poder solicitar esse benefício.
  3. Cargos de confiança: Quem trabalha sabe que os cargos considerados “cargos de confiança”, como gerentes e supervisores, não recebem horas-extras, nem feriados, mas recebem um salário maior. Após um tempo exercendo esse cargo de confiança, esse acréscimo passa a integrar o salário para finalidades relativas a FGTS e INSS. Após a reforma esses valores não irão mais integrar o salário. Agora reparem bem: Bancos por exemplo, registram muitos funcionários como “gerentes” e isso não é um acaso! É uma manobra para retirar direitos trabalhistas básicos como as horas extras ou acréscimo por feriados.  Menos qualidade de vida para o trabalhador.
  4. Rescisão de contrato de trabalho: Atualmente precisa ser feita pelo sindicato. É uma forma de garantir que os trabalhadores recebam as verbas que lhes são devidas. Com a reforma, quem for demitido após mais de um ano de trabalho não precisará mais ter sua rescisão homologada pelo sindicato.
  5. Demissão em massa: Atualmente deve haver participação do sindicato nessas situações. Após a reforma a empresa poderá demitir em massa sem dar satisfação a ninguém.
  6. Plano de demissão voluntária: Quem aderir não poderá requerer direitos trabalhistas depois. Vamos pensar o seguinte: A empresa apresenta o plano ao trabalhador e pergunta “aceita ou não”. O trabalhador aceita sem se dar conta de cláusulas que o prejudiquem pois muitas vezes ele simplesmente não sabe seus direitos. Atualmente ele pode socorrer-se na justiça trabalhista. Após a reforma ele não poderá mais. E nós sabemos como funciona o empresariado: O patrão jamais irá apresentar o plano de demissão voluntária e dar tempo do funcionário ir até um advogado e perguntar “está tudo certinho? Estou sendo prejudicado ou devo aceitar?”
  7. Aviso Prévio Indenizado: Com a reforma o empregado poderá receber apenas metade do aviso prévio tendo liberado 80% do FGTS (lembrem-se que o valor do FGTS será menor já que conforme o item 1 e 3 muitas verbas não incidiram mais sobre ele) e perderá o seguro desemprego.
  8. Arbitragem nas relações de trabalho: A justiça do trabalho deixa de ser a única competente pare resolver questões trabalhistas, podendo ser contratados árbitros para solucionar tais questões. Isso é precarizar a relação de trabalho jogando por terra garantias históricas!
  9. Contribuição sindical facultativa para empregados e empregadores: Isso irá enfraquecer os sindicatos – e sindicatos enfraquecidos irão perder a capacidade de proteger suas categorias – categorias mais desprotegidas não irão conseguir lutar por melhores condições de trabalho e serão cada vez mais exploradas.
  10. Jornada e intervalos de trabalho: Atualmente são consideradas normas de saúde do trabalhador e não podem ser negociadas. Com a mudança poderão ser negociadas. Muitos podem achar isso bacana, mas na realidade não é. Pensem o seguinte: Hora extra não é obrigatória mas todo mundo que trabalha faz – e é bem difícil você falar para o patrão que não irá fazer sem acabar sendo penalizado ou mesmo demitido na primeira oportunidade. Uma hora de almoço também é direito do empregado, mas muitas empresas mandam você engolir a comida em 15 minutos e voltar ao posto de trabalho (eu passei por isso no Extra e sei o quanto me estressei brigando pelo direito de ter a dignidade de parar para comer e descansar). Se estes intervalos forem flexibilizados, o patrão poderá impor isso aos funcionários e eles por dependerem economicamente de seus empregos, irão aceitar, mesmo ficando mais sujeitos a adoecimento por excesso de trabalho. E por falar em hora extra, a jornada de trabalho que atualmente é de 8 horas diárias com no máximo 2 horas extras passa a poder ser de até 12 horas diárias! Absurdo!
  11. Validade das normas e convenções coletivas: Além das leis trabalhistas há normas e convenções coletivas negociadas entre patrões e sindicatos. Atualmente, quando a validade dessas convenções expira, elas continuam valendo até serem rediscutidas. Com a proposta de reforma isso não irá mais ocorrer, deixando de ser aplicadas até que haja nova discussão (e lembrem-se: sem o imposto sindical o sindicato estará mais fraco e com menos força para negociar). Ainda sobre acordos e convenções, com a nova regra, os acordos coletivos (entre empresa e sindicato) irão valer mais que as convenções coletivas. Agora dá uma olhada na diferença entre acordo e convenção coletiva para entender o motivo de ser importantíssimo que as convenções sobreponham aos acordos coletivos:

