06 on 06 – A gosto

Agosto

Pra alguns, desgosto

Como se o azar

Morasse no calendário

Agosto

Mês oito, faltam quatro

Pra mais um Feliz ano novo

De novo

Agosto

A gosto

Ao gosto

Que a vida tem.

06 fotos de alguns Agostos idos…

2014 – Luta pelo elementar direito de existir e demonstrar afeto, “beijaço” LGBTQI+ em Santos, em protesto contra a expulsão de um casal gay de um bar. Noite em que conheci pessoas incríveis ❤

2018 – Mais que amigos, camaradas! Reta final da campanha eleitoral 2018 #PSOL
Agosto/2017: Como diria Chorão “tão natural quanto a luz do dia”
Agosto/2019: Flores no quintal de casa ♡
Agosto/2019: Conhecendo um pouco mais sobre o alfabeto ❤ Exposição maravilhosa, na melhor companhia ♡
Agosto/2019: Te transformo em poesia…

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A saudade é o molho agridoce da vida

Há tempos a menina não tinha um momento silencioso, apenas entre ela e seus sentimentos. A rotina a estava sufocando em meio ao nada que se tornaram os dias, repentinamente iguais. De repente, estava mais fácil criar histórias do que contá-las. E certamente estava infinitamente mais fácil contar qualquer história criada, do que olhar para dentro e ver dentro de si um lago de águas espelhadas encobrindo um abismo profundo de emoções. Como tudo havia mudado em tão poucos meses? Algumas de suas certezas mais profundas haviam se reforçado com o isolamento, outras haviam mudado um pouco. Ela tinha certeza sobre o amor, sobre a escrita e sobre a magia encontrada no calor aromático da cozinha. Ela tinha certeza sobre as saudades e lembranças que a invadiam ao sentir o aroma do café pela manhã ou ao ouvir Rammstein enquanto flutuava entre as posturas do yoga. Então, um dia, enquanto olhava seu velho livro de receitas, encontrou uma receita que a fez perceber que a saudade tinha um sabor agridoce – Unia, dentro de seu coração de menina-mulher, memórias doces, apimentadas, salgadas: O doce mel daqueles olhos profundos, o apimentado da pele que se arrepiava quando os corpos se encontravam em um abraço, o sal das lágrimas de saudade que insistiam em descer pelos olhos dela tão logo se despediam. Sim, o amor, a saudade, a ausência e a esperança eram sentimentos agridoces e a menina era grata por poder senti-los com tamanha intensidade, por isso, ela abriu seu caderno e escreveu sobre o que sentia enquanto provava o molho que havia preparado. Um dia talvez compartilhasse o texto e a foto em um livro de receitas ou nas redes sociais, como um registro de seus sentimentos deixado para uma posteridade que possivelmente não tivesse tempo ou sensibilidade para perceber que as coisas mais bonitas moram na capacidade de se entregar completamente aos sentimentos e sabores que a vida nos traz.

Receita: Molho Agridoce

100gs de açúcar

1 colher pequena de sal

6 colheres (sopa) de água

2 colheres (sopa) de shoyu

4 colheres (sopa) de vinagre

2 colheres (sopa) de katchup picante (ou um molho de tomate caseiro bastante condimentado)

1 colher (sopa) de maisena

Misturar bastante e depois levar ao fogo para engrossar, mexendo sempre para não criar pelotas. Passar sobre couve-flor pré-cozida, cebola fatiada e proteína de soja previamente hidradata, colocar tudo em uma assadeira e levar ao forno até dourar.

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Esse post faz parte do BEDA (Blog Everyday August)

A pizza, o suco de laranja e a naja presidencial.

