Capítulo 12 – Sob o eclipse

Bonito-Mato Grosso do Sul, Brasil.

BIANCA

Nua, ela se deleitava na água do lago que se formara entre as rochas na entrada da pequena gruta. Já havia visitado a parte interna da caverna, nadando com uma habilidade que não tivera enquanto mortal. Alimentara-se antes de entrar na mata. Ao contrário de Emanuela que havia partido pelo mundo, Bruna preferia seu próprio país. Planejava conhecer belos lugares históricos internacionais, mas queria curtir e muito as belezas naturais brasileiras antes que estas desaparecessem para sempre devido à negligência de muitos mortais gananciosos. A lua começava a ser encoberta – naquela noite, haveria um eclipse total. Bruna olhava o céu. Quando era pequena, acreditava que, se fizesse um desejo para a Lua ela o realizaria, mas seria apenas um desejo durante toda a sua vida, por isso, tinha que pensar bem o que pediria. Não sabia ao certo de onde tirara esta ideia. Sorriu ao lembrar-se dos seus tempos inocentes. Finalmente chegara o momento de fazer o seu pedido à lua… Fechou os olhos e pediu que o grande amor de sua vida a encontrasse. Ao abrir os olhos, deparou-se com Bianca ao seu lado. O corpo banhado pelas águas geladas e os olhos banhados por lágrimas. Nesse momento a lua foi completamente encoberta, e sua sombra encobriu os vultos de dois corpos que se amavam sob o eclipse, no silêncio da mata, junto ao ciciar dos insetos, ouviam-se sussurros e gemidos de amor.

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Capítulo 11 – As viagens de Emanuela

BIANCA

São Vicente era realmente uma bela cidade. Não tinha praias espetaculares nem belas matas. As ruas, por vezes tinham um ar de abandono. Emanuela poderia ter começado suas viagens por tantos e tantos lugares, mas quis começar pela cidade onde viu Mary ser transformada, onde passou momentos maravilhosos de sua infância mortal. Passeava pelas ruas desertas do centro. Durante o dia o movimento ali era grande. Havia muitas pequenas lojinhas, carrinhos de sorvete, gente apressada, fazendo compras, passeando. Mas já era madrugada e as ruas estavam vazias. Emanuela queria companhia. Pensou em Carmilla, por que a havia libertado? Lucius e Danielle, onde estariam? Queria simplesmente mais uma daquelas noites cheias de prazer. Pensava nisso enquanto andava, e, quando se deu conta, estava na Praça da Biquinha. Havia um grupo de jovens ali. Bebiam uma batidinha e jogavam algo com um baralho. Emanuela aproximou-se, rapidamente fez amizade com eles. Logo convenceu uma das meninas, Cláudia, a ir dar uma volta a sós com ela. Conversaram longamente, Emanuela levou-a ao emissário, fizeram amor ali, nas pedras, tal qual Lorde M III. e Mary. Emanuela não matou Cláudia, e também não a transformou. Era muito cedo para trazer alguém para junto de si, não queria responsabilidades, nem a mesma companhia todas as madrugadas. Levou a garota de volta para casa, deu-lhe um beijo e um último adeus. No dia seguinte estava em São Paulo. Após uma animada semana na Capital, curtindo as melhores baladas e noitadas, partiu para o interior do estado, cidadezinhas pequenas, desertas. Era muito difícil encontrar alimento nesses lugares pois a maioria das pessoas se mantinha dentro de casa após o escurecer; muitas vezes Emanuela teve que invadir a residência de seus “jantares”. Logo se cansou do interior. Percorreu o litoral brasileiro de Norte a Sul. Amava o mar, as praias noturnas, algumas badaladas, outras desertas, algumas calmas, outras sempre com ondas enormes, mas todas belas. Deixou o Brasil, conheceu toda a América do Sul, Central, América do Norte, a Estátua da Liberdade e as salas mais secretas do Pentágono. Teve amantes, muitas, ricas, pobres, moças de família, garotas da vida, noitadas com duas, três, até cinco pessoas no mesmo quarto. Conheceu o Oriente Médio, Japão, China… O mundo era pequeno demais para sua curiosidade, para a sua busca pelo prazer.

Bruna era uma vampira livre, morava com Carmilla, mas aos poucos descobria que não a amava. Era romântica e doce, não suportava a solidão, não suportava a promiscuidade da companheira. Queria sair e fazer amor ao luar, mas sem haver outras pessoas a observar-lhes cada movimento. Havia dez anos, Emanuela havia partido e só agora Bruna notava que, não era por culpa da amiga que Carmilla buscava formas não convencionais de sexo como o sadomasoquismo e o sexo grupal. Isso fazia parte de sua personalidade e nada a mudaria. Decidiu abandonar o lar, já não amava mais Carmilla. Foi pedir abrigo na casa de Bianca, onde foi bem recebida. Após semanas, decidiu partir. Também queria conhecer o mundo, encontrar um grande amor e ser feliz.
Bianca aos poucos ia superando o abandono que sofrera. Não entendia o porquê, mas ia aceitando o fato de Emanuela não querer viver com ela. Não se encontram nem mesmo quando Carmilla a libertou. A companhia de Bruna a alegrou um pouco, assim como a alegrava ver Mary e M. juntos e felizes. Sofreu quando Bruna partiu. Em poucas semanas havia se acostumado a sua companhia, seu carinho, sua alegria, sua luz… Algo nela mexera com seu coração machucado por séculos de solidão e, principalmente, machucado pela recusa da mulher amada, por quem abandonara sua família, sua vida… A quem jurara amor eterno num pacto de sangue.

A vida ia tornando-se mais amena à medida que Bianca percebia que a chance que tiveram fora naquele quarto quando pela primeira vez fora buscar Emanuela e que ao se negar pela primeira vez a segui-la havia quebrado o pacto que havia entre elas. A história estava para sempre enterrada pelos séculos, os personagens principais já não mais existiam. Emanuela não era mais a mesma pessoa, assim como Carmilla não era mais a garota apaixonada pela prima, como Bruna não era mais a jovem desesperada que preferia fugir para um convento a aceitar uma traição, todos haviam mudado… Alguns muito, outros pouco. O amor fora verdadeiro em seu tempo de florescer, mas tal como uma rosa murcha já não mais recupera o viço, essas paixões jamais voltariam a ser como eram… Mary e M. estavam felizes, era verdade, mas o amor deles havia sido interrompido em seu auge por uma fatalidade, M. jamais deixara de amar Mary, ou melhor, Susan… Ela jamais havia deixado de amar Emanuela, mas esta havia encontrado um amor maior nos filhos, que a impedira de segui-la, e agora, encontrara outro grande amor: seu próprio prazer carnal e sua liberdade. Carmilla aprendera muito rápido a viver sem Bruna, jamais a havia buscado, apaixonara-se pela ideia de vingança. Bruna sempre esperara um grande amor, era uma alma doce e sonhadora…

Após alguns anos de viagens, Emanuela se julgou preparada para trazer alguém para seu mundo. Escolheu uma jovem negra, de olhos azuis devido à mistura racial, uma garota inteligente e muito bela. Tinha 16 anos e estava distraída no jardim de sua casa, onde esperava pelo namorado escondida dos pais. Foi tudo muito rápido, Ashley viu aquela jovem ao seu lado, assustou-se, mas algo a impediu de gritar. Emanuela a abraçou e a desvirginou ali mesmo antes de mordê-la e dar-lhe o Beijo da Eternidade. Levou para a casa de Carmilla para que se recuperasse. Formaram um trio, Emanuela, Ashley e Carmilla. Sua casa é um lugar muito badalado entre vampiros e vampiras de todas as idades e que tem em comum a busca intensa por um prazer carnal não convencional e totalmente sem compromisso.

