Capítulo 18

O Colégio Prazer de Aprender era um prédio enorme, localizava-se na Avenida Conselheiro Nébias, em Santos. Era ali que Valeska trabalharia daquele dia em diante. O ambiente era divertido, trabalhava com adolescentes, e relembrava sua própria adolescência. Tinha menos de trinta anos, mas era como se fizesse muito tempo mesmo que havia freqüentado um cursinho pré-vestibular. Adaptou-se rapidamente ao novo trabalho. Nos dias de folga, mantinha-se ocupada, passeava na praia, saia à noite para dançar, procurava não permitir que sua vida caísse no tédio Mesmo assim, sentia falta de ter alguém em quem confiasse para conversar. Ligou algumas vezes para Gabi, mas essa a atendeu friamente. Encontraram-se. Jantaram juntas, foram ao cinema. Gabi pediu para dormir no apartamento com Valeska. Durante a noite, tentou fazer sexo com ela. Ainda não havia percebido que apenas Melissa completaria sua vida. Continuava a entregar seu corpo em troca de migalhas de amor, momentos de satisfação. Valeska chamou um táxi, e pediu que Gabi voltasse para sua casa. Foi a última vez que se viram.

            Em dezembro foi à fazenda. Parecia que nada havia mudado. Aquele quarto, com paredes cor-de-rosa. As bonequinhas na estante, sua colcha de retalhos, já velha e desbotada, mas ainda sobre a cama. Essa colcha era do quarto de Valeska em São Paulo, tantas vezes não amara Marjorie sob ela impregnando-a com o odor de seus corpos quentes. Esse odor perdera-se no tempo, assim como sua vida.

Os pais de Valeska pensavam em vender o sítio. Já estavam velhos e Valeska não era mais uma criança que necessitasse de espaço para expandir-se.. Valeska ia segurando-os, observava que ainda passavam as férias no sítio, que pretendia adotar um bebê em breve, essa criança precisaria de espaço para crescer. Com muito esforço, conseguiu convencê-los a manter o imóvel.

            Aos sete anos, Anne Camille iniciava a primeira série. Marjorie decide colocá-la no Colégio Prazer de Aprender Jr., pois teme que o Pequenos Passos, onde havia estudado até então não seja suficientemente preparado para dar a ela as bases que Marjorie deseja.

            O Prazer de Aprender Jr tem suas instalações separadas do cursinho, sendo localizado na Avenida Epitácio Pessoa. Anne Camille logo se acostuma aos novos amigos e professores. Diana vai todos os dias levá-la e buscá-la,pois a escola onde leciona é próxima.

            Valeska, conversando com Melissa pelo MSN, comenta a falta que sente de ter uma amiga por perto. A solidão a maltrata e muitas vezes ela já havia pensado em desistir de tudo e voltar à São Paulo.Melissa decide pedir transferência para Santos, assim podem morar juntas. Envolta em tanta burocracia, só consegue realmente mudar-se de cidade em dezembro. Mesmo assim, ambas sentem-se melhor estando próximas, dividindo novamente o mesmo lar.

            Nas férias de Julho Valeska viaja para a fazenda. Melissa sabe que Gabi após formar-se nunca mais voltou à sua cidade de origem, por isso, não vê motivos que a levem a viajar com Valeska.

            Conhece Diana através de um chat. Ambas amam crianças. Diana está participando de um projeto educacional voluntário, com crianças entre cinco e sete anos. Melissa decide ir até o endereço indicado, apenas para conhecer o projeto. É uma escola simples, na zona noroeste da cidade, local famoso por ser humilde e esquecido. O projeto consiste em, durante as férias incentivar as crianças a freqüentarem a escola… Realizam passeios educativos, brincadeiras que facilitam a alfabetização, contam histórias, assistem filmes… Melissa, que está em período de recesso do fórum, começa a participar do projeto… Passa seus dias entre as crianças. Diana muitas vezes pergunta-lhe coisas pessoais, se é casada, se ama alguém, se namora… Ela sempre descobre uma maneira de desconversar. Foram férias razoavelmente boas para Melissa.