Tem um dia de verão no meu inverno e isso me deixa sem vontade de fazer praticamente qualquer coisa, porém, lembro-me que hoje é Domingo, dia de falar sobre o país, o mundo, a pizza e o suco de laranja. Por falar em suco de laranja, com a prisão de Queiroz convertida em prisão domiciliar, aumentam os riscos de que, no final, a laranjada acabe em pizza – Aliás, como bom esposo, Queiroz já está dividindo a pizza e o suco de laranja com a esposa que estava foragida até este sábado, mas voltou para casa após ter sua prisão também convertida em domiciliar – Me recuso a pesquisar fundamentos jurídicos, mas arrisco dizer que é um fenômeno jurídico raro, talvez único, a conversão da prisão de uma foragida para uma condição mais branda. E por falar em laranjas, pizzas e casamentos, o presidente que no início da pandemia precisou ser judicialmente obrigado a mostrar um exame de coronavírus negativo, repentinamente apresentou sintomas e declarou ter contraído a doença – Por coincidência em uma semana sensível diante das investigações sobre as rachadinhas que, ao que tudo indica, aconteciam em seu gabinete desde a época em que foi deputado – A parte curiosa é: Quando a maioria da comitiva presidencial adoeceu, ele foi a exceção, agora, nem mesmo a primeira dama testou positivo apesar do contato com ele, o que levanta suspeitas em muita gente de que a doença seja apenas mais uma desculpa para esquivar-se das respostas que precisam ser dadas. Pelo há algo azedo na laranjada presidencial. Outro destaque da semana é o anúncio do novo ministro da educação – Lembram que domingo passado eu comentei que estamos andando a passos largos em direção a uma nova idade média e que se não tomarmos cuidado, logo haverá fogueiras em praça pública? Pois é! O que me dizem dessa velha novidade que parece ter sido retirada diretamente de um armário perdido nos séculos? Um religioso que não deveria sequer assumir uma Igreja, portador de opiniões antiquadas, defensor até mesmo da aplicação de castigos físicos sob a fala de que crianças precisam sentir dor. Para ser ministro deste (des)governo, aparentemente os requisitos são: Ignorância, pensamentos retrógrados, fascismo e uma exacerbada religiosidade que não passa de falsa moral, também conhecida como hipocrisia, e oportunismo. Possivelmente, a única notícia boa desta semana foi a quase liberdade da cobra escravizada pelo playboy do planalto central! Num ato heróico a serpente mordeu seu raptor e acabou levando a polícia a encontrar as outras espécies criadas clandestinamente, em condições insalubres e degradantes para a vida animal. Espero que as cobras sejam devidamente encaminhadas a um lugar confortável e adequado, afinal, vamos concordar que é muita tristeza ser seqüestrada, traficada e ainda viver no Brasil (des)governado pelo Bolsonaro – Aliás, talvez entregar para a naja nossa faixa presidencial fosse uma boa ideia, afinal ela não fala asneira, não pratica rachadinha, não aprecia suco de laranja e, principalmente, mata uma pessoa por vez, diferente do genocídio promovido pelo atual governo através do péssimo gerenciamento da pandemia e das políticas contínuas de desmonte da saúde pública e retirada de direitos básicos, e o melhor, após empossar a cobra, bastaria colocar um ser humano competente para tutelar o réptil e teríamos um início de recuperação para este país, que está na UTI apesar das manchetes irresponsáveis alardeando um falso novo normal. Sabe de uma coisa? O jeito é comer um bom pedaço de pizza (afinal, dia 10/07 foi o Dia da Pizza, segundo o calendário capitalista) e aguardar pacientemente o desenrolar da próxima semana.

