Poema vegano (BEDA 16)

Num tapume qualquer da cidade
Um pedido. Uma ordem. Uma verdade:
Não mate.
Não coma. Não cozinhe.
Não desmate.
Não seja mesquinhe.
Não pare um coração
Não há razão
Pense verde
Pense cores
Alimento de verdade
Sabores
Sem morte
Sem crueldade
Com sorte
Mudando a realidade

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Maionese de Quinoa [BEDA 2]

Sempre gostei de maionese: No salgado, no lanche, na batata frita. Com o vegetarianismo e com a procura por uma vida mais saudável e com menos geração de lixo, veio a questão: Como substituir aquele sabor delicioso, calórico, rico em nutrientes e acondicionado num pote plástico poluente?

A resposta surgiu quando descobri essa maravilhosa receita de maionese de quinoa!


A receita resulta em uma maionese super versátil que se transforma em vários tipos de pastinha.

Receita:

Deixe de molho um pouco menos que meia xícara de quinoa crua de um dia pro outro (seis horas antes seria suficiente, mas é sempre bom deixar um pouco mais de tempo, apenas mantenha em local fresco para não fermentar) Cozinhe com pouco sal até ficar macia e o fundo da panela seco,como quando você cozinha arroz. Cozida, deve render uma xícara.
Bater a quinoa no liquidificador com 2 dentes de alho, 1/2 cebola roxa (pode usar normal mas fica mais ácida), 1 colher de sopa de vinagre de maçã ou de vinho branco, 2 colheres de sopa de limão, e duas colheres de sopa de azeite, sal e pimenta do reino a gosto. Bata aos poucos para não queimar o liquidificador. Ao obter uma pasta, bata continuamente enquanto despeja um fio de azeite até atingir a consistência desejada.

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Adriana AneliRoseli Pedroso LunnaObdulioClaudia Mariana Gouveia

Sobre personagens e cajuzinhos

O cursor pisca na tela como um ponto de interrogação: Decifra-me ou te devoro. A história a ser contada pulsa no mundo das ideias, mas não encontra as palavras corretas para registrar-se no papel. Tudo parece desconjuntado, sem graça, atropelado. Um sem fim de digita-apaga. Posso imaginar a personagem me observando com olhar reprovador, ávida para continuar a cena-vida, indo e voltando para o mesmo lugar até as palavras se encaixarem numa cadência perfeita. Vida de personagem não deve ser fácil, sempre dependente do que a autora planeja. Quando a autora não consegue traçar palavras para delimitar os próximos passos, a personagem fica presa na última posição escrita – No caso, sentada no sofá, numa kitnet quente, com a blusa amarrada ligeiramente acima do umbigo. O olhar inquiridor acompanhando meus movimentos enquanto bato amendoim e passas no liquidificador para fazer um cajuzinho vegano e sem açúcar, receita da Vivi (@sosvegan). Docinhos são mimos que me permito em qualquer tempo – me recuso a deixar de lado o prazer de uma guloseima diária. Assim como a personagem que por ora ocupa meus dias, tenho essa relação especial com a cozinha: Um abrigo para o cansaço, uma estufa para o plantio de sonhos. Minha rotina passa por fogão, panelas e pratos. Só assim é possível engolir a dose diária de notícias ruins sem perder totalmente a esperança. Desisto de escrever, hora de fazer uma boa prática de yoga – O corpo merece atenção, principalmente nestes tempos de isolamento. Depois da prática, do banho e do jantar, voltarei a encarar a tela e o olhar da personagem…

Receita do cajuzinho vegan

1 e ½ xícara de amendoim torrado e sem pele

1 e ¼ xícara de uvas passas

2 colheres (sopa) de cacau em pó

2 colheres (sopa) de água.

Bata no liquidificador o amendoim e as passas até formar uma massa. Adicione o cacau em pó e continue batendo, acrescentando a água. Depois é só moldar os docinhos.

