Vacinada

Vacinada.

A oportunidade que quase 500 mil brasileiros infelizmente não tiveram devido aos atos criminosos do governo negacionista.

Vacinada mas ainda não imune, falta uma dose e falta atingir a imunidade coletiva, o que só acontecerá quando a maioria da população estiver imunizada. 

Quem acompanha a CPI consegue perceber como o governo federal negligenciou a compra de vacinas e a condução das medidas visando reduzir os casos do vírus. Para quem observa atentamente a política, a CPI só confirma e aprofunda o que já se sabia. Não é novidade.

A crise da covid-19 é sanitária, econômica e política. Se analisarmos, todas as crises são políticas, pois a vida em sociedade é política e ignorar isso em uma postura de isenção é, na verdade, aceitar os fatos dados – Geralmente pelo lado que tem maior poder financeiro. 

É difícil (e muitas vezes perigoso) lutar pelo que se acredita. Muitas vezes a vontade é desistir e sumir. Mas que tipo de pessoa seríamos se fizéssemos isso? 

Não basta desejar mudanças. É preciso refletir, entender e resolver problemas históricos antes de conseguir de fato construir uma nova sociedade. 

A política não deve ser ignorada ou demonizada. É isso que os poderosos desejam: Uma população que não acredita em seu próprio poder de organização. 

Hoje eu me vacinei em uma Unidade Básica de Saúde. Infelizmente a vacina não chegou a tempo para tanta gente e isso aconteceu por uma decisão política. Assim como foi uma decisão política a que optou por criticar o isolamento, o uso de máscaras e subestimar a pandemia.

Que num futuro próximo as pessoas lembrem da importância da política, principalmente nos momentos de crise. 

Brasil: Um país de luto, um país em luta.

Sábado. Em um país arrasado pela pandemia a população toma as ruas buscando defender os poucos direitos duramente conquistados ao longo de anos e anos de luta. Está em curso a implementação de uma política genocida – Sem auxílio suficiente para a própria subsistência, a maior parte da população joga uma roleta russa todos os dias: Morrer de vírus ou de fome é cada vez mais um destino certo. É triste ver trabalhadores e trabalhadoras arriscando suas vidas nas ruas – É uma manifestação de luta, mas, acima de tudo, é uma manifestação de luto: Vários cartazes se erguem indicando “Estou aqui por mim e pelo meu/minha (insira aqui: pai, mãe, filho, avô, avó, filha, marido, esposa) que morreu de uma doença que já tem vacina – A culpa é sua, Bolsonaro”. Sim. Quem está acompanhando a CPI sabe que bastava o presidente responder um e-mail e o país teria evitado milhares de mortes. O negacionismo presidencial mata todos os dias: É urgente que se acelere a vacinação, que haja um isolamento social sério, com auxilio suficiente para as necessidades básicas, é fundamental que o uso de máscara seja duramente cobrado no dia a dia. A CPI mostra o que quem acompanhou um jornal sério percebeu durante todo o último ano: O presidente da república tripudia da doença, promove aglomerações sem uso de máscara e não investiu dinheiro em vacinas quando teve a oportunidade, preferindo apostar na já contra-indicada cloroquina. Pois é. O povo que estava nas ruas sábado arriscou a própria vida para lutar por um país que em 2018 escolheu nas urnas o genocídio e a barbárie. A população luta nas ruas em sua manifestação que acontece por já ter sido espoliada de tudo – Inclusive do medo. Isso é grande, mas é também profundamente triste. Diante disso não cabe pedir a nenhuma entidade metafísica que tenha piedade pelo país que vive um momento trágico – É hora de crescer, abrir mão de mitos e heróis e entender que o que o país precisa é consciência de classe, consciência política, consciência ecológica e Impeachment.

