[Grimório] O chamado da Deusa e a noite de Samhain

 O chamado da Deusa é irresistível. Anos atrás minha vida estava pouco a pouco se adaptando a ouvir as estações do ano e as energias da lua. A participação no círculo de bruxaria era parte do meu dia-a-dia – e era também um desafio diante de um mundo onde trabalho e estudos sempre acabam se sobrepondo a tudo – até mesmo aos cuidados espirituais mais básicos. Depois de uma mudança de cidade que deu muito errado, acabei me desfazendo da maioria dos meus objetos de altar e me afastando – mas todos os anos a vontade de voltar aos rituais é grande e acaba sendo sobreposta pelas responsabilidades e falta de tempo. E então, neste ano, resolvi finalmente retornar – não ao círculo, por ora, mas ao menos tentar não deixar passar em branco as mudanças do ano, as festividades e celebrações – mesmo que por agora minhas celebrações sejam apenas ligadas à magia de cozinhar alguns pratos especiais ligados às festividades e aos poucos ler mais e voltar a expandir a concentração e a sensibilidade. Um passo de cada vez é melhor que ficar parada, não é verdade? E quando eu começo? Hoje, Sabat de Samhain, a noite mais mágica do ano para nós pagãos.

 “- Mas Darlene, seu blog se chama Devaneios e Poesias, por qual motivo falar sobre Wicca e Paganismo? ’’ Porque eu acredito que algumas ( talvez a maioria) das pessoas que apreciam meus textos, minhas poesias e minhas receitas, gosta também de conhecer um pouquinho do que está por trás de tudo isso: O que inspira os escritos, quem é a autora em seu dia a dia – acredito que quando iniciamos um blog, a maior intenção é compartilhar um pouco do universo que trazemos em nossa alma com outras pessoas que tem em si universos particulares e diferentes – e sem dúvida a Wicca fez e faz parte deste meu universo.

Sobre Samhain:

Dentro da Roda do Ano, a noite de Samhain é uma das mais mágicas – Seu significado é de morte e renascimento, marcando por isso o final e o inicio de um novo ano no calendário dos pagãos que seguem o panteão celta. O Deus-Sol ou Deus Cornífero morre e a Deusa está em entrando em sua fase anciã. É tempo de recolhimento e introspecção. Na noite de Samhain, o véu entre os mundos está aberto, por isso é a noite ideal para honrar os que já partiram; o costume de esculpir máscaras em abóboras colocando uma vela dentro é uma tradição que tem como explicação a necessidade de espantar os maus espíritos que estão circulando livremente nesta noite mágica. Também é uma noite propícia para confeccionar objetos mágicos, amuletos, consagrações e iniciações, além de se dedicar às práticas divinatórias. Os rigores do inverno se aproximam, festeja-se a última colheita, organizando reservas para os dias futuros. Não é uma época propícia para iniciar novos projetos, mas sim para agradecer o que já conseguiu alcançar e deixar para trás tudo que não deu certo. A Deusa já está em sua fase anciã e chora a partida do Deus, mas ao mesmo tempo já trás em seu ventre o embrião da criança da promessa – O Deus Sol que renascerá em Yule, quando a Deusa será novamente mãe, reiniciando todo o ciclo. É sempre útil lembrar que o Samhain é comemorado em 31 de Outubro no hemisfério norte e em 30 de abril no hemisfério sul.

Algumas dicas:

Em casa:

-Desapegue de tudo que não usa mais – aproveite a proximidade do sabat para fazer aquela faxina, doar objetos que não tem mais utilidade.

-Organize a dispensa – Se costuma ter um estoque é hora de verificar as validades para não perder nada e completar o que está faltando.

-Faça uma faxina caprichada e depois utilize um bom incenso de banimento, caminhando por todos os cômodos, tendo em mente que as energias mais pesadas e estagnadas estão sendo varridas para fora.

– Utilize neste período incensos de sálvia, mirra, artemísia, patchouli,hortelã ou alecrim.

– As pedras relacionadas ao Samhain são ônix, obsidiana negra, floco-de-neve, granada, hematita, âmbar, cornalina, turmalina negra. Use-as em sua casa e em acessórios, mantendo-as por perto.

