O Diário de Mary (XVI)

BIANCA

São Vicente, 03 de Julho de 1996, Quarta-Feira.

Emanuela está em choque. Bianca apareceu em nosso quarto há alguns minutos. Eu estava me preparando para dormir, nem ia escrever hoje, Emanuela já estava deitada, quase pegando no sono, quando não pode disfarçar ter sentido o cheiro das rosas, e um vento gelado que entrava pela janela. Quando vimos, Bianca estava sentada bem na beirada de sua cama. Usava aquele vestido vermelho, de corte medieval, sobre ele, uma capa negra, destacando a brancura de sua pele. Ela chegou perto de Emanuela, beijou-lhe a face, acariciando lhe os cabelos. Emanuela estava cada vez mais pálida. Lágrimas lhe escorriam pelas faces. Seus olhos estavam vidrados, apavorados. Bianca perguntou-lhe se desejava viver com ela pela Eternidade. Emanuela apenas acenou a cabeça negativamente. Seria o fim? Emanuela tinha decidido, mais uma vez quebrar o Pacto? O que aconteceria? Pude sentir o desespero de Bianca, sua impotência para lutar pela mulher amada. E assim como havia aparecido, Bianca desapareceu, levando com ela o perfume das rosas.
Ao acordar, encontrei sob meu travesseiro a seguinte mensagem:

“Querida Mary,

Se você ainda deseja juntar-se a M. encontre-o Sexta-Feira, à Meia-Noite, nas rochas do Emissário Submarino de Santos. Não se atrase. Leve Emanuela com você, mas a deixe a certa distância… Você saberá a hora de deixá-la.

Até logo,
Beijos,
Sua amiga,
Bianca”
São Vicente, 04 de Julho de 1996,

 Hoje é meu último dia neste mundo, estou me vestindo para sair. Acabei de tomar um banho, estou usando meu melhor perfume e um vestido longo de cetim negro, decidi não usar nenhuma maquiagem, apenas um colar de prata envelhecida e um anel no mesmo material. Meus cabelos estão soltos, negros como a noite… O mais difícil é convencer Emanuela a sair comigo, escondida de minha mãe, que jamais nos deixaria sozinhas na rua uma hora dessas… Mas sei que devo de alguma forma conseguir… De repente, ocorreu-me dizer-lhe que, se ela não viesse comigo, Bianca apareceria em nosso quarto, e dormiria a seu lado na cama. Tal ideia causou-lhe tanto medo que, rapidamente, ela vestiu uma roupa qualquer, pronta para acompanhar-me…

“Lanço-me para as sombras da noite,
Onde poderei encontrar teu coração,
O nevoeiro cobrirá nossos corpos,
Para que olhos indiscretos não vejam quando você tomar meu corpo,
E minha alma,

Um sono profundo dormirei,
E então poderei acordar,
No nosso mundo,
Nosso noturno mundo,

Lanço-me para as sombras da vida,
Para que possamos viver juntos,
Para unir dois corações que o destino separou,
Para unir duas vidas, duas almas soterradas pelo peso dos séculos.

Lanço-me para as sombras,
Rumo ao Desconhecido
Mas não tenho medo,
Você guiará meus passos nesta viagem,

Lanço-me para longe de todos que amo,
Mas sei que a saudade passará,
Pois a Eternidade a encobrirá…
E o Amor maior me abrigará…

Toma agora meu corpo,
Que imaculado para você guardei,
Toma meu Sangue,
E num Beijo,
Leve com você minha alma.”

E esse foi o final do primeiro capítulo do livro “Bianca – Um amor que resiste aos séculos”. A segunda parte promete muito romance e mistério! 

Abraços! 

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O Diário de Mary (XV)

BIANCA

São Paulo, 25 de Junho de 1996, Terça-Feira.

As férias de julho estão se aproximando… Escutei meus pais conversando na sala, eles estão planejando uma viagem, passaremos as férias na praia, mas eu não deveria estar sabendo disso. É uma surpresa. Ao que pude entender, Emanuela virá conosco… É maravilhoso. Será que Bianca vai nos acompanhar? E M.? Quando se revelará aos meus olhos? Sempre que pergunto por ele, Bianca desvia a conversa, muda o rumo e vai embora, mergulhando na escuridão da noite.

São Paulo, 26 de Junho de 1996, Quarta-Feira.

Um cheiro suave de rosas invadiu meu quarto, juntamente com um vento gelado… Não precisei esperar muito até ver Bianca adentrar o recinto como se pudesse se materializar no ar. Ela veio visitar-me, apenas para dizer que, antes do que eu esperasse, poderia estar nos braços de M.III, fiquei muito feliz, e ao mesmo tempo, apreensiva ao lembrar que abandonaria para sempre todas as pessoas que eu amo, meus pais, amigos… Mas ao lembrar que ele me esperava pela Eternidade, pude ver quão pequeno seria o tempo que meus entes queridos sofreriam minha falta, se comparado aos séculos que já havíamos passados     separados… Isso me fez sorrir novamente. Emanuela ainda não entende de onde surgiu aquela marca em seu braço, ou porque aquele tecido branco tingiu-se de sangue… Tentei explicar-lhe da mesma maneira que Bianca explicou-me, mas foi em vão… Ela se recusa acreditar na existência de vampiros… É uma pessoa extremamente cética, só acredita no que pode ser provado e comprovado por testes científicos. Estamos em nossos últimos dias de aula… As férias se aproximam, será que viajaremos realmente? Será que retornaremos da viagem? Emanuela se juntará finalmente ao seu grande Amor?

São Paulo, 27 de Junho de 1996, Quinta-Feira.

Hoje recebemos os resultados das provas de meio de ano. Fui uma das melhores em História. Tenho certeza de que esta melhora repentina em minhas notas tem um dedinho de Bianca, nunca fui uma das melhores alunas nessa matéria. Emanuela, como sempre, foi brilhante em tudo. É incrível como ela parece acumular conhecimentos em todas as áreas, no entanto, falta-lhe algo: sensibilidade. Como é possível ela não acreditar em todas as coisas fantásticas que tem ocorrido nos últimos dias?

São Paulo, 28 de Junho de 1996, Sexta-Feira.

 Festa na Escola. Despedida entre amigos que talvez não se vejam durante as férias. Professores nos recomendando que não deixemos de revisar as matérias, ao menos uma hora por dia. Eu e Emanuela vamos para a casa de praia de meus pais, passaremos as férias lá. Como meu pai não conseguiu férias neste mês, vamos apenas nós e minha mãe. Será a oportunidade perfeita para que eu conheça meu amado M III. Hoje vou dormir cedo, pois amanhã terei muito que fazer e malas a arrumar… Vamos viajar no domingo, e eu acredito que não retornarei desta viagem, portanto quero deixar algumas coisas em ordem…

São Paulo, 29 de Junho de 1996, Sábado.

 Minhas malas estão prontas. Estou levando as roupas de que mais gosto. Quero estar linda, tenho a intuição que logo encontrarei M. e quero me certificar que estarei deslumbrante, uma verdadeira princesa quando isso acontecer. Levo também uma pequena maleta de mão, que após minha partida, deverá ser entregue a Emanuela, caso ela não parta com Bianca desta vez, ou a meus pais, caso nós duas ultrapassemos este mundo juntas. Nesta caixa estão os poemas que Emanuela confiou-me, o meu diário, para que ela leia atentamente, e possa explicar aos meus pais o que me ocorreu, por que desapareci sem aparentemente me despedir… E algumas outras lembranças de momentos especiais.

São Vicente, 30 de Junho de 1996, Domingo.

