#DesafioLiterário2020 #Julho

Chegamos ao sétimo mês do desafio literário e eu confesso que quando tive a ideia de sortear os livros quis sair da zona de conforto literária e diversificar as minhas leituras, e até deu certo, mas, no fundo no fundo eu acabo sempre lendo dentre os cinco livros sorteados, o que tem mais afinidade com os estilos que já gosto. E esse mês, depois de fazer o sorteio, percebi que estou com muitas dúvidas sobre o que eu irei ler primeiro e quase nenhuma sobre qual livro vai ficar por último e talvez nem seja lido (Afinal, eu ainda não consegui ler os cinco livros sorteados dentro do mesmo mês). Bom, sem mais delongas, vamos falar dos títulos sorteados para o desafio deste mês.

Antologia Poética – Augusto dos Anjos. Não tem muito que comentar: Uma antologia de um grande poeta! Livro bem pequeno, com certeza será lido entre um capítulo e outro de alguma outra obra.

Tia Julia e o escrevinhador – Mario Vargas Llosa. Vocês não tem ideia do quanto eu estava torcendo para esse livro ser sorteado! Desde que li (e já resenhei aqui no blog) Travessuras da Menina Má, fiquei com vontade de ler mais livros do autor. A escrita dele é muito gostosa de acompanhar.

Se houver amanhã – Sidney Sheldon. Há quem ame, há quem odeie. Sidney Sheldon é aquele autor de Best- Seller que (até onde eu li) não escreveu nada profundo ou requintado, mas consegue envolver o leitor em suas tramas, fazer com que haja um apego especial com a personagem. Já li vários dele na minha adolescência (inclusive esse).

Chico Buarque – Wagner Homem. Chico é um compositor/escritor necessário em nosso país e ler sobre sua vida e obra é com certeza uma experiência muito interessante.

Todos os animais merecem o céu – Marcel Benedeti. Um livro de cunho espiritualista, geralmente o tipo de leitura que eu não costumo me dedicar muito, então já arrisco dizer que irá ficar por último ou voltar para a estante sem ser lido – apesar de o tema ser interessante.

Vocês conhecem ou já leram algum dos títulos? Quais são as metas de leitura pra esse mês de Julho?

Passaporte da leitura: China.

O segundo livro do #DesafioLiterário2020 #Junho também faz parte do projeto Passaporte da Leitura, que em sua sexta parada visita a China através da escrita de Da Chen. É o primeiro livro de autoria de um chinês que leio e isso me fez pensar bastante sobre a aparente predominância dos norte americanos no mercado editorial – Muitos Best-Sellers são oriundos dos Estados Unidos e eu não desejo levantar aqui uma bandeira anti-americana (muito embora eu o faça em diversos outros campos), mas sim a questão: Onde estão as outras vozes da cultura mundial? Eu sei que elas existem e que produzem arte, mas por qual motivo a arte e a literatura chinesa, indiana, africana ou vietnamita (só para citar alguns exemplos) não nos é bombardeada em vitrines destacadas, resenhas e propagandas na web como ocorre com tantos livros produzidos na terra do “Tio Sam”? E por qual motivo uma boa parcela de nós se acostuma a essa realidade de forma tão rápida? Levantados estes breves questionamentos, vamos falar sobre o que mais nos interessa: O livro.

