Capítulo 2 – O despertar de Mary (III)

BIANCA

Terça Feira, 15 de Outubro de 1996.

 Hoje foi uma noite muito diferente. M. levou-me a um antigo castelo, fomos em sua carruagem pois ainda não aprendi a me transportar como ele. Nesse castelo, funciona uma espécie de escola, um local onde se ensinam aos novatos tudo o que precisam saber… É uma invenção recente, quando Bianca veio para este mundo, Cristhine encarregou-se de ensinar-lhe tudo o que precisava saber, e ela ensinou a M.III… Mas os séculos se passaram e até mesmo nosso mundo sofreu mudanças por isso criou-se a Escola de Vampiros, onde podemos aprender muitas coisas. Amanhã será meu primeiro dia, ou melhor, primeira noite. Estou muito ansiosa. Sei que uma de minhas professoras será Bianca, e isso me deixa mais tranqüila. Sinto-me como uma colegial que se mudou de cidade e aguarda o primeiro dia em sua nova escola.

Quarta-Feira, 16 de Outubro de 1996.

Minhas primeiras aulas na Escola de Vampiros:

Estou começando a aprender como me transportar sem precisar caminhar e também a ficar visível aos olhos humanos (basta vibrar na intensidade deles, mas não sei como explicar por escrito, já que nossas aulas são práticas), aprendi que é quase impossível ficar invisível aos olhos de outro vampiro, já que nossas frequências são praticamente iguais. Nosso pensamento é energia concentrada, o que torna possível que movimentemos corpos sem precisar tocá-los, e isso inclui o ar (daí o vento frio que invadia meu quarto sempre que Bianca chegava, era sua maneira de dizer “estou aqui”).Existem algumas lendas acerca de nossa espécie que devem ser esclarecidas:

-O alho não é fatal para nós, como muitos pensam… Apenas nos divertimos, deixando os mortais acreditarem nessa superstição tola.

-Estacas de Prata podem sim, nos matar, mas para isso, elas devem ter sido armazenadas em alguma espécie de templo, a Prata é um metal que retém energias, por isso, se atacar um vampiro com uma estaca de prata guardada durante séculos em algum local obscuro, apenas estará dando mais energia a ele, pois estará impregnada das mesmas energias que temos em nosso corpo.

-Ouro tem sobre nós um efeito semelhante ao da prata, pois também é um metal que armazena energias, portanto, devemos ter muito cuidado com esses metais, pois nunca sabemos que energias eles podem conter.

-Alguns dizem que a Cruz é fatal a nossa espécie. Tolo engano, apenas cruzes de Ouro ou Prata podem nos ser fatais, desde que observado o que foi explicado acima. Nada mais idiota do que atacar um vampiro com uma cruz de cemitério, por exemplo.

-O Cristal é uma pedra de Energia tão ampla e pura que nos é extremamente fatal. Apenas alguns de nós aproximam-se dele e saem ilesos.

-A radioatividade é fatal. As bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki fizeram desaparecer milhares dos nossos que habitavam o Japão. Por isso, nossa espécie luta pela Paz entre os mortais. Uma guerra atômica iria destruir não apenas os seres vivos do planeta – também iria destruir-nos.

-Com o passar dos séculos, vamos aumentando nossa amplitude de variação energética, nos tornando mais resistentes à luz, aos templos a Prata e ao Ouro e as cruzes.

-Para onde vai um vampiro, quando ele é atingido por algo que lhe é fatal? Sabe-se apenas que sua energia se dispersa e não consegue unir-se mais, mas exatamente o que acontece, ninguém sabe, é quase a mesma pergunta que os mortais se fazem, durante suas crises existenciais: “De onde vim? Para onde irei?”

 Aparentemente, vampiros não são seres muito sociáveis, passei três longas horas esta noite na Escola de Vampiros e não consegui conversar com nenhum dos meus colegas…

Quinta Feira, 17 de Outubro de 1996.

Bianca e eu nos encontramos na aula prática de caça. Ela me deu um abraço apertado, disse estar orgulhosa de mim, da coragem de abandonar todos para seguir o meu homem, o homem que o destino me reservou. Tenho tanto o que perguntar, ainda não sei o porquê de o meu diário estar comigo quando deveria estar nas mãos de Emanuela, porém ela não me dá tempo para indagações. Guia nosso grupo diretamente para a floresta fechada, onde começamos a aprender a caçar. Ainda não caçamos humanos, apenas pequenos roedores – e estes nos dão muito trabalho, percebem nossa presença mais rápido do que nós percebemos a deles. Ainda estamos demasiadamente presos aos sentidos humanos, em geral menos sensíveis do que os nossos.Após exaustivas três horas consegui apenas obter um pequeno rato do mato, que seria insuficiente para me alimentar.

