Capítulo 17

Anne Camille crescia rapidamente. Era uma criança inteligente, sensível e curiosa,  a alegria no lar de Marjorie e Christopher. Aos seis anos, já sabia ler algumas palavras, era muito ativa e muito unida à Diana, que, após fazer faculdade de pedagogia, tornara-se sua primeira professora. Amava muito os pais, porém mostrava-se independente, corajosa. Muitas vezes, Marjorie via nela atitudes que lembravam Valeska, quando tinha mais ou menos essa idade. Anne Camille podia ter correndo nas veias o sangue de Christopher, mas, de alguma forma, Marjorie sentia na filha a presença da mulher amada. Como se fosse possível ter engravidado de Valeska e gerado um ser assim tão idêntico a ela em suas ações, trejeitos, paixões. Assim como Valeska, Anne Camille também amava as aulas de balé. Marjorie, que sempre fora praticante das artes marciais, até havia tentado incentivar a filha a praticar esse tipo de esporte, mas Anne Camille preferia o balé.
Melissa havia se formado, foi uma das poucas alunas a ser aprovada na primeira tentativa no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e também no concurso público para o cargo de Promotor de Justiça. Trabalhava muito. Havia desistido do ramo de Direito Internacional, no último ano, decidira seguir Direito Penal. Mesmo com a carreira garantida, estudava muito, fazendo inúmeros cursos e atualizações. Sua vida sentimental, no entanto, estava às moscas.
Havia muito tempo, Gabi e Valeska não se correspondiam mais e , conseqüentemente, Melissa não tinha mais nenhuma notícia de sua amada. O tempo havia feito ambas trilharem caminhos diferentes.
Gabi havia feito faculdade de turismo, depois de formada precisava viajar muito a trabalho e quase não tinha tempo de escrever cartas ou e-mails à Valeska. Ainda entregava-se a cada novo ser que aparecesse em sua vida, na tentativa vã de encontrar sua paz, de se encontrar. E a cada dia distanciava-se mais e mais de si mesma. Gabi e Melissa, duas vidas, um amor, dois destinos.

Valeska, após três anos trabalhando no mesmo colégio, conseguiu um emprego como professora do colégio Prazer de Aprender, em Santos… Não queria mudar-se de cidade, mas era uma oportunidade imperdível, daria aulas no cursinho pré-vestibular.
Foi doloroso deixar para trás a família, amigos e partir rumo ao desconhecido. Mas o que era desconhecido?A cidade?Não, Valeska conhecia Santos. O desconhecido era saber que, dali em diante, seria apenas ela e ela mesma…

Caderno de notas de Valeska

(carta de amor que nunca entreguei)

“Chega mais um fim de tarde, e eu estou aqui, em meus lábios solitários, um sorriso. Em meu coração, o punhal da saudade está cravado profundamente. Só você pode curar as feridas do meu coração. Mas você está tão distante.
Mais uma noite quente e estrelada. Sem você aqui, me resta apenas a escuridão e o frio. Olho para o céu. Procuro uma estrela que tenha o brilho do seu olhar. Não existe. Seus olhos têm um brilho que apenas meu coração alcança. Mas você não percebe isso, não percebe o amor que sinto por você. Se olhares para o céu, não o céu sobre nossas cabeças, mas o céu estrelado do nosso coração, encontrará uma estrela pequenina e muito brilhante. Essa estrela é o amor que tenho por você. Vivo a esperança de um dia vê chegar e me dizer: “Eu te amo” e se um dia essa esperança morrer, sei que também morrerei. Por isso, mantenho sua chama bem viva. Lágrimas são inevitáveis na estrada do amor, muitas vezes, sorrisos são raros e preciosos, mas, sei que no final dessa estrada, cada lágrima derramada será uma estrela a Iluminar nossos caminhos e cada sorriso multiplicar-se-à milhões de vezes. Nesse dia, estaremos unidas, por toda a Eternidade….”