Maternidades

Quando uma criança é gerada, tornar-se pai é uma questão de escolha, já tornar-se mãe é uma imposição. Frase pesada? Realidade pesada. Infelizmente não é raro que caiba à mãe e somente a ela a maior parte das responsabilidades pela criação dos filhos e organização do lar. Mesmo quando o genitor da criança divide o mesmo espaço físico, é comum que quase tudo recaia sobre a mãe que acaba assim cumprindo jornada tripla de trabalho: Em casa, no emprego e muitas vezes ainda nos estudos buscando melhorar o padrão de vida. A maternidade é romantizada, como o momento pelo qual toda mulher anseia enquanto a mulher é invisibilizada, como se suas necessidades deixassem de existir em prol do novo ser que chegou – E aí dela se não ostentar um sorriso de orelha a orelha: Sofrerá os piores julgamentos e críticas, afinal está “cumprindo seu papel”.

Considerando-se que o Brasil vive a implantação de um projeto de governo genocida, baseado no ódio e na negligência completa dos direitos mais básicos, é irreal que a data de hoje seja comemorada como se todas as famílias fossem partes de um maldito comercial de margarina. 

Não há feliz dia das mães para mais de 410 mil famílias brasileiras enlutadas pela pandemia. Como falar em feliz dia das mães no país onde mais morrem gestantes e puerperas vitimadas pela COVID? Isso mesmo: O Brasil é o país do mundo onde morrem de COVID mais gestantes e puerperas!

Não há feliz dia das mães para as mães de Jacarezinho ou para tantas outras mães cujos filhos foram chacinados pelo Estado em sua guerra contínua ao povo periférico.  

Não há feliz dia das mães para famílias das vítimas de Brumadinho e Mariana. Nem para as mães dos três meninos desaparecidos em Belford Roxo. 

Não há feliz dia das mães para as seis em cada dez famílias brasileiras que atualmente vivem um estado de insegurança alimentar. 

Como falar em feliz dia das mães em um país que elegeu para a presidência da república um homem que defende menores salários para as mulheres sob a justificativa de que elas engravidam? 

Como falar em feliz dia das mães quando mulheres trans precisam entrar na justiça para garantir o direito de ter seus nomes nas certidões da prole. Mãe é quem se identifica como mulher e decide ter um filho. Não é preciso ter uma vagina ou útero para ser mãe. Estamos no século XXI, já é tempo de naturalizar a diversidade!

Como falar em feliz dia das mães quando há chacinas em escolas e creches?

Dia das mães sem segurança, sem comida, sem vacina, sem perspectivas. Ser mãe no Brasil é a certeza de viver em incertezas, ataques, supressão contínua de direitos. A maternidade desejada é um ato de resistência. A imposta pela completa ausência de políticas públicas (e incluí-se aqui o acesso ao aborto legal, seguro e gratuito) é um massacre. 

A todas as mães que me lêem desejo muita força, organização e luta por dias melhores onde a dignidade humana seja direito de todas, todos e todes para que seja então possível desejar “Feliz Dia das Mães” sem varrer para baixo do tapete da hipocrisia todas as vítimas desse sistema de insana barbárie que vivemos atualmente.

MORTE E COMOÇÃO SELETIVA [BEDA 18]

Nas últimas semanas a morte do enteado de um vereador carioca ocupou os jornais, causando comoção. O menino de apenas quatro anos apresentava diversas lesões que podem ser resultado de agressões por parte do vereador e, tudo indica que a mãe sabia da freqüente ocorrência de maus tratos contra o menino. O casal está preso. Essa notícia seria suficiente para causar desprezo pela humanidade e uma profunda tristeza, porém a questão vai muito além. Dados apontam que o Brasil tem dez casos de agressão a menores de idade por hora. Isso mesmo que vocês entenderam: Durante o tempo em que vocês me lêem, há uma criança ou adolescente sofrendo agressões e, esse número refere-se apenas aos casos que chegam a hospitais ou ao conhecimento das autoridades. É uma realidade cruel que tem sido agravada pela pandemia, assim como a violência contra a mulher se agravou durante este último ano.