Na cozinha:

Aproveite a energia e prepare uma ceia com ingredientes tradicionais da celebração:, maçã, alho, abóbora, sálvia, hortelã, pêra, alecrim, castanhas, milho e outros grãos, romã, batata, milho, trigo, gengibre. Para beber, água, vinho e suco de uva, romã ou maçã.

Rituais:

– Esculpir uma lanterna na abóbora e colocar na porta de casa

– Trançar uma corda de bruxa: Corda de bruxa é um cordão que liga simboliza o cordão umbilical que nos trás à vida terrestre – é o cordão que nos liga ao Outro Lado. Pode-se usar até três cores para trançar a corda, de acordo com o desejo a ser realizado:

Branca – Harmonia

Vermelho: Afasta os inimigos, ajuda a vencer obstáculos, traz coragem

Laranja: Atrai prosperidade e sucesso

Rosa: Auxilia a vida amorosa

Preto: Proteção, afastar o azar

Verde:Abundância

Amarelo: Atrair saúde e sorte nas finanças

Deve-se usar cordas cortadas no tamanho (altura) do bruxo e trançar mentalizando os pedidos para o próximo ano. Depois de consagrada no altar (se você tiver um), deixe-a em algum lugar da casa para que sempre lembre seus desejos ao vê-la.

– Queima de pedidos:

Escreva em um papel tudo que deseja afastar de sua vida e em outro tudo que deseja atrair. Acenda uma fogueira – de preferência dentro do seu caldeirão – e queime primeiro o com o que deseja afastar – é preciso se concentrar enquanto o papel queima. Em seguida, queime o papel que contém as coisas que deseja atrair – também é importante concentração e gratidão neste momento – coloque folhas de louro no fogo enquanto queima o papel com os pedidos.

 

Blessed Samhain!

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Um conto de descobertas na escuridão, parte II: Coroada

Depois de algumas voltas com os olhos vendados e as mãos dele passeando pela sua pele, ele estacionou novamente o carro. A luz do sol inundou seus olhos quando ele removeu a venda de seus olhos. Sentiu o vento balançar seus cabelos quando abriu a porta e ficou em pé. Então ele pediu que ela fechasse os olhos novamente – ouviu o porta malas abrir e sentiu algo ser colocado em suas mãos – uma coroa com pedrinhas coloridas. Ela sorriu, ele delicadamente a virou e, retirando-lhe a coroa das mãos. Já não era o vento que mexia em seus cabelos, e sim as mão de seu príncipe que, com toda delicadeza lhe coroava. Caminharam pela rua pouco se importando com alguns olhares curiosos. Era seu dia, seu aniversário, e aquela tarde tão perfeita a fazia sentir-se uma princesa de verdade, uma princesa debutante do mais belo reino: O reino do coração daquele Príncipe que a escoltava com atenção e carinho pelas ruas naquele final de tarde quente. Ele a levou até uma sorveteria discreta e acolhedora – o geladinho do sorvete deslizando pelos seus lábios contrastava com o calor do desejo que inundava seu corpo. Ela simplesmente desejava que ele pudesse fazer amor com ela ali, deitada sobre aquela mesa entre sorvetes e coberturas – e pensar isso a assustava: Tais pensamentos jamais a haviam invadido antes! Sempre acreditara que um relacionamento feliz deveria ser casto e, de repente, sua imaginação devaneava libidinosamente. Seria ele um Príncipe ou um feiticeiro? Ou um príncipe feiticeiro que a arrasta em meio a tempestades e mistérios sensuais que até então desconhecia?

            O caminho de volta é tão intenso quanto o início do passeio – A venda nos olhos amplia seus sentidos, como se a retirada temporária da visão pudesse fazer com que tudo se tornasse mais intenso. Ela se esforça para calar seus próprios pensamentos – Deseja desesperadamente acreditar que aquela tarde foi um encontro entre um garoto e uma garota que estão descobrindo sentimentos intensos juntos, mas, no fundo, ela sabe que foi um encontro entre os personagens que criaram para viver em uma realidade paralela – um jogo onde há prazer sem que a paixão os fira. Ela sabe que, no dia seguinte, quando estiver comemorando sua primavera, ele estará presente em seu almoço entre amigos – e sabe que ele a olhará com o carinho da amizade, mas sem o ardor quase palpável com que a olhou hoje. Todos esses pensamentos não seguem uma linha de raciocínio, ela apenas tem lampejos entre um toque e outro, entre um sussurro e outro. Ele a está levando para casa – Uma princesa na carruagem de seu príncipe. E ela sabe que, assim que colocar os pés do portão para dentro, irá dedicar-se ao preparo dos pratos a serem servidos no dia seguinte, e que, ao cair da noite, após um banho, ela irá pegar seu caderno e escrever todos estes pensamentos – e nesse momento, observando a coroa repousar na estante, ela se sentirá novamente uma princesa, uma princesa solitária aguardando seu romântico final feliz que, provavelmente, não esteja escrito no livro da vida. E ainda assim ela irá sorrir, pois ao menos aquela personagem obscura, que é também parte dela, conseguiu encontrar seu lugar.