Já estamos em São Vicente, onde meus pais têm uma pequena casa, não muito longe da praia. É uma construção antiga, geminada, numa viela no centro da cidade, possui um valor razoável e é muito confortável… Passei dias maravilhosos aqui em minha infância… Posso ver quão importantes e doces foram agora que estou prestes a deixar tudo isso… Emanuela está ao meu lado, me pedindo para apagar a luz, está com muito sono, mas tudo que quero é escrever… São tantos sentimentos para ficar guardados… Quero dizer que amo a todos que em breve estarei deixando, mas devo unir-me ao homem que o destino me reservou e ao qual meu coração subjugou-se.

Apesar de estarmos no inverno, a temperatura está amena, convidativa a um passeio ao luar. Chegamos hoje no final da tarde e nem pudemos sair. A casa estava uma bagunça, desde o fim do ano ninguém havia vindo aqui para limpar ou arrumar nada, estou exausta pela faxina pesada… Mas amanhã, amanhã quero aproveitar tudo que puder: a cidade, o sol, o mar. logo não poderei mais sentir os raios solares a me aquecer…

São Vicente, 01 de Julho de 1996, Segunda-Feira.

Aproveitei o dia na praia. Tomei o máximo de cuidado para não me queimar, quero minha pele perfeitamente branca, sem marcas. Já é bem tarde, posso sentir o perfume de rosas, por isso, sei que Bianca está aqui, mas não se faz visível. Sei que Emanuela pode sentir também, mas não admite de maneira nenhuma. Pior para ela. Apenas sinto muita pena de Bianca, que esperou por tantos séculos, para que agora sua amada tente de todas as maneiras possíveis negar sua existência, mesmo diante de evidências tão claras.

São Vicente, 02 de Julho de 1996, Terça-Feira.

Praia, muita praia… Passeios pela Praça da Biquinha, apenas para comer doces. Nem passo perto dos livros escolares, apesar dos protestos de Emanuela, que insiste em seguir as recomendações dos professores e estudar uma hora por dia.Falei para ela estudar duas, uma por mim, outra por ela.Saímos para um passeio noturno pela praia. Andamos bastante.Fico imaginando onde M. aparecerá para mim, tenho quase certeza de que será na praia, sob o luar…

O Diário de Mary (XIV)

BIANCA

São Paulo, 22 de Junho de 1996, Sábado.

São exatamente 23h15min, estou escrevendo sob os protestos de Emanuela, que já está cansada de estudar e deseja ir dormir logo. Ela insiste em dividir a cama comigo, mesmo sabendo que tenho um colchão extra no quarto, no qual ela poderia dormir mais confortavelmente. Ela não quer nem ouvir falar no assunto, diz que estou me comportando assim por saber de seus verdadeiros sentimentos a meu respeito, que nunca antes eu havia tentado fazê-la dormir em um colchão separado.
Daqui a alguns minutos, estarei entregando a ela o presente de Bianca, daqui a alguns minutos saberei o que se oculta, saberei o que Bianca resolveu dar a Emanuela como prova de sua existência.
São Paulo, 23 de Junho de 1996, Domingo.

 O relógio marcava exatamente 23h45min, fechei este diário e chamei Emanuela dizendo que precisávamos conversar.
-Emanuela, sei que você não acredita em uma só palavra do que escrevi, mas hoje tenho que entregar-lhe algo que a fará acreditar na existência de Bianca.
-De novo esta estória de Bianca, vampiros, séculos e séculos que não podem sepultar com eles seus seres e seus amores?
-Faltam apenas alguns minutos e eu poderei entregar-te o embrulho que trago comigo, o presente de Bianca.
-Que bobagem, vai dormir.
Um ruído quebrou o silêncio, era meu despertador, avisando que o relógio acabara de marcar meia noite, entreguei o embrulho nas mãos de Emanuela e vi atônita, o pano branco tingir-se de sangue enquanto ela o desembrulhava. Algo deve ter silenciado aquele momento. Queria gritar, mas não conseguia, era como se minha voz tivesse fugido de minha garganta, indo esconder-se em algum lugar muito, muito distante. Emanuela também mantinha silêncio. Dentro do embrulho, agora vermelho, havia um punhal de cabo negro, a lâmina manchada de sangue… Emanuela chorava silenciosamente, novamente envolveu o punhal em seu embrulho, devolvendo-o a mim, que o peguei, como se nele não houvesse acontecido nada de extraordinário, e guardei-o em seu lugar, embaixo de meu colchão… Apesar de o presente ser para Emanuela, algo me dizia que deveria guardá-lo ali…
Ela me abraçou e chorou muito, mas logo em seguida enfureceu-se. Como eu me atrevia a fazer uma brincadeira daquelas? Tentei explicar-lhe que não era uma brincadeira, ou truque, mas sim um presente, um punhal que Bianca havia carregado por séculos, a lâmina com a qual se cortaram e juntas juraram amar-se.
Um leve cheiro de rosas enchia o quarto.
Emanuela, pela manhã, ao acordar, desejou ver novamente o punhal, mas para nossa surpresa, ele havia desaparecido. No braço de Emanuela, uma marca havia surgido, uma pequena cicatriz, exatamente no local onde, séculos atrás, aquele punhal a havia perfurado pela primeira vez.
São Paulo, 24 de Junho de 1996, Segunda-Feira.
Emanuela já não consegue ter tanta convicção de que Bianca é apenas um fruto de minha imaginação, não após o que aconteceu com aquele punhal, não após seu braço mostrar uma cicatriz que nunca havia existido, sem que ela houvesse se ferido.
Bianca, em mais uma conversa, contou-me que aquele pedaço de tecido pertencia ao vestido que ela usara quando havia perfurado com o punhal seu próprio peito, aquele sangue era dela, fora derramado por sua amada, mesmo que não por suas mãos, e somente ela, somente a verdadeira Emanuelle poderia fazê-lo ressurgir após tantos séculos, o Pacto de Amor e Sangue era eterno, seus sangues ainda corriam juntos, por isso, o simples fato de Emanuela ter tocado o punhal foi o suficiente para trazê-lo de volta, e também para derramar um pouco do seu, fazendo então surgir aquela misteriosa marca em seu braço. Após dormirmos, Bianca achou prudente levar o punhal consigo, evitando assim que Emanuela o mostrasse a qualquer pessoa.

O diário de Mary (XIII)

