Passaporte da Leitura: Chile

A leitura é mesmo mágica – em dois dias o Passaporte da Leitura me levou ao Chile e me trouxe de volta para contar tudo aqui no blog! Quem ainda não conhece o Projeto Passaporte da Leitura pode clicar aqui para conhecer mais!

O livro escolhido foi “O caderno de Maya” da autora chilena Isabel Allende.

Título: O caderno de Maya

Autor: Isabel Allende

País: Chile

Uma jovem fugindo da máfia de Las Vegas e do FBI. Uma ilhota nos confins do Chile e um homem solitário. Uma despedida e um caderno em branco. Juntar estes elementos em uma obra literária já é promessa de uma história atraente. Com a maestria de Isabel Allende, a personagem Maya Vidal conquista o leitor, levando-o hora ao paraíso chileno, ora a uma infância feliz e amorosa, ora ao fundo do poço das drogas, da prostituição e do crime. O livro é denso – mergulhar em suas páginas é sentir dor, medo, alegria, decepção – e também uma vontade imensa de conhecer o Chile, com sua história marcada recentemente pela ditadura e suas belezas naturais.

Maya é o exemplo de adolescente que guarda em si uma mulher forte, destemida e decidida, mas ainda não a conhece e mergulha em um poço sem fundo, numa busca incessante por algo que nem ela mesma conseguiria definir. Nini, a avó de Maya, por outro lado, é a senhora sábia que não deixa transparecer as marcas que a ditadura lhe deixou. Aliás, a obra merece ser lembrada pela construção de personagens femininas bem estruturadas, com histórias interessantes e fortes – Isabel Allende não deixou o amor romântico fora da vida das mulheres de sua obra – Ela o incluiu em seu texto de forma que a vida dessas mulheres não girasse completamente em torno do sentimento romântico. Importante também ressaltar que o livro tem alguns trechos onde a violência sexual aparece de forma explícita, o que pode disparar gatilhos em algumas pessoas.

Sem dúvidas “O Caderno de Maya” é uma obra bastante agradável e uma excelente dica de leitura.

Sobre a autora:

Isabel Allende é sobrinha do ex-presidente chileno Salvador Allende, deposto pelo golpe de estado que instaurou a ditadura de Pinochet em 1973. Apesar de ter passado anos longe do Chile, Isabel retrata seu país com maestria. Nascida em 1942, Isabel hoje vive na Califórnia. A autora coleciona êxitos literários, como o livro “A casa dos espíritos”, adaptado para o cinema.

Sobre o Chile:

O Chile é um país sul americano formado por uma área continental e também por ilhas. Seu clima é bastante diversificado – o país possui regiões de clima desértico e também partes extremamente geladas. Em relação a população, há uma mistura de etnias, principalmente entre europeus e indígenas, havendo também uma parcela da população descendente de imigrantes do oriente médio. O país passou por uma ditadura entre 1973 e 1990 – foi um período sombrio onde houve várias violações aos direitos humanos. Atualmente o IDH (índice de desenvolvimento humano) chileno é considerado muito elevado. Santiago é a capital e também a cidade mais populosa do país. O Chile tem como idioma oficial o espanhol – herança de sua colonização. Sua moeda é o peso chileno. O país não possui uma religião oficial – o estado é laico e a discriminação religiosa é proibida – entretanto a grande maioria da população se declara católica.

Devaneios e (1)

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Castanha de caju na moranga

Dias atrás postei sobre o Samhain e os significados desta festividade, além de comentar um pouco sobre os alimentos tradicionais da época. Um desses alimentos é a abóbora, em especial a abóbora moranga que ficou conhecida pelas famosas lanternas feitas no Halloween e,  por isso, escolhi preparar esta receita de castanha de caju na moranga – adaptação da receita postada no blog Laboratório dos Sentidos, da Fabiana Turci (vale a pena clicar e ler a publicação original e as outras receitas também!). Essa castanha de caju na moranga é uma ótima dica para jantares especiais e combina perfeitamente com arroz integral sete grãos e uma boa salada de folhas verdes.

Ingredientes:

1 moranga pequena

2 xícaras de castanha do pará

200gs de castanha de caju crua ou torrada com sal

2 xícaras de molho de tomate caseiro

Páprica, sal, azeite, cebolinha e salsinha

1 pimenta dedo de moça fresca picada

3 dentes de alho

1 cebola picadinha.