 Sexta Feira, 18 de Outubro de 1996.

 Razões pela qual um Vampiro caça um Mortal:

-Conseguir alimento: O Sangue Humano é o mais apropriado a nossa espécie, uma vez que contém nutrientes que não conseguimos mais produzir (e aqui entram novamente maçantes explicações técnicas e científicas).

-Defesa: Quando atacados, instintivamente nos defendemos. (Sim, existem os tão temidos caça-vampiros, mas muitos deles acabam-se tornando pratos apetitosos para suas presas.)

-Propagar a espécie: Vampiros e vampiras não engravidam como mortais. Quando mordemos alguém, e lhes damos o Beijo da Eternidade (onde o Vampiro morde os lábios, dando sangue ao humano que se encontra no limiar da vida e da morte após ter tido seu sangue drenado pelo vampiro), trazemos mais um ser para nosso mundo. Há um controle rigoroso por parte das autoridades (um vampiro só pode trazer para este mundo um Mortal a cada 50 anos), pois vampiros não podem praticar o canibalismo e, portanto, não podem transformar Mortais em Imortais indiscriminadamente, sob o sério risco de faltar comida. Após ser trazido para este mundo, o novo ser deve obedecer às ordens de seu transformador por, pelo menos, 113 anos, porém, se seu Mestre lhe der consentidamente um pouco de seu próprio sangue, o novo vampiro estará livre para viver sua Eternidade como e onde bem entender.

 Sábado, 19 de Outubro de 1996.

 A noite estava escura, sem luar. Bianca, eu e M.III passeavamos tranquilamente pelo vilarejo, deserto àquela hora. Paramos  à beira de um pequeno lago artificial que havia bem no centro da praça. Conversamos como velhos amigos que há muito não se veem. A temperatura estava baixa, mas nos é indiferente.

 Eu e M. estamos radiantes, como qualquer jovem casal apaixonado. Apenas Bianca tem seus momentos de silêncio, e posso sentir seus pensamentos viajarem até Emanuela e voltarem novamente. Percebe-se o quanto Bianca está ferida com a recusa da mulher amada em acompanhá-la…. de M.III. Sinto saudades de minha família, e também de Emanuela, mas esse sentimento vai aos poucos sendo soterrado pelo passar do tempo. Gostaria de saber ao menos como estão as pessoas que eu amo, que me amam e que ficaram naquele mundo distante mas mesmo que conseguisse viajar até eles, não poderia ir, não sem o consentimento de M., meu Amado, Amante e Mestre.(Não vou mais escrever M.III, basta M.).

Não estudamos aos sábados e domingos na Vampire School, mas a exemplo dos Mortais, temos deveres de casa. No nosso caso, algo extremamente importante: Caçar nosso próprio alimento: M. me leva até a mata, para que eu possa praticar. Orgulhosamente, consigo alcançar uma espécie de cachorro do mato, um mamífero grande que a maioria dos meus companheiros de turma demorará ainda algum tempo para conseguir, de acordo com as explicações entusiasmadas de Bianca e M.

 Domingo, 20 de Outubro de 1996.

 Mais uma agradável noite de folga ao lado do meu M. Temos uma vida doce, tranquila e noites de sexo apimentadas, quase selvagens que me abstenho de escrever aqui pois sua simples lembrança faz-me desejar tê-lo novamente em meus braços, dentro de mim, me enchendo com seu prazer…

 Sinto-me cada vez mais forte, consigo caçar pequenos mamíferos e me alimentar. Logo estarei caçando Mortais, pois precisamos de pelo menos um cálice diário de seu sangue. Minha velocidade de deslocamento também tem aumentado, assim como a sensibilidade dos meus sentidos. O estágio na Escola de Vampiros deve durar em média um mês, nesse tempo, devemos ser capazes de sobreviver sozinhos, caçar, andar, ler e influenciar mentes… No início, achei que não iria conseguir, agora, tenho certeza de que meio caminho já está vencido.

 Segunda Feira, 21 de Outubro de 1996.

