Capítulo 21

Abraçaram-se, mudas em seu espanto… Ambas tinham lágrimas nos olhos, lágrimas retidas durante quase 20 anos. Naquele momento, era como se mais nada existisse. Valeska teria que ficar no colégio, em reunião com os outros professores. As férias se aproximavam, havia muito que planejar provas avaliações, mas nada mais importava para Valeska. Simplesmente, ela decidiu deixar tudo aquilo para trás, ao menos por algumas horas. Foi até a secretaria, disse que estava com uma forte dor de cabeça e iria embora com Marjorie, pois não estava em condições de dirigir.
Já no carro, ambas não tinham palavras. O que dizer?Como dizer?
Pararam em frente à praia. O frio de junho e o fato de ser segunda-feira faziam com que estivesse deserta. Caminharam, ainda sem palavras…
-Porque você me deixou?
-Não consegui acostumar com a idéia de que você havia me traído com Melissa, nem com aquela noite, na barraca.
-Você não imagina o que é a minha vida sem você. A dor que me sufoca pouco a pouco a cada dia, que aos poucos vai me consumindo.
Valeska chora, como uma criança indefesa perdida numa noite escura e silenciosa. Marjorie a toma nos braços.
-Isso Marjorie, me abraça, me abraça forte e promete que nunca mais vai me deixar novamente.
-Você sabe que nunca mais ficaremos juntas.
-Por favor… Não me diz isso… Por favor…
-Valeska, eu sou uma mulher casada, tenho uma filha linda, um marido que me ama.
-Você o ama?
-Aprendi a gostar dele, a respeitá-lo. Você acha que minha vida sem você foi fácil? Você continuou em sua casa, cercada pela sua família, nossos amigos, nosso mundo. Eu morei um ano com meus tios, e eles se mudaram para a Argentina, tive que optar entre voltar e enfrentar minha vida perto de você, mas sem tê-la, ou ficar aqui, sozinha e passo a passo, construir uma vida só minha.
Silêncio. As lágrimas a impedem de continuar…
-Aluguei um quarto, pequeno, comecei um curso técnico, pois meus pais recusaram-se a pagar minha faculdade se eu decidisse viver longe deles, fui trabalhar em um bingo. Lá, conheci Christopher. Éramos amigos, ele, de alguma maneira, sabia que eu não estava bem, que havia algo em minha vida que me machucava. Nunca vou me esquecer uma noite, em que eu estava me sentindo especialmente solitária. Já era madrugada, e eu resolvi caminhar até aquelas pedras ali na frente, mesmo sabendo o perigo que corria, sozinha na praia àquela hora. Sentei ali e chorei. Foi quando vi um homem se aproximar me assustei, mas,naquele momento,desejei que ele me tirasse a vida, pois estaria tirando o que eu já não tinha. Mas ele não tirou minha vida, ele não se aproximou para me machucar. Era Christopher, que também se sentia solitário em casa e havia saído para caminhar. Ele me viu ali, nas pedras, e foi conversar comigo. Até então, eu não havia contado nossa história para ninguém. Eu contei tudo a ele. Ele me confortou me levou para sua casa. Passamos um fim de semana juntos, apenas amigos, em nenhum momento ele se aproveitou da minha fragilidade.

Novamente, a emoção a impede de continuar por alguns segundos.
-Após esse final de semana, passamos muitos outros juntos… Conheci a ex-esposa dele, a filha, Diana. Nos demos tão bem. Ele me pediu em casamento, demorei algum tempo, mas acabei aceitando viver com ele, mas sem me entregar como mulher, apenas amigos debaixo do mesmo teto.
-Por alguns anos, ele suportou essa situação cruel, e teria aceitado mais e mais tempo, apenas para estar ao meu lado. Até que eu me entreguei, meu corpo necessitava ser dominado por alguém, receber e dar prazer. Após um tempo, engravidei. Anne Camille nasceu para iluminar a nossa vida. Até hoje, ele sabe que eu não o amo, não como esposa. Ele sabe que meu grande amor é você.
-Marjorie…
-Não diz nada… Não posso deixar minha família para voltar aos teus braços.
Simplesmente vai embora, deixando Valeska ali, sozinha e chorando.
Pensava em quanto Marjorie havia sofrido, pensava no amor puro e desinteressado de Christopher, na doçura de Anne. Como o tempo pôde passar assim tão rápido, e elas haviam ficado paradas, presas nele, presas em um amor que não voltaria nunca mais. Ou, voltaria mais não nessa vida. O amor é eterno, ele sempre volta, sempre, não importa quando, mas sabemos que ele volta. Sabemos que a espera nos sufoca, nos tira a vida aos poucos, sabemos que, a cada momento que se passa, nosso coração se desfaz mais e mais, e que não podemos fazer nada para evitar isso.
Anne não estava em casa, havia saído com Christopher, ido ao cinema.
Marjorie pôde ficar um tempo sozinha, pensar. A vida havia novamente colocado Valeska em seu caminho. O que fazer? Não podia abandonar Christopher, ele havia dedicado a vida a ela e Anne. Mas doía muito abrir mão de Valeska mais uma vez, sabia que, se a recusasse agora, seria para sempre.
Ligou o rádio, começou a tocar uma música muito antiga, que não era mais sucesso no tempo de sua adolescência, mas que mesmo assim, havia marcado muitos momentos com Valeska. Como era mesmo o nome daquela música? Esquecera-se, o ritmo estava em seu coração, mas o nome.
Ouviu a porta da cozinha abrir. Christopher chegava sozinho. Anne havia encontrado uma amiga no shopping e ia ficar algumas horas na casa dela, depois ele iria buscá-la.
Naquele momento, Marjorie sentiu-se aliviada pela ausência de Anne. Assim teria privacidade para conversar com Christopher.
A notícia de que Valeska, a professora de Anne era a mesma pessoa que sempre havia sido o grande amor da vida de Marjorie deixou Christopher muito abalado. Marjorie jurou que não voltaria nunca mais para os braços de Valeska, apesar de saber que ela ainda a amava, e muito. Chorava
Christopher tomou-a nos braços:
-Marjorie, eu jurei a mim mesmo, que faria tudo para ver você feliz, mesmo que isso significasse entregá-la nos braços de Valeska, se um dia ela voltasse para a sua vida.
-Christopher, eu sou feliz ao teu lado, temos uma família… Um lar…
-Um lar baseado na amizade, no respeito, em um tipo de amor que não cabe em um casamento. Eu te amo mais do que qualquer outra coisa nesse mundo, quero que você seja feliz, não importa o que aconteça, sempre vou amá-la.
Essas palavras de Christopher fizeram Marjorie chorar ainda mais. Não sabia mais o que pensar, como agir.
Ela e Valeska encontraram-se mais algumas vezes. Conversavam muito, não podiam simplesmente começar do ponto em que haviam parado muita coisa havia mudado desde então.
Os dias passavam-se rapidamente, logo chegariam as férias. Anne viajaria com algumas amigas na primeira semana, e Marjorie havia decidido ir à São Paulo, pela primeira vez em tantos anos teria coragem para retornar e rever sua família. A decisão mais importante, porém, ainda estava por ser tomada, separar-se-ia de Christopher para viver com Valeska, ou continuaria a sua vida, a vida que havia construído ao lado de seu marido, sua filha. Não sabia sequer como Anne reagiria a uma separação, muito menos, qual seria sua reação se,além de separar-se,Marjorie decidisse morar com Valeska.
Luana começava a sentir falta da companhia de Anne, dos segredos divididos, sua companhia nas noites solitárias,quando dormiam juntas,mãos dadas debaixo do cobertor. Porém, não aceitava, não entendia aquele sentimento, aquela paixão que Anne nutria por ela. Aos poucos, percebia que começava ela mesma a sentir desejo pela amiga. Um dia, decidiu chegar cedo ao colégio, agora estudava à tarde, mas disse que precisava fazer uma revisão na biblioteca, por isso ficaria a manhã toda lá. Foi bem antes do horário de entrada dos alunos e esperou até que Anne aparecesse, então, chamou-a para irem juntas a uma lanchonete próxima, fora do colégio. Anne não costumava cabular aulas, mas conversar com Luana, após tanto tempo, pareceu-lhe um bom motivo. Ambas sentiam-se tímidas, mas podia-se perceber que se desejavam mais do que qualquer coisa. Havia uma química forte no ar. Luana havia transado com Rodolfo dias após aquele episódio no colégio, mas sua primeira noite havia sido um fracasso. Depois da primeira, houve outras, melhores, muito melhores, isso fazia Luana ter certeza de que não era lésbica. Mas, como explicar o desejo que nascia de ir para a cama com Anne? Seria então bissexual? Estaria condenada a uma existência dupla, pulando sempre dos braços de um homem para os braços de uma mulher? Ou esse desejo seria apenas uma fase, uma curiosidade?
Luana, mais desinibida, foi logo ao ponto:
-Anne, te esperei no colégio hoje, porque decidi que quero dormir com você.
-Eu sabia que um dia, ficaríamos juntas. Sabia que um dia, você me amaria como eu te amo.
-Quem falou em amor? Quero apenas dormir com você, uma noite. Se me agradar, dormiremos outras vezes. Sem compromissos,eu e Rodolfo estamos namorando,fazemos sexo. Apesar disso, tenho vontade de ir para a cama com você. Apenas para ver como é com outra garota.
Anne não agüentou ouvir mais nada, levantou-se, deixando Luana sozinha na lanchonete. Não queria ir ao colégio, mas não poderia voltar para casa. Andou a esmo pela cidade, até o horário em que deveria “sair da escola e ir para casa”
Já no conforto de seu quarto, pensa na proposta de Luana. Apesar de humilhante, era tentadora. Teria sua primeira vez com seu grande amor. E, talvez outras vezes mais. Doía pensar que não seria amor da parte de ambas, mas, o que teria a perder? O toque do celular veio tirá-la de seus pensamentos. Número restrito. Atendeu.
-Então, Anne, já pensou melhor em minha proposta?
-Estava pensando nisso agora, Luana.
-Então?
-Proposta tentadora, mas quero que minha primeira vez seja com alguém que corresponda ao meu amor, entende?
-Bom. Se faz assim tanta questão. Sinto muito. Terei que procurar outra. Acho até que será melhor. Encontrarei alguém mais experiente, que saiba me levar ao céu… Ver estrelas…
Luana provocava Anne descaradamente.
-Meus pais sairão amanhã para trabalhar, às 14h30min, como sempre. Passarei a tarde toda sozinha. Se for sexo que quer, será isso que terá Luana.
-Perfeito.
Anne passou o resto do dia na internet, vendo sites pornográficos e lendo textos eróticos, podia ser sua primeira vez, mas seria perfeita. Luana queria sexo?Era exatamente isso que teria. Correu ao shopping, precisava comprar algumas coisas, para o dia seguinte.

O porteiro havia interfonado, Luana estava subindo. Anne deixou a porta entreaberta. Luana foi entrando. Havia um bilhete sobre a mesa de centro da sala:
“Luana, feche a porta, e venha direto para o meu quarto. Estou te esperando.”
A porta do quarto também estava entreaberta. A cama trazia um lençol de cetim vermelho. Aparentemente, o aposento estava deserto. Luana sentou-se na cama. Nesse momento, uma música começa a tocar. Música eletrônica, perfeito para um encontro quente e nada romântico. A porta do guarda-roupa se abre, Anne salta para o meio do quarto, vestia um espartilho, cinta-liga, meias transparentes que iam quase à altura do meio das coxas e bota de cano alto e salto fino, todas as peças eram negras e transparentes. Empurra Luana na cama, e começa a dançar, provocando-a, mas sem deixar-se tocar, puxa-a da cama, jogando-a no chão, com os pés, faz com que se deite sobre o tapete. Dança por cima dela, agacha-se, esfregando-se em seu corpo, usa um par de algemas para atá-la ao pé da cama, e com um chicote, vai percorrendo-lhe o corpo. Começa então a acariciá-la com a língua, sem beijá-la. Apenas passeando, descobrindo onde causa prazer mais intensamente. Quando a sente extremamente excitada, faz com que se levante e suba na cama. Amarra-a novamente, e, no ritmo da música, começa a fazer um strip-tease. Vai para a cama e sem desamarrá-la a possui. Luana pede que Anne a deixe desvirginá-la, mas Anne nega. Isso, apenas alguém que a ame poderá fazer. Anne não se deixa possuir nenhuma vez, ela domina durante todo o tempo. Usa uma venda nos olhos de Luana, esta, deve dar-lhe prazer, com as mãos amarradas, usando apenas a boca.

Luana sai de lá exausta. Pede para marcarem outro dia. Doce ilusão, Anne e Luana nunca mais iriam se ver, não dessa forma. A decepção de Anne fora tão grande ao ouvir aquela proposta de sexo casual, que ela havia planejado uma tarde que marcasse para sempre a vida de Luana, mas seria apenas uma tarde. Apenas para deixar-lhe o desejo desperto,à flor da pele.
As férias chegaram, Anne e as amigas viajam.
Em São Paulo, Marjorie encontrou sua casa praticamente igual ao que era, quando ela se mudou. Seus pais estavam envelhecidos. Não queriam recebê-la, mas a saudade da única filha foi maior. Seu quarto… Tudo estava no mesmo lugar… Marjorie contou-lhes que tinha uma filha, uma linda menina de quatorze anos… Não havia trazido-a junto, pois não sabia como seria estar em casa outra vez, mas prometeu que na próxima visita, ela viria… Sempre quisera conhecer os avós.

Valeska telefonava todos os dias, aos poucos, ia fazendo-se presente em sua vida novamente… E, Christopher,ia pouco a pouco se afastando,deixando o caminho livre… Sabia que havia sido o homem mais feliz ao lado de Marjorie, mas sabia que, apenas ao lado de Valeska, esta poderia encontrar a paz de um Amor verdadeiro e correspondido. Ele havia prometido a si mesmo que a faria feliz, e, agora isso significava entregá-la novamente ao seu grande Amor.
Em Setembro, Christopher e Marjorie separaram-se, não sem lágrimas, mas com respeito, com o amor de uma amizade verdadeira… Como dois irmãos adultos e solteiros que moram juntos, e, após uma vida toda em comum, decidem seguir seus próprios caminhos… Apenas lágrimas de saudade, a sensação estranha de chegar ao lar e não encontrar o outro.
Marjorie alugou um apartamento de dois quartos no prédio ao lado. Anne teria a liberdade de permanecer o tempo que quisesse com um ou com outro. Não foi difícil para ela a separação dos pais… Tantas amigas haviam passado por isso… Por que seria uma exceção?
Marjorie e Valeska decidiram permanecer mais um tempo apenas namorando,sem que Anne soubesse,iriam devagar.
Em Outubro, Marjorie descobre que está novamente grávida. Christopher fica feliz ao saber que será pai novamente, para Valeska e Marjorie, essa é a oportunidade de terem juntas o bebê que tanto haviam planejado. Apesar da idade, a gravidez de Marjorie foi tranqüila. Em 25 de Julho, nasce uma menina, a quem chamam Victoria.
Anne decide viver com Christopher, para não ter que dividir o quarto com a nova irmã. Mas isso não a impede de passar o dia todo na casa de sua mãe, quer apenas sua privacidade, para receber garotas em seu quarto, o que seria impossível dormindo no mesmo quarto que Victória.

