Sobre Política: Lições e decepções necessárias

Quando o assunto é política, há inúmeras lições a serem aprendidas – Algumas, como a questão da consciência de classe, do histórico pessoal e das alianças políticas escolhidas pelo candidato (a/e) são fundamentais principalmente para quem irá às urnas. Entretanto, um aprendizado é básico e deve servir sempre aos dois lados – votantes e votados: Não existem soluções únicas, mágicas, milagrosas. 

É muito fácil se candidatar tripudiando dos problemas reais e dizendo “vou resolver isso aí”. O problema é que há muita gente fazendo isso e muito eleitor (a/e) acreditando sem questionar quais são as opções concretas para a resolução do problema. 

Um exemplo claro do que pode dar errado quando se faz promessas eleitoreiras é a placa colocada hoje aqui em São Vicente: Rua Rio Kayo Amado. Ocorre que num passado recente, Kayo caminhava por bairros historicamente atingidos pelas enchentes prometendo resolver o problema. Hoje, vivendo o segundo ano de seu mandato, o atual prefeito colhe as críticas de pessoas que acreditaram em suas promessas e o apoiaram. Críticas como essa placa simbólica. 

É sabido que o drama das enchentes na cidade de São Vicente é uma junção de fatores: Chuvas, escoamento, lixo nos canais, maré. Em seus vídeos, o então prefeiturável, poderia ter colocado as cartas na mesa: A resolução das enchentes seria alcançada com obras de dragagem e com uma nova política pública de gestão de resíduos – que depende também do apoio da população e com a consciência de que em áreas atingidas pela cheia das marés, o máximo que a prefeitura pode fazer são obras que garantam o escoamento da água, uma vez que o mar não pode ser controlado. Possivelmente uma postura assim, sincera e que delegue à população uma parte da resolução do problema, iria fazer com que alguns votos fossem perdidos, mas pensando em longo prazo, evitaria que já eleito o prefeito se tornasse motivo de chacota e revolta, além de construir uma base eleitoral engajada e participativa – Algo que falta em nosso país. 

Que para o futuro possamos ver mais sinceridade em quem se candidata a cargos políticos e um julgamento mais realista por parte de quem irá às urnas votar.


Este post é o terceiro post BEDA (blog Every Day April), que este ano por problemas técnicos está sendo postado aqui com um dia de atraso (mas segue na sequência correta de dias no meu instagram @poetisa_darlene). O texto escrito ao som dos carros passando pela rua ainda inundada e da música Que país é esse?

Conheçam também as postagens de

Ale Helga – Mãe Literatura – Lunna Guedes – Obdulio

Os números do lixo e os 5R’s da sustentabilidade

Quem me acompanha aqui há um tempinho sabe que uma coisa que me incomoda imensamente é a quantidade de lixo gerada no dia a dia e os impactos que isso causa ao meio ambiente. Infelizmente a maior parte da poluição global vem da indústria – ou seja – de quem detém o dinheiro. E isso é um problema, pois os acionistas e diretores na maioria das vezes priorizam o lucro acima do meio ambiente. Na outra ponta da cadeia de consumo temos milhares de trabalhadoras e trabalhadores que acabam optando pela praticidade em detrimento da própria saúde e da preservação do meio ambiente, outras pessoas ainda são forçadas pelos preços altos a escolher produtos de qualidade inferior sem questionar se estas escolhas em longo prazo irão afetar a vida ou o planeta. É uma equação bem difícil de resolver e por isso mesmo é um assunto tão necessário. O comportamento da população certamente não consegue sanar todos os danos causados pela produção de lixo, mas em pequenas atitudes do dia a dia é possível mitigar os malefícios que a nossa presença causa no mundo, além de melhorar a nossa qualidade de vida e com sorte, conseguir economizar um pouco.

                Vamos falar de números?