(25/11/2017)

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Um conto de descobertas na escuridão (Parte I)

            Olhou-se no espelho – usava um vestido preto com decote em V, de comprimento pouco acima dos joelhos. Ajeitou os cabelos – queria volume, ousadia e maciez. Em alguns minutos ele chegaria e ela deixaria de ser ela para tornar-se a personagem que descobrira em si mesma no último encontro – ela seria a Baby – uma jovem ávida por novas experiências que envolvessem seu corpo sem partir seu coração.  Ela sentiu os olhos dele passearem lentamente por ela enquanto ele abria a porta do carro – Ele dirigiu pouco mais de um quarteirão e parou para colocar-lhe uma venda nos olhos. Naquele momento toda sua visão se escureceu – E ela começou a perceber outras sensações com mais intensidade: O balançar suave do carro, as curvas, a música, a própria respiração… E de repente sentiu as pontas dos dedos dele passearem pela pele de seu braço – foi rápido, apenas um toque leve – que a fez suspender a respiração por alguns segundos. Pouco depois sentiu os dedos passearem levemente por cima de suas mãos e pernas – eram toques suaves, mas que a faziam vibrar. Acariciou seu pescoço e o rosto, delineando a linha dos lábios – e ela respirava pesadamente. Seu ventre se contraía com um prazer desconhecido e ela desejava que ele a tocasse em partes onde jamais havia desejado ser tocada antes – aquela parte que era o delta do corpo feminino estava latejando – havia um calor emanando de seu corpo. Era torturante que ele a acariciasse tão levemente e não permitisse sequer que ela o tocasse. Era deliciosamente torturante sentir o toque das mãos dele antes mesmo que a pele encostasse-se à dela, como se estar privada da visão a fizesse ampliar os outros sentidos. Ele colocou as mãos dela apoiadas sobre as coxas, com as palmas para cima. Acarinhou-lhe as palmas das mãos e os pulsos. A voz dele estava rouca, diferente da voz do amigo com quem convivia – era uma voz recheada de provocação e desejo –Ela e a sua personagem ainda brigavam – A personagem, satisfeita. Ela desejando ouvir uma declaração de amor que no fundo sabia que não aconteceria. Fechou os olhos, embora a venda não lhe deixasse ver nada. Concentrou-se apenas nas sensações boas que ele lhe dava e deixou que a Baby tomasse conta de seu corpo e mente. Ele parou o carro e, delicadamente retirou a máscara de seu rosto – estavam em uma rua estranha, meio deserta, quase abandonada.  – Ele indicou uma porta de madeira, com uma escadaria grande e ela subiu – Era um lugar agradável, simples, bastante alternativo. Ela observava a rede pendurada a um canto e secretamente desejava que ele a deitasse ali e a beijasse como se o mundo fosse acabar – fora o passeio surpresa perfeito. Ela já deveria saber o quanto ele podia ser surpreendente quando ele desceu as escadas chamando-a para acompanhá-lo até o carro. Colocou-lhe a venda sobre os olhos e a acariciou novamente enquanto rodavam pela cidade. Ele a tocou com mais intensidade desta vez, percorrendo com os dedos todo o espaço livre por baixo de seu vestido, explorando seu delta de feminilidade. Era constrangedor sentir aquele toque, mas ao mesmo tempo, ela sentia que iria desfalecer se ele parasse. Ele a provocava e a fazia gemer baixinho, quase ronronando como um felino. Ela desejava que ele a beijasse, mas ele tinha outros planos e não permitia que ela sentisse seus lábios mais do que alguns segundos. Ela desejava sentir a língua dele brincando dentro de sua boca enquanto as mãos exploravam suas pernas e recantos mais ocultos e pecaminosos. Ele perguntava com aquela voz rouca e sexy como era gostava de ser tocada, mas ela não sabia responder, pois nunca conhecera um toque antes. E ele alternando a velocidade e intensidade a acariciava, até que ela explodiu em um gemido e sentiu suas pernas se inundarem de uma umidade quente e o corpo relaxar libertando toda a tensão acumulada durante as carícias – atingira o primeiro orgasmo de sua breve vida – Ela desejava beijá-lo, tocá-lo, mas ele a deitou sobre as pernas com o traseiro levemente levantado. Acariciou com delicadeza “– nós vamos aprender duas palavras hoje – Amarelo e Vermelho” – ele disse. “- Amarelo você deve dizer quando sentir que seus limites estão sendo ultrapassados de forma desconfortável. Se você disser “Amarelo”, deixarei mais brandas as palmadas. Ele explicou também que “vermelho” é a palavra que ela deveria dizer caso realmente desejasse parar. Durante todo o tempo, suas mãos a acariciavam e sua respiração lhe deixava arrepiada – de repente, ela sentiu sua mão acertar em cheio suas nádegas “- Conte.” Ele disse. Foram sete palmadas.