Valeska pôde aproveitar cada instante daquele contato íntimo com a natureza para renovar suas forças.Gostaria de encontrar Marjorie, apenas uma última vez. Apenas olhar nos olhos daquela que, mesmo longe, domina seu coração. Queria constatar por si mesma a felicidade da amada. É difícil imaginá-la feliz nos braços de um homem.

Trecho do Caderno de Notas de Valeska

(PS: Mais um poema novo, falando de um sentimento antigo, sentimento que faz parte da vida desde o início, atravessa séculos, e, enquanto houver um coração batendo, chamando por alguém, existirá.)

“As ondas quebram nos rochedos.

 Violentas e Cruéis,

Mas nem por isso, menos belas.

O Sol forma uma faixa rosada no horizonte.

É a aurora que chega.

Pássaros da manhã começam a voar.

Iniciam-se mais um dia.

Mais um pedacinho de nossas vidas

Passa lentamente.

A saudade chega a ser palpável.

é tão real quanto essa areia que conforta meus pés cansados.

Bate forte, como as ondas naqueles rochedos.

E tal como as ondas vão aos poucos despedaçando as pedras,

A Saudade vai despedaçando meu coração.

As pedras nunca mais voltarão a ser pedras, tornar-se-ão poeira de pedras

Mas eu juntarei os pedacinhos do meu coração,

Juntarei cada grãozinho.

Para restaurá-lo, apenas uma magia servirá.

Olharei em teus olhos,

Sentirei tua energia,

Ouvirei tua voz.

Abraçarei-te com força e paixão.

Com ternura, com amor.

E, então, tudo volta ao normal.

Meu coração já não estará mais partido de saudades,

Pois a magia do amor uniu novamente seus pedacinhos.

E, à beira dos rochedos,

Choraremos a emoção de mais um fim-de-tarde.

Agradeceremos às Forças Invisíveis

Pelo nosso Amor,

Pela força maior que une nossas almas,

Lamentaremos as rochas,

Que,solitárias vão se desfazendo,

Por não amarem e não poderem guardar seus pedacinhos para serem unidos pela força maior do Amor.

Veremos as aves recolherem-se,após mais um dia…

A noite irá cair.

as águas do mar serão Iluminadas pela Lua.

Que brilhando,saldara nosso Amor,

E,mesmo com todo o seu brilho,

Não brilhará mais do que nós.

Passearemos noite a dentro,

Apenas eu,você,

O mar e o luar.

Então,

Desejaremos o abrigo de nossos corpos,

e,vamos também nos recolher ao nosso ninho.”

            O tempo passa, as férias terminam… Valeska se vê novamente envolta em seu mundo, aulas a preparar, alunos amedrontados com a perspectiva do vestibular, alguns indecisos quanto à escolha da futura profissão, alguns rebeldes. Tudo isso a mantém bastante ocupada e distraída.

Melissa e Diana continuam conversando pelo MSN, às vezes, se encontram, pois o projeto no qual atuaram durante as férias continua em funcionamento durante o resto do ano,mas apenas nos finais de semana.

Apesar de conversarem muito, Diana nunca havia contado à Melissa nada sobre sua família, seu pai,sobre Marjorie.

            Anne Camille tinha os traços de Marjorie, rosto oriental, delicado, uma pequena gueixa. Desde criança, demonstrava que,assim como a mãe,seria uma bela mulher. As únicas características que vinham do pai eram uma pele ligeiramente morena e uma altura mediana, crescia depressa,e ao que tudo indicava,seria mais alta que Marjorie.

            Um dia, Valeska precisou ir até a unidade de educação infantil e ensino básico, pois outra professora havia, por engano, levado seu plano de aulas para lá, após uma reunião.

Eram cinco e meia da tarde e as crianças estavam saindo das aulas… Enquanto esperava a professora que fora buscar sua pasta, observava as crianças. Viu num grupinho especialmente animado uma menina que lhe chamou atenção. Seus olhos lembravam muito Marjorie. Devia ser apenas impressão, coisas de sua cabeça. Pegou a pasta e foi embora.