BIANCA

São Paulo, 19 de Junho de 1996, Quarta-Feira. Emanuela ficou em choque quando lhe disse que sabia de quem ela gostava. Disse que estou louca, que ela jamais teve tendências homossexuais… Foi uma conversa difícil, mas pude sentir que Bianca tem razão e várias dúvidas penetraram aquele coração. Mais tarde, em casa, fiquei pensando sobre tudo o que tem acontecido, sinto que tudo isto é uma caminhada sem volta, pois a partir do momento em que Bianca e Emanuela se encontrarem, ela deixará para sempre este mundo, unindo-se a seu Amor, é certo, mas extinguindo para sempre os rastros de seu sangue sobre este planeta… Ou não, afinal, quantos outros ramos familiares dela deve haver espalhados por aí, quem garante que duas pessoas desconhecidas não tenham ao menos um ancestral em comum perdido através dos séculos? Bianca apareceu esta madrugada, para mais uma conversa: -Olá Mary! -Bianca! Que prazer vê-la! -Precisamos conversar… -Fiz algo errado? Estou tentando convencer Emanuela a teu respeito, mas não é nada simples… -Calma, não é sobre isso. Você está indo muito bem… O assunto é outro. -Qual? -M. III. -O que houve com ele? -Nada, ele continua vivendo sua eternidade, alimentando-se, enfim, está tudo certo com ele. Mas temos um pequeno problema. -Problema? -Sim. M.III nunca trouxe ninguém para acompanhá-lo em sua eternidade, conversei com ele hoje sobre este assunto, e ele não pretende fazê-lo. Mas o que me incomoda é, se eu conseguir convencê-lo a fazê-la sua companheira, você tem certeza de que está preparada para deixar este mundo e todos que conhece? Seus amigos, sua família? -Desde que o vi, não consigo tirá-lo de meus pensamentos. -Devo considerar isso um sim, definitivamente? -Deve. -Quantos anos têm agora, Susan, ou melhor, Mary. -Dezesseis anos, Bianca. -Dezesseis anos… Pobre criança não tem ideia da eternidade, de sua grandeza e solidão… -Mas tenho ideia dos poucos anos que viverei sobre este mundo mortal, anos que para nós, são muitos, mas comparados a esta eternidade são ínfimos, anos que deverei vagar solitária por este mundo, sabendo que meu grande amor encontra-se solitário em algum ponto da eternidade. Aos dezesseis anos, você e Emanuela fizeram aquele pacto de sangue, sabiam o que era o Amor. -Sabíamos, mas pergunto-lhe, de que isso adiantou? Emanuela não teve coragem para me seguir, veja quantos séculos vaguei em busca dela, e agora, tenho que lutar para despertar em seu coração a lembrança de um amor enterrado pelo tempo… Você vai precisar de coragem para seguir M.III. -Segui-lo-ei até onde for necessário. -Vejo convicção em teus olhos. Ontem me perguntaste se Susan é de alguma forma tua antepassada. Posso responder-lhe tranquilamente que sim. Sua família originou-se da família formada por Leonna e Lúcio. Antes de morrer perdido no mar, Marcus teve dois filhos ilegítimos, com uma camponesa casada. Esses filhos foram criados pelo marido dela, que jamais desconfiou das traições da esposa. Eram um casal, Marcelle e Antony. Cada um deles tomou seu rumo, tendo filhos e netos e bisnetos, e, da mesma forma que se pode acompanhar na linhagem de Emanuelle, aconteceu na tua: árvores genealógicas cheias de ramificações… Teus pais, da mesma forma que os pais de Emanuela, têm em Susan uma antepassada em comum. Sabe qual deveria ter sido teu nome de batismo? -Susanne. -Exatamente, Susanne. Mas teus padrinhos não permitiram, insistiram em Mary, talvez, inconscientemente, Mary seja um diminutivo de Marianne. -Posso te perguntar uma coisa? -Sim? -E Cristhine? A vampira que lhe trouxe para este mundo? -Ainda somos grandes amigas, ela conseguiu encontrar sua companheira de eternidade, vivem em uma ruína Grega… São Paulo, 20 de Junho de 1996, Quinta-Feira.        Emanuela ainda não consegue acreditar na existência de Bianca, para ela, tudo isso não passa de uma invenção da minha mente sem ocupação… Ela até me confessou o sentimento que efetivamente nutre por mim, mas têm certeza de que deve ter deixado ao meu alcance alguma carta ou seu diário, alguma anotação onde confesse isto… Se ao menos Bianca concordasse em revelar-se por alguns segundos, se deixasse Emanuela sentir-lhe o olhar, o leve odor de rosas, tocar aquelas mãos frias, mas ao mesmo tempo ardentes… Talvez Emanuela pudesse então compreender a solidão de quem a buscou por séculos a fio… Talvez… Enquanto isso, eu aguardo impaciente pelo contato de M., por menor que seja… Apenas um sonho, ou uma leve aparição… Por onde andará meu amor? Onde estará você, M.? São Paulo, 21 de Junho de 1996, Sexta-Feira.   Bianca apareceu em meu quarto esta noite, pediu-me que entregasse a Emanuela um embrulho, tratava-se de um objeto pesado, embrulhado em um pedaço de pano branco; não simplesmente entregar-lhe, mas entregar exatamente quando o relógio marcasse meia-noite, numa noite de lua nova, isso quer dizer que amanhã poderei fazê-lo, pois estamos no segundo dia dessa fase da lua. Pedirei a Emanuela que durma aqui em casa, para podermos estudar juntas, e, quando for o horário adequado, entregarei a ela o embrulho… Meu coração arde em curiosidade por saber o que se encontra oculto sob o pano branco… Nunca antes toquei um tecido assim, não parece nada com os sintéticos que costumo utilizar, nem com linho ou algodão… O que seria? Talvez seja seda…

O diário de Mary (XII)

BIANCA

São Paulo, 14 de Junho de 1996, Sexta-Feira.
Decidi que não contarei nada a Emanuela. Não diretamente. Estou digitando num disquete todos os meus sonhos, poemas e comentários e entregarei a ela, como se fosse apenas um livro que escrevi. Ela me confiou ontem a caixinha rosa onde guarda os poemas, com medo que os pais achem e leiam, então posso dizer que li e usei na “história”, e veremos o que ela acha…Bianca não aparece para me inspirar nada desde ontem, talvez também esteja exausta após tão longa viagem através dos tempos…As lembranças devem machucá-la…
São Paulo, 16 de Junho de 1996, Sábado.

Hoje Emanuela estava bastante desapontada, sente falta dos poemas… Entreguei-lhe o disquete com o relato de meus sonhos… O que ela achará?
Por onde estará Bianca? E Lorde M. III, por que não aparece? Quero vê-lo, vê-lo de verdade, frente a frente, não apenas em sonho. Quero tocar-lhe as mãos frias e sentir aqueles olhos sobre meu corpo.

São Paulo, 17 de Junho de 1996, Domingo.
 
Emanuela amou a história… Disse que tenho talento e deveria ser escritora. Disse a ela que é verdade, que eu escrevi os poemas e sonhei, noite após noite, cada cena que descrevi e que conheci Bianca e que estou apaixonada por M.; ela riu… Disse que eu preciso é arranjar um namorado e esquecer tudo isso… Talvez publicar o conto, quem sabe? Como é difícil explicar que o amor da vida dela é uma mulher que viveu há séculos atrás e agora a quer para si, para completar sua eternidade…
Bianca não tem aparecido em meus sonhos, nem em minhas noites. Não tenho tido mais inspirações poéticas. Emanuela ainda não acreditou que tudo que escrevi não é apenas fantasia. A cada momento, penso em M.III, não sei mais o que posso fazer o que posso pensar. Amo M.III? Como posso amar alguém que nunca vi? Ele existe? Bianca existe? Será que imaginei tudo isso? Mas, e os poemas?

São Paulo, 18 de Junho de 1996, Segunda-Feira.
 
Hoje pela manhã, logo que acordei, encontrei aos pés de minha cama uma rosa, uma única rosa. Peguei-a e um espinho perfurou meu dedo. Nunca antes eu havia parado e observado a beleza de uma gota de sangue a escorrer. Guardei a rosa com carinho em uma pasta e levei-a comigo ao colégio, para mostrá-la a Emanuela, contei-lhe onde e como encontrei aquela flor rubra… Isso pareceu deixá-la um tanto apreensiva.