Na China pós Revolução Cultural, nascem dois meninos filhos do jovem general Ding Long. Um dos meninos, Tan, o filho legítimo, cresce com todo o conforto de sua posição, recebendo de sua família a estrutura necessária para que se torne um dos poderosos homens do governo, talvez o futuro presidente. O outro menino, Shento, o bastardo, é encontrado preso numa raiz de árvore no penhasco do qual sua mãe pulou quando entrou em trabalho de parto. Ambos crescem e enfrentam seus destinos, diretamente afetados por intrigas e fatos políticos que os levam a inesperadas reviravoltas, como se percorressem estradas paralelas até o momento em que, seus atos começam a afetar um ao outro, iniciando um conflito que irá atingir seu pico quando a disputa política fica em segundo plano diante da disputa amorosa: Tan e Shento lutam pelo amor de Sumi Wo, uma órfã idealista e corajosa que acaba por desencadear uma nova reviravolta nos destinos das personagens. É interessante notar que o autor, nas entrelinhas, aparentemente posiciona-se contra o sistema comunista e utiliza a personagem beneficiada pelo sistema (Tan) para criticá-lo, por outro lado, ainda que com uma crítica menos veemente, Tan desnuda um pouco das mazelas capitalistas quando chega em Nova York e precisa trabalhar lavando pratos em um restaurante. Um outro detalhe é a ponta solta sobre a irmã da personagem Sumi Wo: Qual o motivo do autor tê-la citado, relatando que chamava-se Lili e foi adotada? Teria sido a irmã de Sumi o primeiro amor juvenil de Tan? E caso sim, qual fim levou a menina? Talvez, deixando essa ponta solta, o autor tenha aproximado ainda mais sua narrativa da realidade, onde nem sempre sabemos os finais das histórias de vida que nos cercam. Da Chen esbanjou talento ao construir personagens complexas que impedem o leitor de tomar o partido de um ou de outro, uma vez que ambos apresentam contradições e motivações válidas para seus atos. Em uma obra repleta de romance, beleza, poesia, equilibrado perfeitamente com doses de ação, política, violência e intrigas

Sobre o autor e sobre a China

Da Chen nasceu na China e emigrou para os Estados Unidos aos 23 anos, formando-se em direito. Atualmente continua vivendo no estado de Nova York com a esposa e os filhos.

A China (capital Pequim) é o maior país da Ásia Oriental e o mais populoso do mundo. É atualmente uma república socialista, governada pelo Partido Comunista Chinês, tratando-se de uma experiência socialista duradoura e ao mesmo tempo, com características diferentes dos outros países socialistas existentes no mundo. Importante salientar que 86% da população apoiam  e estão satisfeitas com o rumo do governo de seu país, de acordo com pesquisa realizada em 2008. Também é importante lembrar que a história chinesa é longa, principalmente se pensarmos que sua unificação se deu em 221 a.C, ou seja, seria impossível traçar aqui um “breve relato histórico”. Por ser um país de dimensões continentais, apresenta uma grande variação no clima e tipos de vegetação e solo, assim como nos dialetos falados pela população. O país chama a atenção por ter uma economia em franco crescimento e, infelizmente, por questões ligadas ao meio ambiente, que necessita de mais atenção por parte das autoridades. Outra curiosidade é que, apesar dos belos templos budistas, 42% da população chinesa se reivindicam agnósticos ou ateus na atualidade.

Noite na taverna – Álvares de Azevedo

Em 2016 fiz uma resenha de Noite na Taverna aqui no blog. Relendo as parcas linhas que dediquei a uma obra que tanto me agradou desde a primeira leitura, percebo que cometi uma grande injustiça – Injustiça essa que irei corrigir hoje, ao falar com o devido cuidado sobre o livro e o autor. Para isso, como hábito que estou aos poucos desenvolvendo, li, além da obra, textos complementares elaborados por pessoas que se debruçam a estudar a fundo nossa literatura, o que ampliou sobremaneira minha visão acerca do autor e do período literário, contudo, não pretendo aqui me debruçar em detalhes esmiuçados e me limitarei a falar brevemente sobre os temas e indicar, ao final do texto, algumas fontes bibliográficas. Importante também comentar que esta obra é a primeira leitura concluída no #DesafioLiterário2020 #Junho