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Dia Mundial da Água

Hoje é o Dia Mundial da Água – A data foi criada pela Organização das Nações Unidas em 1992 com a intenção de discutir sobre a importância da água para a nossa sobrevivência e a urgência de preservar esse recurso natural. No mesmo dia foi divulgada a Declaração Universal dos Direitos da Água, em dez artigos:

1- A água faz parte do patrimônio do planeta;

2 – A água é a seiva do nosso planeta;

3 – Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados;

4 – O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos;

5 – A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores;

6 – A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo;

7 – A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada;

8 – A utilização da água implica respeito à lei;

9 – A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social;

10 – O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

            Infelizmente o planeta está próximo a viver uma crise hídrica. Até 2030 a demanda por água será 40% maior do que a água disponível para consumo e, muito embora a água seja um recurso renovável, a velocidade de consumo e o descarte sem tratamento estão sistematicamente dificultando e impedindo o ciclo natural de “auto-limpeza” das águas.

            A ausência e a ineficiência de políticas públicas para ampliar o tratamento de água e o acesso da população à uma rede de esgotos, somada ao crescimento desordenado das cidades, resultado também da inércia do Estado em garantir moradias à população, coloca o Brasil em uma situação vergonhosa: No ano de 2019  nosso país não garantia o acesso diário à água potável  nos lares de 18,4 milhões de brasileiros, bem como apenas 68,3% dos domicílios do país possuíam acesso à rede de esgoto. Esses preocupantes números demonstram uma catástrofe social e culminam em uma tragédia ambiental – a poluição dos rios brasileiros – Apesar do país deter em seu território 12% do volume da água doce de todo o planeta, isso não significa que essa água esteja em condições de consumo – Dos rios analisados pela Fundação SOS Mata Atlântica, apenas 6,5% tinham boa qualidade da água (dados de 2019).

            Não bastassem os problemas gerados pela poluição oriunda dos esgotos domésticos, há ainda a questão da agroindústria, responsável por 70% do consumo de água do mundo e, ao mesmo tempo pela contaminação de rios e lençóis freáticos com pesticidas. No Brasil, somente em 2020, foram liberados 493 tipos de agrotóxicos, alguns inclusive banidos da União Européia. Esses agrotóxicos contaminam rios e chegam à nossa mesa nos vegetais, nos peixes, carnes e na água que consumimos. Diante desse quadro, torna-se urgente repensar a agroindústria, investir no plantio de orgânicos e na agricultura familiar como forma de estacionar e reverter os danos ambientais causados.

            A questão da pecuária descortina outro absurdo: Um terço da água consumida no planeta destina-se direta ou indiretamente ao mercado de criação de animais de corte. Esse número é composto pela água utilizada na produção dos grãos que alimentam esses animais (No Brasil, 78% da produção de grãos se destinam a alimentar o gado) e pela água necessária para o consumo dos animais. Se pararmos para pensar e somar a isso a água utilizada na higienização de frigoríficos e matadouros, na poluição causada pelo transporte dessa carne e nas toneladas de plástico utilizadas para embalagem, perceberemos que consumir animais mortos é um crime ambiental. É urgente reduzir drasticamente o consumo de carnes como forma de cuidar da água e do planeta. O vegetarianismo é saudável e possível.

            A segunda indústria mais poluente do mundo é a indústria da moda – Só a indústria têxtil consome anualmente 93 trilhões de litros de água! Uma camiseta consome 2kg de combustíveis fósseis e 3 mil litros de água só para fabricação (não levando em conta os impactos da lavar, passar e descartar a peça). Uma calça jeans demanda em sua fabricação 10 mil litros de água e um par de sapatos 8 mil litros de água.

            Outra indústria que consome muita água é a indústria de descartáveis – Sabe aquele copinho descartável? Mesmo que você tente aliviar a consciência encaminhando para a reciclagem, isso não é o suficiente. Para produzir um copo descartável usa-se em média 3 litros de água. Melhor carregar um copo reutilizável e lavar sempre – Uma boa lavagem utiliza menos de meio litro de água. O mesmo vale para outros objetos: reconsidere sua “necessidade” de comprar objetos plásticos – Dá pra reaproveitar muitos potes e embalagens!

            A mineração e o garimpo são vilões que despejam no meio ambiente um grande volume de óleo, graxa e metais pesados. A poluição oriunda dessas atividades vem aniquilando a flora e a fauna, além de contaminar populações ribeirinhas inteiras no norte do Brasil. E, muito embora a mineração seja indiscutivelmente necessária, é importante repensar o consumo e reduzir ao máximo essa necessidade de extrair metais. Afinal, você não precisa de um celular novo anualmente ou de uma jóia de ouro. Mas certamente precisa de água.

