102 Dias

Parece que o ano começou ontem… E lá se vão 102 dias. Talvez o planeta esteja girando mais rápido pra acelerar o fim desse (des)governo que o Brasil vive. Ou talvez (e mais provavelmente) a vida esteja passando assim rapido porque com preços tão altos e salários estagnados, nós estamos correndo e lutando tanto pra sobreviver que está faltando tempo para de fato…Viver.

E vocês? Como estão sentindo a passagem do tempo? Já estão com os documentos em dia para dar um pé na bunda desse (des)governo do bolsonaro (com letra minúscula mesmo, pois ele não é gente, é um coiso dos infernos)?

Este post faz parte do BEDA (Blog Every Day August)

Leia também: Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Obdulio, Ale Helga, Mãe Literatura

06 on 06/ Abril – Arte de Rua (+ Bonus 06 on 06 Março)

O Brasil é rico em arte de rua: Grafites, estátuas vivas, músicos… Apesar disso, hoje eu postarei algumas fotos que tirei em Cartagena (Colombia). Lá existe um bairro chamado Getsemani, conhecido pelas paredes coloridas e ruas enfeitadas. Cartagena é uma cidade colombiana onde se respira história e arte, e o bairro Getsemani é o local da cidade onde a arte do grafite se destaca.

Essa é uma das lendas tradicionais de Cartagena, apesar de triste é uma lenda muito bonita e me encantou vê-la escrita em um dos muros da cidade.
Este desenho faz parte da foto anterior, uma ilustração da lenda contada.
O mar tem grande importância, este outro grafite mostra sua presença predominante na cidade. Iclusive uma dica: Sigam no Instagran a #Leyendas del mar, sugerida no grafite!
Mais um dos muitos Grafites do Getsemani.
A beleza da cultura negra é outro tema que está presente na arte colombiana
Uma das ruas do bairro Getsemani, com suas casas coloridas, flores e enfeites.

Mês passado preparei a postagem 06 on 06 Março “as minas e as manas” e acabei erroneamente agendando pra hoje…Por isso meu 06 on 06 de Abril vem com bônus especial:

O6 on 06 “As minas e as manas”

Coram das mulheres indígenas da aldeia Paranapuã/SV. Nossos povos originários precisam de respeito e espaço pra viver suas tradições!
Em 2018 minas e manas se uniram nas ruas contra o retrocesso e a violência. O movimento #elenão estava do lado certo da história e os acontecimentos dos anos seguintes comprovam isso!
As mulheres do grupo Linhas de Santos são peritas em mostrar que toda arte pode ser questionadora/política- Inclusive o bordado!
Há mulheres que fazem história e há aquelas que embora desconhecidas do mundo, fazem parta da história da família. Essa é a minha avó, que mesmo grávida subia nas árvores pra colher frutas e fazer compotas.
Marielle faz parte da história do Brasil. Uma mulher de luta!
E não podia faltar a imagem de uma mulher marcante para a música! Rita Lee, a rainha brasileira do Rock.

Este post é o quarto post do #BEDA – Blog Every Day April, que esse ano está no Instagram também (@poetisa_darlene).

Visitem outros blogs que também participam do BEDA: Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Ale Helga, Mãe Literatura, Obdulio

O Samhain se aproxima – Frio e recomeços

Caros leitores e leitoras, está oficialmente iniciada a temporada de dias frios e, embora para muitas pessoas o Outono/Inverno seja um período ruim, por aqui é um tempo de energia renovada. O frio me agrada em todo seu recolhimento e cores sóbrias. Sinto vontade de acordar cedo, expandir, cantar alto, caminhar sentindo o vento cortante açoitar a minha pele. Frio é tempo de dormir bem, comer bem, fazer exercícios sem transpirar nos primeiros minutos. É a época em que consigo sentar e escrever por horas ou estudar sem sentir sono. Abril é também o mês que antecede o Samhain – O ano novo pagão. É o fim da época de colheita, tempo de se preparar para o recolhimento do inverno. Um bom momento para organizar a casa e a vida e traçar planos a serem colocados em prática quando o Deus- Sol renascer.