ACORDO – CONVENÇÃO – DISSÍDIO COLETIVO DE TRABALHO

 O artigo 7º, inciso XXVI da Constituição Federal, estipula que são direitos dos trabalhadores urbanos e rurais o reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho.

CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO

 O artigo 611 da CLT, define Convenção Coletiva de Trabalho como o acordo de caráter normativo, pelo qual dois ou mais sindicatos representativos de categorias econômicas e profissionais estipulam condições de trabalho aplicáveis, no âmbito das respectivas representações, às relações individuais de trabalho.

ACORDO COLETIVO DE TRABALHO

É  o acordo que estipula condições de trabalho aplicáveis, no âmbito da empresa ou empresas acordantes, às respectivas relações de trabalho. A celebração dos acordos coletivos de trabalho é facultado aos sindicatos representativos das categorias profissionais, de acordo com o art. 611 § 1º da CLT.

12. Honorários nas ações trabalhistas: Atualmente o empregado não paga honorários quando perde a ação contra o empregador. Com a mudança serão devidos honorários entre 5% e 15% do valor da ação.

13. Férias: Atualmente as férias de 30 dias podem ser fracionadas em até dois períodos – um deles não inferior a 10 dias. 1/3 do período pode ser pago em forma de abono. Na prática isso resulta em muitos empregadores forçando a situações para dividir o período de férias e pagar esse abono ao funcionário, diminuindo seu período efetivo de descanso. Isso resulta em menor convívio familiar e social, prejudicando a saúde do trabalhador. Com a reforma poderá ser fracionado o período de férias em três períodos: um não inferior a 14 dias e outros dois não inferiores a 5 dias. Imagina só o seu patrão (que em geral já escolhe o período em que você irá tirar férias sem te consultar ), te coagindo a tirar essas férias em três períodos (escolhidos por ele)?

14. Terceirização: Passa a ser irrestrita; pela lei antes da reforma, somente poderiam ser terceirizados funcionários que não servissem às atividades-fim da empresa: por exemplo, uma escola poderia terceirizar equipes de cozinha ou limpeza, mas não professores. Com a nova lei, qualquer atividade poderá ser terceirizada. E aumentou também o tempo de contrato do funcionário terceirizado.

15. Transporte: Se a empresa em que o trabalhador atua fica em locais distantes e não atendidos pelo transporte público, o tempo em que o empregado fica dentro do meio de locomoção fornecido pela empresa conta como hora trabalhada. Com as alterações, esse tempo não será mais contabilizado como jornada de trabalho. Menos tempo livre para esse trabalhador conviver com sua família ou estudar.

16. Gravidez: Atualmente é proibido o trabalho insalubre para mulheres grávidas ou lactantes. Com a reforma isso passa a ser flexibilizado, portanto, mulheres grávidas podem trabalhar em ambientes insalubres se a empresa atestar que isso não representa risco – vamos concordar que ambiente insalubre, por si, já é um risco. Em relação à demissão, não havia prazo para mulheres demitidas avisarem suas empresas sobre a gravidez. Com a nova regra esse prazo passa a ser de 30 dias. O legislador não pensou que há mulheres que não percebem a gravidez com tanta rapidez. Uma busca no Google é capaz de mostrar mulheres que descobriram estar grávidas só quando o bebê nasceu!