            Como ajudar o planeta?

            Quem leu o texto com atenção já percebeu: O primeiro passo é repensar o consumo. Diminuir a necessidade de ter coisas novas, diminuir ou zerar o consumo de carnes, carregar seus próprios copos, garrafinhas, pratos e copos, priorizar o consumo de alimentos frescos preferencialmente comprados de produtores locais e fugir de ultraprocessados. Tudo isso ajuda e muito. Nesse link tem outras dicas bacanas de economia de água que podem parecer assustadoras no início, mas que podem ser colocadas em prática.

            A segunda forma de ajudar o planeta é também muito importante: Votar certo. Pesquisem exaustivamente o posicionamento dos candidatos acerca das questões ambientais. A questão da poluição é intimamente ligada à ausência de políticas públicas para garantir a destinação correta do lixo e do esgoto e à inércia dos em punir infratores ambientais. E quem cuida dessas políticas públicas? O governo (leia-se executivo e legislativo). Quem libera terras para garimpo e extração de minérios, impõe regras para construção de barragens e decide quais agrotóxicos serão liberados no país? Governo. Quando estiverem pesquisando seus candidatos e candidatas em 2022, atentem-se.

Abaixo alguns links interessantes sobre o tema

Origem do dia da água

Números sobre a distribuição de água no Brasil

Qualidade dos rios Brasileiros

Agrotóxicos no prato

Água e pecuária

Quatro bilhões de pessoas enfrentam escassez de água

Indústria têxtil e água

Descartável não é a melhor opção

O sabor das primeiras receitas

Cresci vendo as mulheres da minha família lidando com a cozinha – Do arroz com feijão de cada dia aos docinhos de aniversário, pães, doces artesanais como goiabada, laranjada de corte, doce de mamão, e essa experiência me trouxe recordações perfumadas de uma infância cercada por comidas e livros. Entretanto, é curioso o fato de que nem todas as experiências infantis permaneceram na memória – Ao contrário: De algumas só tenho conhecimento através da narrativa de adultos que me conheceram nos primórdios da vida. Naturalmente, quem tem mais causos e histórias a meu respeito é minha mãe, e uma dessas situações se deu quando eu era bem pequena e estava ainda começando a ter os primeiros contatos com a cozinha.  Ela conta que estava fazendo quindins e precisava untar as forminhas e passar açúcar e acabou pedindo que eu fizesse esse favor, me deixando sentada com as forminhas, o pote de margarina e o de açúcar cristal. Quando veio buscar as forminhas, a surpresa: Eu havia passado margarina e açúcar por dentro e por fora das formas! Pois é, coisas que a gente faz aos cinco ou seis anos de idade e depois que cresce, esquece. O que eu não me esqueço é do sabor e da textura deliciosos dos quindins – E agora encontrei uma receita deliciosa e vegana desse docinho que para mim sempre terá sabor de trapalhadas e infância.

Ingredientes

200 ml de leite de coco
1 xícara cheia de açúcar
1/4 de xícara de água
2 colheres (sopa) de óleo de milho ou girassol
3 colheres (sopa) de amido de milho
3 xicaras bem cheias de mandioca crua ralada
100 grs de coco ralado
açúcar cristal para polvilhar

Calda
1/4 de xícara de água
1/4 de xícara de açúcar cristal

Preparo

Bata no liquidificador todos ingredientes, menos o coco ralado – começando pelos líquidos e adicionando os demais aos poucos e batendo, até ficar homogêneo.  Com uma colher, misture o coco ralado.
Unte com óleo uma forma grande com furo no meio, ou forminhas pequenas para quindim e salpique uma pequena quantidade de açúcar cristal; despeje a massa e leve para assar em banho-maria, em forno médio, por cerca de 40 minutos ou até que espete um palito, e saia limpo.
Para a calda: misture a água com o açúcar e leve para cozinhar por cerca de 15 minutos, até engrossar. Desenforme o quindim e pincele com a calda.
Se quiser um quindim bem amarelinho, adicione corante alimentício amarelo.