Nos últimos tempos tenho me mantido afastada de tudo que não é humano, palpável, prático – Isso inclui o estudo de qualquer tipo de crença ou religiosidade – Penso que entre os estudos que podem de fato mudar a minha vida me colocando em uma melhor posição no mercado de trabalho, a atuação política que pode melhorar a vida de toda população e os estudos filosóficos religiosos, estes últimos devem ser preteridos em favor dos dois primeiros, por uma questão lógica. Ainda assim, quando sopram os primeiros ventos e o céu se encobre de nuvens quase na metade do ano civil, é inevitável ser arrastada pela Roda do Ano – E mesmo sabendo que dificilmente vou ter disciplina para seguir adiante, prometo a mim mesma que desta vez eu remonto meu altar wiccano e me dedico a celebrar ao menos os Sabaths e Esbaths à partir do ano novo que ocorrerá dia 1 de Maio.

Texto escrito ao som da chuva e de All Souls Night

Este texto faz parte do BEDA (Blog Every Day August)

Participam também: Lunna Guedes, Obdulio, Mãe LiteraturaAlê HelgaMariana Gouveia.

06 on 06 – Em 2021 eu…

… Aprendi a amar praia e mar…

                … Aproveitei muitos dias frios…

                … Tirei os pés do chão e conheci novos horizontes…

                … Observei a imensidão da Natureza…

                … Fui um pouco turista na minha própria região…

                … Tirei os pés do chão e voltei a dançar…

                06 on 06 é um desafio proposto pela editora e escritora Lunna Guedes e consiste em postar seis fotografias sobre um tema proposto todo dia 06.  E o primeiro 06 on 06 de 2022 foi perfeito: Em plena quinta feira (dia de #tbt) postar sobre “em 2021 eu…” foi uma forma incrível de começar o ano!

Conheça também um pouco do 2021 de…

Lunna Guedes – Isabelle Brum – Mariana GouveiaObdulio Nunes OrtegaRoseli Pedroso

Desculpem o pessimismo, mas 2022 não é app de entrega para trazer os seus desejos.

Papo reto: O ano que tá chegando não é um app de entregas. Não adianta olhar para o céu na virada do ano e pedir “paz, saúde, dinheiro, realizações etc”. Não adianta pular onda, comer romã, comer lentilha, nada disso vai adiantar. Não vai chegar um ano novo de bicicleta com uma mochilinha vermelha nas costas trazendo seus desejos até a sua porta.

                Quer um ano melhor? Vai ter que lutar muito. Além de trabalhar pesado para garantir o mínimo, também é importante que se organize pra exigir vacina para toda a população – Inclusive para as crianças. Limpe seu quintal e não emporcalhe a rua pra reduzir o risco de novos surtos de dengue. Denuncie as Fake News e comece a se movimentar desde já para derrubar o genocida e sua corja: Dois mil e vinte e dois não tem esperança de ser um excelente ano novo, quando muito pode ser o ano em que o país vai conseguir começar a sair do buraco para trazer um ano de 2023 melhor. E para isso vocês precisam que votar direito e conseguir informar as pessoas ao redor sobre o quão catastrófico o atual presidente tem sido para o Brasil e o quanto o sistema vigente está destruindo o mundo pouco a pouco. Desculpa se essas não são as notícias e votos de ano novo que você gostaria de ler. É o que tem para hoje. E para os próximos 365 dias.

                Se no meio de tudo isso você conseguir encontrar alguns momentos de paz, amor e felicidade, parabéns! Fico feliz de coração. Por aqui tenho certeza que também estarei segurando a vida com força e aproveitando intensamente todos os momentos incríveis que surgirem como faço todos os anos, mas é imperioso lembrar: Um Feliz Ano Novo não se refere ao seu ano pessoal ou ao meu. Se não for um ano novo digno para todas, todos e todes, não é um ano incrível. É apenas um ano que te trouxe bons momentos. Não tem como encontrar felicidade plena enquanto alguém ainda for escravizado, enquanto as matas queimam e pessoas fazem filas pra comer osso ou comprar alimentos envenenados pelos agrotóxicos.

                Agora, se mesmo assim você é como eu e não abre mão de fazer uma simpatia na última noite do ano, vou dar uma dica: É melhor passar o ano com uma calcinha bem colorida: Amarelo pra atrair dias iluminados, azul para atrair ar limpo, rosa para amor, verde para florestas renovadas, lilás para que haja uma chuva de feminismo, vermelho pra chamar a revolução comunista. Vai que dá certo né?