Ela estava novamente sentada e presa ao cinto de segurança. Sentiu quando ele ligou o carro e colocou-se em movimento. A escuridão dos olhos vendados não lhe escurecia a alma ou os desejos que irradiavam em seu corpo. Ela sentia novamente as mãos a tocar suas partes mais intimas – tinha medo que alguém no carro ao lado pudesse ver, tinha medo de serem parados pela polícia e terem que explicar o motivo da venda – E a sensação de medo pouco a pouco ia se misturando com a sensação de desejo que a invadia como uma onda quente e intensa – A música, as mãos dele, a respiração dos dois, tudo a sugava para uma dimensão paralela e única – e neste momento ela ouviu a voz dele pedindo que não se segurasse – e então, ela deixou-se engolir novamente por aquela onda de prazer que a deixara sem chão.

(25/11/2017)

 

 

Sobre rotina e cavalos selvagens

            Um pouco mais cedo estava na cozinha e algo me assustou: Já estamos na metade do primeiro mês do ano! O que aconteceu com aquela lista de boas intenções traçada há tão pouco tempo, para quando “dois mil e dezoito finalmente chegasse”? Onde guardei as horas infindáveis de estudos, escritas e exercícios que planejei para este mês de férias escolares?  A vontade é deixar os próximos trezentos e tantos dias apenas para planejar uma rotina perfeita e não cansativa (existe?) e riscar aquele título “Metas 2018”, substituindo para “Metas 2019”. Mas a vida não permite – se eu não estudar em 2018, não vou avançar – e ficar parada não é uma opção, não é verdade? A realidade prova mais uma vez que os dias são cavalos selvagens a correr indomáveis pelos campos infinitos da vida e de nada adianta traçar tantos planos se nada muito do que iremos viver na realidade não depende apenas de nós mesmos – e vendo desta forma, talvez seja possível vislumbrar um motivo real para estarmos aqui: Sobreviver e aproveitar a viagem. Ninguém vem ao mundo com o objetivo de ser “o melhor” em alguma coisa, ou o mais rico, ou o mais feliz como se felicidade pudesse ser medida. A sociedade tenta (e em geral consegue) nos fazer acreditar desde tenra idade, que o objetivo da vida é “chegar na frente”. E assim passamos preciosos momentos tentando domar nossos cavalos selvagens, caindo e levantando, exaustos, buscando um objetivo que nos foi colocado sem ao menos nos perguntar se desejamos que aquele tal objetivo fosse sequer parte da viagem que fazemos por aqui. Quer um conselho? Não tente domar seus cavalos selvagens! Corra com eles. Veja cada dia como uma nova página para escrever seus caminhos, histórias e desejos – trace metas sim, mas trace tantas e tantas metas e planos que, se um ou outro não der certo, você possa sorrir e se contentar com os que foram cumpridos – e ao final de cada dia, reflita: O fez e se isso lhe trouxe algo de bom – não necessariamente se lhe aproximou de seus objetivos pessoais, apenas se pergunte: “As experiências que vivenciei hoje me trouxeram algo de bom sem prejudicar ninguém? Eu tive motivos para sorrir hoje?” Se as respostas para estas perguntas forem “sim”, não se preocupe – você está no caminho certo.