Manuel Antônio Álvares de Azevedo foi um poeta, contista e ensaísta brasileiro, nascido em São Paulo em 1831 e falecido no Rio de Janeiro em 1852, pouco antes de completar vinte e um anos. Apesar da inegável qualidade de seus textos, Azevedo não logrou colher todos os louros de seu talento, tendo falecido antes de ver considerável parte de sua obra publicada. Foi escolhido como patrono da cadeira número 02 da Academia Brasileira de Letras. Curiosamente, no site da referida academia, consta que o autor faleceu em decorrência de uma infecção generalizada resultante de uma cirurgia para retirada de um abscesso causado por um acidente de cavalo, enquanto a biografia ofertada pela edição do livro Noite na Taverna (Editora Ediouro/Biblioteca Folha), conta que o autor morreu de tuberculose, doença que ceifou a vida de muitos poetas. Seja como for, é fato amplamente aceito que Azevedo carregou consigo pela vida uma previsão de que sua morte seria precoce – E esse sentir derrama-se em sua obra poética de forma palpável.

 O autor fez parte do que se chama “segunda geração do romantismo”, “ultra-romantismo” ou “mal do século”. A primeira geração do romantismo teve como motes o nacionalismo e o sentimentalismo – Na realidade o romantismo começa a dar seus primeiros sinais na Inglaterra e na Alemanha, e em seguida irrompe como um fruto da revolução Francesa e Industrial de forma que o sentimentalismo característico dos textos deste período demonstra a emancipação intelectual burguesa dos padrões aristocráticos, sempre reservados e dotados de auto controle, como explica. Em sua evolução, o romantismo aprofunda-se como uma literatura de combate, que questiona padrões e, com isso reflete o liberalismo nascente. Com o passar do tempo e a visão de que o liberalismo não seria exatamente o que dele se esperava, o romantismo acaba trazendo para a literatura a desilusão, o negativismo, a melancolia, a fuga da realidade, a dúvida, o individualismo, e o tédio.  O nacionalismo, presente na primeira geração do romantismo, vai sendo deixado em segundo plano e os temas recorrentes tornam-se mais melancólicos: a idealização ontem – em geral da infância como um período de pureza ou de épocas passadas, como por exemplo a idade média e seus mistérios, a idealização da mulher amada que sempre é descrita como virgem possuidora de beleza ímpar, objeto de um amor que não se pode consumar e para o qual a única saída é a morte – outro tema exaltado pelos ultra-românticos. Estudando-se com atenção, percebe-se que os textos do romantismo e mesmo do ultra-romantismo diferem sensivelmente de acordo com sua nacionalidade. No caso do brasileiro Álvares de Azevedo, a leitura de suas obras, em especial da obra em comento, nos trás a densidade das noites escuras e lúgubres nas quais se ambientam. O autor construiu uma atmosfera de terror, mistério e aprofundamento da alma humana dentro de si mesma, expondo suas piores faces, suas dores e seus desejos numa dualidade entre pecado e pureza, vida e morte. Azevedo visivelmente recebe influencias da cultura gótica, como a predileção pela noite, por cemitérios, igrejas e ruas estreitas e vazias. Muitas vezes utiliza recursos estilísticos característicos da literatura fantástica, mesmo sem que de fato haja algo sobrenatural na história narrada. Em Noite na Taverna, amigos bebem após uma orgia, mulheres dormem “como defuntas” e surge a ideia de contar histórias sangrentas de suas juventudes. Há dois planos de narração: A narração do que acontece na Taverna (ou o tempo atual, também chamado em um dos artigos de narração-moldura) e a narração das histórias. Os temas escabrosos ficam no limiar entre realidade e delírio febril de mentes perturbadas pelo álcool, abundantes de elementos sombrios e sensualidade mórbida. Apesar da possibilidade de ler as histórias individualmente, sem a necessidade de respeitar a ordem em que são contadas, as duas últimas são mais interessantes quando lidas juntas, pois se complementam.

