Sobre personagens e cajuzinhos

O cursor pisca na tela como um ponto de interrogação: Decifra-me ou te devoro. A história a ser contada pulsa no mundo das ideias, mas não encontra as palavras corretas para registrar-se no papel. Tudo parece desconjuntado, sem graça, atropelado. Um sem fim de digita-apaga. Posso imaginar a personagem me observando com olhar reprovador, ávida para continuar a cena-vida, indo e voltando para o mesmo lugar até as palavras se encaixarem numa cadência perfeita. Vida de personagem não deve ser fácil, sempre dependente do que a autora planeja. Quando a autora não consegue traçar palavras para delimitar os próximos passos, a personagem fica presa na última posição escrita – No caso, sentada no sofá, numa kitnet quente, com a blusa amarrada ligeiramente acima do umbigo. O olhar inquiridor acompanhando meus movimentos enquanto bato amendoim e passas no liquidificador para fazer um cajuzinho vegano e sem açúcar, receita da Vivi (@sosvegan). Docinhos são mimos que me permito em qualquer tempo – me recuso a deixar de lado o prazer de uma guloseima diária. Assim como a personagem que por ora ocupa meus dias, tenho essa relação especial com a cozinha: Um abrigo para o cansaço, uma estufa para o plantio de sonhos. Minha rotina passa por fogão, panelas e pratos. Só assim é possível engolir a dose diária de notícias ruins sem perder totalmente a esperança. Desisto de escrever, hora de fazer uma boa prática de yoga – O corpo merece atenção, principalmente nestes tempos de isolamento. Depois da prática, do banho e do jantar, voltarei a encarar a tela e o olhar da personagem…

Receita do cajuzinho vegan

1 e ½ xícara de amendoim torrado e sem pele

1 e ¼ xícara de uvas passas

2 colheres (sopa) de cacau em pó

2 colheres (sopa) de água.

Bata no liquidificador o amendoim e as passas até formar uma massa. Adicione o cacau em pó e continue batendo, acrescentando a água. Depois é só moldar os docinhos.

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Aos domingos… (BEDA 04)

Aos domingos, geralmente em algum momento após o almoço, costumo descansar pensando na semana que se acabou – Lembro as notícias, os fatos e invariavelmente repenso planos pessoais que mudam, afetados pelas ações maldosas dos que ocupam o poder em nosso país. Não tem sido fácil para mim e com certeza não está fácil para qualquer pessoa dotada de uma quantidade mínima de bom senso. Dessa forma, escrever aos domingos é mais do que expor minha visão do país. Escrever aos domingos é meu combinado pessoal de equilíbrio, uma escapatória que me impede de ter ainda mais raiva e desprezo pela torpeza humana. De segunda a sábado, vivo-escrevo a arte, a poesia e tudo que pode vir a tornar o mundo melhor. Aos domingos relato as portas fechadas, a decadência e o horror, são textos-gritos de alerta para quem quiser ouvir e pensar: Caramba! Ainda podemos mudar isso.

            Em datas como hoje, domingo de Páscoa, é estranho escrever textos assim, pesados. Porém não é preciso pesquisar muito para perceber que para a maioria hoje é apenas mais um dia – Sem ovos, chocolates, comemorações. Especialmente durante esses tempos de luto coletivo, com mais de 300 mil mortos. Não tem como escrever algo leve e fofo. Tentarei ao menos ser breve.

            Uma coisa intrigante é o espaço que a religião ocupa na sociedade – Cada um utiliza suas horas livres como bem entende e, se deseja manter uma prática religiosa, isso é uma escolha individual perfeitamente respeitável, desde que não coloque a saúde e a vida de outros em risco. Agora, considerando as proporções que a pandemia tomou no país, não parece razoável liberar a realização de cultos e missas presenciais, como fez um ministro do STF em decisão individual. Alguns podem dizer “vai quem quer”, porém não é bem assim. Infelizmente não morrem apenas os fieis que, cegos pelas falácias de falsos profetas, se aventuram a freqüentar essas atividades. Essas pessoas passam a doença para familiares, ou para desconhecidos no transporte público ou no comércio. Essas pessoas que se contaminaram na desnecessária atividade religiosa grupal podem vir a ocupar o leito de UTI que salvaria a vida de alguém que contraiu a doença trabalhando, talvez até mesmo um profissional de saúde. Que espécies de religiosos são esses que dizem pregar o amor espalhando a morte? Talvez seja importante avisar aos pastores que os mortos não pagam dízimos.