Preparo:

Deixe a castanha do pará de molho por oito horas. Lave bem a moranga e coloque em uma panela grande para cozinhar por meia hora.  Depois de cozida, retire da panela e deixe esfriar bem e, só depois de fria, corte com cuidado um círculo na parte de cima e retire todas as sementes. Vire-a de cabeça para baixo para escorrer qualquer resquício de líquido.

Escorra as castanhas do pará e coloque-as no liquidificador. Adicione água quente até atingir uns dois dedos acima da quantidade de castanhas. Coloque um pouco de sal e bata até formar um creme. Adicione a salsinha e reserve.

Em uma panela refogue os temperos, a pimenta vermelha e as castanhas de caju, fritando levemente. Adicione o molho vermelho e, quando estiver fervendo, adicione metade do molho branco de castanhas. Espere ferver novamente e desligue o fogo.

Desvire a moranga e coloque-a em um refratário, coloque o molho branco de castanhas por dentro da moranga, espalhando bem. Em seguida coloque o molho de castanhas. Cubra com papel alumínio e leve ao forno pré-aquecido por 40 minutos. Retire e sirva.

Samhain

 

 

[Grimório] O chamado da Deusa e a noite de Samhain

 O chamado da Deusa é irresistível. Anos atrás minha vida estava pouco a pouco se adaptando a ouvir as estações do ano e as energias da lua. A participação no círculo de bruxaria era parte do meu dia-a-dia – e era também um desafio diante de um mundo onde trabalho e estudos sempre acabam se sobrepondo a tudo – até mesmo aos cuidados espirituais mais básicos. Depois de uma mudança de cidade que deu muito errado, acabei me desfazendo da maioria dos meus objetos de altar e me afastando – mas todos os anos a vontade de voltar aos rituais é grande e acaba sendo sobreposta pelas responsabilidades e falta de tempo. E então, neste ano, resolvi finalmente retornar – não ao círculo, por ora, mas ao menos tentar não deixar passar em branco as mudanças do ano, as festividades e celebrações – mesmo que por agora minhas celebrações sejam apenas ligadas à magia de cozinhar alguns pratos especiais ligados às festividades e aos poucos ler mais e voltar a expandir a concentração e a sensibilidade. Um passo de cada vez é melhor que ficar parada, não é verdade? E quando eu começo? Hoje, Sabat de Samhain, a noite mais mágica do ano para nós pagãos.

 “- Mas Darlene, seu blog se chama Devaneios e Poesias, por qual motivo falar sobre Wicca e Paganismo? ’’ Porque eu acredito que algumas ( talvez a maioria) das pessoas que apreciam meus textos, minhas poesias e minhas receitas, gosta também de conhecer um pouquinho do que está por trás de tudo isso: O que inspira os escritos, quem é a autora em seu dia a dia – acredito que quando iniciamos um blog, a maior intenção é compartilhar um pouco do universo que trazemos em nossa alma com outras pessoas que tem em si universos particulares e diferentes – e sem dúvida a Wicca fez e faz parte deste meu universo.

Sobre Samhain:

Dentro da Roda do Ano, a noite de Samhain é uma das mais mágicas – Seu significado é de morte e renascimento, marcando por isso o final e o inicio de um novo ano no calendário dos pagãos que seguem o panteão celta. O Deus-Sol ou Deus Cornífero morre e a Deusa está em entrando em sua fase anciã. É tempo de recolhimento e introspecção. Na noite de Samhain, o véu entre os mundos está aberto, por isso é a noite ideal para honrar os que já partiram; o costume de esculpir máscaras em abóboras colocando uma vela dentro é uma tradição que tem como explicação a necessidade de espantar os maus espíritos que estão circulando livremente nesta noite mágica. Também é uma noite propícia para confeccionar objetos mágicos, amuletos, consagrações e iniciações, além de se dedicar às práticas divinatórias. Os rigores do inverno se aproximam, festeja-se a última colheita, organizando reservas para os dias futuros. Não é uma época propícia para iniciar novos projetos, mas sim para agradecer o que já conseguiu alcançar e deixar para trás tudo que não deu certo. A Deusa já está em sua fase anciã e chora a partida do Deus, mas ao mesmo tempo já trás em seu ventre o embrião da criança da promessa – O Deus Sol que renascerá em Yule, quando a Deusa será novamente mãe, reiniciando todo o ciclo. É sempre útil lembrar que o Samhain é comemorado em 31 de Outubro no hemisfério norte e em 30 de abril no hemisfério sul.