            A comoção em relação a estes casos parece ser bem seletiva – Ganham as manchetes a morte de crianças de classe média ou média alta, como Henry, Bernardo e Isabella enquanto, em geral, as crianças oriundas das camadas mais pobres da sociedade permanecem apenas como dados acumulados no sistema. Trata-se de uma verdadeira epidemia de violência que, quando não mata, causa danos físicos e psicológicos, comprometendo o aprendizado e o desenvolvimento da criança e do adolescente. Esses números seriam ainda maiores caso acrescentássemos também as vítimas de violência urbana: Crianças e adolescentes vítimas de balas perdidas em ações policiais, por exemplo.

            Diante desse quadro dantesco, fica a pergunta: Onde estão os grupos pró-vida que gritam alto contra questões como aborto e silenciam diante desses fatos?  O tempo e dinheiro investidos por estes grupos para protestar em prol dos não-nascidos poderiam ser muito melhor aplicados em campanhas de conscientização sobre a violência doméstica e em pressão junto ao governo pela desmilitarização da polícia, visando reduzir a violência urbana. O silêncio desses grupos é um sintoma da hipocrisia em que vivem: Defendem com unhas e dentes os que ainda não nasceram, mas se calam diante da calamidade social que ceifa vidas e futuros de tantos já nascidos, principalmente em nossas zonas mais periféricas.

            Se você tem notícias de algum caso de violação dos direitos da criança e do adolescente, não silencie! Disque 100. O atendimento é sigiloso e gratuito.


Falhei no BEDA (Blog Every Day April)… Esqueci de postar dia 15, passei dois dias desanimada mas… Estou de volta – Como diz o ditado, antes o feito que o perfeito. Seguimos! Visitem também:

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O sonho e o Big Brother Brasil [BEDA 12]

Tive um sonho engraçado: Eu havia sido selecionada para o Big Brother Brasil – Cheguei empolgada na casa, imaginando os próximos meses com piscina, academia e festinhas. Sorriso de orelha a orelha. Quando me deparo com a casa, descubro que houve mudanças: Tudo rústico, nada de energia elétrica, fogão à lenha e para completar, metade dos participantes precisa pedalar em bicicletas semelhantes a ergometricas para produzir energia e poder ter ao menos chuveiro quente na casa. Ah! Agora imaginem que no meu sonho o BBB era apresentado pelo… Faustão.
Pois é, será que isso é um sinal pra eu me inscrever no próximo ou eu só estou assistindo demais? Aliás, antes que me critiquem pelo programa: Minhas leituras estão em dia, meus estudos estão em dia, meus exercícios físicos e alimentação estão em dia, e eu estou trabalhando. O tempo que me resta eu posso usar como bem entendo e entre futebol ou novela e BBB (cancelei a Netflix, portanto séries e filmes não são opção), eu prefiro me distrair assistindo o BBB (torcendo aqui pela Thaís, João ou Camila). Quem sabe em 2022 vocês não me veem por lá? O que achariam? Teria uma torcida para mim?

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A “marcha da família cristã pela liberdade… de morrer e matar” [Beda 11]

Ontem foi o 100° dia do ano. Faltam 265 dias para a chegada de 2022. Ultrapassamos as 350 mil mortes sem aprender nada e ainda há quem apoie o genocida que ocupa a presidência há 832 dias. Hoje aconteceu a “Marcha da família cristã pela liberdade” – ao ignorar a necessidade de manter o isolamento social e tomar as ruas reclamando a retomada  das atividades religiosas presenciais e do comércio sem restrições, essas pessoas pedem nas entrelinhas o massacre da população brasileira pela doença, enquanto a miséria avança e um auxilio emergencial insuficiente começa a ser pago. Nietzsche certa vez disse que o único cristão verdadeiro morreu na cruz – Começo a acreditar no filósofo. Quando vejo a maioria desses eventos das igrejas não consigo  enxergar o tal “amor cristão”, apenas uma densa cortina de  descaso e ódio. A triste realidade é que enquanto o mundo luta contra o vírus, o Brasil parece fazer o contrário: Aqui o covid teve e continua tendo uma recepção de gala, com apoio institucional e festa nas ruas, com as bênçãos cristãs e os aplausos do povo gado.