Bibliografia:

Academia Brasileira de Letras. Site acessado em 10/06/2020 às 17hs

http://www.academia.org.br/academicos/alvares-de-azevedo/biografia

FARACO Carlos Emílio. MOURA Francisco Marto de. Língua e Literatura, volume 02. páginas 10 a 110. Editora Ática. 1995

FARACO Carlos Emílio. MOURA Francisco Marto de. MARUXO JÚNIOR José Hamilton. Língua portuguesa, linguagem e interação. Volume 02, páginas 23 a 63.

GAMA- KHALIL. Marisa Martins. SANTOS. Carline Barbon dos. O espaço ficcional e o efeito do horror em Noite na taverna de Álvares de Azevedo. Disponível no site Horizonte Científico. Acesso em 09/06/2020 às 18h

http://www.seer.ufu.br/index.php/horizontecientifico/article/view/14707

PAVANELO. Luciene Marie: Soares de Passos, Álvares de Azevedo e as diversas faces do ultra romantismo. Publicado no portal de revistas da USP. Revista Crioula. Acesso em 09/06/2020 às 22:00 h.

http://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/54945/58593

VOLOBUEF. Karin. Álvares de Azevedo e a ambiguidade da orgia. Publicado na Organon. Revista do Instituto de Letras da UFRGS. Acesso em 10/06/2020 às 14hs

https://seer.ufrgs.br/organon/article/view/30064

Dom Casmurro – Machado de Assis

Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Essa, sem dúvidas, é uma questão que ficará eternamente marcada na memória de quem se aventura pelas páginas de Dom Casmurro. E talvez, seja exatamente essa a genialidade da obra: Provocar a curiosidade do leitor, a ponto de fazê-lo reler trechos inteiros, examinar o caráter das personagens através dos capítulos tentando buscar na Capitu criança os traços de malícia que a fariam infiel e no Bentinho menino os traços da inocência que o cegariam para a verdadeira face da amada.

      Li Dom Casmurro pela primeira vez com dez ou onze anos de idade. Nessa idade, foquei na história – O menino que descobre amar a menina da casa ao lado, sua companheira de infância e brincadeiras e depois de casado, descobre a traição ao notar as semelhanças do filho com o melhor amigo. Sim, aos dez ou onze anos, na minha cabeça, a traição de Capitu era uma certeza, bem como o sentimento de revolta que martelava: Como uma mulher é capaz de trair o homem que tanto se esforçou para mudar os planos que a mãe havia traçado para ele? Como? Depois fiz nova leitura, na época do vestibular. Era mais adulta, me atentei em detalhes como o ciúme de Bentinho, que o torna uma personagem complicada desde a entrada no seminário, e concluí que não, Capitu não traiu Bentinho – Ele é que, dominado pela insegurança e pelo ciúme, construiu uma narrativa tortuosa ao relembrar pequenos fatos do dia a dia. E então, eis que, aos trinta e três anos, na terceira releitura, percebo a construção das personagens tão minuciosa que a dúvida sempre subsistirá: Capitu, em menina, era manipuladora: Traçava planos, observava as pessoas buscando entender como poderiam ser úteis, dissimulava quando era pega em situações que poderiam comprometer seus planos. Sabia fazer-se querida, necessária, amada. Bentinho, por outro lado era mais inseguro, ciumento e manipulável e, provavelmente, acabaria seguindo o destino traçado por sua mãe, tornando-se padre, caso Capitu, muitas vezes, não se empenhasse em orientá-lo. Bentinho é inocente na infância, possivelmente devido a sua criação direcionada ao sacerdócio: Notemos que ele não tem amigos e sua única companhia é Capitu e, em certo período, o rapaz doente com o qual troca correspondência acerca de um conflito internacional. A inocência da infância dá lugar à insegurança do adolescente e ao ciúme, que lhe acompanhará: Bentinho olha Capitu com adoração, acreditando e ao mesmo tempo, desconfiando dela. Essa construção das personagens é muito interessante – Faz-se preciso lembrar que, Dom Casmurro é um livro escrito já sob a luz da escola realista e Machado de Assis debruça-se com empenho na criação psicológica de suas personagens, quase não há descrições longas da natureza e do ambiente, e mesmo as descrições físicas são breves e diretas, portanto é preciso se atentar ao contexto e ações das personagens para perceber o envolvimento entre elas.