Mary e M. vivem juntos, trouxeram para este mundo uma jovem de olhos claros e cabelos louros que tentara suicídio após a morte do namorado num acidente de trânsito. Thalissa é a filha amada e muito mimada de um casal feliz, que ainda pretende trazer mais umas três “crianças” para animar-lhes a casa, e que planeja ter muitos netos.

Capítulo 10 – Bruna e Carmilla

BIANCA

Após uma longa viagem, Bruna chegou à mansão de Carmilla. Estava tudo deserto, nenhuma movimentação. A amada devia estar fora, caçando. Esperou junto à grade. Poderia ter simplesmente entrado mas não quis. Ficou observando o local onde viveria a eternidade. O local parecia abandonado, no jardim, a grama estava alta, não havia flores e a cerca de madeira estava estragada em vários prontos. A casa também precisava de uma pintura, Bruna riu de seus pensamentos, parecia até uma Mortal.
-Boa noite, Bruna.
-Carmilla, meu amor…
-Seu amor? Se assim fosse, você teria me esperado, não se entregado à Bianca!
-Eu só queria estar com você, não queria esperar tantos anos.
-Temos a eternidade, o que eram para você mais 49 anos?
-Era mais tempo do que eu poderia suportar longe de você. Eu… Desculpa se eu não aguentei…
-Ótimo você já veio me ver, agora volte para a sua casa, para a casa de Bianca.
-Meu lugar é aqui, ao teu lado.
-Não é não, você deve servi-la durante 113 anos.
-Eu fui libertada.
-Ela te libertou?
-Sim.
-Entre.
Carmilla mostrou a Bruna seus novos aposentos. Foi com emoção que Bruna e Emanuela se reencontraram.
Emanuela continuaria sendo serva de Carmilla, pois esta não abria mão disso de maneira nenhuma. Deveria ser grata à Bianca por ter libertado Bruna, mas não o era. Bianca havia lhe tirado a chance de trazer para junto de si o amor de sua vida, ela gostaria de ter feito amor com Bruna antes de mordê-la, gostaria de ter sentido o sabor de seu sangue quente. Não considerava que, durante os 50 anos que Bruna deveria esperar, ela poderia sofrer um acidente, ou adoecer e morrer antes de ser transformada.
Apesar de amarem-se muito, as brigas eram frequentes, Bruna tinha ciúmes de Carmilla, que era incapaz de manter-se fiel. Principalmente, tinha ciúme de Emanuela e Carmilla, que pareciam formar um par perfeito de Luxúria. Após cinco anos juntas Bruna finalmente conseguiu que Carmilla libertasse Emanuela. Esta não foi morar com Bianca, partiu numa longa viagem pelo mundo tornando-se assim como Carmilla, uma sedutora incorrigível.
A libertação de Emanuela não contribuiu para tornar a vida de Bruna e Carmilla melhor; Carmilla saía para caçar e para se divertir, deixando a companheira sozinha por noites a fio.
Bianca não se conformava com a viagem de Emanuela, poderiam ter partido juntas, já haviam ficado separadas por tantos séculos. Era triste ver a amada abandoná-la novamente.

Capítulo 9 – A decisão de Bruna

BIANCA

O dia estava quente. Muito sol, muito mar. Todos curtiam a praia, o feriado prolongado. Bruna nunca gostara muito de Carnaval, mas mesmo assim, havia aproveitado a folga e ido para São Vicente. Bebia uma cerveja na praia, enquanto lia uma revista qualquer. Um tédio. Como gostaria de ver Carmilla. Já havia passado dias e dias desde a última aparição da amada, onde estaria? Pensou em Mary, ela era sua irmã, poderia confiar nela e deixar-se transformar. Ela jamais faria algo de mal. Por que Carmilla não aceitava a proposta? A eternidade era infinitamente maior que os 50 anos que deveria esperar, mas por que sofrer assim por tanto tempo, se em uma noite poderiam estar juntas novamente? Foi até o emissário, onde havia encontrado aquele poema, o diário de sua irmã. Olhou o mar, as ondas a repetirem sempre o mesmo caminho… Assim como o amor, não era o que dizia aquele poema? Mas, se ela se deixasse transformar, o que seria da sua linhagem? Seria o fim dos de seu sangue sobre esse mundo mortal? Talvez fosse esse o destino, ou ela deveria casar-se e ter um filho, antes de partir? Quantas dúvidas.

        Mary e Bruna conversaram muito naquela noite. Bruna estava com medo da reação de Carmilla quando a visse, mas sua decisão estava tomada. Partiria para a Eternidade pelas mãos de Bianca, não esperaria por Carmilla.
Bianca chegou, vestia uma saia longa e uma bata azuis, bem leves. Abraçou Bruna, apresentou-lhe M., que viera conhecer a cunhada, conversaram um pouco, para aliviar a tensão. Depois pediram que M. e Mary se retirassem, pois Bruna queria estar sozinha com Bianca na hora da transformação. Foi tudo muito rápido, Bruna fechou os olhos, sentiu Bianca lhe acariciar o pescoço, e apenas uma leve dor quando foi mordida.
Dois meses depois, Bruna acordava na casa de Bianca e iniciava seus estudos na Escola de Vampiros.
Carmilla descobriu que sua amada havia sido transformada. Não há palavras para descrever o ódio que sentiu por Bianca e também por Bruna, que lhe desobedecera.