17. Seguro – Desemprego: O direito a ingressar no programa Seguro-Desemprego passa a ser decidido por trabalhadores em conjunto com o empregador, não sendo mais um direito garantido aos que foram demitidos após determinado período de trabalho.

18. Registro de Ponto: Atualmente as empresas devem ter ponto eletrônico, mais difícil de fraudar ou alterar. Com a nova regra, isso pode ser definido em acordo coletivo (novamente lembrando: Os sindicatos estarão enfraquecidos e não poderão lutar com a mesma força de agora). Vamos pensar o seguinte – papel aceita qualquer coisa. O ponto eletrônico é uma segurança! Ponto em papel pode ser alterado.

Por esses e outros motivos é URGENTE a adesão dos trabalhadores às greves. Não se trata de uma discussão entre os grupos que se acostumaram dizer-se “coxinhas” e “mortadelas”. Trata-se de uma luta por direitos que são de todos e todas, independentemente do posicionamento político, aliás, o posicionamento político pode ser  discutido em outro momento, depois que a CLT e a previdência estiverem salvas. E se você ainda não trabalha, lembre-se que essa luta também é sua, pois cedo ou tarde você irá enfrentar o mercado de trabalho!

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Precisamos falar sobre censura e falsa moral

Já dizia minha mãe que “Quem fala a verdade não merece castigo”. Infelizmente, essa máxima da sabedoria popular não parece encontrar eco nas ações do governo, representadas pela impunidade de alguns e pela ação violenta da polícia contra outros.

Em Santos, no último dia 30, a Trupe Olho da Rua, formada por atores que se dedicam ao teatro de rua, teve sua apresentação interrompida pela PM de forma brusca – Um ator saiu algemado, elementos do cenário foram apreendidos, bem como o celular de uma espectadora que filmava a apresentação – e, portanto, acabou filmando também o momento da chegada da Polícia Militar.  “Blitz, o império que nunca dorme”, peça cuja apresentação foi interrompida, retrata de forma crítica e bem-humorada, a truculência da do Estado, através de seu braço denominado Polícia, contra a população, em especial contra os que se encontram em situação menos privilegiada: Negros, pobres, periféricos (em determinado momento, um dos personagens da peça pergunta “em quem eu atiro?” e recebe como resposta “no preto”) e contra os que estão lutando por seus direitos (áudios utilizados citam as manifestações de Junho de 2013 contra o aumento das passagens de ônibus). Os atores vestem-se com roupas semelhantes às utilizadas pela polícia, máscaras, saias e cassetetes e utilizam a bandeira do Estado de São Paulo, a Bandeira do Brasil e trechos do Hino Nacional. A alegação para a prisão foi “Uso indevido dos símbolos nacionais”. Caro leitor, cara leitora, antes que você possa responder que houve uma razão para tal ato, vamos pensar um pouco:                                                                                                         A polícia não se sentiu incomodada com o uso dos símbolos nacionais! Os policiais certamente interromperam a peça devido às críticas feitas de forma irreverente ao órgão – eles apenas não podiam citar isso de forma clara e direta como motivo da opressão, pois, em tese, a censura não vigora em nosso país! O que me leva a pensar dessa forma? Em 2014, quando o Brasil perdeu a copa do mundo, bandeiras foram queimadas – isso mesmo QUEIMADAS. Pergunto-lhes: Alguém foi preso por queimar um símbolo nacional? Vamos além: Quando o verão chega, é comum vermos a bandeira utilizada em sungas, em cangas, em chinelos. Não seria então um mau uso dos símbolos nacionais utilizarem nossa bandeira para encobrir corpos seminus? Não caracterizaria mau uso de nossos símbolos utilizar a bandeira em uma sunga ou pisar sobre nosso pendão quando este está estampando um chinelo? Ora, ainda não tomei conhecimento de processos contra os que fabricam e vendem estes itens! Mas o ator que utilizou a bandeira como item de um cenário que retrata a (infelizmente real) truculência do Estado foi preso sob a alegação de desrespeitar os símbolos pátrios. Uma grande infelicidade em um país “democrático”.         É necessária uma grande reflexão – para onde estamos caminhando? Queimamos bandeiras por derrotas no futebol, temos artistas reprimidos por falar a verdade através de sua arte, convivemos diariamente com notícias que retratam a intolerância religiosa, o machismo e a homofobia. Um deputado homenageia um torturador da época da ditadura e permanece livre, protegido por seus pares que não consideram um crime suas declarações.  Desde quando homenagear torturadores tornou-se ato aceitável e dizer a verdade de forma a instigar o senso crítico da população tornou-se ato criminoso?