 É interessante, mas pouco a pouco vou perdendo o interesse por hábitos antigos, por exemplo, escrever neste diário. Sempre o usei como companhia para meus momentos de solidão, um local seguro para guardar meus sentimentos mas agora não vejo mais sentido… A eternidade que tenho para viver é infinita e intensa, nenhuma palavra escrita poderia expressar tudo o que se passa em minha alma quando penso nisso. Gostaria de saber como está Emanuela, mas não tenho coragem de perguntar à Bianca, apesar de desconfiar que ela continue a visitar minha amiga na calada da noite.

 Terça Feira, 22 de Outubro de 1996.

 Essa é a última página que escrevo. Meu diário foi meu companheiro enquanto mortal. Aqui ficam registros de uma vida breve. Palavras que guardarei apenas como lembrança, não para mim, pois essas lembranças e esses momentos jamais sairão da minha alma. Quem sabe, um dia, eu não os entregue a alguma jovem mortal, bela e triste, solitária e apaixonada, para que ela escreva, em meio aos seus devaneios, minha história.

*** Próxima postagem: Capítulo 3… Como estará Emanuela?*** Aguardem!

Capítulo 2 – O despertar de Mary (II)

BIANCA

Segunda Feira, 14 de Outubro de 1996.

Novamente acordei com as caricias de M.III. Já não me sentia assim tão cansada ou frágil quanto ontem mesmo assim recebi alimento na cama, M. não me deixou levantar, mas ficamos conversando… Descobri que estou numa pequena casa, no interior da Inglaterra, muito longe de qualquer contato com a civilização humana, por isso antes de sair para caçar, precisarei treinar muitas outras coisas, poderes que os seres humanos têm e não usam por falta de sensibilidade, como por exemplo influenciar pessoas, transmitir pensamentos a outros, ler o que se passa nas mentes dos que estão perto de nós… E também poderes que apenas nós temos, M.III me explica que o que separa nosso mundo do mundo humano é uma tênue barreira energética. Por exemplo, muitos vampiros vivem confortavelmente em casas luxuosas, em meio a grandes metrópoles, como eles conseguem? Simples, coabitando com famílias humanas. Onde as pessoas “normais” enxergam apenas uma enorme mansão, podemos ver nossa casa, a casa que foi habitada durante séculos por um de nós, até chegar um mortal arrogante e demoli-la para construir outra mais moderna, arrojada e confortável. Eles conseguem destruir a construção, mas não a energia do local… E é nessa energia que nós nos abrigamos, pois nosso corpo é formado por ondas energéticas que vibram numa intensidade diferente da dos mortais. Por isso, podemos nos transportar para onde quisermos sem necessitar caminhar, utilizar um carro ou uma carroça, basta aprender a dominar a técnica de mudar nossas vibrações, misturando nossas ondas ao ar, e num simples piscar de olhos estaremos onde desejamos. Parece complicado, mas ele me garante que aprenderei depressa. Apesar desse poder de autotransporte, muitos temos carruagens, pois o glamour de chegar a um local numa bela carruagem puxada por uma parelha de corcéis negros é muito maior do que o de chegarmos “pelo ar”… Nossa delicada relação com o Sol me intriga, por que ele nos é proibido? Pelo que posso entender, é uma questão complexa envolvendo energia, ondas, calor, muitos cálculos físicos e estudos biológicos e bioquímicos, tudo apenas para explicar que ele nos atinge mais do que atingiria a um humano normal.Por exemplo, sabemos que num mortal, os raios de sol, ou melhor, a radiação solar, vai aos poucos matando as células. Em nosso corpo, já naturalmente sujeito as mudanças de ondas e vibrações energéticas, os efeitos dessa radiação se multiplicam milhões de vezes, fazendo do Sol algo fatal para nós.

A questão dos Templos também é interessante, é um dos grandes mistérios do mundo vampírico, algo que os mais renomados cientistas (sim, temos uma grande sociedade, com escolas, professores, cientistas, políticos e quase tudo que os mortais têm) não conseguem explicar. Podemos notar que a vibração energética desses locais é muito ampla e por isso não conseguimos adaptar as nossas vibrações a ela, nossas ondas se desfazem em meio a tanta energia e, por algum motivo, não conseguem mais juntar-se, fazendo com que nosso corpo desapareça, para sempre…

Capítulo 2 – O Despertar de Mary (I)

“Como é doce quando finalmente chegamos ao fim da trilha e encontramos nos olhos de alguém aquela luz que nos guiou através de todas as barreiras, podemos ver o milagre de uma nova luz a se acender, e nos mostrar então, que a estrada não terminou, mas que, de agora em diante, teremos companhia para seguir caminho… o caminho da vida… que muitas vezes parece sem sentido, mas que nunca queremos abandonar… percorrer as estradas ao lado de quem amamos é descobrir a cada dia um mundo novo…”

 

Domingo, 13 de Outubro de 1996.