                Embora muitas coisas sejam recicláveis, nem tudo é reciclado no Brasil. Cada habitante do país gera em média 379kg de resíduos sólidos por ano. Dessa quantidade, menos de 3% chega a ser reciclado – Em partes pela dificuldade de manuseio e baixo valor econômico do material, como por exemplo, isopor ou embalagens laminadas de biscoitos, em partes pelo baixo número de pessoas com acesso aos serviços de coleta seletiva (apenas 41,4% da população tem acesso a esse tipo de serviço – E infelizmente nem todas as pessoas que possuem acesso utilizam o serviço de maneira efetiva). Por essas e outras questões, é necessário concordar com a Bruna Tissu, do instituto Akatu: O melhor resíduo é aquele que não foi gerado!

                Em 2020 a Secretaria Nacional de Saneamento do Ministério de Desenvolvimento Regional apresentou a décima oitava edição do Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos, elaborada com base nos dados do ano anterior, 2019. Na citada edição, 3792 municípios do país participaram da coleta de dados, o que representa 86,6% da população urbana brasileira.

                O documento destaca também a participação dos catadores na coleta seletiva em parceria com o poder público: Eles foram responsáveis por pouco mais de 36% do total de materiais recicláveis coletados e encaminhados em 2019.

                Em números gerais, o país recuperou o equivalente a 7,53 kg de resíduo por habitante no ano de 2019 – Ou seja: Cada habitante gera 379kg de lixo e dessa quantidade, nem 10kg chegam a ser recuperados. 75% do lixo gerado foram parar em aterros sanitários e 24,9% foram parar em outros aterros e lixões, considerados inadequados. O assustador desses dados é que eles levam em conta o material coletado – E basta olhar ao redor para perceber que há muito lixo indo para outros lugares, como o mar e os rios.

                É possível ver que apesar do disposto na Lei Federal 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos) determinar que todo o material produzido por atividades domésticas e comerciais coletado deva ser encaminhado para reaproveitamento por reciclagem, reutilização compostagem ou geração de energia, destinando-se aos aterros sanitários apenas os resíduos que não possuam tecnologias viáveis de reaproveitamento, o problema está longe de ser resolvido por aqui.

Os 5Rs da sustentabilidade

                Os 5Rs são atitudes que sugerem mudanças de comportamento de consumidores e empresas em relação ao ato de consumir e descartar com responsabilidade. Quais são esses hábitos afinal: Repensar, reduzir, reaproveitar, reciclar e recusar. Vamos conhecer de perto?

                Repensar: Quando você vai comprar um produto, pense se realmente precisa, no resíduo que será gerado e na cadeia produtiva desde a extração de matéria-prima até o descarte (não deixe de considerar o consumo de energia, água, emissão de carbono, condições de trabalho na cadeia produtiva, formas de distribuição e etc.). Além de colaborar com o meio ambiente, repensar os hábitos de consumo ajuda bastante no orçamento no final do mês.

                Reduzir: Práticas simples do dia a dia ajudam a reduzir o consumo e evitar o desperdício. Muitas vezes podem parecer mais dispendiosas como, por exemplo, quando se compra um item mais caro, mas que terá uma vida útil bem maior, o que significa uma economia em longo prazo. Pilhas recarregáveis também significam um gasto imediato um pouco mais alto em relação às pilhas comuns, mas representam economia e sustentabilidade. Outros hábitos que reduzem o desperdício e o consumo são utilizar frente e verso do papel, realizar trocas de livros, roupas e objetos (podem ser trocas entre familiares, amigos ou em grupos na internet), dar preferência aos produtos a granel ou que possuam embalagens retornáveis, carregar sua própria garrafa, caneca e talheres na bolsa (evitando os descartáveis) são outras dicas úteis.