Sobre memórias, pães e textos

Diz a sabedoria popular que sons altos podem fazer os pães deixarem de crescer. Na dúvida, durante muito tempo, evitei movimentos bruscos e conversas animadas perto das assadeiras de pão. Tenho poucas lembranças da infância e em muitas delas a cozinha é personagem-cenário comum – O som das pás de madeira raspando o fundo dos tachos de doce, o cheiro dos bolos, das esfihas, o som do tec-tec da faca cortando a salsinha bem pequena, da panela de pressão, da água caindo da torneira, todo um passado-presente repleto de aromas e sons; tão antigas são as memórias que não me recordo o exato momento em que arrisquei minha primeira receita, mas sei que estava nos primeiros anos do ensino fundamental quando fui levada a um curso de culinária patrocinado por uma conhecida marca de farinha de trigo; não me recordo como era a professora ou como eram as outras pessoas presentes, mas recordo perfeitamente o livreto de receitas pequeno com títulos remetendo ao carnaval e a ansiedade de ir para casa com e testar logo todas as receitas, na pressa natural das crianças. Na época acreditava que precisaria seguir sempre passo a passo todas as instruções, incluindo marcas dos produtos e apenas o passar do tempo foi capaz de me ensinar que cozinha muitas vezes se faz do improviso e sempre demanda uma grande dose de amor. Lembro da alegria infantil em que, em alguma daquelas tardes perdidas no tempo, fiz uma das receitas: O pão de metro que, apesar do nome tinha um formato  redondo, com corte em cruz e massa macia, perfumando a casa e conquistando paladares e atenções. Hoje, quando sento diante de uma folha em branco, vejo a escrita como um pão que cresce lentamente, misturando ingredientes-histórias reais e devaneios, todos repletos de sabores únicos. E, da mesma maneira que, quando tomamos entre as mãos um naco de pão e o levamos até a boca, não sabemos o que é farinha, o que é fermento, o que é água, nem sempre as crônicas e devaneios irão permitir saber se o relato foi realidade ou imaginação alimentada pelo aroma da cebola, do alho, do caldo que ferve, do doce que borbulha, da paixão que arrepia, do amor que encanta, da saudade que machuca, da lembrança que faz rir. E esse quase não-saber é uma parte deliciosa da leitura e da culinária.

Pão (que deveria ser) de metro

2 xícaras de água morna

1 xícara de azeite

3 colheres (café) de sal

2 colheres (sopa) de açúcar

1 colher (sopa) de fermento biológico seco

3 xícaras de farinha de trigo (integral, branca ou meio a meio)

1 xícara de aveia ou uma xícara de trigo para quibe já hidratado e escorrido (pode colocar meia xícara de cada também)

Farinha de trigo branca para dar ponto.

2 colheres de sopa de chia hidratada em meia xícara de água

2 colheres de sopa de linhaça

Numa tigela, faça a fermentação: Misture o fermento, o sal, o açúcar, uma xícara de farinha de trigo e a água morna. Deixe descansar até dobrar de tamanho. Acrescente os outros ingredientes, sove bem até que a massa fique lisa e homogênea. Faça uma bola e deixe crescer até dobrar. Faça os pães em formato de bola e deixe crescer na assadeira untada e enfarinhada até que ao fazer uma leve pressão com o dedo a massa permaneça afundada. Asse em forno pré-aquecido.

Pró-vida?

Uma característica bem interessante da maioria dos eleitores do atual presidente é a bandeira “pró-vida” – Num primeiro olhar, pode parecer lindo atribuir-se esse título não é mesmo? Afinal, quem em sã consciência seria contra a vida? Entretanto, a passagem desse ano e meio de mandato deveria enojar qualquer pessoa que fosse realmente defensora da vida: Estamos em meio a uma pandemia, sem ministro da saúde e com uma ministra da mulher, da família e dos direitos empenhada em promover um concurso de máscaras para crianças – e a máscara campeã, com a ilustração e formato de uma vaquinha, só podem ser piada pronta ou a aceitação formal do título de “gado” atribuído aos que se deixam levar pelo berrante do Jair. Se isso é ser pró-vida, juro que eu gostaria de entender o que afinal significaria ser pró-morte – Afinal, na lei que estabelece a obrigatoriedade do uso de máscaras, o presidente vetou o artigo que exigia o uso do equipamento em estabelecimentos comerciais, industriais, templos religiosos, estabelecimentos de ensino e demais lugares fechados em que haja reunião de pessoas. Veja: Na prática as constantes omissões são um caminho a passos largos em direção a um precipício de novos casos de adoecimento e morte. Observando de perto, podemos utilizar aquela frase cuja autoria eu desconheço: Não é pró-vida, é pró-feto. Afinal, segundo Jair e seu rebanho, o aborto deve permanecer proibido (e isso não é uma atitude pró-vida, mas uma punição a toda e qualquer mulher que se permita viver o sexo de maneira livre e plena, como o homem já faz desde que o mundo é mundo), mas a milícia pode seguir matando, a COVID segue sem controle, a água está em vias de ser privatizada inviabilizando ainda mais o mínimo necessário a sobrevivência (é só ver o que aconteceu em outros países do mundo onde água e saneamento foram privatizados), os agrotóxicos liberados causam grande impacto na saúde humana e a educação segue sucateada – Afinal, no projeto de escravizar o povo e vender nossas riquezas, não há espaço para investir em um aperfeiçoamento intelectual do povo brasileiro, não é verdade? E para encerrar a semana com chave de ouro, é impossível não citar duas outras ocorrências marcantes: Um ciclone que causou destruição no Sul do país e um surto de peste na fronteira da Mongólia com a Rússia – Estaríamos vivendo um momento tão retrógrado que forçamos a Terra (plana?) a girar para trás, abandonando o caminhar em direção ao futuro e aportando logo ali na Idade Média? Se não tomarmos cuidado, em breve veremos bruxas queimadas em praças públicas.