As bodas de Alice (Dark Fantasy inspirada em Alice no País das Maravilhas)

As vozes femininas ao redor começaram a deixar Alice zonza. Sentia os olhos arderem devido ao cheiro dos cosméticos aplicados no cabelo e segurava a vontade de xingar a cabeleireira pelos puxões da escova. O corpo estava dolorido pela depilação feita minutos antes. E ainda faltavam a maquiagem e o vestido – Bendito vestido branco, rendado, pesado. E se alguma das daminhas tropeçasse no véu? E se o cachorro saísse correndo com a cestinha onde estavam as alianças? Se soubesse que o casamento seria sinônimo de tanta dor de cabeça e cansaço, teria fugido com o noivo para um lugar no meio do nada e nunca mais voltaria. Neste ponto dos pensamentos, as lágrimas começaram a cair sem controle – em parte pela ardência, em parte pela ansiedade. Foi preciso interromper o serviço para que ela caminhasse ao ar livre até as lágrimas cessarem.

         Sentou-se em um banco de tábuas entre duas árvores e lembrou a infância. Brincara tantas vezes junto à irmã em quintais verdes, espaçosos. Um coelho cinza  com olhos vermelhos surgiu junto a seus pés. O animal tinha ares de pressa, mordiscava a barra da saia de Alice e corria um pouco, voltando em seguida. Alice levantou e seguiu o orelhudo amigo.Vivian não havia contado sobre aquele novo integrante da família! O coelho ia se afastando da casa em direção a um buraco no canto do muro. O quintal parecia ter crescido repentinamente. Alice seguiu o coelho até a entrada da toca e sentiu o chão desaparecer sob seus pés – Estava sendo sugada para dentro da terra. 

Acordou em um chão de terra batida dentro do que parecia ser uma caverna. Não havia como subir de volta pelo túnel que parecia estar longe, muito longe. O cabelo estava todo desfeito, os braços ralados e o tornozelo inchado – Teria sorte se não tivesse fraturado nada..Havia velas no canto oposto ao local onde havia caído. Mancando, Alice se aproximou do local iluminado e percebeu que as velas na verdade formavam um caminho mais para o fundo da caverna. Impossibilitada de retornar, seguiu. Quando criança, adorava a história de sua xará que descobria um mundo fantástico após seguir um coelho branco porém ao arrepiar-se de medo, pressentia que não teria a mesma sorte da personagem. 

Conforme avançava, Alice percebia que a escuridão se aprofundava. As velas, que no início do caminho traziam a chama parada, agora iam se tornando bruxuleantes, indicando a possível presença de corrente de ar. E se há corrente de ar, há possivelmente uma saída. A esperança logo se desfez: Um rio corria nas entranhas da Terra. Atravessá-lo levaria Alice direto a um paredão. A única opção seria seguir o curso do rio por dentro d’água em direção a outra caverna que parecia ainda mais escura. O cheiro fétido e a aparência oleosa-esverdeada pareciam gritar um recado: Não toque. 

O estômago roncava. Quanto tempo havia passado desde o momento da queda? Pensou em retornar, mas percebeu que as velas estavam quase apagadas. Deu alguns passos para trás e se deitou no meio do caminho, enrolando-se em posição fetal. Estava com frio e com medo. Chorou e adormeceu esperando que alguém viesse colocar novas velas e a resgatasse. 

Acordou com um pesadelo onde Arthur a abraçava pedindo para que abrisse os olhos. O ar faltava. Sentiu um aperto no peito – O que o noivo pensaria de seu desaparecimento no dia do casamento? Olhou ao redor e percebeu que ainda estava na caverna e, para sua surpresa, as velas haviam sido trocadas e encontravam-se novamente acesas. Quem quer que houvesse feito a manutenção daquele caminho havia deliberadamente abandonado-a ali, adormecida. Caminhou de volta e percebeu que sempre retornava ao mesmo lugar: A beira do rio. A passagem por onde caíra havia se fechado. Morreria faminta e sedenta nas entranhas do mundo. Olhou novamente ao redor buscando alternativas para sobreviver mais tempo ou abreviar o sofrimento. Percebeu pela primeira vez que cogumelos vermelhos cresciam nas pedras próximas ao rio. Colheu uma porção deles – Esperava que o sabor não fosse de todo ruim. 

Acordou. Os cogumelos não eram venenosos. Percebeu um movimento diferente nas águas e se surpreendeu ao ver o coelho cinza remando um barco até a margem do rio. O animal usava uma capa maltrapilha. 

