Capítulo 7

Marjorie não obteve notas excelentes, como era seu costume mas conseguiu o suficiente para uma nova bolsa de estudos no ano seguinte. Ia simplesmente vivendo… Durante as férias arranjou um emprego, era a primeira vez que não passava as férias de verão com os avós… Mas não suportaria ir para uma fazenda, o contato com a natureza faria lembrar-se de Valeska… Quantas vezes não planejaram casar-se, terminar a faculdade e depois comprar um pequeno sítio, bem aconchegante, ao qual dariam o nome de “Recanto do Amor Eterno”, onde criariam seus filhos, envelheceriam juntinhas, e bem velhinhas cuidariam dos netos, contando-lhes lindas histórias de amor. Sonhos enterrados de uma vida que nunca iria voltar.
Qual não foi seu esforço para não responder as insistentes cartas de Valeska que a família lhe remetia para Santos. Queria tanto poder tomá-la nos braços e dizer que ainda a amava. Perdoar tudo o que se passou e voltar pra casa. Em fevereiro faria 18 anos… Como queria poder casar-se com ela.  Mas sempre haveria lembranças a magoar-lhe o coração… Sempre…
Às vezes ia à praia de madrugada, quando tudo é deserto e vazio, vazio como estava sua alma sem o amor de Valeska. Sentia a brisa tocar seu rosto, deixava-se ficar ali, chorando. Contemplava a fria solidão da Lua que apesar de cercada de estrelas, parecia olhar para a Terra buscando sua Amada, como se tivesse sido arrancada dos braços dela há muito tempo e jogada no frio exílio do firmamento e agora a ela só restasse acompanhar de longe o seu Amor.
Valeska faria 18 anos em janeiro. Que vontade de ligar para dar os parabéns e só por uma última vez ouvir aquela voz tão amada. Vontade de bagunçar mais uma vez aqueles cabelos curtinhos, louros e sempre tão comportadinhos. Vontade de beijar seu corpo mais uma vez. De tomar para si a sua esposa, o amor da sua vida…
Mais do que nunca, Marjorie sabia que jamais amaria alguém novamente. Seu coração não conseguiria mais entregar-se.
Ah, Valeska… Por que você fez isso com as nossas vidas? Por que mergulhou a aurora do nosso amor para sempre nessa escuridão, e por que, mesmo mergulhada na escuridão, não consigo matar em meu peito esse sentimento que talvez um dia me mate, e que carregarei comigo mesmo com o corpo sete palmos abaixo da terra e a alma vagando sem descanso, atormentada pela dor de amar-te, sem conseguir, entretanto te perdoar… Por quê?

Adorava as noites de ano-novo na praia. Já era uma tradição em sua vida passar as férias na fazenda dos avós, mas dar uma escapadinha até a casa da tia para passar a virada de ano em Santos. Lembrou-se de uma vez especial, quando a família de Valeska veio junto.  Elas estavam com quinze anos, haviam acabado de começar a namorar e ali, à beira-mar, juraram nunca mais se separarem. Era como se os fogos celebrassem sua união.
Mas, esse ano ela não passaria à beira-mar… Ficaria em casa, ajudaria a tia nos preparativos da ceia. Só não conseguia pensar em uma desculpa para não ir à praia… E faltava apenas uma semana… Sete dias a separavam do pior ano de sua vida… E o ano seguinte não demonstrava que seria melhor, ou mais feliz…
Noite de ano-novo, preparativos… Alegria no ar… Só Marjorie parece alheia a tudo…
Por volta das 22 horas a ceia estava praticamente pronta e todos foram se vestir… Marjorie ficou por último, como não havia encontrado um argumento convincente para não ir à praia, resolve se atrasar, para ver se os tios e o primo iam sem ela…
Não adiantou…
Eles ficaram muito surpresos ao vê-la saindo do quarto, num vestido negro, longo, com o corpo justo e a saia solta. Trazia os belos cabelos soltos e o rosto muito pálido. Seus olhos negros e orientais destacavam-se com uma expressividade assustadora. No pescoço, uma corrente prateada, onde pendurava uma pequena serpente de prata. Japonesa mestiça tinha um corpo forte, devido às aulas de karatê, mas nem por isso deixava de ser esbelta e feminina. Estava deslumbrante. Na praia chamava atenção por onde passava, tanto pela beleza, tanto pelo contraste, pois quase todos usavam trajes brancos ou cores leves e alegres.
O relógio marcou meia noite e os fogos começaram, mas já não havia ninguém para dizer que a amava… Lágrimas…
No sítio, Valeska controlava com dificuldade suas emoções. Também abriu mão da tradicional roupa branca, escolheu um vestido rosa (ouviu dizer que ajuda a melhorar a vida afetiva), era muito branquinha, loura e com os cabelos curtinhos. Apesar de adorar bijuterias e acessórios, nessa noite não usava nenhum adorno, apenas trazia consigo, guardada dentro do sutiã, uma carta de amor que Marjorie havia escrito quando começaram a namorar.
Também lembrava as juras de amor à beira-mar… Tudo o que mais desejava era voltar no tempo e reparar todas as besteiras que fez… Mas o tempo é cruel, o tempo não volta atrás…