(FONTE DA RECEITA: SITE VEGGIE & TAL)

Mudando completamente de assunto: Recentemente fui selecionada para uma antologia do Grupo Editorial Quimera. O livro (físico e e-book) já está à venda e a renda será revertida para ongs que acolhem mulheres vítimas de violência. Adquiram os seus exemplares:

Físico E-book

Um encontro de sabor (e cebolas). [Conto + receita de pão de cebola vegano]

Chovia. O feriado prolongado prometera dias de descanso, praia e sol e entregara dias cinzentos e muita água. Letícia olhou para a geladeira: Precisava urgentemente ir ao supermercado, mas sentia sono e muita preguiça ao imaginar as filas. Pegou uma maçã e começou a morder, desinteressadamente, sem saber se o que sentia ao certo era fome ou tédio. Um som leve interrompeu-lhe os pensamentos. Mensagem de texto de um número desconhecido: Gostei do teu tempero. Vamos cozinhar? Estou planejando fazer pão e assistir um filme aqui em casa, topa? Não havia assinatura na mensagem, mas Letícia sabia qual o único remetente possível. Há dois anos ela havia recusado uma sopa – Dezoito anos, sozinha pela primeira vez em uma grande cidade e pensando o pior de qualquer pessoa – Ainda sentia vergonha da pouca cordialidade que tivera na época. Agora, estava disposta a conhecê-lo melhor e ter ao menos um amigo no prédio. Respondeu a mensagem e tomou uma ducha antes de subir e bater na porta do apartamento 805.

            Berilo abriu a porta com um sorriso largo e o cabelo despenteado, com as pontas um pouco queimadas de Sol. Ele parecia estar sempre chegando da praia, tinha olhos de maresia e um peitoral largo “- Entra. Cozinhar no corredor é impossível”. Letícia deu um sorriso tímido e entrou. O apartamento era completamente diferente do que ela imaginava: Uma grande estante repleta de livros, alguns enfeites, uma mesa e quadrinhos com fotos de família. Ela corou ao pensar no próprio apartamento onde dormia num colchonete jogado a um canto e revirava caixas para encontrar qualquer livro que desejasse ler. Ele entregou uma touca – Vista isso – Aqui em casa cozinha é uma coisa séria. Letícia nunca imaginou que fazer pães pudesse ser uma experiência quase libidinosa – A cozinha pequena da kitnet mantinha os corpos juntos e, em alguns momentos ela encostava-se nele de maneira provocativa. Fizeram pães de cebola e ervas e a inevitável piada surgiu: Com tantas lágrimas, seriam eles dois ciumentos incorrigíveis? Como provocação ela respondeu que não era ciumenta, mas que tanta cebola certamente seria para deixar explícita a intenção de não beijar.  Quando colocaram os pães no forno, ele tirou a camisa – Estava calor apesar da chuva, e o forno ligado só contribuía para deixar o ambiente ainda mais quente. Alegando calor, ela ergueu a camiseta acima do umbigo e amarrou com um nó. Olharam-se com tensão. Berilo arrumou a mesa: Caponata de berinjela, hommus de grão de bico, patê de tofu e um litro de suco de laranja – Exceto o suco, tudo caseiro e vegano. Vamos ver como estão estes pães? Berilo surgia na sala com os pães. Letícia nunca havia imaginado que comida vegana poderia ser tão boa, então, lembrou-se do dia em que trocaram porções de caril e perguntou se ele acaso era vegano. Ele riu e respondeu que sim. “-Então, o que fez com o Caril que deixei na tua porta aquele dia?”. Berilo corou ao confessar que havia levado para o José da portaria. Letícia fingiu estar seriamente ofendida, mas não conseguiu segurar o riso por muito tempo, principalmente quando ele pediu licença e retornou com um vidro de enxaguante bucal “para quebrar os efeitos da cebola”. Não precisaram do enxaguante nem de outras palavras: Seus lábios e corpos se colaram. Letícia retirou a camiseta, deixando os seios à mostra. Berilo a puxou para mais perto, deixando-a sentir o volume por baixo da bermuda e sentando-se no sofá com ela no colo. Ofegavam em uma mistura de corpos e línguas e peles arrepiadas. Mãos se misturavam com coxas e ventre. Eles não ouviram quando alguém colocou a chave na fechadura e abriu a porta “- Desculpa interromper.”. Um rapaz branquelo e sardento olhava atônito para o casal. Era Caio, o ex-namorado de Berilo que, lembrando-se que não havia devolvido a chave e não tendo sido barrado na portaria, subira direto e acabara interrompendo o encontro – O que aconteceu entre eles depois que Letícia foi embora é assunto para outra receita – por agora, basta dizer que ela voltou para casa com mais calor do que estava e sentindo uma fome diferente, insaciável: Fome do cheiro e do corpo do vizinho do 805.