Algumas dicas:

Em casa:

-Desapegue de tudo que não usa mais – aproveite a proximidade do sabat para fazer aquela faxina, doar objetos que não tem mais utilidade.

-Organize a dispensa – Se costuma ter um estoque é hora de verificar as validades para não perder nada e completar o que está faltando.

-Faça uma faxina caprichada e depois utilize um bom incenso de banimento, caminhando por todos os cômodos, tendo em mente que as energias mais pesadas e estagnadas estão sendo varridas para fora.

– Utilize neste período incensos de sálvia, mirra, artemísia, patchouli,hortelã ou alecrim.

– As pedras relacionadas ao Samhain são ônix, obsidiana negra, floco-de-neve, granada, hematita, âmbar, cornalina, turmalina negra. Use-as em sua casa e em acessórios, mantendo-as por perto.

Na cozinha:

Aproveite a energia e prepare uma ceia com ingredientes tradicionais da celebração:, maçã, alho, abóbora, sálvia, hortelã, pêra, alecrim, castanhas, milho e outros grãos, romã, batata, milho, trigo, gengibre. Para beber, água, vinho e suco de uva, romã ou maçã.

Rituais:

– Esculpir uma lanterna na abóbora e colocar na porta de casa

– Trançar uma corda de bruxa: Corda de bruxa é um cordão que liga simboliza o cordão umbilical que nos trás à vida terrestre – é o cordão que nos liga ao Outro Lado. Pode-se usar até três cores para trançar a corda, de acordo com o desejo a ser realizado:

Branca – Harmonia

Vermelho: Afasta os inimigos, ajuda a vencer obstáculos, traz coragem

Laranja: Atrai prosperidade e sucesso

Rosa: Auxilia a vida amorosa

Preto: Proteção, afastar o azar

Verde:Abundância

Amarelo: Atrair saúde e sorte nas finanças

Deve-se usar cordas cortadas no tamanho (altura) do bruxo e trançar mentalizando os pedidos para o próximo ano. Depois de consagrada no altar (se você tiver um), deixe-a em algum lugar da casa para que sempre lembre seus desejos ao vê-la.

– Queima de pedidos:

Escreva em um papel tudo que deseja afastar de sua vida e em outro tudo que deseja atrair. Acenda uma fogueira – de preferência dentro do seu caldeirão – e queime primeiro o com o que deseja afastar – é preciso se concentrar enquanto o papel queima. Em seguida, queime o papel que contém as coisas que deseja atrair – também é importante concentração e gratidão neste momento – coloque folhas de louro no fogo enquanto queima o papel com os pedidos.

 

Blessed Samhain!

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Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão

Falar sobre a vida e a história de alguém é sempre uma grande responsabilidade – o biógrafo pode muito bem conhecer datas e fatos, mas terá um longo caminho para chegar a conhecer as motivações que levam alguém a traçar seus rumos. Escrever sobre uma mulher como Patrícia Galvão é uma tarefa ainda mais complicada – Pagu foi intensa, buscou incessantemente um motivo ao qual devotar sua vida e encontrou na militância comunista a causa pela qual lutaria.
Paixão Pagu é a autobiografia escrita por Patrícia durante o período em que esteve encarcerada – O livro, publicado anos após o falecimento de Patrícia, é na realidade uma longa carta escrita para o companheiro, narrando sua história desde os tenros anos da juventude. Retomando o parágrafo anterior – Falar sobre a vida de alguém é uma responsabilidade e um desafio enormes – ainda bem que Patrícia encarregou-se de contar a própria história – a complexidade de uma pessoa como ela e também do tempo em que viveu é certamente melhor destrinchada desta forma: A história escrita por quem a sentiu na pele.
É fato que lutar por uma sociedade justa e igualitária é escolher um caminho árduo. Fazer isso nos tempos em que ser comunista levava pessoas à prisão e tortura é heroico. Fazer isso nos citados tempos e sendo mulher era se jogar em meio ao fogo duplo: Perseguida pelo sistema vigente e testada o tempo todo pelos próprios companheiros do Partido Comunista, Patrícia lutou para provar seu valor – por anos abdicou da maternidade e da alegria de ver o filho crescer, dedicando-se unicamente às tarefas da militância, sem nunca encontrar total aceitação dentro do partido, por ser mulher e por ter berço pequeno burguês. Isso traça um recorte historicamente bem interessante – A luta contra o machismo, muito presente em vários setores da esquerda brasileira – não era uma pauta sequer cogitada na época de Patrícia. Tal observação histórica, bem como a própria história, faz da obra uma leitura obrigatória.  O livro é curto, porém visceral e merece uma leitura atenta e crítica no sentido de refletir sobre o passado e comparar com o momento político presente para evitar que os erros de ontem se repitam e mais sangue inocente venha a ser derramado por conta de uma construção social desigual e autoritária.