As dez pragas do Brasil

Acompanho os fatos da semana com um silêncio cansado e uma xícara de chá antes de dormir. Não tomo notas, apenas leio e vou digerindo todas as notícias indigestas, aguardando o final da tarde de domingo para prosear sobre o caos, quero dizer, sobre o mundo, e suas notícias. Dentre muitas coisas, uma notícia e suas repercussões me chamaram a atenção: A nuvem de gafanhotos que se aproximou do sul no país. Brasileiro é um povo que realmente precisa ser estudado – E isso é uma constatação e não uma crítica , afinal a mesma imaginação que nos permite zombar de qualquer limite é o que nos faz conseguir estender o salário até o final do mês – A quantidade de “memes” criada sobre os gafanhotos inundou as redes sociais e ironicamente, muitas pessoas que criticaram e acusaram a China de ter espalhado o COVID-19 pelo mundo por consumir carnes exóticas, passaram a postar receitas de como consumir gafanhotos, como se isso fosse comum. Também reparei que muitos deles relacionavam os insetos a certo capítulo bíblico onde dez pragas teriam castigado o povo do Egito. Confesso que não sou uma especial apreciadora de contos e histórias bíblicos, mas fui procurar um pouco e encontrei algumas coisas bem interessantes: Observando bem, o Brasil já está há tempos lidando com pragas, o rompimento da barragem de Brumadinho tingiu nossas águas de sangue inocente, nossa fauna silvestre vem sendo massacrada, chuvas e secas castigam as lavouras, ano passado o céu escureceu com as nuvens de fumaça proveniente das queimadas na Amazônia, nuvens de pernilongos espalharam de norte a sul dengue, chikungunya.e zica (inclusive temos uma nova linhagem da zica circulando, então todo cuidado é pouco), diariamente, filhos e filhas, primogênitos ou não, são assassinados pela violência policial, pela fome e, agora pela COVID. E os sapos? Se no Egito eles castigaram a terra, aqui no Brasil nós engolimos um caminhão deles todos os dias: De ministro mentindo no currículo a advogado da presidência contestando a decisão que obriga o presidente a usar máscara em locais públicos, passamos também por fogo destruindo terras indígenas, mães indígenas desesperadas por notícias sobre seus bebês (ou os corpos deles), cloroquina, funcionários públicos sem aumento até dois mil e vinte e dois, racismo e tantas coisas mais. É tanto sapo engolido que fome nem deveria ser problema por aqui. Aliás, por falar em sapos e políticos, não sei se a maioria já percebeu, mas as pragas do Egito, apesar de atingir todo o povo, resultaram da ira divina contra o Faraó que escravizada os hebreus. No Brasil, não temos Faraó, mas uma parte da população escolheu ser praticamente escravizada (arrastando junto a parte sensata da nação) por um presidente e uma bancada do boi, da bala e da bíblia que, de tão honrados e moralmente ilibados, são dignos receberem uma chuva de fogo e enxofre vinda dos céus, mas este é um outro conto e fica para outro dia – Se não formos atingidos por um dilúvio de suco de laranja até lá.