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Aos domingos… (BEDA 04)

Aos domingos, geralmente em algum momento após o almoço, costumo descansar pensando na semana que se acabou – Lembro as notícias, os fatos e invariavelmente repenso planos pessoais que mudam, afetados pelas ações maldosas dos que ocupam o poder em nosso país. Não tem sido fácil para mim e com certeza não está fácil para qualquer pessoa dotada de uma quantidade mínima de bom senso. Dessa forma, escrever aos domingos é mais do que expor minha visão do país. Escrever aos domingos é meu combinado pessoal de equilíbrio, uma escapatória que me impede de ter ainda mais raiva e desprezo pela torpeza humana. De segunda a sábado, vivo-escrevo a arte, a poesia e tudo que pode vir a tornar o mundo melhor. Aos domingos relato as portas fechadas, a decadência e o horror, são textos-gritos de alerta para quem quiser ouvir e pensar: Caramba! Ainda podemos mudar isso.

            Em datas como hoje, domingo de Páscoa, é estranho escrever textos assim, pesados. Porém não é preciso pesquisar muito para perceber que para a maioria hoje é apenas mais um dia – Sem ovos, chocolates, comemorações. Especialmente durante esses tempos de luto coletivo, com mais de 300 mil mortos. Não tem como escrever algo leve e fofo. Tentarei ao menos ser breve.

            Uma coisa intrigante é o espaço que a religião ocupa na sociedade – Cada um utiliza suas horas livres como bem entende e, se deseja manter uma prática religiosa, isso é uma escolha individual perfeitamente respeitável, desde que não coloque a saúde e a vida de outros em risco. Agora, considerando as proporções que a pandemia tomou no país, não parece razoável liberar a realização de cultos e missas presenciais, como fez um ministro do STF em decisão individual. Alguns podem dizer “vai quem quer”, porém não é bem assim. Infelizmente não morrem apenas os fieis que, cegos pelas falácias de falsos profetas, se aventuram a freqüentar essas atividades. Essas pessoas passam a doença para familiares, ou para desconhecidos no transporte público ou no comércio. Essas pessoas que se contaminaram na desnecessária atividade religiosa grupal podem vir a ocupar o leito de UTI que salvaria a vida de alguém que contraiu a doença trabalhando, talvez até mesmo um profissional de saúde. Que espécies de religiosos são esses que dizem pregar o amor espalhando a morte? Talvez seja importante avisar aos pastores que os mortos não pagam dízimos.

            Outra coisa bizarra: Após reclamações e postagens críticas nas redes sociais, a Lacta mudou o nome de um de seus bombons: O produto originalmente chamado “feitiçaria” acabou trocando de nome e agora é Lacta Morango. Consta que a maioria das reclamações partiu de grupos evangélicos (inclusive cheguei a receber no meu WhatsApp pessoal uma enorme mensagem sobre o assunto, ligando o bombom a práticas “malignas”). Quando a gente pensa que já viu tudo… Pelo menos a mudança de nome do bombom não coloca a vida de ninguém em risco. É uma situação ridícula e insensata, mas ninguém irá morrer por isso.

            Fique em casa até o coelho de páscoa trazer um ovo especial com uma surpresa muito esperada: A vacina. Enquanto isso: comprem chocolate de artesãos, leiam um bom livro, usem máscara e, se puderem, doem um ovo para alguma criança que não teve condições de ganhar um. Feliz Páscoa.         

