Capítulo 7 : Bruna

”O destino nos guarda surpresas imensas… mesmo quando tudo parece perdido, sempre há uma direção a seguir. Os séculos jamais apagarão nossos sentimentos, bons ou ruins, eles sempre existirão…”

Uma nova anotação do diário de Mary, após tantos anos guardado no fundo de uma gaveta…

Matheus e Cècile Sandrin não puderam viver juntos apesar de sua paixão ardente ter gerado duas belas meninas. Após deixar os serviços que prestava à família Sandrin e retornar à propriedade dos pais Matheus envolveu-se com muitas mulheres de vida fácil, entre elas, Janaína, com a qual teve uma bela filha, Alessandra, filha que ele jamais conheceu, mas que, por uma arte do destino, acabou casando-se com um rico fazendeiro norte-americano e iniciando uma das mais influentes famílias da região sul dos Estados-Unidos. Após muitas gerações, já na época da guerra de secessão, Carmilla, filha bastarda do herdeiro daquelas terras e daquele nome, tataraneta de Janaína e Matheus, foi juntar-se àquela família, ela e Bárbara, sobrinha dos donos das terras viveram um romance ardente, até a noite em que Carmilla foi transformada em vampira por Bianca que pela primeira vez em séculos perdera seu autocontrole e deixara seus instintos falarem mais alto que seus sentimentos.
Carmilla se tornou uma vampira cruel, guiada pela dor e pela luxúria, jurou vingar-se de Bianca tirando-lhe para sempre seu grande amor, Emanuelle.
Bárbara, acreditando ter sido traída pela bem-amada, refugiou-se em um convento. Após treze anos de celibato, conheceu um padre, com o qual se envolveu, gerando uma filha, Luciane. O amante de Bárbara era ninguém menos que um dos bisnetos de Antony, filho de Marcus, que por sua vez, era filho de Leonna, a mesma filha de M. III com Marianne que tomou o lugar de sua filha legítima, morta no parto, portanto, Luciane, filha de Bárbara, pertenceu a mesma ramificação da árvore genealógica que formou a família de Mary. Mesmo sangue, misturado pelas aventuras e amores. Mesmo sangue. Mesma essência…

Os cabelos louros esvoaçavam ao vento… Como era gostoso aquele sol leve da manhã. Estavam em São Vicente, cidade onde Mary havia desaparecido, anos antes de Bruna nascer… Ela havia visto a irmã por fotos e muitas vezes imaginava por que havia sumido daquela forma, sem deixar rastros. Nenhuma carta, nenhuma pista… Havia também conhecido Emanuela e, apesar da diferença de idade eram amigas, até que esta também desapareceu. Mais um ponto de interrogação na vida de Bruna. A irmã e depois sua melhor amiga. Onde estariam? Muitas vezes tentara falar com Emanuela sobre o desaparecimento de Mary, mas esta sempre mudava o assunto, como se houvesse algo muito misterioso, mais misterioso do que o desaparecimento em si… Os anos passaram e Bruna sempre fora superprotegida, afinal, era a filha única de um casal traumatizado. Solitária, mas ao mesmo tempo muito pensativa, estava agora com 20 anos, ainda não sentira o amor tocar seu coração, nem o desejo tirar-lhe o sono nas noites solitárias. Aquele verão, porém parecia-lhe diferente, pressentia que em breve algo iria mudar para sempre sua vida.