– Acordou? Me dê o pagamento pela travessia.

– Não tenho nada comigo, mas se me tirar daqui, quando chegar em casa te darei tudo o que eu tenho no banco – Não é muito, já adianto. 

– Quero apenas a sua menor moeda. Ou ela ou fica aqui e ninguém irá te encontrar. 

         Como um coelho podia navegar, controlando um barco? Atrevido animal! Alice apalpou os bolsos e acabou encontrando uma moeda, que entregou ao coelho. Entrou no barco e apertou os olhos com força. Estava com medo. Queria acordar no banco de madeira onde se deitou há tanto tempo. 

         – A viagem é longa? 

         – O que é longo? O tempo, cara Alice, passa diferente. Uma hora lavando a louça do jantar é um tempo longo. Uma hora conversando com amigos é um tempo curto. 

         – Como sabe o meu nome?

         – Eu sei os nomes de todos que são, dos que foram e dos que ainda vão ser. Faça silêncio mulher. Olhe ao redor. 

E Alice olhou. As águas do rio já não pareciam tão fétidas nem tão tranquilas – Parecia que haviam entrado em uma enorme corredeira. Havia trechos estreitos e outros mais largos e, apesar da escuridão, vez ou outra Alice parecia ver sombras disformes entre as pedras e ouvir gritos ao longe. Encolhida, sentia cada vez mais frio. Percebeu as pontas das unhas ganhando uma cor arroxeada.

         – Sr. Coelho tem um cobertor? Olhe como minhas mãos estão roxas de frio. 

         – Aqui não há conforto. A viagem é igual para todos – Não importa quanto dinheiro você tenha. 

         Alice se calou novamente. Percebeu formas nas águas e inclinando-se um pouco na borda do barco viu que eram imagens de pessoas – Os olhos abertos, opacos, olhando para o nada. O estômago embrulhou e ela vomitou uma profusão de larvas roliças – esverdeadas. Gritou fazendo com que uma profusão de morcegos se agitassem, enroscando em seus cabelos e arranhando sua pele pálida. O coelho, ao invés de ajudá-la, observava a cena, misteriosamente imune aos ataques dos morcegos. Tentou agarrar aquele animal maldito, intentando jogá-lo nas águas, mas para sua surpresa, ele parecia ter o peso e a força de um homem adulto. 

         Ela não viu a cachoeira se aproximando. Sentia o barco acelerar cada vez mais  enquanto lutava com o coelho e perdeu a consciência ao ser engolida pelas águas. 

         Percebeu sua nudez. A pele do corpo tornou-se uma coleção de hematomas azuis esverdeados, mas incrivelmente não sentia dor. Passou os dedos por entre os cabelos completamente emaranhados. Era apenas um refugo da mulher que um dia fora. Os ossos apareciam por entre as carnes magras demais. Na beira do lago que se formava com a queda d’agua, o coelho martelava as tábuas consertando o barco. Ela olhou para o céu, mas percebeu que ainda estavam no fundo da terra. Aproximou-se do coelho-barqueiro:

– O barco ainda demora a ficar pronto? 

– Levará o tempo necessário

– Tenho fome, estou nua. Há algo para comer e vestir enquanto espero para prosseguirmos a viagem?

– A nossa viagem terminou, Alice. Agora, começa a sua viagem. 

– Sozinha?

– Você sempre esteve sozinha. Siga adiante, enfrente seus medos e encontre o seu destino. 

         Com lágrimas nos olhos, Alice viu o coelho empurrar o barco para dentro do lago e sumir atrás da cortina de água. Caminhou a esmo, os pés descalços doíam quando pisava os pedregulhos espalhados pelo caminho. Encontrou uma clareira formada por sete árvores secas.  

– Mas como poderiam existir árvores em uma caverna? 

– Uuh uuh… Sempre as mesmas perguntas… 

– Quem está aí? 

  Um rufar de asas cortou os ares. Novamente o chirriar de uma coruja se fez ouvir – Uuh uuh – Aqui em cima.

Alice olhou para cima e viu: A coruja tinha o tamanho dela. Correu. tinha fobia a qualquer tipo de ave. Enfiou-se por baixo da raiz de uma das árvores e continuou seu caminho. 

– Primeiro eu segui um coelho. Acordei em uma caverna, encontrei um rio e o coelho reapareceu como barqueiro. E me abandonou sem roupa e sem destino. Acorda Alice. Isso só pode ser um pesadelo! 