Capítulo 8 – A Vampira Emanuela

BIANCA

Bianca e Mary não transformaram Bruna. Emanuela ainda era prisioneira de Carmilla, um ano já se passara, ainda havia longos 112 anos a esperar, porém algumas coisas haviam mudado bastante: Emanuela já não era mais aquela prisioneira infeliz. Já havia aprendido a gostar de seu novo estado. Não entendia qual o motivo que a havia levado a adiar tanto tempo sua partida para a Eternidade e era grata a Carmilla por tê-la trazido. Imaginava-se livre, seria feliz, conheceria o mundo, todos os lugares com os quais sempre sonhara. Não pensava em ir para os braços de Bianca. Tinha a Eternidade para viver, cores, lugares e pessoas para conhecer. Qual seria a vantagem em ir viver com uma mulher? Qual o sentido da fidelidade para quem teria infinito tempo? Às vezes, imaginava que sentiria falta de Carmilla. Gostava de seu jeito sempre bruto de fazer sexo: Algemava-a na cama, amarrava-a com tiras de couro, já a levara conhecer os calabouços de um antigo castelo – Fora a noite mais excitante que tivera: Nua, em pé, com os braços amarrados acima da cabeça e as pernas ligeiramente abertas, amarradas por correntes. Carmilla a tocava, deixava-a louca de tesão e depois a abandonava ali por longos minutos, para retornar em seguida e começar tudo de novo.Duvidava muito que Bianca fosse capaz de possuí-la daquela maneira.
Uma voz veio tirar Emanuela de seus devaneios:
-Emanuela!
-O que deseja minha mestra e senhora?
-Venha até aqui.
Emanuela foi até a varanda, onde Carmilla estava observando o luar.
-Retire a roupa.
Nua, a luz do luar, Emanuela ficava ainda mais bonita.
-Vá até o meio do jardim e sente-se naquela pedra, de frente para mim.
-Hoje temos visitas, um casal. Talvez você reconheça o homem. Quero que você se comporte bem, entendeu?
-Sim.
Emanuela sentiu alguém chegar por trás de si, eram mãos masculinas, fortes e ágeis. Tentou voltar-se para ver o rosto do desconhecido, porém ele a segurou com força pela nuca. Não queria ser visto. Vedou-lhe os olhos. Da varanda, Carmilla e Danielle assistiam. Lucius dava-lhe pequenas mordidas, depois fez com que ela lhe explorasse com as mãos e deixou que ela lhe despisse, ainda com os olhos vendados. Deitou-a na grama, passava seu corpo sobre o dela, deixando-a sentir sua excitação, mas evitando tocá-la. Queria deixá-la excitada, torturá-la de prazer. Mudou a posição, fazendo-a ficar de quatro e mandando-a andar nessa posição pelo jardim. Prendeu-a em uma cerca com uma espécie de coleira. Foi até a varanda, despiu Carmilla e a levou até perto de Emanuela. Danielle assistia seu homem fazendo sexo com Carmilla e ficava cada vez mais excitada. Emanuela podia ouvir os dois. Queria ser possuída por aquele desconhecido, fosse ele quem fosse. Os gemidos pararam. Ela sentiu que ele a acariciava novamente. Soltou-a da coleira, colocando-a em pé, encostada ao tronco de uma árvore e a amarrando ali. Sentiu que mãos femininas a tocavam, mas não se tratava de Carmilla. A desconhecida foi beijando-lhe todo o corpo, dava-lhe tapinhas ardidos nas coxas e no rosto, mordia-lhe a barriga e as partes íntimas. O homem também a estava tocando, e Emanuela podia perceber que ele estava possuindo a mulher ali mesmo. Ela já não aguentava mais – estava em ponto de bala quando ele finalmente matou seu desejo e levou-a ao êxtase.
Emanuela e Carmilla despediram-se de Danielle e Lucius, prometendo encontrarem-se novamente em noites assim.

Capítulo 7 : Bruna

”O destino nos guarda surpresas imensas… mesmo quando tudo parece perdido, sempre há uma direção a seguir. Os séculos jamais apagarão nossos sentimentos, bons ou ruins, eles sempre existirão…”

Uma nova anotação do diário de Mary, após tantos anos guardado no fundo de uma gaveta…

Matheus e Cècile Sandrin não puderam viver juntos apesar de sua paixão ardente ter gerado duas belas meninas. Após deixar os serviços que prestava à família Sandrin e retornar à propriedade dos pais Matheus envolveu-se com muitas mulheres de vida fácil, entre elas, Janaína, com a qual teve uma bela filha, Alessandra, filha que ele jamais conheceu, mas que, por uma arte do destino, acabou casando-se com um rico fazendeiro norte-americano e iniciando uma das mais influentes famílias da região sul dos Estados-Unidos. Após muitas gerações, já na época da guerra de secessão, Carmilla, filha bastarda do herdeiro daquelas terras e daquele nome, tataraneta de Janaína e Matheus, foi juntar-se àquela família, ela e Bárbara, sobrinha dos donos das terras viveram um romance ardente, até a noite em que Carmilla foi transformada em vampira por Bianca que pela primeira vez em séculos perdera seu autocontrole e deixara seus instintos falarem mais alto que seus sentimentos.
Carmilla se tornou uma vampira cruel, guiada pela dor e pela luxúria, jurou vingar-se de Bianca tirando-lhe para sempre seu grande amor, Emanuelle.
Bárbara, acreditando ter sido traída pela bem-amada, refugiou-se em um convento. Após treze anos de celibato, conheceu um padre, com o qual se envolveu, gerando uma filha, Luciane. O amante de Bárbara era ninguém menos que um dos bisnetos de Antony, filho de Marcus, que por sua vez, era filho de Leonna, a mesma filha de M. III com Marianne que tomou o lugar de sua filha legítima, morta no parto, portanto, Luciane, filha de Bárbara, pertenceu a mesma ramificação da árvore genealógica que formou a família de Mary. Mesmo sangue, misturado pelas aventuras e amores. Mesmo sangue. Mesma essência…

Os cabelos louros esvoaçavam ao vento… Como era gostoso aquele sol leve da manhã. Estavam em São Vicente, cidade onde Mary havia desaparecido, anos antes de Bruna nascer… Ela havia visto a irmã por fotos e muitas vezes imaginava por que havia sumido daquela forma, sem deixar rastros. Nenhuma carta, nenhuma pista… Havia também conhecido Emanuela e, apesar da diferença de idade eram amigas, até que esta também desapareceu. Mais um ponto de interrogação na vida de Bruna. A irmã e depois sua melhor amiga. Onde estariam? Muitas vezes tentara falar com Emanuela sobre o desaparecimento de Mary, mas esta sempre mudava o assunto, como se houvesse algo muito misterioso, mais misterioso do que o desaparecimento em si… Os anos passaram e Bruna sempre fora superprotegida, afinal, era a filha única de um casal traumatizado. Solitária, mas ao mesmo tempo muito pensativa, estava agora com 20 anos, ainda não sentira o amor tocar seu coração, nem o desejo tirar-lhe o sono nas noites solitárias. Aquele verão, porém parecia-lhe diferente, pressentia que em breve algo iria mudar para sempre sua vida.