Desde o início da gravidez de Marjorie, Valeska praticamente havia se mudado para lá, queria acompanhá-la, estar por perto. Anne aos poucos notava isso. Não comentava nada com a mãe, ou com Valeska, apenas observava.
Havia conhecido uma garota e estava namorando. Decidiu apresentá-la aos pais, em um jantar formal, à luz de velas, que preparou na casa de Marjorie. Todos gostaram muito de Liane, que apesar do visual de roqueira rebelde, era uma menina gentil e sensível.
Após o jantar, levaram-na para casa. Marjorie e Valeska decidiram então contar a verdade sobre elas, tudo, desde o início. Já não agüentavam mais dormirem separadas todas as vezes que Anne decidia passar a noite na casa da mãe.
Ficaram surpresas quando Anne disse que, desde o divórcio, sabia que havia entre elas algo mais do que uma simples amizade. Não imaginava que a história fosse assim, tão longa. Mas, estava feliz, por ter agora duas mães: Marjorie e Valeska.
Ao final de tantos anos, agora podiam todos considerar-se uma família feliz. Muitas vezes, Melissa e Gabi, Marjorie e Valeska encontravam-se para levar seus filhos à praia. Diana ficou surpresa ao reencontrar Melissa, após saber toda a história de Marjorie, e, constatar que haviam sido amigas durante algum tempo e, Marjorie nunca as havia encontrado.
Três anos após a separação, Christopher conheceu Sofia, nova vendedora de cartelas do Bingo Sete Mares. Tal como aconteceu com Marjorie, amou-a logo que a viu. Sofia tinha o coração livre, até conhecê-lo. Em seis meses estavam casados.Anne agora tinha três mães.
Luana e Rodolfo continuam namorando, mas às vezes… Bom, Rodolfo ganha alguns enfeites dos quais não pode se orgulhar muito, pois Luana o trai com sua prima, Luciana.
Fim da história?
Não… A vida continua… Vidas que geram novas vidas, novos sentimentos… O amor atravessa o tempo… Esse ciclo está se fechando, de maneira feliz, para que outro se inicie… Nenhuma estória de amor tem um final definitivo… Mesmo após a morte, a vida sempre continua, e o sentimento permanece, para sempre….

Caderno de notas de Valeska
 
(Carta escrita quando nos reencontramos… essa, eu vou te entregar… juntamente com uma única rosa vermelha… será a primeira, de muitas e muitas cartas e poemas, que farei para vê-la sorrir… para que saiba que sempre a amei, e sempre a amarei…)
 
“Hoje, olhava tuas fotos, para matar as saudades…
Tantas coisas passavam-se em minha mente…
Nossos momentos… Suas carícias… Juras de Amor…
Queria ser poeta para brincando com as palavras poder dizer tudo que sinto por você…
Mas simples palavras não seriam capazes de descrever o Amor, por que nosso amor é indescritível… Ele é simplesmente Amor… está além das palavras…
Talvez um dia, as fadas estivessem muito felizes… Inspiradas resolveram criar a pessoa mais doce do universo… Juntaram o brilho das estrelas, a doçura do mel, a suavidade de uma brisa num dia de verão, a delicadeza das rosas, a alegria dos pássaros e a Magia do Amor… Com tudo isso criaram… Você!
Os anos foram se passando… Até que um dia, elas te colocaram na minha vida, para despertar em mim esse maravilhoso dom de Amar incondicionalmente… e assim aconteceu.
Ficamos distantes durante algum tempo, talvez ainda tivéssemos barreiras a ultrapassar, obstáculos a superar, lições para aprender…
Até que numa tarde,quando menos esperávamos,nos reencontramos, marcando também o início de uma nova vida em nossos corações que tanto tempo esperavam um pelo outro…
Agradeço a cada dia aos Deuses e aos seus Pequeninos Seres Invisíveis por terem te colocado na minha vida…
Gostaria de estar em seus braços agora… Enchendo-te de carinho, de beijos…
A cada momento do dia, sinto sua energia, sinto a Energia do nosso Amor ligando nossos corações…
Muitos beijos,
Com Amor e muitas saudades…
Amo-Te!

Fim… Ou,um novo recomeço…

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Capítulo 20

Marjorie e Christopher eram felizes, apesar de seu casamento não ser baseado no Amor romântico e sim na amizade, no carinho, no respeito mútuo e na necessidade natural do ser humano de ter companhia e afeto.
Anne Camille já estava com 14 anos. Era uma jovem especial. Ao mesmo tempo sedutora e delicada, com seu jeitinho de garota pura e seu olhar de mulher. Era uma das únicas garotas de sua sala que ainda não havia beijado ninguém, não por falta de oportunidades, mas por falta de vontade… Apenas uma pessoa prendia-lhe a atenção: Luana.
O início da oitava série trouxe uma surpresa boa para Anne, o retorno de Valeska.
Luana e Anne eram amigas inseparáveis, haviam estudado juntas desde a infância, iam juntas para todos os lugares, dormiam uma na casa da outra. Luana era filha de um dos gerentes do Bingo Sete Mares, suas famílias eram muito amigas.
Suas personalidades eram opostas. Enquanto Anne era doce, delicada, Luana dizia tudo o que queria dizer sem rodeios, não se importava com o que as pessoas pensariam a seu respeito. Era tão paquerada quanto Anne, e, em boa parte das vezes aceitava “ficar” com os meninos, apesar de ser muito seletiva e escolher apenas os mais belos, aqueles que todas as outras meninas desejavam.
Anne sentia uma grande paixão por Luana. Morria de ciúmes ao vê-la sempre cercada de rapazes. Talvez, esse amor fosse o único segredo existente na amizade de Anne e Luana.
Um dia, Luana chegou ao colégio especialmente feliz. Naquele dia, iria encontrar-se com Rodolfo, que estudava no 3° ano do ensino médio; após as aulas, iriam para a casa dele, aproveitar que seus pais não iriam para lá durante todo o dia. Passariam a tarde toda juntos e sozinhos e, provavelmente, Luana poderia provar sua primeira noite de amor. Isso deixou Anne triste e mais agitada do que o habitual. Ela sabia que amava Luana, mas não entendia, não era certo amar uma garota. O normal é que meninos amem meninas e meninas amem meninos. Nunca havia conversado sobre isso com ninguém, e, pela primeira vez sentia necessidade de falar, se abrir. Era hora do intervalo, e ela foi procurar Valeska, para conversarem.
Contou a ela tudo o que estava se passando em sua vida, em seu coração, que, pela primeira vez despertava. Mas, dessa vez, Valeska não poderia ajudar.. O que ela poderia dizer àquela criança? Incentivá-la a lutar por seu amor não seria antiético?Afinal, estavam dentro de um colégio e Valeska era professora. Seu coração ficou apertado quando pediu que Anne procurasse outras pessoas, talvez seus pais, ou um psicólogo para ajudá-la. O intervalo acabou e todos voltaram às suas salas.
Luana estava cada vez mais ansiosa, seu grande momento estava chegando. Anne estava decidida a não deixá-la se entregar. Não sem antes saber sobre seu amor. A penúltima aula era Educação Artística, realizada em duplas. Luana e Anne sentaram-se juntas, como sempre.
-Luana…
-Que foi Anne?
-ah… Não, nada…
-Agora fala. Que aconteceu?Você hoje está tão estranha…
-Estou apaixonada…
-Sério?Até que enfim, hein?
-Mas acho que não sou correspondida.
-Ah… Que pena… Mas você acha ou tem certeza que não é correspondida?
-Tenho certeza…
-Por quê?
-Por que meu amor vai ficar com outra pessoa hoje.
-Ele estuda aqui?
-Sim…
-E vão ficar que horas?Na saída?
-Sim.
-Então, impeça !Lute por ele.
-Acha que eu devo realmente fazer isso?
-Lógico.
-Mas como?Como você faria para evitar?
-Na hora em que ele estiver saindo, corra atrás, diga que precisa falar com ele, olhe em seus olhos e diga que o ama… Depois, roube um beijo!
-Luana… Eu não sei beijar…
-Isso eu não vou poder te ensinar… Mas tenho certeza que você vai conseguir aprender!Quantos anos ele tem?
-14.
-Então, ele também não deve beijar tão bem assim… Vai fundo!

Após a aula de Educação Artística, veio uma aula de História. Anne não conseguia se concentrar… Pensava na hora da saída, como seria? Ainda faltava tempo para o final da aula, mas o material de Luana e Anne já estava todo guardado, Luana porque queria encontrar Rodolfo logo, Anne por que queria fazer o que Luana lhe disse.
Mal o sinal tocou, elas saíram correndo da sala. Misturaram-se à multidão de alunos que iam saindo… Ainda estavam no corredor, dentro do pátio, quando Luana e Rodolfo se encontraram. Anne se colocou entre eles, segurou as mãos de Luana e, olhando em seus olhos:
-Luana, eu nunca pensei que fosse ter coragem de fazer isso… Mas, eu te Amo… Não posso deixar que você fique com ele sem antes saber disso.
-Anne!Isso só pode ser alguma brincadeira, e de muito mau gosto!
-Não Luana… Eu te amo… Estou seguindo seu conselho, você falou para eu correr atrás do meu grande amor… Aqui estou eu (ajoelha-se e segura as duas mãos de Luana), pedindo que você fique comigo. Luana, chocada, tenta libertar-se das mãos de Anne, que, sem pensar em mais nada, levanta-se e a beija.
Alguns alunos que estavam ao redor haviam parado para observar a cena. Logo, vários as observavam. Rodolfo, indignado com o que via, saiu e deixou Luana ali, entregue àquela situação no mínimo estranha.
A inspetora de alunos chegou bem na hora em que Anne havia agarrado Luana e a beijado. Após o susto que levou ao vê-las aos beijos, leva-as até a diretoria.

Marjorie atende um telefonema. Deve comparecer com urgência ao colégio da filha. Preocupada, pede para sair mais cedo do trabalho e vai averiguar o que aconteceu… No caminho, vai pensando em como tem sido ausente nos últimos anos… Faz tanto tempo que não vai ao colégio saber como a filha tem se saído nas aulas. Sempre é Christopher que resolve tudo. ela não sabe nada,absolutamente nada da vida de sua própria filha,uma menina de 14 anos.
Na sala da diretora, o clima é tenso. Luana, nervosa, chora. Anne também está aos prantos. Tatiana, mãe de Luana, e Marjorie chegam praticamente juntas. Dentro da sala, estão Anne, Luana, a diretora e a inspetora. Após saberem o que aconteceu as mães de ambas ficam muito nervosas. Luana jura que nunca mais irá falar com Anne, diz que a odeia e que tem nojo dela. Isso deixa sua mãe mais aliviada. A diretora sugere que Marjorie leve sua filha a um psicólogo quem sabe assim não resolvem esse pequeno desvio de comportamento. Marjorie sente-se pessoalmente ofendida pelas palavras da diretora. O que há demais se a filha é homossexual? Ela tem o direito de escolher, de ser feliz. Então, se ela tivesse beijado um garoto dentro do colégio, não seria repreendida, mesmo que ele não quisesse ser beijado por ela, mas, por se tratar de uma menina, está sendo suspensa por três dias? Não era justo. Marjorie não podia reverter a suspensão de Anne, mas jamais deixaria de apoiá-la em suas escolhas. A diretora aproveita para lembrar-lhe o fato de ela nunca ir ao colégio, nem conhecer a maioria dos professores de Anne. Então é assim, distante que pretende apoiar a filha em alguma coisa?
No caminho de volta, Anne e Marjorie foram conversando. Fazia tanto tempo que não tinham um momento para conversarem. Marjorie nem sabia que aquele beijo roubado havia sido o primeiro de sua filha.
Anne não esperava tanto de Marjorie, mas ficou feliz. Christopher, apesar de ficar um tanto chocado com esse amor de Anne por Luana, também garantiu a ela que a amava do mesmo jeito, e que não havia nada errado em amar alguém do mesmo sexo. Porém, ressaltou, não é correto beijar essa pessoa dentro do colégio, principalmente sabendo que ela gosta de outra pessoa.
Os três dias de suspensão passaram-se rapidamente.
Valeska sentiu-se um pouco culpada pelo que havia ocorrido. Deveria ter tentado conversar com Anne, ao menos distraí-la.
Tatiana mudou Luana de período, e, no final do ano a mudaria de colégio, caso Anne fosse fazer o primeiro ano do ensino médio de manhã.
Os pais de Luana aconselharam Christopher e Marjorie a tentarem “cuidar” da filha deles. Muito preconceituosos, não acreditavam que duas mulheres juntas pudessem ser felizes, formar uma família. Isso acabou gerando um atrito entre as duas famílias, mas como tinham bom-senso, não deixaram que esse problema pessoal interferisse em suas vidas profissionais.
Foi muito difícil para Anne acostumar-se à ausência de Luana, mais difícil ainda foi acostumar-se ao ódio que a amiga passou a ter por ela. A maioria dos colegas a olhava desconfiados, como se fosse completamente anormal,deixou de ser uma das meninas mais populares do colégio, de estar sempre cercada de amigos. Mas, pensando bem, não sentia mesmo tanta falta deles. Até gostava de estar sozinha, na maioria do tempo.

Desta vez, nada impediu Marjorie de ir pessoalmente até o colégio no dia da reunião de pais e professores. Apesar da maioria dos professores acharem errado o apoio que os pais davam a Anne no tocante à sua opção sexual, não houve críticas quanto a esse fato, tampouco houve reclamações em relação ao comportamento ou desempenho de Anne nas aulas, ela ainda era uma das melhores alunas daquele colégio. Cada professor entrava na sala, apresentava seus comentários sobre o desempenho dos alunos, respondia as perguntas dos pais e retirava-se, dando lugar ao próximo. Faltava apenas Valeska, que seria a última das professoras da 8°série “A” a apresentar aos pais o desempenho dos alunos em sua matéria.
Valeska entrou na sala, percorreu o olhar pelo rosto de cada um dos pais de alunos, estranhou não ver Christopher na sala. Foi quando seus olhos cruzaram-se com os de Marjorie. Imediatamente, ambas se reconheceram. Valeska, muito nervosa, apresentou os resultados que deveria apresentar os comentários, as dúvidas dos pais. Após o término da reunião, pediu para ter uma palavra a sós com Marjorie.