          Mas Alice não acordou. Percebeu que o buraco na raiz da árvore a havia levado a outro lugar – Era quente, havia grama e céu azul. Deitada, pensava na vida – Há tanto tempo não olhava o céu com calma, sem pressa, sem pensar em afazeres infinitos. Esticou o braço e alcançou um morango que brotava ali. Era doce. Uma sibilante serpente a chamou de cima de uma macieira:

– Venha Alice. Coma o fruto do conhecimento.

– Você fala?

– É óbvio

– Isso é impossível!

– A pergunta não deveria ser “como eu entendo o que você fala?”

Alice pensou. Era verdade – Como entendia o que a serpente lhe dizia? 

– Venha, prove o fruto. 

– Onde eu estou?

– Onde você acha que está? 

– Não sei. 

 – Quem  não sabe onde está, também não sabe para onde vai. Venha comer, Alice. E siga o seu caminho. 

          E Alice comeu a maçã. E sentiu vergonha de sua nudez. Cobriu-se com folhas de uva assim como diziam que Eva havia feito. E seguiu em frente. Para sua surpresa, estava novamente na clareira. A coruja a observava e ela já não tinha medo da ave. 

– Eu tinha medo de você até pouco tempo. Mas agora, só consigo te admirar. Se você é realmente o símbolo da sabedoria, me ensine alguma coisa. 

– A vida, Alice, é como uma enorme ampulheta. Você vive na superfície da areia e vai construindo coisas. Não percebe a areia escoando lentamente até ser sugada junto com o último grão. E então, seu tempo acabou. – Disse e voou para longe. 

          Queria poder voltar e conversar mais com a serpente, mas o buraco da raiz era pequeno e ela não conseguiria passar por lá. Aproximou-se da segunda árvore e sem se dar conta, diminuiu até mergulhar entre as raízes. Estava caminhando à beira mar quando viu: Arthur e Valentina caminhavam trocando carícias. Seu noivo e sua melhor amiga. Felizes. Ela sempre teve medo de ser traída, mas nem em seus piores pesadelos imaginava que sua melhor amiga seria capaz de…  Os dois passaram por ela como se não a vissem, mas ela pode ouvir a conversa:

 – Ela me chamou para ser a madrinha, acredita? Não desconfia de nada, pobrezinha. 

 – Eu sei amor. Só preciso do tempo para celebrar o enlace e eu convencê-la a investir o que preciso para salvar a empresa que está quase falida. Depois, cada um pro seu canto e eu completamente nos teus braços.

          Alice foi atingida pelas palavras como por um soco no estômago – Então nunca foi amor. Ao continuar caminhando, sabia que havia enfrentado outro medo: O de ser traída. E não se surpreendeu ao olhar ao redor e ver a clareira. A coruja não estava lá. Sentia sede e fome novamente. As folhas de uva já haviam secado e se esfacelaram entre seus dedos. Deu a volta pela terceira árvore. Seguiu uma trilha de formigas que subiam pelo tronco e antes que desse por si, viu-se transformada em um inseto, carregando um peso muitas vezes maior do que o seu próprio peso. Caminhava pelo canto de uma parede. Reconheceu a própria casa – A mãe em prantos. A prima inconformada resmungava a injustiça da vida: “-Logo agora que ela iria se casar”. Alice queria avisá-las que estava bem, que não havia fugido. Desviou-se da fileira e foi se aproximando lentamente. Reconheceu então a voz aguda de Valentina que consolava a prima. Traidora. Deixou a folha cair e subiu pelo braço da antiga melhor amiga, mas antes que conseguisse fazer qualquer coisa, sentiu o peso de uma mão a esmagá-la. 

          A perda de consciência pareceu rápida dessa vez – poucos segundos entre o tapa que a havia acertado e o retorno até a clareira. Sentia pressa. Precisava retornar e terminar aquele projeto de casamento. O coelho disse: Enfrente seus medos e siga seu caminho. Alice havia enfrentado o medo de pássaros, o medo da traição e agora o medo de se sentir insignificante. Quais seriam os outros medos?

– Se há sete árvores, eu já visitei três e enfrentei três medos, então restam quatro árvores e quatro medos. 

– Uuh Uuh.. Alice está pegando o jeito! 

Não houve tempo para responder. Uma águia passou levando Alice pelo bico. O medo de altura. 