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Hoje, apesar do caos, eu quero falar de amor.

Finalmente a chuva e o frio típicos do inverno estão dando as caras por aqui. E com o frio meu humor diário melhora e por alguns momentos, eu encaro a página em branco pensando: Não, hoje eu não vou falar sobre o governo jogando para ocultar o número de mortos da COVID (e dizendo que a intenção era melhorar o sistema), nem sobre as sinistras filas nos comércios que vão aos poucos reabrindo durante o pico da pandemia ou sobre o fato de que países europeus proibiram vôos vindos do Brasil ao ver o descontrole da situação por aqui… Pois é, eu realmente não quero falar sobre tudo isso, mas já acabei falando. Entretanto, no próximo parágrafo eu prometo ignorar o caos e falar de amor. Não porque foi o dia dos namorados na sexta feira – Coisa que eu esqueci e acabei não preparando uma listinha de músicas ou filmes fofos para postar aqui no blog. Quero falar de amor em um sentido que acompanhe meus textos de domingo: O amor que acontece no mundo e todo seu sentido social e politico.

E como o amor é bem mais que a relação romântica que ocorre entre pessoas começaremos falando logo de um tema polêmico – Nesta Quinta Feira foi exibido no canal Corpo Rastreado (youtube) a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, A Rainha do Céu”, monólogo onde a atriz e ativista trans Renata Carvalho recria a vida de Cristo vindo ao mundo como uma travesti. A peça, exibida na emblemática data no feriado de Corpus Christi, reflete sobre o amor na sociedade, sobre empatia e sobre a forma como as minorias são tratadas – Afinal, como seria se Jesus realmente voltasse como uma pessoa trans? A autora transexual Jô Clifford consegue passar uma verdadeira imagem de amor.

A segunda notícia sobre o amor é mais romântica e polêmica: Um trisal de Sorocaba está esperando o nascimento do segundo bebê. Para quem não sabe, trisal é uma relação amorosa entre três pessoas. Diferente do que muitas pessoas pensam, a poligamia não é sinônimo de pessoas tendo relações aleatórias e sem cuidado. O poliamor ou poliafetividade é uma relação onde os envolvidos possuem a intenção de manter uma relação romântico-amorosa com respeito, atenção e carinho entre si, por longo prazo (sabe o “até que a morte os separe?”, então, imagine isso dito por três pessoas e vocês irão entender o conceito de trisal). A família de Sorocaba é formado por Marília Gabriela, Natali Júlia, Jonathan e o filho Raoni, além da menina que ainda irá nascer – De acordo com a reportagem, a relação teve início em 2011 e, como em muitos casos, as pessoas envolvidas não pensavam em formar um trisal. Infelizmente no Brasil as uniões poliafetivas são proibidas e as já existentes foram anuladas – O que não impede que, de fato, existam pessoas vivenciando essa rotina e tendo dia a dia seus direitos negados perante a legislação de um Estado que insiste em querer comandar o sentimento e o corpo das pessoas, ditando regras que não lhe caberiam ditar – Tudo em nome de moral e bons costumes – Conceitos que as bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia e seus seguidores já jogaram pelo ralo há muito tempo e que, de verdade, jamais deveriam ter como balizas a maneira como os seres humanos decidem amar e utilizar seus próprios corpos.

Quem quiser ler a reportagem original sobre o trisal, é só clicar aqui no link.

O conto do suspiro, da pizza e da saudade.