Caderno de notas de Valeska:

 

(carta à Marjorie)

Minha amada,

Sei que mil páginas não conseguiriam expressar um amor como o que sinto por você, tão grande que já não cabe em minha alma e transborda pelos meus gestos, palavras e pelo meu olhar… mesmo sabendo que palavras não são suficientes,resolvi escrever essas linhas para você saber que eu te amo.
 Encontrar-te e me apaixonar por você foram os momentos mais mágicos da minha vida, pois desde a primeira vez que eu te vi o doce fulgor dos olhos teus foi despertando em mim o Amor: forte, doce, sublime, arrebatador, repentino e duradouro, que traz ao mesmo tempo a alegria e a dor.
 Não posso comparar esse amor que nasceu em meu peito ao Sol que nasce no horizonte, pois o Sol nasce,nos aquece,ilumina e depois vai embora, para voltar no dia seguinte, o amor não, ele nasce e fica para sempre ardendo em nossa alma, sem nos deixar um instante; poderia talvez comparar o amor à uma rosa que brota no coração: Bela, fresca, perfumada, colorida e cheia de espinhos que machucam e faz sofrer, e cujo único remédio é o teu carinho. Mas,não,não posso comparar o Amor que sinto por você a nada,pois esse sentimento é tudo em minha vida,é a aurora dos meus dias onde os raios de Sol são teus olhos e o ar que respiro é o teu perfume.meu coração chama teu nome,cada pulsação é um sussurro,chamando por você….
Gostaria de tê-la ao meu lado, ao menos, poder saber se neste momento você está pensando em mim, como eu penso em você a cada segundo.
O tempo é inimigo dos que amam cada hora a teu lado passada, me parece um breve momento, e cada instante distante de você me parece um milênio.
Às vezes, choro de saudades, lágrimas molham meu rosto, meu olhar… Lágrimas que mostram o sabor de amá-la e não tê-la perto de mim como eu desejo ter… São noites em claro, sem dormir… Já não diferencio os dias e as noites… Meus dias sem você são escuros como noites sem luar… Quando durmo, você é a rainha que domina meus sonhos, meus sentidos e me leva além deste mundo frio e triste…
Ah, como eu quero ao menos poder ouvir tua voz, espero o telefone tocar…
Acordada, sonho com a possibilidade de, andando por aí, encontrá-la, mesmo sabendo que estás tão longe… Mesmo assim, sonho… Imagino que estou andando na rua, e vejo você… Mesmo que rapidamente, mesmo que apenas para num rápido cumprimento, tocar tuas mãos macias como veludo e suaves como a leve brisa noturna no Verão.
Fecho os olhos tentando sentir o sabor dos teus beijos que eu ainda não tive a honra e a alegria de provar, mas sei que terão aos meus lábios a doçura que o néctar tem aos Deuses.
Poderia escrever tanto… mil palavras,mil páginas,mil cartas de amor,escritas com o sangue de meu coração solitário,e,ainda assim,não expressaria mais do que estas três palavras:
Eu te Amo.
Deixo aqui um pedido: A cada momento de sua vida, lembre-se que há alguém que te ama infinita e incondicionalmente e deseja muito estar ao teu lado, alguém que apenas aguarda uma chance de invadir teu coração e lhe dar todo o Amor do Universo.
Beijos, abraços e carinhos,
De uma amiga que a ama, que, mesmo sem você saber, está aqui, entregando-lhe para sempre o espírito e o coração, deixando-os a teus pés…
Por favor, não os abandone em qualquer canto… eles precisam apenas estar a teu lado,para serem felizes,pois foram criados pelas Forças do Universo para estarem ao teu lado,para sempre….
“Amo-Te”

Capítulo 19

O dia estava muito quente, por isso a sorveteria La Bamba estava lotada.  Melissa deixou-se ficar na calçada, esperando Gabi, para irem a algum outro lugar, mais sossegado. Viu-a chegar. Havia parado o carro no outro lado da pista. Estava muito diferente da Gabi que havia conhecido alguns anos antes, mas nem por isso deixava de fazer seu coração bater mais forte.
Gabi passou ao lado de Melissa e nem a notou, entrou na sorveteria. Melissa entrou logo em seguida, viu-a em pé, olhando para todos os lados, tentando descobrir entre tanta gente quem poderia ter mandado aquele bilhete.
-Gabi…
Gabi fica paralisada. Não pode ser. Tantas pessoas poderiam tê-la encontrado… Isso só poderia ser uma brincadeira do destino. Justamente Melissa.
-Então Gabi. Tantos anos se passaram. Você não vai me dizer nada?
-Melissa?
Melissa não resiste e segura também à outra mão de Gabi, esquecendo-se de que está em um local público e lotado.
-Meu amor… Finalmente eu a reencontrei.
-Amor?Não Melissa, você nunca foi capaz de amar, sempre disse que o amor era ilusão, perda de tempo.
-Gabi… Eu dizia isso até ir morar em São Paulo,até ficar distante de você…até te perder,e,só quando a perdi,soube o valor que há em um amor verdadeiro.
-Você me perdeu, Melissa, você me machucou muito, desdenhou o amor mais puro… Agora, não adianta voltar atrás, pedir outra chance… Esse corpo que você olha pode pertencer a qualquer pessoa, exceto a você.
Gabi estava em prantos. Várias pessoas voltavam-se para observá-las..
-Gabi, por favor, se acalma… Vamos conversar vamos nos dar uma nova chance, começar de onde paramos.
-Nunca.
-Você não me ama mais?
Lágrimas…
-Não, Melissa, eu não te amo mais.
Sem pensar, Melissa agarra Gabi e a beija, um beijo quente, cheio de desejo e saudade. Gabi não resiste e entrega seu coração a esse beijo, ao menos por alguns segundos. Em seguida, empurra Melissa, lhe dando um tapa na face, as pessoas ao redor ficam chocadas com a cena. Gabi, entre lágrimas, sai correndo, não espera o farol e tenta atravessar a Avenida, um carro em alta velocidade vem em sua direção, Melissa, que saíra correndo atrás dela nem pensa, apenas a empurra, jogando-a longe e sendo atropelada em seu lugar.
O motorista foge, sem prestar socorro…
Várias pessoas correm para ver o que aconteceu, Melissa está desacordada. Por alguns instantes, recupera a consciência e consegue dizer apenas: “Gabi…o que sinto por você é para sempre. Se acontecer alguma coisa ruim comigo…estarei sempre com você”, então,desmaia novamente.
Na sala de espera do pronto socorro, Gabi chora. Melissa arriscara sua vida para lhe salvar, e, talvez, aquela declaração de amor tenha sido suas últimas palavras. Seu estado é muito grave, precisou ser operada às pressas, apresentou hemorragia interna e também traumatismo craniano, além de uma fratura na perna.
A equipe médica havia entregado a ela os pertences de Melissa. Havia passado pelo menos 4 horas, e, nenhuma notícia. Só então Gabi decide procurar no celular de Melissa um telefone qualquer, para o qual possa ligar. Encontra o telefone de Diana. Após duas ou três tentativas, Diana atende. Fica muito chateada ao saber do acidente, mas não pode lhe fornecer nenhuma informação sobre como encontrar a família de Melissa, nem amigos. Faz pelo menos dois anos que elas não se vêem, e, nas poucas vezes que se encontraram, não fizeram amigos comuns ou falaram de suas famílias.
Gabi encontra o telefone de Valeska. Liga. Valeska está em casa, assistindo um filme. Não tem vontade de atender ao telefone, mas após tantas ligações seguidas, acaba atendendo. Ao saber da notícia, vai imediatamente ao pronto socorro.
Faz o possível para acalmar Gabi. O médico entra na sala de espera, diz que, só após 24 horas poderá dizer se Melissa corre ou não algum risco, até então, sua situação é instável e não há prognóstico possível.
Foram as piores 24 horas na vida de Gabi, que se sente culpada pelo que aconteceu. Seu orgulho e seu medo de sofrer a impediram de aceitar Melissa de volta em sua vida, e, agora,tudo o que mais queria ,era saber que Melissa ficaria bem, viveria. Talvez, se ela não tivesse sido tão dura, elas estariam agora juntas, aproveitando todo o tempo que perderam.
Valeska decide não avisar nada à família de Melissa, seus pais já tem uma idade um pouco avançada, não era justo preocupá-los. Passam-se semanas, Melissa está em coma induzido, é transferida para um quarto particular, onde pode receber as visitas de Valeska e Gabi, que se identificam como as únicas pessoas que a conhecem.

Chega o dia da reunião, Valeska, sempre organizada, não havia terminado os relatórios sobre seus alunos… Passa a noite em claro.
Está nervosa. Algo lhe diz que encontrará sua amada nessa reunião.
As mães de todas as crianças estão presentes, exceto a mãe de Anne Camille, que não pôde comparecer, devido ao trabalho, por isso, pediu que o marido fosse à reunião em seu lugar. A cada bimestre era convocada uma reunião, e, desde o início do ano letivo,a mãe de Anne Camille não havia comparecido à escola.
Christopher, apesar de saber toda a história de Valeska e Marjorie, nem percebe que, a professora de sua filha é o grande amor de sua esposa. Acha,assim como Marjorie, que o nome é apenas uma simples coincidência.

Dois meses após o acidente, Melissa recebe alta do hospital, mas não deve voltar a trabalhar, tendo que ficar em repouso e fazer fisioterapia. Gabi a leva para sua casa, para poder cuidar dela como é necessário.
Estão em Setembro, no colégio, há outra reunião. Novamente, Marjorie não pôde ir conhecer a professora favorita de Anne.

Anne tem uma personalidade ao mesmo tempo dócil e agitada. Faz amizades muito facilmente, mas cansa-se delas mais facilmente ainda… Uma das poucas pessoas que conseguem prender sua atenção é Valeska.
Em Novembro comemoram o aniversário do colégio, os alunos fazem pequenas apresentações de teatro,dança,recitam poemas, todos participam de uma maneira ou de outra. Como não podia deixar de acontecer, Anne e suas amigas apresentam uma pequena coreografia, onde, como sempre, ela se destacava mais do que todas as suas colegas, haviam pedido que fosse deixado no palco um vaso, com uma rosa vermelha. A música tem um ritmo forte, que a faz dançar com a rapidez e a leveza de quem a qualquer momento levantará os pés do chão e irá dançar nas nuvens. Sua roupa azul-celeste destaca a pele ligeiramente morena e os traços orientais delicados. Quase no final da música, abaixa-se suavemente e pega a rosa do vaso. Dançando,desce do palco,mistura-se à multidão e entrega a rosa à Luana,sua melhor amiga.Volta para o palco,termina a coreografia e recebe merecidos aplausos.
Como sempre, Marjorie não compareceu à festa, Diana não pôde assistir, pois se mudou para São Paulo e Christopher desta vez também não pôde prestigiar a filha.
Valeska tira muitas fotos de Anne, fica imaginando, se fosse sua filha, e de Marjorie, sempre teriam tempo de ir juntas aplaudi-la. Sente que Anne é mais solitária do que deveria ser. Apesar de estar sempre cercada de amigos, não tem a inocência da idade, a confiança que as meninas têm umas nas outras. Conversa apenas o necessário, e somente quando está com vontade de fazê-lo.

Em Dezembro, Melissa já está recuperada, mas decide retornar ao trabalho apenas após as férias. Ela e Gabi estão, aos poucos, recuperando os anos que perderam. Decidem casar-se, Melissa consegue se transferir para a comarca de São Vicente, onde passam a morar juntas.
Enfim, um final feliz?
Não, o amor não tem início nem final. O amor é um círculo infinito. Em cada final, um início, em cada início, um final. O amor atravessa todas as distâncias, vai além de todas as vidas, todo o tempo e o espaço. Quantas vidas Melissa e Gabi não viveram juntas antes? Desde que seus olhos se cruzaram pela primeira vez, suas almas sabiam que se pertenciam, por toda a eternidade. viveram, morreram,atravessaram séculos,novamente se cruzaram. Novamente,a vida colocou-lhes obstáculos. Viveram juntas? Morreram de amor? Quem sabe? Apenas, pode-se saber que, amaram-se. Quantas vezes repetiu-se esse ciclo, até renascerem Melissa e Gabi? Quantos anos até se reencontrarem nessa vida? Até Melissa perceber finalmente que amava Gabi? Quanto sofrimento? Lágrimas. Não, esse não é simplesmente o final feliz da história de Melissa e Gabi, é apenas o triunfo do amor, não é o final de uma história e sim o início de outra. O início de uma vida feliz que um dia, novamente terminará,e,no futuro,recomeçará. Elas não serão mais Melissa e Gabi. Terão outros nomes, outras personalidades… Talvez renasçam em outro país, com certeza em outra época… Mas serão sempre duas almas que se amam… Repetirão eternamente esse ciclo de amor.
Valeska acompanha a felicidade da amiga… Muitas vezes, imagina um reencontro com Marjorie… Será que ainda está casada?Ama o marido?Tem filhos?Muitas vezes elas planejaram ter um bebê. Marjorie sempre dizia que iria colocá-lo em aulas de Karatê. Mesmo que fosse uma menina. Valeska, apaixonada pelo Balé, dizia que, mesmo se tivessem um garoto, ele iria freqüentar as aulas de dança. Planejaram tanto… E para quê?
Valeska cedeu a casa na fazenda para que Melissa e Gabi pudessem ter uma lua de mel. Melissa ainda estava fazendo fisioterapia uma vez a cada quinze dias, mas seus movimentos já estavam quase normais. Seus pais ficaram chocados ao vê-la com Gabi, achavam que, após tantos anos, esse amor já não existisse mais, e, agora, não havia nada que pudessem fazer para separá-las.
Valeska passou uma noite de ano-novo solitária, mas, todos os últimos anos haviam sido assim, mesmo cercada por seus amigos, aquela saudade, aquela dor, insistiam em machucá-la, maltratá-la.

No dia 1° de janeiro, Anne Camille completou doze primaveras. Tentou ligar para Valeska, convidando-a para sua festa, mas infelizmente, o celular da professora estava sempre fora de área.