 

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Sobre o início do ano, as polêmicas, o mar e o cansaço da vida.

Lá fora, a chuva molha lentamente o chão. Há pouco terminei de ler um livro, estudei violão – as aulas logo estarão de volta – almocei. Senti falta dos ensaios dominicais na casa do meu melhor amigo e das caminhadas longas para chegar e sair da casa dele. Pensei em me arrumar e ir caminhar a esmo pela cidade molhada, fria e provavelmente vazia – a chuva certamente forçou os turistas e veranistas a se recolherem neste domingo.  Sentada diante do computador, começo a ler algumas postagens de blogs que sigo – e também olho vez por outra, a timeline do Facebook. E então percebo que o ano nem bem começou e já surgiram motivos para polêmicas desnecessárias – ou talvez reveladoras: Vejo mais um texto, bastante bem escrito e argumentado, sobre a foto do menino negro dentro do mar na virada de ano em Copacabana. Tantas interpretações para uma única imagem – qual a dificuldade das pessoas em enxergar na foto apenas uma criança olhando os fogos, talvez com frio pela água levemente gelada do mar? Válido questionar a exposição de um menor de idade, mas apenas isso – antes de inventar possíveis interpretações, essas pessoas deveriam pensar sobre o constrangimento que este menino irá passar ao ver tantas histórias “criadas” a seu respeito – menor abandonado, ladrão. Qual o motivo de atribuir a uma criança em uma imagem tantos passados e presentes? Quando perdemos a capacidade de apenas admirar uma fotografia bem feita? E a reforma da Educação que o governo propõe? Por qual motivo há tantos textos sobre uma imagem e tão poucos sobre coisas que realmente importam? Será que já desistimos de lutar por escolas públicas de qualidade, saúde, transporte, segurança – não segurança repressiva, chacina, força bruta – mas a segurança da justiça, da educação, dos direitos humanos colocados desde cedo para formar cidadãos que entendam a importância de lutar pelos direitos do seu próximo e não apenas pelos seus.

Francamente, tento parar de pensar em tudo isso – o ano mal começou e um desânimo já me invade. Tenho me sentido velha ultimamente – meus 31 anos que este ano se transformarão em 32 – parecem já 50. Talvez eu devesse ler menos, questionar menos. Mas não consigo! Entre os preços abusivos do supermercado, o transporte caro e lotado, o emprego e o curso, encontro apenas cansaço e perguntas que não se encaixam e, os únicos momentos em que consigo não questionar são aqueles momentos entre amigos, aquelas noites na praia esperando o Sol nascer, os ensaios de domingo, as horinhas roubadas ao turbilhão dos dias em pequenas conversas no Messenger. E por falar em amigos e vida, lembro-me de uma analogia feita por um grande e especial amigo: A vida é como o mar e suas ondas: Puxa, bate, empurra – e sempre te joga em alguma praia. E completo o pensamento dele: Se você for forte, talvez consiga aproveitar a praia. Se apenas se deixar levar, provavelmente não consiga sobreviver até chegar à terra firme.

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Coletânea da Vida

Gosto de imaginar a vida como uma coletânea de livros – Cada ano, um volume cheio de páginas em branco que vamos preenchendo da melhor forma possível. Nossa vida é uma coleção de comédias, dramas, tragédias – É um romance sempre sem final, pois, quando finalizar, não estaremos mais neste plano para assinar a última linha.
Gosto de imaginar a vida como uma coletânea de livros – Cada ano, um volume cheio de páginas em branco que vamos preenchendo da melhor forma possível. Nossa vida é uma coleção de comédias, dramas, tragédias – É um romance sempre sem final, pois, quando estiver terminados, não estaremos mais neste plano para assinar a última linha. ia, a militância, o amar, o se apaixonar, o sonhar. Foram 365 dias, cada um, um capítulo recheado de emoções! E nesta última página, aquele desejo: Que 2018 seja poesia! Que a cada dia o Sol se levante trazendo mais e mais motivos para sorrir e fazer sorrir – e que as pessoas especiais que estiveram comigo até aqui possam continuar por perto, tornando cada novo capítulo um mundo repleto de felicidade!
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O conto da menina no espelho