                Reaproveitar: Você pode dar uma nova utilidade a um item já usado, estendendo sua vida útil e evitando um novo processo de produção (sabe aquela piada? Morre uma camiseta, nasce um pano de chão? É sobre isso e mais um pouco). Potes de vidro podem se tornar porta-alimentos (e não, você não precisa de uma etiqueta adesiva sinalizando que ali tem macarrão ou arroz, dá pra enxergar perfeitamente), caixas de sapatos podem ser organizadores de objetos e tantas outras ideias. A imaginação é o limite.

                Reciclar: Reciclar requer um trabalho industrial, transformando o resíduo em novo produto. É uma opção que gera emprego e renda, custa mais barato do que a produção tradicional e diminui a exploração de recursos naturais. Sempre que decidir adquirir um novo produto, procure comprar produtos que possam ser reciclados, contribuindo para um processo de produção mais limpo. Além disso, cobre dos gestores de sua cidade a disponibilização de coleta seletiva.

                Recusar: Você pode e deve recusar a comprar produtos de empresas que não tenham compromisso com o meio ambiente, bem como pode e deve recusar canudos plásticos, descartáveis em geral, sacolinhas de supermercado, aquelas notinhas do cartão de crédito e outras coisas desnecessárias que geram impactos negativos.

Agora que vocês sabem um pouco mais sobre o lixo e sobre os cinco Rs, me contem: O que vocês já fazem para tornar o dia a dia mais sustentável?

O ENEM e o abismo

Hoje foram aplicadas as provas do ENEM: Exame Nacional do Ensino Médio. Conforme amplamente noticiado, o número de participantes caiu drasticamente. Infelizmente isso é um reflexo do aumento do abismo social no país –  O desmonte do ensino público e as dificuldades oriundas da pandemia vão tirando pouco a pouco a esperança dos jovens que não conseguem ver um futuro. Some-se a esses fatores as tarifas proibitivas para a inscrição, os percursos enormes entre a residência e o local de prova (Há quem precise sair de casa com dias de antecedência) e está pronta a receita para o desastre. Quantos futuros não se perderam hoje? Caberia ao governo federal garantir aos estudantes o acesso dos estudantes a locais de prova adequados, bem como a gratuidade aos estudantes oriundos de escolas públicas – O ENEM é uma porta de entrada para as principais universidades do país! Se com a nota da prova o jovem periférico mata um leão por dia para conseguir ingressar na universidade, sem o ENEM esse jovem será atirado no meio de um cardume de tubarões e acabará devorado e excluído da oportunidade de ingressar em uma carreira profissional. 

É sintomático perceber que as mesmas pessoas que exigiram e gritaram por escolas abertas em pleno auge da pandemia, se calam diante do ENEM mais excludente da história: Isso só prova que a preocupação nunca foi com a educação de crianças e jovens  e sim com os lucros das instituições particulares de ensino e com a possibilidade de explorar ainda mais a mão de obra de trabalhadoras, afinal, os ditos pró-vida só se preocupam em fazer do útero alheio uma fábrica de novas forças de trabalho – Mas sem educação de qualidade, afinal, educação encarece a mão de obra e o que essa patota verde-amerela “Deus -Patria- Família” realmente quer é mão de obra barata, explorável, desesperada por um naco de pão.

Segunda sem carne – Escritoras e escritores vegetarianos

Inicialmente minha intenção era publicar um pequeno artigo sobre personagens vegetarianos na literatura. Pesquisando, encontrei pouca coisa e ao mesmo tempo fiquei surpresa por descobrir pessoas importantes que foram vegetarianas. Vamos conferir?

1. Jean-Jacques Rousseau: O filósofo e escritor suíço famoso por seus textos políticos era adepto do vegetarianismo.

2. Willian Blake: Pintor e poeta inglês, Blake foi adepto do vegetarianismo, defendendo que alimentos saudáveis não precisam “de redes ou armadilhas”

3. Mary Wollstonecraft Shelley: Sim, a criadora de Frankenstein cresceu em uma família que simpatizava com o vegetarianismo e casou-se com Percy Shelley, também vegetariano. O próprio Frankenstein também é uma personagem vegetariana.