São Paulo, 19 de Junho de 1996, Terça-Feira.
Acordei de madrugada, ainda estava muito escuro, um vento frio invadia meu quarto. Podia sentir a presença de Bianca. Ela surgiu, como se materializando no ar, bem em frente a minha cama. Vestia um vestido vermelho, longo, decotado e possivelmente, as costas ficariam de fora, não fosse uma capa negra, longa, que ia até os pés… Um leve cheiro de rosas invadia o ar… Seus olhos azuis me encaravam firmemente, enquanto falava devagar:
-Boa noite, Mary.
-Boa noite, Bianca.
-Sei que deve estar pensando que desapareci que a deixei na mão, mas saiba que estive sempre por aqui, só não queria fazer-me presente durante todo o tempo. Acho que deseja me fazer algumas perguntas, não?
-Por que não apareceu estes dias?
-Estive apenas observando teu comportamento. Arrisco-me a dizer que estás apaixonada.
-Por que apareceste para mim? Por que não apareceu diretamente para Emanuela?
-Tenho acompanhado a vida de vocês desde que nasceram, sei dos sentimentos que se passam em seus corações, principalmente no de Emanuela. Sei que você a ama, mas apenas como amiga. Já ela acredita amar-te, ela fica com garotos, mas pensa em você, não aceita sentir-se atraída por você.
-Emanuela? Ama-me?
-Não. Ela se sente atraída por você, acredita que a ama, ficou mais feliz do que você imagina quando você disse que os poemas eram teus, e mais desapontada do que ela mesma aceita, quando soube que eram na realidade os meus poemas.
-Isso não responde o porquê de não ter aparecido diretamente na vida dela, por que está tentando me usar para atraí-la?
-Ela pensa que te ama, resistiria muito se eu me revelasse a ela.
-Quem é M. III?
-Você sabe quem ele é, conheceu a vida dele.
-Eu o amo?
-Isso, apenas você poderá saber.
-Quero dizer, Susan é minha antepassada?
-Talvez. Susan e M. viveram uma linda história de amor, mas nunca houve um pacto de sangue entre os dois, Susan morreu naturalmente, ao dar a luz, nada obriga sua alma a vagar pelo mundo em busca de M. Porém, é possível que sejas a continuação do sangue de Susan sobre a terra, não te esqueças de que o sangue dela e o da família M. se misturaram, gerando um filho, que tomou o lugar do verdadeiro filho de M. e sua esposa, portanto, através deste labirinto de árvores genealógicas, pode muito bem acontecer de você ser uma parente distante de Susan, e de Emanuela, não se esqueça.
-Imagino todas as noites uma visita de M. sinto-me atraída por aqueles olhos frios e distantes, desejo-o.
-Sei disso, posso senti-lo.
-Onde ele está? Quero vê-lo.
-Chegamos a um ponto muito interessante… Veja bem, amo Emanuela, mas jamais poderia tentar aparecer em sua vida diretamente, ao menos enquanto ela alimentar a ilusão de que te ama. Você ama M., que jamais se recuperou da perda de Susan. Você está perto de Emanuela, eu estou perto de M., acredito que podemos nos ajudar.
-O que eu devo fazer?
-Convença-a de que o amor de sua vida sou eu, que é tudo real.
-Como?
-Existe uma coisa que ela jamais revelou a ninguém, mas que você sabe, pense.
-O que ela sente por mim?
-Garotinha esperta. Use isso. Fale para ela que você sabe o que tem se passado naquele coração, mas deixe bem claro que eu te contei, ela vai negar até o último instante, mas em seu íntimo, começará a surgir uma grande dúvida, ela começará a acreditar em minha existência. A propósito, mandarei um beijo teu a M.
Dizendo isso, Bianca desapareceu no ar novamente, da mesma maneira como havia aparecido. De sua presença ficou apenas o leve odor de rosas.

O diário de Mary (XI)

BIANCA

São Paulo, 13 de Junho de 1996, Quinta-Feira.

     “Matheus cresceu depressa, tornou-se um jovem sedutor, não exatamente belo, mas cheio de um grande encanto. Aos vinte e um anos, conheceu Cècile Sandrin, sobrinha de um rico fazendeiro. Foi uma paixão instantânea e avassaladora, mas algo os separava: Cècile era extremamente rica, Matheus não era assim tão pobre, mas suas condições eram visivelmente inferiores… Matheus herdaria do pai uma pequena propriedade rural, nada mais. Não tinha estudos, nem vocação para estes. Mesmo assim, ao parar para ajudar uma carruagem que havia quebrado a roda numa estrada erma e assim conhecer a pequena Cècile, então com dezesseis anos e prometida em casamento a um primo distante, a paixão tomou conta dele. Foi um sentimento correspondido. Matheus passou a trabalhar para a família Sandrin, vivendo momentos ardentes ao lado de Cècile. Essa paixão logo gerou seus frutos: Um ano após conhecer Matheus, Cècile dava à luz duas crianças: Suzane e Shirley. Porém, nem tudo foi tão bom, Cècile casou-se com Gerald, a quem estava prometida. Matheus foi expulso das terras da família Sandrin, voltando a trabalhar na propriedade dos pais. Nunca mais pôde estar perto de sua amada Cècile. Por este mundo, ficaram espalhados muitos outros filhos e filhas de Matheus, a grande maioria com mulheres de vida fácil…

            Suzane, aos dezenove anos, casou-se com um fazendeiro muito rico e trinta anos mais velho que ela. Não tiveram filhos. Viúva aos 24 anos casou-se novamente, desta vez com um jovem advogado, com quem teve uma bela menina, Luane.

            Shirley casou-se com um médico. Teve um filho, Cecil, um belo garoto de olhos verdes e cabelos negros, que mais tarde seguiria os passos do pai, tornando-se um dos melhores médicos de sua terra.

            Luane conheceu Thiago em um baile na casa de seus avós. Amaram-se quando se viram. Thiago era filho de um fazendeiro amigo da família Sandrin, por isso, seu interesse por Luane foi visto com muito bons olhos. Quando Luane contava 20 anos e Thiago 27,casaram-se numa bela festa.

            Cecil, avesso às companhias femininas, casou-se apenas para manter as aparências. O amor de sua vida era seu cocheiro Robert, com quem vivia os momentos mais intensos de paixão e luxúria. Não teve filhos.

            Luane e Thiago tiveram sete filhos, sete meninas: Alexia, Marina, Carla, Patrícia, Ana Claudia, Ana Clara, Julianne e Cristhine.

            Todas se casaram, gerando filhos, e depois tendo netos e bisnetos e assim por diante. Vidas que se perderam através dos anos, e que no momento, não são importantes à esta narrativa…Talvez, alguma dessas crianças tenha gerado filhos importantes na história, quem sabe? Mas para nós, o importante é o que ocorreu com Cristhine.

            Após um casamento abastado, Cristhine gerou cinco crianças, entre elas, Joana. Joana casou-se, mas, devido a sua estrutura frágil, teve apenas uma filha, que, de tão pálida, foi chamada Alba.

            Alba teve seu marido e dois filhos, uma menina, Clarmilla e um menino, Rafael. Cada um deles constituiu uma família. Clarmilla não teve filhos, mas criou uma menina, filha de sua governanta, como se fosse sua. Rafael casou-se e teve um filho, Leonardo, que se formou em medicina. Aos 32 anos, Leonardo, ainda solteiro, foi morar no Brasil, onde conheceu Taís.

            A história se segue, com gerações e mais gerações, passaram-se séculos, guerras, revoluções. Filhos, netos, antepassados que se perdem no tempo, filhos legítimos e filhos bastardos, amores proibidos que se consumaram, finais felizes, tragédias, lágrimas, sorrisos, até que em 1980,nasceu Emanuela, filha de Valéria e Lucas, que de alguma maneira, através de tantos séculos, têm uma antepassada comum: Emanuelle, filha do poderoso Lorde M.”