Abriu o guarda-roupa e olhou longamente, como quem se perde em uma paisagem ampla. Escolheu uma saia longa e uma blusinha verde. Ela queria estar bonita para encontrá-lo depois do trabalho. Não era um encontro no sentido que se costuma dar a essa palavra – era um passeio entre amigos e isso é tudo que ela esperava que fosse. Olhou-se no espelho – Se é apenas amizade, qual o motivo de estar se arrumando tanto? Sorriu e respondeu a si mesma – Ele é um amigo bonito e merece ter uma companhia igualmente bela. Ajeitou o cabelo e se observou novamente – Ela não gostava tanto assim da menina que via no espelho – Estava um pouco fora de forma e tinha um ar cansado. Os cabelos cacheados, castanhos e rebeldes a agradavam. Os olhos também pareciam cheios de vida – belos e ansiosos por uma boa conversa e risadas sinceras. Quem era afinal aquela menina assustada que a observava através do espelho? Era jovem, mas não tão jovem. Era madura, mas nem tanto. Uma mulher-menina assustada e inexperiente. Uma mulher com o coração devastado que havia reconstruído seus muros e tinha medo da simples idéia de permitir-se ultrapassá-los. E qual a razão de estar pensando tanto enquanto se vestia? Tantas vezes já haviam conversado, algumas outras já haviam passado tempo juntos. Ela sabia que nada iria acontecer – ela o via como amigo e ele era um homem digno que jamais tentaria flertar durante um encontro. Trocou de roupa. Não gostou do visual. Escolheu outra peça. Voltou a vestir a primeira. Estava bela? Possivelmente sim. Sorriu ao lembrar que ele sempre lhe diria um elogio ainda que ela não merecesse. E sorrindo ela saiu para o trabalho. E ainda sorridente olhou-se no espelho na hora do almoço. Havia esquecido seu caderno em casa – Abriu o editor de textos e escreveu sobre o amanhecer e a ansiedade que a consumia ao se lembrar que dentro de algumas horas iria encontrá-lo. Não sabia o motivo da ansiedade, mas sabia que havia um excesso de trabalho para terminar. Fechou o caderno e disse até logo para a menina do espelho – percebeu que seus olhos brilhavam em mistérios e sorriu, prometendo a si mesma que tentaria conhecer melhor os segredos por trás daquele olhar que refletia sua própria imagem.

(04-10-2017)

Um conto sobre a personagem que ela trazia na alma e não conhecia

Então ele estava ali, bem na porta do auditório. E como estava sexy com aquela camiseta de manga longa escura que contrastava com a pele clara. Olhou-o por meio segundo antes de conseguir se mover e abraçá-lo encostando seus corpos duas peças de um quebra cabeça que se encaixam perfeitamente bem. Ela tentava parecer uma lagoa tranquila, mas por dentro sentia-se como o mar em dia de tempestade. Conduziu-o até uma cadeira vazia, de onde pudesse ver o palco. De repente já não sabia se buscava segurar as mãos dele ou se mantinha as suas ocupadas – Estava ligeiramente trêmula quando se dirigiu ao palco. Era difícil se concentrar na música com aqueles olhos fixos nos olhos dela. Ela se sentia assustada diante da amplitude de seus sentimentos por ele e, ao mesmo tempo, lembrava-se de uma conversa onde ele havia dito que poderiam se relacionar como um jogo de RPG – explorariam seus desejos como se fossem personagens com hora e lugar para se encontrarem, sem que eventuais sentimentos viessem a atrapalhar a amizade que haviam construído durante anos. E naquele momento, enquanto observada aquelas mãos que a aplaudiam entre uma canção e outra, ela desejou experimentar a experiência que ele lhe sugerira – lembrou-se de uma frase de algum romance que lera tempos atrás, algo sobre uma mulher trazer dentro de si várias mulheres que não se calam – e pela primeira vez ela se arriscou a imaginar se haveria dentro dela uma mulher obscura em mistérios e desejos proibidos, ousada o suficiente para aceitar um RPG sensual. Uma pontada de tristeza a atingiu, ela desejava que ele a olhasse como mulher por inteiro, corpo, alma e coração. Desejava que ele segurasse sua mão jurando nunca mais soltar. Ela era toda entrega e sentimento. E ela não sabia como demonstrar ou lutar para que ele a visse da mesma maneira. Olhava-o ali, tão lindo e próximo e ao mesmo tempo distante e decidiu que tentaria jogar aquele jogo que ele lhe propunha – se ele estava disposto a entregar a ela uma parte única de sua vida e mostrar-lhe um lado dela própria até então desconhecido, ela tentaria.