Receita do Pão de Cebola e Ervas

1 xícara de óleo de girassol

2 colheres rasas de açúcar

1 xícara de água quente

3 colheres de chia deixada de molho em ¼ de xícara de água

2 dentes de alho

Ervas: ½ maço de cheiro verde, 2 colheres de orégano, 2 colheres de erva doce, ½ maço de manjericão ou manjerona

1 colher (sopa) de sal

4 cebolas média

2 colheres (sopa) de fermento biológico

2 kg de farinha de trigo

No liquidificador bater as cebolas e a água quente. Colocar a chia hidratada com a água e bater mais. Em seguida, óleo, sal, açúcar, ervas e alho. Continuar batendo e acrescentar o fermento por último, com a mistura já fria. Ir acrescentando a farinha aos poucos, sovando até a massa não grudar nas mãos e ficar homogênea. Deixar crescer até dobrar de volume e fazer os pães, formando bolas que devem ser colocadas em assadeira untada e descansar até que colocando o dedo, a massa permaneça afundada. Assar em forno baixo, pré-aquecido, aumentando quando começar a dourar.

Essa história é a continuação da história da Letícia. Os primeiros capítulos estão aqui: 1 Cebolas e Ciúmes; 2 Letícia, o vizinho e o limoeiro – Ou como tudo começou, na versão dela.; 3 Letícia, a nova vizinha – Ou o prato de sopa onde Berilo acredita que tudo deveria ter começado.

Fotos dos pratos? Dá uma olhadinha lá no Instagram @poetisa_darlene

Letícia, a nova vizinha – Ou o prato de sopa onde Berilo acredita que tudo deveria ter começado

(É possível entender este conto sem ler os outros dois, mas, caso você deseje – E eu espero que deseje – ler os dois primeiros contos e entender melhor a história, clique aqui e depois aqui)

Péssimo dia para uma mudança. Fazia frio e a garoa não dava trégua. Dois homens visivelmente mal-humorados vão tirando as caixas e móveis de dentro do caminhão-baú. Da janela, Berilo observa curioso o trabalho deles. Não parece nada fácil. Apesar do frio, se ocupa em tentar descobrir quantas pessoas irão morar no apartamento 701, o único vago do prédio. A pessoa teria alugado ou comprado? Seria uma família com crianças barulhentas ou um estudante universitário que chegaria tarde, fazendo arruaça e acordando os vizinhos de sono mais leve? Então, ele a viu: Uma moça de estatura baixa, pele bronzeada e cabelos encaracolados. Parecia bastante jovem, possivelmente iria morar com a família – Ao menos não haveria bagunça de criança pelos corredores nem ébrios desajeitados fazendo barulho pelas madrugadas. Ela era sem dúvida uma das criaturas mais bonitas que Berilo já havia visto na vida. Ele olhou para a sopa de espinafre que fervia no fogão. Podia parecer clichê ou cena daqueles filmes norte-americanos onde algum vizinho interessado em saber mais sobre novos moradores, leva uma torta de frutas e se oferece para ajudar em qualquer coisa. Talvez seguir roteiros clichês de vez em quando fosse uma boa ideia. Pensou em Marcus e em como seu coração se partira com o término repentino – Ele estaria pronto para flertar novamente? Seu coração respondia “não”. Seu corpo, subitamente enrijecido e arrepiado, respondia sim. Desligando a panela, desceu pelo elevador. Foi até a portaria verificar se havia correspondência e voltou bem a tempo de subir com a nova vizinha. Apresentaram-se. Ele com a voz quase sumindo, os olhos baixos e o corpo ligeiramente encolhido pelo frio e pela timidez. Ela com um sorriso cheio de covinhas e os olhos negros muito brilhantes e, ao mesmo tempo, desconfiados. Ele perguntou se ela e a família gostariam de um pouco de sopa de espinafre, para atenuar um pouco o frio. Ela brincou com o fato de que, se aceitasse, estaria fazendo duas coisas que a mãe sempre lhe dissera para não fazer: Conversar com homens estranhos e aceitar comida ou bebida de qualquer pessoa desconhecida. A brincadeira feriu os brios de Berilo – Então, a nova vizinha pensava que ele fosse um estuprador ou um bandido? Tanto pior para ela. Deu um sorriso amarelo quando ela saiu do elevador. Naquela mesma noite, encontraram-se novamente, ele estava na portaria entregando ao porteiro um pequeno pote com sopa, Letícia havia descido para esperar uma pizza que encomendara. Pensou em fazer uma piada sobre o acontecido de mais cedo, apenas para deixá-la constrangida, mas antes que pudesse abrir a boca, bateu os olhos na manchete de um jornal sobre a mesinha da guarita: “ VIOLÊNCIA CONTRA MULHER – O AGRESSOR PODE ESTAR MAIS PERDO DO QUE VOCÊ IMAGINA”. E então, ele se sentiu triste pela atitude que tivera mais cedo: Ela não fizera por mal. Apenas devia estar assustada, morando sozinha pela primeira vez em uma cidade tão grande. Estava se defendendo de um mundo difícil. Ele a observou pegar a pizza e subir. Poderia ter entrado no mesmo elevador, mas sentia que seria constrangedor para ambos. Uma sensação de perda o inundou: Com toda sua timidez e medo do desconhecido, Berilo acreditava que jamais teria coragem de tentar conversar com Letícia novamente – Ele ainda não sabia que quase dois anos depois, uma folha de limoeiro iria dar a eles uma segunda chance de conversar. Outra coisa que ele não sabia é que o relacionamento deles seria tudo, menos um clichê ou conto de fadas.