4. Pitágoras: Foi uma surpresa descobrir que na Grécia antiga já havia uma preocupação sobre a alimentação humana e os animais. Não apenas Pitágoras mas também seus seguidores, eram vegetarianos.

5. Liev Tolstói: O escritor russo era adepto do vegetarianismo e de uma vida simples.

Quer saber mais? Visite os sites que eu utilizei na pesquisa!

Jean-Jacques Rousseau:

Cantinho Vegetariano

As dietas de Rousseau: O caso do Emílio

Willian Blake

Cantinho Vegetariano

David Arioch – Jornalismo Cultural

Mary W. Shelley

O vegetarianismo na literatura de Mary Shelley

Frankenstein e o silenciamento das feministas vegetarianas

Pitágoras

David Arioch – Jornalismo Cultural

O vegetarianismo ao longo da história da humanidade

Liev Tolstói

Vegazeta: Tolstói e o vegetarianismo

Como Tolstói influenciou o vegetarianismo na Rússia

O que Tolstói escreveu sobre o vegetarianismo

Outras personalidades:

O bigode do Poe

8 figuras históricas que defendiam o vegetarianismo

COP26: O futuro do planeta em foco.

A 26ª Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP26) começou dia 1º de Novembro sem a presença do presidente brasileiro – O que não é surpresa dado o descaso do atual governo com as questões ambientais. O país foi representado pelo atual ministro do Meio-Ambiente, Joaquim Leite.

             A COP26 tem como objetivo estabelecer ações para impedir que o aquecimento global atinja 1,5º até o final do século. A principal ação para evitar a catástrofe climática é reduzir a emissão de gases do efeito estufa  e para isso um passo fundamental é investir em energia limpa, abandonando o uso de combustíveis fósseis. Outro passo fundamental é impedir o desmatamento.

             Por mais ambiciosas que sejam as metas até agora traçadas, cientistas apontam que elas ainda são insuficientes e que é necessário trabalhar duro para impedir que a influência humana sobre o clima venha a causar ainda mais catástrofes do que já vem causando.

             É importante lembrar que infelizmente a COP26 é conduzida por lideranças políticas dos países participantes – ou seja: Pessoas que atrelam suas metas ao capital numa tentativa de agradar o mercado econômico e o meio ambiente ao mesmo tempo.  E aí entramos na problemática principal: Existe a possibilidade de salvar o planeta dentro de um sistema capitalista? Infelizmente, temo dizer que não.

             Embora a população possa e deva fazer a sua parte diária na redução da poluição, é de fundamental importância lembrar que a atividade industrial é a principal fonte de emissão de gases do efeito estufa – Seja pelo alto consumo de energia, seja pelos poluentes dispersados no meio ambiente durante a fabricação de produtos ou ainda pelo transporte de mercadorias e insumos que atravessam o planeta.

             Nesse sentido, é fundamental que as lideranças políticas presentes na COP26 comecem a pensar não apenas em substituir as formas de geração de energia, como também em desacelerar a produção e consumo exacerbados sem impactar na vida dos trabalhadores. Entretanto, isso desagradaria o mercado e sequer entrou em pauta.  

             Enquanto um punhado de pessoas – Em sua maioria homens brancos – decide os rumos do planeta, a população mais pobre paga a conta dos resultados de um sistema econômico e produtivo que prioriza o lucro de uns poucos acima da vida das pessoas. 