Eu poderia terminar este texto aqui, mas não gosto de falar apenas sobre a parte meio vazia do copo! Acredito no otimismo e na importância de falar sobre o copo meio cheio, sobre as razões para acreditar! E sabe uma coisa que me leva a pensar que ainda há esperanças? Ontem, mesmo sob o risco de sofrer a repressão policial tão presente nos protestos, em vários lugares do Brasil pessoas foram às ruas contra a PEC 241, conhecida como “PEC do fim do mundo” e que congelaria por vinte longos anos o orçamento público. Em Santos, alunos da UNIFESP, que já ocupam um dos campus em protesto contra a PEC, foram às ruas, juntamente com estudantes secundaristas e trabalhadores que sabem o significado trágico da possível aprovação da emenda. Após percorrer o trajeto planejado, o ato prosseguiu na Praça da Independência e, pouco antes da dispersão os atores da Trupe Olho da Rua apresentaram um pequeno trecho do espetáculo “Blitz, o império que nunca dorme”. Foi uma alegria dupla assisti-los após o episódio que se deu em Outubro e na companhia de tantos lutadores que, inconformados com os desmandos do governo interino (golpista), ainda tomam as ruas para que sua voz seja ouvida!

Deixo aqui um trecho de “Blitz, o império que nunca dorme”. Se quiserem conhecer mais sobre a Trupe, cliquem aqui e curtam a página deles no Facebook.

Dia do estudante: Ainda há muita luta antes que se possa comemorar.

Dia 11 de agosto comemora-se no Brasil o “Dia do Estudante”. Cada estudante traz em si um enorme acúmulo de energia, sonhos, potencial. E como o Brasil vem tratando seus estudantes? Crianças e jovens são todos os dias forçados a frequentar escolas sem infra-estrutura, onde falta merenda e os professores são pouco valorizados. Muitas vezes não há material didático disponível. Nas comunidades mais carentes as crianças mal alimentadas e sem condições mínimas de moradia e saúde, muitas vezes não conseguem sequer entender a importância da escola em suas vidas – Para algumas pessoas essas crianças e jovens simplesmente “não servem” para o mundo acadêmico – ledo e triste engano: Elas trazem em si a mesma energia e potencial de qualquer outra criança, apenas não conseguem acessar isso em seu próprio íntimo, tão duras são suas condições de vida. Bem verdade, através de muito esforço, alguns se destacam e dão a volta por cima – E quando isso acontece, surgem os defensores da chamada “meritocracia”. Aquelas pessoas que jamais moveram um dedo, mas enchem a boca para dizer “olha, tá vendo? Quando a pessoa quer ela consegue” ou “Viu? Não precisou de cotas, não precisou de privilégios, estudou”. Se fosse apenas a opinião banal, senso comum de uma população que ignora as diferentes realidades, seria chocante, porém, tolerável. O que realmente indigna é o MEC (Ministério da Educação) postar um relato de uma jovem que, para passar no vestibular de uma Universidade Federal, dormiu apenas 4 horas por dia pois conciliava escola, curso técnico e cursinho. Isso não deveria ser exemplo! Ninguém deveria precisar abrir mão de horas de sono, de saúde e lazer adequados para conseguir passar em uma faculdade. Parabenizo a jovem que relatou essa rotina. Sim, ela foi guerreira. Sim, ela merece estar no curso que desejou. Mas não, ela não deveria ser o exemplo! Principalmente: O Estado não deveria fazer dela um exemplo. Ela é a vítima do descaso que deu a volta por cima. Talvez ela não se veja assim – ainda – mas essa é a real imagem da vida de uma pessoa jovem que teve de abdicar de muito do que é inerente a sua idade para alcançar uma meta.