Sopa de espinafre

3 colheres de sopa de azeite

1 cebola média picada

1 maço de espinafre em folhas

2 batatas grandes

2 dentes de alho picados

Sal, noz moscada, cominho e coentro em pó à gosto.

Ferva água e mergulhe o espinafre por um minuto. Retire, escorra bem e pique grosseiramente. Cozinhe as batatas enquanto, em outra panela, refogua a cebola, o alho e os temperos. Vá acrescentando ao refogado o espinafre cortado e as batatas já cozidas, escorridas e cortadas ao meio. Desligue o fogo e coloque o conteúdo da panela em um liquidificador, bata bem, acrescentando aos poucos 700ml de água. Volte para a panela, acerte os temperos, cozinhe até engrossar e sirva em seguida, colocando um fio de azeite por cima se desejar.

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A saudade é o molho agridoce da vida

Há tempos a menina não tinha um momento silencioso, apenas entre ela e seus sentimentos. A rotina a estava sufocando em meio ao nada que se tornaram os dias, repentinamente iguais. De repente, estava mais fácil criar histórias do que contá-las. E certamente estava infinitamente mais fácil contar qualquer história criada, do que olhar para dentro e ver dentro de si um lago de águas espelhadas encobrindo um abismo profundo de emoções. Como tudo havia mudado em tão poucos meses? Algumas de suas certezas mais profundas haviam se reforçado com o isolamento, outras haviam mudado um pouco. Ela tinha certeza sobre o amor, sobre a escrita e sobre a magia encontrada no calor aromático da cozinha. Ela tinha certeza sobre as saudades e lembranças que a invadiam ao sentir o aroma do café pela manhã ou ao ouvir Rammstein enquanto flutuava entre as posturas do yoga. Então, um dia, enquanto olhava seu velho livro de receitas, encontrou uma receita que a fez perceber que a saudade tinha um sabor agridoce – Unia, dentro de seu coração de menina-mulher, memórias doces, apimentadas, salgadas: O doce mel daqueles olhos profundos, o apimentado da pele que se arrepiava quando os corpos se encontravam em um abraço, o sal das lágrimas de saudade que insistiam em descer pelos olhos dela tão logo se despediam. Sim, o amor, a saudade, a ausência e a esperança eram sentimentos agridoces e a menina era grata por poder senti-los com tamanha intensidade, por isso, ela abriu seu caderno e escreveu sobre o que sentia enquanto provava o molho que havia preparado. Um dia talvez compartilhasse o texto e a foto em um livro de receitas ou nas redes sociais, como um registro de seus sentimentos deixado para uma posteridade que possivelmente não tivesse tempo ou sensibilidade para perceber que as coisas mais bonitas moram na capacidade de se entregar completamente aos sentimentos e sabores que a vida nos traz.