Caderno de notas da Valeska

 

“Cores do tempo”

“Olho para trás e posso ver as cores do tempo que se passou…

O verde broto da infância…

Delicado, inocente e cheio de esperanças…

As alegres cores do florescer da juventude…

Sensuais, nem por isso menos doces…

Atraentes aventuras,

Profundas emoções…

Agora, vivo o outono,

Cores pálidas…

De tudo o que senti,

Os sentimentos intensos da juventude vão aos poucos caindo ao chão,

Como folhas secas ao vento…

Mas, o Amor que sinto por você sobrevive…

Agarrado em minha alma como o broto agarra-se a um ramo em dia de vendaval…

Passam-se os anos,

E o Amor continua a ser um broto verde que trás esperança ao coração…

Uma flor que enfeita a vida…

Ilumina e a cada dia, me mostra o verdadeiro motivo de estar aqui,

De recomeçar,

Renascer juntamente com o Sol…

Renascer com o luar…

Muitos anos ainda se passaram

Até que eu atinja o inverno da vida,

E, mesmo assim,

Quando as cores obscuras do inverno dominarem meu espírito,

E,

Todas as folhas já estiverem caídas ao chão,

Mesmo assim,

O Amor permanecerá em meu coração,

Flor que desabrocha e nunca seca

Seus brotos ainda serão verdejantes…

Fortes,

Invencíveis e imortais brotos de Amor

Cheios de esperanças… colorindo minha vida,

Flor que desabrocha e nunca seca

E dá forças e alegria ao meu coração,

Coração que ainda estará esperando por você…”

Valeska foi transferida para São Paulo. Voltou a morar com a família. Era estranho estar de volta. Foi difícil acostumar-se novamente à sua casa, sua cidade.Anne ficou muito triste com a partida de sua professora predileta, tudo foi tão repentino que nem houve tempo de pedir-lhe o novo telefone ou o e-mail.

Muitas vezes, Valeska passava os finais de semana em São Vicente, com Melissa e Gabi, em alguns feriados ia para a fazenda…O tempo foi passando…

Dois anos após se casarem, Melissa e Gabi adotaram uma menina, agora eram uma família completa. Valeska tentava, mas não conseguia tirar de seu coração a imagem de Marjorie, por isso, ainda estava sozinha.

Capítulo 18

O Colégio Prazer de Aprender era um prédio enorme, localizava-se na Avenida Conselheiro Nébias, em Santos. Era ali que Valeska trabalharia daquele dia em diante. O ambiente era divertido, trabalhava com adolescentes, e relembrava sua própria adolescência. Tinha menos de trinta anos, mas era como se fizesse muito tempo mesmo que havia freqüentado um cursinho pré-vestibular. Adaptou-se rapidamente ao novo trabalho. Nos dias de folga, mantinha-se ocupada, passeava na praia, saia à noite para dançar, procurava não permitir que sua vida caísse no tédio Mesmo assim, sentia falta de ter alguém em quem confiasse para conversar. Ligou algumas vezes para Gabi, mas essa a atendeu friamente. Encontraram-se. Jantaram juntas, foram ao cinema. Gabi pediu para dormir no apartamento com Valeska. Durante a noite, tentou fazer sexo com ela. Ainda não havia percebido que apenas Melissa completaria sua vida. Continuava a entregar seu corpo em troca de migalhas de amor, momentos de satisfação. Valeska chamou um táxi, e pediu que Gabi voltasse para sua casa. Foi a última vez que se viram.

            Em dezembro foi à fazenda. Parecia que nada havia mudado. Aquele quarto, com paredes cor-de-rosa. As bonequinhas na estante, sua colcha de retalhos, já velha e desbotada, mas ainda sobre a cama. Essa colcha era do quarto de Valeska em São Paulo, tantas vezes não amara Marjorie sob ela impregnando-a com o odor de seus corpos quentes. Esse odor perdera-se no tempo, assim como sua vida.

Os pais de Valeska pensavam em vender o sítio. Já estavam velhos e Valeska não era mais uma criança que necessitasse de espaço para expandir-se.. Valeska ia segurando-os, observava que ainda passavam as férias no sítio, que pretendia adotar um bebê em breve, essa criança precisaria de espaço para crescer. Com muito esforço, conseguiu convencê-los a manter o imóvel.

            Aos sete anos, Anne Camille iniciava a primeira série. Marjorie decide colocá-la no Colégio Prazer de Aprender Jr., pois teme que o Pequenos Passos, onde havia estudado até então não seja suficientemente preparado para dar a ela as bases que Marjorie deseja.

            O Prazer de Aprender Jr tem suas instalações separadas do cursinho, sendo localizado na Avenida Epitácio Pessoa. Anne Camille logo se acostuma aos novos amigos e professores. Diana vai todos os dias levá-la e buscá-la,pois a escola onde leciona é próxima.

            Valeska, conversando com Melissa pelo MSN, comenta a falta que sente de ter uma amiga por perto. A solidão a maltrata e muitas vezes ela já havia pensado em desistir de tudo e voltar à São Paulo.Melissa decide pedir transferência para Santos, assim podem morar juntas. Envolta em tanta burocracia, só consegue realmente mudar-se de cidade em dezembro. Mesmo assim, ambas sentem-se melhor estando próximas, dividindo novamente o mesmo lar.

            Nas férias de Julho Valeska viaja para a fazenda. Melissa sabe que Gabi após formar-se nunca mais voltou à sua cidade de origem, por isso, não vê motivos que a levem a viajar com Valeska.

            Conhece Diana através de um chat. Ambas amam crianças. Diana está participando de um projeto educacional voluntário, com crianças entre cinco e sete anos. Melissa decide ir até o endereço indicado, apenas para conhecer o projeto. É uma escola simples, na zona noroeste da cidade, local famoso por ser humilde e esquecido. O projeto consiste em, durante as férias incentivar as crianças a freqüentarem a escola… Realizam passeios educativos, brincadeiras que facilitam a alfabetização, contam histórias, assistem filmes… Melissa, que está em período de recesso do fórum, começa a participar do projeto… Passa seus dias entre as crianças. Diana muitas vezes pergunta-lhe coisas pessoais, se é casada, se ama alguém, se namora… Ela sempre descobre uma maneira de desconversar. Foram férias razoavelmente boas para Melissa.

Valeska pôde aproveitar cada instante daquele contato íntimo com a natureza para renovar suas forças.Gostaria de encontrar Marjorie, apenas uma última vez. Apenas olhar nos olhos daquela que, mesmo longe, domina seu coração. Queria constatar por si mesma a felicidade da amada. É difícil imaginá-la feliz nos braços de um homem.

Trecho do Caderno de Notas de Valeska

(PS: Mais um poema novo, falando de um sentimento antigo, sentimento que faz parte da vida desde o início, atravessa séculos, e, enquanto houver um coração batendo, chamando por alguém, existirá.)

“As ondas quebram nos rochedos.

 Violentas e Cruéis,

Mas nem por isso, menos belas.

O Sol forma uma faixa rosada no horizonte.

É a aurora que chega.

Pássaros da manhã começam a voar.

Iniciam-se mais um dia.

Mais um pedacinho de nossas vidas

Passa lentamente.

A saudade chega a ser palpável.

é tão real quanto essa areia que conforta meus pés cansados.

Bate forte, como as ondas naqueles rochedos.

E tal como as ondas vão aos poucos despedaçando as pedras,

A Saudade vai despedaçando meu coração.

As pedras nunca mais voltarão a ser pedras, tornar-se-ão poeira de pedras

Mas eu juntarei os pedacinhos do meu coração,

Juntarei cada grãozinho.

Para restaurá-lo, apenas uma magia servirá.

Olharei em teus olhos,

Sentirei tua energia,

Ouvirei tua voz.

Abraçarei-te com força e paixão.

Com ternura, com amor.

E, então, tudo volta ao normal.

Meu coração já não estará mais partido de saudades,

Pois a magia do amor uniu novamente seus pedacinhos.

E, à beira dos rochedos,

Choraremos a emoção de mais um fim-de-tarde.

Agradeceremos às Forças Invisíveis

Pelo nosso Amor,

Pela força maior que une nossas almas,

Lamentaremos as rochas,

Que,solitárias vão se desfazendo,

Por não amarem e não poderem guardar seus pedacinhos para serem unidos pela força maior do Amor.

Veremos as aves recolherem-se,após mais um dia…

A noite irá cair.

as águas do mar serão Iluminadas pela Lua.

Que brilhando,saldara nosso Amor,

E,mesmo com todo o seu brilho,

Não brilhará mais do que nós.

Passearemos noite a dentro,

Apenas eu,você,

O mar e o luar.

Então,

Desejaremos o abrigo de nossos corpos,

e,vamos também nos recolher ao nosso ninho.”

            O tempo passa, as férias terminam… Valeska se vê novamente envolta em seu mundo, aulas a preparar, alunos amedrontados com a perspectiva do vestibular, alguns indecisos quanto à escolha da futura profissão, alguns rebeldes. Tudo isso a mantém bastante ocupada e distraída.

Melissa e Diana continuam conversando pelo MSN, às vezes, se encontram, pois o projeto no qual atuaram durante as férias continua em funcionamento durante o resto do ano,mas apenas nos finais de semana.

Apesar de conversarem muito, Diana nunca havia contado à Melissa nada sobre sua família, seu pai,sobre Marjorie.

            Anne Camille tinha os traços de Marjorie, rosto oriental, delicado, uma pequena gueixa. Desde criança, demonstrava que,assim como a mãe,seria uma bela mulher. As únicas características que vinham do pai eram uma pele ligeiramente morena e uma altura mediana, crescia depressa,e ao que tudo indicava,seria mais alta que Marjorie.

            Um dia, Valeska precisou ir até a unidade de educação infantil e ensino básico, pois outra professora havia, por engano, levado seu plano de aulas para lá, após uma reunião.

Eram cinco e meia da tarde e as crianças estavam saindo das aulas… Enquanto esperava a professora que fora buscar sua pasta, observava as crianças. Viu num grupinho especialmente animado uma menina que lhe chamou atenção. Seus olhos lembravam muito Marjorie. Devia ser apenas impressão, coisas de sua cabeça. Pegou a pasta e foi embora.

Nesse dia, se houvesse escutado seu coração e permanecido ali por mais alguns minutos, Valeska teria encontrado Marjorie, que fora buscar a filha para inteirar-se de sua situação no colégio.

 

Caderno de notas de Valeska

“Amor.

Caminho da Vida,

Estrada da Alma.

Flor,

Espinho,

Lágrimas,.

Sorrisos,

Dor e prazer,

Encontro e desencontro,

Prosa e poesia,

Música,

Gravura,

Doçura,

Mais que tudo em nossa vida,

Sonho e realidade,

Auge da loucura e da razão,

Fino véu que separa a alegria e o sofrimento,

Amor.

Maltrata o coração,

Mas sem ele,

Não há sentido em viver,

Amor que buscamos,

Procuramos,

Amor que só encontramos uma vez,

Amor que irá nos guiar para sempre,

Com força…

Vencendo mares bravios,

Escalando as cordilheiras,

Saindo de nossos recantos mais profundos,

Até chegar ao cume de nossa alma…

Dominar nosso coração…

Nossa mente,

Nosso corpo…

Mostrando-nos que não há mais sentido em buscá-lo,

Pois nós não o encontramos…

Ele já está escrito,

Ele nos encontra…

Atravessa Mundos, Dimensões,

Atravessa o tempo,

Atravessa o espaço,

Apenas para nos encontrar…

Cumpre tão longa jornada apenas para tocar nosso coração…

Unir-nos em seus laços…

E fazer com que nossas vidas,

Que seguiam estradas separadas, por vezes opostas,

Se encontrem,

E sigam juntas no caminho que lhes foi traçado…

Se completando,

Se fortalecendo…

E,

Acima de tudo…

“Amando”

Quatro anos se passam.

            Anne Camille, com onze anos, irá iniciar a quinta série.

Sua beleza é estonteante. Quem a olha, imagina que já tem quinze primaveras. As aulas de dança fizeram seu corpo bem torneado e rijo. Por onde passa, todos a olham e os rapazes fazem de tudo para agradá-la, mas ela finge não perceber. .Além de tudo isso,também é uma garota muito inteligente,uma das melhores alunas de sua sala.

            Em seu primeiro dia, conhece a nova professora de Literatura, Valeska, que agora, além do cursinho, lecionava também nas salas entre quinta e oitava série do ensino fundamental.

Aquela menina lembrava-lhe alguém. Lembrava-lhe Marjorie… Não havia como ter acesso à ficha pessoal da aluna, sem um bom motivo para isso. Não podia tampouco, pedir-lhe uma redação falando sobre a família, pois redação não fazia parte de suas aulas.

Os dias foram passando… Arrastavam-se… Logo chegaria a primeira reunião… Conheceria então as mães de suas alunas, e, provavelmente, poderia constatar que andara pensando bobagens, deixara-se levar pela esperança de reencontrar Marjorie e havia ligado seu rosto àquela aluna.

            Melissa havia conseguido realizar um de seus objetivos: agora, era Juíza de Direito. Após prestar o concurso, foi nomeada para uma comarca no Interior, deixando Valeska novamente sozinha em Santos, fazia dois anos que sua vida resumia-se a analisar processos e mais processos. Não havia esquecido Gabi, mas não conseguia imaginar como localizá-la. Poderia recorrer a seus contatos, policiais, detetives, mas não se sentiria bem fazendo isso: Seria como espionar a vida da bem-amada.

Seus recessos eram divididos entre alguns dias no interior, com a família, e outros em Santos, com Valeska.

Permanecia solteira.

            Em São Vicente havia um quiosque famoso por sua alegria e animação, chamava-se Quiosque da Cris, era freqüentado pelo público GLS. Nas noites quentes de verão, estava sempre lotado. A paquera acontecia livremente, lugar bem-frequentado, cheio de gente bonita. Melissa e Valeska decidem ir até lá, em uma bela noite de sábado. Era Dezembro e ambas estavam de férias, e, solteiras,pelo menos socialmente, pois fazia anos que,em seus corações,estavam casadas.

Chamaram algumas amigas, pois não queriam passar a noite toda sozinhas. O lugar estava lotado. Não havia mesas e tiveram que aguardar em uma lista de espera.

            Enquanto observavam, puderam notar em uma das mesas um grupinho especialmente animado. Cinco ou seis mulheres, mais ou menos entre 27 e 30 anos. Entre elas, destacava-se uma bela loura, cabelos longos e cacheados. Sua pele é de um moreno claro, suave e aveludado. Veste-se sensualmente, saia curta, sandália de salto alto, blusa mostrando as costas… Usa uma maquiagem leve, porém, como tudo nela, provocante. Seu olhar e seu corpo exalam sensualidade, mas,observando-a podemos notar uma intensa sede de amor.

            Melissa a olha fixamente. Não é possível. Gabi? Não. Gabi era morena, como explicar esses cabelos tão louros?Talvez, tenha-os tingido.

