Memórias da infância: O xadrez

Lembro de observar o tabuleiro colocado no centro da roda. Para mim, era um momento de curiosidade e expectativa. Não lembro se estava calor ou frio, nem se estávamos no início ou no final do ano. Apenas esperava meu irreverente professor de educação física terminar a chamada e começar a aula. Eu não gostava nem um pouco de Educação Física, era uma criança chatinha, achava uma imbecilidade sem tamanho correr batendo uma bola no chão para depois arremessar na cesta, me entediava correr, pular, disputar – Exceções eram o futebol, que o professor se negava a ensinar nas aulas (e mesmo que ele ensinasse, eu era uma grande perna-de-pau) e a dança que vez ou outra ensaiávamos para apresentar em algum evento escolar – Na época, estava na moda o axé do “é o tchan” e o funk começava a despontar como preferência com o Bonde do Tigrão, e a direção da escola fazia vistas grossas (ou devo dizer, ouvidos grossos) para as letras completamente inapropriadas. Quando disse que meu professor era irreverente, não exagerei – Aliás, suspeito que hoje em dia ele seria considerado inapropriado pela maioria das pessoas que se dedicam a trabalhar com a educação – Mas na época, não sei como ou por qual motivo, tudo parecia normal. E assim começou minha primeira aula de xadrez, com o professor segurando as torres e dizendo que elas deveriam ficar nas pontas, pois são altas e deixam ter visão de tudo. Ao lado, os cavalos – Que “cagam” fedido e não devem ficar perto do rei e da rainha – sim, meu professor utilizava estes termos e nós, bom, ríamos. Em seguida ele mostrou o bispo e perguntou: O que o bispo não faz? Duas respostas ecoaram: Pecar e filho. O professor, bonachão, respondeu: Vocês que pensam! O bispo, ele não reclama, não trabalha e mete o bedelho na vida do rei, por isso ele fica do lado do cavalo, pra não reclamar do cheiro de estrume, e ao lado do rei e da rainha, para aconselhar e fofocar. Depois disso, ensinei minha mãe a jogar e por muitos anos se tornou uma atividade rotineira de lazer – Assim como os livros, as questões de matemática, o truco e o buraco. Com o passar dos anos e os compromissos naturais da vida – Como trabalhar de dia e estudar durante a noite – o hábito acabou se perdendo embora eu ainda tenha aqui em casa um mini jogo de xadrez. Quem sabe não retomo esse hábito na quarentena?

7 comentários sobre “Memórias da infância: O xadrez

  1. Patricia Monteiro disse:

    Confesso que achei divertido o método do professor, apesar de nada ortodoxo. As lembranças de infância marcam demais, são as que carregamos com carinho pelo resto da vida. Ah, acho o máximo xadrez, gostaria de saber jogar.

    Curtido por 1 pessoa

    • Darlene R. disse:

      Nossa! Quando eu penso na minha formação escolar nos anos 90/início da primeira década dos anos 2000, eu vejo que os adultos da época eram um tanto sem noção haha Esse professor mesmo tem cada história que olha, difícil

      Curtir

  2. Leitura Enigmática disse:

    Essa forma lúdica que seu professor ensina é perfeito para as crianças aprenderem esse jogo que não é nada fácil. Gosto demais de jogar xadrez e olha, custei para aprender.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Juliana Sales disse:

    Eu sempre quis aprender a jogar xadrez mas nunca aprendi, provavelmente por minha própria culpa em não me dedicar a isso. Talvez,se tivesse tido alguém para me ensinar como o seu professor, teria aprendido. Quando criança também não gostava de educação física, especialmente pelo fato de não ter habilidade para jogar nada além de queimada! Mas se eu não tinha um professor legal para me ensinar xadrez, ao menos eu podia ficar na biblioteca durante essas aulas e desde pequena descobrir o quanto ler me fascinava.
    Mas falando em lembranças de infância, lembro de muito com a minha mãe algum jogo de baralho (acho até que inventado por ela) e dominó. Boas lembranças!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Lunna Guedes disse:

    Nossa, eu viajei. Me lembrei do tempo em que jogava xadrez na voltada escola. Os signores do Bairro (aposentados) se reuniam para os jogos na praça. Havia o grupo de xadrez e o de cartas. Aprendi a jogar buraco, mas não era o meu preferido. Gostava mesmo era de observar as peças dispostas no tabuleiro. Acompanhar os movimentos e me lembro que um dia, ao ver o movimento precipitado de um deles, eu lamentei e fui notada. O homem certo de sua jogada, quis saber o que eu tinha visto e eu falei. O outro agiu e disse: xeque. Eu levantei os ombros e ele me desafiou a reverter a situação. Observei o tabuleiro e sai da situação de Xeque, movendo o rei. Depois daquele dia, virei jogadora convidada e passava horas com os meus “amigos da praça” que, mudavam o linguajar quando eu estava por lá. ai ai ai
    Bons tempos, grazie pela viagem… agora vou ao café!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s