Bianca e Mary passavam muitas horas juntas. Tentavam descobrir uma maneira de convencer Carmilla a libertar Emanuelle, mas sempre chegavam à conclusão de que a única maneira possível seria esperar que se completassem os 113 anos de servidão obrigatória, o que seriam 113 anos para quem tinha a eternidade pela frente? Mesmo assim, não se conformavam com a opção de deixá-la sofrendo por tanto tempo.Certa noite ocorreu a Mary perguntar sobre a possibilidade de encontrarem Bárbara, não poderia ela já ter retornado ao mundo dos Mortais, em busca de sua amada Carmilla? Começaram então uma busca intensa pelos registros mantidos por Bianca e também por outros vampiros que valorizavam o estudo e conservação dos dados relativos à formação das famílias desde seus antepassados até os dias atuais. Acabaram descobrindo que a família de Mary e de Bárbara tinha raízes muito próximas, portanto, haveria uma grande chance de Bárbara retornar ou já ter retornado entre os parentes de Mary… Olharam fotos e mais fotos, procurando pessoas que pudessem ser semelhantes à Bárbara. Tal qual Carmilla, Bianca nunca havia esquecido os olhos assustados da moça ao ver a amada nos braços de outra. Saberia reconhecê-la, caso já tivesse passado novamente por este mundo. Após semanas de pesquisa intensa, chegaram à conclusão de que Bárbara não estivera entre os familiares já falecidos de Mary. Talvez entre os atuais, ou entre os que ainda estavam para nascer.
Mary desejava ver novamente os seus, mesmo que estes não pudessem vê-la. Após conseguir a permissão de M. para que pudesse se ausentar viajou com Bianca. Encontrou várias pessoas de sua família que sequer sabia que existiam – primos e primas distantes, muitos frutos de amores ilegítimos. Restava apenas uma casa a visitar: A própria casa onde Mary havia sido criada… Passaram por lá, estava vazia, pois todos haviam ido passar as férias na praia. Era a primeira vez que Mary via a casa materna desde a sua transformação. Havia muitas fotos suas e também fotos de outra moça, com certeza sua pequena irmã. Uma dessas fotos chamou a atenção de Bianca, uma foto onde Bruna aparecia ao piano, em uma peça de teatro do colégio. Finalmente haviam encontrado: Bruna e Bárbara eram a mesma pessoa.
Bianca procurou Carmilla e contou onde se encontrava Bárbara. Foi um momento emocionante quando Carmilla a viu: dormia como um anjo, sem perceber a presença daqueles dois seres da noite que velavam seu sono… Carmilla não podia dar-lhe o Beijo da Eternidade, deveria esperar os 50 anos necessários… Mas, e se Bruna não vivesse mais 50 anos? Arrependeu-se de ter trazido Emanuela, deveria apenas tê-la matado. Era tarde demais para arrepender-se. Tudo isso a perturbou muito, passou a tratar Emanuelle de maneira mais cruel do que já havia tratado até então. Bianca tentou conversar com Carmilla, propôs-se a transformar Bruna e libertá-la e em troca, Carmilla deveria libertar Emanuelle. Sem sucesso, após tantos anos de sofrimento ela não queria saber de negociações, a raiva que trazia no peito tornava-se imensamente mais poderosa que o amor.

As rochas estavam quentes devido ao Sol, mas a beleza do lugar exercia um encanto incomum sobre Bruna. Uma a uma, lentamente, ela ia vencendo a distância até a ponta do Emissário, onde se sentou para observar o mar. Era temporada e ela podia ver na areia milhares de pessoas deitadas ao sol, tentando fazer a pele chegar a tal “cor de verão”, definitivamente, este não era o estilo de Bruna. Antes ficar ali, sentada ,pensando, observando a beleza das ondas, do mar. Quando encontraria alguém para amá-la? Alguém que pudesse simplesmente ficar ali com ela, horas a fio, apenas sentindo toda a energia que a Natureza ofertava? As horas foram se passando, e com elas o Sol. Veio a noite, a lua cheia… Bruna ainda estava no mesmo lugar… Sentiu que alguém a observava pelas costas, virou-se e encontrou um envelope

Olhe para as ondas do mar…

 Elas são como o Amor que está em nossa alma…Às vezes calmas e tranqüilas, as vezes agitadas, tempestuosas mas sempre constante, repetindo o mesmo caminho, o mesmo som.Mesmo quando o mar está tranquilo, e suas ondas apenas murmuram algo ao longe, podemos reconhecer o mesmo som que se escuta em meio a uma tempestade, apenas um pouco mais suave.