Bianca e Mary passavam muitas horas juntas. Tentavam descobrir uma maneira de convencer Carmilla a libertar Emanuelle, mas sempre chegavam à conclusão de que a única maneira possível seria esperar que se completassem os 113 anos de servidão obrigatória, o que seriam 113 anos para quem tinha a eternidade pela frente? Mesmo assim, não se conformavam com a opção de deixá-la sofrendo por tanto tempo.Certa noite ocorreu a Mary perguntar sobre a possibilidade de encontrarem Bárbara, não poderia ela já ter retornado ao mundo dos Mortais, em busca de sua amada Carmilla? Começaram então uma busca intensa pelos registros mantidos por Bianca e também por outros vampiros que valorizavam o estudo e conservação dos dados relativos à formação das famílias desde seus antepassados até os dias atuais. Acabaram descobrindo que a família de Mary e de Bárbara tinha raízes muito próximas, portanto, haveria uma grande chance de Bárbara retornar ou já ter retornado entre os parentes de Mary… Olharam fotos e mais fotos, procurando pessoas que pudessem ser semelhantes à Bárbara. Tal qual Carmilla, Bianca nunca havia esquecido os olhos assustados da moça ao ver a amada nos braços de outra. Saberia reconhecê-la, caso já tivesse passado novamente por este mundo. Após semanas de pesquisa intensa, chegaram à conclusão de que Bárbara não estivera entre os familiares já falecidos de Mary. Talvez entre os atuais, ou entre os que ainda estavam para nascer.
Mary desejava ver novamente os seus, mesmo que estes não pudessem vê-la. Após conseguir a permissão de M. para que pudesse se ausentar viajou com Bianca. Encontrou várias pessoas de sua família que sequer sabia que existiam – primos e primas distantes, muitos frutos de amores ilegítimos. Restava apenas uma casa a visitar: A própria casa onde Mary havia sido criada… Passaram por lá, estava vazia, pois todos haviam ido passar as férias na praia. Era a primeira vez que Mary via a casa materna desde a sua transformação. Havia muitas fotos suas e também fotos de outra moça, com certeza sua pequena irmã. Uma dessas fotos chamou a atenção de Bianca, uma foto onde Bruna aparecia ao piano, em uma peça de teatro do colégio. Finalmente haviam encontrado: Bruna e Bárbara eram a mesma pessoa.
Bianca procurou Carmilla e contou onde se encontrava Bárbara. Foi um momento emocionante quando Carmilla a viu: dormia como um anjo, sem perceber a presença daqueles dois seres da noite que velavam seu sono… Carmilla não podia dar-lhe o Beijo da Eternidade, deveria esperar os 50 anos necessários… Mas, e se Bruna não vivesse mais 50 anos? Arrependeu-se de ter trazido Emanuela, deveria apenas tê-la matado. Era tarde demais para arrepender-se. Tudo isso a perturbou muito, passou a tratar Emanuelle de maneira mais cruel do que já havia tratado até então. Bianca tentou conversar com Carmilla, propôs-se a transformar Bruna e libertá-la e em troca, Carmilla deveria libertar Emanuelle. Sem sucesso, após tantos anos de sofrimento ela não queria saber de negociações, a raiva que trazia no peito tornava-se imensamente mais poderosa que o amor.

As rochas estavam quentes devido ao Sol, mas a beleza do lugar exercia um encanto incomum sobre Bruna. Uma a uma, lentamente, ela ia vencendo a distância até a ponta do Emissário, onde se sentou para observar o mar. Era temporada e ela podia ver na areia milhares de pessoas deitadas ao sol, tentando fazer a pele chegar a tal “cor de verão”, definitivamente, este não era o estilo de Bruna. Antes ficar ali, sentada ,pensando, observando a beleza das ondas, do mar. Quando encontraria alguém para amá-la? Alguém que pudesse simplesmente ficar ali com ela, horas a fio, apenas sentindo toda a energia que a Natureza ofertava? As horas foram se passando, e com elas o Sol. Veio a noite, a lua cheia… Bruna ainda estava no mesmo lugar… Sentiu que alguém a observava pelas costas, virou-se e encontrou um envelope

Olhe para as ondas do mar…

 Elas são como o Amor que está em nossa alma…Às vezes calmas e tranqüilas, as vezes agitadas, tempestuosas mas sempre constante, repetindo o mesmo caminho, o mesmo som.Mesmo quando o mar está tranquilo, e suas ondas apenas murmuram algo ao longe, podemos reconhecer o mesmo som que se escuta em meio a uma tempestade, apenas um pouco mais suave.

O Amor é assim: Mesmo quando parece distante e apenas podemos ouvir seus leves e doces murmúrios, sabemos que ele é intenso. Sabemos que ele percorrerá tantas e tantas vezes os caminhos de nosso coração, esculpindo-o, como as ondas fazem às rochas à Beira-Mar. E sei que essas ondas de Amor que trago em meu peito, sempre repetirão num doce murmurejo o teu nome.

Era uma linda mensagem… Para quem teria sido escrita? Por quem? Como passara ela por ali e não vira o envelope? Sentiu um arrepio percorrer lhe todo o corpo quando Bianca tocou-lhe o ombro, mas não viu ninguém. Decidiu sair dali, já era muito tarde.
Dias depois, voltou às rochas durante a noite, encontrou na mesma rocha um caderno um tanto velho, parecia um diário. Começou a ler as primeiras páginas, tratava-se do diário de uma menina chamada Mary, mesmo nome de sua irmã. Contava uma longa história de amor através de muitos séculos. Começou a imaginar que a Mary da história fosse sua irmã Mary. Era uma maneira doce de se conformar com o desaparecimento daquela garota que não chegara a conhecer mas que estava sempre presente em seus pensamentos. Levou o diário para casa. Durante dias, dedicou-se a entender a caligrafia complicada e todos os detalhes daquela estória incomum. Na última página pôde finalmente ler e entender sua própria estória. Então ela também fazia parte dessa trama secular, por isso não encontrava ninguém para amar. Seu grande amor já estava escrito: Carmilla. Quando ela viria buscá-la?

 Noite de ano novo.

A praia estava lotada, várias pessoas aguardavam ansiosamente a queima de fogos que anunciaria um novo ano. Bruna estava deslumbrante, num vestido azul-escuro curto e muito colado ao corpo. A pele naturalmente branca estava morena, devido ao sol. Entrou na água e pulou as sete ondas, embora não acreditasse muito nisso. Pediu que pudesse, naquela noite, ver sua amada Carmilla. Ao sair da água, encontrou-a na areia, e mesmo sem nunca ter visto-lhe o rosto, reconheceu-a imediatamente. Correu a abraçar-lhe, pedindo que a levasse com ela. Carmilla explicou-lhe que não podia, pois havia transformado Emanuela alguns meses antes. Passaram a noite juntas, amando-se como só quem já alguma vez perdeu no tempo um grande amor pode entender.
Bruna decidiu que esperaria os 50 anos necessários, até que Carmilla pudesse vir buscá-la. Esperaria séculos por seu único e grande amor, nada mais lhe importaria, apenas esperar e esperar, um dia estariam juntas, o amor sempre venceria. Escreveu uma carta para Carmilla e deixou-a nas rochas, onde havia encontrado o diário…