Mudar a sociedade antes que o tempo se esgote (BEDA 15)

Infeliz é o país que subjuga a capacidade dos seus. Quando Ricardo Velez disse que não deveria existir universidade para todos, deixou bem explicado nas entrelinhas que o ensino universitário se destina apenas aos filhos da elite, destinados a continuar mantendo suas posições no cada vez mais estreito topo da pirâmide social. Para pessoas dessa laia o desemprego é bom pois diminui os salários e a cracolandia só se mantém pois há quem alimenta a população em situação de rua. E sabe, não é novidade nenhuma ver os poderosos lutando por mais poder. Não me surpreende ou irrita nem um pouco. O que me deixa surpresa é ver o pobre torcendo pelo direito do patrão em detrimento dos próprios direitos. Aliás já li em algum lugar que os males do Brasil são falta de interpretação de texto e falta de consciência de classe. E podem ter certeza: O projeto é justamente atacar a educação, reduzindo cada vez mais a capacidade de leitura (de textos e da própria vida) do estudante para que as gerações cresçam com zero consciência de classe e uma grande gana de defender os que estão no topo, mesmo que para isso seja necessário derrubar e pisar nos que estão embaixo e ao lado. É uma realidade triste, já desenhada anos atrás na peça teatral “Eles não usam black-tie” de
Gianfrancesco Guarnieri.
O mais assustador nesse processo todo é perceber que a ganância humana não está destruindo apenas a população empobrecida e explorada: As consequências do capitalismo brutal e desenfreado aparecem na forma de mudanças climáticas catastróficas. Apesar do atual desgoverno brasileiro ser um potencial acelerador do processo, é preciso lembrar que a diferença social e a manutenção do lucro em detrimento da vida e do meio ambiente são fatores comuns em boa parte dos países ao redor do planeta. É preciso reduzir urgentemente os níveis de consumo e rever a construção da sociedade antes que o tempo para isso se esgote. E acreditem, está se esgotando.

Esse post faz parte do BEDA (Blog Every Day August)

Dia do Estudante (Beda 11)

Hoje é Dia do Estudante. Sinceramente pouco há para se comemorar: Nos últimos anos a educação vem sofrendo uma série de desmontes e é inegável que a qualidade do que é oferecido às crianças e jovens está muito aquém do que é merecido pelos que irão herdar um país repleto de problemas.
A PEC do teto, aprovada no governo Temer, as terceirizações, a reforma do ensino médio, as propostas de escola em tempo integral defendidas pelo governo do Estado de São Paulo, as escolas cívico militares implantadas pelo governo federal são precarizações do direito básico a uma educação libertadora e formadora de cidadãos com senso crítico. Infelizmente esse desmonte e ataques não são frutos de negligência ou incompetência: Deteriorar a qualidade da educação pública garante a manutenção de um status quo onde o abismo social separa as oportunidades de formação e crescimento, garantindo aos filhos e filhas da burguesia o acesso às melhores escolas e universidades para posteriormente garantir-lhes os melhores empregos, enquanto as crianças e adolescentes vindos da classe trabalhadora precisam enfrentar o impossível para tentar buscar uma posição socioeconômica um pouco melhor.
Não há motivos para comemorar, mas há mil motivos para lutar

Feliz dia do estudante!

Este post faz parte do BEDA (Blog every day august)

O Brasil é Baile de Favela, (Beda 8)

O Brasil é Baile de Favela.

Quem diria que o Brasil ganharia uma medalha olímpica ao som de “Baile de Favela”, música criticada por seu estilo que, como diz o título, nasceu na favela.
O tapa veio com luvas de pelica: A Olimpíada (que nem deveria acontecerem meio a uma pandemia), foi palco de diversidade. E essa diversidade se mostrou com força: Mulheres, negros e negras, LGBRQI+ se destacam nos jogos e mostram a que vieram. E isso é importante, tão importante quanto usar músicas populares no país. Aliás, quando se fala de funk, diversos olhos reviram. E eu entendo. Mas é necessário ver outro lado: A Favela não deve ser demonizada e sim vista como uma produtora de conteúdo e cultura – Sim, cultura! Não é porque você não gosta de funk que ele deixará de ser expressão cultural.

Ônibus, resistência e desistência. (BEDA 05)

Tem dias que a gente nem deveria sair da cama. Mas acaba saindo, pelo bem do salário no final do mês.