– Você sempre teve medo de voar Alice.

 A coruja estava por perto. 

 – Olhe pra baixo, Alice. Veja como poderia ter sido sua vida se você não tivesse tido medo de fazer aquela entrevista de emprego por medo de fracassar. 

          E ela viu. A casa dos sonhos. Uma vida tranquila ao lado de pessoas que amava. Percebeu que Arthur não estava ali – Se ela tivesse feito a entrevista, não estaria prestes a se casar. E não teria seguido o coelho até aquele buraco. Quando saísse de lá, tudo seria diferente. 

         A águia abriu o bico. Alice gritou alto quando sentiu a queda livre. Morreria. Não conheceria os outros três medos. Não voltaria a ver sua família e amigos. Sentiu o corpo bater contra o chão duro. Voltou ao mesmo lugar. Dessa vez, foi difícil levantar – Havia sangue pelo corpo, dificuldade para respirar. Um corvo crocitou e atirou-se sobre ela, arrancando um pedaço de carne do ombro, deixando o osso exposto. Arrastava-se em direção à quinta àrvore. A serpente surgiu e se ofereceu para ajudá-la. Ela respondeu que não seria necessário e continuou se esgueirando pelo chão. Quanto mais se esforçava, mais pele ia perdendo. Sentia um odor pútrido. Era um milagre que ainda estivesse viva. 

Novamente a serpente ofereceu ajuda. Alice não estava em condições de recusar. Aceitou a oferta. A cobra tornou-se um enorme basilisco, carregando Alice pela boca até uma cama de palha colocada aos pés da sexta árvore. Morcegos trouxeram frutinhos que ela comeu vorazmente. Seu quinto medo: Precisar de ajuda alheia para sobreviver. Dormiu.

          Quando acordou, Alice já não conseguia se movimentar. A carne que ainda restava estava inchada, inflamada. Vazava um líquido purulento por seu nariz e ouvidos. A cobra ainda estava a seu lado, assim como a coruja. Conversavam:

  – É tarde demais para ela. Demorou muito para comer o fruto da verdade. Não conseguirá enfrentar seus dois últimos medos. 

– Ela tem o direito de tentar. Eu a alimentei com o fruto do Edén. Se ela tiver força, enfrentará seu destino. 

– Se ela não enfrentar, ficará presa para sempre nas águas do rio Estige.

– Eu preciso seguir em frente… Pre…ci…so… voltar para cas…casa.

         Carregada pela cobra e pela coruja, Alice foi conduzida através do buraco no tronco da sexta árvore. Era um labirinto de espelhos. Várias Alices se refletiam: Bebê, jovem, criança, idosa. O medo de envelhecer. Precisava sair daquele labirinto, mas mal conseguia andar. Foi um choque encarar a realidade ao olhar-se em um dos espelhos e ver seu corpo: Pedaços faltando, a cabeça calva e ferida. Larvas grudadas em seu nariz e boca. As unhas das mãos haviam caído deixando os ossos das falanges à mostra. 

          Respirou fundo. Seu medo de perder a jovialidade e a beleza a encarava através do espelho. Com esforço sobre-humano, arrastou-se para fora do corredor de espelhos. Restava encontrar seu último medo. E ela não  fazia ideia do que viria. 

          O percurso entre a sexta e a sétima árvore parecia infinito. A voz do coelho grita nos ouvidos de Alice: Você sempre esteve sozinha. A verdade naquelas palavras destroçou sua alma. Sozinha. Adentrou a sétima porta e se deparou com Cérbero, o enorme cão de três cabeças que guarda os portões do Reino de Hades. Entendeu seu último medo: A morte.  

         Alice abaixou a cabeça – Como não havia entendido que o coelho era Caronte? Continuou caminhando. Havia encontrado seu irrevogável destino.