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Ode a memória

Ah, Liberdade! Como és fugidia!
O som maldito dos coturnos 
Pisoteando a frágil democracia
Iniciando vinte e um anos soturnos

Nossa terra diuturnamente vilipendiada
Diziam ser para o bem da Nação
Enquanto torturavam inocentes no porão
Rindo da dignidade humana violada

Aos abutres da ditadura: O lixo da história
O eterno o repúdio aos ignóbeis atos
Às vítimas o direito à verdade e à memória
Que nunca sejam esquecidos os tristes fatos

Que o terror desses anos nunca seja esquecido
Pois o passado nunca é apenas o tempo ido
Que reverbere pelos ares o brado: Foi golpe
Que persista a luta: 1964 nunca mais! 

Brasil. Para a dívida das igrejas, o perdão. Para o trabalhador, o extermínio.

Em uma rápida busca, encontrei mais de cinqüenta municípios brasileiros com menos de 3500 habitantes. Não aprofundei a pesquisa para encontrar mais. Na última semana vivemos dias de terror, como se diariamente um município inteiro desaparecesse do mapa. Enquanto isso ainda há quem promova aglomerações, bata continência para caixas de cloroquina e defenda a política genocida do “a vida tem que seguir normalmente, mesmo que haja mortes”. Cobrar auxilio digno, vacinação ampla e que o dinheiro usado para perdoar a bilionária dívida das Igrejas seja destinado ao combate à doença essa galera não cobra. Gado não pode ver uma CORONAFEST que já quer participar.  Mesmo diante de toda essa tragédia, tive esperança de escrever um texto curto e senão feliz ao menos esperançoso – Afinal, tivemos sim uma boa notícia: O anúncio de uma vacina 100% nacional, a Butanvac, desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com o hospital norte-americano Sinai seguido de um segundo anúncio, de outra vacina desenvolvida pela USP de Ribeirão Preto também com parceria internacional. Eu poderia parar este texto aqui comemorando o fato de que apesar dos cortes e da falta de incentivo, nossos cientistas trabalham incansavelmente. Mas infelizmente estamos no Brasil e a torneira de estrume vive aberta por aqui:

            Um funcionário da base governista fez um símbolo ligado aos supremacistas brancos durante a fala de um Senador. Ainda não houve punição. Circula um vídeo onde um homem cumprimenta o (des)governante do país e ao pousar para a foto faz exatamente o mesmo gesto – A reação de Bolsonaro? Repreender o homem, não pelo gesto descrito como “um gesto bacana”, mas “pega mal para mim”. O presidente considera um gesto ligado a grupos supremacistas como UM GESTO BACANA. Depois reclama de ser chamado genocida.

            A ex-apresentadora infantil Xuxa também mereceu repúdio ao sugerir que medicamentos sejam testados em presidiários “para que eles sejam úteis em alguma coisa”, evitando os testes em animais. Como vegetariana, também sou contra os testes em animais, mas acredito que a cobrança seja para que a ciência desenvolva métodos para depender cada vez menos desse tipo de teste, não para que usem seres humanos privados de liberdade como cobaias. A ideia defendida por Xuxa foi eugenista e merece repúdio, especialmente se considerarmos o sistema carcerário brasileiro como realmente é: Um sistema falido, que amontoa pessoas sem condições mínimas de garantia de seus direitos como seres humanos, onde muitos esperam anos até o julgamento, mesmo sendo inocentes – Inclusive recentemente o Fantástico e o Profissão Repórter falaram sobre isso: Pessoas presas injustamente, confundidas por características como “cor de pele” – Aliás, essa é mais uma prova do racismo: Todas as pessoas “confundidas” eram negras. É em um sistema desses que a ex-rainha dos baixinhos acredita ser ético testar produtos? Ela até pediu desculpas, mas não convenceu.

            Notícia mais ou menos boa é a vacinação de funcionários da educação e policiais. Infelizmente, ao primeiro grupo será exigida a idade mínima de 47 anos enquanto aos policiais será garantida a vacina para qualquer idade. Injusto, pois apenas aumentará a pressão pela volta às aulas presenciais em um momento delicado em que a COVID vem matando pessoas cada vez mais jovens. Espero que o movimento “volta às aulas só com vacina” se mantenha forte.