      Após essa terceira leitura, fui pesquisar e encontrei alguns trabalhos acadêmicos sobre a obra, dentre eles este que tem como foco a personagem Capitu, apesar de alguns erros de digitação, achei uma analise bem interessante que merece ser lida. Já havia também indicado um livro sobre a filosofia na obra de Machado de Assis neste outro post. E pretendo ainda ler outras obras para aprofundamento no universo deste grande escritor (Inclusive, se leram algo neste sentido, indiquem nos comentários).

Dom Casmurro foi uma das obras sorteadas para a leitura no #DesafioLiterário2020 #Maio (Quer saber quais foram as outras? Clique aqui. Quer acompanhar as resenhas dos outros dois livros? Histórias Fantásticas e Cyrano de Bergerac? Clique Aqui e Aqui) e infelizmente eu terminei a releitura com um dia de atraso e só hoje terminei de escrever sobre ele, por isso estou postando já no quarto dia de Junho, quando a lista do #DesafioLiterário2020 #Junho já está publicada aqui.

Enfim, qual a sua opinião: Capitu foi ou não foi infiel? Conta pra mim nos comentários!

#Desafio Literário 2020 #Junho

E eis que iniciamos um novo mês e, com ele, os novos livros do #DesafioLiterário2020 #Junho. Pois é, estamos chegando na metade do ano e, se você está cumprindo o desafio, já leu ao menos cinco livros até aqui e já postou as fotos no facebook ou instagram pra incentivar os amigos e amigas, certo? Agora, se você ainda não leu nenhum livro, ainda dá tempo de começar! E olha, não precisa ser obrigatoriamente um dos cinco que eu sorteei não! Pode ser um livro que você goste! Basta ler, fazer a resenha, postar no seu facebook e marcar o perfil @poetisa_darlene ou a page Devaneios e Poesias no facebook!

Vamos ver quais são os títulos do mês?

A Montanha e o Rio – Da Chen. Um livro chinês, ambientado em um período histórico de disputas políticas acirradas, A Montanha e o Rio é uma leitura que promete ser bem interessante.

Tire proveito dos seus impulsos – Pauline Wallins. Não prometo que irei terminar, mas prometo começar a ler. Parece um livro interessante, mais voltado para o desenvolvimento pessoal que para a auto ajuda.

Alimentação desintoxicante para ativar o sistema imunológico – Conceição Trucam. Alimentação é um tema que me interessa bastante, então há uma grande chance de vocês terem umas dicas sobre bons alimentos neste mês.

O Tartufo ou O Impostor –Molière. Um clássico sobre o qual eu já ouvi falar muito e confesso que não procurei sinopse e não sei o que esperar.

Noite na Taverna – Álvares de Azevedo. Um clássico e uma releitura deliciosa com certeza. Noite na Taverna figura entre os meus livros favoritos!

E vocês? O que pretendem ler neste mês?