                Estranho, estou tão exausta, parece que eu viajei no tempo, acompanhando esta história. Acompanhei-a através de meus sonhos, e agora, não sei o que devo fazer, contar para Emanuela? Não contar? Hoje não tenho nenhum poema para levar, nada me inspira a escrever para ela. Porém, quando me lembro daqueles olhos azuis… Meu coração acelera… Lorde M.III… Quero chamá-lo para mim, quero que ele me domine, me tome em seus braços, e faça mulher e sele nosso destino com uma mordida e um beijo de amor… Eu amo Lorde M.III !

O diário de Mary (X)

BIANCA

São Paulo, 12 de Junho de 1996, Quarta-Feira.

      Bianca acompanhava ao longe a vida de Giovanna, viu-a crescer, tornar-se uma jovem bela e atraente, ainda que um pouco triste… como era tradição, casou-se com um nobre, com quem teve dois belos filhos, Helena e Lucas. Faleceu aos 35 anos.

            Helena casou-se com um belo e nobre cavaleiro. Lucas tornou-se cavaleiro e desposou uma nobre de família influente, unindo assim os dois brasões. Eles tiveram filhos… E netos… E bisnetos… E tataranetos…

           O Feudalismo pouco a pouco perdia forças, ia surgindo uma nova classe, a burguesia e um novo sistema, o mercantilismo. A família de Emanuelle, ou melhor, a família que resultara da união de Emanuelle ao jovem Richard II, ficava cada vez mais poderosa e influente. O tataraneto de Emanuelle, Lorde M. III, era um cavaleiro belo e muito poderoso, controlava brutalmente seu Feudo, mantendo os camponeses sob domínio com mãos de ferro, mas apesar disso, era um rapaz sensível e muito doce, buscava um amor verdadeiro, alguém que o amasse com ternura. Encontrou este amor quando conheceu Susan, uma camponesa muito pobre que vivia com seus pais. Devido à sua posição, M. jamais poderia desposá-la oficialmente, mas como seu sentimento foi correspondido, eles passaram a viver uma tórrida estória de amor. Ele casou-se com Ana, filha de um Duque, ampliando assim suas posses; mas levou Susan para trabalhar em seu novo lar. Durante o dia, ela cuidava da cozinha, de madrugada, M. saía sorrateiramente de seus aposentos e ia encontrar a jovem serva… Com o passar do tempo, a esposa foi-se acostumando a essas escapadas noturnas, como não o amava não se importava com quem ou onde ele estava.

            Ana e Susan engravidaram ao mesmo tempo e iniciaram o trabalho de parto na mesma noite, era uma madrugada fria e o vento soprava pelos campos. Uma névoa espessa cobria toda a visão. Uma noite escura e cruel para o nascimento de dois novos seres. Infelizmente, o bebê de Ana não sobreviveu. Susan também não resistiu ao dar à luz.

  1. ordenou à parteira que colocasse o bebê de Susan no berço, ao lado de Ana, que havia desmaiado e não sabia que seu filho não havia resistido.

            A menina, a quem chamaram Marianne, cresceu sobre os mimos do pai e a indiferença da mãe. Casou-se aos 16 anos com um primo distante, que morava num ducado situado no interior da França. Ela teve três filhos: François, Leonna e Julianne…

            Três crianças, três destinos…

            François, o único homem, foi um soldado valoroso e morreu numa batalha, muito longe de sua terra. Julianne, uma jovem bela que desde muito jovem mostrou inclinações à vida religiosa, não se casou, sendo enviada para um convento aos 17 anos, onde permaneceu até o final de seus dias… Leonna não era assim tão bela quanto Julianne, mas mesmo assim, havia nela algo inexplicável que inebriava todos ao redor… Ela apaixonou-se por um jovem mercador Português e fugiu com ele para uma pequena cidade no interior do país… Com isso, extinguia-se oficialmente a família iniciada por Emanuelle e Richard II séculos atrás… M III, inconformado com a fuga da neta e com a desonra que isto causava ao nome de sua linhagem, que já não poderia continuar, entregou-se ao desespero e a toda espécie de vício.

            Certa noite, quando voltava sozinho pela estrada, uma figura encoberta por uma capa, uma bela garota com uma capa negra o fez parar. A noite estava quente e muito escura, a única luz era a da lua cheia e ele estava tão embriagado pelo vinho que nem sentiu quando a bela jovem mordeu-lhe o pescoço..Inconsciente, não opôs nenhuma resistência, nem mesmo quando Bianca o Beijou.

            Leonna e Lúcio, o mercador, tiveram apenas dois filhos, gêmeos, Julius e Marcus. Sua vida foi extremamente pobre, muito diferente do conforto ao qual estava acostumada. Não tinham servos ou escravos, mas mesmo assim, eram felizes.

            Julius e Marcus tornaram-se mercadores, tal qual o pai. Apesar disso, seguiram caminhos diferentes. Julius entre suas viagens conheceu uma linda inglesa, Camile, filha de um comerciante com o qual sempre negociava. Casaram-se.

            Marcus dedicou-se ao comércio marítimo, mas infelizmente não sobreviveria muito tempo. Leonna e Lúcio jamais souberam ao certo em que circunstâncias a nau em que Marcus viajava havia desaparecido.

            Após algumas semanas, M. despertava num castelo sombrio. Não se lembrava de como havia chegado até ali. Uma bela jovem veio recebê-lo. Disse que se chamava Bianca e havia sido serva de sua tataravó, Emanuelle, filha do primeiro Lorde M., com o tempo, Bianca contou-lhe toda a história de sua família, com detalhes, mostrou-lhe todo o castelo, os aposentos de Emanuelle. M. não entendia o porquê de Bianca tê-lo trazido para aquele mundo. A razão era simples: após tantos séculos, Bianca já não aguentava mais viver ali sem companhia, e M. tinha uma estória semelhante à dela, também havia vivido uma história de amor com uma pessoa de classe social diferente. Aos poucos, M. acabou perdoando Leonna por ter fugido com seu amado. De que valia a honra do Brasão de sua família, se para mantê-la era preciso que se sacrificassem tantos sentimentos?

            Camile e Julius tiveram 12 filhos e 15 netos. Com o passar dos anos, cada um foi partindo para um lugar diferente. Algumas meninas dedicaram-se à vida religiosa, outras se casaram. Alguns rapazes tornaram-se mercadores, outros artesãos. Vieram netos, depois vieram bisnetos e novamente tataranetos. Bianca seguia ansiosamente cada novo membro daquela numerosa família, na esperança de reencontrar seu amor que estava perdido no tempo.

            Uma das bisnetas de Camile, Andréa, casou-se Leonel, um francês, dono de uma oficina de costura, a quem não amava. Viviam na época de Luís XIV,o auge do absolutismo francês. Andrea tornou-se amante de um nobre, de quem engravidou, seu marido criou aquele garoto como seu filho, pois nunca soube das traições da esposa. Nessa época, Andréa, Leonel e o pequeno Matheus foram morar numa colônia Francesa na América do Norte, o Canadá.

              “É incrível, em apenas uma noite, um sonho me revela tantas coisas acerca de um passado tão distante que, sempre que eu paro para pensar, me parece uma fantasia”… Mas hoje, neste sonho, há algo que me chamou atenção especialmente. Aqueles olhos azuis. Lorde M III, aquele lindo vampiro de olhos azuis. Meu coração bateu mais forte quando o vi… Por um momento, desejei que ele me tomasse nos braços e me levasse deste mundo para viver para sempre ao seu lado…”

             Este é o poema que deixei na porta de Emanuelle hoje à noite, mais do que nunca, sei que não são minhas palavras… Esse erotismo todo… Não seria possível, nunca fiz amor com ninguém, jamais entreguei meu corpo, como poderia escrever essas palavras?