O Amor é assim: Mesmo quando parece distante e apenas podemos ouvir seus leves e doces murmúrios, sabemos que ele é intenso. Sabemos que ele percorrerá tantas e tantas vezes os caminhos de nosso coração, esculpindo-o, como as ondas fazem às rochas à Beira-Mar. E sei que essas ondas de Amor que trago em meu peito, sempre repetirão num doce murmurejo o teu nome.

Era uma linda mensagem… Para quem teria sido escrita? Por quem? Como passara ela por ali e não vira o envelope? Sentiu um arrepio percorrer lhe todo o corpo quando Bianca tocou-lhe o ombro, mas não viu ninguém. Decidiu sair dali, já era muito tarde.
Dias depois, voltou às rochas durante a noite, encontrou na mesma rocha um caderno um tanto velho, parecia um diário. Começou a ler as primeiras páginas, tratava-se do diário de uma menina chamada Mary, mesmo nome de sua irmã. Contava uma longa história de amor através de muitos séculos. Começou a imaginar que a Mary da história fosse sua irmã Mary. Era uma maneira doce de se conformar com o desaparecimento daquela garota que não chegara a conhecer mas que estava sempre presente em seus pensamentos. Levou o diário para casa. Durante dias, dedicou-se a entender a caligrafia complicada e todos os detalhes daquela estória incomum. Na última página pôde finalmente ler e entender sua própria estória. Então ela também fazia parte dessa trama secular, por isso não encontrava ninguém para amar. Seu grande amor já estava escrito: Carmilla. Quando ela viria buscá-la?

 Noite de ano novo.

A praia estava lotada, várias pessoas aguardavam ansiosamente a queima de fogos que anunciaria um novo ano. Bruna estava deslumbrante, num vestido azul-escuro curto e muito colado ao corpo. A pele naturalmente branca estava morena, devido ao sol. Entrou na água e pulou as sete ondas, embora não acreditasse muito nisso. Pediu que pudesse, naquela noite, ver sua amada Carmilla. Ao sair da água, encontrou-a na areia, e mesmo sem nunca ter visto-lhe o rosto, reconheceu-a imediatamente. Correu a abraçar-lhe, pedindo que a levasse com ela. Carmilla explicou-lhe que não podia, pois havia transformado Emanuela alguns meses antes. Passaram a noite juntas, amando-se como só quem já alguma vez perdeu no tempo um grande amor pode entender.
Bruna decidiu que esperaria os 50 anos necessários, até que Carmilla pudesse vir buscá-la. Esperaria séculos por seu único e grande amor, nada mais lhe importaria, apenas esperar e esperar, um dia estariam juntas, o amor sempre venceria. Escreveu uma carta para Carmilla e deixou-a nas rochas, onde havia encontrado o diário…

Sinto saudades, tantas como jamais imaginei sentir um dia. Pensei que fosse forte, forte o suficiente para agüentar a tua ausência, mas, depois que estivemos juntas, vi que não sou tão forte quanto pensei ser, e tudo que quero é tê-la de volta. Descobri dentro de mim coisas novas, que jamais imaginei existir. Me pego pensando no que podes estar fazendo e sinto ciúme de ti, de imaginar que podes estar em outros braços que não os meus. Queria poder ser a brisa que toca teus cabelos, que te refresca nas noites quentes. O cobertor que te aquece nas madrugadas frias. A água que banha teu corpo e mata tua sede. Quero ser tua mulher, tua amiga, tua amante e tua companheira, tudo ao mesmo tempo, pois quero apenas ser tua para sempre. Preciso sentir esse teu olhar felino me devorando aos poucos, preciso de você como preciso do ar que respiro e até mais que isso. Sem o ar, sei que morreria, meu corpo morreria e minha alma estaria livre. Livre para voar até o infinito e te acompanhar, te proteger de tudo e de todos. Mas sem você… Sem você eu não vivo, apenas sobrevivo aprisionada num mundo que sem você ao meu lado, nada vale. Não tem brilho, beleza, cor, luz ou calor. Não imaginas como é difícil eu escrever esses sentimentos. Sempre fui tão racional, tão forte… Nunca havia sentido ciúmes… Nem um pouco… E agora me vejo repentinamente lançada neste mar de sentimentos fortes e impetuosos… Queria poder grudar em você e nunca mais soltar… Levá-la para uma Ilha deserta, eu, você e mais ninguém ao nosso redor. Mas sei que não é preciso tanto, pois quando estivermos novamente juntas, nosso amor será tão forte, que mais nada existirá ao nosso redor, não em nossos momentos pelo menos. E quando for necessário sair do nosso mundo, teremos mais força e vigor para enfrentar essa humanidade cruel que nos aguarda. Seremos nosso único abrigo e refúgio.
     Não consigo parar de pensar em você. Durante cada instante do meu dia me sinto aprisionada pela solidão, por não tê-la perto de mim… Por não ter sequer uma notícia tua… Pela primeira vez, sinto a necessidade de ouvi-la dizer que pensa em mim… Que nas noites frias e solitárias, é em meu corpo que gostaria de se abrigar e em meu coração que gostaria de se aquecer. Quero-te e te amo tanto… Você talvez não consiga imaginar o quanto… Não dá pra te dizer, mas sei que, se você neste momento fechar seus olhos e pensar em mim, talvez consiga sentir um pouco a força deste sentimento que está em minha alma desde que o mundo é mundo. Desde que brilhou no céu a primeira estrela, esse sentimento está em meu peito, esperando por você…
Amo-te, muito mais do que o infinito…
Beijos,
Da Sempre Tua,
Bárbara (ou Bruna)”
 

Em algum ponto distante, Bianca e Mary conversavam… O assunto era o mesmo: Emanuelle, Carmilla e Bruna… Carmilla deixara aquele poema para Bruna, em outra noite, Mary e Bianca deixaram o diário de Mary, com toda a história para que Bruna pudesse saber tudo o que se passou ao longo de tantos séculos. Bastou isso, para fazê-la apaixonar-se por Carmilla… Por que Emanuela não havia se entregado tão facilmente ao amor de Bianca? Era um mistério que nem o tempo desvendaria…

Bruna dormia, estava de volta à sua casa, parecia uma pequena princesa de algum conto de fadas cercada por seus lençóis cor-de-rosa, bonecas e bichinhos de pelúcia. Mary sentou-se delicadamente a seu lado na cama, acariciou os longos cabelos e aspirou o perfume por eles exalado, impressionava-se, como era linda a sua pequena irmã, e, no entanto, como eram fisicamente diferentes. Sentiu-a mexer-se e segurar-lhe as mãos, com quem estaria sonhando? Nos lábios, um sorriso e o sussurro de um nome: Carmilla.
Delicadamente, Mary a fez acordar… Abraçaram-se, sem palavras por se encontrarem pela primeira vez após tantos anos. Conversaram longas horas e Mary pode notar o quanto Bruna estava apaixonada por Carmilla. Lembrava-se de si mesma, quando aos dezesseis anos tivera o primeiro contato com Bianca. Emanuela achava que ela estava louca. Sua primeira noite de amor nos braços de M. tudo tão perfeito. Explicou à Bruna como Carmilla estava mantendo Emanuela prisioneira, que só ela caso se deixasse transformar poderia convencer Carmilla a libertar a amiga.Bruna, porém, estava relutante, e se Bianca a transformasse apenas para aprisioná-la durante séculos?
Faltando algumas horas para a aurora, Mary deixou Bruna sozinha, sem conseguir convencê-la a entregar-se. Ela desejava ser transformada pela amada, não por uma amiga de sua irmã. Por outro lado, pensar em Emanuela aprisionada a deixava profundamente triste afinal Emanuela fora sua amiga enquanto mortal.
Carmilla passou a visitar Bruna em algumas noites. A cada visita pedia que ela não se deixasse transformar por ninguém, que os 50 anos passar-se-iam rapidamente e elas poderiam então ficar juntas, para sempre.
Para Bianca e Mary, restava uma última opção: transformar Bruna a força, tal qual Carmilla transformara Emanuela.

BIANCA

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