Após conseguirem uma mesa, um pouco distante do outro grupo, Melissa continua a observar. Percebe que estão todas desacompanhadas. Cochicha algo com Valeska, que após olhar bem, confirma, sim, é Gabi quem está na outra mesa. Melissa não tem coragem de simplesmente ir até lá e dizer “oi”. Todas as amigas que foram ao quiosque com ela e Valeska já conseguiram encontrar alguém com quem passar a noite. Talvez sejam mulheres de sorte, pois, aos quase trinta anos ainda não encontraram um amor verdadeiro, que lhes mostre que, sem estar com quem se ama, não há prazer nem felicidade… Mas, será isso ter sorte?Valeska e Melissa sabem que não. Por mais que o Amor machuque, é preferível derramar lágrimas por amar a viver o deserto de não sentir que, a cada momento, necessitamos de alguém ao nosso lado.

Talvez sejam simplesmente mulheres que isolaram seu coração, para não sofrerem mais desilusões, e, ainda vivem a ilusão da felicidade momentânea de uma noite…

Seja como for, Valeska e Melissa vêem-se novamente sozinhas. Decidem ir embora.

Melissa escreve um bilhete:

“Gabi,

Meu telefone é:

(n° do celular)

Se você quiser saber quem sou eu, me liga.

Pense bem antes de amassar esse bilhete e jogá-lo no lixo. Você pode estar jogando fora a sua felicidade.”

“Alguém”

Pede para uma das garçonetes entregá-lo à Gabi, sem dizer a ela quem havia escrito. Vai até o carro de onde pode observar a reação de Gabi ao receber e ler o bilhete, que é guardado na bolsa…

            Dias depois, o telefone toca. O número é desconhecido. Melissa, ainda sonolenta, atende.

Uma voz sensual, do outro lado da linha:

            -Com quem eu falo?

            -Gostaria de falar com quem?

            -Com a pessoa que, algumas noites atrás, me enviou um bilhete, no Quiosque da Cris.

            -Oi Gabi. Você está falando exatamente com quem quer falar.

            -Como sabe o meu nome?

            -Não importa agora. Vamos marcar um dia, nos encontrar,você vai saber quem eu sou.

            -Não vou encontrar uma desconhecida que fica fazendo joguinhos de anonimato.

            -a escolha é sua…

            -…

            -…

            -Tudo bem… Aonde vamos nos encontrar?

            -Você conhece a Sorveteria La Bamba, na Avenida da Praia, próxima ao canal 4, em Santos?

            -Conheço.

            -Você poderia estar lá, hoje, por volta das 14 horas?

            Era segunda feira, Gabi estava com reuniões importantes marcadas para o dia todo. A agência de turismo era longe do Canal 4,mas,por outro lado..

            -Não posso nem pensar em marcar nada hoje, estou cheia de compromissos.

            -Tem certeza?Não há como arranjar um espacinho nessa agenda tão lotada?

            -Tudo bem.  Pode ser às 15 horas?

            -Pode.

            -Então, até logo.

Capítulo 17

Anne Camille crescia rapidamente. Era uma criança inteligente, sensível e curiosa,  a alegria no lar de Marjorie e Christopher. Aos seis anos, já sabia ler algumas palavras, era muito ativa e muito unida à Diana, que, após fazer faculdade de pedagogia, tornara-se sua primeira professora. Amava muito os pais, porém mostrava-se independente, corajosa. Muitas vezes, Marjorie via nela atitudes que lembravam Valeska, quando tinha mais ou menos essa idade. Anne Camille podia ter correndo nas veias o sangue de Christopher, mas, de alguma forma, Marjorie sentia na filha a presença da mulher amada. Como se fosse possível ter engravidado de Valeska e gerado um ser assim tão idêntico a ela em suas ações, trejeitos, paixões. Assim como Valeska, Anne Camille também amava as aulas de balé. Marjorie, que sempre fora praticante das artes marciais, até havia tentado incentivar a filha a praticar esse tipo de esporte, mas Anne Camille preferia o balé.
Melissa havia se formado, foi uma das poucas alunas a ser aprovada na primeira tentativa no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e também no concurso público para o cargo de Promotor de Justiça. Trabalhava muito. Havia desistido do ramo de Direito Internacional, no último ano, decidira seguir Direito Penal. Mesmo com a carreira garantida, estudava muito, fazendo inúmeros cursos e atualizações. Sua vida sentimental, no entanto, estava às moscas.
Havia muito tempo, Gabi e Valeska não se correspondiam mais e , conseqüentemente, Melissa não tinha mais nenhuma notícia de sua amada. O tempo havia feito ambas trilharem caminhos diferentes.
Gabi havia feito faculdade de turismo, depois de formada precisava viajar muito a trabalho e quase não tinha tempo de escrever cartas ou e-mails à Valeska. Ainda entregava-se a cada novo ser que aparecesse em sua vida, na tentativa vã de encontrar sua paz, de se encontrar. E a cada dia distanciava-se mais e mais de si mesma. Gabi e Melissa, duas vidas, um amor, dois destinos.

Valeska, após três anos trabalhando no mesmo colégio, conseguiu um emprego como professora do colégio Prazer de Aprender, em Santos… Não queria mudar-se de cidade, mas era uma oportunidade imperdível, daria aulas no cursinho pré-vestibular.
Foi doloroso deixar para trás a família, amigos e partir rumo ao desconhecido. Mas o que era desconhecido?A cidade?Não, Valeska conhecia Santos. O desconhecido era saber que, dali em diante, seria apenas ela e ela mesma…

Caderno de notas de Valeska

(carta de amor que nunca entreguei)

“Chega mais um fim de tarde, e eu estou aqui, em meus lábios solitários, um sorriso. Em meu coração, o punhal da saudade está cravado profundamente. Só você pode curar as feridas do meu coração. Mas você está tão distante.
Mais uma noite quente e estrelada. Sem você aqui, me resta apenas a escuridão e o frio. Olho para o céu. Procuro uma estrela que tenha o brilho do seu olhar. Não existe. Seus olhos têm um brilho que apenas meu coração alcança. Mas você não percebe isso, não percebe o amor que sinto por você. Se olhares para o céu, não o céu sobre nossas cabeças, mas o céu estrelado do nosso coração, encontrará uma estrela pequenina e muito brilhante. Essa estrela é o amor que tenho por você. Vivo a esperança de um dia vê chegar e me dizer: “Eu te amo” e se um dia essa esperança morrer, sei que também morrerei. Por isso, mantenho sua chama bem viva. Lágrimas são inevitáveis na estrada do amor, muitas vezes, sorrisos são raros e preciosos, mas, sei que no final dessa estrada, cada lágrima derramada será uma estrela a Iluminar nossos caminhos e cada sorriso multiplicar-se-à milhões de vezes. Nesse dia, estaremos unidas, por toda a Eternidade….”

Capítulo 16

Para Marjorie, aquele dia estava sendo particularmente horrível. Acordara com muito enjôo. Estava também com uma forte dor de cabeça, havia semanas que não dormia bem, mas e sentia muito sono durante o dia. Mesmo assim, foi trabalhar. Já não ocupava mais o posto de caixa-operadora no Bingo Sete Mares, fora promovida à supervisora, pois Christopher havia sido transferido para o Bingo Estrela do Mar, recém inaugurado pelo dono do Sete Mares em sociedade com mais dois amigos. O novo cargo a deixava estressada, entrevistar candidatos às vagas de trabalho, a obrigação de demitir pessoas que não estavam se enquadrando aos requisitos da empresa. Durante à tarde, reunião com a equipe de atendentes. Após a reunião teve que demitir uma moça recém-contratada que havia dormido durante o turno da noite, a pobre moça chorava muito, mas Marjorie teve que ser forte e manter sua decisão. Tempo para almoçar?Só mesmo durante os dias de folga. Do Bingo, foi diretamente para a faculdade, teria uma prova muito difícil, e não havia estudado nada. Já na sala, sentia muita tontura. Devia ser o nervoso, falta de alimentação, pois não conseguira comer nada, devido ao enjôo. Após realizar a prova, decidiu ir para casa. Não agüentaria assistir às outras aulas, mas, mal entrou no estacionamento subterrâneo do campus, sentiu-se pior, chegando a ter um breve desmaio.
Christopher ainda não havia saído do Bingo Estrela do Mar, onde estava trabalhando no período noturno aquela semana, quando seu celular tocou. Ao saber que Marjorie havia sentido-se mal, não pensou duas vezes e foi buscá-la.o carro deles estava com ela,por isso,teve que ir de ônibus,chegando lá,decidiu levá-la direto ao pronto-socorro. Horas depois, iam para a casa, Marjorie deveria ficar alguns dias em repouso, apenas uma precaução, não deveria se cansar mais do que seu novo estado permitia. Christopher estava radiante. Iria ter um filho com a mulher que amava. Desejava curtir cada momento essa nova paternidade.
Calada, Marjorie não entendia direito o que estava acontecendo. Como havia engravidado?Tomava tantas precauções, camisinha, pílula. Ainda faltava fazer o exame apropriado, que não era realizado no pronto socorro, mas ao que tudo indicava. Lágrimas corriam de seus olhos. Não queria ter um filho, simplesmente por que não amava Christopher, não como homem. Amava-o sim, como um amigo, respeitavam-se. E nas noites solitárias, saciavam seus desejos, mas não eram um casal normal. Como iriam ter e criar aquele filho? Ao ver a esposa chorando, Christopher percebeu ligeiramente o que se passava na cabeça dela. Sem palavras, limitou-se a abraçá-la.
A confirmação da gravidez foi uma reviravolta na vida de Marjorie. Decidiu continuar no trabalho e na faculdade, apesar da insistência de Christopher para que se afastasse de ambos e ficasse em casa, apenas descansando. Apesar do medo e de tudo o que havia pensado quando soube que estava grávida Marjorie começou a aceitar e gostar da idéia de ter um bebê com Christopher. Sofria por lembrar-se de quando planejava ter filhos com Valeska. Sempre haviam sonhado fazer juntas uma inseminação artificial,engravidar ao mesmo tempo…ver seus filhos crescerem juntos,cercá-los de amor…mas isso não a impedia de ver que esse bebê a uniria para sempre a alguém que a amava acima de tudo,que passara anos casado com ela,sem sequer tocá-la,apenas para tê-la por perto.
Christopher, naturalmente super-protetor, estava mais cuidadoso ainda. Qualquer desejo, por mínimo que fosse por ela expressado, ele realizava como um decreto. Qualquer mal-estar queria levá-la ao médico, fazê-la faltar ao serviço e à faculdade apenas para descansar. Marjorie gostava de se sentir assim, tão mimada, fazia sentir-se segura… Era difícil explicar…  Seu corpo aos poucos ia modificando-se, adquirindo formas mais arredondadas. Olhava-se no espelho e sentia-se bela. Amava aquele pequeno ser que estava formando-se ali.
Diana também ficou maravilhada com a idéia de ter um irmão ou irmã, surpreendendo Christopher e Marjorie, que imaginavam ao menos uma cena de ciúmes.

Valeska, mesmo estando longe, sentia que havia algo acontecendo. Não sabia explicar o que, mas sentia Marjorie cada vez mais distante dela. Como se suas vidas estivessem seguindo sempre a mesma estrada, e, de repente, surgisse uma encruzilhada, na qual seguiam caminhos opostos.

Meses passaram-se… Rotina, boa e velha rotina… Férias? Fazenda.
Gabi pouco visitou Valeska. Após muito pensar, sentia que seu encontro com Melissa fora premeditado por Valeska, por isso mantinha-se distante. Estava firme na sua resolução de não envolver-se com ela, nem com mais ninguém.
Melissa, devido ao estágio, teve muito poucos dias para passar ao lado de sua família, nesses dias, apenas conseguiu ver Gabi uma ou duas vezes. Como estava linda. A praia evidentemente fazia-lhe bem. Sua pele adquirira cores mais vivas. Os cabelos estavam grandes. Seu corpo, perfeito. Como Melissa queria poder ao menos ver o olhar de Gabi, apenas parar e olhar durante alguns segundos dentro daqueles olhos, ver aquela luz que era o motivo de sua existência.
O frio do mês de Julho as deixava naturalmente propensas ao isolamento e a uma leve melancolia. Valeska e Melissa passavam agora horas juntas, chorando.
Em Santos, Marjorie também se mostrava abatida. Muitas vezes, procurava ficar distante de Christopher, pois não queria magoá-lo com as lágrimas que derramava por Valeska. Elas sempre gostaram tanto dos meses frios. E, longe de Christopher, sentia-se sozinha e profundamente infeliz.
Outubro…
Marjorie e Valeska completariam sete anos de namoro, se ainda estivessem juntas. Apesar de estar feliz com a nova vida que carrega consigo, Marjorie não pode evitar certa tristeza. Afinal, esse bebê deveria ser delas.Aos sete meses de gravidez,ainda não havia conseguido escolher um nome para a menina que esperava,sua maior vontade era batizar-lhe Valeska,mas sabia que isso magoaria Christopher.
Na noite de Ano Novo, vieram as primeiras dores. No dia 1° de Janeiro nascia Anne Camille, filha amada de Marjorie e Christopher.
Marjorie só volta à faculdade e ao trabalho em Julho. Martha havia se casado novamente, e Diana decidiu morar com Christopher, assim ajudaria a cuidar do bebê durante o dia, estudando à noite.
 
Valeska dedica-se a fazer muitos cursos em sua área, assim, tenta esquecer um pouco a vida pessoal que deveria ter.
Melissa está passando pelo terrível quarto ano de faculdade, seu penúltimo ano. Gabi inicia o primeiro, ironicamente, também está cursando a USP, mas em um campus distante do campus no qual Melissa estuda. Como não tem onde morar em São Paulo, viaja todos os dias, para poder estudar. Essa rotina e a distância fazem com que elas não se encontrem. Muitas vezes,por questão de minutos,deixaram de se cruzar em uma estação de metrô, num ônibus.
Nas férias de julho, apenas Valeska e Gabi vão para a fazenda. Melissa decide ficar em São Paulo.
Gabi conta a Valeska que ainda não esqueceu Melissa, mas que tem procurado o amor nos braços de quem se oferecer para amá-la. Quem sabe não consiga reencontrar num corpo estranho a essência de sua vida, que perdeu ao amar Melissa.
Valeska não consegue entender. Pensa como suas vidas tomaram rumos diferentes.
Ela sofre por amar, está sozinha, esperando por uma chance de voltar para os braços de Marjorie. Marjorie também sofreu, talvez ainda sofra pela separação, mas procurou tentar ser feliz nos braços de um homem. Melissa, que nunca valorizou sentimentos, agora entende o que é Amar. Gabi, uma garotinha antes tão delicada, agora se fez mulher, ainda não entendeu que quem ama, jamais vai conseguir encontrar equilíbrio nos braços de alguém, que não o ser amado, e, entrega-se assim, a qualquer um, numa busca desesperada por si mesma.
Na vida de todas elas, o Amor foi um marco profundo, alterou seus caminhos, causou alegria em alguns momentos, e dor em todos os casos. O curioso,foi a maneira como cada uma reagiu a esta dor…
 
Caderno de notas de Valeska.