Quando penso em ti,
Uma chama se acende em mim…
Sinto cada parte do meu corpo despertar…
Teu cheiro me atrai…
Quero tomá-la em meus braços…
Prende-la…
Despi-la
Esfregar meu corpo no seu,
Para que em minha pele você possa sentir o desejo,
Possa sentir-me arrepiada,
Louca de vontade de fazê-la minha…
Deixar que minhas mãos te percorram…
Toquem-te…
Beijá-la
Sentir o calor da tua pele me incendiar…
Quero fazê-la minha mulher…
Minha e somente minha…
Quero ouvi-la gemer…
Gemidos vigorosos, intensos
De desejo e de prazer…
Dançar sensualmente para você…
Para que tenha essa vontade animal de me dominar…
Subjugar meu corpo
E aos teus desejos mais selvagens…
E deixarei que o faças,
Deixarei que me domines…
E,
Quando menos esperar…
Voltarei a dominá-la,
Pois essa noite,
Você é minha… Minha mulher
Minha fêmea…
Minha amante…
Minha princesa…
E eu te conduzirei
Através das chamas do desejo…
Levar-te-ei às paisagens proibidas da paixão ardente…
Meus lábios percorrerão teu corpo,
Quero beber teu sabor…
Tua essência…
Farei de você meu labirinto…
Vou me perder em teus braços,
Em teu corpo,
E nele me encontrarei…
Voaremos entre nuvens de prazer…
Até não aguentarmos mais…
Até o êxtase…
Até a explosão final de nossos desejos…
E, então,
Nossos corpos exaustos,
Quentes,
Molhados,
Insaciáveis,
Tomarão novamente a trilha do prazer…
Novamente te guiarei
E por ti serei guiada…
E, durante toda a noite,
Não existirá mais nada,
Nada além de nós,
E de nosso mundo de prazer…

O Diário de Mary (IX)

BIANCA

São Paulo, 11 de Junho de 1996, Terça-Feira.

“Os dias que se seguiram foram de adaptação. Bianca aprendia a caçar para alimentar-se. Acostumava-se a vagar à noite pelas matas fechadas, e pelas estradas sombrias. Deslocava-se com rapidez e agilidade cada vez maiores, e, em algum tempo, já estava conseguindo influenciar a mente das pessoas, atraindo-as para o lugar onde estivesse escondida e, em seguida, fazendo de seu sangue o suculento jantar do qual necessitava…
Alguns meses depois, quando já estava mais forte, foi até o castelo onde vivia sua amada Emanuelle. Penetrou lentamente todos os cantos. Viu que no quarto onde vivera, agora jazia adormecida uma linda garotinha, devia ter uns quatro anos. Chegou perto do berço e afogou-lhe os belos cabelos. A pequena acordou e pôs-se a chorar. A ama entrou no aposento, não podia ver Bianca, mas sentia sua presença… Um frio intenso… Embalou a pequena e abraçou-a, tentando acalmá-la… Bianca saiu do aposento, e, como por um milagre a pequena parou de chorar. Encontrou Emanuelle adormecida. O marido havia viajado, demoraria alguns dias para retornar. Bianca a tocou com suavidade… Podia sentir o coração de Emanuelle. Acariciou-lhe os longos cabelos, sentiu a pele, o cheiro de sua amada. Sua vontade era tomá-la para si, amá-la como naquelas noites sob o luar… Retirou de dentro das vestes aquele punhal com o qual haviam, anos antes, feito aquele pacto de Amor e Sangue…cortou-se, apenas para marcar a lâmina e coloco-o nas mãos de Emanuelle, fazendo-a acordar quando sentiu aquela lâmina fria.
Emanuelle acordou assustada. Podia sentir a presença de Bianca. Era como se sentisse seu cheiro. Só depois de alguns minutos, deu-se conta de que segurava nas mãos um punhal, ainda manchado com sangue… Lágrimas de desespero começaram a cair de seus olhos quando reconheceu aquele punhal. Olhou em seu braço, ali ainda estava a cicatriz da última vez que havia visto Bianca. Lembrava-se da promessa de que viria buscá-la. Viera a primeira filha. Depois o garoto. Cinco anos haviam se passado, e nada… E agora aquele punhal e aquela sensação de não estar mais sozinha como antes… O que significaria?
Um vento gelado faz com que as velas se apaguem… Bianca sente uma mão segurar a sua, e uma voz doce e suave lhe diz:
-Passaram-se cinco anos, mas eu jamais me esqueci da promessa que lhe fiz, vim para buscar-te…
Emanuelle não consegue enxergar Bianca, mas consegue senti-la…
-Onde está você?
-Estou bem aqui, ao teu lado, segurando tuas mãos…
-Não consigo vê-la, mas posso senti-la…
-Quer me ver?
-Quero…
Bianca torna-se visível para seu amor… Para ela, os anos não passaram, continua a ser aquela jovem de dezesseis anos, embora já tenha vinte e um. Emanuelle fica chocada ao notar que nada mudou… Bianca pede que Emanuelle siga com ela, para a eternidade. Emanuelle pede apenas um instante, para que possa pegar seus filhos, mas Bianca explica-lhe que não poderão levar as crianças. Elas não resistiriam e morreriam. Explica-lhe que só poderão ficar juntas se Emanuelle deixar-se transformar em uma vampira, um ser da Escuridão Eterna… E que duas almas inocentes jamais conseguiriam romper as barreiras energéticas desse caminho… Seriam levadas para a Luz, e para a Morte…
Emanuelle não têm coragem para abandonar os filhos em nome do Amor de Bianca. Despede-se da amada chorando… Adormece com o punhal negro nas mãos…

Três anos depois, Bianca retorna aos aposentos de Emanuelle… Ela está muito fraca e doente… Estava grávida do terceiro filho, mas a peste que estava assolando toda a Europa e não havia poupado a casa do Lorde Richard II. Ele mesmo havia falecido vitimado pela horrível doença, assim como seu filho… Restavam apenas sua filha, Giovanna, e Emanuelle, que esperava pacientemente o nascimento do novo bebê… Já não podiam interromper a gravidez em estágio avançado, e ela estava muito fraca para dar a luz… De qualquer maneira, provavelmente morreria… Embaixo de seu colchão, o punhal negro.
Giovanna entra nos aposentos da mãe, que começa a lhe contar sua estória preferida, a estória da Princesa que se apaixona por um lindo camponês e é separada dele… Ele se suicida para poder estar sempre e sempre perto da linda princesa, a quem ele ama mais do que tudo… Mas ela não pode deixar essa vida para ficar com ele, pois se tornou uma rainha e tem dois lindos principezinhos que precisam dela… Como sempre, Giovanna diz que, um dia os dois não vão mais precisar da rainha, então, ela poderá partir com seu amado…
Bianca sente no tom de Emanuelle ao contar esta estória, que se trata de uma adaptação à estória delas… Giovanna é retirada do quarto… Emanuelle começa a sentir as primeiras dores, embora ainda seja demasiado cedo, passaram-se apenas seis luas… O bebê vem ao mundo já sem vida… A mãe está muito fraca e pede que a deixem só. Bianca chega-se à beira do leito de sua amada, que lhe pede que a leve com ela… Bianca sabe que talvez Emanuelle esteja muito fraca até mesmo para partir com ela, mas, mesmo assim, suga-lhe delicadamente um pouco do sangue… Sente a alegria de saber que vai juntar-se a amada, e a amargura por deixar nesse mundo cruel sua pequena Giovanna… Bianca beija Emanuelle, que mesmo assim, não sobrevive à própria morte… E Bianca se vê novamente arrancada dos braços de sua amada… Pega o punhal, guarda-o nas vestes e sai em direção à madrugada vazia…
Todos os habitantes do castelo foram vitimados pela peste naquele ano, exceto Giovanna, que foi acolhida por parentes muito distantes de seu pai. O castelo ficou abandonado, e todos os que se aproximavam de lá tinham uma morte misteriosa. Bianca passou a morar naquele lugar. Dormia no aposento que fora de Emanuelle e jurava que ainda iria encontrá-la novamente, precisasse de quantos séculos fosse para isso… Mas ia reencontrá-la…”