Quatro e meia da manhã o cheiro de café já se espalha pela casa. Me arrasto para o ponto de ônibus tão cedo que o Sol nem deu as caras ainda. Quem me conhece bem sabe que eu tenho uma séria relação de terror e ódio com o transporte público – Mesmo sem pandemia, a ideia de entrar numa lata de sardinha respirando o mesmo ar que sei lá quantas pessoas me parece nojenta. Sem falar no contato físico indesejado: Um braço que encosta aqui, corpos que colidem nas curvas e declives da cidade. Agora, tornou-se uma experiência ainda pior – A ponto de eu ter caminhado quinze quilômetros voltando do trabalho para casa só pra não pegar ônibus.

Eis que um dia desses entro no ônibus e me deparo com um lugar vago bem atrás de duas mulheres – Uma trazendo no colo uma criança semi-adormecida. Segue-se o diálogo das duas:

“Você tem sorte da tua menina estudar em Santos. Lá as aulas já voltaram né?”

“Já. Nossa, estava impossível ficar com ela em casa”

“É, aqui em São Vicente deviam voltar também, deixar as crianças sem escola por conta de uma gripezinha”

“Absurdo né? Eu mando mesmo a minha pra escola. Se pegar e morrer é da vontade de Deus”

“Sim. E a gente ainda é jovem. Morreu, a gente faz outro”.

A conversa seguiu nesse nível.

Nesses momentos eu penso na vida e tenho vontade de esquecer aquela frase “Serei resistência”.

Resistência? Para garantir um país melhor? Pra tanta gente estúpida e sem noção? Pra garantir um futuro pros filhos de pessoas que votaram no atual presidente? Afinal, qualquer mudança resultante da luta de hoje possívelmente só será vista pelas próximas gerações.

Em semanas como esta que passou, não tenho a mínima vontade de ser resistência. Acho que vou mudar a frase: Se é pra garantir o futuro de gente estúpida, serei desistência.

Quanto ao meu futuro? Bom, eu que não lute pra ver…

Usem máscara (dupla de preferência), lavem as mãos e dentro do possível, fiquem longe de aglomerações. Afinal, de negacionista e bolsoafetivo babaca, o país está cheio.

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Fogo, fumaça e memória (Beda 1)

Fogo, fumaça e memória

Queimaram a estátua de Borba Gato. Bandeirante, estuprador. Genocida. Embora queimar a estátua não apague os atos horrendos do passado, é necessário pensar o ato como uma correção: A retirada simbólica de uma homenagem que sequer deveria existir.

Fico perplexa ao perceber que inúmeras pessoas defendem a estátua de um genocida, mas se calam diante de agressões perpetradas sistematicamente contra populações negras, indígenas e LGBTQIA+: Uma estátua tem mais valor que a vida?
O silêncio quase palpável se estende diante da queima de nossas florestas, museus e da cinemateca. Mas quando o fogo é em Paris? Ah! Aí temos até mobilização nas redes sociais.

A queima da nossa história não é fato recente, mas, aparentemente, só incomoda quando apaga a memória do colonizador, invasor, agressor. A memória do povo? Essa, parece que pouco importa.

O movimento de apagar as fontes de cultura de um povo não é novidade: Já aconteceu durante a idade média, durante o período nazista e nas mais diversas ditaduras ao redor do mundo.

Agora, o apagamento acontece diante dos nossos olhares atônitos, em nosso país onde membros do governo diversas vezes envolveram-se em polêmicos plágios de simbolismos nazistas.

Diante do quadro catastrófico, fascista e entreguista da política nacional, pouca ou nenhuma solidariedade me resta pela estátua de um genocida.

A estátua do genocida de tempos passados virou fumaça. Que amanhã possa cair e virar fumaça o atual governo. Sem deixar sequer uma estátua que possa ser queimada no futuro.

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