Naquela mesma noite ele a levava para casa enquanto ela o acariciava delicadamente com as pontas dos dedos – aqueles cabelos macios pareciam chamar suas mãos e aqueles lábio pareciam desejar um beijo – ele havia lhe dito dias atrás que a castigaria caso ela tentasse roubar-lhe um outro beijo – ela decidira tentar e, tão logo estacionaram ela puxou-o para si com todo o desejo que havia guardado nas últimas semanas – ele a correspondeu com um selinho e lhe disse que cumpria a promessa e a castigaria. Colocou-a deitada sobre suas pernas e acariciou-lhe o bumbum. As mãos quentes e o cheiro da pele dele a faziam se arrepiar e perder a respiração. Ela desejava aquele castigo tanto quanto desejara o beijo roubado. Quem era aquela personagem obscura e desconhecida que morava dentro dela? Ele deu o primeiro tapa – rápido, ágil, ardido. Avisou que seriam três. Perguntou se estava tudo bem e a voz dele parecia rouca e sensual. Ela disse que sim e ele lhe bateu novamente nas nádegas – sem marcas, apenas um tapinha carinhoso e sexy. Ela se sentia ofegante e sabia que ele daria a última palmada quando menos esperasse. Ela sentiu as mãos dele passearem, aproveitando cada pedaço de seu corpo por cima do tecido antes de desferir a próxima palmada. Ele a aninhou em seus braços e ela desejou não sair mais dali- sabia que deveria construir muros e barragens, fugir daquela necessidade de estar perto dele. Ela sabia o que deveria fazer, mas não sabia como fazer. E assim deixou que seu lado obscuro e inexplorado viesse à tona. Sentia-se uma garotinha de quinze anos se descobrindo – uma sensação que não vivera na adolescência. Uma invasão insana de desejo – como um rio que a tudo invade e arrasta. Sentia-se impura, mas não necessariamente desconfortável – era constrangedor, como se gostasse de coisas que não deveria gostar – E ao mesmo tempo, gratificante, como se naquele momento tivesse sido capaz de tirar uma personagem do papel e trazê-la para a realidade. Ela não conseguia escrever isso em construções poéticas – a pequena ninfeta que criara em sua imaginação era uma adolescente rebelde e cheia de desejos ocultos – Elas teriam que conviver daquele momento em diante e ela esperava que seu outro eu a ajudasse a construir os muros que precisava para sobreviver àquela onda de paixão que a invadira. Naquela noite, antes de fechar o caderno e ir se deitar, ela percebeu que pela primeira vez havia escrito a palavra que vinha evitando: paixão. Então, havia paixão afinal? Seu coração que havia sido destroçado pelo amor anos antes ainda era capaz de ao menos ser um jardim para as flores da paixão, afeto e afinidade? Sentia que mesmo estas seriam arrancadas e destroçadas com uma recusa de seus sentimentos caso um dia ele soubesse o que se passava, mas ainda assim, decidiu seguir em frente – Ela se calaria e deixaria que sua outra face tomasse o controle quando estivessem juntos. Sorriu e olhou uma última vez aquela foto dele de perfil no Facebook antes de dormir – naquele momento já não era mais a garotinha atrevida; voltara a ser ela mesma desejando um beijo de boa noite.

 

(14-11-2017)