            Também tive conhecimento de que novamente tentam empurrar para as mulheres vítimas de violência sexual o projeto apelidado como “Bolsa estupro”: Uma proibição para o aborto em casos de estupro, com previsão de que o estuprador assuma o bebê ou caso isso seja impossível, que a mulher receba um auxilio financeiro para manter a criança. Lindo país onde a vida do feto vale mais que a vida da mulher. Uma verdadeira vergonha que nem deveria ser cogitada.

            Por fim, uma última noticia para fazê-los refletir: Nossos produtos viajam mais do que nós. Conseguem achar realmente normal que um navio encalhado no canal de Suez possa causar uma crise econômica tão grande? Pois é. A globalização está cobrando seu preço. A troca de conhecimentos entre países é fundamental, mas realmente é necessário que o comércio internacional seja primordial? Não é possível que cada país encontre a maioria das soluções para a vida em seu próprio território? Na semana em que comemoramos o Dia Internacional da Água (leiam minha postagem de segunda feira passada sobre o assunto), é interessante pensar na questão ambiental gerada pelos transportes marítimos, não apenas no caos econômico que acidentes assim podem causar.

            Termino o texto recomendando a vocês que usem máscara, se cuidem e usem toda a indignação do momento para cobrar auxílio emergencial digno, ajuda aos pequenos empresários, vacinação para todos e #Fora Bolsonaro.

Dia Mundial da Água

Hoje é o Dia Mundial da Água – A data foi criada pela Organização das Nações Unidas em 1992 com a intenção de discutir sobre a importância da água para a nossa sobrevivência e a urgência de preservar esse recurso natural. No mesmo dia foi divulgada a Declaração Universal dos Direitos da Água, em dez artigos:

1- A água faz parte do patrimônio do planeta;

2 – A água é a seiva do nosso planeta;

3 – Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados;

4 – O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos;

5 – A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores;

6 – A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo;

7 – A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada;

8 – A utilização da água implica respeito à lei;

9 – A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social;

10 – O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

            Infelizmente o planeta está próximo a viver uma crise hídrica. Até 2030 a demanda por água será 40% maior do que a água disponível para consumo e, muito embora a água seja um recurso renovável, a velocidade de consumo e o descarte sem tratamento estão sistematicamente dificultando e impedindo o ciclo natural de “auto-limpeza” das águas.

            A ausência e a ineficiência de políticas públicas para ampliar o tratamento de água e o acesso da população à uma rede de esgotos, somada ao crescimento desordenado das cidades, resultado também da inércia do Estado em garantir moradias à população, coloca o Brasil em uma situação vergonhosa: No ano de 2019  nosso país não garantia o acesso diário à água potável  nos lares de 18,4 milhões de brasileiros, bem como apenas 68,3% dos domicílios do país possuíam acesso à rede de esgoto. Esses preocupantes números demonstram uma catástrofe social e culminam em uma tragédia ambiental – a poluição dos rios brasileiros – Apesar do país deter em seu território 12% do volume da água doce de todo o planeta, isso não significa que essa água esteja em condições de consumo – Dos rios analisados pela Fundação SOS Mata Atlântica, apenas 6,5% tinham boa qualidade da água (dados de 2019).

            Não bastassem os problemas gerados pela poluição oriunda dos esgotos domésticos, há ainda a questão da agroindústria, responsável por 70% do consumo de água do mundo e, ao mesmo tempo pela contaminação de rios e lençóis freáticos com pesticidas. No Brasil, somente em 2020, foram liberados 493 tipos de agrotóxicos, alguns inclusive banidos da União Européia. Esses agrotóxicos contaminam rios e chegam à nossa mesa nos vegetais, nos peixes, carnes e na água que consumimos. Diante desse quadro, torna-se urgente repensar a agroindústria, investir no plantio de orgânicos e na agricultura familiar como forma de estacionar e reverter os danos ambientais causados.