Opinião:

Conhecer a história da Pagu foi o que posso chamar de “um choque de realidade” – como mulher e principalmente como militante de esquerda, confesso que até o momento não consegui entender de onde ela tirou tanta força. Em alguns instantes cheguei a pensar em abandonar completamente a militância por entender que jamais seria forte como ela foi. A carta de Patrícia emociona, machuca, desestabiliza – Mas depois de muita reflexão e inúmeras tentativas de traçar uma pequena resenha, o desconforto inicial quase insuportável dá lugar a outros pensamentos: Se desde o início da luta pela construção de uma sociedade socialista, contássemos com pessoas como Pagu, estaríamos já vivendo outra realidade. Se por outro lado cada lutadora que se reconhece como “não tão forte” tivesse desistido, estaríamos mergulhados em um caos ainda maior que o atual e muitas guerreiras valorosas teriam tombado sem sequer se darem a chance de descobrir toda a força que tem por não terem se dado essa chance. Eu decidi continuar trilhando o caminho que iniciei há anos atrás – até onde, o destino vai dizer – mas espero poder ver meus futuros filhos crescerem em uma sociedade muito mais justa que a atual.

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Título: Paixão Pagu – A autobiografia precoce de Patrícia Galvão

Autora: Patrícia Galvão

País: Brasil

Editora Agir

Passaporte da Leitura: África do Sul

Em Fevereiro postei a resenha do primeiro livro do projeto “Passaporte da Leitura“, a obra Como água para chocolate, da autora mexicana Laura Esquivel. Viajando através da leitura, deixei o México para trás e desembarquei direto na África do Sul, país de origem do livro Desonra. A obra, um achado ocasional durante buscas por novos livros para ler, surpreendeu pela tensão e densidade que o autor conseguiu imprimir a uma história aparentemente comum. Não há romances, não há magia e a poesia passa relativamente e longe das páginas onde impera a linguagem dura e direta – quase tão dura e direta quanto a vida real.

 

Título: Desonra

Autor: J.M Coetzee

País: África do Sul

Uma leitura bruta, nua e crua – assim pode-se definir Desonra, obra do autor Sul-Africano J.M Coetzee.  

O livro conta a história de David Lurie, um professor universitário divorciado, de meia idade que se envolve com uma jovem aluna e acaba acusado de assédio.

A obra de Coetzee poderia inicialmente ser confundida com uma narrativa semelhante ao famoso romance Lolita, porém poucas páginas após o desfecho do envolvimento do professor Lurie com sua pupila, a história vai tomando um rumo mais introspectivo e sombrio, onde ele, sem perspectivas, decide passar um tempo no campo com a filha, encontrando toda a brutalidade do ambiente rural africano.

Vale ressaltar que a história se passa numa África do Sul pós-apartheid – fato pouco salientado durante a história, porém perceptível na tensão existente entre as personagens.

A leitura não é difícil em termos de vocabulário, porém o ritmo introspectivo e depressivo, ditados o tempo todo pelo personagem principal, e a ausência de ápices românticos ou felizes, para contrastar com o humor sombrio do professor Lurie, acabam fazendo com que o livro possa tornar-se um pouco cansativo em alguns momentos.