“Toma-me em teus braços, como se nunca mais fosse preciso partir… A vida sem você não tem motivos, então simplesmente, aceite o que não pode ser mudado… ame-me e deixe eu te amar… quero-te para sempre, perto de mim, perto de meu coração…
Se um dia me procurar e não achar, saiba que, onde eu estiver, estarei com você… Como estou agora… Longe, mas meu coração já não bate em meu peito… Ele está contigo… Apenas esperando que você esteja comigo, totalmente entregue a um sentimento tão puro que invade meu espírito e minha vida… Tão doce, que chega a ser amargo, quando você não está perto de mim…”

Amo-Te.”

O Diário de Mary (VIII)

BIANCA

São Paulo, 10 de Junho de 1996, Segunda-Feira.

“Bianca acorda numa cama enorme. Sente que dormiu durante muito, muito tempo. Põe a mão no peito e nota que o corte deixado pelo punhal já cicatrizou. O quarto está totalmente escuro e muito frio, mas estranhamente, ela consegue enxergar com nitidez, inclusive as cores. Seus lençóis são de seda pura, carmim. Uma porta se abre e Bianca reconhece a figura que, naquela noite escura havia acariciado seu corpo… em suas mãos, ela traz uma taça com um liquido vermelho… aquele cheiro de sangue fresco a faz sentir fome, muita fome… Cristhine aparenta ter uns trinta anos… ela se aproxima de Bianca e entrega-lhe o cálice que ela sorve rapidamente para só então perguntar o nome da outra:
-Quem é você?
-Sou Cristhine. Eu evitei que partisse para sempre, quando naquela noite, você cravou este (pega um punhal que está ao lado da cama de Bianca) punhal em seu peito.
-Então, eu não morri? Onde estou?
-Para os seres humanos vivos, você está morta, ou melhor, desaparecida, já que seu corpo jamais foi encontrado… Mas você não pertence ao Reino dos Mortos, nem ao Reino dos Vivos…
-Então, quem sou eu?
-Naquela noite, antes de dar fim à sua própria vida, fizeste um pacto de Amor e Sangue com Emanuelle, lembra-se?
-Lembro… Cortamos nossos braços, com esta lâmina, e juramos Amor Eterno…
-Mas a Eternidade dos Deuses, só é dada aos mortais quando eles esperam ser chamados, quando esperam sua hora de partir deste mundo… E você não esperou… Adiantou-se ao seu próprio destino… Você teria duas opções, vagaria perdida pelo mundo até a o dia em que deveria retornar, como uma nova vida, e teria que buscar novamente por Emanuelle, sofrendo todos os desencontros das paixões falsas e mundanas, as traições e os impedimentos…ou então, tornar-se-ia uma de nós…
-Uma de vocês?
-Sim… Uma vampira…
-E, o que isso significa?
-Você agora é praticamente eterna, poucas coisas podem tirá-la para sempre deste mundo… Deverá manter-se longe de qualquer tipo de templo, sob pena de ser condenada a uma tortura eterna… E também não poderá jamais se expor à luz solar… Apenas a luz da lua e as trevas da noite serão teu abrigo daqui em diante. Jamais ficará velha, atravessará milênios assim, com essa mesma aparência.
-Mas, e Emanuelle? Poderemos ficar juntas pela Eternidade? Pode uma Mortal e uma Vampira amar-se? E o que será de mim, quando ela se for para sempre?
-Se vocês ficaram juntas ou não, isso dependerá apenas dela…
-Como?
-Para vocês ficarem juntas, ela terá que tornar-se também uma Vampira, uma criatura das trevas… Mas ela terá que querer tornar-se uma de nós…
-Não dependeu de mim… Eu não quis ser, como me tornei?
-Eu provei do teu sangue naquele punhal. Pelo seu sabor, percebi toda a razão que a levara a cometer o ato fatal… Então, alimentei-me de teu sangue, e a beijei, dei-lhe o Beijo da vida eterna…
-Então… Não basta que eu prove um pouco do sangue dela, e a beije?
-Sim e não… Vocês fizeram aquele pacto de Amor e Sangue… Ela tem que querer seguir-te para onde você for… Se ela não quiser, de verdade, e você a morder, para sugar seu sangue, você a matará…
-Quando poderei ir falar com ela? Quando poderei trazê-la para mim?
-Você ainda tem que se fortalecer aprender a entrar e sair dos lugares… A manipular a mente das pessoas… Poderá penetrar-lhes os sonhos e os piores pesadelos… Mas ainda falta algum tempo…
-Há quanto tempo estou aqui, adormecida?
-Exatamente hoje, faz cinco anos…
-E como está Emanuelle?
-Está bem… Agora têm dois filhos… Ela ainda chora a tua ausência, mas terá que decidir entre você e as crianças. Vocês não poderão trazê-las para este mundo semi-amaldiçoado… São seres de Luz…
-Por que eu demorei assim, tanto tempo para despertar? Todos demoram assim?
-Não… Você foi trazida de um estado de quase morte… Geralmente, o sono profundo dura alguns meses, apenas para poder-se acostumar às energias das trevas…
Bianca começa a sentir-se novamente fraca, e adormece…”

Ao mesmo tempo em que esta estória me amedronta, ela me faz ter a vontade de viver uma paixão assim intensa, banhada em sangue e sentimentos verdadeiros… Queria ter alguém que fosse capaz de morrer por mim… E queria que meu coração fosse capaz de morrer por alguém…

 “Os minutos parecem me perseguir… As estrelas já não trazem mais brilho aos céus… Tudo é terrivelmente vazio e escuro, e triste… Não consigo sequer imaginar como fui capaz de sorrir, antes de te conhecer… E, depois de te amar, de onde poderei tirar forças para sorrir, enquanto estivermos distantes…Enquanto eu não puder sentir teu perfume novamente, como vou respirar? Enquanto não puder olhar em teus olhos, o que mais poderá iluminar minha vida? Qual será a última imagem em minha mente, antes que eu durma se não está aqui ao meu lado, para que eu possa adormecer imersa em ti? Saudades de sentir tuas mãos passearem pela minha pele, pelo meu corpo, me arrepiando de desejo e de paixão… E ao mesmo tempo, fazendo meu coração bater mais forte, por sentir-se amado, por sentir que tuas carícias são reflexos dos sentimentos guardados em teu coração… Ai, que saudades dos teus sussurros, do teu toque, teu olhar, teu Cheiro… Que saudade de me entregar a você, como se cada noite fosse novamente a primeira, tão pura e doce quanto um sonho de amor, como o desabrochar de uma rosa branca… Que saudades de tudo, de estar ao teu lado, de dizer eu te amo…de vê-la tremer de emoção a cada noite e acordar ao teu lado pela manhã…
Não importa o que eu disser, sei que três palavras podem resumir a minha vida:
Eu Te Amo!”

O Diário de Mary (VII)

BIANCA

São Paulo 09 de Junho de 1996, Domingo.

