A metamorfose

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante de seus olhos”. O parágrafo transcrito é o ponto de partida de “A metamorfose”, um dos romances mais conhecidos de Franz Kafka, um jovem judeu nascido em Praga que adotou o alemão como seu idioma.

Kafka descreve o horror da situação com uma naturalidade assustadora: A reação da família e do próprio Gregor pode ser resumida em um grande susto, seguido pelas providências necessárias para re-arranjar a rotina de forma prática e objetiva: A quem compete cuidar do monstro no quarto? Onde conseguir dinheiro? O transformar-se em um inseto, neste contexto, parece uma tragédia relativamente comum, apenas mais um percalço qualquer que poderia ter acontecido com qualquer família e ocorreu com a família Samsa. Não há tentativas de entender o motivo da situação ou buscas desesperadas por uma cura, nem mesmo há uma tentativa de integrar a existência de Gregor ao restante da família, ao contrário, Kafka descreve o apagar gradual da importância daquele homem que, ao ser transmutado em inseto, torna-se apenas um peso para a família.

Em que pese ser uma leitura bastante simples, A metamorfose pode ser considerado um questionamento acerca do valor da vida humana dentro do sistema social – Gregor é visto como humano enquanto é capaz de produzir. Perdida essa capacidade, perde-se a humanidade também. Há também estudos que apontam “A metamorfose” como um texto literário voltado aos direitos humanos: Gregor perdeu sua humanidade a partir do momento em que viu-se transformado em uma asqueroso inseto? Ou a vida desapaixonada que levava – descrita numa tediosa toada casa-trabalho-casa – já havia lhe sugado a humanidade e o acordar transformado em inseto foi apenas o resultado disso? E o final da personagem? Seria a solução natural, ou seria a forma de escapar da desumanização completa, de recusar uma não-vida?

É importante que ao ler uma obra deste calibre, busque-se um aporte teórico em artigos – No caso de “A metamormofose”, encontra-se artigos em várias áreas do conhecimento humano: Psicologia, literatura, filosofia e direito estudaram a novela e a vida do autor, permitindo a partir disso traçar teorias sobre os significados implícitos das personagens. Ler Kafka sem este apoio é plenamente possível, mas tornaria a leitura apenas mais uma distração angustiante ao passo que ao ler e buscar aporte teórico amplia-se o horizonte de visão, permitindo um desenvolvimento do pensamento crítico e atingindo-se um patamar mais alto de aproveitamento da leitura, por isso deixo ao final do texto uma breve bibliografia com textos e vídeos que encontrei e achei pertinentes.

Bibliografia:

CARONE, Modesto. O parasita da família: sobre “A Metamorfose” de Kafka. Psicol. USP,  São Paulo ,  v. 3, n. 1-2, p. 131-141,   1992 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-51771992000100013&lng=pt&nrm=iso&gt;. acessos em  26  out.  2020.

Castro, Alexandre de Carvalho e Leão, Luís Henrique da CostaA metamorfose e o campo da saúde mental de trabalhadores: uma análise bakthiniana. Ciência & Saúde Coletiva [online]. v. 25, n. 9 [Acessado 26 Outubro 2020] , pp. 3615-3624. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1413-81232020259.28652018&gt;. ISSN 1678-4561. https://doi.org/10.1590/1413-81232020259.28652018.

GRUBBA. Leilane Serratine. OLIVO. Mikhail Vieira Cancelier de. Kafka. A Metamorfose para os direitos humanos. Revista Direito e Práxis, vol.3, num. 2, 2011,PP 103-121, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. Disponível em:

KOSIK. Karel. O século de Grete Samsa. Sobre a possibilidade e a impossibilidade do trágico no nosso tempo. Tradução de Leandro Konder. Publicado na revista do programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, Rio de Janeiro, Brasil Edição nº 8, Março de 1996. Disponível em: