Capítulo 4 – O reencontro

“Reencontrar alguém que amamos é como reencontrar uma parte de nós que ficou perdida em algum ponto distante de nossa alma…”

 BIANCA

 

Após dez anos Emanuela finalmente decidiu passar algumas semanas em São Vicente. Foi com algumas amigas, apesar das lembranças que lhe atormentavam. Certa noite estavam todas na praia, bebiam e ouviam música em um quiosque e nem perceberam quando furtivamente, Emanuela afastou-se do grupo. Caminhou ao acaso até chegar ao emissário. Como tudo estava diferente! Havia mais iluminação e muito movimento devido a uma festa de inverno que a prefeitura passara a promover. Mesmo assim conseguiu localizar aquele banco onde anos antes vira pela última vez sua melhor amiga. Ainda pensava que poderia tê-la impedido, ter contado aos pais dela antes que fosse tarde. Mas ela teria esse direito? Não, certamente que não. Sentiu uma mão segurar a sua. Olhou para o lado. Uma bela mulher com um vestido vermelho de veludo e um véu cobrindo-lhe a face, estava sentada ao seu lado. Não conseguia distinguir direito, mas aquele rosto era-lhe conhecido. Lágrimas vieram-lhe aos olhos quando reconheceu Mary. Então, ela também havia mudado. As pessoas também envelheciam na Eternidade, ela não era mais apenas uma garotinha de dezesseis anos. Era uma linda mulher.
-Não sua boba, nós não envelhecemos. Apenas podemos assumir a aparência que nos apeteça.
-Como você…?
-Também conseguimos ler pensamentos.
Abraçaram-se.
-Mary… Como você está? Conta-me sobre a sua vida! Que saudades…
-Não posso te contar certas coisas, você deve vivê-las, se quiser…
-Por que demorou tanto para vir me visitar?
-Tenho meus motivos, mas sempre fico sabendo da sua vida, através de Bianca.
-Diga para ela se manter longe de mim, eu consigo senti-la em todos os lugares por onde passo…
-Não posso pedir isso, estaria acima de suas forças.
-Mas essa presença às vezes me faz ter vontade de ir com vocês…
-Então, simplesmente venha.
-Você diz para eu deixar tudo e seguir alguém…
-Como eu fiz… E jamais me arrependi…
-Você tem tido notícias da sua família?
-Lógico… Sei que tenho uma linda irmã, de onze aninhos, chamada Bruna. Meus pais ainda se lembram de mim, e sentem minha falta, mas isso faz parte…
-Você não pode visitá-los?
-Eles não entenderiam, iam achar que estão loucos, ou algo parecido…
-Tem razão.
-Mas não foi isso que me trouxe aqui. Quero saber quando você vai decidir vir para o lugar a que você pertence.
-Nunca.
-É sua última palavra?
Um leve estremecimento de dúvida e medo percorre todo o corpo de Emanuela, mas mesmo assim ela afirma o que havia dito: jamais deixaria seu mundo. Mary desaparece, deixando-a novamente só…

Emanuela fazia o possível para negar a si mesma o quanto a aparição de Mary havia abalado seus sentimentos… Muitas vezes pegava-se distraída, pensando na amiga, na sua vida, em Bianca… Abandonar tudo e ir viver a eternidade, um mundo novo… Valeria a pena?
Observava a pequena cicatriz em seu braço… O pacto de sangue que a unia para sempre a Bianca… Mary, ou melhor, Susan, não fizera nenhum pacto com Lorde M., e, no entanto, sem duvidar, abandonara tudo para segui-lo…

 

 

 

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