“Flores para enfeitar nossa jornada,
Flores para perfumar,
Flores para colorir…
Tê-la ao meu lado…
Cultivar no Jardim da vida uma flor especial:
Nosso amor…
O Amor que colore, perfuma e alegra nossos caminhos…
O Amor que nos faz sorrir…
Mas também, nos faz chorar…
Derrama o sangue de nossas almas,
Pois como qualquer flor,
Possui espinhos…
Amor,
Simples e profundamente Amor…
Amor e nada mais…
Amor que é tudo,
Amor que nos guia,
Alimenta nossa alma…
Amor…
Amor que, como todas as flores,
No inverno… Perde as cores,
Perdem o verde, as folhas…
Amor que achamos estar morto nos longos meses
Do inverno da distância…
Mas sabemos que ele nunca morre,
Pois sem ele, nada somos
Sem ele, a vida nada é…
Amor que retorna na primavera do reencontro…
Atinge novamente seu ápice…
Faz-nos reviver… sonhar
Amor…
Motivo maior da existência…
Pureza da água cristalina…
Brilho das estrelas
Estrada da alma…
Estrada que sigo ao teu lado…
Mesmo distante, sempre perto de ti…
Sempre pelo mesmo caminho…
Você é meu Amor…
Flor que enfeita e perfuma minha existência
Minha estrada e meu motivo para segui-la,
Sem medo de não saber para onde serei conduzida,
Pois sei que qualquer lugar ao teu lado é o paraíso
Você é a estrela que brilha em minha vida,
a pureza de meus sonhos e sentimentos…
Amo-Te…”

Capítulo 15

Por mais que tentasse Valeska não conseguia sair de seu isolamento emocional. Procurava sair com os amigos, dançar, divertir-se, mas, no fim das longas noitadas, apenas a solidão a aguardava em casa de braços abertos. Chegou a aceitar namorar uma amiga da faculdade, mas em menos de três meses terminaram.
Seu corpo tinha sede de prazer, mas seu coração queria amor, o amor de Marjorie. E, nesse jogo de forças,seu coração predominava, mantendo-a afastada de envolvimentos amorosos.
Para Melissa, os dias não foram melhores. Não quis comemorar seu aniversário na fazenda, ao lado da família, pois sabia que não poderia convidar Gabi. Lembrou-se que a havia conhecido em uma  festa de aniversário. Desde então, sua vida e seus sentimentos pareciam ter sido revirados, seu mundo estava de cabeça para baixo. Onde estava aquela garota atrevida, que lia contos eróticos  e libertava seu lado animal? Por mais que a procurasse, Melissa não conseguia mais encontrá-la.
 
 Correspondência de Valeska e Gabi.
 

“Querida Gabi…
Espero que esta carta a encontre na mais perfeita paz e saúde.
Fiquei feliz com sua última carta, onde me falava de sua intenção de vir morar com sua tia em Santos ano que vem para terminar seus estudos em um bom colégio. Prometo conseguir um dia, um fim de semana, e ir visitá-la.
Tenho que contar a você. Não sei por onde começar, mas preciso falar: Deveria ter conversado com você quando esteve comigo na fazenda, mas sua namorada estava perto e agora por carta é bem mais difícil…
Lembra aquele dia que você e a Melissa se encontraram em minha casa?Ela ficou muito alterada. Acabou adormecendo a beira da cachoeira. Eu a encontrei lá, adormecida, já quase de noite. Passou vários dias com febre, e chamando por você. Os pais dela não aceitam de nenhum jeito a idéia de ter uma filha lésbica. E ela está sofrendo muito por saber que é quase impossível tornar-se sua namorada, e posteriormente, sua esposa.
Esse sentimento a fez mudar muito – Quase não saí de casa. Acho que finalmente percebe uma pequena parte do que eu sofri quando perdi Marjorie, pois acha que perdeu você. Espero que não seja tarde demais para vocês, como é tarde para mim.

Beijos,
Com carinho,
Sua amiga, Valeska”

 

“Valeska…
Tudo bem?
Ficarei muito feliz em recebê-la em minha nova casa, em Santos.
Fiquei impressionada com o que me contou sobre Melissa. Você sabe que eu ainda não consegui esquecê-la. Mas, fico imaginando se vale a pena abandonar alguém que me ama para me envolver novamente com alguém que já me fez sofrer, que recusava meus carinhos, dizendo que o amor é um sonho no qual temos que ser muito tolos para acreditar. Talvez ela tenha realmente modificado seus sentimentos mas não sei, estou confusa, acredito que seja realmente muito tarde, mas pensarei,é tudo o que posso dizer,pensarei…

Beijos
Gabi”

 

Finalmente, chegou o final do ano.
Na fazenda, Melissa procurava ficar o máximo de tempo possível na companhia de Valeska, para tentar encontrar-se com Gabi. Valeska percebia a situação, mas não fazia comentários.
Finalmente, um dia, no final da tarde, Melissa chegou à casa de Valeska e encontrou Gabi, mas esta estava com a namorada. Imediatamente, seus olhos encheram-se de lágrimas. Saiu devagar, sem ser vista, afinal, ninguém a tinha visto chegar. Não faria mal sair sem despedir-se.
Para Melissa, o restante das férias perdeu o sabor. Não havia mais prazer algum em estar em casa. Queria voltar logo para São Paulo e deixar-se levar pelo destino. Estaria iniciando o segundo ano de sua faculdade. Mais três anos e estaria formada e livre, mas livre para quê? Para entregar-se a quem?
Marjorie e Christopher nunca haviam falado sobre o que havia acontecido no aniversário de casamento. Já estavam a caminho do segundo aniversário, e mantinham-se apenas amigos. Muitas vezes, era necessário controlar seus impulsos – formava-se entre eles uma energia sensual. Nessas horas, não eram os amigos Marjorie e Christopher, mas sim Marjorie e Christopher, um homem e uma mulher, carentes do prazer que não podiam encontrar em abraços amigos.
 
Caderno de notas de Valeska:
 
(acredito que esta tenha sido a primeira carta de amor que escrevi para você, Marjorie)
“Quero tomar-te em meus braços com a leveza da brisa quando toca seus cabelos…Colocá-la-ei num leito de pétalas de rosas, e, ,quando aos poucos minhas mãos forem te despindo, quero que meu olhar aqueça suavemente teu corpo, como o sol aquece as flores na primavera.
Meus lábios deslizarão sob teu colo macio como o orvalho desliza sobre as folhas delicadas e pequeninas. Quero fechar meus olhos e deixar meus sentidos te descobrirem.
Sentir do teu corpo o sabor… Deixar minhas mãos tocarem seus pontos mais ocultos; quero ouvir tua respiração arfante e profunda, cada vez mais acelerada, viajar contigo às estrelas, tocar o céu, nossos corpos fundidos de tal forma a ser uma nova estrela no firmamento e, ao mesmo tempo, seremos, apenas eu e você, duas mulheres satisfeitas na leveza e doçura de seu amor…”
 
Valeska e Melissa voltaram a São Paulo. Gabi embarcou para Santos.
Marjorie tinha cada vez mais dificuldade de resistir aos seus desejos. Os anos em que se mantivera isolada começavam a pesar-lhe na alma, e ela sentia um desejo intenso e cruel de entregar-se a Christopher. Completaram dois anos de casamento.
Era o último ano de Valeska na faculdade, e ela tratou de aproveitá-lo ao máximo. Era a melhor aluna de sua turma, mas mesmo assim aproveitava ao máximo as oportunidades de divertir-se com os amigos.
Antes das férias de Julho, viajou até Santos, para visitar Gabi. Teve a esperança de reencontrar Marjorie, mas foi uma esperança vã.
Gabi havia pedido à Valeska que não levasse Melissa com ela, ainda não estava preparada para reencontrá-la.
Foi difícil, mas Valeska acatou a decisão da amiga. Gostaria de vê-las felizes, pois sabia que se amavam.
Agora eram duas garotas que retornavam à fazenda nas férias. Melissa para a casa dos pais, Gabi para a cidade vizinha, mas ambas inevitavelmente encontraram-se na casa de Valeska. Era possível sentir a atração de uma pela outra mas nem assim elas decidiam unir-se e em seu amor enfrentar os obstáculos que as separavam.
Elisa havia se separado de Gabi quando essa decidiu morar em Santos – o que a deixou extremamente triste pois esperava que a namorada ao menos tentasse esperar por ela, afinal, quem ama espera.
Ao reencontrar Elisa, Gabi descobriu que esta já estava com outra namorada. Fazia apenas seis meses que haviam terminado o namoro. Valeska, como sempre, procurou consolar Gabi de mais essa decepção. Quando ela seria consolada por alguém?Seria possível que seu destino fosse consolar e nunca ser consolada? Precisava de alguém que a amasse. Queria ser feliz, mas não conseguia tirar Marjorie de seu coração. Não conseguia e não queria, apesar de saber que não havia mais esperanças.
Como estaria Marjorie? Elas amavam os meses frios, ambas ficavam muito sensíveis em dias nublados e chuvosos..Valeska pegava-se pensando em quem estaria dando carinho à Marjorie em seu lugar. Nos braços de quem ela estaria adormecida nas noites escuras e frias do inverno.
Em Santos, Marjorie dormia nos braços de Christopher, sempre imaginando que Valeska já a havia esquecido nos braços de outra mulher, ou quem sabe até mesmo de um homem. O tempo encarregou-se de fazê-la perder os contatos com os amigos de São Paulo. Sentia saudade de seus pais, que nunca haviam ido visitá-la.
Melissa continuava esperando uma chance de conversar a sós com Gabi. Mas essa estava dificultando as coisas, sabia que acabaria cedendo e não queria. Tinha medo de sofrer.

Era uma tarde de agosto, um domingo chuvoso, Marjorie e Christopher estavam assistindo TV no sofá. Marpher dormia no tapete. Christopher estava quase dormindo, Marjorie o acariciava delicadamente. Beijaram-se…Não conseguiram evitar, amaram-se com ternura. O amor passou a fazer parte do dia-a-dia do casal.. Nenhum deles se enganava, Marjorie não havia deixado de amar Valeska, apenas havia cedido às necessidades de seu corpo.
Chegou o final do ano, Valeska terminou a faculdade como a melhor aluna de sua turma. Convidou todos para a sua formatura. Mandou um e-mail para Marjorie, convidando-a também. A resposta foi o mais profundo silêncio.
Melissa não queria viajar para a fazenda, estava muito magoada com sua família, mas o fato de Valeska lembrar que Gabi iria para a casa durante as férias, o que facilitaria um encontro entre elas, fez com que Melissa mudasse de idéia.
O mês de Dezembro estava como sempre muito quente, favorecendo o contato com a natureza, longos banhos de cachoeira. Muitas vezes, Gabi ia até a casa de Valeska, passavam a tarde juntas, cavalgavam, Melissa ficava sempre à espreita. Escondida entre as folhagens, vendo sua amada. Valeska sabia disso, e não fazia nada para evitar. Queria deixá-las sozinhas, mas não sabia como.
Um dia, Valeska ligou para o celular de Gabi, disse que iria estar na cachoeira no dia seguinte pela manhã e precisavam conversar.
Gabi foi ao encontro, nem passou pela casa de Valeska, tomou um atalho que a levou diretamente à cachoeira. Ao chegar lá, não encontrou a amiga. Passou-se uma hora. Onde foi que a Valeska se enfiou?Tentou telefonar..Nada.
De repente, Melissa senta-se ao lado de Gabi.
Perto de Gabi, Melissa torna-se tímida, não consegue expressar o que sente por palavras. Seus olhos rebrilham. Percebe-se o Amor… No entanto, Gabi não a perdoa pela frieza com a qual foi tratada após a primeira noite que passaram juntas, e o fato de conhecer a história de Marjorie e Valeska também não a faz ter boa impressão sobre a pessoa de Melissa. Mesmo assim, acabam beijando-se. O clima começa a ficar quente. Elas aos poucos entregam seus corações, sem palavras, apenas seus corpos demonstrando o que se passa escondido no fundo do peito.
Quando finalmente Gabi decide ir embora, Valeska aparece pela trilha. Finge-se chocada ao encontrá-las ali, aos beijos. Havia planejado tudo, para que elas ficassem sozinhas e conversassem.
Gabi não percebe o plano de Valeska, mas arrepende-se de ter ficado com Melissa.
Gabi não resistia, e, da mesma forma que Melissa ia observá-la, ela também passava horas rondando a casa de Melissa, apenas para vê-la, antes de ir visitar Valeska. Mas, mesmo assim, insistia em manter distância.
Na noite de ano-novo, todos se divertiram muito. A ceia foi realizada na casa de Valeska, os pais de Melissa estavam presentes, por isso Gabi e a família não haviam sido convidados.
Marjorie e sua família estavam unidas e felizes, ela havia perdido qualquer resquício exterior daquela Marjorie isolada e triste. Sua beleza estava resplandecente, apenas no fundo de seu coração estavam as dores de não ter perto de si seu grande amor, seu relacionamento com Valeska ainda era uma ferida profunda, machucava. Christopher sabia disso, e sofria, pois queria ver Marjorie feliz, mais feliz do que qualquer outra pessoa no Universo. Sabia que ele a fazia feliz, mais sabia também que sua maior felicidade seria encontrada nos braços de Valeska.
Caderno de notas de Valeska
(poema sobre nossa primeira noite, nunca tive coragem de entregá-lo a você, Marjorie)
“De repente, não havia mais nada ao nosso redor…
Éramos apenas nós e a energia dos elementos e do Amor
… Trêmulas de emoção…
Luz apagada… Pele na pele, apenas um abraço…
Um beijo suave faz com que nos percamos…
E perdidas em nosso amor, começamos a nos buscar…
Em seus braços encontro abrigo, encontro paz
Fecho os olhos… Quero te abraçar forte,
Parar o tempo nesse instante mágico…
Impedir que a Vida a leve por um instante que seja de perto de mim…
Sei que partirás no dia seguinte,
Sei também que brevemente retornarás…
Sei que vencerei a distância para te encontrar…
Mas mesmo assim, quero prende-la para sempre junto a mim…
Em seus braços, me perco para me reencontrar…
Perco-me e me acho em teu olhar… Em teu cheiro…
Em tua pele…
E ao mesmo tempo em que me abrigo em você,
Sei que estás abrigada em mim também…
Momentos mágicos…
Vida…
Amor…
Eu e você…
Você me toma em seus braços e me faz sua…
Toma para si meu corpo…
O corpo que abriga esse coração que é só teu, que atravessou a Eternidade e seus Mistérios para te encontrar…
Toma-me…
Faz-me tua…
Leva-me às nuvens…
Nosso Amor é luz… É paz… Doçura…
Nosso amor nos guia…
Quero tomá-la também…
Fazê-la minha,
Mas nessa noite,
Quero apenas ser tua…
E depois,
Dormir em teus braços… E ao amanhecer,
E acordar junto a ti… Beijá-la
Ver as marcas que nosso amor deixou em meu corpo…
Saber que você me fez mulher…
Fez-me a tua mulher…
A mulher mais feliz em todo o Universo…
Em todas as dimensões, tempo e espaço…
Feliz simplesmente por ser a tua mulher…
Feliz por te amar…”
 

Com o final da faculdade, Valeska começa a enfrentar o tão temido “Mercado de Trabalho”, é difícil encontrar bons empregos. Consegue um trabalho como professora substituta em um pequeno colégio particular. É o suficiente, por enquanto.
Melissa, que já está em seu terceiro ano da faculdade de direito começa a fazer um estágio em uma firma ligada à exportação, isso a mantém ocupada, fazendo-a sofrer menos com a saudade de Gabi e o arrependimento por ter brincado com seus sentimentos, quando teve a oportunidade de estar perto dela. Gabi, em Santos, divide seu tempo entre o cursinho e o colégio. Nos finais de semana, trabalha em uma pequena sorveteria próxima à sua casa.

