Capítulo 9

Naquela tarde de Novembro, quando Marjorie chegou à casa dos tios, não teve uma boa surpresa.
Eles estavam esperando-a para dizer que iriam se mudar para a Argentina, pois seu tio havia sido promovido na empresa de exportação e importação onde trabalhava porém seria necessário que trabalhasse na Matriz, em Buenos Aires.
Marjorie pediu para ir com eles, mas a idéia não foi bem recebida. Ela deveria voltar a morar com os pais, estudar, fazer faculdade. Não era o momento de deixar o país.
Sabia que não voltaria jamais, pois isso estaria acima de suas forças..Só ela sabia a tortura que foram as férias passadas lá, em julho.
Tinha algum dinheiro guardado, resultado do trabalho durante o verão e das mesadas que os pais mandavam, já que ela não tinha gastos. Poderia alugar um cantinho, arranjar um emprego e ir morar sozinha. Seus tios iriam alugar a casa em que moravam, mas ela sabia que o valor estaria acima de suas posses. Talvez tivesse mesmo que se contentar em alugar um quarto. E tinha menos de um mês para fazer isso, já que os tios viajariam no começo de dezembro, após o término das aulas.
Passou a caminhar pela cidade atenta a todos os lugares. Nas imobiliárias as exigências para alugar um imóvel eram muitas. Sua falta de experiência também não ajudava muito na hora de arranjar um emprego. Mesmo assim conseguiu alugar um quarto, próximo ao campus da Faculdade Unisantos na Avenida Conselheiro Nébias, onde pretendia estudar, se conseguisse uma bolsa, pois com certeza os pais iriam se recusar a custear seus estudos, quando soubessem de sua decisão.
O local era muito simples, mas o aluguel era relativamente baixo. Ela poderia cozinhar dentro do quarto, o banheiro era de uso coletivo, assim como o tanque. Como era final de ano, não foi difícil conseguir voltar a trabalhar na loja em que havia trabalhado no ano anterior. Era temporário mais serviria, enquanto não conseguisse nada melhor.
Seus pais estavam inconformados. Queriam que ela voltasse a morar com eles, não entendiam a atitude de Marjorie, pois sempre foram uma família muito unida.

Nunca a solidão foi tão cruel, longe da família, dos amigos de infância, de Valeska. Passava as horas vagas na praia. Ver a alegria de tantos casais à sua volta deixava-a ainda mais deprimida. Não havia sentido em preparar nada para o Natal, mas mesmo assim ela fez questão de fazer uma comida diferente. Nada fora do comum, só uma salada bem enfeitada, colorida e um peixe assado. Comprou um vinho bem baratinho. Acabou bebendo a garrafa toda e amanheceu de ressaca no dia 25 de Dezembro.
No sítio, os pais de Valeska comemoravam a aprovação da filha no vestibular da USP. Nem isso a fazia sorrir. Para ela era apenas mais uma etapa vencida. Mais uma etapa em que Marjorie deveria estar ao seu lado.
Ela soube por amigos em comum que Marjorie não havia prestado o vestibular, não em São Paulo. Melissa a havia deixado em paz um pouco. Estava mais entretida ganhando a confiança de Gabi. Às vezes as duas apareciam por lá, para conversar com Valeska.