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É normal para você dormir 4 horas por noite durante um ano letivo inteiro? Acha justo vender a ideia de que isso é normalidade? Acha mesmo que os jovens devem passar por isso para atingir uma meta?

            E a situação só piora se analisarmos outros contextos: Além dos problemas já citados acima e de termos um Ministério da Educação que se omite, criando a falsa ideia de que a injustiça social dominante no país não deve ser levada em conta pois “quem quer consegue”, outros fantasmas se aproximam das escolas brasileiras – um deles é o chamado projeto “Escola sem partido” – Há um interesse muito grande em coibir os professores de incentivarem o pensamento crítico em suas aulas, e sabe qual o motivo? Querem jovens não contestadores, jovens que aceitem estudar em condições precárias, sem merenda, jovens que irão crescer e ser a próxima leva de mão de obra barata. Para quê discutir a realidade social em sala de aula? Para que discutir diferenças e diversidade? Isso é realmente um perigo para os grupos dominantes! Um jovem que lê, que pensa, que se arrisca a falar, a se organizar. Um jovem que vai às ruas protestar pela falta de merenda ou pelo valor do transporte público, que questiona. Um jovem que quer passe-livre. Que quer ter acesso à cultura. Um jovem que não aceita ser mais um número nas estatísticas. O programa “Escola sem partido” quer a todo custo evitar a formação de jovens e cidadãos empoderados. Alegam que professor não é educador. Alegam que existe uma suposta doutrinação marxista em sala de aula. Quem já entrou em uma escola pública periférica sabe o quão difícil seria “doutrinar” um aluno! E uma sala com 45 alunos? Impossível! Numa escola pública que segue os padrões atualmente existentes, o professor tenta a todo custo, contornando mil obstáculos, formar cidadãos pensantes, capazes de analisar seu entorno, capazes de vencer preconceitos e lutar pelos seus sonhos – e nesses sonhos incluí-se logicamente uma vaga na universidade, carreira, realização profissional. Em contrapartida, uma escola nos moldes sugeridos pelo “Escola sem partido”, seria uma máquina de moer pessoas. Um curral de formação de mão de obra não pensante. E sabe o que é mais interessante? Não é sequer uma escola sem partido, é uma escola de partido único! Qual partido? O partido dos que exploram. O partido dos que vendem todos os dias as vidas de milhões de pessoas em troca de dinheiro e poder.

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As forças políticas e intelectuais que se colocam a serviço da precarização do ensino público e da precarização do trabalhador não são neutras – São forças comprometidas com os exploradores em detrimento dos explorados. E o pior: Querem fazer crer que não estão explorando, que tudo é “necessário”.

O dia do estudante infelizmente não deve ser lembrado como um dia de comemoração, mas sim como um dia de luta: Luta pelo direito de pensar, de crescer. Luta pelo empoderamento. Luta contra a opressão imposta por uma falsa moral, por uma falsa ideia de meritocracia. E finalmente, o dia de lembrarmos com orgulho que há sim jovens dispostos a mudar, engajados em movimentos sociais, em coletivos. Jovens que ocuparam as escolas em São Paulo contra a suposta “reorganização escolar” que nada mais é que um desmonte articulado da educação pública. É dia de lembrar aos jovens que pelo Brasil a fora deixam de dormir, caminham quilômetros até a escola mais próxima que eles são vítimas de um sistema injusto e que a melhor forma de vencer seus algozes é estudar, organizar-se, debater e lutar por um amanhã melhor.

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Gosto de compartilhar músicas ao final de cada texto. Durante um tempo acreditei que não poderia mais fazer isso por utilizar a versão gratuita do wordpress, mas o André Hotter do blog do André Hotter me ensinou a voltar a colocar vídeos sem precisar comprar temas ou domínios (Obrigada André).