         Arthur foi algemado – A acusação? Matar a noiva. Tudo foi muito rápido: A descoberta da traição, a briga, a ameaça de não se casar. Ela foi ao salão decidida a ter seu dia de beleza. Ele pulou o muro e sabotou os freios do carro dela. Viu quando ela saiu transtornada do salão e se sentou no banco de madeira, quando caminhou de volta para casa, pegou o automóvel e acelerou em direção à estrada. A seguiu no próprio carro e viu quando perdeu o controle e caiu pela ribanceira, explodindo. Telefonou para o socorro. Era a vítima do destino, o noivo preocupado. Verdadeira tragédia noticiada na cidade pequena. O corpo carbonizado em poucos minutos. Lágrimas e comoção. O casamento seria em algumas horas, a decoração transformada em velório. Ele não contava com as câmeras. Foi preso. Recebeu uma recepção calorosa na prisão: Matadores de mulheres não eram bem vindos ali. Estava caído no canto da cela, os olhos roxos, boca sangrando. Viu um coelho preto… Animais não são permitidos nas celas. Fraco, levantou e seguiu o coelho até um buraco lá no canto. Os colegas de cela ignoravam seus movimentos. Sentiu o chão afundar quando entrou naquele buraco. Tudo rodava e rodava. 

         Arthur acordou em uma caverna. O chão de terra batida. Impossível voltar pelo túnel, que parecia tão distante. Escoriado, levantou e seguiu em direção ao pouco de luz proporcionado pelas velas posicionadas no canto oposto…

Um ilustre visitante – BEDA 09

Meu tio mora na zona rural de uma cidade inserida no cerrado brasileiro e sempre me envia fotos e vídeos dos animais que aparecem por lá.

Hoje vi uma reportagem dizendo que, se não mudarmos nossos padrões de produção e consumo imediatamente, será tarde demais para reverter o colapso do clima. Estamos caminhando pra uma extinção em massa e, acreditem: A COVID-19 foi apenas a primeira catastrofe e tem coisas piores pela frente!

Compartilho o vídeo deste belo porco espinho como um incentivo a mudanças! O mundo é muito bonito para ser destruído por uma espécie presunçosa, arrogante e porca . Vamos preservar nossa fauna, flora e recursos naturais!

Esse post faz parte do projeto BEDA (Blog wvery day august)

06 on 06 – Meus Vícios (BEDA 06)

O projeto fotográfico 06 on 06 propôs um tema peculiar: Meus vícios. Por definição, vício pode dependência física ou psicológica, ou ainda pode significar defeito.

Não me considero dependente de nada e, embora possa ter lá os meus defeitos, não vejo uma forma de fotografá-los. Por isso tomo a liberdade de ampliar o significado de “vício” para apresentar aqui hábitos rotineiros como vícios.

O primeiro (e arrisco dizer) mais antigo vício: Livros.

O segundo vício: Matemática. Adoro resolver questões aleatórias pelo prazer puro e simples de colocar a cabeça pra pensar.

O terceiro vício, adquirido na infância e retomado na quarentena: Baralho. Um jogo sempre cai bem!

Quarto vício: Música!

Quinto vício: Lápis de cor. Desenhar eu não desenho… Mas escrever colorido é divertido!

Sexto vício: Escrever. Tudo vira história pra contar!

Este post faz parte do BEDA (Blog Every Day August). Acompanhe também os posts de: Lunna, ClaudiaAdrianaObdulioMariana Roseli.

O pacto final – BEDA 04

O ano é 2050.
Um homem ruivo com a pele cheia de sardas abre os olhos. O céu está escuro. Ele pergunta as horas para o dispositivo eletrônico que coordena e executa diversas funções na casa. Levanta e veste um macacão que protege contra a radiação e as altas temperaturas e um capacete que mais parece um aquário virado ao contrário. Acopla o capacete a um pequeno filtro cilíndrico que coloca nas costas.
Sente saudades da infância – A época em que o mundo começou a mudar, com a pandemia da covid-19 varrendo do mundo quase um terço da população humana. Ir até a escola de máscara era cansativo e não impediu um genocídio quando novas variantes se espalharam. Por isso já não haviam escolas e a maioria dos trabalhos tornou-se remota. Ele não conhece a vida adulta no mesmo mundo que os pais e avós, mas sabe foram essas gerações que destruíram aquele planeta tão bonito que hoje existe apenas nos livros.
Sobraram poucos humanos e vigora um pacto de não-reprodução. A espécie não tem mais nada para acrescentar ao mundo.
Ele olha uma última vez para o céu vermelho e segue para o lado externo da casa. No quintal está construindo uma pequena fortificação com informações que considera importantes – Se algum dia o planeta se recuperar e outro animal evoluir a ponto de entender, talvez evite cometer os mesmos erros do quase extinto ser humano.

Este post faz parte do BEDA (Blog Every Day August). Acompanhe também os posts de: Lunna, Claudia, Adriana, Obdulio, Mariana e Roseli.