            A questão da pecuária descortina outro absurdo: Um terço da água consumida no planeta destina-se direta ou indiretamente ao mercado de criação de animais de corte. Esse número é composto pela água utilizada na produção dos grãos que alimentam esses animais (No Brasil, 78% da produção de grãos se destinam a alimentar o gado) e pela água necessária para o consumo dos animais. Se pararmos para pensar e somar a isso a água utilizada na higienização de frigoríficos e matadouros, na poluição causada pelo transporte dessa carne e nas toneladas de plástico utilizadas para embalagem, perceberemos que consumir animais mortos é um crime ambiental. É urgente reduzir drasticamente o consumo de carnes como forma de cuidar da água e do planeta. O vegetarianismo é saudável e possível.

            A segunda indústria mais poluente do mundo é a indústria da moda – Só a indústria têxtil consome anualmente 93 trilhões de litros de água! Uma camiseta consome 2kg de combustíveis fósseis e 3 mil litros de água só para fabricação (não levando em conta os impactos da lavar, passar e descartar a peça). Uma calça jeans demanda em sua fabricação 10 mil litros de água e um par de sapatos 8 mil litros de água.

            Outra indústria que consome muita água é a indústria de descartáveis – Sabe aquele copinho descartável? Mesmo que você tente aliviar a consciência encaminhando para a reciclagem, isso não é o suficiente. Para produzir um copo descartável usa-se em média 3 litros de água. Melhor carregar um copo reutilizável e lavar sempre – Uma boa lavagem utiliza menos de meio litro de água. O mesmo vale para outros objetos: reconsidere sua “necessidade” de comprar objetos plásticos – Dá pra reaproveitar muitos potes e embalagens!

            A mineração e o garimpo são vilões que despejam no meio ambiente um grande volume de óleo, graxa e metais pesados. A poluição oriunda dessas atividades vem aniquilando a flora e a fauna, além de contaminar populações ribeirinhas inteiras no norte do Brasil. E, muito embora a mineração seja indiscutivelmente necessária, é importante repensar o consumo e reduzir ao máximo essa necessidade de extrair metais. Afinal, você não precisa de um celular novo anualmente ou de uma jóia de ouro. Mas certamente precisa de água.

            Como ajudar o planeta?

            Quem leu o texto com atenção já percebeu: O primeiro passo é repensar o consumo. Diminuir a necessidade de ter coisas novas, diminuir ou zerar o consumo de carnes, carregar seus próprios copos, garrafinhas, pratos e copos, priorizar o consumo de alimentos frescos preferencialmente comprados de produtores locais e fugir de ultraprocessados. Tudo isso ajuda e muito. Nesse link tem outras dicas bacanas de economia de água que podem parecer assustadoras no início, mas que podem ser colocadas em prática.

            A segunda forma de ajudar o planeta é também muito importante: Votar certo. Pesquisem exaustivamente o posicionamento dos candidatos acerca das questões ambientais. A questão da poluição é intimamente ligada à ausência de políticas públicas para garantir a destinação correta do lixo e do esgoto e à inércia dos em punir infratores ambientais. E quem cuida dessas políticas públicas? O governo (leia-se executivo e legislativo). Quem libera terras para garimpo e extração de minérios, impõe regras para construção de barragens e decide quais agrotóxicos serão liberados no país? Governo. Quando estiverem pesquisando seus candidatos e candidatas em 2022, atentem-se.

Abaixo alguns links interessantes sobre o tema

Origem do dia da água

Números sobre a distribuição de água no Brasil

Qualidade dos rios Brasileiros

Agrotóxicos no prato

Água e pecuária

Quatro bilhões de pessoas enfrentam escassez de água

Indústria têxtil e água

Descartável não é a melhor opção