Sinto saudades, tantas como jamais imaginei sentir um dia. Pensei que fosse forte, forte o suficiente para agüentar a tua ausência, mas, depois que estivemos juntas, vi que não sou tão forte quanto pensei ser, e tudo que quero é tê-la de volta. Descobri dentro de mim coisas novas, que jamais imaginei existir. Me pego pensando no que podes estar fazendo e sinto ciúme de ti, de imaginar que podes estar em outros braços que não os meus. Queria poder ser a brisa que toca teus cabelos, que te refresca nas noites quentes. O cobertor que te aquece nas madrugadas frias. A água que banha teu corpo e mata tua sede. Quero ser tua mulher, tua amiga, tua amante e tua companheira, tudo ao mesmo tempo, pois quero apenas ser tua para sempre. Preciso sentir esse teu olhar felino me devorando aos poucos, preciso de você como preciso do ar que respiro e até mais que isso. Sem o ar, sei que morreria, meu corpo morreria e minha alma estaria livre. Livre para voar até o infinito e te acompanhar, te proteger de tudo e de todos. Mas sem você… Sem você eu não vivo, apenas sobrevivo aprisionada num mundo que sem você ao meu lado, nada vale. Não tem brilho, beleza, cor, luz ou calor. Não imaginas como é difícil eu escrever esses sentimentos. Sempre fui tão racional, tão forte… Nunca havia sentido ciúmes… Nem um pouco… E agora me vejo repentinamente lançada neste mar de sentimentos fortes e impetuosos… Queria poder grudar em você e nunca mais soltar… Levá-la para uma Ilha deserta, eu, você e mais ninguém ao nosso redor. Mas sei que não é preciso tanto, pois quando estivermos novamente juntas, nosso amor será tão forte, que mais nada existirá ao nosso redor, não em nossos momentos pelo menos. E quando for necessário sair do nosso mundo, teremos mais força e vigor para enfrentar essa humanidade cruel que nos aguarda. Seremos nosso único abrigo e refúgio.
     Não consigo parar de pensar em você. Durante cada instante do meu dia me sinto aprisionada pela solidão, por não tê-la perto de mim… Por não ter sequer uma notícia tua… Pela primeira vez, sinto a necessidade de ouvi-la dizer que pensa em mim… Que nas noites frias e solitárias, é em meu corpo que gostaria de se abrigar e em meu coração que gostaria de se aquecer. Quero-te e te amo tanto… Você talvez não consiga imaginar o quanto… Não dá pra te dizer, mas sei que, se você neste momento fechar seus olhos e pensar em mim, talvez consiga sentir um pouco a força deste sentimento que está em minha alma desde que o mundo é mundo. Desde que brilhou no céu a primeira estrela, esse sentimento está em meu peito, esperando por você…
Amo-te, muito mais do que o infinito…
Beijos,
Da Sempre Tua,
Bárbara (ou Bruna)”
 

Em algum ponto distante, Bianca e Mary conversavam… O assunto era o mesmo: Emanuelle, Carmilla e Bruna… Carmilla deixara aquele poema para Bruna, em outra noite, Mary e Bianca deixaram o diário de Mary, com toda a história para que Bruna pudesse saber tudo o que se passou ao longo de tantos séculos. Bastou isso, para fazê-la apaixonar-se por Carmilla… Por que Emanuela não havia se entregado tão facilmente ao amor de Bianca? Era um mistério que nem o tempo desvendaria…

Bruna dormia, estava de volta à sua casa, parecia uma pequena princesa de algum conto de fadas cercada por seus lençóis cor-de-rosa, bonecas e bichinhos de pelúcia. Mary sentou-se delicadamente a seu lado na cama, acariciou os longos cabelos e aspirou o perfume por eles exalado, impressionava-se, como era linda a sua pequena irmã, e, no entanto, como eram fisicamente diferentes. Sentiu-a mexer-se e segurar-lhe as mãos, com quem estaria sonhando? Nos lábios, um sorriso e o sussurro de um nome: Carmilla.
Delicadamente, Mary a fez acordar… Abraçaram-se, sem palavras por se encontrarem pela primeira vez após tantos anos. Conversaram longas horas e Mary pode notar o quanto Bruna estava apaixonada por Carmilla. Lembrava-se de si mesma, quando aos dezesseis anos tivera o primeiro contato com Bianca. Emanuela achava que ela estava louca. Sua primeira noite de amor nos braços de M. tudo tão perfeito. Explicou à Bruna como Carmilla estava mantendo Emanuela prisioneira, que só ela caso se deixasse transformar poderia convencer Carmilla a libertar a amiga.Bruna, porém, estava relutante, e se Bianca a transformasse apenas para aprisioná-la durante séculos?
Faltando algumas horas para a aurora, Mary deixou Bruna sozinha, sem conseguir convencê-la a entregar-se. Ela desejava ser transformada pela amada, não por uma amiga de sua irmã. Por outro lado, pensar em Emanuela aprisionada a deixava profundamente triste afinal Emanuela fora sua amiga enquanto mortal.
Carmilla passou a visitar Bruna em algumas noites. A cada visita pedia que ela não se deixasse transformar por ninguém, que os 50 anos passar-se-iam rapidamente e elas poderiam então ficar juntas, para sempre.
Para Bianca e Mary, restava uma última opção: transformar Bruna a força, tal qual Carmilla transformara Emanuela.

BIANCA

Capítulo 6 – Uma noite de amor

 

BIANCA

“Podemos demorar uma vida para encontrar nosso grande amor, mas bastam alguns segundos para perdê-lo”

 

  

 

Carmilla e Emanuela se encontraram em um pequeno porém badalado barzinho. Havia música ao vivo – uma banda de rock pesado. Após algumas bebidas decidiram ir para um local mais tranqüilo. Apesar da insistência de Emanuela para que fossem de taxi, Carmilla fez questão de ir de carro como se o álcool não a afetasse…
No motel Carmilla parecia não ter nenhuma pressa: Beijava e acariciava Emanuela tranquilamente. Não a despiu logo como qualquer outra pessoa faria, colocou uma música suave e ficaram ali, por algumas horas apenas namorando … Emanuela estava achando maravilhosa essa ternura. Era a primeira vez que alguém a tratava daquela maneira na hora do sexo. Será que esse relacionamento teria futuro? Ou seriam apenas algumas noites como todos os outros?
Carmilla começou então a retirar delicadamente as roupas de Emanuela. Ficou um longo tempo a observá-la nua, deitada na cama, nívea, contrastando com os lençóis vermelhos… Era uma cena deliciosa. Acariciou seus seios, beijou-lhe o pescoço, o corpo, deixou que suas mãos passeassem pela barriga, brincassem com pelos pubianos, descendo depois até a parte interna das coxas. Depois começou a beijar-lhe todo o corpo. Há quantos séculos não tocava uma mulher. Que cheiro, que pele suave. Podia senti-la arrepiada, esfregando levemente o corpo contra o dela. Seu sexo úmido, pronto para ser tocado, penetrado pelos seus dedos, ávido de prazer. Os cabelos desalinhados, as faces já rosadas…
Bianca decidiu procurar Emanuela, fazia tempo que não via a amada. Onde estaria? Conseguiu localizar o motel para onde havia ido com uma garota desconhecida. Ao chegar ao quarto, Bianca ficou em choque ao ver sua amada nos braços de uma Vampira. Emanuela sentiu a presença de Bianca e não deixou que isso a incomodasse, sabia que já fora observada por ela outras vezes.
-Carmilla?
Ela até então não havia se dado conta da presença de Bianca, apesar de seus sentidos aguçados, estivera muito concentrada.
-Olá Bianca, finalmente nos reencontramos, não? É, acho que você perdeu.
-Do que vocês estão falando?
-De uma história que vai além, muito além do que você pode imaginar algo que começou na época feudal, e depois.
-Carmilla, você também é uma delas?
-Sim, uma vampira, ela me transformou nisso, sem ao menos perguntar se eu queria ser transformada. E eu jurei a mim mesma que um dia eu iria te arrebatar aos braços dela, assim como ela me arrebatou aos braços de meu único amor.
-Quero ir para casa, não vou acompanhar nenhuma de vocês, sou mortal e assim quero continuar!
-Acho que você não tem mais essa opção.
Numa rapidez incrível, Carmilla mordeu o pescoço de Emanuela, Bianca não conseguiu fazer nada para impedir.
Carmilla deixou que Emanuela perdesse muito sangue, pensava se a deixava morrer, ou se lhe dava o Beijo. Decidiu pelo Beijo, apesar dos esforços da garota, que preferia morrer a ser transformada.
 