Nesse dia, se houvesse escutado seu coração e permanecido ali por mais alguns minutos, Valeska teria encontrado Marjorie, que fora buscar a filha para inteirar-se de sua situação no colégio.

 

Caderno de notas de Valeska

“Amor.

Caminho da Vida,

Estrada da Alma.

Flor,

Espinho,

Lágrimas,.

Sorrisos,

Dor e prazer,

Encontro e desencontro,

Prosa e poesia,

Música,

Gravura,

Doçura,

Mais que tudo em nossa vida,

Sonho e realidade,

Auge da loucura e da razão,

Fino véu que separa a alegria e o sofrimento,

Amor.

Maltrata o coração,

Mas sem ele,

Não há sentido em viver,

Amor que buscamos,

Procuramos,

Amor que só encontramos uma vez,

Amor que irá nos guiar para sempre,

Com força…

Vencendo mares bravios,

Escalando as cordilheiras,

Saindo de nossos recantos mais profundos,

Até chegar ao cume de nossa alma…

Dominar nosso coração…

Nossa mente,

Nosso corpo…

Mostrando-nos que não há mais sentido em buscá-lo,

Pois nós não o encontramos…

Ele já está escrito,

Ele nos encontra…

Atravessa Mundos, Dimensões,

Atravessa o tempo,

Atravessa o espaço,

Apenas para nos encontrar…

Cumpre tão longa jornada apenas para tocar nosso coração…

Unir-nos em seus laços…

E fazer com que nossas vidas,

Que seguiam estradas separadas, por vezes opostas,

Se encontrem,

E sigam juntas no caminho que lhes foi traçado…

Se completando,

Se fortalecendo…

E,

Acima de tudo…

“Amando”

Quatro anos se passam.

            Anne Camille, com onze anos, irá iniciar a quinta série.

Sua beleza é estonteante. Quem a olha, imagina que já tem quinze primaveras. As aulas de dança fizeram seu corpo bem torneado e rijo. Por onde passa, todos a olham e os rapazes fazem de tudo para agradá-la, mas ela finge não perceber. .Além de tudo isso,também é uma garota muito inteligente,uma das melhores alunas de sua sala.

            Em seu primeiro dia, conhece a nova professora de Literatura, Valeska, que agora, além do cursinho, lecionava também nas salas entre quinta e oitava série do ensino fundamental.

Aquela menina lembrava-lhe alguém. Lembrava-lhe Marjorie… Não havia como ter acesso à ficha pessoal da aluna, sem um bom motivo para isso. Não podia tampouco, pedir-lhe uma redação falando sobre a família, pois redação não fazia parte de suas aulas.

Os dias foram passando… Arrastavam-se… Logo chegaria a primeira reunião… Conheceria então as mães de suas alunas, e, provavelmente, poderia constatar que andara pensando bobagens, deixara-se levar pela esperança de reencontrar Marjorie e havia ligado seu rosto àquela aluna.

            Melissa havia conseguido realizar um de seus objetivos: agora, era Juíza de Direito. Após prestar o concurso, foi nomeada para uma comarca no Interior, deixando Valeska novamente sozinha em Santos, fazia dois anos que sua vida resumia-se a analisar processos e mais processos. Não havia esquecido Gabi, mas não conseguia imaginar como localizá-la. Poderia recorrer a seus contatos, policiais, detetives, mas não se sentiria bem fazendo isso: Seria como espionar a vida da bem-amada.

Seus recessos eram divididos entre alguns dias no interior, com a família, e outros em Santos, com Valeska.

Permanecia solteira.

            Em São Vicente havia um quiosque famoso por sua alegria e animação, chamava-se Quiosque da Cris, era freqüentado pelo público GLS. Nas noites quentes de verão, estava sempre lotado. A paquera acontecia livremente, lugar bem-frequentado, cheio de gente bonita. Melissa e Valeska decidem ir até lá, em uma bela noite de sábado. Era Dezembro e ambas estavam de férias, e, solteiras,pelo menos socialmente, pois fazia anos que,em seus corações,estavam casadas.

