Ônibus, resistência e desistência. (BEDA 05)

Tem dias que a gente nem deveria sair da cama. Mas acaba saindo, pelo bem do salário no final do mês.

Quatro e meia da manhã o cheiro de café já se espalha pela casa. Me arrasto para o ponto de ônibus tão cedo que o Sol nem deu as caras ainda. Quem me conhece bem sabe que eu tenho uma séria relação de terror e ódio com o transporte público – Mesmo sem pandemia, a ideia de entrar numa lata de sardinha respirando o mesmo ar que sei lá quantas pessoas me parece nojenta. Sem falar no contato físico indesejado: Um braço que encosta aqui, corpos que colidem nas curvas e declives da cidade. Agora, tornou-se uma experiência ainda pior – A ponto de eu ter caminhado quinze quilômetros voltando do trabalho para casa só pra não pegar ônibus.

Eis que um dia desses entro no ônibus e me deparo com um lugar vago bem atrás de duas mulheres – Uma trazendo no colo uma criança semi-adormecida. Segue-se o diálogo das duas:

“Você tem sorte da tua menina estudar em Santos. Lá as aulas já voltaram né?”

“Já. Nossa, estava impossível ficar com ela em casa”

“É, aqui em São Vicente deviam voltar também, deixar as crianças sem escola por conta de uma gripezinha”

“Absurdo né? Eu mando mesmo a minha pra escola. Se pegar e morrer é da vontade de Deus”

“Sim. E a gente ainda é jovem. Morreu, a gente faz outro”.

A conversa seguiu nesse nível.

Nesses momentos eu penso na vida e tenho vontade de esquecer aquela frase “Serei resistência”.

Resistência? Para garantir um país melhor? Pra tanta gente estúpida e sem noção? Pra garantir um futuro pros filhos de pessoas que votaram no atual presidente? Afinal, qualquer mudança resultante da luta de hoje possívelmente só será vista pelas próximas gerações.

Em semanas como esta que passou, não tenho a mínima vontade de ser resistência. Acho que vou mudar a frase: Se é pra garantir o futuro de gente estúpida, serei desistência.

Quanto ao meu futuro? Bom, eu que não lute pra ver…

Usem máscara (dupla de preferência), lavem as mãos e dentro do possível, fiquem longe de aglomerações. Afinal, de negacionista e bolsoafetivo babaca, o país está cheio.

Este post faz parte do BEDA (Blog Every Day August). Acompanhe também os posts de: Lunna, ClaudiaAdrianaObdulioMariana Roseli.