Ela suspirou – Um suspiro pesado de saudades que lhe ocupavam a alma, o corpo e o coração. As mãos haviam misturado o fermento, sal, açúcar, farinha e água e ela observava as pequenas bolhas se formando na fermentação – Foi se postar ao lado da janela enquanto aguardava o tempo passar – Não se permitia ter impaciências na cozinha e, na medida do possível, tentava ser paciente também na vida. Misturou ao fermento a aveia, a água, o sal, o azeite, linhaça e a farinha de trigo até dar ponto. Abriu a massa e fez um disco grande e vários disquinhos menores. Levou ao forno. Para ela, as receitas, ao longo do tempo, iam se tornando pequenas coleções de memórias – E em especial, aqueles pequenos discos que iam ganhando cor no forno, exalavam, além do aroma de pão fresco, o aroma de encontros especiais na casa dela ao fim da tarde. A espera até que ele chegasse, a troca de olhares intensa, o momento em que, ajoelhada aos pés dele apoiava a cabeça em seus joelhos. O tempo havia passado tão rápido quanto o tempo de tirar os disquinhos do forno, e, no entanto, tais memórias já estavam próximas de completar dois anos. Passou molho de tomate no disco maior e colocou brócolis e couve-flor refogados, pedacinhos de cebola, tomate e pimentão. Regou com azeite e orégano e colocou no forno. Ela sorria, lembrando o sorriso sexy dele, as mãos atrevidas, o aroma da pele, o sabor do beijo, a sensação de estar protegida em um abraço – Ele gostava daquela massa de pizza, mas entre todos os recheios que ela deixava prontos nos potinhos para que montassem juntos suas próprias pizzas, ele jamais escolheria uma opção vegana com brócolis. De tantas saudades que as pessoas acumulam talvez a saudade de cozinhar seja a mais sutil e ao mesmo tempo, uma das mais melancólicas – Afinal, cozinhar, mais do que alimentar o corpo, constrói afetos, lembranças, histórias. E a menina sabia disso, pois, uma das tantas meninas/mulheres que trazia como parte de si mesma já lhe havia segredado que, poesia e amor se fazem nos olhares, no papel, no toque de dois corpos e nas alquimias sutis de uma cozinha. Assim, naquela noite fria, ela resgatou memórias, degustou sonhos e ousou ter esperança de que, se escrevesse em seu diário o que lembrava e o que sentia, o tempo passaria mais rápido e ela poderia novamente mergulhar naqueles olhos profundos encontrando lá dentro toda a imensidão de seus desejos e sentimentos.

O jogo e as lições da semana.

Duas mulheres, um baralho e um hábito retomado com o início da quarentena: Jogar buraco. Jogo uma carta na mesa e ela diz: Vai jogar isso mesmo? A resposta arranca risos: Quer que eu faça o que? Sente em cima da carta igual o Maia está sentado em cima dos pedidos de Impeachment? Rimos. Nesta semana, aprendemos que não é difícil comparar o governo atual a uma conversa de boteco – Na mesa onde se deveriam discutir soluções para a grande crise sanitária que se abate sobre o país, uma horda de engravatados sisudos senta suas bundas e deixa a conversa correr solta – Entre palavrões, discutem-se as hemorroidas presidenciais e a utilidade da pandemia para mudar leis ambientais sem “os chatos da imprensa”. Pelas ruas, os tais cidadão de bem seguem empunhando suas bandeiras verdes – e – amarelas em defesa do indefensável. O palavrão que a um jovem daria o rótulo de vagabundo mal-educado e poderia até mesmo custar um emprego, na boca suja do abjeto ser, é apenas vocabulário comum – Não importa a eles o ambiente, não importa a eles todo o discurso genocida que acompanha os palavrões. Não choca ao “cidadão de bem” nem mesmo um ministro admitir que não gosta de determinados grupos étnicos.  Também aprendemos que é pra ficar em casa, mas isso não impede uma bala perdida de encontrar rapidamente seu caminho dentro da carne de mais um jovem negro. Mas é o Brasil, povo alegre! Verde e amarelo: O verde sendo devorado pelas madeireiras, pela mineração, pela agropecuária e o amarelo se acumulando nos bolsos imundos de tão poucos homens inescrupulosos. Uma nação dizimada por gafanhotos moralistas, os tais cristãos de bem, para os quais a propriedade está acima da vida, o lucro está acima da vida e o “amai-vos uns aos outro” só vale se o outro for de igual pensamento e torna-se  facilmente “armai-vos contra os outros”. Enquanto isso, valas comuns engolem pequenos universos com suas histórias de luta.