Cyrano de Bergerac – Edmond Rostand

O segundo livro do #DesafioLiterário2020 #Maio é, na verdade, uma peça de teatro escrita em 1897 pelo francês Edmond Rostand. A edição que tenho em mãos foi traduzida por Ferreira Gullar e encenada pela primeira vez no Brasil em 1985, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. A obra é uma comédia que retrata a história de Cyrano de Bergerac, um soldado e poeta francês que, apaixonado pela prima Roxana, não tem coragem de declarar seu amor por ela e acaba ajudando-a a casar-se com Cristiano, pelo qual a moça nutria uma paixão, escrevendo as cartas com que o rapaz fez a corte a ela. O enredo pode parecer pouco interessante em um primeiro exame, porém, em uma breve pesquisa, algumas curiosidades tornam a leitura um pouco melhor. A primeira é que, Cyrano de Bergerac não é uma personagem ficcional, e sim um escritor Francês que viveu entre 1619 e 1655, entrou para o exército, duelou inúmeras vezes (muitas delas em conseqüência das freqüentes provocações recebidas devido ao seu nariz grande) e escreveu livros de sucesso na época – sendo ele o primeiro autor a imaginar uma viagem espacial. Cyrano morreu pobre e doente, não tendo se recuperado completamente de um ferimento na cabeça causado por uma viga que o atingiu num acidente. Diferente do que narra a peça, não há evidências de que o autor tenha escrito cartas para a prima se passando por Cristiano – Esse sim apenas uma personagem ficcional criada por Rostand.

Outro dado interessante, sobre a peça teatral original: Edmond Rostand escreve o texto em versos alexandrinos (dodecassílabos), no que não foi seguido por Ferreira Gullar, que, ao traduzir, utilizou apenas versos decassílabos e rimas livres, mais adequadas ao nosso idioma segundo o tradutor.

A leitura e posterior pesquisa despertaram interesse pela leitura das obras de Cyrano, História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e História Cômica dos Estados e Impérios do Sol, publicados em 1657 e 1662, respectivamente (infelizmente, até o presente momento não os encontrei para venda ou download), ou seja, a personagem da história acabou despertando mais interesse do que a obra de Rostand em si e, para sanar essa injustiça literária, o próximo parágrafo apresenta alguns dados e curiosidades sobre ele.

Edmond Rostand nasceu em Marselha no ano de 1868, filho do jornalista e poeta Eugène Rostand, ganhando aos 19 anos um prêmio na Academia de Marselha por seu ensaio Dois Romancistas de provence, Honoré d’Urfé e Émile Zola. Embora sua primeira peça teatral tenha fracassado, Edmond persiste e produz uma obra relativamente vasta, composta por peças teatrais e poesia e, embora em sua biografia resumida existam relatos de outras peças marcadas pelo fracasso, o mesmo não se pode dizer da peça Cyrano de Bergerac, que alcançou grande sucesso, contabilizando em 1913 a milésima apresentação. Suas poesias também foram bem acolhidas pela crítica, sendo inclusive um livro de poemas sobre a Primeira Guerra Mundial – Le Vol de la Marseillaise – sua última obra escrita, antes de contrair a gripe espanhola e falecer em 1918. Para quem quiser se aprofundar mais, indico o artigo Literatura, teatro e Cinema em Cyrano de Bergerac: Um diálogo interartístico” que trata da interação entre teatro, literatura e cinema. Outra indicação interessante é o artigo Viagem à Lua: Utopia, viagem imaginária e o mundo de ponta cabeça em Cyrano de Bergerac, onde são explorados os significados literários da viagem à lua. Quem deseja saber um pouco mais, porém não deseja ler um artigo longo, a reportagem da BBC, O homem que imaginou naves espaciais em 1657 também é interessante.

Sobre Edmond Rostand, não encontrei até o momento artigos complementares para compartilhar por aqui, e, numa rápida busca, encontrei seu último livro à venda pela “bagatela” de R$162,72, o que, com todo o respeito, o coloca fora do alcance da maioria dos leitores (ainda mais se considerando a publicação em idioma original, ou seja, francês).

Os livros indicados no #DesafioLiterário2020 #Maio estão neste post , e o primeiro livro lido no mês de Maio está neste post.