Receita: Molho Agridoce

100gs de açúcar

1 colher pequena de sal

6 colheres (sopa) de água

2 colheres (sopa) de shoyu

4 colheres (sopa) de vinagre

2 colheres (sopa) de katchup picante (ou um molho de tomate caseiro bastante condimentado)

1 colher (sopa) de maisena

Misturar bastante e depois levar ao fogo para engrossar, mexendo sempre para não criar pelotas. Passar sobre couve-flor pré-cozida, cebola fatiada e proteína de soja previamente hidradata, colocar tudo em uma assadeira e levar ao forno até dourar.

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Letícia, o vizinho e o limoeiro – Ou como tudo começou, na versão dela.

(Algumas pessoas me chamaram no direct para dizer que curtiram a história da Letícia e de seus dois amores, então decidi continuar o conto – Se você ainda não leu o início, é só clicar aqui)

Letícia desceu até a garagem carregando um banquinho. Dirigiu-se até o muro que fazia divisa entre o prédio e o terreno que pertencia a uma velha senhora ranzinza. Posicionou o banquinho rente ao muro, testou algumas vezes buscando certificar-se de que estava firme e não iria tombar. Odiava ser baixinha! Fosse um pouco mais alta, conseguiria alcançar o galho do limoeiro esticando o braço. Subiu e cortou duas folhinhas daquela preciosidade, guardando-as junto com a tesoura no bolso da calça. Repentinamente, um animal se mexeu entre os galhos, ela se assustou e sentiu o corpo ser arremessado para trás. Quis o acaso que um par de mãos a segurasse pela cintura naquele momento, guiando-a para o chão. Era o vizinho do andar de cima. Ela sorriu sem graça, agradecendo pela ajuda. Não conseguia encará-lo depois de quase cair literalmente em cima dele. O gato que a havia assustado postara-se no muro, com os pelos arrepiados e olhar ferino, era um animal magnífico. Ela buscava na memória o nome do vizinho enquanto ficava ali, parada, observando-o esticar o braço e retirar duas folhas de limão. “- Vamos subir?” – Ele falou retirando-a da letargia em que se encontrava. Letícia pegou o banquinho e caminhou lado a lado com o homem. “- Algumas vezes eu venho até aqui para buscar essas folhas de limão, elas são um ingrediente importante para um prato que aprendi a cozinhar ainda garota: O caril tailandês – Embora, na verdade, eu não tenha plena certeza de que se trata de um prato tailandês.”. Ela falou buscando quebrar o silêncio. Ele abriu a porta do elevador, sinalizando para que entrasse e sorriu pontuando que a intenção dele ao pegar as folhas fora a mesma que a dela: Preparar o caril tailandês, velha receita da avó. “– Seu apartamento é o 701, certo?” perguntou, quando abriu a porta para que ela descesse no sétimo andar. Ela apenas balançou a cabeça. “- Muito bem! Boa noite e bom jantar. Quando quiser companhia para colher folhas do limoeiro, me avisa”. Parecia que o gato havia comido a língua de Letícia, que novamente acenou com a cabeça, respondendo um tímido “tudo bem”. Naquela noite, um pouco mais tarde, ouviu alguém bater na porta e, quando foi atender, encontrou uma sacola com uma quentinha e um bilhete: “Aprecie uma amostra da minha aparentemente não tão exclusiva receita de caril, atenciosamente, vizinho do 805”. Ela sorriu e, sem pensar muito, colocou um pouco do que ela havia terminado de preparar em um potinho e subiu até o andar de cima, retribuindo a gentileza. De fato, o tempero dele era excelente e o sabor surpreendente com a troca do tradicional frango por cogumelo shimejji. Seria ele vegetariano? E será que ele iria ler o número do telefone dela escrito a lápis no final do bilhete que ela havia deixado?”