Sobre o autor:

J.M Coetzee nasceu na Cidade do Cabo em 1940. Bacharel em língua inglesa e em matemática, o autor chegou a trabalhar como programador de computadores. Recebeu vários prêmios literários, entre eles o prêmio Nobel de Literatura em 2003. Atualmente é professor na Universidade de Adelaide (Austrália). 

Sobre a África do Sul

A África do Sul ou República da Africa do Sul é um país localizado no Extremo Sul da África. O país possui três capitais: Pretória (capital executiva), Cidade do Cabo (Legislativa) e Bloemfontein (capital judiciária) e reconhece 11 idiomas oficiais, sendo os principais o africâner e o inglês sul-africano.

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Sejamos sementes – Marielle presente!

Hoje é um daqueles dias em que escrevo um texto que gostaria não fosse necessário escrever – mas é quando tudo se torna caos e incerteza, quando tudo vai levando a vida para o torpe, vil e absurdo inferno é que as palavras e debates se fazem mais necessários. O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) ocorrido na última quarta feira (14) é um destes fatos chocantes que não possibilita a tomada de nenhuma outra posição que não seja a indignação e o repúdio.

Marielle foi a menina pobre que, segundo os padrões elitistas e egoístas da sociedade “deu certo na vida”. Preta, lésbica, favelada, “cria da Maré” como se definia, Marielle estudou e militou pelos direitos humanos – inclusive pelos direitos das famílias de policiais militares vitimados pela violência. Eleita vereadora, Marielle não deu as costas aos seus – continuou sendo a mesma mulher guerreira, defendendo os que não tiveram oportunidade de construir suas próprias defesas e denunciando abusos. Seu caráter correto e sua luta foram seu maior legado – e a causa de sua morte com nove tiros de fuzil. O assassinato de uma mulher negra, periférica, lutadora é o pergaminho escrito com sangue, o recado dos poderosos ordenando que o povo se cale, abaixe a cabeça, trabalhe e siga em frente se reparar nos cadáveres de seus semelhantes, sem se indignar com as condições desumanas de vida, sem se revoltar com a corrupção e os abusos do Estado. E esse recado deve ser rasgado bem debaixo dos olhos do emissor – Sejamos sementes de luta – Onde uma cabeça for cortada, que se levantem milhões. Que as ruas sejam tomadas pela indignação e a luta prossiga em memória de tantas Marielles, de tantos Andersons, de tantos e tantas trabalhadoras e trabalhadores que foram vitimados em silêncio sem que houvesse comoção, de tantos e tantas lutadoras e lutadores que não se calaram na defesa pelos direitos do próximo. Mais uma vez o nome de uma guerreira foi escrito com sangue nas páginas da história brasileira – e se você não é capaz de se indignar com isso, desculpe te dizer, mas o seu caráter tem sérios problemas e é melhor você rever seus conceitos de vida, respeito e dignidade humana.

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Dica literária: Todos os homens são mortais – Simone de Beauvoir

Imortalidade –  Desde os primórdios a origem da vida e o destino após a morte são mistérios que amedrontam o homem. Mistério e medo – ingredientes mais que suficientes para suscitar o surgimento de mitos e histórias diversas. Viver para sempre, acompanhando cada mínima mudança ocorrida no mundo, intervindo no destino de seu país e de seus entes queridos, seria um dom? Seria uma benção ou uma maldição? Talvez, num primeiro momento, sem maiores questionamentos, beber uma poção da imortalidade, fosse o impulso humano. Trazemos sem dúvida em nosso âmago um enorme instinto de sobrevivência que nos faria beber sem titubear uma formula que nos prometesse a vida eterna. Além disso, nosso ego inflado sussurraria aos nossos ouvidos o quanto somos importantes, as coisas grandiosas que poderíamos fazer caso nosso tempo não fosse tão curto e nossa existência tão frágil.