 Alguns meses depois Emanuela acordou num casarão colonial, no sul dos Estados Unidos. Tratava-se da casa de Carmilla. Agora, ela era apenas uma serva de Carmilla. Não freqüentou a Escola de Vampiros. Aprendeu tudo o que deveria com sua Senhora. Era mantida presa durante dias e noites, tendo permissão apenas para sair e se alimentar. Vivendo desta forma, teve muito tempo para pensar. Se houvesse aceitado a proposta de Bianca estaria ao lado de um ser que a amava de verdade… Acima de tudo, sentia muita falta da família, da luz do Sol, do mar. Um banho de mar era tudo o que mais queria… Saudade, palavra dolorida… Dor indefinível, saudades do que vivemos e do que não vivemos… Das pessoas que amamos, de todas as vezes que quisemos dizer “eu te amo” e deixamos para depois. Às vezes, o depois não acontece nunca mais…
Bianca rondava o casarão de Carmilla durante várias e várias noites, acompanhava a amada de longe, mas sabia que, durante 113 longos anos, Emanuela seria uma serva de Carmilla, e nada poderia mudar isso.
 

Capitulo 5 – Carmilla (II)

           

Emanuela estava ansiosa por encontrar a jovem com quem havia marcado um encontro numa sala de bate-papo. Conversaram durante semanas a fio, sempre no mesmo horário noturno. Carmilla parecia uma jovem simpática e culta, dizia ter 22 anos e estudar Música na FAP. Debatia com tranqüilidade qualquer assunto que surgisse. Após algum tempo de bate-papo, o inevitável aconteceu: marcaram uma data para se encontrar. Sentia-se como uma adolescente apaixonada, acordou cedo, fez o cabelo, as unhas… Demorou horas escolhendo a roupa que usaria, acabou decidindo-se por um tubinho preto e sandália de salto alto, que, na hora de sair foram trocados às pressas por uma saia de cetim, também preta, pela altura dos joelhos, uma meia calça preta, um coturninho de salto e uma frente única (preta). Haviam marcado o encontro numa casa noturna GLS super badalada e Emanuela já estava preocupada em saber como se reconheceriam.

            Luzes piscavam por todos os lados… A fumaça do gelo seco ajudava a embaçar ainda mais a visão… Uma linda garota, aparentando ter vinte e poucos anos, estava sentada no balcão, bebericava um Martini com uma pedra de gelo. Os olhos voltados para a entrada. Vestia-se de negro, como quase todos por ali. Quando viu Emanuela chegar, levantou-se imediatamente. Sua vontade era fazer sexo com ela e depois matá-la. Mas não queria assim, tudo em uma noite… Conquistaria seu coração primeiro. Talvez a transformasse em Vampira, sem escolha como havia acontecido com ela, e depois a faria servir-lhe durante longos 113 anos… Caminhou em direção à jovem, que olhava para todos os lados :

            -Me procurando?

            Carmilla era mais bonita do que Emanuela havia imaginado, o que a deixou momentaneamente sem ação, mas como era desinibida, contornou logo a surpresa, arrastando Carmilla para a pista de dança, onde as batidas as conduziram a uma dança sensual, os corpos cada vez mais próximos, como que se provocando… Pela primeira vez, Emanuela estava conseguindo se divertir sem sentir a presença de Bianca a seguindo. Isto lhe dava uma sensação de liberdade e também lhe causava temor, onde estaria aquela que já havia se tornado sua sombra? Não deveria pensar nisso agora, estava quase nos braços da garota mais linda que já havia conhecido. Como ela era perfeita, até seu nome tinha uma musicalidade especial – Carmilla – diferente, assim como sua dona, perfeito. Doce. Havia uma tensão no ar, uma química quase insuportável. Mesmo assim, Carmilla não fazia nada para avançar os limites, sequer havia tentado beijá-la, talvez esperasse uma iniciativa de Emanuela, algo que não demorou a acontecer. Ela, porém não se entregou. Sugeriu irem para um local mais reservado. Carmilla levou Emanuela até seu carro, onde colocou uma música francesa, de alguns anos atrás, porém uma de suas preferidas: Voyage Voyage. Ficaram apenas conversando por algumas horas, enquanto rodavam pela cidade e observavam as pessoas… Pouco antes das duas da manhã, Carmilla deixou Emanuela na porta de casa, despedindo-se dela com um delicado beijo “de trave”, isso é, quase um selinho. Marcaram de se encontrar no próximo final de semana, em um bar muito freqüentado por roqueiros góticos no centro de São Paulo…

           Emanuela trabalhava no escritório de uma firma que mantinha turnos durante a madrugada. Naquele dia, estava especialmente bem arrumada, aproveitara o tempo um pouco frio e colocara uma bata vermelha, de meia-manga e decote ousado, uma calça jeans justa e uma botinha com um salto pequeno. Tinha uma sala só sua, um computador ao canto, próximo à janela. Não havia ninguém por ali, algo comum àquela hora da noite. Tudo deserto, como ela gostava, pois assim podia trabalhar tranquilamente. Não se passaram nem cinco minutos, e ela notou que alguém a observava pelas costas, tão próximo que podia sentir-lhe a respiração. Sentiu uma mão deslizar pelas suas costas, acariciando lhe a nuca e os cabelos. Quem seria? Surpreendeu-se ao ver Carmilla – seus olhos só faltavam devorá-la. Sem dizer uma palavra, deslizou as mãos por dentro de seu decote, provocando-lhe arrepios, levantou-a e a conduziu até uma escada que levava a um porão que não era utilizado, mas que mesmo assim era mantido limpo. Beijaram-se furiosamente, Carmilla abriu o zíper da calça de Emanuela e começou a tocá-la enquanto a beijava. Nunca Emanuela havia conhecido um prazer igual. Apesar de suas muitas experiências, jamais alguém a havia tocado com tamanha audácia e isso a excitava.