Maratona de Maio, dia 07 – O melhor livro que você tem na sua estante

Seria injusto escolher “o melhor livro”, afinal, como definir um rol de características que façam do livro melhor que outro? Tenho uma imensa dificuldade em eleger preferidos – Livros, pessoas, filmes, músicas, comidas – Algumas vezes cito um, outras vezes outro, não dá pra definir. Mas o fato é: Eu realmente gostei de participar dessa maratona de Maio e não desejando deixar de cumprir o último desafio, me permitirei um pouco de quase prepotência: O melhor livro que tenho na minha estante é… O meu. Ele não é o melhor em qualidade, e apresenta erros decorrentes da falta de uma boa edição, a capa poderia ser melhor, enfim, eu sei que há milhares de livros melhores que o meu, mas, se eu não acho o meu livro especial, quem irá achar? Então, entre tantos, me permito aqui citar o meu “Para um doce cavaleiro” (É cavaleiro mesmo, com esse toque brega do príncipe que chega no cavalo branco) como melhor livro da minha estante, ainda que não seja o melhor livro da estante de mais ninguém. O livro contém poesias melosas, sentimentais, no perfeito estilo “primeira paixão, primeiro fora”, mas a maioria das pessoas que leu disse ter gostado. Enfim, desafio cumprido, estou super curiosa para ler os textos dos outros blogs que também participam e descobrir qual o melhor livro na estante de vocês.

Maratona de Maio, dia 06 – Conte qual livro está na sua estante a espera de leitura

Ele tem uma capa preta, dura. Livro escocês, publicado em 1820 é considerado o primeiro romance histórico do romantismo. Escrito por Walter Scott, narou a luta entre saxões e normandos e as intrigas para destronar Ricardo Coração de Leão. Pela narrativa até aqui, talvez algumas pessoas já tenham percebido sobre qual livro estou falando, certo? Ainda não? Bom, mais uma dica, em 1952, o livro foi adaptado para a telona. Sim, o livro que está na minha estante à espera de leitura é Ivanhoé. Confesso que não lembro como o volume chegou até minhas mãos, e confesso que até hoje eu não havia parado para pesquisar sobre o assunto, apenas coloquei o livro na estante a espera de uma oportunidade de ler e posteriormente trocar, mas fui adiando por causa de um detalhe que será chocante para muitas pessoas: Capa dura. É linda, mas pesada, deixando o livro desconfortável para posições deitada/sentada sem apoio, e principalmente, tornando quase impossível deixar na bolsa para ler no horário de almoço do trabalho, por exemplo, (Isso considerando o tempo em que não vivemos em quarentena). Como este ano decidi ler mediante sorteios, quem sabe em algum próximo mês chega a vez dele – Afinal, depois de pesquisar para saber o assunto, fiquei um pouco mais curiosa. E vocês? Já leram Ivanhoé?

Maratona de Maio, dia 05: Escolha um livro que se passa em um lugar que gostaria de conhecer.

Há, ao mesmo tempo vários países que eu gostaria de conhecer e uma imensa preguiça de sair do meu lugar para realizar tais viagens – Demandaria tempo, dinheiro e coragem pegar um avião, cruzar os ares e desembarcar na Itália ou Índia de Comer, Rezar, Amar, na França de Cartas de Amor de Paris ou na Rússia de Anna Karerina. Então, nessa postagem resolvi falar sobre um livro que se passa em um país que eu desejo conhecer e que é bem pertinho (Pelo menos fica no mesmo continente): Peru.

O livro “Tia Julia e o escrevinhador”, do peruano Mario Vargas Llosa, é um romance que mistura elementos de autobiografia e elementos de comédia. Preciso confessar que, apesar de gostar muito da escrita de Llosa, ainda não li – Aliás, talvez essa não-leitura seja justamente por apreciar a escrita do autor, afinal, esse ano me propus sair um pouco da zona de conforto lendo o que eu sorteasse e não o que fosse apenas da minha vontade (mesclar gêneros é preciso).