“A vida de casada era um sacrifício enorme para Emanuelle. ela não gostava do marido, que se mostrava sempre frio, distante e muito bruto… Passava os dias em companhia das damas, ou na igreja, como era obrigação das senhoras nobres… Bianca e ela não podiam demonstrar o amor que sentiam, sendo forçadas a manter-se separadas, apesar de Bianca ainda ser a serva pessoal de Emanuelle… Várias vezes Bianca propôs que fugissem, fossem para algum lugar muito, muito distante, mas sabiam que era impossível, que sozinhas não chegariam a lugar algum, que Lorde F. mandaria seus exércitos buscar sua nora onde ela estivesse…

Logo, Richard II encontrou entre seus amigos nobres um esposo para Bianca, era uma grande honra para uma camponesa tornar-se esposa de um jovem nobre, com as bênçãos da Igreja… Em séculos isso jamais havia acontecido, as camponesas que caiam nas graças de um nobre eram simplesmente usadas para a satisfação de seus caprichos sexuais e depois relegadas novamente à pobreza, ou mesmo à morte… Bianca deveria sentir-se honrada com isso, mas seu coração sangrava de dor:Após o casamento, teria que mudar-se para o castelo de seu esposo e senhor, e dificilmente voltaria a ver Emanuelle.
Várias vezes ela fugia durante a noite, ia conversar com seus Deuses, que a cada dia pareciam mais distantes… Ou ela estaria tão mergulhada em sua dor que já não conseguia ouvi-los… Já não conseguia sentir senão as trevas da noite…
Era uma linda noite de Lua Cheia. Seu casamento com o cavalheiro D. seria na tarde do dia seguinte. Emanuelle consegue ir até o quarto da amiga e pouco antes de deitar-se Bianca a toma nos braços entre lágrimas…mostra-lhe um punhal de cabo negro escondido em seu vestido… Diz que a ama, e sempre a amará, e que jamais conseguirá separar-se dela. Diz que finalmente arranjou um jeito de fugirem juntas: A morte seria a libertação de seus espíritos. Fazem um pequeno corte nos braço e juntam o sangue que brota. Juram amar-se para sempre:

“Hoje e para sempre,
Bianca e Emanuelle,
Amor e Sangue que mantêm vivos dois corpos
E Um coração…
Pela eternidade,
Nosso Amor nos unirá,
Seguiremos uma a outra,
Enfrentando qualquer obstáculo,
Com a coragem de um cavaleiro,
E a pureza de uma criança.
Nosso sangue une nosso destino,
E apenas poderá nos separar,
A falta do nobre dom…
Apenas o medo,
Poderá nos afastar…”

Bianca diz que sairá furtivamente do castelo, e, exatamente à meia-noite, quando todos os espíritos vagam, ela cravará no peito aquele punhal, sob a luz da lua, e que, quando estivesse pronta, voltaria para buscar Emanuelle, que só poderia juntar-se a ela na eternidade se tivesse um Amor verdadeiro e coragem, para abandonar qualquer outra coisa que a prendesse a este mundo.
A única luz é a da lua que brilha exatamente no meio do céu. A jovem Bianca retira o punhal das vestes. Beija sua lâmina, ainda suja com o sangue de sua amada. Lentamente, passeia com ele por todo o corpo, despedindo-se daquela carne que durante dezesseis anos fora sua morada… Sua avó sempre lhe ensinara que apenas os Deuses têm o direito de decidir quando devemos deixar este mundo, mas os Deuses a esqueceram… Talvez estejam mortos, subjugados pelo novo e vingativo Deus cristão… Este também não concorda com o que ela irá fazer, mas é a única maneira de se libertar… E logo Emanuelle virá com ela, nessa jornada rumo ao desconhecido…

Sem saber o porquê, recita:

“Forças Misteriosas,
Seres noturnos,
Eu os invoco…
A vocês, minha alma entrego,
Arrebatem-me deste mundo cruel,
Deem-me forças,
Cubram-me de escuridão,
Para que com frieza
Possa eu enfrentar a crueldade daqueles que
Querem me tirar o ar que respiro,
Tirando de mim meu único e precioso tesouro…
Meu sangue está correndo em suas veias,
E o meu nas dela…
E esta noite, nos uniremos para sempre…”
Ela crava, sem dó, o punhal no peito… O sangue mancha de vermelho o vestido branco… Agoniza, mais antes que seus olhos se fechem de vez, ela pode ver uma figura vindo em sua direção… Têm cabelos escuros, lisos e longos… Dá pra perceber por debaixo da capa negra que é uma mulher… Ela chega e acaricia os cabelos daquela bela jovem que acabara de pôr um fim à própria existência como ser humano… Retira-lhe o punhal do peito, e experimenta o sabor do sangue… É puro, não traz maus sentimentos, apenas uma dor profunda e torturante, e muito medo… A criatura chega perto do pescoço, mordendo-lhe e sugando um pouco daquele sangue… Em seguida, beija os lábios de Bianca, o beijo que lhe trará de volta à vida, uma vida Eterna.
O corpo da jovem Bianca nunca foi encontrado”

Esse sonho me assustou… Seria possível que Bianca seja uma Vampira? Vampiros são criaturas da imaginação popular… Sempre ouvi tantas estórias sobre eles, mas são apenas estórias… Ou não?

Hoje não escrevi um poema para Emanuelle, mas sim uma longa carta…

Chega a noite… Meu coração ainda busca o abrigo que em vão procurou durante todo o dia. Olho para o céu… As estrelas frias e distantes não podem me dar calor… Não podem abrigar esse coração que sofre a ausência do teu amor…
Sem você aqui, quem pode me fazer sorrir? Quem pode tocar o fundo da minha alma? Revirar meus sentimentos no avesso e mostrar a minha face oculta? Sua lembrança desperta a doçura e a delicadeza em meu espírito… Só você me desperta para a doçura da vida, para o Amor… Só você inspira meu coração, só você me faz feliz… Faz-me bem… Só você pode aquecer-me nas noites frias… Só você me faz sentir completa, por que uma parte de mim está contigo… Você é minha alma gêmea, minha outra metade, minha razão de viver, de sentir, de sonhar… E eu preciso de você, como preciso respirar, preciso da sua luz e do teu calor… Preciso da tua paz… Você é a única ilha, o único porto onde posso atracar em meio ao oceano da minha vida…
Pássaros voam no céu… Não invejo sua liberdade, pois tudo que quero é estar presa à você, ao teu espírito e ao teu corpo…quero me prender para sempre em você, e mesmo que tenha uma chance, nunca quero escapar, nem fugir do teu amor…pois sem ele, sei que não sou nada, nada além de uma sombra, um pedacinho de uma alma que vaga perdida, buscando sua outra metade, seu caminho…e sei que a parte de mim que procuro, só poderei encontrar nos teus olhos…
Solitária, vou dormir… Vou tentar encontrá-la nos meus sonhos… Sei que acordarei e não você não estará ao meu lado, sei que novamente, choverão lágrimas de saudade em meu olhar… Sei de tudo isso… Mas ter mais uma vez a sensação de estar nos teus braços, mesmo que nos breves segundos de um sonho, é suficiente para que eu enfrente toda a dor de não ter você aqui, e nem ao menos saber se neste momento, em algum lugar, você também está sozinha e sentindo saudades de mim…e de imaginar que, se estiver assim, triste como eu, por algum motivo que foge ao meu olhar, não estou contigo, para fazê-la feliz com o Amor que guardo só para você…e, entre lágrimas, meu ultimo suspiro antes de adormecer é o teu nome…