Na obra todos os homens são mortais, Simone de Beauvoir se debruça sobre a questão da imortalidade. É um livro sobre a inexorável roda do tempo que gira pesadamente sobre a humanidade reduzindo impérios a pó e pessoas poderosas a lembranças que aos poucos vão se apagando perante o brilho de novos rumos e acontecimentos. Tudo gira em torno do poder, da ganância, do egoísmo. Se em um primeiro momento o Conde Fosca desejou a imortalidade por acreditar-se capaz de ser o melhor governante que Carmona poderia ter, o tempo e as perdas inevitáveis da vida irão lhe mostrar que mesmo a morte possui um sentido, uma razão de ser. A imortalidade desejada torna-se um fardo sobre suas costas – um pesado fardo que atinge também as pessoas que o cercam, em especial àquelas a quem é dado conhecer a verdade sobre sua natureza; pode-se mesmo dizer que, se o primeiro questionamento do livro é sobre até onde a imortalidade é um dom ou uma maldição, o segundo questionamento é sobre o conhecimento – Afinal, conhecer e se afeiçoar a um ser imortal implica receber o conhecimento de séculos. Qual seria o efeito de alguém que vive a sombra desse conhecimento, adquirido não através do estudo, mas através de um ente imortal? Serviria tal saber para tornar uma pessoa mortal mais sábia, humilde, melhor? Ou serviriam para alimentar seu espírito com a certeza de que após a morte, pouco a pouco sua memória será apagada e esquecida? O conhecimento seria então um veneno a enlouquecer e desestimular tal pessoa a viver uma vida produtiva?

Beauvoir habilmente levanta tais questionamentos através de uma narrativa que, inicialmente parece lenta e cansativa, mas vai pouco a pouco cativando e arrastando o leitor a uma reflexão profunda e perturbadora.

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Um conto de descobertas na escuridão, parte II: Coroada

Depois de algumas voltas com os olhos vendados e as mãos dele passeando pela sua pele, ele estacionou novamente o carro. A luz do sol inundou seus olhos quando ele removeu a venda de seus olhos. Sentiu o vento balançar seus cabelos quando abriu a porta e ficou em pé. Então ele pediu que ela fechasse os olhos novamente – ouviu o porta malas abrir e sentiu algo ser colocado em suas mãos – uma coroa com pedrinhas coloridas. Ela sorriu, ele delicadamente a virou e, retirando-lhe a coroa das mãos. Já não era o vento que mexia em seus cabelos, e sim as mão de seu príncipe que, com toda delicadeza lhe coroava. Caminharam pela rua pouco se importando com alguns olhares curiosos. Era seu dia, seu aniversário, e aquela tarde tão perfeita a fazia sentir-se uma princesa de verdade, uma princesa debutante do mais belo reino: O reino do coração daquele Príncipe que a escoltava com atenção e carinho pelas ruas naquele final de tarde quente. Ele a levou até uma sorveteria discreta e acolhedora – o geladinho do sorvete deslizando pelos seus lábios contrastava com o calor do desejo que inundava seu corpo. Ela simplesmente desejava que ele pudesse fazer amor com ela ali, deitada sobre aquela mesa entre sorvetes e coberturas – e pensar isso a assustava: Tais pensamentos jamais a haviam invadido antes! Sempre acreditara que um relacionamento feliz deveria ser casto e, de repente, sua imaginação devaneava libidinosamente. Seria ele um Príncipe ou um feiticeiro? Ou um príncipe feiticeiro que a arrasta em meio a tempestades e mistérios sensuais que até então desconhecia?

            O caminho de volta é tão intenso quanto o início do passeio – A venda nos olhos amplia seus sentidos, como se a retirada temporária da visão pudesse fazer com que tudo se tornasse mais intenso. Ela se esforça para calar seus próprios pensamentos – Deseja desesperadamente acreditar que aquela tarde foi um encontro entre um garoto e uma garota que estão descobrindo sentimentos intensos juntos, mas, no fundo, ela sabe que foi um encontro entre os personagens que criaram para viver em uma realidade paralela – um jogo onde há prazer sem que a paixão os fira. Ela sabe que, no dia seguinte, quando estiver comemorando sua primavera, ele estará presente em seu almoço entre amigos – e sabe que ele a olhará com o carinho da amizade, mas sem o ardor quase palpável com que a olhou hoje. Todos esses pensamentos não seguem uma linha de raciocínio, ela apenas tem lampejos entre um toque e outro, entre um sussurro e outro. Ele a está levando para casa – Uma princesa na carruagem de seu príncipe. E ela sabe que, assim que colocar os pés do portão para dentro, irá dedicar-se ao preparo dos pratos a serem servidos no dia seguinte, e que, ao cair da noite, após um banho, ela irá pegar seu caderno e escrever todos estes pensamentos – e nesse momento, observando a coroa repousar na estante, ela se sentirá novamente uma princesa, uma princesa solitária aguardando seu romântico final feliz que, provavelmente, não esteja escrito no livro da vida. E ainda assim ela irá sorrir, pois ao menos aquela personagem obscura, que é também parte dela, conseguiu encontrar seu lugar.