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Mensagem para os leitores:

Como eu comentei anteriormente, minha rotina tem sido um pouco corrida: Estou terminando meu tcc, terminei meu contrato de estágio e estou trabalhando em um emprego que me toma muito tempo, ou seja, me sobra menos tempo para ler as postagens de outros blogs que sigo, para ensaiar e para escrever ou revisar o material que já tenho pronto e, por isso, por algum tempo a ordem que eu havia estabelecido para as postagens será alterada! Espero em breve voltar a postar com organização e regularidade!

Beijos literários a todos!

Capítulo 14

Como todos os fins de ano, Valeska e Melissa foram para o sítio com a família. Um dia a tarde, Melissa encontrou Gabi, que havia ido visitar Valeska. Ambas ficaram muito embaraçadas por se reencontrarem após tudo o que havia acontecido. Melissa acabou voltando para casa – no coração um misto de alegria, tristeza, saudade e arrependimento… Não conseguiu manter-se calma, quando chegou estava aos prantos… Por sorte seus pais não estavam… Não conseguia ficar em casa, foi até a beira do riacho e deixou-se ficar por lá… Acabou adormecendo… A noite já começava a cair quando os pais de Melissa voltaram da cidade e passaram na casa de Valeska para buscá-la, Como não estava mais lá, pensaram que iriam encontrá-la em casa… Também não acharam… Procuraram em cada recanto do sítio, e,quando já estavam desesperados,pediram ajuda aos pais de Valeska. Horas depois, acharam-na ainda adormecida na beira do rio… A noite estava quente, o que a livrou de apanhar um resfriado, mas mesmo assim, ela estava ligeiramente febril… Sussurrava baixinho o nome Gabi… Seus pais não conseguiam entender, depois de tanto tempo, e ela ainda se lembrava daquela aventura de criança? Para fazê-la esquecer Gabi, haviam aberto mão da companhia da única filha, para que ela fosse morar na cidade, conhecer rapazes interessantes, casar… E, num momento febril,era o nome Gabi que vinha-lhe aos lábios…. Ficou assim por mais ou menos uma semana… Seus pais levaram-na ao médico, que após examiná-la cuidadosamente não conseguiu descobrir-lhe nenhuma enfermidade. Estava chegando o natal, e nada de Melissa demonstrar melhoras. Chorava, chamava por Gabi. Valeska velava a cama da amiga. Estava começando a conhecer a face sensível de Melissa, a face dos sentimentos puros que estivera oculta sob um manto de malícia e luxúria. Na noite de Natal, Melissa conseguiu levantar-se da cama por algumas horas, participar da ceia com a família. Os pais, vendo tanto sofrimento, perguntaram se ela gostaria de voltar para casa. Ela sorriu por instantes, mas logo perguntou se poderia namorar Gabi, caso voltasse a morar com eles. Imediatamente, seus pais mandaram-na para o quarto, de castigo até o final das férias, e após isso, ela voltaria a morar em São Paulo, longe dessa menina que havia lhe tirado toda a noção dos bons costumes. Nem a notícia de que Melissa havia sido aprovada na FUVEST fez os pais abrandarem o castigo.

Marjorie preparava com todo amor a ceia de sua nova família. Era o primeiro Natal que ia passar casada com Christopher, e não queria que nada saísse errado. Ela enfeitou a mesa com flores brancas, uma toalha rendada, bem delicada. Espalhou velas no ambiente, foi um jantar pequeno, apenas ela, Christopher, Diana e Martha. Todos se mostraram encantados. Após anos, podia finalmente dizer que estava feliz. Não era exatamente felicidade o que sentia, apenas não tinha vontade de chorar, não havia esquecido a dor, mas também já não a sentia a cada segundo do dia. Era como se seu coração estivesse anestesiado. Marjorie havia decidido continuar trabalhando no Bingo Sete Mares, mas iria começar a tão sonhada faculdade – Desistiu de fazer educação física, preferiu continuar na área de informática:  Estudava no período noturno,após sair do Bingo. Ao chegar em casa,o jantar estava na mesa,Christopher invariavelmente a esperava, nunca jantava antes dela chegar da aula. Ele era um marido atencioso e dedicado, o sonho de qualquer mulher. Muitas vezes ela se perguntava qual o seu direito de estar ao lado dele se não conseguia nem ao menos cumprir seu papel de mulher, quanto mais amá-lo.

Valeska estava no seu terceiro ano de Faculdade… O tempo passava rápido. Mais um ano, e ela já teria a Licenciatura, poderia enfim dar aulas. Melissa iniciava a faculdade. O novo ritmo a fez esquecer-se um pouco de seus sentimentos, era como se houvesse se isolado Quem a olhasse agora, já não veria mais aquela garotinha que um dia nadava nas águas de uma cachoeira e imaginava ser uma sedutora e fatal ninfa. Seu olhar já não tinha mais aquele brilho nascente de um desejo animal. Estava mais ameno, sentia-se a mudança de seus sentimentos.Seu corpo também havia transformado-se bastante: Havia ganhado um pouco mais de musculatura, pois fazia academia duas vezes por semana e apenas os cabelos continuavam os mesmos: uma cascata negra que caia-lhe pelas costas, chegando até os quadris.

Caderno de Notas de Valeska: (poema escrito aos quinze anos de idade, pensando em você, Marjorie) “O Amor é um sentimento forte A paixão nunca deixa de ser uma Ilusão O Amor que sinto por você É maior que a razão Resiste até a morte A paixão que tenho por você Não me deixa ser triste Ela me leva a um mundo encantado Onde a palavra tristeza não existe”

Naquela manhã, Marjorie acordou com o interfone tocando… Estranhou não ver Christopher em casa. O que haveria feito o marido sair num domingo pela manhã? Ao atender, foi avisada que havia um rapaz na portaria, para entregar-lhe uma cesta de café da manhã. Estava com preguiça de ir até lá buscar seu presente, e as regras do prédio não permitiam entregadores circulando sozinhos pelo condomínio. Onde estaria Christopher? Pediu para que o porteiro recebesse a cesta e subisse para entregar em seu apartamento. Quando abriu, viu um cartão: “Hoje faz um ano que sou o homem mais feliz do universo, pois tenho você ao meu lado, minha rainha, dona de todos os meus sonhos e sentimentos. Amo-Te… Christopher”

Como ela havia se esquecido? Não preparou nada para celebrar seu aniversário de casamento. O que faria?Era domingo, Christopher sempre passava o dia em casa, às vezes Diana também… Desembrulhou cuidadosamente seu café da manhã e arrumou com capricho na mesa… Christopher chegou em seguida, havia ido buscar na casa de um amigo o segundo presente, um lindo filhote de poodle, fazia tempo que Marjorie demonstrava vontade de ter um animal em casa. Era uma fêmea, que foi carinhosamente chamada Marpher(uma mistura dos nomes Marjorie e Christopher). Após esse café da manhã romântico, enquanto Christopher tomava um banho, Marjorie ligou para Diana. Explicou-lhe o esquecimento do aniversário de casamento e pediu-lhe que fosse até lá, como se as duas já houvessem combinado de sair juntas naquele dia. Diana e Marjorie foram ao shopping. Andaram, buscando idéias para um presente original e carinhoso… Diana sugeriu que ela comprasse uma roupa íntima nova, provocante e fizessem uma noite especial….Marjorie não tinha como explicar à ela que nunca havia feito amor com Christopher. Começava a achar que fora uma péssima idéia aquele passeio no shopping… Entrou numa loja, comprou um baby doll novo,branco e inapropriado para uma noite picante. Decidiu comprar também uma caixa de bombons e um CD de música New Age, que Christopher com certeza iria adorar. Passou no supermercado, comprou ingredientes para fazer um jantar especial. Ao chegarem a casa, já quase de noite, Diana pediu que Christopher a levasse para casa. Moravam em bairros bem distantes, o que daria tempo para Marjorie preparar o jantar, enfeitar toda a sala com velas e incenso, tomar um banho e vestir-se… Como adorava usar roupas brancas, escolheu um vestidinho branco, longo e bem soltinho do corpo… Deixou os cabelos livres, sem usar nada para prendê-los… De repente tinha vontade de fazer-se bela para Christopher… O jantar foi maravilhoso… Ele adorou o CD, que ficaram ouvindo deitados no sofá enquanto devoravam os bombons… O contato do corpo de Christopher fazia Marjorie estremecer… Despertava-lhe desejos intensos, que há muito tempo não se permitia sentir… Ela tinha consciência que seu coração pertencia à Valeska… Mas seu lado fêmea começava a dominar-lhe, querendo entregar-se… Isso a deixava profundamente constrangida. De repente, sem conseguir pensar ou evitar, beijou Christopher. Não foi um simples selinho, como o que deram na festa de casamento, mas sim um beijo quente e cheio de desejo. Foi deitar-se em seguida, não conseguiu sequer dizer boa noite ao marido. No dia seguinte, ambos fizeram de conta que nada havia acontecido. Era mais conveniente, pois não queriam destruir a relação de intensa amizade que havia entre eles.

Caderno de notas de Valeska:

“Amo-Te, Te quero  Coração bate forte Espero-te Noite e dia Dia e noite Tão tristes horas Tão lentas Queria arrancar do peito meu coração Queria arrancar de meu corpo o espírito… Queria libertá-lo, Para que livre pudesse voar ao teu encontro… E pudesse segurar suas mãos… E conversar com teu coração… Dizer a ele que você é tudo para mim… Que se um dia você não existir mais, Meu coração não mais achará sentido em existir… Então, após fazer brotar em seu coração a semente do Amor, Que antes de você nascer os deuses plantaram, Meu espírito voltaria ao meu corpo… E meu coração voltaria ao meu peito… Continuaria batendo forte… Continuaria te esperando… Mas saberia que a semente de seu Amor por mim estaria germinando… E, lentamente cresceria… Quando então, seus olhos se cruzassem com os meus… Essa pequena roseira que é o Amor floresceria… Os Espinhos perfurariam teu coração, Assim como perfuram o meu… Teu coração perceberia que apenas o meu coração Seria capaz de curá-lo…

E então,

Estaríamos unidas,

Para juntas atravessarmos a Eternidade…”

Capítulo 13

Final de ano…
A família de Valeska como sempre, vai passar as férias no sítio e Melissa fica na casa dos pais.
Valeska combina de ir à sorveteria com Gabi e a namorada dela. Surpreende-se quando vê que a amiga perdeu todo o jeito de criança. Tornou-se uma mulher linda e sedutora. Está feliz, pois seus pais descobriram sobre seu namoro e a apoiaram.  As três passam uma tarde animada.
Melissa havia ido passear na cidade, visitar seus primos. Ela vê Gabi com a namorada e Valeska. Como ela está linda! Pela primeira vez, ela tem vontade de voltar para a fazenda, para a pequena cidade, tem vontade de pedir a Gabi que fique em seus braços para sempre. Mas sabe que é impossível, seus pais não a aceitariam morando novamente com eles, e, se aceitassem, jamais deixariam Gabi passar a noite com ela.
Pela primeira vez, as férias de Melissa não foram compostas apenas por sorrisos. Ela passou muito tempo solitária, pensando em tudo o que havia feito. Pela primeira vez, se dá conta do mal que causou à Valeska e Marjorie, percebe o quanto fez Gabi sofrer, todas as vezes que esta lhe dizia “eu te amo!” e ela friamente respondia que deveriam deixar o Amor de lado, pois ele não passava de um sonho no qual apenas os trouxas acreditavam.
Marjorie passa a noite de Natal com Christopher, Diana e Martha. Não se sente mais tão solitária, pois se sente amada por Christopher. Não conversaram mais sobre aquela proposta de casamento.
No ano-novo quando ela está na praia com Christopher, encontra seus pais. Eles não haviam avisado que iriam passar a noite da virada de ano em Santos.
Marjorie chora muito, explica que sente muita saudade deles, mas não pode voltar. Não consegue encontrar um motivo para recusar-se a retornar para a casa de seus pais, por um momento, pensa em contar a eles toda a verdade sobre Valeska, mas sabe que isso os faria sofrer muito, seus pais são conservadores ao extremo, chegam a ser homofóbicos, nunca a aceitariam.
Durante toda a noite, Marjorie pensa sobre sua vida, tudo o que tem passado, sobre a solidão, a vontade de ter companhia. Quando se despede dos pais, já na madrugada do dia 1° de Janeiro, diz novamente que não poderia mais voltar para a casa, motivo? No próximo mês iria se casar com Christopher.
No carro, Marjorie pede desculpas a Christopher, por ter falado que eles iriam se casar, Christopher diz que não há problemas, ele entende a situação dela.
-Mas, se você quiser casar-se comigo de verdade. Eu seria o homem mais feliz desse mundo.
-Christopher, você sabe que eu te amo, mas apenas como um amigo querido. Não conseguiria entregar-me a você.
-Marjorie, eu te amo, se você decidir casar-se comigo sob a condição de eu nunca tocá-la, eu aceitaria. Gostaria apenas de ter a sua companhia a cada amanhecer, quero cuidar de você, quero apenas o seu carinho. Sei que seu coração é de Valeska, sei também que será sempre assim. Se você me aceitar como esposo, não estará me enganando.