Receita: Caril Tailandês

400gs de Shimejji

1 cebola picada

1 dente de alho

½ bulbo de erva doce picado

1 colher (chá) de coentro moído

½ colher (chá) de pimenta vermelha picada

1 colher (chá) de raspas de casca de limão

1 colher (chá) de páprica

½ colher (chá) de cominho moído

2 colheres (sopa) de óleo

3 colheres (sopa) de shoyo

1 xícara de leite de coco

2 folhas de limão

2 pimentões vermelhos ou amarelos fatiados

10 cebolinhas fatiadas em tirinhas

Higienize e refogue bem o shimejji com um pouco de sal e azeite. Retire da panela e reserve. Bata no liquidificador a cebola, o alho, a erva-doce, coentro, pimenta, raspas de limão, páprica e cominho. Aqueça o óleo no fundo da panela onde já havia refogado os shimejjis ou então use uma frigideira funda e larga. Junte os temperos batidos e cozinhe por dois minuto. Adicione o Shimejji e mexa delicadamente até envolver totalmente no tempero. Junte o molho de soja, o leite de coco, as folhas do limão, 2/3 de  xícara de água, os pimentões e as cebolinhas. Cozinhe por mais quinze a vinte minutos e sirva em seguida.

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Lunna GuedesVivianeAdriana AneliClaudia LeonardiChris Ferreira – Drica MoreiraMariana Gouveia Obduliono

Cebolas e ciúmes

“Quem chora cortando cebola é mulher ciumenta” – Letícia estava cansada de ouvir o velho dito popular em casa. As lágrimas rolavam involuntárias para fora dos olhos conforme a cebola ia sendo cortada em pequenos quadradinhos, mas desta vez não havia ninguém por perto para repetir essas velhas crendices – Letícia havia saído de casa há dois anos, criando asas e voando para longe, bem longe. Sem dramas ou decepções, apenas o curso natural da vida. Seu mundo agora era uma kitnet, um colchão, algumas roupas, cozinha pequena, ônibus lotado, oito horas de trabalho e quase cinco horas de estudo, praticamente dezesseis horas fora de casa. Letícia era tudo o que poderia ser naquele momento: Mulher, trabalhadora, estudante, jovem. A única coisa que Letícia não era é ciumenta, apesar das lágrimas dizerem o contrário. Era cuidadosa, presente, carinhosa e um tanto super-protetora, mas jamais ciumenta. E de repente, ali, enquanto preparava aquela salada morna de lentilhas para o jantar, ela sentiu como se uma lâmpada se acendesse sobre sua cabeça, igual nos desenhos animados quando a personagem tem uma ideia: Ela precisava contar alguns novos fatos para sua família que ficara lá no interior do Estado e, sem querer, a cebola resolvera seus problemas. Limpou as mãos no pano, pegou o celular e discou, agradecendo mentalmente pelo desinteresse familiar sobre tecnologia e chamadas de vídeo.  Ao terceiro toque, o telefone foi atendido e ela reconheceu de pronto a voz da mãe. Conversaram e, como quem nada quer, ela citou estar preparando aquela tradicional salada “- Ah! Menina ciumenta! Deve ter chorado horrores cortando a cebola, hein?!”, a mãe disse em tom zombeteiro. Era exatamente essa reação que Letícia esperava para contar as novidades: “- Chorei sim, mas ciumenta, ciumenta, eu não sou. O ditado, no meu caso, saiu errado! Se eu fosse ciumenta, não estaria neste exato momento preparando a mesa para o meu namorado e o namorado dele, que agora é meu namorado também, portanto, seus genros, jantarem comigo”.  E assim, Letícia, deixando uma perplexa Dona Lígia ao telefone, imaginou ter desmentido a verdade popular que ouvira desde pequenina – Mal sabia ela que a recém descoberta poliafetividade estava longe de ser um indício de ausência completa de ciúmes. Mas isso é um capítulo para outro prato.

Salada morna de lentilhas

1 folha de louro

1 xícara (chá) de lentilhas

1 colher (chá) de sal

1 cebola inteira

2 colheres (sopa) de azeite

3 cravos da índia

2 colheres (sopa) de vinagre

2 dentes de alho picados

1 xícara (chá) de cebola picada

2 colheres (sopa) de salsinha picada

2 colheres (sopa) de cebolinha picada

1 xícara (chá) de pimentão picado

            Deixe a lentilha de molho por pelo menos doze horas e escorra. Espete os cravos na cebola inteira e coloque na panela, junte as lentilhas e o louro e adicione água fria até metade da panela. Tempere com sal. Cozinhe em fogo baixo até as lentilhas ficarem macias, porém firmes. Escorra e retire o louro e a cebola. Transfira as lentilhas para uma tigela. Misture os outros ingredientes e incorpore à lentilha.