Um conto de sonhos e alianças

Ela estava em casa. Lia um livro qualquer. Não estava calor nem frio. Ela estranhava o silêncio – Havia uma sensação de que alguma coisa iria acontecer… Sobressaltou-se ao ouvir batidas no portão e uma voz conhecida gritando seu nome. Correu para fora e ao abrir o portão deparou-se com ele. Ele que nos últimos dias andara lhe roubando o sono e alguns suspiros. Trazia nas mãos uma sacola do Mcdonalds “- Pegue, trouxe para você”. Seus olhos a encaravam de forma autoritária e divertida – Mas todos que a conheciam sabiam que ela havia renunciado aos alimentos derivados de animais – Por que ele lhe daria um fast-food de presente? “- Desculpe, não vou pegar – você sabe que não como”. Ele sorriu “- Você vai querer este. Apenas pegue e abra”. Ela encarou a sacola, retirou a caixa do lanche – não acreditava que estava mesmo fazendo isso! Abriu lentamente e seu coração explodiu em alegria: Presas numa fenda cuidadosamente escavada no pão estavam dois anéis de madeira, cuidadosamente entalhados. Riscada na parte interna da tampa da caixinha, a mensagem que ela jamais havia recebido antes: “Namora comigo?”. Ela pode sentir os olhos brilhando e o coração batendo forte. Sentiu o ar faltar quando eles se beijaram e o toque quente das mãos dele procurando tocar sua pele. E sentiu –se arrepiar quando ele lhe tomou as mãos e colocou nela aquela aliança – dava para sentir também suas mãos tremendo ao colocar a aliança nas mãos dele. Sim, ela aceitava. E de repente ouviu o som de um violão ao longe – Abriu os olhos e viu-se deitada em sua cama – o despertador a acordava – nos pés da cama, sua cachorrinha a olhava inquieta e no céu os primeiros raios de sol despontavam – Fora um sonho afinal. Ela se sentia um pouco mais solitária depois daquele sonho, pois em seu íntimo tinha certeza de que jamais aconteceria algo semelhante. Seguiu seu dia oscilando entre a alegria do sonho e a melancólica realidade de seus dias. Escreveu um texto em uma folha qualquer – havia esquecido o caderno – depois ficou horas considerando se valeria a pena compartilhar com outras pessoas seu pequeno devaneio noturno. Fora uma noite curta, um sonho bom e um dia muito longo afinal!

(09-11-17)

O conto das trinta auroras

Ela abriu o caderno com a sensação de quem reencontra um velho amigo. Releu os últimos textos – A maioria sobre filmes, livros, ideias para textos futuros, projetos de escrita. Há tempos não escrevia sobre ele – o que não significava que não pensasse todos os dias naqueles olhos que lhe tiravam o ar e a lançavam num espaço infinito de incertezas e desejos intensos. Ela ainda não ousara escrever-lhe poesias ou cartas, como se o fato de usar a primeira pessoa fosse tornar ainda mais real os sentimentos e lembranças que ela lutava para manter na seara dos sonhos bons, dos devaneios impossíveis – era uma falsa segurança – Aos poucos percebia que manter um afastamento de sua própria história, escrever como uma terceira pessoa observadora dos fatos, nada disso deixava seus sentimentos e desejos menos reais. Trinta auroras o mundo havia  presenciado desde a noite do beijo-mergulho, e ainda assim, parecia que havia acabado de acontecer, como se passando os dedos sobre os lábios ainda conseguisse sentir a umidade suave que a boca dele deixara ao corresponder àquele tímido beijo roubado – as lembranças tornavam-se sensações quase reais. Em algumas noites acordou sentindo o coração acelerado e um revoar de borboletas no estômago. Em alguns finais de tarde, desejara poder simplesmente deitar em seus braços na areia da praia olhando o Sol se recolher. Sabia que quase não havia possibilidade de formarem este tipo de casal – O coração já apertava ao pensar nisso, mas não chegava a doer, já estava mesmo acostumada a não despertar o tipo de interesse  romântico no sexo oposto – Talvez não fosse bela ou interessante suficiente, muito embora, no fundo sentisse que na verdade, entregava-se tão profundamente que, oferecendo plena confiança e compreensão, sua beleza (se é que a tinha), acabava tornando-se um item menos importante, meio apagado diante de alguém que oferecia uma amizade leal e intensa – tão rara entre homens e mulheres nos dias de hoje. Ela acreditava que relacionamentos deveriam pautar-se primeiramente em uma amizade verdadeira – mas sabia que era uma visão pouco comum. Sabia também que ele lhe devotava a mesma amizade leal, pura e verdadeira – e isso já a fazia feliz. Sentia também que havia uma atração forte entre eles, talvez a chance de uma amizade colorida – E, olhando no espelho, ela se perguntava se conseguiria seguir este caminho ou se continuaria lutando contra o mar, tentando erguer muros e limitando seus sentimentos por ele aos de um amigo, reprimindo os desejos que lhe afloravam a mente, relegando-os as linhas de seu caderno e aos sonhos incontroláveis que lhe invadiam a noite. E com essa grande interrogação, terminou de escrever e guardou o caderno – Era hora de dormir. Que a noite lhe trouxesse mais sonhos bons e a aurora lhe inspirasse a viver nova experiências.

(04-11-17)