Marjorie está deslumbrante, seu vestido branco assemelha-se a uma túnica. Os cabelos estão presos em um delicado coque, com muitos fios soltos e algumas flores.
Christopher e Marjorie não podem casar-se na Igreja, pois Christopher é divorciado. Contratam um Buffet, um local não muito badalado, mas nem por isso pouco elegante e fazem uma pequena festa, apenas para comemorar a união ao lado dos amigos mais chegados e da família de Christopher. Os pais de Marjorie recusaram-se a assistir a união da filha a um homem divorciado e muito mais velho que ela.
A festa é simplesmente perfeita: Os noivos entram no salão ao som de My heart Will go on, música tema do filme Titanic. Choram, emocionados ao trocarem suas juras de amor e respeito, mesmo sabendo que são válidas apenas as juras de respeito, pois entre eles não é segredo que o coração de Marjorie pertence à Valeska.
O mais novo casal do Bingo Sete Mares não viajou em Lua-de-mel, apenas passaram um animado fim de semana de folga, sem sair da cidade. Como havia prometido Christopher não tenta se aproximar de Marjorie mais do que as circunstâncias de amizade permitiriam. O contato mais íntimo entre eles fora um selinho, dado na festa de casamento.

Valeska ficou sabendo através de uma amiga sobre o casamento de Marjorie e sente que desta vez, perdeu para sempre o amor da sua vida.
Melissa tenta consolar a amiga, mas é tratada friamente, tenta abrir-se com Valeska, não consegue entender por que sente tanta saudade da sua antiga vida na fazenda, por que não consegue parar de pensar em Gabi. Pela primeira vez, está sentindo alguma coisa forte e pura por alguém, mas não consegue entender o que.

Caderno de notas de Valeska.

“Hoje enterro para sempre meu coração… Não, eu não enterro meu coração, meu coração não morreu, porém a dor de perdê-la é quase insuportável.  Por que devo eu permanecer neste mundo, que sem você não tem valor, não tem razão de ser? O que me prende a esta vida vazia, se hoje descobri que tu uniste para sempre tua vida a outro alguém?
Agora, outros olhos te aquecem, outros lábios te beijam, outras mãos te tocam. Agora, não são mais as minhas mãos que seguras quando o medo te invade, ou quando a alegria faz teu olhar soltar estrelas.
Não é nos meus olhos que encontras Amor. Marjorie… Meu coração repete seu nome, mas o seu não mais escuta meus chamados.
Gostaria de arrancar meu coração do peito, e sepultá-lo em meio a essa escuridão que domina minha vida desde que você se foi. No entanto, enquanto eu souber que você vive, mesmo sem esperanças de voltar a tê-la em meus braços, viverei também, com a alma partida em mil pedaços, e o sangue do meu Amor pingando em minhas lágrimas, mais eu viverei. Pois apesar de tudo, você ainda é, e sempre será a minha Vida!”

Valeska decide ir incluindo em seu caderno de notas alguns dos poemas que fez para Marjorie antes de começarem a namorar e também durante o namoro… Sempre trocavam cartinhas, bilhetes…

“Amor,
Palavra profunda,
Amar é querer bem a alguém,
É querer esse alguém sempre perto…
É querer ser Feliz,
E querer mais ainda fazer feliz o ser amado
Amor
Sentimento difícil de disfarçar,
Você,
Fez o amor tocar meu coração
Numa nuvem de Paixão”
Amo-Te mais e mais a cada momento…

Em julho seus pais e Melissa foram para a fazenda. Valeska decidiu ficar em São Paulo, pois tinha a esperança de que Marjorie viesse passar as férias com a família, apesar de agora ser uma senhora casada.
Melissa divertiu-se muito, seus dias só não foram melhores porque lhe faltava algo muito importante: a companhia de Gabi.Algumas vezes chegou a ver a amada na cidade, cercada de amigos e sempre ao lado da namorada. Não tinha coragem de ir falar com ela.
Em São Paulo, Valeska experimentava a solidão total, os dias foram passando, e com eles a esperança de ver Marjorie.
Marjorie e Christopher que não estavam em férias, aproveitavam cada momento juntos e quem os visse jamais imaginaria que seu relacionamento não ia além de uma amizade pura e profunda.
Aos poucos a vida ia tomando seu rumo. O tempo encarregava-se não de apagar a dor, mais de amenizá-la. Marjorie não era feliz, mas também não era mais aquela garota infeliz. Sentia-se amada por Christopher, seu amigo e marido. Tinha uma enteada que a amava, amigos. Havia conseguido terminar o curso técnico e pensava em deixar o Bingo para procurar outro emprego, onde pudesse atuar em sua área de formação. Mas tudo isso eram apenas planos. Até o fim do ano, continuaria no Sete Mares.

Melissa pede que seus pais a deixem voltar para a casa, mas recebe uma resposta negativa, seu lugar agora é São Paulo. Aos poucos, ela vai se reaproximando de Valeska, que já não consegue mais manter-se isolada como antes. Após saber que Marjorie casou-se, Valeska começa a tentar sair com os amigos da faculdade. Às vezes leva Melissa junto com eles, mas a situação parece ter-se invertido, e agora é Melissa que não quer mais sair. Ironicamente, Valeska começa a se preocupar com a amiga, percebe que ela está sofrendo, pois finalmente sentiu o Amor alojar-se em seu coração mas ela sabe que não pode fazer nada por Melissa, da mesma forma que Melissa não pode fazer nada por ela. Os meses passam lentamente, a rotina das três garotas continua a mesma. É como se nada mudasse, a vida para elas é um drama em câmera lenta e em meio às lágrimas elas tentam buscar um pequeno motivo para sorrir.

Caderno de notas de Valeska:

“Procura-se:
Procuro a qualquer preço a felicidade…
Mas a felicidade não tem preço…
Procuro-a na luz do teu olhar…
Teu olhar está distante do meu…
Procuro-a nas batidas do seu coração…
Na sua pele…
Sei que esses são os únicos lugares onde a encontro…
Mas você está tão distante…
E eu continuo a procurar…
Não a procuro em corpos estranhos…
Sei que não vou encontrar…
Procuro-a em meu coração…
Só a encontro quando me lembro de você…
Quando lembro nossos momentos,
Momentos felizes…
Momentos breves, se comparados ao tempo eterno de uma existência…
Ao lembrar, uma lágrima rola dos meus olhos…
Lágrima solitária… Saudades de você…
Esperança de um dia voltar a estar ao teu lado…
Enquanto isso…
Não preciso mais procurar minha felicidade…
Sempre soube onde encontrá-la:
Em você!
Minha alma não se separa da sua,
Mesmo distante…
Estou perto de você a cada segundo que se passa…
Feche os olhos… Sinta meu coração bater junto ao teu…
Meu coração apenas bate esperando por ti…
E um dia,
Talvez distante,
Talvez perdido nessa escuridão,
Nesse mundo nebuloso que é minha vida sem você…
Ocorrerá um mágico momento…
E nossas vidas se unirão novamente…
Desta vez para sempre…
Nesse dia,
Não mais buscarei a felicidade em algumas lembranças…
Nesse dia, voltarei a sorrir…
O mundo será mais colorido,
As flores mais perfumadas…
As palavras mais doces…
As canções mais suaves…
Nesse dia,
Voltarei aos teus braços…
Nesse dia a felicidade que eu tanto procurei
Virá ao nosso encontro…
E irá nos saudar…
E nos carregará nos braços…
E nos levará ao céu,
Sem precisarmos para isso deixar a Terra…
Até lá.
Resta esperar…
Resta buscar a felicidade em cada pequena lembrança…
Chorar de saudades,
E saber que,
No final de tudo…
Estarei novamente feliz,
Em seus braços…

Amo-Te!”

Capítulo 12

Já era madrugada e Marjorie ainda não havia pregado os olhos. Desde que havia abandonado Valeska, não conseguia dormir bem, mas aquela noite em especial estava sendo terrível. Apesar do horário, resolve dar uma volta na praia, para relaxar. A praia é a algumas quadras da casa onde mora. Ela pensa em desistir, mas não conseguiria mesmo ficar sozinha em casa.
É Sexta Feira, por isso há muito movimento. Jovens se divertem em grupos alegres. Marjorie fica imaginando o que os amigos estão fazendo. Pensa em Valeska, não consegue conter-se: Chora. Vai caminhando pela água, buscando a escuridão. Suas únicas testemunhas são as estrelas, frias e distantes.
Ela caminha até a ponta da praia, onde há alguns rochedos que ficam visíveis apenas quando a maré está baixa. Chegando lá, vê que está com sorte, a maré está muito baixa, e o local está vazio. Marjorie senta-se nas pedras mal iluminadas. Continua chorando incontrolavelmente.
Um homem se aproxima. Marjorie se assusta, pois só se dá conta da presença dele quando já está muito próximo.
Ele, porém, senta-se ao seu lado, e pergunta:
-Então, Marjorie, o que faz aqui, chorando, sozinha nesse lugar escuro?
-Christopher?
Ele a abraça carinhosamente. Ficam alguns instantes calados. Ela chora ainda mais..Aos poucos, vai sentindo-se protegida por aquele amigo querido.
Desde a separação, Marjorie ainda não havia aberto seu coração para ninguém. Sua dor a estava sufocando cada vez mais. Aos poucos, ela começa a se abrir.
Eles conversam durante toda a noite. Quando se dão conta, já está amanhecendo.
Christopher leva Marjorie para a casa dele, ela está com febre e ele se recusa a deixá-la sozinha em casa. Marjorie estava de folga, mas ele tinha que ir trabalhar. Ele a deixa dormindo no quarto que a filha usa quando vai visitá-lo, porém preocupado volta mais cedo para casa. Ao chegar, encontra-a ainda dormindo, a febre já está um pouco mais baixa,.
Marjorie acorda às 16h00min horas… Assusta-se ao ver que está numa casa estranha, só quando vê Christopher, se lembra do que aconteceu na véspera. Ele cuida dela, prepara uma refeição bem forte, leva-a até sua casa, para que pegue alguma roupa e passe a noite com ele.
Marjorie não sabe como retribuir tanto carinho. Não entende por que ele está fazendo isso, afinal, conhecem-se há tão pouco tempo.
Christopher não consegue parar de pensar em Marjorie. Ele gostaria de poder penetrar em seu coração e arrancar Valeska de lá mas percebe que nada do que ele fizer fará com que Marjorie a esqueça.
Na segunda feira, após a aula, Marjorie voltou para casa. Era estranho estar de novo naquele quarto vazio depois de um fim de semana com Christopher. De repente, ela sentiu uma grande saudade dele.
Decidiu ligar para conversarem um pouco, pois sabia que ele dormia muito tarde.
Christopher ficou muito feliz com o telefonema. Também estava achando estranho estar sozinho em casa. Perguntou se Marjorie queria ir para lá, passar a noite com ele. Ela recusou. Mas combinaram de sair juntos no fim de semana, ir à praia ou algo assim.

Em São Paulo, as coisas estão cada vez piores para Valeska. Ela não consegue se concentrar muito nas aulas, não consegue mais manter aquela aparência tranqüila de jovem aplicada e feliz.
Melissa, novamente termina o namoro. Ela busca alguém que a satisfaça como fêmea, não apenas como mulher. Ela não quer um bom rapaz que a ame com ternura, busca um Macho que a cubra de prazer.Não busca uma menina que a ame acima de tudo, não quer ninguém que seja capaz de morrer por ela, de chorar por ela, tudo o que quer é alguém que seja simplesmente capaz de saciar-se de prazer em seu corpo e permita-lhe fazer o mesmo. E como é difícil encontrar isso. Ela sabe que nunca foi amada pelas pessoas que passaram em sua vida, sabe também que nunca amou essas pessoas, mas por que então elas insistiram tanto em tornar sério o que ela queria que fosse apenas uma brincadeira, um passatempo? Apenas pelo prazer de chegar ao grupinho de amigos e dizer: Ela é minha namorada? Apenas pelo prazer da posse? Não, não com ela. Ela não queria possuir ninguém, e não queria ser de ninguém. Queria apenas se entregar a quem saciasse seus desejos mais íntimos, sem ter que prestar contas depois.

Chega o fim de semana…
As folgas de Marjorie são corridas, se na semana anterior ela estava de folga no sábado, nessa semana sua folga é no domingo. Christopher, como supervisor têm folga todos os domingos.
Na sexta-feira Christopher vai buscar Marjorie na saída do curso. Eles vão comer uma pizza juntos, depois vão para a casa dele.
No sábado, ambos chegam juntos no trabalho. Na saída, Marjorie se despede dos amigos primeiro, eles não querem ser vistos assim, tão juntos o tempo todo, pois as pessoas podem interpretar a amizade de maneira errada.
Christopher alcança Marjorie no caminho, ela entra no carro e eles seguem para a casa dele. Assistem a um filme juntos. Depois vão dormir. Novamente, Marjorie ocupa o quarto de Diana, que nesse fim de semana não havia ido para a casa do pai, pois estava em São Paulo, na casa de uma prima.
Passam um domingo maravilhoso juntos.

Todos os dias se falavam por telefone antes de dormir. Muitas vezes Marjorie falava com ele sobre Valeska, chorando. Esses momentos partiam o coração de Christopher, que não suportava vê-la sofrer daquela forma.
Seus fins de semana sempre são passados juntos, Marjorie e Diana tornam-se muito amigas.
Já estavam no final de Outubro, Christopher toma então uma decisão: Pede Marjorie em casamento.
Ela fica muito confusa, sabe que jamais será uma boa esposa para Christopher, jamais conseguiria entregar-se a ele, como mulher.  E, além do mais, o que a filha dele pensaria disso, afinal, ela e Diana têm praticamente a mesma idade. E Diana sabe que ela e Christopher são apenas amigos
Christopher se conforma com a recusa, mas promete a si mesmo que não desistirá de ter o amor de Marjorie, ou de vê-la feliz nos braços de Valeska, de convencê-la a perdoar o amor de sua vida.

Caderno de Notas de Valeska.
“Não se arrependa…
De sofrer por Amor…
De lutar por Amor…
Ou de não ter esperança com quem você ama.
Pois o verdadeiro Amor,
Deve ter em pequenas doses,
O sofrimento,
Deve ter luta.
O verdadeiro Amor é o que tem poucas esperanças de se concretizar…
Mas quando acontece, traz para a nossa vida o sabor inigualável da
Felicidade!”