            -O que vocês pensam que estão fazendo?

            Lucius, o gerente da madrugada havia notado a porta do porão semi-aberta e decidira averiguar, encontrando-as naquela situação constrangedora e atrapalhando os planos de Carmilla, que pretendia ali mesmo dar o Beijo da Imortalidade em Emanuela. Foram colocadas para fora, Carmilla poderia ter matado Lucius naquele momento, mas não queria que Emanuela soubesse o que ela era. Levou-a até um pequeno bar, onde conversaram por algumas horas e Carmilla conseguiu, não sem usar seus poderes, evitar que Emanuela lhe perguntasse como a havia encontrado.

Novamente a despedida fora muito discreta, apenas um selinho rápido, que nem de leve aproximava-se dos beijos quentes de algumas horas atrás. O encontro, porém estava confirmado, iriam ver-se no final de semana e, no que dependesse de Carmilla, iriam ver-se bem antes…

             Já era quase hora de ir para casa, daqui alguns minutos o gerente do dia chegaria. Preguiçosamente, Lucius abandonou o jogo com o qual se entretinha em seu próprio computador e foi verificar se estava tudo em ordem com as máquinas, se dirigiu a primeira das três salas… Ligou a verificação antivírus dos treze computadores daquela sala e saiu em seguida, dirigindo-se à segunda sala, onde já havia colocado o programa de verificação para funcionar uma hora antes. Após resolver alguns problemas técnicos de rotina, desligou os sete computadores. Restava apenas a terceira, o escritório de Emanuela, cuja máquina também já havia sido verificada. Surpreendeu-se ao ver ali uma jovem de cabelos negros. Aproximou-se, colocando a mão sobre o ombro da jovem. Para sua surpresa ela segurou-lhe a mão, começando a acariciá-lo, enquanto ele por sua vez também acariciava-lhe ora a mão, a nuca, os ombros, o peito… Ela levantou-se e o beijou de uma maneira tão envolvente que lhe parecia sobrenatural, ele a encostou na parede e começou a tirar-lhe toda a roupa, deixando-a nua. Fizeram sexo ali mesmo, em pé, como animais. Vestiram-se. Lucius pediu delicadamente que Carmilla se retirasse. Assim ela o fez.

             Chovia não uma chuva forte, mas o suficiente para deixar uma pessoa completamente molhada em poucos minutos. Carmilla caminhava pelas ruas desertas, o local onde estava não era muito movimentado àquela hora. Usava calça jeans de cintura baixa, tênis e uma camisa branca sem sutiã, já transparente devido à chuva. Um farol indicava que algum carro estava próximo. Ela ficou parada junto ao meio-fio. Lucius parou imediatamente o carro ao reconhecer a jovem que o havia levado à loucura poucas horas antes. Desceu do carro e sem palavras começou a beijá-la, arrancando-lhe a camisa molhada e tentando secar-lhe os seios com a boca, como que bebendo toda a água que a chuva havia derramado sobre aquele corpo branco e suave. Entraram no veículo e novamente fizeram sexo de maneira selvagem. Ele a levou até o prédio onde morava num pequeno apartamento quarto-e-sala. Foram direto para o quarto.

Ele se assustou ao notar que os olhos de sua amante ficarem vermelhos, mas nem sentiu quando ela o mordeu.

            Carmilla não sabia, mas outra vampira a acompanhava naquela noite. Tratava-se de Danielle, que há muito tempo esperava por uma chance de tomar Lucius para si mas não sabia se conseguiria. Quando viu outra vampira aproximar-se do homem amado ficou por ali para tentar protegê-lo, mas tudo o que conseguiu foi dar-lhe o Beijo da Eternidade.

Capítulo 5 – Carmilla (I)

BIANCA

“Uma amizade verdadeira pode durar um segundo ou uma eternidade, um amor verdadeiro jamais acabará e, da mesma forma, uma inimizade jamais morrerá.”

  

             A lua brilhava redonda e prateada sob o véu negro da noite. O vento uivava como se quisesse arrancar as estrelas do firmamento. Nada disso parece incomodar a bela mulher que se veste no amplo quarto daquela mansão abandonada. Trata-se de um casarão colonial no Sul dos Estados Unidos. O local fora habitado por uma família rica, dona de muitas terras e escravos. Carmilla era filha ilegítima do senhor daquelas terras com uma de suas escravas, Letícia. Foi criada junto aos filhos de seu senhor. No início da guerra civil norte-americana, todos os homens partiram para o campo de batalha, deixando na propriedade as mulheres. Carmilla tinha então dezessete anos e havia se apaixonado por Bárbara, sobrinha órfã do senhor daquela casa e que fora morar com o tio aos 12 anos. Um sentimento correspondido que gerou uma paixão ardente. Encontravam-se às escondidas todas as noites e faziam amor quase até os primeiros raios da manhã.

            Uma noite Carmilla estava ao piano quando sentiu uma brisa fria adentrar a sala. Sentiu uma mão deslizar de leve sobre seus ombros, descendo até seu colo e acariciando lhe os seios fartos. Sua respiração ofegava, aos poucos ia perdendo a noção do perigo… Se alguém as visse ali, naquela situação… Essa Bárbara era mesmo completamente louca. Aquelas mãos percorriam com seu corpo, passeavam entre os cabelos… Ela já não estava mais conseguindo concentrar-se na peça que executava ao piano… Sentiu a amada puxá-la de encontro a si, fazendo-a levantar-se, mas não a deixando virar-se para corresponder aos carinhos… Como sempre, torturava-a, fazendo-a sentir falta de ar, o coração disparado, um calor entre as pernas, sentia a própria umidade… Tinha vontade de livrar-se logo daquelas roupas, de ser tocada… Mas aquela noite, algo estava diferente, aquelas mãos… Aquela força ao acariciar seu corpo… Sentiu os pés saírem do chão e, quando deu por si, estava sentada sobre o piano, as mãos daquela desconhecida (só então se dera conta de que não era Bárbara) já estavam por baixo das saias de seu vestido… Ela não conseguia fazer nada para evitar, gemia baixinho… Queria ser possuída ali mesmo, ao som dos seus gemidos, da respiração ofegante, do vento gelado que entrava pela janela, das teclas do piano… A última coisa que viu antes que Bianca a mordesse foi Bárbara entrar correndo na sala e gritar, ao vê-la nos braços da desconhecida…

            Durante 113 anos, Carmilla teve que servir à Bianca, faziam sexo todas as noites sempre de maneira selvagem, agressiva… Às vezes Carmilla ia visitar sua prima Bárbara, que pensava que a amada havia fugido com outra mulher, pois Bianca alterara sua memória para que não se lembrasse da cena… Bárbara havia chorado muito e decidido seguir a vida religiosa, retirando-se para um convento, e, justamente por isso, Carmilla nunca mais a viu… A casa onde viviam foi incendiada por escravos rebeldes três dias após Bárbara partir para o convento e todos os seus habitantes pereceram nesse incêndio. Quando transformou Carmilla, Bianca já sabia que, mais dia, menos dia, algo de ruim aconteceria ali, e pretendia libertá-la para que ela pudesse transformar Bárbara, deixando-as livres para amarem-se pela eternidade, Carmilla, porém não acreditou nas boas intenções de Bianca e passou a cultivar por ela um grande rancor, jurando um dia vingar-se.