Valeska: Caderno de notas

Ano novo/O tempo
Mais um ano se passou…
Como eu queria poder apagá-lo da minha vida, da minha memória… Queria voltar atrás em tudo que eu fiz, queria poder ser feliz de novo…
Marjorie… Passaram-se meses, e nem uma notícia sua… Esse silêncio me apavora… Quando você partiu, pensei que logo a saudade iria tocar seu coração e você voltaria para os meus braços… Mas até agora, nada… Começo já a perder as esperanças, mas se eu perder as esperanças, o que irá sobrar de mim?O que sobrará para viver se eu vivo somente de esperanças… Vivo da esperança de um dia reconquistar seu amor… Tê-la novamente em meus braços, minha alma gêmea, sem você é como se faltasse um pedaço da minha alma…
O tempo é muito cruel, ele não volta atrás e me impede de consertar o passado… É como se ele quisesse me castigar,passa lentamente, marcando cada segundo com uma pontada de saudade de você… Se não posso ir até meu passado, queria ao menos poder ver o futuro, para saber se um dia terei teu perdão e teu amor de volta… Pois a única coisa que me prende a essa vida é a esperança, e sei que se eu perde-la, poderia dar cabo a essa existência de dor…
Minha alma silenciosa e sofredora poderia então voar e buscar-te onde estiveres… E te seguiria, protegendo e amando-te até o fim da tua vida… E quem sabe então, na eternidade, você e eu seríamos novamente felizes…”
-Valeska.
-Que foi mãe?
-Larga esse caderno… Pelo menos hoje, é noite de Ano-Novo.
-É uma noite como outra qualquer.
-Valeska, você sempre foi tão alegre, doce. Sua alegria contagiava todos ao seu redor. O que tem acontecido com você?Há meses está cabisbaixa, não sorri, não canta. Abandonou as aulas de balé. Não sai com as amigas, nem as convida para ir a nossa casa.
-Não tenho nada. Apenas deixei o balé porque cansei das aulas.
-Você deve estar gostando de algum garoto. E não está sendo correspondida. Isso passa, sorria, logo vai aparecer alguém que te ame.
-O amor é cruel, me recuso a vivê-lo.
Chocada, a mãe de Valeska não consegue esboçar nenhuma reação. Ouvem-se então vozes vindas do lado de fora: Eram seu Lucas, D.Isabela e Melissa que chegavam para passar noite de ano com eles.
Vinham vestidos de branco, os pais usavam roupas muito simples, pois apesar de terem uma situação financeira boa, não faziam questão de luxos. Melissa usava um vestido um pouco mais requintado, longo, branco, com algumas rendas. Delicado, passava aquela imagem de inocência que havia encantado Valeska no verão passado. Mas seus olhos haviam mudado, já não mostravam mais uma leve malícia, agora Valeska podia ver a maldade que transparecia naquele olhar.
No interior não se costuma esperar até meia noite para tomar a ceia, de modo que às 22h00min, todos já estavam sentados à mesa, saboreando uma deliciosa refeição. Às 23h00min, a família de Melissa retirava-se. Finalmente, Valeska podia ficar sozinha.
Dona Mariana, mãe de Valeska, espera a filha recolher-se e começa a conversar com o marido. Relata a conversa que havia tido com Valeska, diz estar preocupada…
O marido tenta acalmá-la, diz que provavelmente Valeska está sentindo falta de Marjorie, que se mudou tão repentinamente e não manda notícias. Tudo que ela precisa é de companhia, de uma nova amiga que esteja sempre por perto.

Marjorie estava trabalhando em uma grande loja de roupas no shopping Miramar, em Santos. O emprego era temporário,mas ela queria muito continuar trabalhando após as férias. Seus tios porém não concordavam, ela iria começar a cursar o terceiro ano do ensino médio e deveria dedicar-se apenas aos estudos. Não precisava trabalhar visto que não tinha gastos com moradia ou alimentação e seus pais ainda lhe mandavam mesada todos os meses.
Chegou finalmente o fim das férias. Marjorie retornou a sua rotina normal, do colégio para a casa, da casa para o colégio.
Valeska ficou aliviada com a volta para São Paulo. Seus pais continuavam tentando entender o que havia de errado com ela, chegaram a sugerir uma análise.
Decidiu ficar o maior tempo possível fora de casa, estudava de manhã, almoçava e saía, passava as tardes na biblioteca, ou ia ao Ibirapuera, abrigava-se na natureza e se refugiava em sua dor.
No fim do ano teria que prestar vestibular… Ela e Marjorie sempre haviam sonhado com a USP, ela queria prestar Letras e Marjorie Educação Física. Será que iriam se reencontrar? Essa esperança era a única coisa que fazia Valeska dedicar-se aos estudos…