(25/11/2017)

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Um conto de descobertas na escuridão (Parte I)

            Olhou-se no espelho – usava um vestido preto com decote em V, de comprimento pouco acima dos joelhos. Ajeitou os cabelos – queria volume, ousadia e maciez. Em alguns minutos ele chegaria e ela deixaria de ser ela para tornar-se a personagem que descobrira em si mesma no último encontro – ela seria a Baby – uma jovem ávida por novas experiências que envolvessem seu corpo sem partir seu coração.  Ela sentiu os olhos dele passearem lentamente por ela enquanto ele abria a porta do carro – Ele dirigiu pouco mais de um quarteirão e parou para colocar-lhe uma venda nos olhos. Naquele momento toda sua visão se escureceu – E ela começou a perceber outras sensações com mais intensidade: O balançar suave do carro, as curvas, a música, a própria respiração… E de repente sentiu as pontas dos dedos dele passearem pela pele de seu braço – foi rápido, apenas um toque leve – que a fez suspender a respiração por alguns segundos. Pouco depois sentiu os dedos passearem levemente por cima de suas mãos e pernas – eram toques suaves, mas que a faziam vibrar. Acariciou seu pescoço e o rosto, delineando a linha dos lábios – e ela respirava pesadamente. Seu ventre se contraía com um prazer desconhecido e ela desejava que ele a tocasse em partes onde jamais havia desejado ser tocada antes – aquela parte que era o delta do corpo feminino estava latejando – havia um calor emanando de seu corpo. Era torturante que ele a acariciasse tão levemente e não permitisse sequer que ela o tocasse. Era deliciosamente torturante sentir o toque das mãos dele antes mesmo que a pele encostasse-se à dela, como se estar privada da visão a fizesse ampliar os outros sentidos. Ele colocou as mãos dela apoiadas sobre as coxas, com as palmas para cima. Acarinhou-lhe as palmas das mãos e os pulsos. A voz dele estava rouca, diferente da voz do amigo com quem convivia – era uma voz recheada de provocação e desejo –Ela e a sua personagem ainda brigavam – A personagem, satisfeita. Ela desejando ouvir uma declaração de amor que no fundo sabia que não aconteceria. Fechou os olhos, embora a venda não lhe deixasse ver nada. Concentrou-se apenas nas sensações boas que ele lhe dava e deixou que a Baby tomasse conta de seu corpo e mente. Ele parou o carro e, delicadamente retirou a máscara de seu rosto – estavam em uma rua estranha, meio deserta, quase abandonada.  – Ele indicou uma porta de madeira, com uma escadaria grande e ela subiu – Era um lugar agradável, simples, bastante alternativo. Ela observava a rede pendurada a um canto e secretamente desejava que ele a deitasse ali e a beijasse como se o mundo fosse acabar – fora o passeio surpresa perfeito. Ela já deveria saber o quanto ele podia ser surpreendente quando ele desceu as escadas chamando-a para acompanhá-lo até o carro. Colocou-lhe a venda sobre os olhos e a acariciou novamente enquanto rodavam pela cidade. Ele a tocou com mais intensidade desta vez, percorrendo com os dedos todo o espaço livre por baixo de seu vestido, explorando seu delta de feminilidade. Era constrangedor sentir aquele toque, mas ao mesmo tempo, ela sentia que iria desfalecer se ele parasse. Ele a provocava e a fazia gemer baixinho, quase ronronando como um felino. Ela desejava que ele a beijasse, mas ele tinha outros planos e não permitia que ela sentisse seus lábios mais do que alguns segundos. Ela desejava sentir a língua dele brincando dentro de sua boca enquanto as mãos exploravam suas pernas e recantos mais ocultos e pecaminosos. Ele perguntava com aquela voz rouca e sexy como era gostava de ser tocada, mas ela não sabia responder, pois nunca conhecera um toque antes. E ele alternando a velocidade e intensidade a acariciava, até que ela explodiu em um gemido e sentiu suas pernas se inundarem de uma umidade quente e o corpo relaxar libertando toda a tensão acumulada durante as carícias – atingira o primeiro orgasmo de sua breve vida – Ela desejava beijá-lo, tocá-lo, mas ele a deitou sobre as pernas com o traseiro levemente levantado. Acariciou com delicadeza “– nós vamos aprender duas palavras hoje – Amarelo e Vermelho” – ele disse. “- Amarelo você deve dizer quando sentir que seus limites estão sendo ultrapassados de forma desconfortável. Se você disser “Amarelo”, deixarei mais brandas as palmadas. Ele explicou também que “vermelho” é a palavra que ela deveria dizer caso realmente desejasse parar. Durante todo o tempo, suas mãos a acariciavam e sua respiração lhe deixava arrepiada – de repente, ela sentiu sua mão acertar em cheio suas nádegas “- Conte.” Ele disse. Foram sete palmadas.