A cada dia Gabi estava mais apaixonada por Melissa, mas parecia não perceber isso. Dizia gostar de um menino que estudava com ela, porém vivia a procurar motivos para segurar a mão de Melissa, abraçá-la… Passaram uma noite na casa de Valeska. Melissa dormiu no colchonete e Gabi dormiu na cama com Valeska, apesar dos protestos. Melissa queria muito que Gabi ficasse na cama com ela e Valeska fosse para o colchonete. Gabi também queria dormir ao lado de Melissa, mas Valeska não permitiu. Chamou Melissa para conversarem enquanto Gabi tomava banho e perguntou o que estava acontecendo entre as duas. Melissa respondeu que nada, mas que ela precisava satisfazer-se com alguém, já que Valeska não queria mais nada com ela. Ao ouvir isso, Valeska ficou com muita raiva. Não era possível que aquela menina tratasse a todos como seus objetos de uso pessoal, pensando que as pessoas só existem para satisfazê-la, que elas não tem sentimentos. Para convencer Melissa a dormir longe de Gabi, ameaçou a contar aos pais dela tudo que havia acontecido entre elas. Sabia que se fizesse isso, os pais iriam saber sua opção e poderiam saber o que acontecia entre ela e Marjorie, mas ela preferia enfrentar as conseqüências a deixar Melissa magoar uma garota delicada como Gabi.
Não adiantou. Quando Valeska acordou no meio da noite, não viu Gabi nem Melissa no quarto. Pensou que as duas poderiam ter ido até a cozinha buscar um copo de água, ou comer alguma coisa. Como elas estavam demorando muito para voltar, ela saiu para ver onde estavam. Encontrou-as no sofá da sala, nuas e entregues uma à outra.
Voltou para o quarto, não teve coragem de interrompê-las, pois não adiantava mais, Melissa havia conseguido o que queria.
Algum tempo depois, elas voltaram também para o quarto, Melissa ficou no colchonete e Gabi voltou para a cama como se não houvesse acontecido nada demais.
No dia seguinte Valeska fez de conta que não havia notado nada. Melissa acordou radiante, com um sorriso cínico de vitória nos lábios, Gabi, inocente, parecia flutuar de tão feliz. As meninas foram embora, Gabi ainda ficaria mais uma semana na casa de Melissa, mas notaria que esta aos poucos iria se afastando dela… Tratando-a friamente… Somente à noite Melissa procurava sua companhia…
Dois dias antes de ir embora, Gabi procurou Valeska. Contou-lhe chorando sobre a noite que havia passado com Melissa, estava apaixonada, e Melissa dizia que não queria nada sério, apenas transar quando Gabi pudesse ir visitá-la nos fins de semana ou feriados, que Gabi deveria manter segredo sobre elas e, se quisesse, poderia ficar com outras pessoas, fidelidade era uma palavra que deveria estar fora do vocabulário delas.
Valeska por sua vez não conseguia parar de chorar. Por que algumas pessoas sentem prazer em magoar às outras? Contou para Gabi tudo o que havia acontecido entre ela, Marjorie e Melissa.
Decidiram juntas vingar-se de Melissa, ambas iriam se expor muito para isso, mas concordavam que, talvez pudessem impedir que outras pessoas sofressem o que elas estavam sofrendo.
Haviam combinado de dormir na casa de Valeska, mas Gabi conseguiu convencer Melissa a ficar em casa mesmo. Esperaram os pais de Melissa irem dormir. Gabi disse que estava com vontade de comer doce. Foi até a cozinha buscar um pote de sorvete e calda de morango. Passou um pouco em Melissa, beijando em seguida para limpar. Melissa queria sorvete também, mas Gabi apenas iria permitir com uma condição especial: Ela seria a taça do sorvete.
Melissa gostou da idéia (como ela não havia pensado nisso antes?). Mandou que Gabi tirasse toda a roupa e se deitasse. Em seguida, foi colocando sorvete em todo o seu corpo, e por cima, calda, muita calda de morango.
Começou a beijá-la, dando pequenos chupões, o frio do sorvete iria ajudar a não deixar marcas. Ela ia tocando Gabi com a boca, fazendo-a chegar quase ao êxtase. De repente, seu pai e sua mãe abrem a porta do quarto e acendem a luz. Ficaram sem palavras.
Quando Melissa percebeu o que havia acontecido, ficou em choque. Tentou dizer que tudo havia sido culpa de Gabi, que ela não era lésbica, mas a situação demonstrava o contrário, era ela que estava praticamente devorando Gabi,como poderia ter sido forçada a isso?
Gabi contou que nunca havia namorado ninguém, até conhecer Melissa, e que esta a havia seduzido.
Os pais de Melissa as colocaram para dormir cada uma em um quarto, e no dia seguinte não permitiram que as duas se despedissem. Seu Lucas levou Gabi até a cidade, de onde deveria pegar um ônibus até sua cidade, decidiram que os pais de Gabi não precisariam saber nada sobre o acontecido, a não ser que a própria Gabi decidisse contar, o que não aconteceu. Sua família não ficou sabendo de nada e ela continuou a levar sua vida normalmente.
Por decisão da família, Melissa foi retirada do colégio. Tinham certeza de que a filha estava sendo mal influenciada pelas amigas. Afinal, só haviam descoberto a verdade devido a um telefonema anônimo. Como gostavam muito de Valeska, decidiram propor aos pais dela que levassem Melissa com eles para a capital, para que ela pudesse estudar numa escola melhor. Eles pagariam todas as despesas da filha.
Os pais de Valeska não só aceitaram como ficaram felizes, afinal, quem sabe assim a filha saísse do isolamento em que estava.
Para Valeska a notícia de que Melissa iria com eles foi como uma punhalada pelas costas. Ela teria que dividir sua casa e sua família com a pessoa que havia destruído seus sonhos. Jamais deveria ter dado aquele telefonema  aos pais de Melissa, dizendo para eles vigiarem melhor a filha deles.

Anúncios