             Enquanto se vestia, Carmilla ia lembrando-se de tudo que já lhe ocorrera desde a sua transformação… Passava suas noites seduzindo os homens, deixando-os loucos de desejo… Gostava de sentir aqueles olhares famintos sobre seu corpo, sabia que era bela e fazia-se desejada… Mantinha a mesma aparência que tinha quando mortal, uma garota de dezessete anos, de cabelos negros e longos, seios fartos, pernas grossas, corpo elegante, olhos azuis e pele branca, apenas atualizava seus trajes de acordo com a moda. Após o incêndio, a casa foi reconstruída por herdeiros de seus senhores, estes, como todos os outros que se aproximavam do local sofreran morte misteriosa. Aos poucos, a velha casa foi ficando esquecida. As ordens de desapropriação e todos os documentos oficiais que autorizavam o leilão do local, devido à falta do pagamento dos impostos, desapareciam dos arquivos misteriosamente. O único som que se podia ouvir ao passar em frente à velha mansão, era o toque suave do piano. Carmilla passara a habitar aquela casa.

          Carmilla  jurou para si mesma que nenhuma mulher jamais colocaria as mãos sobre seu corpo – apenas duas pessoas poderiam ser exceções a este juramento: Emanuelle, ou sua amada Bárbara, se um dia se reencontrassem. Porém, ela estava longe de ser uma Vampira isolada esperando pelo seu grande amor. Tornou-se uma criatura cheia de luxúria, noite após noite saía às ruas, em busca de homens a procura de aventura. Dominou a arte do canto, embora cantasse apenas para acompanhar o piano. Aprendeu os movimentos sinuosos e sensuais da Dança do Ventre… Lembrou-se de Mohamed, um jovem que ela conhecera num bar nos anos 60… Ele odiava suas raízes culturais. Fazia algumas semanas que ela o observava à distância. Um dia, ela decidiu revelar-se… Sentou no balcão perto de onde ele estava com os amigos e pediu um vinho. Era inverno e ela usava uma capa longa negra. Ele chegou perto dela como quem não quer nada e ofereceu-lhe uma bebida, ela aceitou. Logo estavam beijando-se furiosamente. Ele sugeriu que fossem a um local mais tranquilo. Levou-a a um pequeno motel, próximo a estrada. Ele deitou-se na cama, enquanto ela colocava algo nos toca-discos. Para surpresa do rapaz, uma música oriental. Dançou para ele de maneira tão encantadora quanto sensual. Retirou de dentro da bolsa uma bela serpente, deixando-a passear por todo seu corpo. Enquanto dançava, aos poucos foi despindo o jovem que a olhava embasbacado. Ela deixou que ele a despisse também. Deitou-se na cama, a serpente passeava entre os dois. Dois corpos suados, ansiosos por entregar-se ao prazer. Ela deixou que ele a penetrasse e a levasse ao orgasmo. Então, ela o mordeu, foi a primeira e última vez que Mohamed tocou um corpo feminino. Dias depois, o corpo foi encontrado em meio a um matagal. A polícia atribuiu a morte a um latrocínio. O jovem Mohamed fora um jantar delicioso.

 

 

Capítulo 4 – O reencontro

“Reencontrar alguém que amamos é como reencontrar uma parte de nós que ficou perdida em algum ponto distante de nossa alma…”

 BIANCA

 

Após dez anos Emanuela finalmente decidiu passar algumas semanas em São Vicente. Foi com algumas amigas, apesar das lembranças que lhe atormentavam. Certa noite estavam todas na praia, bebiam e ouviam música em um quiosque e nem perceberam quando furtivamente, Emanuela afastou-se do grupo. Caminhou ao acaso até chegar ao emissário. Como tudo estava diferente! Havia mais iluminação e muito movimento devido a uma festa de inverno que a prefeitura passara a promover. Mesmo assim conseguiu localizar aquele banco onde anos antes vira pela última vez sua melhor amiga. Ainda pensava que poderia tê-la impedido, ter contado aos pais dela antes que fosse tarde. Mas ela teria esse direito? Não, certamente que não. Sentiu uma mão segurar a sua. Olhou para o lado. Uma bela mulher com um vestido vermelho de veludo e um véu cobrindo-lhe a face, estava sentada ao seu lado. Não conseguia distinguir direito, mas aquele rosto era-lhe conhecido. Lágrimas vieram-lhe aos olhos quando reconheceu Mary. Então, ela também havia mudado. As pessoas também envelheciam na Eternidade, ela não era mais apenas uma garotinha de dezesseis anos. Era uma linda mulher.
-Não sua boba, nós não envelhecemos. Apenas podemos assumir a aparência que nos apeteça.
-Como você…?
-Também conseguimos ler pensamentos.
Abraçaram-se.
-Mary… Como você está? Conta-me sobre a sua vida! Que saudades…
-Não posso te contar certas coisas, você deve vivê-las, se quiser…
-Por que demorou tanto para vir me visitar?
-Tenho meus motivos, mas sempre fico sabendo da sua vida, através de Bianca.
-Diga para ela se manter longe de mim, eu consigo senti-la em todos os lugares por onde passo…
-Não posso pedir isso, estaria acima de suas forças.
-Mas essa presença às vezes me faz ter vontade de ir com vocês…
-Então, simplesmente venha.
-Você diz para eu deixar tudo e seguir alguém…
-Como eu fiz… E jamais me arrependi…
-Você tem tido notícias da sua família?
-Lógico… Sei que tenho uma linda irmã, de onze aninhos, chamada Bruna. Meus pais ainda se lembram de mim, e sentem minha falta, mas isso faz parte…
-Você não pode visitá-los?
-Eles não entenderiam, iam achar que estão loucos, ou algo parecido…
-Tem razão.
-Mas não foi isso que me trouxe aqui. Quero saber quando você vai decidir vir para o lugar a que você pertence.
-Nunca.
-É sua última palavra?
Um leve estremecimento de dúvida e medo percorre todo o corpo de Emanuela, mas mesmo assim ela afirma o que havia dito: jamais deixaria seu mundo. Mary desaparece, deixando-a novamente só…

Emanuela fazia o possível para negar a si mesma o quanto a aparição de Mary havia abalado seus sentimentos… Muitas vezes pegava-se distraída, pensando na amiga, na sua vida, em Bianca… Abandonar tudo e ir viver a eternidade, um mundo novo… Valeria a pena?
Observava a pequena cicatriz em seu braço… O pacto de sangue que a unia para sempre a Bianca… Mary, ou melhor, Susan, não fizera nenhum pacto com Lorde M., e, no entanto, sem duvidar, abandonara tudo para segui-lo…