Acordei em uma larga cama, podia perceber pelo modelo, que se tratava de um móvel muito antigo, na cabeceira, duas velas iluminavam levemente o ambiente. Demorou um pouco até que meus olhos se acostumassem a pouca luz. Em minha mesa de cabeceira, uma rosa branca, sua alvura manchada por duas gotas de sangue. Passo a mão pelo pescoço e posso sentir ainda uma leve dor onde M.III mordeu-me. Relembro minhas últimas horas como mortal. Como estava deslumbrante em meu vestido negro, que contrastava com a alvura de minha pele, noto que ainda estou com ele, e me alegro, talvez isso seja um sinal de que M.III o aprovou. Lembro-me do calor da noite e da brisa gelada que percorria meu corpo, ao chegar ao Emissário, me despedi de Emanuela, deixando-a sentada na escada. Subi e me encaminhei até as rochas mais afastadas, a escuridão era completa. De repente, sob a luz do luar, pude vê-lo, vinha caminhando em minha direção. Usava uma roupa antiga, uma longa capa negra. Ele chegou e, sem dizer nada, tomou minhas mãos, cingiu-me a cintura com força, mas nem por isso indelicadamente. Pude sentir sua respiração se aproximando de meu corpo. Olhou dentro dos meus olhos e beijou-me. Tenho que confessar que foi meu primeiro beijo, um beijo doce, que me transportou ao paraíso. Aos poucos suas mãos começaram a percorrer meu corpo. Podia senti-lo arrepiar-se, a respiração cada vez mais ofegante, seu corpo trêmulo.

-Você quer?

Apenas pude balançar a cabeça, em sinal afirmativo, estava muda em meu espanto e emoção, e também em minha excitação. Sentia aos poucos meu sexo ficar molhado, como muitas vezes havia lido nos romances e imaginado que jamais iria me acontecer. Ele aos poucos vai abaixando as alças do meu vestido, até deixar-me nua, iluminada apenas pelo luar. Afasta-se e me olha, um olhar cheio de desejo, desejo acumulado durante séculos. Ele me abraça novamente, deita-me em uma rocha grande, começa a me tocar me fazendo gemer baixinho. Aos poucos se vai despindo também. Sinto uma leve pontada de dor quando ele se coloca dentro de mim, mas a dor é logo abafada pelo prazer. Ele se movimenta, às vezes lentamente, às vezes com mais violência. De repente, chego a um ponto em que não posso mais suportar, um gemido mais alto, vejo as estrelas não distantes, lá no céu, mas sim ao meu redor. Nessa hora sei que cheguei ao meu primeiro orgasmo. Sinto-o aproximar-se de meu pescoço, não sinto dor quando ele me morde, apenas o calor do sangue a escorrer. Aos poucos, vou ficando desacordada, e a última coisa de que me lembro são seus lábios se aproximando dos meus, para dar-me o Beijo da Vida Eterna.

Novamente cochilo, para acordar algumas horas depois, com M.III ao meu lado, acariciando meus cabelos. Nossos olhos se cruzam. Um leve rubor transpassa minha face, ao me lembrar de como ele me havia feito mulher antes de me morder. Como que adivinhando meus pensamentos, ele deita-se ao meu lado e me beija de leve, com ternura. Sinto sede, muita sede. Ele me oferece uma taça cheia de sangue fresco, que sorvo com prazer. Ele me entrega um pequeno volume, envolto num veludo vermelho, abro-o e reconheço meu diário, como? Eu o havia deixado naquela pequena caixa, como uma lembrança para Emanuela. Não tenho ânimo para fazer perguntas, ainda me sinto muito cansada, há muito que perguntar, há muitas respostas para obter, mas tudo isso pode esperar mais alguns dias. Apenas pergunto a data e começo a escrever minhas primeiras impressões, sob o olhar atento e doce de M.