Enfim, fecho este post com uma canção antiga porém bastante atual quando o tema é educação. Este clipe mostra tudo que uma escola NÃO DEVE SER.

Até que o amor possa pulsar livremente (Sobre um texto não escrito para o dia dos namorados e a falta de sentido que toma conta do mundo)

Inicialmente peço desculpa aos meus leitores. Hoje é comemorado o “Dia dos Namorados”, a noite está fria e parece ser o clima perfeito para filmes, pipocas, jantares românticos, um bom vinho para quem curte vinho, um pouco de erva e um bong pra quem curte erva ou ambas as coisas ou qualquer outra coisa que se queira. É um dia onde as pessoas esperam por presentes, declarações de amor e um clima cor-de-rosa. E eu havia preparado um texto sobre o assunto – eu juro que havia! Um texto sobre a importância de pensar menos no presente e mais na presença, e sobre não ter vergonha de se isolar um pouco do mundo ou combinar programas entre amigos solteiros para quebrar o tédio caso não tenha alguém para passar a data de hoje. Sim, esse texto existia, bem como fotos de casais fofos de filmes e livros. Mas infelizmente, este texto ficará no meu caderno (quem sabe ano que vem ele saia do papel). O clima hoje não é de celebração. Mais uma vez vemos a bandeira LGBT banhada em sangue inocente. Sangue de pessoas que eram filhos de alguém, namorados de alguém, amigos de alguém. O atirador que invadiu a boate Pulse hoje por volta das três da manhã (horário de Brasilia), não atirou somente contra quem estava lá dentro. Ele atirou contra cada um de nós em todas as partes do Mundo. A mente perversa de alguém que faz o que esse homem fez é um labirinto obscuro onde eu me recuso a tentar penetrar – tirando a vida daquelas pessoas ele cometeu um crime contra a humanidade. Até quando o sangue de alguém será derramado com base em suas opções de vida? Até quando o amor será motivo de ódio? É assustador ver os comentários em postagens sobre esse assunto – pessoas dizendo que a polícia não deveria ter tentado salvar ninguém, que deveriam ter ateado fogo e matado a todos. É assustador ver pessoas que conseguem sentir revolta apenas pela morte de pessoas brancas, heterossexuais e cisgêneros. É assustador ver pessoas que sentem prazer com a morte de quem não se enquadra em sua concepção fechada de mundo. Para onde estamos caminhando? Atentados assim podem acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo – inclusive no Brasil – aliás, com Deputados que homenageiam torturadores e dizem que gay tem que apanhar mesmo, nosso país não está nem um pouco longe de se tornar palco de atrocidades como as que ocorreram em Orlando, e, assustadoramente, teremos pessoas aplaudindo. Sabemos que isso já acontece por aqui, em escala menor, mas acontece. Agora, fica a pergunta: Você consegue ficar calado(a) perante este derramamento de sangue? E o que você está fazendo para tentar mudar a agressividade sem sentido que tenta se instalar a cada dia? Cada um de nós pode e deve lutar com as armas que possui: Debater, se informar, utilizar os espaços dentro e fora de casa para construir um mundo melhor. Eu já escrevi duas vezes aqui no blog sobre a questão LGBT (veja: LGBT: Até quando será necessário lutar para mostrar à sociedade que o amor deve ser livre  e  “A bandeira se ergue, novamente manchada de sangue“) e vou escrever quantas vezes mais forem necessárias, pois o amor e as palavras que compartilho com vocês são as minhas armas de luta nesta guerra cruel em que a vida se transformou. E sobre a data que a mídia e o comércio convencionaram chamar “Dia dos Namorados” eu lhes digo que para mim, enquanto todos os dias não se tornarem dias de amor para qualquer casal do mundo, de qualquer gênero e orientação sexual, não haverá um sentido completo e verdadeiro em comemorar.

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