Capítulo 16

Para Marjorie, aquele dia estava sendo particularmente horrível. Acordara com muito enjôo. Estava também com uma forte dor de cabeça, havia semanas que não dormia bem, mas e sentia muito sono durante o dia. Mesmo assim, foi trabalhar. Já não ocupava mais o posto de caixa-operadora no Bingo Sete Mares, fora promovida à supervisora, pois Christopher havia sido transferido para o Bingo Estrela do Mar, recém inaugurado pelo dono do Sete Mares em sociedade com mais dois amigos. O novo cargo a deixava estressada, entrevistar candidatos às vagas de trabalho, a obrigação de demitir pessoas que não estavam se enquadrando aos requisitos da empresa. Durante à tarde, reunião com a equipe de atendentes. Após a reunião teve que demitir uma moça recém-contratada que havia dormido durante o turno da noite, a pobre moça chorava muito, mas Marjorie teve que ser forte e manter sua decisão. Tempo para almoçar?Só mesmo durante os dias de folga. Do Bingo, foi diretamente para a faculdade, teria uma prova muito difícil, e não havia estudado nada. Já na sala, sentia muita tontura. Devia ser o nervoso, falta de alimentação, pois não conseguira comer nada, devido ao enjôo. Após realizar a prova, decidiu ir para casa. Não agüentaria assistir às outras aulas, mas, mal entrou no estacionamento subterrâneo do campus, sentiu-se pior, chegando a ter um breve desmaio.
Christopher ainda não havia saído do Bingo Estrela do Mar, onde estava trabalhando no período noturno aquela semana, quando seu celular tocou. Ao saber que Marjorie havia sentido-se mal, não pensou duas vezes e foi buscá-la.o carro deles estava com ela,por isso,teve que ir de ônibus,chegando lá,decidiu levá-la direto ao pronto-socorro. Horas depois, iam para a casa, Marjorie deveria ficar alguns dias em repouso, apenas uma precaução, não deveria se cansar mais do que seu novo estado permitia. Christopher estava radiante. Iria ter um filho com a mulher que amava. Desejava curtir cada momento essa nova paternidade.
Calada, Marjorie não entendia direito o que estava acontecendo. Como havia engravidado?Tomava tantas precauções, camisinha, pílula. Ainda faltava fazer o exame apropriado, que não era realizado no pronto socorro, mas ao que tudo indicava. Lágrimas corriam de seus olhos. Não queria ter um filho, simplesmente por que não amava Christopher, não como homem. Amava-o sim, como um amigo, respeitavam-se. E nas noites solitárias, saciavam seus desejos, mas não eram um casal normal. Como iriam ter e criar aquele filho? Ao ver a esposa chorando, Christopher percebeu ligeiramente o que se passava na cabeça dela. Sem palavras, limitou-se a abraçá-la.
A confirmação da gravidez foi uma reviravolta na vida de Marjorie. Decidiu continuar no trabalho e na faculdade, apesar da insistência de Christopher para que se afastasse de ambos e ficasse em casa, apenas descansando. Apesar do medo e de tudo o que havia pensado quando soube que estava grávida Marjorie começou a aceitar e gostar da idéia de ter um bebê com Christopher. Sofria por lembrar-se de quando planejava ter filhos com Valeska. Sempre haviam sonhado fazer juntas uma inseminação artificial,engravidar ao mesmo tempo…ver seus filhos crescerem juntos,cercá-los de amor…mas isso não a impedia de ver que esse bebê a uniria para sempre a alguém que a amava acima de tudo,que passara anos casado com ela,sem sequer tocá-la,apenas para tê-la por perto.
Christopher, naturalmente super-protetor, estava mais cuidadoso ainda. Qualquer desejo, por mínimo que fosse por ela expressado, ele realizava como um decreto. Qualquer mal-estar queria levá-la ao médico, fazê-la faltar ao serviço e à faculdade apenas para descansar. Marjorie gostava de se sentir assim, tão mimada, fazia sentir-se segura… Era difícil explicar…  Seu corpo aos poucos ia modificando-se, adquirindo formas mais arredondadas. Olhava-se no espelho e sentia-se bela. Amava aquele pequeno ser que estava formando-se ali.
Diana também ficou maravilhada com a idéia de ter um irmão ou irmã, surpreendendo Christopher e Marjorie, que imaginavam ao menos uma cena de ciúmes.

Valeska, mesmo estando longe, sentia que havia algo acontecendo. Não sabia explicar o que, mas sentia Marjorie cada vez mais distante dela. Como se suas vidas estivessem seguindo sempre a mesma estrada, e, de repente, surgisse uma encruzilhada, na qual seguiam caminhos opostos.