            Outra coisa bizarra: Após reclamações e postagens críticas nas redes sociais, a Lacta mudou o nome de um de seus bombons: O produto originalmente chamado “feitiçaria” acabou trocando de nome e agora é Lacta Morango. Consta que a maioria das reclamações partiu de grupos evangélicos (inclusive cheguei a receber no meu WhatsApp pessoal uma enorme mensagem sobre o assunto, ligando o bombom a práticas “malignas”). Quando a gente pensa que já viu tudo… Pelo menos a mudança de nome do bombom não coloca a vida de ninguém em risco. É uma situação ridícula e insensata, mas ninguém irá morrer por isso.

            Fique em casa até o coelho de páscoa trazer um ovo especial com uma surpresa muito esperada: A vacina. Enquanto isso: comprem chocolate de artesãos, leiam um bom livro, usem máscara e, se puderem, doem um ovo para alguma criança que não teve condições de ganhar um. Feliz Páscoa.         

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Dica literária: Cartas de amor de Paris [BEDA 03]

Você já leu uma história de amor super clichê, que envolve o reencontro de um casal depois de uma vida toda? Cartas de amor de Paris poderia ser um romance clichê água com açúcar, não fosse por um detalhe: Não é uma narrativa ficcional e sim o relato da história vivida por Samantha Vérant.

            Em 1989 em uma viagem pela Europa, Samantha conhece o homem dos seus sonhos, Jean-Luc. O romance de apenas um dia termina quando ela parte para o próximo destino do itinerário, despedindo-se dele em uma plataforma de trem. Apesar de estar apaixonada por Jean, Samantha ignora todas as cartas de amor que o rapaz insiste em enviar desaparecendo da vida dele.

            Vinte anos depois, dividindo a cama com o cachorro e prestes a se divorciar, Samantha se questiona: Onde tudo começou a dar errado?

            A narrativa é leve, fluída e divertida – Especialmente se levarmos em consideração o número de coisas pornográficas que podem ser pedidas por engano em francês quando tudo o que se quer é pedir um canudo ou dizer que está aguardando o mês de Julho. Enquanto Samantha nos conta o reencontro com o amor, descortina-se nas entrelinhas a importância das verdadeiras amizades, do apoio familiar e da coragem para enfrentar novos desafios quando tudo parece determinado ao fracasso.

            E você? Responderia uma carta de amor com vinte anos de atraso?


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Dica literária: Equação Infinda. [BEDA 2]

Três mulheres, três diferentes momentos históricos: 1931, 1958 e 1983. Em comum, os sonhos da juventude e a realidade imposta como uma prisão pela família e pela sociedade. Não é fácil ser mulher. Ser mulher e ser livre é ainda mais difícil, mas o que fazer se a alma feminina é um oceano inteiro?  Navegar. Esse é o convite que Roseli Pedroso nos entrega em Equação Infinda: Navegar pelas águas de Carminha, Lígia e Verônica.  Vidas contadas em quatro capítulos nomeados pelas estações do ano. Relatos de esperança, sofrimento e sede de liberdade – água historicamente negada às mulheres.

O livro é curtinho e pode ser lido de um só fôlego. Os ecos das vozes dessas mulheres ficam na memória por tempo indeterminado.

Para além do prazer de ler, há o prazer de tocar o livro, sentir a texturas das páginas firmes entre os dedos, tocar a fita utilizada na costura artesanal das páginas. Apreciar o objeto livro com o tato, com os olhos e com o olfato antes de abrir e iniciar a leitura é um tira gosto que antecede a leitura, prepara a alma e proporciona um enorme prazer.

Lembrando que a editora Scenarium está com inscrições abertas para o Clube do Livro!

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Que teus beijos sejam açoite (BEDA 01)

Que teus beijos sejam açoite
A ferir meus lábios rosados
Que nossos dias sejam noite
Nossos corpos, desertos cálidos

Que nosso prazer seja tempestade
Nosso amor, longa jornada
Que tu sejas a fonte donde volto saciada
Quando tu me amas com intensidade

Que sobrevenha então a calmaria
Que o ímpeto seja substituído pela ternura
Que a noite torne-se aurora
E sob o Sol nascente adormeçamos envoltos em magia.

2/06/10






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Hoje é dia de #tbt e é o primeiro dia do BEDA (Blog Every Day April), para unir as duas coisas trouxe para vocês uma das minhas poesias antigas... Lá se vão onze anos! Espero que gostem! 

Participam do BEDA

Adriana Aneli  -  Ale Helga - Claudia - Lunna Guedes - Mariana Gouveia - Obdulio -

Roseli Pedroso  

Abraços!