Ela estava novamente sentada e presa ao cinto de segurança. Sentiu quando ele ligou o carro e colocou-se em movimento. A escuridão dos olhos vendados não lhe escurecia a alma ou os desejos que irradiavam em seu corpo. Ela sentia novamente as mãos a tocar suas partes mais intimas – tinha medo que alguém no carro ao lado pudesse ver, tinha medo de serem parados pela polícia e terem que explicar o motivo da venda – E a sensação de medo pouco a pouco ia se misturando com a sensação de desejo que a invadia como uma onda quente e intensa – A música, as mãos dele, a respiração dos dois, tudo a sugava para uma dimensão paralela e única – e neste momento ela ouviu a voz dele pedindo que não se segurasse – e então, ela deixou-se engolir novamente por aquela onda de prazer que a deixara sem chão.

(25/11/2017)

 

 

Sobre rotina e cavalos selvagens

            Um pouco mais cedo estava na cozinha e algo me assustou: Já estamos na metade do primeiro mês do ano! O que aconteceu com aquela lista de boas intenções traçada há tão pouco tempo, para quando “dois mil e dezoito finalmente chegasse”? Onde guardei as horas infindáveis de estudos, escritas e exercícios que planejei para este mês de férias escolares?  A vontade é deixar os próximos trezentos e tantos dias apenas para planejar uma rotina perfeita e não cansativa (existe?) e riscar aquele título “Metas 2018”, substituindo para “Metas 2019”. Mas a vida não permite – se eu não estudar em 2018, não vou avançar – e ficar parada não é uma opção, não é verdade? A realidade prova mais uma vez que os dias são cavalos selvagens a correr indomáveis pelos campos infinitos da vida e de nada adianta traçar tantos planos se nada muito do que iremos viver na realidade não depende apenas de nós mesmos – e vendo desta forma, talvez seja possível vislumbrar um motivo real para estarmos aqui: Sobreviver e aproveitar a viagem. Ninguém vem ao mundo com o objetivo de ser “o melhor” em alguma coisa, ou o mais rico, ou o mais feliz como se felicidade pudesse ser medida. A sociedade tenta (e em geral consegue) nos fazer acreditar desde tenra idade, que o objetivo da vida é “chegar na frente”. E assim passamos preciosos momentos tentando domar nossos cavalos selvagens, caindo e levantando, exaustos, buscando um objetivo que nos foi colocado sem ao menos nos perguntar se desejamos que aquele tal objetivo fosse sequer parte da viagem que fazemos por aqui. Quer um conselho? Não tente domar seus cavalos selvagens! Corra com eles. Veja cada dia como uma nova página para escrever seus caminhos, histórias e desejos – trace metas sim, mas trace tantas e tantas metas e planos que, se um ou outro não der certo, você possa sorrir e se contentar com os que foram cumpridos – e ao final de cada dia, reflita: O fez e se isso lhe trouxe algo de bom – não necessariamente se lhe aproximou de seus objetivos pessoais, apenas se pergunte: “As experiências que vivenciei hoje me trouxeram algo de bom sem prejudicar ninguém? Eu tive motivos para sorrir hoje?” Se as respostas para estas perguntas forem “sim”, não se preocupe – você está no caminho certo.

 

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