Chamaram algumas amigas, pois não queriam passar a noite toda sozinhas. O lugar estava lotado. Não havia mesas e tiveram que aguardar em uma lista de espera.

            Enquanto observavam, puderam notar em uma das mesas um grupinho especialmente animado. Cinco ou seis mulheres, mais ou menos entre 27 e 30 anos. Entre elas, destacava-se uma bela loura, cabelos longos e cacheados. Sua pele é de um moreno claro, suave e aveludado. Veste-se sensualmente, saia curta, sandália de salto alto, blusa mostrando as costas… Usa uma maquiagem leve, porém, como tudo nela, provocante. Seu olhar e seu corpo exalam sensualidade, mas,observando-a podemos notar uma intensa sede de amor.

            Melissa a olha fixamente. Não é possível. Gabi? Não. Gabi era morena, como explicar esses cabelos tão louros?Talvez, tenha-os tingido.

Após conseguirem uma mesa, um pouco distante do outro grupo, Melissa continua a observar. Percebe que estão todas desacompanhadas. Cochicha algo com Valeska, que após olhar bem, confirma, sim, é Gabi quem está na outra mesa. Melissa não tem coragem de simplesmente ir até lá e dizer “oi”. Todas as amigas que foram ao quiosque com ela e Valeska já conseguiram encontrar alguém com quem passar a noite. Talvez sejam mulheres de sorte, pois, aos quase trinta anos ainda não encontraram um amor verdadeiro, que lhes mostre que, sem estar com quem se ama, não há prazer nem felicidade… Mas, será isso ter sorte?Valeska e Melissa sabem que não. Por mais que o Amor machuque, é preferível derramar lágrimas por amar a viver o deserto de não sentir que, a cada momento, necessitamos de alguém ao nosso lado.

Talvez sejam simplesmente mulheres que isolaram seu coração, para não sofrerem mais desilusões, e, ainda vivem a ilusão da felicidade momentânea de uma noite…

Seja como for, Valeska e Melissa vêem-se novamente sozinhas. Decidem ir embora.

Melissa escreve um bilhete:

“Gabi,

Meu telefone é:

(n° do celular)

Se você quiser saber quem sou eu, me liga.

Pense bem antes de amassar esse bilhete e jogá-lo no lixo. Você pode estar jogando fora a sua felicidade.”

“Alguém”

Pede para uma das garçonetes entregá-lo à Gabi, sem dizer a ela quem havia escrito. Vai até o carro de onde pode observar a reação de Gabi ao receber e ler o bilhete, que é guardado na bolsa…

            Dias depois, o telefone toca. O número é desconhecido. Melissa, ainda sonolenta, atende.

Uma voz sensual, do outro lado da linha:

            -Com quem eu falo?

            -Gostaria de falar com quem?

            -Com a pessoa que, algumas noites atrás, me enviou um bilhete, no Quiosque da Cris.

            -Oi Gabi. Você está falando exatamente com quem quer falar.

            -Como sabe o meu nome?

            -Não importa agora. Vamos marcar um dia, nos encontrar,você vai saber quem eu sou.

            -Não vou encontrar uma desconhecida que fica fazendo joguinhos de anonimato.

            -a escolha é sua…

            -…

            -…

            -Tudo bem… Aonde vamos nos encontrar?

            -Você conhece a Sorveteria La Bamba, na Avenida da Praia, próxima ao canal 4, em Santos?

            -Conheço.

            -Você poderia estar lá, hoje, por volta das 14 horas?

            Era segunda feira, Gabi estava com reuniões importantes marcadas para o dia todo. A agência de turismo era longe do Canal 4,mas,por outro lado..

            -Não posso nem pensar em marcar nada hoje, estou cheia de compromissos.

            -Tem certeza?Não há como arranjar um espacinho nessa agenda tão lotada?

            -Tudo bem.  Pode ser às 15 horas?

            -Pode.

            -Então, até logo.

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