Como não tenho muito que falar sobre o livro, que está na minha estante aguardando a leitura, vou falar um pouco sobre o autor, baseado na biografia dele:

Mario Vargas Llosa nasceu no Peru em 1936, formou-se em jornalismo, é dramaturgo, ensaísta e crítico literário, um dos mais importantes escritores da atualidade, já viveu em Paris e lecionou em universidades norte-americanas e européias. Curiosamente, envolveu-se na política e foi candidato a presidência, perdendo a eleição para Alberto Fujimori. Destacam-se entre suas obras, além de  Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, Elogio da Madrasta e As travessuras da menina má.

Maratona de Maio, dia 4 – Escolha um livro que foi ambientado na sua cidade – país

E eis que, no quarto dia de maratona, encontro dificuldade em cumprir a proposta – Não me recordo, olhando a estante, nenhum livro que se passe em minha cidade atual (São Vicente, litoral paulista), menos ainda recordo algum título que se passe na cidade onde fui criada (Avaré, interior de São Paulo), resta-me falar então sobre um livro ambientado na cidade de nascimento, onde vivi pouquíssimo tempo e para onde viajo vez ou outra. Mas, acreditem, não tive vontade. Em lugar disso, decidi falar um pouco sobre um livro que se passa no Brasil e que já foi meu pesadelo pessoal, mas hoje entendo como fundamental – O Cortiço, do autor Aluísio de Azevedo. O motivo da escolha é simples: Há outros clássicos que se passam no Brasil, certamente – Senhora, Lucíola, O Guarani, Iracema, O gaúcho. Entretanto, essa obra de Azevedo, retrata uma realidade do Rio de Janeiro no século XIX que não apenas persiste como se ampliou, alastrando-se pelo país todo: A realidade da miséria, do abismo social, de uma população a quem tudo falta, mas que, ainda assim, consegue encontrar divertimento nas coisas simples da vida, iludindo a falta de perspectiva com cachaça e samba. Pensar o Brasil é pensar numa colcha de retalhos humana – Aqui, há gentes de todo o mundo, de diversos costumes, religiões, culturas e isso, além das nossas paisagens naturais, fazem o nosso país ser tão grande e tão alegre. Entretanto, talvez algumas vezes (muitas vezes) tanta alegria, atrapalhe. Sinto que não encaramos a vida com a seriedade que ela merece, comemoramos mais uma partida de futebol do que uma descoberta científica. Produzimos “memes” padrão exportação e desdenhamos nossos artistas, escritores, compositores. Discutimos a fundo o reality show do início do ano, e passamos meses intermináveis sem observar a política nacional e internacional – E o resultado? É esse que observamos – Um país em franco desgoverno, onde alguns velam mais de 17 mil mortos enquanto outros fazem festas ou se impacientam pela ausência de academias, salões de beleza, futebol (Ainda não vi pessoas sentindo falta das bibliotecas, livrarias, espaços de cultura). Nosso povo das comunidades tem tanto a nos mostrar em sua diversidade de cultura e arte, isso é certo e longe de mim desdenhar dessa cultura que cresce na quebrada – Não desejo ser elitista, valorizando apenas a arte produzida por uma camada da população que teve acesso a todo um mundo de conhecimento e estabilidade. Valorizo sim a arte de quem está na base da nossa sociedade: O trabalhador periférico, que vê seus filhos mortos por doença ou por polícia. Valorizo, mas pergunto: Quando essa massa de pessoas irá perceber sua importância? Quando a união que existe para festejar sabe-se lá o que tanto se festeja nesse país (talvez o fato de estar mais um dia vivo), irá ceder lugar a uma união por condições dignas de vida? Eu vejo essa união nascer em alguns projetos, mas ainda parece uma chama tão tênue, sufocada pela neblina caótica que se abate sobre o país, que só resta aguardar, refletir nesses paralelos que a literatura proporciona e esperar que, daqui a cem, cento e cinqüenta anos, a obra “O Cortiço”, dos tempos antigos, bem como a literatura periférica de hoje não seja uma atualidade e sim a lembrança de um tempo difícil para o país.