Meses passaram-se… Rotina, boa e velha rotina… Férias? Fazenda.
Gabi pouco visitou Valeska. Após muito pensar, sentia que seu encontro com Melissa fora premeditado por Valeska, por isso mantinha-se distante. Estava firme na sua resolução de não envolver-se com ela, nem com mais ninguém.
Melissa, devido ao estágio, teve muito poucos dias para passar ao lado de sua família, nesses dias, apenas conseguiu ver Gabi uma ou duas vezes. Como estava linda. A praia evidentemente fazia-lhe bem. Sua pele adquirira cores mais vivas. Os cabelos estavam grandes. Seu corpo, perfeito. Como Melissa queria poder ao menos ver o olhar de Gabi, apenas parar e olhar durante alguns segundos dentro daqueles olhos, ver aquela luz que era o motivo de sua existência.
O frio do mês de Julho as deixava naturalmente propensas ao isolamento e a uma leve melancolia. Valeska e Melissa passavam agora horas juntas, chorando.
Em Santos, Marjorie também se mostrava abatida. Muitas vezes, procurava ficar distante de Christopher, pois não queria magoá-lo com as lágrimas que derramava por Valeska. Elas sempre gostaram tanto dos meses frios. E, longe de Christopher, sentia-se sozinha e profundamente infeliz.
Outubro…
Marjorie e Valeska completariam sete anos de namoro, se ainda estivessem juntas. Apesar de estar feliz com a nova vida que carrega consigo, Marjorie não pode evitar certa tristeza. Afinal, esse bebê deveria ser delas.Aos sete meses de gravidez,ainda não havia conseguido escolher um nome para a menina que esperava,sua maior vontade era batizar-lhe Valeska,mas sabia que isso magoaria Christopher.
Na noite de Ano Novo, vieram as primeiras dores. No dia 1° de Janeiro nascia Anne Camille, filha amada de Marjorie e Christopher.
Marjorie só volta à faculdade e ao trabalho em Julho. Martha havia se casado novamente, e Diana decidiu morar com Christopher, assim ajudaria a cuidar do bebê durante o dia, estudando à noite.
 
Valeska dedica-se a fazer muitos cursos em sua área, assim, tenta esquecer um pouco a vida pessoal que deveria ter.
Melissa está passando pelo terrível quarto ano de faculdade, seu penúltimo ano. Gabi inicia o primeiro, ironicamente, também está cursando a USP, mas em um campus distante do campus no qual Melissa estuda. Como não tem onde morar em São Paulo, viaja todos os dias, para poder estudar. Essa rotina e a distância fazem com que elas não se encontrem. Muitas vezes,por questão de minutos,deixaram de se cruzar em uma estação de metrô, num ônibus.
Nas férias de julho, apenas Valeska e Gabi vão para a fazenda. Melissa decide ficar em São Paulo.
Gabi conta a Valeska que ainda não esqueceu Melissa, mas que tem procurado o amor nos braços de quem se oferecer para amá-la. Quem sabe não consiga reencontrar num corpo estranho a essência de sua vida, que perdeu ao amar Melissa.
Valeska não consegue entender. Pensa como suas vidas tomaram rumos diferentes.
Ela sofre por amar, está sozinha, esperando por uma chance de voltar para os braços de Marjorie. Marjorie também sofreu, talvez ainda sofra pela separação, mas procurou tentar ser feliz nos braços de um homem. Melissa, que nunca valorizou sentimentos, agora entende o que é Amar. Gabi, uma garotinha antes tão delicada, agora se fez mulher, ainda não entendeu que quem ama, jamais vai conseguir encontrar equilíbrio nos braços de alguém, que não o ser amado, e, entrega-se assim, a qualquer um, numa busca desesperada por si mesma.
Na vida de todas elas, o Amor foi um marco profundo, alterou seus caminhos, causou alegria em alguns momentos, e dor em todos os casos. O curioso,foi a maneira como cada uma reagiu a esta dor…
 
Caderno de notas de Valeska.

“Flores para enfeitar nossa jornada,
Flores para perfumar,
Flores para colorir…
Tê-la ao meu lado…
Cultivar no Jardim da vida uma flor especial:
Nosso amor…
O Amor que colore, perfuma e alegra nossos caminhos…
O Amor que nos faz sorrir…
Mas também, nos faz chorar…
Derrama o sangue de nossas almas,
Pois como qualquer flor,
Possui espinhos…
Amor,
Simples e profundamente Amor…
Amor e nada mais…
Amor que é tudo,
Amor que nos guia,
Alimenta nossa alma…
Amor…
Amor que, como todas as flores,
No inverno… Perde as cores,
Perdem o verde, as folhas…
Amor que achamos estar morto nos longos meses
Do inverno da distância…
Mas sabemos que ele nunca morre,
Pois sem ele, nada somos
Sem ele, a vida nada é…
Amor que retorna na primavera do reencontro…
Atinge novamente seu ápice…
Faz-nos reviver… sonhar
Amor…
Motivo maior da existência…
Pureza da água cristalina…
Brilho das estrelas
Estrada da alma…
Estrada que sigo ao teu lado…
Mesmo distante, sempre perto de ti…
Sempre pelo mesmo caminho…
Você é meu Amor…
Flor que enfeita e perfuma minha existência
Minha estrada e meu motivo para segui-la,
Sem medo de não saber para onde serei conduzida,
Pois sei que qualquer lugar ao teu lado é o paraíso
Você é a estrela que brilha em minha vida,
a pureza de meus sonhos e sentimentos…
Amo-Te…”

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